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Uma agenda estabelecida no céu – Paulo – O Líder Cristão

Depois do concilio de Jerusalém, onde as estacas da liberdade cristã foram fincadas e o jugo do judaísmo foi sacudido, era hora de alçar voos para uma nova jornada missionária. As querelas religiosas levantadas pelos judaizantes, vindos da Judeia, impondo aos gentios a necessidade da circuncisão para a salvação, haviam sido respondidas com firmeza pelos apóstolos e presbíteros. A fé em Cristo é a única condição para a salvação. A mensagem que devia ser anunciada aos gentios é que a graça de Cristo é absolutamente suficiente para a salvação.

Lançadas as estacas da verdade, é hora de estender o toldo da obra missionária. A agenda missionária deveria contemplar os confins da terra. Novos horizontes precisavam ser alcançados.

A iniciativa da segunda viagem missionária é de Paulo (At 15.36). Seu zelo pastoral o constrange a voltar à mesma região da primeira viagem antes de alargar a tenda para outros rincões (At 15.36). A lição fica clara: os neófitos precisam ser confirmados, confortados e acompanhados. Paulo tem o cuidado de evangelizá-los no seu primeiro contato, depois os visita novamente no retorno de sua viagem rumo a Antioquia da Síria e agora, antes de iniciar a segunda viagem missionária, toma a decisão de visitá-los uma terceira vez.

Uma desavença entre os missionários

A obra de Deus é perfeita; mas os seus obreiros, não. Barnabé quer dar uma segunda chance ao jovem João Marcos, seu primo, que havia abandonado a primeira viagem missionária; e, Paulo, de forma intransigente e radical, não achou justo levá-lo depois de uma experiência fracassada. Barnabé, coerente com seu nome, cujo significado é “filho da consolação” prefere indispor-se com Paulo a desistir de João Marcos. Houve tal desavença entre Paulo e Barnabé que não puderam caminhar juntos na segunda viagem missionária.

A providência de Deus é maior do que nossos fracassos, e a graça de Deus, maior que os nossos pecados. Por causa dessa desavença, em vez de uma caravana missionária, temos duas. Os obreiros podem errar, mas os propósitos de Deus jamais podem ser frustrados. Barnabé e João Marcos avançam na direção de Chipre (At 15.39), e Paulo escolhe Silas. Encomendados pelos irmãos da Síria à graça do Senhor, passam pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas.

Mais um missionário se junta à equipe de Paulo

Quando Paulo retornou a Derbe e Listra, Timóteo, filho de pai grego e mãe judia (At 16.1), ensinado nas Escrituras desde a infância por sua mãe Eunice e sua avó Loide (2Tm 1.5; 3.14,15), mas convertido a Cristo pelo ministério de Paulo (1Tm 1.2), agrega-se à caravana missionária. Timóteo vem a se tornar um dos maiores colaboradores de Paulo no ministério. Timóteo recebeu o leite da piedade desde sua infância. Cresceu sob a égide da Palavra de Deus. Por meio de seu contato com o apóstolo Paulo, em sua primeira viagem missionária, demonstrou um crescimento notável, uma vez que, tendo se convertido, logo demonstrou maturidade espiritual, pois dele davam bom testemunho tanto os irmãos de Listra como os de Icônio (At 16.2). Seu caráter provado era uma hipoteca moral de seu trabalho. Quando Paulo escreveu aos filipenses, disse que não tinha ninguém igual a Timóteo para enviar-lhes. Olhando pelas lentes dessa carta paulina, destacaremos alguns atributos desse jovem missionário:

Timóteo, um homem cooperador (Fp 2.19,23). Timóteo era filho na fé do apóstolo Paulo (1Tm 1.2), cooperador de Paulo (Rm 16.21) e mensageiro de Paulo às igrejas (1Ts 3.6; 1Co 4.17; 16.10,11; Fp 2.19). Ele esteve preso com Paulo em Roma (Fp 1.1; Hb 13.23). Cuidava dos interesses de Cristo (Fp 2.21) e da igreja de Cristo (Fp 2.20).

