Uma despedida regada de emoções – Paulo – O Líder Cristão

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Uma despedida regada de emoções – Paulo – O Líder Cristão

Depois de três anos de frutífero ministério em Éfeso, a capital da Ásia Menor, onde Paulo enfrentou lutas maiores do que suas forças e teve de travar encardida luta com feras humanas e demoníacas, resolve fazer uma viagem a Jerusalém para levar as ofertas recolhidas entre as igrejas da Macedônia, Acaia e Ásia Menor para os pobres da Judeia. Antes de direcionar seu ministério aos gentios, conforme propósito divino, Paulo assumiu um compromisso com os líderes da igreja de Jerusalém de que não se esqueceria dos pobres (Gl 2.10). Em cumprimento a essa promessa, esse bandeirante da fé ruma para Jerusalém com essas generosas ofertas, mesmo sabendo que à frente encontraria tribulação e cadeias.

Antes de partir para a sua última visita a Jerusalém, onde fora criado aos pés de Gamaliel, chamou os presbíteros de Éfeso para se encontrarem com ele no porto de Mileto. Ali, sob a abóbada celeste, tangidos pela brisa do mar, o veterano apóstolo, num clima regado de profunda emoção, dá suas últimas instruções aos líderes da igreja de Éfeso, a quem ele mesmo havia levado a Cristo e exortado diariamente com lágrimas. Após essas palavras de despedida, eles se ajoelham na praia e oram com Paulo, abraçando-o e beijando-o afetuosamente.

Nesse exponencial sermão, Paulo fala sobre sete compromissos que assumiu: Vamos, aqui, examiná-los mais detidamente:

Em primeiro lugar, o compromisso de Paulo com Deus (At 20.19). O primeiro compromisso de Paulo não é com a obra de Deus, mas com o Deus da obra. Relacionamento com Deus precede trabalho para Deus. O primeiro chamado de Paulo é para andar com Deus e, como resultado dessa caminhada, fazer a obra de Deus. Ele serve a Deus ministrando aos homens. Quem serve a Deus não busca projeção pessoal. Quem serve a Deus não anda atrás de aplausos e condecorações. Quem serve a Deus não depende de elogios nem desanima com as críticas. Quem serve a Deus não teme ameaças nem se intimida diante de perseguições. Quem teme a Deus não teme os homens, nem o mundo, nem mesmo o diabo. O líder espiritual deve servir a Deus com senso de profunda humildade. Muitos batem no peito, arrogantemente, dizendo que são servos de Deus. Outros, besuntados de orgulho, fazem propaganda de seu próprio trabalho. Outros, ainda, servem a Deus, mas gostam dos holofotes. Há aqueles que fazem do serviço a Deus um palco onde se apresentam como os atores ilustres sob as luzes da ribalta. Um servo não busca glória para si mesmo. Fazer a obra de Deus sem humildade é construir um monumento para si mesmo. É levantar outra modalidade da torre de Babel. Mas o líder não deve esperar facilidades pelo fato de estar servindo a

Deus. Quem serve a Deus com humildade e integridade desperta animosidade e muita hostilidade no arraial do inimigo. Paulo servia a Deus com lágrimas. A vida ministerial não lhe foi amena. Em vez de ganhar aplausos do mundo, recebeu ameaças, açoites e prisões. Paulo manteve sua consciência pura diante de Deus e dos homens, mas os judeus tramaram ciladas contra ele. Viveu num campo minado. Enfrentou inimigos reais, porém, às vezes, ocultos. Nem sempre Deus nos poupa dos problemas. Às vezes, ele nos treina nos desertos mais tórridos e nos vales mais profundos e escuros.

