Sofrimento e Glória – A Cruz de Cristo

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Sofrimento e Glória – A Cruz de Cristo

O fato do sofrimento indubitavelmente tem sido o maior desafio à fé cristã em todas as gerações. Sua distribuição e grau parecem ser inteiramente ao acaso e, portanto, injustos. Os espíritos sensíveis perguntam se o sofrimento pode, de algum modo, reconciliar-se com a justiça e o amor de Deus.

No dia primeiro de novembro de 1755 Lisboa foi devastada por um terremoto. Sendo o Dia de Todos os Santos, as igrejas estavam cheias, e trinta foram destruídas. Dentro de seis minutos 15.000 pessoas ti­nham morrido e outras 15.000 estavam morrendo. Um dos muitos que foram atordoados pelas notícias foi o filósofo francês Voltaire. Durante meses ele aludiu ao terremoto em suas cartas em termos de apaixonado horror. Como podia alguém agora acreditar na bondade e onipotência de Deus? Ele ridicularizou as linhas de Alexandre Pope em seu Ensaio Acerca do Homem, que havia sido escrito numa vila segura e confortável de Twickenham:

E, a despeito do orgulho, a despeito da razão errante, Uma verdade é clara: O que quer que for, é certo.

Voltaire sempre se tinha rebelado contra essa filosofia do Otimismo. Poderia Pope repetir os seus versos, se se tivesse encontrado em Lisboa? A Voltaire pareciam ilógicas (interpretando o mal como bem), irreverentes (atribuindo o mal à Providência) e injuriosas (inculcando resignação em vez de ação construtiva). Ele expressou o seu protesto pela primeira vez em Poema Acerca do Desastre de Lisboa, que pergunta por que, se Deus é livre, justo e bom, sofremos sob o seu governo. É o antigo enigma de que Deus ou não é bom ou não é todo-poderoso. Ou ele deseja dar fim ao sofrimento mas não pode fazê-lo, ou ele poderia mas não quer. Qualquer que seja o caso, como podemos adorá-lo como Deus? O segundo protesto de Voltaire foi escrever seu romance satírico Candide, a história de um jovem engenhoso, cujo mestre, o Dr. Pangloss, um professor de Otimismo, continua a as­segurá-lo de que “tudo acontece para o melhor no melhor de todos os mundos possíveis”, em desafio às suas sucessivas calamidades. Quando naufragam perto de Lisboa, Candide quase morre no terre­moto, e Pangloss é enforcado pela Inquisição. Escreve Voltaire: “Can­dide, aterrorizado, sem fala, sangrando, palpitando, disse a si mesmo: Se este é o melhor de todos os mundos possíveis, como será o resto?”1

Todavia, o problema do sofrimento está longe de ser de interesse somente dos filósofos. Ele vem de encontro a quase todos nós na área pessoal; poucos passam pela vida inteiramente ilesos. Pode ser uma privação de infância que resultou numa desordem emocional para a vida toda, ou uma deficiência congênita da mente ou do corpo. Ou, de súbito e sem aviso, somos atacados por uma enfermidade dolorosa, somos despedidos do emprego, caímos na pobreza ou sofremos a morte de uma pessoa querida. Ou então, sem querer, ficamos sozi­nhos novamente, um relacionamento de amor se desfaz, o casamento se quebra e chegam o divórcio, a depressão e a solidão.

O sofrimento vem de muitas formas desagradáveis, e às vezes não só fazemos a Deus as nossas perguntas agonizantes: “Por quê?” e “Por que eu?” mas até mesmo, como Jó, nos encolerizamos contra ele, acusando-o de injustiça e indiferença. Não conheço um líder cristão mais sincero em confessar sua ira do que Joseph Barker, que foi ministro do Templo da Cidade de 1874 até sua morte em 1902. Ele diz em sua autobiografia que até à idade de 68 anos jamais teve uma dúvida acerca da religião. Então sua esposa faleceu, e sua fé entrou em colapso. “Naquela hora negra”, escreveu ele, “quase me tornei um ateu. Pois Deus havia colocado os pés sobre as minhas orações e tratado as minhas petições com desprezo. Se eu tivesse visto um cão em agonias como as minhas, eu teria tido pena e ajudado a besta; contudo, Deus cuspiu sobre mim e lançou-me fora como uma ofensa — fora na desolação do deserto e na noite negra e sem estrelas.”2

É preciso dizer imediatamente que a Bíblia não supre solução com­pleta ao problema do mal, quer seja mal “natural”, quer “moral”, isto é, quer na forma de sofrimento quer de pecado. Conseqüente­mente, embora faça referência ao pecado e ao sofrimento praticamente em todas as suas páginas, seu interesse não é explicar a origem destes, mas ajudar-nos a vencê-los.

Meu objetivo neste capítulo é explorar a relação que possa existir entre a cruz de Cristo e os nossos sofrimentos. De modo que não apresentarei outros argumentos padrões acerca do sofrimento, in­cluídos nos livros textos, mas os mencionarei apenas como introdu­ção.

Primeiro, segundo a Bíblia, o sofrimento é uma intromissão alheia ao bom mundo de Deus, e não terá parte em seu novo Universo. É uma investida violenta e destrutiva de Satanás contra o Criador. O livro de Jó esclarece esse ponto. Também o fazem a descrição de Jesus de uma mulher enferma como estando “presa” por Satanás, o seu repreender as doenças como repreendia os demônios, a referência de Paulo a seu “espinho na carne” como “mensageiro de Satanás”, e o retrato que Pedro fez do ministério de Jesus como “curando a todos os oprimidos do diabo”.3 Assim, não importa o que se possa dizer mais tarde acerca do “bem” que Deus pode tirar do sofrimento, não devemos nos esquecer de que é bem extraído do mal.