Timóteo, um homem singular (Fp 2.20a). Havia muitos cooperadores de Paulo, mas Timóteo ocupava um lugar especial no coração do velho apóstolo. Ele era um homem singular pela sua obediência e submissão a Cristo e ao apóstolo como um filho a um pai. Ele tinha o mesmo sentimento de Paulo, ou seja, era do mesmo estofo. A palavra grega que Paulo usa para “igual sentimento” só aparece aqui em todo o Novo Testamento. É a palavra grega isopsychos, que significa “da mesma alma”. Esse termo foi usado no Antigo Testamento como “meu igual” e “meu íntimo amigo” (Sl 55.13, LXX).

Timóteo, um homem que cuida dos interesses dos outros (Fp 2.20b). Timóteo aprendeu o princípio ensinado por Paulo de buscar os interesses dos outros (Fp 2.4). Esse mesmo princípio foi exemplificado por Cristo (Fp 2.5) e pelo próprio apóstolo Paulo (Fp 2.17). Timóteo, de igual modo, vive de forma altruísta, pois o centro da sua atenção não está em si mesmo, mas na igreja de Deus. Ele não busca riqueza nem promoção pessoal. Não está no ministério em busca de vantagens; ele tem um alvo: cuidar dos interesses da igreja.

Timóteo, um homem que cuida dos interesses de Cristo (Fp 2.21). Só existem dois estilos de vida: aqueles que vivem para si mesmos (Fp 2.21) e aqueles que vivem para Cristo (Fp 1.21). Estamos em Filipenses 1.21 ou então estaremos em Filipenses 2.21. Timóteo queria cuidar dos interesses de Cristo, e não dos seus próprios. Sua vida estava centrada em Cristo (Fp 2.21) e nos irmãos (Fp 2.20b), e não no seu próprio eu (Fp 2.21).

Timóteo, um homem de caráter provado (Fp 2.22). Timóteo tinha bom testemunho antes de ser missionário (At 16.1,2) e, agora, quando Paulo está para lhe passar o bastão, como continuador da sua obra, este dá testemunho de que ele continua tendo um caráter provado (Fp 2.22). É lamentável que muitos líderes religiosos que são grandes em fama e riqueza sejam anões em caráter. Vivemos uma crise de integridade avassaladora no meio evangélico brasileiro. Precisamos urgentemente de

homens íntegros, provados, que sejam modelo do rebanho.

Timóteo, um homem disposto a servir (Fp 2.22b). É digno de nota que Timóteo serviu ao evangelho. Ele serviu com Paulo, e não a Paulo. Embora a relação entre Paulo e Timóteo fosse de pai e filho, ambos estavam engajados no mesmo projeto.

A agenda missionária é traçada no céu, e não na terra

A equipe missionária estava planejando avançar em direção à Asia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu (At 16.6,7). Durante a noite, Paulo teve uma visão, na qual um varão macedônio lhe rogava ajuda. Discernindo ser essa a vontade de Deus, imediatamente Paulo e os demais membros da caravana partiram para aquele destino (At 16.8-10). Deus não apenas chama e envia os missionários, mas norteia-lhes os passos. A agenda da obra missionária deve ser estabelecida no céu, e não na terra. O campo é o mundo, mas as prioridades do campo são estabelecidas por Deus. Devemos seguir a direção de Deus, e não a nossa. Nossos planos devem estar subalternos aos planos de Deus. A vontade dele deve prevalecer sobre a nossa.