Em segundo lugar, o compromisso de Paulo com ele mesmo (At 20.18,28a). O apóstolo Paulo mostra a necessidade de o líder espiritual ter um sério compromisso consigo mesmo. O líder precisa cuidar de si mesmo antes de cuidar do rebanho de Deus. A vida do líder é a vida da sua liderança. Há muitos obreiros cansados da obra e na obra porque procuraram cuidar dos outros sem cuidar de si mesmos. Antes de liderar os outros, precisamos liderar a nós mesmos. Antes de exortar os outros, precisamos exortar a nós mesmos. Antes de confrontarmos os pecados dos outros, precisamos confrontar os nossos próprios pecados. O líder não pode ser um homem inconsistente. O líder espiritual também precisa cuidar de si mesmo para não praticar o que condena. A posição de liderança não é uma apólice de seguro contra o fracasso espiritual. O líder espiritual ainda precisa cuidar de si mesmo para não cair em descrédito. A integridade do líder é o fundamento sobre o qual ele constrói seu trabalho. Sem vida íntegra, não existe liderança eficaz.

Em terceiro lugar, o compromisso de Paulo com a Palavra de Deus (At 20.20-27). Paulo anunciou todo o conselho de Deus (At 20.27). O líder espiritual precisa ensinar só a Bíblia e toda a Bíblia. Ele não pode aproximar-se das Escrituras com seletividade. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino e a correção. A única maneira de o líder espiritual cumprir esse desiderato é pregar a Palavra expositivamente. Não pregar suas próprias ideias, mas a Palavra. Não entregar a sua mensagem, mas a de Deus. A mensagem deve emanar das Escrituras. Deus não tem nenhum compromisso com a palavra do pregador, mas apenas com a sua Palavra. Paulo pregou para a salvação (At 20.21). Ele pregou arrependimento e fé. Ele também ensinou com fidelidade a Palavra (At 20.20). Paulo não apenas evangelizava; ele também ensinava. Ele não apenas gerava filhos espirituais, mas também os nutria com o alimento. O líder é um discipulador. Ele deve mentorear seus discípulos. O líder espiritual é um mestre. A ele cabe o privilégio de ensinar as verdades benditas do evangelho ao povo de Deus. O líder espiritual tem alegria de ensinar tanto as multidões como os pequenos grupos (At 20.20). Paulo ensinava de casa em casa e também publicamente. Há líderes que são loucos pelo glamour da multidão, mas não se entusiasmam em falar para pequenos grupos. Há pregadores que só pregam para grandes auditórios. Sentem-se importantes demais para pregar numa pequena congregação ou numa reunião de grupo familiar. Esses indivíduos pensam que são mais importantes do que o apóstolo Paulo. O apóstolo pregava de casa em casa. Jesus pregou seus mais esplêndidos sermões para uma única pessoa. Quem não se dispõe a pregar para um pequeno grupo não está credenciado a pregar para um grande auditório. Nossa motivação não deve estar nas pessoas, mas em Deus.

Em quarto lugar, o compromisso de Paulo com os valores do ministério (At 20.24). O apóstolo

sintetiza o seu ministério em três verdades sublimes. Ele diz aos presbíteros de Éfeso: “Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (At 20.24). Paulo fala sobre três verdades: vocação, abnegação e paixão. Paulo diz que recebeu seu ministério do Senhor Jesus. Ele não se lançou no ministério por conta própria. Ele foi chamado, vocacionado e separado para esse trabalho. Paulo não se tornou um pastor porque buscava vantagens pessoais. Não entrou para as lides ministeriais buscando segurança, emprego ou lucro financeiro. Não entrou no ministério com motivações erradas. Paulo não tinha apenas convicção de sua vocação, mas também consciência das implicações desse chamado. Era imperativo exercer uma boa dose de abnegação. Paulo diz que não considerava a vida preciosa para ele mesmo desde que cumprisse o seu ministério. O coração de Paulo não estava nas vantagens auferidas do ministério. Ele não estava no ministério cobiçando prata ou ouro. Não estava numa corrida desenfreada em busca de prestígio ou fama. Seu propósito não era ser aplaudido pelos homens ou ganhar prestígio entre os homens. Na verdade, ele estava pronto a trabalhar com as próprias mãos para ser pastor. Estava pronto a sofrer toda sorte de perseguição e privação para pastorear. Estava disposto a ser preso, a sofrer ataques externos e temores internos para pastorear a igreja de Deus. Estava pronto a dar a própria vida para cumprir cabalmente seu ministério. Finalmente, Paulo diz que no seu coração ardia uma grande paixão. A grande paixão de Paulo era testemunhar o evangelho da graça de Deus. A pregação enchia o peito do velho apóstolo de entusiasmo. Ele sabia que o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo que crê. Sabia que a justiça de Deus se revela no evangelho. Sabia que a mensagem do evangelho de Cristo é a única porta aberta por Deus para a salvação do pecador. Paulo se considerava um arauto, um embaixador, um evangelista, um pregador, um ministro da reconciliação. Sua mente estava totalmente voltada para a pregação. Seu tempo era todo dedicado à pregação. Mesmo quando estava preso, entendia que a Palavra não estava algemada.

