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Testemunhas de Jeová – Outro Jesus Cristo – #11

O corpo glorificado

Embora a Bíblia não fale muito sobre a natureza do corpo ressurreto de Jesus, deduz-se que tinha propriedades que o anterior não apresentara, como não estar sujeito às leis naturais (Jesus entrava em lugares totalmente fechados — João 20.19,26); o corpo ressurreto pode alimentar-se, se assim desejar (como Jesus fez com os discípulos — Lucas 24.41-43; Atos 10.41), embora não necessite do alimento físico para se manter etc. Em suma, o corpo ressurreto é capaz de fazer tudo o que o corpo físico pode realizar (ainda que lhe seja facultativo). Outras diferenças: o corpo físico é corruptível, nasce em desonra (que pode se referir ao pecado), é fraco (limitado), ao passo que o corpo ressurreto é incorruptível, glorioso e poderoso (ICoríntios 15.40-43).

Por que Jesus não foi reconhecido por seus discípulos

“Mas”, perguntam alguns, “se Jesus ressuscitou fisicamente, por que Maria Madalena, os discípulos de Emaús e outros não o reconheceram tão prontamente?”. Para resolver essa questão, seguem-se as seguintes considerações:

Maria Madalena (João 20.11-18)

É preciso que sejam levados em conta quatro fatores que dificultaram o reconhecimento imediato de Jesus por Maria, mesmo que ele estivesse próximo a ela.

1. Geográfico. Jesus foi sepultado num jardim (João 19.41), e, segundo uma publicação dos testemunhas de Jeová (e a informação é verídica), “os jardins mencionados na Bíblia eram bastante diferentes dos costumeiros jardins no Ocidente. Muitos deles eram mais da natureza de um parque, com diversas espécies de árvores”.21

2. Tempo. O texto de João 20.1 narra que Maria foi ao túmulo “bem cedo” ou de madrugada, “enquanto ainda estava escuro” {NM).

3. Incredulidade. Ao ver que o túmulo estava vazio, a primeira coisa que Maria pensou foi que houvessem roubado o corpo de Jesus (João 20.2,13,15), não que ele houvesse ressuscitado. Isso evidencia que nem ela nem os discípulos criam na ressurreição do Mestre, pois, segundo João 20.9, ainda “não discerniam a escritura, de que ele tinha de ser levantado dentre os mortos” (NM).

4. Emocional. Maria estava chorando; ela estava abalada emocionalmente (João 20.11,12,15).

Unindo, portanto, esses fatores, não espanta o fato de Maria olhar para Jesus e não o reconhecer imediatamente, além de o confundir com um“jardi-neiro” (João 20.15); afinal, num jardim, ainda de madrugada, descrente na ressurreição e emocionalmente abalada, quem ela imaginaria que estivesse naquele jardim-cemitério? O problema não estava no corpo de Jesus, mas nas circunstâncias que dificultaram o reconhecimento do corpo.

Outra observação importante no diálogo entre Jesus e Maria: tem-se a impressão de que ela conversava com ele face a face. Contudo, uma leitura atenta aos pormenores da narrativa revelará que Maria não o encarava. Maria olhava fixamente, sim, para dentro do túmulo, quando, de repente, observou dois anjos (João 20.11,12). Após dizer aos anjos que chorava, pois não sabia onde haviam posto Jesus, o relato diz: “Nisso ela se voltou e viu Jesus ali, em pé, mas não o reconheceu” (João 20.14). Daí o texto exibe uma conversa entabulada entre os dois, mas Maria não olhava para Jesus. Seu primeiro olhar foi apenas de relance; então ela volta novamente a olhar o túmulo. Na sequência, Jesus exclama “Maria!”; então, segundo o versículo 16 (NM), ela dá “meia-volta”, dirigindo-se a Jesus e chamando-o Mestre. Ela então pode ver que era ele mesmo em carne e osso.

Os discípulos de Emaús (Lucas 24.13-35)

Esse caso é diferente do anterior, pois nenhum daqueles fatores estava em jogo, com exceção da incredulidade. No entanto, essa não foi a razão que dificultou o reconhecimento de Jesus por parte dos discípulos de Emaús. O apóstolo João deixa claro que o problema não estava no corpo de Jesus ou na sua aparência, mas nos olhos dos discípulos de Emaús. Diz a narrativa que “os olhos deles foram impedidos de reconhecê-lo” (Lucas 24.16), e logo depois “os olhos foram abertos e o reconheceram” (24.31). Por que Deus fez isso? Não é possível ter certeza, mas talvez a passagem de 2Reis 6.8-18 lance luz sobre essa questão.

O texto narra que um rei assírio enviou tropas para prender o profeta Eliseu. Quando seu ajudante viu que as tropas haviam cercado a cidade, ficou amedrontado. Eliseu disse ao pupilo que não temesse:“[…] aqueles que estão conosco são mais numerosos do que eles” (2Reis 6.16). Então, o profeta ora pedindo a Deus que abra os olhos do ajudante para que veja. O relato prossegue: “Jeová abriu imediatamente os olhos do ajudante de modo que viu; e eis que a região montanhosa estava cheia de cavalos e de carros de guerra, de fogo, em torno de Eliseu” (v. 17, NM). Assim, segundo a ocasião e sua vontade soberana (mesmo que não entendamos o porquê), Deus pode fazer que alguém veja ou deixe de ver. De modo que, no caso do ajudante do profeta, Deus fez que ele visse o que não podia ver e, no caso dos discípulos de Emaús, fez que não vissem o que poderíam naturalmente ter visto.