Segundo, com freqüência o sofrimento é devido ao pecado. É claro que originalmente a doença e a morte entraram no mundo através do pecado. Mas agora estou pensando no pecado atual. Às vezes o so­frimento vem por causa do pecado de outros, como acontece quando as crianças sofrem nas mãos de pais desamorosos ou irresponsáveis, os pobres e os famintos sofrem pela injustiça econômica, os refugiados sofrem por causa das crueldades da guerra, e os que morrem nas estradas por causa de motoristas embriagados.

Outras vezes o sofrimento pode ser a conseqüência de nosso próprio pecado (o uso indevido de nossa liberdade) e até mesmo sua pena­lidade. Não devemos fazer vista grossa às passagens bíblicas que atribuem a enfermidade ao castigo de Deus.4 Ao mesmo tempo de­vemos repudiar firmemente a horrível doutrina hindu do carma, que atribui todo sofrimento a ações erradas nesta ou numa existência anterior, e a doutrina dos assim chamados consoladores de Jó, quase tão horrível quanto aquela. Apresentaram sua ortodoxia convencional de que todo sofrimento pessoal é devido ao pecado pessoal, e um dos principais propósitos do livro de Jó é contradizer essa noção popular mas errônea. Jesus também rejeitou-a categoricamente.5

Terceiro, o sofrimento é devido à nossa sensibilidade humana à dor. O infortúnio é agravado pela dor (física ou emocional) que sen­timos. Mas os sensores da dor do sistema nervoso central emitem valiosos sinais de aviso, necessários à sobrevivência pessoal e social. Talvez a melhor ilustração dessa verdade seja a descoberta do Dr. Paul Brand no Hospital Evangélico Velore, no Sul da Índia, de que o mal de Hansen (lepra) entorpece as extremidades do corpo, de modo que as úlceras e infecções que se desenvolvem sejam problemas se­cundários, devidos à perda de sensibilidade. Se vamos proteger-nos a nós mesmos, é necessário que as reações nervosas doam. “Graças a Deus por inventar a dor!”, escreveu Philip Yancey. “Não acho que ele poderia ter feito um trabalho melhor. E linda.”6

Quarto, o sofrimento é devido ao tipo de ambiente em que Deus nos colocou. Embora a maior parte do sofrimento humano seja causada pelo pecado humano (C. S. Lewis calculou que chega a quatro quintos, e Hugh Silvester dezenove vinte avós, isto é, 95%7), os de­sastres naturais como inundações, tufões, terremotos e secas não o são. É verdade que se pode argumentar que Deus não pretendia que as “áreas inóspitas” da Terra fossem habitadas, muito menos am­pliadas pela irresponsabilidade ecológica.8 Entretanto, grande quan­tidade de gente continua vivendo onde nasceram e não têm possibilidade de mudar. O que se pode dizer, então, acerca das assim chamadas “leis” naturais que na tempestade e no vendaval impla­cavelmente esmagam pessoas inocentes?

  1. S. Lewis foi ao ponto de dizer que “nem mesmo a Onipotência poderia criar uma sociedade de almas livres sem ao mesmo tempo criar uma Natureza relativamente independente e ‘inexorável’ “.9 “O de que precisamos para a sociedade humana”, prosseguiu Lewis, “é exatamente o que temos — algo neutro”, estável e possuindo “uma natureza própria fixa”, como a arena na qual podemos agir livremente uns para com os outros e para com ele.10 Se vivêssemos em um mundo no qual Deus impedisse que o mal acontecesse, como o Super-homem dos filmes de Alexander Salkind, a atividade livre e responsável seria impossível.

Sempre tem havido aqueles que insistem em que o sofrimento é sem sentido, e que não podemos detectar absolutamente nenhum propósito nele. No mundo antigo encontravam-se nesse grupo os estóicos (que ensinavam a necessidade de submissão corajosa às leis inexoráveis da natureza) e os epicureus (que ensinavam que o melhor escape do mundo imprevisível era a indulgência no prazer). E no mundo moderno, os existencialistas seculares acreditam que tudo, inclusive a vida, o sofrimento e a morte, é sem sentido e, portanto, absurdo.

Mas os cristãos não podem seguir por esse beco sem saída. Pois Jesus mencionou o sofrimento como sendo tanto para a “glória de Deus”, para que o Filho fosse glorificado através dele, como “para que se manifestem nele as obras de Deus”.” Essa afirmação de alguma maneira (ainda a ser explorada) parece significar que Deus está ope­rando a revelação da sua glória no sofrimento e através dele, como fez (embora de modo diferente) por meio do de Cristo. Qual é, pois, o relacionamento entre o sofrimento de Cristo e o nosso? Como é que a cruz nos fala em nossa dor? Desejo sugerir, com base nas Escrituras, seis possíveis respostas a essas questões, as quais parecem passar gradativamente do mais simples ao mais sublime.