Em quinto lugar, o compromisso de Paulo com a igreja de Deus (At 20.28-32). Assim como Paulo se gastou no evangelho para cuidar da igreja de Deus, o líder espiritual deve cuidar de todo o rebanho, e não apenas das ovelhas mais dóceis (At 20.28). Há ovelhas dóceis e ovelhas indóceis. Há ovelhas que obedecem ao comando do pastor e ovelhas que se rebelam e fogem de sob o cajado do pastor. Há ovelhas que escoiceiam o pastor e aquelas que são o deleite do pastor. Há um grande perigo de o pastor cuidar apenas das ovelhas amáveis e deixar de lado as outras. A ordem divina é que o pastor deve cuidar de todo o rebanho, e não apenas de parte dele. O líder precisa saber que ele não é o dono do rebanho, mas servo dele (At 20.28). A igreja é de Deus, e não do líder. Jesus é o único dono da igreja. O Senhor nunca nos deu uma procuração para nos apossarmos da sua igreja. Na igreja de Deus, não existem chefes, caudilhos e donos. Na igreja, todos nós somos nivelados no mesmo patamar, somos servos. Aqueles que se arvoram em donos da igreja e tratam-na como uma empresa particular, buscando abastecer-se das ovelhas em vez de servi-lhes e pastoreálas, estão em aberta oposição ao propósito divino. Todo líder precisa ter também um claro entendimento do valor da igreja aos olhos de Deus (At 20.28). A igreja é a noiva do Cordeiro, a menina dos olhos de Deus. Ele a comprou com o sangue de Jesus. Tocar na igreja de Deus é ferir a noiva do Cordeiro.

Deus tem zelo pelo seu povo. Perseguir a igreja é perseguir o próprio Senhor da igreja. Finalmente, o líder precisa proteger o rebanho de Deus dos ataques externos e internos (At 20.29,30). Paulo diz que existem lobos do lado de fora buscando uma oportunidade para entrar no meio do rebanho e devorar as ovelhas, e lobos travestidos de ovelhas dentro do rebanho buscando uma oportunidade para arrebatar as ovelhas. O pastor deve ser o guardião e o protetor do rebanho. Como Davi, ele precisa declarar guerra aos ursos e leões, protegendo o rebanho de seus dentes assassinos. Há muitos falsos mestres, com suas perniciosas heresias, tentando entrar na igreja. O perigo, porém, não vem apenas de fora, mas também de dentro. Há aqueles que se levantam no meio da igreja declarando coisas perniciosas e arrastando após si as ovelhas. Há falsos mestres enrustidos que buscam uma ocasião para se manifestar e provocar um estrago no arraial de Deus. O líder espiritual precisa ser zeloso no ensino, não dando guarida nem oportunidade aos oportunistas que se infiltram no meio da igreja para disseminar suas heresias.