Essa mudança de rumo na obra missionária tem um reflexo profundo na história da humanidade. Deus deslocou o eixo do cristianismo do Oriente para o Ocidente, da Asia para a Europa. Os resultados dessa guinada na direção missionária são a razão principal de o Ocidente ser o berço evangélico do mundo. Se Paulo tivesse entrado na Ásia, e não na Europa, nessa viagem, possivelmente o Oriente, e não o Ocidente, teria sido o reduto mais evangelizado do mundo. Talvez, hoje, o Ocidente estivesse mergulhado nas densas trevas do paganismo. Devemos tributar a Deus nossa gratidão por nos enviar o evangelho desde essas priscas eras.

Deus aponta o rumo, e o homem escolhe os melhores métodos

Deus apontou o rumo da ação missionária, impedindo Paulo de entrar na Ásia e direcionando seus passos para a Europa. Mas Paulo, ao entrar na Macedônia, escolheu a cidade mais estratégica para pregar o evangelho. Não podemos mudar o evangelho nem engessar os métodos. A mensagem precisa ser fiel, mas também relevante. Paulo era um obreiro estratégico. Ele tinha o cuidado de usar os obreiros, o tempo e os recursos de forma racional. Em virtude da exiguidade do tempo, dava preferência às cidades estratégicas, de onde o evangelho pudesse alcançar com mais rapidez outras regiões. Por essa razão, passou batido em algumas cidades e fixou-se em outras.

Se Deus nos dá a mensagem e a direção, devemos escolher os melhores métodos e as estratégias mais sábias. Precisamos otimizar tanto os recursos de Deus como os obreiros de Deus. Precisamos escolher os melhores métodos para atingirmos os melhores fins.

Filipos, a porta de entrada da Europa

Por que Paulo passou batido por Samotrácia e Neápolis e fixou-se em Filipos? Porque essa era uma colônia romana. Essa cidade ficava no entroncamento entre o Oriente e o Ocidente. Filipos era estratégica tanto histórica como geograficamente. Uma colônia romana era uma espécie de Roma em miniatura. Seus cidadãos viviam sob os auspícios da capital do império. Ali se falava a língua de Roma. Ali se cultivavam os costumes de Roma. Ali imperavam as leis de Roma.

Paulo entendeu que, se o evangelho alcançasse Filipos, dali se espalharia tanto para o Ocidente como para o Oriente. Aquela cidade se tornaria uma ponte para estender para horizontes mais longínquos as boas-novas do evangelho.

O sucesso da evangelização em Filipos não foi sem dor. O evangelho agiu livremente, mas os obreiros foram açoitados e presos. O sucesso da obra passou pelo sofrimento dos obreiros.

A igreja de Filipos tornou-se um exemplo vivo da eficácia e universalidade do evangelho. Três pessoas de diferentes classes sociais são alcançadas pelo evangelho. A primeira delas foi Lídia, uma empresária, vendedora de púrpura, oriunda de Tiatira, cidade da Asia Menor. A segunda pessoa foi uma escrava, uma jovem sem quaisquer direitos sociais. A terceira pessoa foi o carcereiro, um servidor público, da classe média.

Essas três pessoas representavam também diferentes convicções religiosas. Se Lídia era uma mulher temente a Deus, que frequentava uma reunião de oração, a jovem vivia sob o cativeiro do diabo e de seus senhores, enquanto o carcereiro tinha como deus o próprio imperador romano, a quem servia como guardador de presos.

Essas três pessoas ainda tiveram experiências legítimas, porém muito distintas. Lídia foi convertida num ambiente espiritual, numa reunião de oração, quando ouvia a exposição da Palavra de Deus. Ali mesmo, Deus abriu seu coração, e ela creu. A jovem escrava foi liberta num ambiente profundamente carregado, quando estava tomada por espíritos enganadores. O carcereiro, por sua vez, foi salvo nas ruínas de uma prisão abalada por um terremoto e à beira do suicídio.

Quando os homens pensam que estão no controle e se interpõem no caminho de Deus para impedir sua obra, Deus reverte as circunstâncias e revela sua soberania. Paulo e Silas foram açoitados e lançados na prisão numa tentativa de silenciá-los e impedir naquela cidade o avanço do evangelho, mas os obreiros não se calaram. O evangelho não ficou amordaçado. O mesmo Deus que abriu o coração de Lídia, numa reunião de oração, também abriu as portas da cadeia por meio de um terremoto e quebrou todas as resistências do coração do carcereiro.