 

Perseverança paciente

Primeiro, a cruz de Cristo é um estímulo à perseverança paciente. Em­bora tenhamos de reconhecer o sofrimento como mal e, portanto, resistir a ele, contudo chega a época em que ele tem de ser aceito realisticamente. É então que o exemplo de Jesus, o qual o Novo Tes­tamento coloca diante de nós para que o imitemos, traansforma-se em inspiração. Pedro conduziu a mente dos seus leitores ao sofrimento, especialmente se fossem escravos cristãos com donos severos durante a perseguição de Nero. Não lhes seria de nenhum crédito em parti­cular o serem chicoteados por causa de algum malefício e o agüen­tarem com paciência. Mas se, por fazerem o bem, suportassem o sofrimento, essa atitude seria agradável a Deus. Por que? Porque o sofrimento não merecido faz parte do chamado cristão, visto que o próprio Cristo havia sofrido por eles, deixando-lhes o exemplo para que seguissem em seus passos. Embora sem pecado, ele foi insultado, mas jamais retaliou (1 Pedro 2:18-23).

Jesus deu o exemplo de perseverança bem como de não retaliação, o qual nos devia incentivar a perseverar na carreira cristã. Necessi­tamos olhar firmemente para Jesus, pois ele “suportou na cruz, não fazendo caso da ignomínia”. Portanto: “Considerai, pois, atenta­mente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossas almas” (Hebreus 12:1-3).

Embora esses dois exemplos se relacionem especificamente à opo­sição ou perseguição, parece legítimo dar-lhes uma aplicação mais ampla. Cristãos de todas as gerações, ao contemplarem os sofrimentos de Cristo, os quais culminaram na cruz, têm obtido a inspiração para suportar com paciência a dor não merecida, sem reclamar nem revidar.

É verdade que ele não teve de suportar muitos tipos de sofrimento. Contudo, seus sofrimentos foram notavelmente representativos. To­memos Joni Eareckson como exemplo. Em 1967, uma adolescente linda e atlética, sofreu terrível acidente de mergulho na baía de Chesapeake, o qual a deixou quadriplégica. Ela conta a sua história com tocante honestidade, inclusive suas épocas de amargura, ira, rebeldia e desespero, e como, gradativamente, através do amor de familiares e amigos, ela chegou a confiar na soberania de Deus e construir uma nova vida de pintura com a boca e conferências públicas sob a bênção de Deus. Certa noite, mais ou menos três anos depois do acidente de Joni, Cindy, uma de suas amigas mais chegadas, assentada ao lado da cama de Joni, falou-lhe de Jesus, dizendo: “Ora, ele também ficou paralisado”. Não lhe havia ocorrido antes que na cruz Jesus sofreu dor parecida com a dela, ficando incapaz de se mover, praticamente paralisado. Ela achou esse pensamento profundamente confortador.12

 

Santidade madura

Segundo, a cruz de Cristo é o caminho da santidade madura. Por mais extraordinário que possa parecer, podemos acrescentar: “foi para ele e o é para nós”. É necessário que consideremos as implicações de dois versículos um tanto negligenciados da carta aos Hebreus:

Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse por meio de sofrimentos o Autor da salvação deles (2:10).

Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem (5:8-9; cf. 7:28).

Os dois versículos falam de um processo no qual Jesus foi “aper­feiçoado”, e os dois atribuem o processo de aperfeiçoamento ao seu “sofrimento”. Não, é claro, que ele jamais tivesse sido imperfeito no sentido de haver cometido erros, pois Hebreus sublinha a sua pu­reza.13 Antes, foi que ele necessitava de mais experiência e oportu­nidades a fim de se tornar teleios, “maduro”. Em particular, ele “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu”. Ele jamais foi desobediente. Mas seus sofrimentos foram o campo de teste no qual a sua obediência se tornou adulta.

Se o sofrimento foi o meio pelo qual o Cristo sem pecado se tornou maduro, tanto mais nós necessitamos dele em nossa pecaminosidade. É interessante que Tiago usa a mesma linguagem de “perfeição” ou “maturidade” com relação aos cristãos. Assim como o sofrimento conduziu Cristo à maturidade através da obediência, da mesma forma ele nos leva à maturidade por meio da perseverança.

Meus irmãos, tendo por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais per­feitos e íntegros, em nada deficientes {Tiago 1:2-4; cf. Ro­manos 5:3-5).

As Escrituras desenvolvem três imagens gráficas a fim de exem­plificar como Deus usa o sofrimento com relação ao seu propósito de nos tornar santos, em outras palavras, semelhantes a Cristo. São a do pai que corrige os filhos, do trabalhador em metal que refina a prata e o ouro, e do lavrador que poda a sua vinha. Podemos ver o quadro do pai e dos filhos já em Deuteronômio, onde Moisés diz: “Sabe, pois, no teu coração que, como um homem disciplina a seu filho, assim te disciplina o Senhor teu Deus.” A metáfora aparece novamente no livro de Provérbios, onde acentua-se que a disciplina do pai é uma expressão do seu amor pelos filhos, e os versículos de Provérbios são citados na carta aos Hebreus e ecoados na mensagem de Jesus à igreja laodicense.14

A passagem de Hebreus é a mais longa. Ensina que a disciplina paterna distingue os filhos verdadeiros dos ilegítimos; que Deus nos disciplina apenas para o nosso bem, a saber, “a fim de sermos par­ticipantes da sua santidade”; que no momento a disciplina é dolorosa, desagradável, mas que mais tarde ela “produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça”, deveras, não para todos (pois alguns se rebelam contra a disciplina), mas para aqueles que se submetem a ela e, assim, são “por ela exercitados”.