Em sexto lugar, o compromisso de Paulo com a honestidade financeira (At 20.33-35). Paulo não era amante do dinheiro. O líder espiritual não pode ser possuído pelo dinheiro. O dinheiro não pode ser seu patrão. Aqueles que se curvam diante de Mamom jamais se levantarão de forma íntegra na presença dos homens. Aqueles que amam o lucro jamais servirão ao rebanho, mas se abastecerão dele. O líder espiritual é aquele que trabalha na obra de Deus não para auferir lucro, mas com abnegação, apesar do sacrifício pessoal. A regra áurea da economia do reino de Deus é que é mais bem-aventurado dar do que receber. O líder é alguém que faz a obra de Deus sem ser motivado pelo dinheiro (At 20.33). Paulo não foi a Éfeso para cobiçar prata ou ouro das pessoas, mas para levar a elas as riquezas espirituais. O dinheiro jamais foi o vetor do ministério de Paulo. Ele diz que não cobiçou dinheiro nem vestes. Sua alegria no ministério não era receber benefícios da igreja, mas dar sua vida pela igreja. O líder espiritual é alguém que se dedica à obra mesmo quando lhe falta o dinheiro (At 20.34). Paulo trabalhou com suas próprias mãos para continuar o ministério. Ele não abandonou o ministério para trabalhar na fabricação de tendas nem jamais se empolgou com a fabricação de tendas a ponto de diminuir seu entusiasmo com o ministério. Quando as igrejas lhe pagavam o que lhe era devido, Paulo concentrava-se integralmente no ministério, mas, se as igrejas sonegavam seu salário, ele continuava exercendo o ministério, ainda que precisasse trabalhar para isso. O líder espiritual é alguém que entende que mais feliz é aquele que dá dinheiro do que quem recebe dinheiro (At 20.35). Paulo cita uma expressão de Jesus: “… Mais bem-aventurado é dar que receber”. A visão do líder espiritual não deve ser a de um homem egoísta e avarento. Ele precisa ser um homem de coração generoso, mãos dadivosas e bolso aberto.

Em sétimo lugar, o compromisso de Paulo com a afetividade (At 20.36-38). Os presbíteros de Éfeso e Paulo se abraçaram, beijaram-se e choraram num lugar público. Paulo havia passado três anos em Éfeso, e esse tempo foi suficiente para eles formarem fortes elos de amizade. Agora, eles demonstram a intensidade desse afeto nessa despedida. Nós somos seres afetivos (At 20.37). O amor precisa ser verbalizado e demonstrado. Nossas emoções precisam refletir nosso amor. Os presbíteros de Éfeso abraçaram e beijaram Paulo numa praia, um lugar público. Eles não negaram, não camuflaram nem esconderam suas emoções. A mídia empapuçada de violência está minando as

nossas emoções. Estamos ficando secos como um deserto. Não conseguimos mais chorar nem expressar emoções. Uma senhora da igreja, depois do culto, disse-me entre lágrimas: “Pastor, eu valorizo muito o seu abraço na porta da igreja, porque é o único abraço que eu recebo na semana”. Há momentos em que a maior necessidade de uma pessoa na igreja não é de ouvir o coral, mas de receber um abraço de um irmão. Nós precisamos demonstrar nosso afeto pelas pessoas que amamos (At 20.37). Há muitos líderes que não conseguem expressar seus sentimentos nem verbalizar seu amor pelos seus liderados. Precisamos aprender a declarar o nosso amor pelas pessoas. Precisamos aprender a valorizar as pessoas enquanto elas estão conosco. Precisamos demonstrar nosso apreço por elas enquanto elas podem ouvir nossa voz. Nós precisamos entender a força terapêutica da afetividade (At 20.36-38). O amor é o elo de perfeição que une as pessoas. O amor é o cinturão que mantém unidas as demais peças da virtude cristã. Uma pessoa não permanece numa igreja onde ela não tem amigos. A comunhão e a evangelização são temas profundamente conectados. Onde há união entre os irmãos, ali Deus ordena sua bênção e a vida para sempre. Certa feita, uma irmã da igreja me telefonou, informando-me de que estava pretendendo transferir-se para uma igreja mais próxima de sua casa. Eu, carinhosamente, lhe disse: “O problema é que você é tão importante para a nossa igreja que não podemos abrir mão de sua presença”. Essa mulher começou a chorar ao telefone e disse: “Pastor, na verdade eu não queria ir para outra igreja. Era isso que eu precisava ouvir. Muito obrigada” e desligou o telefone. As pessoas são carentes afetivamente, e os pastores precisam compreender que o amor verbalizado e demonstrado tem um grande poder terapêutico.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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