Lídia foi batizada com toda a sua casa. O carcereiro também foi batizado com toda a sua família. Os obreiros foram embora da cidade, mas no coração daquela colônia romana foi fincada a bandeira tremulante do evangelho. Aquela igreja haveria de se tornar uma das maiores parceiras no ministério de Paulo. Enviaria recursos para o apóstolo em Tessalônica, Corinto e Roma, além de socorrer os pobres da Judeia.

Paulo em Tessalônica, a capital da província da Macedônia

O grande bandeirante do cristianismo saiu de Filipos com vergões no corpo, mas com entusiasmo

na alma. Longe de retroceder diante dos perigos, marchou resoluto para alcançar a capital da província da Macedônia. Nesse propósito, passou por Anfípolis e Apolônia e chegou a Tessalônica (At 17.1).

Na capital da província, Paulo buscou uma ponte de conexão para a pregação do evangelho. Por isso, durante três sábados seguidos, foi a uma sinagoga de judeus, onde arrazoou com eles sobre as Escrituras. O propósito do apóstolo não era falar sobre prosperidade, curas ou milagres, mas expor e demonstrar a necessidade da morte e ressurreição de Cristo. Paulo era um pregador cristocêntrico. Ele não era um mestre de banalidades. Sua mensagem tocava o âmago da questão. O Cristo deveria padecer e depois ressurgir dentre os mortos. Paulo não anunciava um Jesus apenas de milagres, mas o Jesus da cruz e do túmulo vazio.

Essa mensagem trouxe uma verdadeira revolução em Tessalônica (At 17.4). Alguns judeus, uma multidão de gregos e diversas senhoras da alta sociedade se uniram a Paulo. A oposição foi imediata. Movidos pela inveja, os líderes judeus reuniram alguns agitadores e alvoroçaram a população contra os missionários. Jasom, hospedeiro de Paulo e Silas, foi preso e levado às autoridades. Somente depois de pagar fiança, conseguiu se livrar de suas mãos. Os judeus invejosos formularam uma acusação contra Paulo e Silas: “… Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui” (At 17.6). Afirmaram ainda que tanto os missionários como o próprio Jasom estavam agindo contra os decretos de César (At 17.7). Essa afirmação provocou apreensão na cidade, uma vez que Tessalônica perderia seus privilégios de capital da província caso houvesse ali qualquer insurreição ou oposição ao imperador romano (At 17.8). Paulo e Silas não puderam permanecer em Tessalônica, mas a Palavra de Deus continuou lá operando maravilhas nos tessalonicenses e por meio deles (1Ts 1.5-10). A obra de Deus é maior do que seus obreiros. Os obreiros podem ser expulsos, mas a Palavra de Deus não pode ser banida. Os missionários podem ser presos, mas a Palavra não pode ser algemada. Os pregadores podem ser perseguidos, enxotados e mortos, mas a Palavra não pode ser detida.

Paulo em Bereia

Confiança em Deus e prudência não são coisas antagônicas. Diante do alvoroço em Tessalônica, Paulo e Silas foram retirados da cidade à noite, sem alarde, com absoluta discrição (At 17.10). Levados para Bereia, não se intimidaram nem mudaram sua agenda. Procuraram imediatamente uma sinagoga para ensinarem a Palavra de Deus. Os bereanos demonstraram ser mais nobres que os tessalonicenses, pois não apenas ouviram, mas também evidenciaram um vívido interesse, dedicando-se ao estudo diário das Escrituras e conferindo na Palavra tudo que Paulo dizia (At 17.11). O resultado foi extraordinário. Novamente uma multidão creu e engrossou as fileiras da igreja nascente (At 17.12).

