Teologia Do Novo Testamento – O Dualismo Joanino

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Outra peculiaridade de João era a de pensar por antíteses e contrastes. Uma espécie de dualismo caracteriza os seus escritos. É bom notar, porém, que o seu dualismo não é um dualismo metafísico, mas um dualismo moral, que todo o mundo pode observar na vida cotidiana e também na história da raça humana, desde o seu começo.

2.1. Os dois Mundos

O dualismo dos Evangelhos Sinóticos é horizontal: um contraste entre duas eras – a era presente e a era vindoura.

O dualismo de João é vertical, um contrates entre dois mundos – o mundo superior (de cima) e o mundo inferior (de baixo) – Jo 8.23. Os Sinóticos contrastam esta era com a era vindoura, e sabemos, através do uso Paulino, que “este mundo”, pode ser um equivalente à expressão “esta era”, em contraste com o mundo de cima. “Este mundo”, é visto como mal, tendo o diabo como seu governante, 16.11. Jesus veio para ser a luz deste mundo, 11.9. A autoridade de sua missão não procede “deste mundo”, mas do mundo de cima – de Deus, 18.36.

Outras expressões dualísticas em João:

Trevas e Luz1.5; 8.12; 9.5; 11.9; 12.35,36,46.
Carne e Espírito1.13,14; 3.6,12; 4.24; 6.63.
Kosmos – é importante compreender o uso que ele faz da palavra “mundo”, kosmos kosmos[1] – “ordem criada”, 17.5,24; e a “terra em particular”, 11.9; 16.21; 21.25.
Por metonímia, kosmos pode designar não apenas o mundo, mas também aqueles que habitam o mundo: o gênero humano, 12.19; 18.20; 7.4; 14.22. observe esta expressão: “o mundo inteiro vai após ele“, 12.19, significa que Jesus assegura uma grande resposta.

2.2. Pecado é Descrença

Descrença em Cristo é uma outra manifestação de uma aversão básica por Deus. A presença de Jesus entre os homens trouxe a aversão deles por Deus a uma crise de tal forma que ela tornou-se claramente evidenciada como aversão por Cristo, 3.22-24; 8.24. Sendo assim, o pecado da descrença inflexível, por si mesma condena o homem a uma separação eterna de Deus. Por esta razão, o crer em Cristo (pisteuoeis “pisteuw”), 20.31, recebe forte ênfase.

Em João a palavra é encontrada treze vezes nas palavras de Jesus e vinte e nove vezes na interpretação de João. Descrença é essência do pecado, 16.9; 3.36.

2.3. A Concepção da Religião

Resulta claro à luz destas considerações que João nos deu uma concepção puramente espiritual e ética da religião, e não uma concepção de formalidades e cerimônias. Como já notamos, o seu evangelho ensina que “Deus é Espírito”, e qualquer um em qualquer tempo e lugar, pode adorá-lo desde que o faça “em espírito e verdade”. Quase nada João disse a respeito das instituições, nem da igreja. Não mencionou a instituição da Ceia, e as referências que fez ao batismo estavam quase todas relacionadas com o batismo de João.

2.4. Dualismo Grego

1.4.1.        O dualismo de João deve ser discutido contra o fundo contextual do dualismo grego, incluindo o gnosticismo e o dualismo judaico recentemente descoberto, conforme evidências da literatura de Qunran. De acordo com a pensamento filosófico de Platão, há dois versos nos quais se verifica a existência – o fenomenal e o numeral: o mundo mutável, transitório, visível e o mundo invisível, eterno, que é a esfera de ação de Deus. “Salvação” é para aqueles que dominam suas paixões; e, por ocasião da morte, suas almas serão libertadas de sua escravidão terrena, corpórea, a fim de, libertas, desfrutarem uma imortalidade abençoada. Filo seguindo esta perspectiva, ensinou que a libertação da escravidão terrena era resultado do conhecimento de Deus e do mundo; mas, ao passo que Platão atingia este conhecimento por meio do raciocínio dialético, Filo, em seu lugar, colocou a profecia, a revelação na Lei de Moisés.

1.4.2.        No gnosticismo plenamente desenvolvido, a matéria é ipso facto má, e o homem somente pode ser salvo mediante a recepção da gnosis concedida por um redentor, que desceu ao mundo inferior, ascendendo, depois, ao mundo mais elevado.



[1] Kosmos, -ou, o, 1) o universo, o mundo (a soma das coisas criadas); a terra habitadas; os habitantes da terra toda; a raça humana; “a massa da humanidade ímpia, alienada de Deus e hostil à causa de Cristo” – Thayer; “afazeres mundanos, o agregado de bens, riquezas, vantagens, prazeres, etc., que embora ocos, vãos e passageiros estimulam a cobiça e constituem obstáculo a Cristo” – Thayer; “o padrão da vida pagã” – Hort; “adorno”. W.C.TAYLOR. Dicionário do Novo Testamento Grego. (doravante denominado de DNTG). Ed. JUERP. 1991., p. 121.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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