O segundo quadro de Deus como o de refinador de prata e ouro ocorre três vezes no Antigo Testamento, onde se torna claro que o lugar do refinamento de Israel foi na “fornalha da aflição”, e Pedro o aplica à provação de nossa fé cristã em “várias provações”. O pro­cesso é doloroso, mas por meio dele nossa fé (cujo valor é “muito mais precioso do que o ouro”) terá a prova de que é genuína e resultará na glória de Jesus Cristo.15

O terceiro quadro o próprio Jesus desenvolveu em sua alegoria da videira, na qual a frutificação dos ramos (quase certamente um sím­bolo do caráter cristão) dependerá não somente de estarem na videira, mas também em serem podados pelo viticultor. A poda é processo drástico, que muitas vezes parece cruel, à medida que a videira é recortada e deixada quase desnuda. Mas quando voltam a primavera e o verão, há muito fruto.16

As três metáforas descrevem um processo negativo, a disciplina da criança, a refinação do metal e a poda da videira. Mas as três também sublinham o resultado positivo — o bem-estar da criança, a pureza do metal e a frutificação da videira. Não devemos hesitar em dizer, portanto, que Deus pretende que o sofrimento seja um “meio da graça”. Muitos dos seus filhos podem repetir a afirmação do Salmista: “Antes de ser afligido andava errado, mas agora guardo a tua palavra” (Salmo 119:67). Pois se o amor de Deus é amor santo, como o é, então se interessa não apenas em agir em santidade (como na cruz de Cristo), mas também em promover a santidade (no povo de Deus). Como já vimos, o sofrimento favorece a perseverança e purifica a fé. Ele também desenvolve a humildade, como na ocasião em que o espinho na carne de Paulo teve o propósito de impedir que ele se tornasse orgulhoso. E aprofunda a visão, como através do amor não correspondido de Oséias por Gômer foram-lhe reveladas a fidelidade e a paciência do amor de Yavé por Israel.17

Tampouco devíamos deixar de perceber os benefícios que podem advir à vida de outras pessoas, como o altruísmo heróico dos que cuidam dos enfermos, dos senis e dos deficientes, e o surgimento espontâneo da generosidade para com os povos famintos da África.

A igreja Católica Romana tradicionalmente tem falado de “sofri­mento redentor”. Seu ensino oficial é que, mesmo depois que a culpa de nossos malefícios é perdoada, seu castigo ainda deve ser comple­tado aqui nesta vida ou no purgatório (que é “a igreja sofrendo”). Assim, o perdão não cancela a penitência, pois o castigo deve ser acrescentado ao perdão. As melhores penitências, além do mais, não são as designadas pela igreja mas as enviadas pelo próprio Deus — a saber, “cruzes, enfermidades, dores” — as quais propiciam o nosso pecado. Há, na verdade, “dois motivos para o sofrimento pelo pecado: primeiro, expiação a Deus, e segundo, reformulação de nossa alma.” Pois o sofrimento subjuga nossos apetites corporais, purifica-nos e restaura-nos.18

Esse tipo de ensino, que parece tanto subestimar a perfeição com a qual Deus, mediante Cristo, nos redimiu e nos perdoou, como atribuir eficácia expiadora a nossos sofrimentos, é muito ofensivo à mente e consciência protestante. Alguns católicos romanos, porém, usam a expressão “sofrimento redentor”, simplesmente para indicar que a aflição, embora a alguns torne amargos, a outros transforma.

É nesse sentido que Mary Craig escreve do “poder redentor do sofrimento”. Ela descreve como dois de seus quatro filhos nasceram com severas deficiências, Paulo, seu segundo filho, com a síndrome incapacitadora e desfiguradora de Hohler, e Nicholas, seu quarto filho, com a síndrome de Down. Ela conta a história de sua luta espiritual sem autopiedade ou melodrama. No capítulo final do seu livro, apropriadamente intitulado Bênçãos, ela medita no significado do sofrimento, e é então que introduz a palavra “redentor”. “Em face da evidência”, escreve ela, “não creio que o sofrimento seja, em última análise, absurdo ou sem sentido”, embora “seja freqüentemente difícil continuar a convencer a nós mesmos” desse fato. A princípio reagimos com incredulidade, ira e desespero. Contudo, “o valor do sofrimento não está na dor que acarreta,. . . mas no que o sofredor faz com ele. . . É no pesar que descobrimos as coisas que são realmente importantes; é no pesar que descobrimos a nós mesmos”.

Visto que Jesus é o único Redentor, e o Novo Testamento jamais usa a linguagem da redenção acerca de nada que fazemos, seremos sábios em não falar de “sofrimento redentor”. “Sofrimento criativo”, uma expressão popularizada pelo Dr. Paul Tournier em seu livro mais recente, seria melhor, desde que não se imagine que o sofrimento na realidade crie alguma coisa. Mas ele certamente estimula a “criativi­dade”, e é essa a mensagem. Tournier começa referindo-se a um artigo escrito pelo Dr. Pierre Rentchnick, de Geneva, em 1975, intitulado “Órfãos Dirigem o Mundo”. Tendo como base a vida dos políticos mais influentes do mundo, ele fez a espantosa descoberta de que quase 300 deles foram órfãos, de Alexandre, o Grande, e Júlio César a Carlos V, e de Luís XIV a George Washington, Napoleão e (menos felizmente) Lenin, Hitler, Stalin e Castro. Essa ocorrência natural­mente chamou a atenção do Dr. Tournier, visto que havia muito estivera promovendo a importância que tem no desenvolvimento da criança o papel harmonioso do pai e da mãe — exatamente o que os políticos mais influentes não tiveram! O Dr. Rentchnick desenvolveu a teoria de que a “insegurança criada pela privação emocional deve ter despertado nessas crianças uma excepcional força de poder.” O mesmo era evidentemente verdadeiro quanto a dirigentes religiosos, visto que, por exemplo, Moisés, Buda, Confúcio e Maomé também foram órfãos.19