O sucesso da obra de Deus incomodou novamente os adversários. Os judeus invejosos, ao saberem dos resultados extraordinários da pregação de Paulo em Bereia, rumaram para lá a fim de causar alvoroço e instigar a população (At 17.13). Os irmãos bereanos, sem tardança, tiraram Paulo

da cidade e o enviaram ao litoral, enquanto Silas e Timóteo continuaram na cidade consolidando o trabalho (At 17.14,15).

Paulo em Atenas

Paulo chega a Atenas, a capital intelectual do mundo, a cidade de Péricles, Sócrates, Platão e Aristóteles. O veterano apóstolo pisa na terra dos grandes corifeus da filosofia, dos homens que encheram bibliotecas com sua erudição.

Atenas era o berço da filosofia e das artes. Ao mesmo tempo, ali ficava o Partenon, templo de muitos deuses. Atenas estava eivada de deuses. Havia mais de 30 mil estátuas dedicadas aos deuses naquela meca da filosofia. Havia uma divindade para cada monumento e pórtico daquela cidade. Era mais fácil encontrar um deus em Atenas do que um homem. Ao chegar à cidade, Paulo ficou revoltado com a idolatria reinante. O mesmo povo bafejado pelo mais refinado conhecimento filosófico estava também entregue à mais tosca idolatria. Cultura não é sinônimo de discernimento espiritual. O povo tinha a luz do conhecimento, mas estava cego espiritualmente. Tinha muitos deuses, mas não conhecia o Deus verdadeiro.

Paulo percorreu e agitou a cidade. Diagnosticou suas mazelas espirituais. Conversou com o povo na praça e discutiu com os filósofos epicureus e estoicos. Sua presença em Atenas tornou-se notória. O povo não falava de outra coisa senão das últimas novidades que Paulo pregava. Arrastado ao Areópago, para dar explicações de sua pregação, o veterano apóstolo fez um dos mais extraordinários discursos da história, falando para os atenienses acerca do Deus desconhecido.

Destacamos quatro coisas importantes nessa passagem de Paulo em Atenas:

Em primeiro lugar, o que ele viu em Atenas (At 17.16). Paulo não chegou a Atenas como um turista, admirado da beleza de seus monumentos. Ele não ficou entusiasmado com seus templos nem com a multiplicidade de suas imagens. Paulo olhou para toda aquela arte esculpida no mármore ou adornada pelo marfim como uma manifestação de idolatria. Os muitos deuses do panteão ateniense eram uma afronta ao Deus verdadeiro. A religiosidade dos atenienses bafejados de cultura não passava de tosca ignorância espiritual.

Em segundo lugar, o que ele sentiu em Atenas. Paulo não apenas viu a idolatria, mas também ficou indignado. Seu espírito se revoltou diante da idolatria. A idolatria de Atenas era uma afronta ao Deus vivo. Era uma violação do segundo mandamento da lei de Deus. Era uma perversão do verdadeiro culto. A revolta de Paulo estava no fato de ver o nome de Deus sendo escarnecido no meio de uma religiosidade profusa, mas sem discernimento.

Em terceiro lugar, o que Paulo fez (At 17.17). Paulo não apenas viu e se indignou; ele aproveitou seu tempo em Atenas para ensinar, pregar e arrazoar com os atenienses acerca do evangelho. Paulo pregou Jesus e a ressurreição. Paulo foi proativo. Não apenas fez o diagnóstico certo, mas deu o remédio correto. Não apenas constatou o problema, mas também apontou a solução.

Em quarto lugar, o método que Paulo usou. Paulo ficou revoltado com a idolatria da cidade, mas dirigiu-se aos atenienses com cortesia. Disse-lhes que eles eram acentuadamente religiosos. Chegou

até mesmo a citar o filósofo Aratos, criando uma ponte cultural para levar-lhes o evangelho. Paulo não ficou preso a questões periféricas; ao contrário, falou aos atenienses acerca da pessoa de Deus.