Os discípulos no mar de Tiberíades (João 21.1-14)

Essa foi a terceira aparição de Jesus aos discípulos (v. 14). Não temos aqui os mesmos elementos diretos de elucidação encontrados nos casos anteriores. Não obstante, pelos precedentes, conclui-se que o problema nunca esteve com a aparência de Jesus ou seu corpo. Existem, porém, alguns detalhes no texto que precisam ser examinados:

1. Os discípulos tentaram pescar por toda a noite, mas nada apanharam (v. 3) — o que mostra seu desgaste físico.

2. Jesus lhes apareceu “ao clarear da madrugada” ou “quando estava amanhecendo” (v. 4,NM).

3. À primeira vista, o relato parece indicar que Jesus e os discípulos estavam próximos (v. 5,6), a ponto de entabular uma conversa. No entanto, o versículo 8 diz que a distância entre eles era de quase 100 metros, o que, aliado aos fatos expostos nos itens 1 e 2, dificultaria a identificação imediata de Jesus por aqueles discípulos.

Há, porém, um problema de solução. Ao estarem face a face com Jesus, diz o relato que “nenhum dos discípulos tinha coragem de lhe perguntar: ‘Quem és tu?’ Sabiam que era o Senhor” (21.12). Segundo os testemunhas de Jeová, isso evidencia que Jesus foi reconhecido por algo que fez (a pesca miraculosa), e não porque se tratava do mesmo corpo — do contrário, como entender o receio dos discípulos em perguntar “Quem és tu?”.

Existe uma passagem bíblica que pode elucidar essa questão. Marcos 6.48-50 relata que Jesus, vendo que os discípulos estavam em dificuldades no mar por causa de um vendaval, foi ao encontro deles “andando sobre o mar”. Diante desse acontecimento fantástico, eles “pensaram que fosse um fantasma” (“uma aparição”, NM). “Então gritaram”, pois nunca tinham visto alguém andar sobre o mar. Isso aconteceu antes da ressurreição; logo, não se poderia esperar que o corpo de Jesus estivesse diferente. Era o mesmo, sim; contudo, o que fez os discípulos pensarem não se tratar de Jesus foi o estado de perplexidade, de admiração em que se encontravam.

0 relato da aparição de Jesus em Lucas 24.36-41 também elucida o caso. Segundo Lucas, os discípulos ficaram “assustados e com medo”, pois “pensavam que estavam vendo um espírito”. Diante disso, Jesus lhes exibe as mãos e os pés, pedindo a eles que o apalpassem, pois um espírito não teria nem carne nem ossos, como era visível que ele tinha. O versículo 41 registra algo interessante: “E, por não crerem ainda, tão cheios estavam de alegria e de espanto,de lhes perguntou:‘Vocês têm aqui algo para comer?’ ”. Assim, deve-se entender João 21.12 levando-se em conta o estado de alegria e admiração ao qual os discípulos foram submetidos, pois não é todo dia que alguém anda sobre as águas ou ressuscita dentre os mortos.

É possível, porém, que alguém queira citar Marcos 16.12, que diz que Jesus, depois de se manifestar a Maria Madalena, apareceu noutra forma aos discípulos que rumavam para a cidade de Emaús. Ora, em primeiro lugar, a expressão “noutra forma” certamente não significa em outro corpo real, material e físico (Geisler; Howe, 1999, p. 386), levando-se em conta os argumentos precedentes. Em segundo lugar, há uma séria questão sobre a autenticidade da passagem de Marcos 16.9-20, pois ela não é encontrada nos manuscritos ou códices melhores e mais antigos: o sinaítico (K)e o vaticano (B). Consequentemente, não seria prudente fundamentar um pronunciamento doutrinário significativo sobre um texto controverso (ibid.), embora não se deva negar evidentemente sua aceitação pelos cristãos dos primeiros séculos.

Refutação de outros textos mal interpretados

A resistência dos testemunhas de Jeová em relação à ressurreição corpórea de Jesus também está relacionada a três textos bíblicos: 1 Pedro 3.18, ICoríntios 15.45 e 15.50. 0 primeiro afirmaria, de acordo com os testemunhas de Jeová, que Jesus foi morto na carne e “ressuscitado em espírito”; o segundo confirmaria 1 Pedro 3.18, ao dizer que Jesus se tornou “espírito vivificante”; e o terceiro diz que “carne e sangue não podem herdar o Reino de Deus”. Dessa forma, nem Jesus nem qualquer outro que ressuscitasse dentre os mortos poderia ressuscitar corporeamente.

À luz de tudo o que já vimos, a interpretação dessas passagens bíblicas não pode levar à conclusão proposta pelos testemunhas de Jeová quanto à ressurreição de Jesus. Ele ressuscitou, sim, naquele mesmo corpo que fora conduzido ao sepulcro. Não podemos nos apartar deste princípio: as Escrituras não se contradizem. Muitas passagens bíblicas, como já analisamos, são claríssimas ao ensinar a ressurreição física de Jesus. Assim, não devemos deduzir que lPedro 3.18 e ICoríntios 15.45,50 estejam ensinando o contrário do que o restante das Escrituras ensina inteligivelmente.

Vejamos, então, como interpretar os textos em questão à luz da ressurreição física de Jesus.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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