O professor e psicólogo André Haynal, que tem estudado essa teoria, sugere que a “privação” de qualquer espécie (não apenas o ser órfão) jaz por trás da “criatividade” (termo que ele prefere a “força de poder”). Finalmente, o Dr. Tournier confirma a teoria com sua experiência clínica. Durante cinqüenta anos seus pacientes confiaram a ele suas dores e conflitos. “Tenho-os visto mudar por intermédio do sofrimento”, diz ele. Não que o sofrimento (que é um mal) seja a causa do crescimento; mas é sua oportunidade).” Por que, pois, alguns crescem através da deficiência, enquanto outros não? Sua reação de­pende, acredita ele, “mais da ajuda que recebem de outros do que da sua disposição hereditária”, e, em particular, depende do amor. “Privações sem o auxílio do amor significam catástrofe”, ao passo que “o fator decisivo em levar a privação a produzir fruto é o amor”.

Portanto, não é tanto o sofrimento que amadurece as pessoas, mas a maneira pela qual elas reagem a ele. “Embora o sofrimento em si mesmo possa não ser criativo, muito raramente somos criativos sem o sofrimento. . . Pode-se dizer também que não é o sofrimento que faz a pessoa crescer, mas que a pessoa não cresce sem o sofrimento.”

Combinam-se assim o ensino bíblico e a experiência pessoal, com o propósito de ensinar que o sofrimento é o caminho para a santidade ou maturidade. Sempre há um algo indefinido acerca das pessoas que sofreram. Possuem certa fragrância que falta nas outras. Exibem a mansidão e a ternura de Cristo. Uma das afirmativas mais admiráveis que Pedro faz em sua primeira carta é que “aquele que sofreu na carne deixou o pecado” (4:1). A aflição física, ele parece estar dizendo, na realidade tem o efeito de fazer que paremos de pecar. Sendo assim, às vezes indago se o teste real de nossa fome por santidade não é a disposição em experimentar o sofrimento, em qualquer grau, se tão-somente através dele Deus nos tornar santos.

 

O serviço sofredor

Terceiro, a cruz de Cristo é o símbolo do serviço sofredor. Conhecemos os quatro ou cinco “Cânticos do Servo” de Isaías, os quais, em con­junto, formam o retrato do “servo sofredor do Senhor”,20 e começa­mos no capítulo anterior a examinar o elo entre sofrimento e serviço. De caráter manso e conduta gentil (não clamará nem gritará), e amável em suas lides com os outros (não esmagará a cana quebrada nem apagará a torcida que fumega), contudo ele foi chamado por Yavé desde antes de nascer, cheio com o Espírito e receptivo à sua Palavra, com a finalidade de trazer Israel de volta para ele e ser uma lâmpada para as nações. Nessa tarefa ele persevera, mostrando intrepidez no rosto, embora suas costas sejam chicoteadas, sua barba arrancada, seu rosto cuspido, ele próprio seja levado como um cordeiro para o matadouro e morre, levando os pecados de muitos. Entretanto, como resultado de sua morte, muitos serão justificados e os gentios, es­pargidos com sua bênção.

O aspecto particularmente admirável desse quadro é que sofrimento e serviço, paixão e missão caminham juntos. Vemo-lo claramente em Jesus, que é o servo sofredor por excelência, mas necessitamos lem­brar-nos de que a missão do servo de levar luz aos gentios também é cumprida pela igreja (Atos 13:47). Para a igreja, portanto, como para o Salvador, sofrimento e serviço vão lado a lado.

Mais do que isso. Não é apenas que sofrimento e serviço caminham juntos, mas que o sofrimento é indispensável ao serviço frutífero ou eficaz. É essa a mensagem inescapável das palavras de Jesus:

“É chegada a hora de ser glorificado o Filho do homem. … Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estou, ali estará também o meu servo. E se alguém me servir, o Pai o honrará. . .”

“E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer” (João 12:23-26; 32-33).

É difícil aceitar a lição da ceifa. A morte é mais do que um caminho para a vida; é o segredo da frutificação. A menos que caia no solo e morra, o grão de trigo permanece como uma única semente. Per­manece vivo, mas sozinho; mas se morrer, multiplicará. Antes de tudo Jesus estava-se referindo a si mesmo. Alguns gregos desejavam vê-lo? Ele estava prestes a ser “glorificado” na morte. Logo ele seria levantado na sua cruz a fim de atrair a si mesmo todas as pessoas. Durante seu ministério terreno ele se restringiu grandemente às ove­lhas perdidas da casa de Israel, mas depois da sua morte e ressur­reição, ele teria uma autoridade universal e um apelo universal.

Mas Jesus não estava falando somente de si mesmo. Ele estava proferindo um princípio geral, e prosseguiu a aplicá-lo aos discípulos que devem segui-lo e, como ele, perder suas vidas (vv. 25-26) — não necessariamente através do martírio, mas pelo menos no serviço autodoador e sofredor. Para nós, como para ele, a semente deve morrer a fim de multiplicar-se.

Paulo é o exemplo mais notável desse princípio. Examinemos estes textos tirados de três cartas diferentes:

Por esta causa eu, Paulo, o prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vós, gentios. . . vos peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, pois nisso está a vossa glória (Efésios 3:1, 13).

Agora me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preen­cho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja (Colossenses 1:24).

Segundo o meu evangelho; pelo qual estou sofrendo. . . Por esta razão, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus com eterna glória (2 Timóteo 2:8-10).