Paulo ergue sua voz para falar sobre o Deus criador do universo na capital intelectual do mundo. O mundo não veio de uma geração espontânea nem de uma explosão cósmica. O mundo não deu a luz a si mesmo. Ele não é produto do acaso nem de uma evolução de milhões e milhões de anos. Deus criou todas as coisas pela Palavra de seu poder. Paulo também apresenta aos atenienses o Deus da providência. Nele, nós vivemos, nos movemos e existimos. Ele é quem enche a terra de fartura, alimenta as aves dos céus, veste os lírios do campo e nos dá o pão de cada dia. O Deus desconhecido dos atenienses é o governador das nações. Ele está assentado num alto e sublime trono. Ele reina. Ele levanta reis e depõe reis. Não há um centímetro desse vasto universo do qual ele não seja Senhor. O Deus desconhecido dos atenienses é o Deus salvador, que se fez carne e entrou no mundo para morrer e ressuscitar. Os atenienses não conhecem Deus como o Senhor absoluto do universo, diante de quem todo joelho deve se dobrar. O Deus desconhecido dos atenienses exige arrependimento de todos os homens, uma vez que os julgará com justiça.

Ao terminar sua prédica, seu auditório se dividiu em três grupos: uns escarneceram, outros disseram que o ouviriam em outra ocasião e alguns creram. Embora não haja registro de multidões se convertendo como aconteceu em Tessalônica e Bereia, a bandeira do evangelho foi fincada no topo da montanha do mais tosco paganismo.

Paulo em Corinto

De Atenas, Paulo foi para a cidade de Corinto, a capital da província da Acaia. Essa era uma cidade estrategicamente importante, uma vez que em suas cercanias ficava o porto de Cencreia. Corinto era banhada pelo mar Jônico e também pelo mar Egeu. Era uma cidade cosmopolita. Caravanas do mundo inteiro passavam pela cidade. Navios procedentes de diversas partes do mundo ancoravam todos os dias naquela febricitante cidade. Os Jogos Ístmicos de Corinto só perdiam em importância para os Jogos Olímpicos de Atenas. A cidade tinha uma economia forte, uma atividade esportiva invejável e também uma intensa agenda religiosa. Ali ficava o templo de Afrodite, a deusa do amor. Na acrópole da cidade, estava o templo dessa deusa, onde mais de mil prostitutas cultuais exerciam sua atividade religiosa, promovendo a mais aviltante promiscuidade sexual do mundo de então. Essas mesmas prostitutas desciam à noite para o cais, e a cidade se tornava o palco da mais deslavada imoralidade. O homossexualismo era uma prática comum e até incentivada em Corinto.

Paulo chega a essa cidade e ali permanece dezoito meses, ensinando a Palavra e pregando na virtude do Espírito Santo (1Co 2.4). Em Corinto, Paulo planta uma igreja vibrante, mas também uma igreja que vai trazer muitas lágrimas ao apóstolo. Nenhuma igreja recebeu mais do apóstolo quanto Corinto, mas também nenhuma o fez sofrer tanto quanto ela.

Em Corinto, Paulo foi perseguido. Foi chamado de impostor. A igreja não pagou seu salário. Ele precisou trabalhar, fazendo tendas, e receber ajuda das igrejas pobres da Macedônia para pastorear

essa igreja.

De Corinto, Paulo escreveu as cartas aos Gálatas, aos Tessalonicenses e aos Romanos. Nessa cidade, ele enfrentou as maiores pressões. Muitas pessoas da igreja duvidaram das suas motivações, questionaram seu caráter, atacaram sua honra e macularam seu nome.