Paulo afirma nas três passagens que suporta os seus sofrimentos “por amor de vós, gentios”, “a favor do seu corpo, que é a igreja” ou “por causa dos eleitos”. Visto que o faz por eles, crê que obterão algum benefício dos sofrimentos dele. Que beneficio será esse? Na passagem aos colossenses ele diz que seus sofrimentos preenchem o que resta das aflições de Cristo. Podemos ter certeza de que Paulo não está atribuindo eficácia expiadora a seus sofrimentos, em parte porque sabia que a obra expiadora de Cristo fora concluída na cruz, e em parte porque usa a palavra especial “aflições” (thlipseis) que denota suas perseguições. São estas que não estavam terminadas, pois ele continuou a ser perseguido na sua igreja. Que benefício, pois, Paulo pensava que os seus sofrimentos trariam ao povo? Dois dos três textos ligam as palavras “sofrimentos” e “glória”. “Meus sofri­mentos. . . está a vossa glória”, diz ele aos efésios. De novo, “sal­vação. . . com eterna glória”, serão obtidas pelos eleitos por causa dos sofrimentos que Paulo está suportando (2 Timóteo 2:8-10).

Parece um absurdo. Será que Paulo realmente pensa que seus sofrimentos obterão a salvação e a glória deles? Sim, ele pensa. Não diretamente, contudo, como se seus sofrimentos possuíssem eficácia salvadora como os de Cristo, mas indiretamente porque estava so­frendo pelo evangelho que eles deviam ouvir e aceitar a fim de serem salvos. Uma vez mais, o sofrimento e o serviço iam juntos, e os sofrimentos do apóstolo eram um elo indispensável na cadeia da salvação deles.

Raramente se ensina hoje o lugar do sofrimento no serviço e o da paixão na missão. Mas o maior segredo da eficácia evangelística ou missionária é a disposição de sofrer e morrer. Pode ser uma morte à popularidade (mediante a pregação fiel de um evangelho bíblico não popular), ou ao orgulho (por meio de métodos modestos de acordo com o Espírito Santo), ou ao preconceito racial ou nacional (mediante a identificação com outra cultura), ou ao conforto material (adotando um modo de vida mais simples). Mas o servo, se quiser levar luz às nações, deve sofrer, e a semente, a fim de se multiplicar, deve morrer.

 

A esperança da glória

Quarto, a cruz de Cristo é a esperança da glória final. Jesus olhava firmemente além da sua morte para a sua ressurreição, além dos seus sofrimentos para a sua glória e, deveras, foi sustentado em suas tri­bulações pela “alegria que lhe estava proposta” {Hebreus 12:2). É igualmente claro que ele esperava que seus seguidores partilhassem essa perspectiva. A inevitabilidade do sofrimento é tema regular em seu ensino e no dos apóstolos. Se o mundo o odiou e perseguiu, odiaria e perseguiria também os seus discípulos. O sofrimento era, de fato, uma “dádiva” de Deus a todo o seu povo, e uma parte do seu chamado. Portanto, não deviam surpreender-se com ele, como se alguma coisa estranha lhes estivesse acontecendo. Era algo que podiam esperar. Nada é mais direto do que a afirmação de Paulo de que “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.”21

Além do mais, ao sofrer como estavam sofrendo com Cristo, eram mais do que espectadores dos seus sofrimentos agora, mais do que testemunhas, mais até mesmo do que imitadores; eram, na realidade, participantes dos seus sofrimentos, partilhando o seu “cálice” e o seu “batismo”.22 Assim, como partilham dos seus sofrimentos, também partilhariam da sua glória. A inevitabilidade do sofrimento devia ser vista não somente como devida ao antagonismo do mundo, mas tam­bém como uma preparação necessária. “Através de muitas tribula­ções, nos importa entrar no reino de Deus”, advertiam os apóstolos aos novos convertidos na Galácia. É compreensível, pois, que a mul­tidão incontável dos redimidos a que João viu perante o trono de Deus foi descrita tanto como tendo saído “da grande tribulação” (no con­texto, certamente um sinônimo da vida cristã) e como tendo alvejado as suas vestiduras “no sangue do Cordeiro”.23

É, pois, a esperança da glória que torna o sofrimento suportável. A perspectiva essencial a desenvolver é a do propósito eterno de Deus, a qual é tornar-nos santos ou semelhantes a Cristo. Devemos meditar com freqüência nos grandes textos do Novo Testamento que unem a eternidade passada e a futura dentro de um único horizonte. Porque Deus “nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele”. Seu propósito é apresentar-nos “com exultação, imaculados diante da sua glória”. É quando esses horizontes se encontram dentro de nossa visão que temos por certo que “os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada em nós”, porque a “nossa leve e mo­mentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação”.