A igreja de Corinto, embora fosse um canteiro fértil, onde floresciam todos os dons espirituais, era desprovida de maturidade. A igreja estava dividida em vários grupos e partidos. Havia imoralidade tal dentro da igreja que nem mesmo no mundo se via coisa semelhante. Os crentes, em vez de disciplinarem o faltoso e chorar por causa de sua prática ensandecida, aplaudiam seu pecado. Havia brigas e contendas entre os crentes, e, em vez de esses conflitos serem resolvidos domesticamente, eram levados aos tribunais seculares, produzindo enfraquecimento do testemunho da igreja na sociedade. A igreja de Corinto revelava a fragilidade dos relacionamentos familiares e não sabia administrar com sabedoria a liberdade cristã. A igreja havia feito alguns avanços espirituais, mas ainda estava tímida no progresso da generosidade. Era uma igreja remissa quanto à prática da comunhão interna e do amor externo. Tinha um coração trancado para amar e o bolso fechado para contribuir. Se não bastasse tudo isso, a igreja ainda cometia muitos desvios na sua maneira de cultuar Deus. Havia deficiências na sua teologia, bem como na sua liturgia.

Os filhos que mais fizeram o apóstolo sofrer foram os mais amados. Paulo muitas vezes regou o solo duro com suas lágrimas. Mas suas lágrimas não foram em vão. Em Corinto, Paulo deixou uma igreja que irradiou sua influência para muitos outros recantos do Império Romano. Como a cidade era um corredor do mundo, dali o evangelho se espalhou por vários rincões tanto da Acaia quanto de horizontes mais distantes.

De Corinto, Paulo passou em Efeso, deixando na capital da Asia Menor, Priscila e Aquila. Dali, foi a Jerusalém, retornou à sua base em Antioquia da Síria e, oportunamente, partiu dessa cidade para a sua terceira viagem missionária, atravessando os territórios da Galácia e da Frígia, confirmando todos os discípulos (At 18.18-23).

Paulo em Éfeso

Em sua terceira viagem missionária, Paulo fixou-se em Éfeso, capital da Ásia Menor. Essa era uma das maiores cidades do mundo. Ali ficava o templo de Diana, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Era uma cidade idólatra, um centro de magia, um canteiro fértil para a evangelização.

Nessa cidade, Paulo passou três anos, ensinando tanto a judeus como a gregos, pregando tanto acerca do arrependimento como da fé. Paulo tanto evangelizava como ensinava. Ele era um evangelista e um mestre. Em Éfeso, Paulo enfrentou feras, tribulações maiores que suas forças. Em Éfeso, o evangelho desbancou a idolatria. Em Éfeso, vários sinais de um poderoso avivamento podem ser constatados.

Em primeiro lugar, os novos convertidos recebem um derramamento do Espírito (At 19.1-7). Aqueles que haviam recebido apenas o batismo de João, ao ouvirem sobre o Espírito Santo, foram batizados

em nome de Jesus, receberam o Espírito Santo e tanto profetizaram como falaram em línguas. A mesma experiência que já havia acontecido em Jerusalém e Samaria agora acontecia também em Éfeso. Era a dispensação da graça estendendo seus horizontes para um campo totalmente gentílico. Jerusalém era a cidade dos judeus. Samaria era uma cidade mista, em território palestino. Éfeso, por sua vez, era uma cidade cosmopolita, essencialmente gentílica. O evangelho de Cristo é multirracial, multicultural e internacional.

Em segundo lugar, os que vivem distantes ouvem a Palavra de Deus (At 19.8-10). A partir de Éfeso, o evangelho espalhou-se por toda a Asia Menor. Em face da perseguição, Paulo deixou a sinagoga e foi para uma escola, e, dali, o evangelho penetrou pelos corredores da Asia Menor, a tal ponto que todos os seus habitantes, tanto judeus como gregos, ouviram a Palavra de Deus. Um avivamento que não transpira para fora dos portões não é genuíno. Quando a igreja é impactada com o poder do Espírito Santo, ela sai das quatro paredes e, como fermento, penetra em todos os setores da sociedade.