E o que é a “glória”, esse destino final, ao qual Deus está fazendo que tudo coopere para o bem, inclusive os nossos sofrimentos? É que sejamos “conformes à imagem de seu Filho”. O prospecto futuro que torna o sofrimento suportável, portanto, não é a recompensa em forma de “prêmio”, a qual poderia levar-nos a dizer que “sem dor não há vitória” ou “sem cruz não há coroa”, mas a única recompensa de valor inestimável, a saber, a glória de Cristo, sua própria imagem perfeitamente recriada em nós. “Seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é.”24

É esse o tema dominante do livro Destinado Para a Glória, de Margaret Clarkson, canadense, autora e escritora de hinos. Nascida num lar “desamoroso e infeliz”, e afligida desde a infância com horríveis dores de cabeça e artrite aleijante, o sofrimento tem sido seu companheiro de toda a vida. Nos primeiros dias ela experimentou o espectro total das reações humanas à dor, inclusive “raiva, frustração, desespero” e até mesmo a tentação ao suicídio. Mas, gradativamente, chegou a crer na soberania de Deus, a saber, que Deus “mostra sua soberania sobre o mal usando o próprio sofrimento que é inerente ao mal a fim de ajudar na execução de seu propósito eterno”. Nesse processo ele desenvolveu uma alquimia maior do que a dos antigos alquimistas, que procuravam transformar metais mais baixos em ouro. Pois o “único alquimista verdadeiro” é Deus. Ele tem êxito até mesmo em “transmutar o mal em bem”. Somos “destinados para a glória”, a “glória para a qual ele nos criou — a fim de nos fazer semelhantes ao seu Filho”.

Podemos responder, é claro, que não desejamos que Deus nos mude, particularmente se o meio necessário usado for a dor. “Podemos deveras desejar”, escreveu C. S. Lewis, “que tivéssemos tão pouca importância para Deus que ele nos deixasse em paz a fim de seguirmos nossos impulsos naturais — que ele desistisse de tentar treinar-nos em algo tão diferente de nossos seres naturais: mas, uma vez mais, não estamos pedindo mais amor, mas menos. . . Pedir que o amor de Deus se contente conosco como somos é o mesmo que pedir que Deus cesse de ser Deus. . .”25

Essa visão do sofrimento como o caminho da glória para o povo de Deus é, indubitavelmente, bíblica. Não se pode dizer o mesmo, con­tudo, das tentativas de universalizar o princípio e aplicá-lo a todo o sofrimento, sem exceção. Considere, por exemplo, um dos livros ofi­ciais publicados em preparação para a sexta assembléia do Concilio Mundial de Igrejas em Vancouver (1983), cujo título anunciado era “Jesus Cristo, a Vida do Mundo”. Esse livro, embora escrito por John Pouíton, surgiu de uma reunião de vinte e cinco teólogos represen­tantes, cujas perspectivas ele, portanto, incorpora. Um dos seus temas principais é o paralelo que existe entre a morte e ressurreição de Jesus por um lado, e o sofrimento e os triunfos do mundo atual por outro. Dessa forma, a totalidade da vida humana é representada como uma celebração eucarística. “Não poderíamos dizer”, pergunta John Pouí­ton, “que onde há a conjunção do sofrimento e da alegria, da morte e da vida, há eucaristia?”26

A base dessa interpretação é o fato de que “o padrão do auto-sacrifício e de novos começos não é um padrão que somente membros da igreja cristã experimentam e por ele vivem. Fora do seu círculo, outros também parecem refleti-lo, às vezes de maneira admirável”. Deveras, continua John Poulton, o entrecruzamento da dor e da ale­gria, do sofrimento e da segurança, da traição e do amor é discernível na vida cotidiana em todos os lugares. Reflete o inverno e a primavera, a Sexta-feira da Paixão e a Páscoa. Portanto, já não há necessidade da evangelização fora de moda. A nova evangelização será a obra do Espírito Santo em “focalizar em Jesus Cristo uma forma já vislumbrada na experiência humana”.

Esse, porém, não é o evangelho do Novo Testamento. A Bíblia não nos dá liberdade de afirmar que todo o sofrimento humano leva à glória. É verdade que Jesus se referiu a guerras, terremotos e fomes como o “princípio das dores de parto”, anunciando a emergência do novo mundo, como Paulo, similarmente comparou a frustração, o cativeiro da corrupção da natureza e seus gemidos à angústia do parto.27 Mas essas são referências à promessa da renovação cósmica tanto da sociedade quanto da natureza; a Bíblia não as aplica à salvação de indivíduos nem de povos.

Outro exemplo é a tentativa comovente feita pelo Dr. Ulrich Simon, um cristão judeu alemão que fugiu para a Inglaterra em 1933, e cujo pai, irmão e outros parentes pereceram nos acampamentos de con­centração nazistas, em aplicar o princípio de morte-ressurreição, sofrimentos-glória ao holocausto. Em seu livro Uma Teologia de Auschzvitz (1967) ele tentou “mostrar o padrão do sacrifício de Cristo, que resume todas as agonias, como a realidade por trás de Auschwitz”. Pois o holocausto (que naturalmente significa “oferta queimada”) “não é menos sacrifício do que aquele prefigurado nas Escrituras”, isto é, no servo sofredor do Senhor.

Dessa maneira, “o mecanismo do assassínio foi transformado numa oblação para Deus”, e aqueles que deram a sua vida nas câmaras de gás identificaram-se com o “supremo sacrifício por intermédio de uma analogia partilhada”; foram bodes expiatórios, levando os pecados do povo alemão. Mas agora os “mortos de Auschwitz se levantaram do pó”, e sua ressurreição é vista na volta de Israel à pátria, na conquista do anti-semitismo que “levou a Auschwitz e aí foi redimido”, e no testemunho judaico atual ao mundo concernente à sacralidade da vida humana e da irmandade amorosa de todos os homens. O grão de trigo, tendo caído no solo, produziu esse fruto. Assim, os sofrimentos de Auschwitz diz Ulrich Simon, estão “dentro do padrão da criação e redenção”. Em particular, interpretando o holocausto “à luz do sofrimento de Cristo” e vendo seu resultado como “refletido no triunfo do Crucificado”, tem sido possível atribuir “significado es­piritual ao que não tem sentido”. “Aventuramo-nos a atribuir a glória do Cristo assunto aos milhões que morreram nas câmaras de gás”.