Em terceiro lugar, os enfermos são curados (At 19.11,12). O evangelho em Éfeso chegou não apenas em palavras, mas, sobretudo, em poder. Paulo pregou tanto aos ouvidos quanto aos olhos. Não apenas as pessoas foram perdoadas e salvas, mas também curadas e libertas. É importante ressaltar que a fonte do poder para curar não estava em Paulo. O milagre não era feito pelo poder inerente de Paulo. Não era o apóstolo o agente do poder. O evangelista Lucas diz que Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam, e os espíritos malignos se retiravam (At 19.11,12).

Em quarto lugar, os cativos são libertos (At 19.13-17). Paulo era um homem conhecido tanto no céu como no inferno (At 19.15). Até os demônios sabiam quem era ele. Os falsos exorcistas, filhos de Ceva, foram expostos à vergonha pública ao tentarem libertar um homem endemoninhado, esconjurando os demônios por Jesus, a quem Paulo pregava. Esses homens foram subjugados pelos demônios, e não lhes restou outra opção senão fugir, nus e feridos. Esse fato produziu grande temor sobre todos os efésios, e o nome de Jesus era mais e mais engrandecido.

Em quinto lugar, os crentes confessavam e denunciavam publicamente suas obras (At 19.18). Onde há avivamento, há confissão de pecados. Onde o pecado é encoberto, as chuvas do céu são retidas. Onde o pecado é escondido, o derramamento do Espírito não é revelado. Aqueles que creem verdadeiramente em Cristo são os que confessam publicamente suas obras más e as abandonam. Os efésios convertidos a Cristo não se ocuparam de denunciar os pecados dos outros; eles denunciavam suas próprias obras, e isso de forma pública.

Em sexto lugar, os laços com o ocultismo foram decisivamente rompidos (At 19.19). Muitos dos efésios convertidos a Cristo vieram dos redutos do ocultismo, tão abundantes em Éfeso. Eles não apenas denunciaram suas obras más, mas também queimaram em praça pública seus livros de artes mágicas. Não há compatibilidade entre a fé cristã e o ocultismo. Não há ligação entre Cristo e os demônios. Não há sintonia entre o santuário de Deus e os ídolos. Não há comunhão entre a luz e as

trevas.

Em sétimo lugar, a Palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente (At 19.20). O crescimento da igreja e o crescimento da Palavra são coisas semelhantes. São termos correspondentes. Quando a Palavra cresce, a igreja cresce. É possível a igreja crescer numericamente sem o crescimento da Palavra. Mas esse não é o crescimento que vem de Deus. Esse não é o crescimento saudável. Nem todo crescimento da igreja exalta a Cristo. Nem sempre um grande ajuntamento ou uma grande congregação expressa o verdadeiro crescimento da igreja. Não podemos mudar a mensagem para agradar o gosto e a preferência das pessoas. Não podemos transigir com os absolutos de Deus para atrair as multidões. Não podemos oferecer ao povo um caldo venenoso para mitigar-lhe a fome. Precisamos dar às multidões trigo verdadeiro, e não palha. Precisamos saciar as pessoas com o Pão vivo que desceu do céu. Estava fechado o ciclo da terceira viagem missionária. Era tempo de o bandeirante do cristianismo retornar novamente à sua base.

Em oitavo lugar, uma perseguição implacável (At 19.2140). Sempre que a obra de Deus avança, o diabo contra-ataca. Na mesma medida em que a igreja crescia em Éfeso e a partir de Éfeso, uma implacável perseguição movida por interesses religiosos e financeiros se instalou na cidade, capitaneada por Demétrio, o ourives fabricante das estatuetas de Diana. A cidade ficou totalmente alvoroçada. Uma grande multidão se ajuntou para gritar o nome da deusa Diana a ponto de a maioria nem saber exatamente o que estava acontecendo na cidade. Não fora a intervenção do escrivão da cidade, aquele tumulto teria se transformado numa perigosa sedição, provocando grandes desastres para os crentes efésios e, quiçá, para o próprio apóstolo Paulo.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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