Não podermos deixar de nos comover com essa tentativa de re­construção, e compreendemos os motivos pelos quais o Dr. Simon deseja desenvolver um “conceito interminável, universal e cósmico da obra de Cristo”. Mas receio que esse tipo de “teologia de Ausch­witz” seja especulativa em vez de bíblica. Creio haver um modo me­lhor e mais bíblico de relacionar a cruz com Auschwitz, e tratarei dele mais na frente. Nesse ínterim, dentro da comunidade dos que Deus, em sua misericórdia, redimiu, devia ser possível para nós ecoar as afirmações de Paulo de que “nos gloriemos nas próprias tribulações” porque “gloriamo-nos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5:2-3).

Até aqui, procurando discernir os relacionamentos entre os sofri­mentos de Cristo e os nossos, à parte da inspiração do exemplo dele, vimos que o sofrimento (para nós como para Jesus) é o caminho designado por Deus da santificação (santidade madura), da multiplicação (serviço, frutífero) e da glorificação (nosso destino final). Espero que tudo isso, não pareça superficial. É fácil apresentar teorias, bem sei. Mas as coisas tomam aparência diferente quando o horizonte se fecha sobre nós, um horror de grandes trevas nos engolfa, e não cintila um vislumbre de luz que nos assegure que o sofrimento ainda pode ser produtivo. Nessas horas só podemos apegar-nos à cruz, onde o próprio Cristo demonstrou que a bênção vem através do sofrimento.

 

A fé e o livro de Jó

Quinto, a cruz de Cristo é o fundamento de uma fé racional. Todo sofrimento, físico e emocional, duramente prova a nossa fé. Como pode ser racional, quando a calamidade nos avassala, continuarmos a confiar em Deus? A melhor resposta a essa questão é aprovidenciada pelo livro de Jó. Valerá a pena esclarecermos a sua tese.

Jó é apresentado como um homem “íntegro e reto, temente a Deus, e que se desviava do mal”. Mas então (depois que nós, como leitores, recebemos um vislumbre das deliberações do concilio celestial), Jó é atacado por uma série de tragédias pessoais: ele é privado sucessi­vamente de seu gado, seus servos, seus filhos e filhas, e sua riqueza. Seria difícil exagerar a magnitude dos desastres que lhe sobrevieram. No restante do livro o espectro total de respostas possíveis ao sofri­mento é ensaiado no diálogo que se desenvolve entre Jó, seus três assim chamados “consoladores”, o jovem Eliú e finalmente o próprio Deus. Cada um dos quatro propõe uma atitude diferente, e particu­larmente notável em cada uma é o lugar reservado ao ego.

A atitude do próprio Jó é uma mescla de autocomiseração e auto-afirmação. Recusando-se a seguir o conselho da esposa de que amal­diçoasse a Deus e morresse, contudo ele começa a amaldiçoar o dia em que nasceu e então angustiadamente anseia pelo dia da sua morte. Ele rejeita totalmente as acusações de seus três amigos. Pelo contrário, molda as suas próprias acusações contra Deus. Deus está brutalmente cruel para com ele, até mesmo sem piedade. Pior ainda, Deus negou-lhe a justiça (27:2). A competição entre eles é altamente injusta, visto que os competidores são tão desiguais. Se tão-somente houvesse um mediador que arbitrasse entre eles! Se tão-somente ele próprio pu­desse encontrar a Deus, a fim de pessoalmente acusá-lo! Nesse ín­terim, ele veementemente mantém sua inocência e está confiante de que um dia será vindicado.

Em contraste, podemos melhor descrever a atitude recomendada pelos amigos de Jó como auto-acusação. Jó está sofrendo porque é pecador. Suas aflições são a penalidade divina por seus malefícios. É essa a ortodoxia convencional acerca dos perversos, a qual repetem ad nauseam. “Todos os dias o perverso é atormentado”, diz Elifaz (15:20). “A luz dos perversos se apagará”, acrescenta Bildade (18:5), enquanto a contribuição de Zofar é que “o júbilo dos perversos é breve” (20:5). Dessa premissa básica tiram a inevitável conclusão de que Jó está sofrendo por causa da sua maldade: “Porventura não é grande a tua malícia, e sem termo as tuas iniqüidades?” (22:5). Mas Jó não aceita nada disso. Seus amigos são “médicos que não valem nada” (13:4) e “consoladores molestos” (16:2), que só falam “estul-tfcia” e até mesmo “falsidade” (21:34). E Deus mais tarde confirma o veredicto de Jó. Ele se refere à “estultída”, deles e diz que não falaram “o que era reto, como o meu servo Jó” (42:7-8).

A seguir entra Eliú. Embora ele esteja irado pelo fato de Jó estar pretendendo “ser mais justo do que Deus” (32:2), espera para falar pois tem menos idade do que os outros. Quando fala não é fácil dis­tinguir sua posição da apresentada pelos três consoladores. Pois às vezes ele também repete a antiga ortodoxia. Ele também antecipa o discurso de Yavé acerca da criação. Contudo, parece certo chamar a atitude recomendada por ele de autodisciplina, pois sua ênfase distin­tiva é que fala de muitas maneiras (inclusive o sofrimento) a fim de “apartar o homem do seu desígnio e livrá-lo da soberba” (33:14-17). Assim, Deus abre os ouvidos das pessoas “para a instrução” e “ao aflito livra por meio da sua aflição” (36:10, 15). De fato, “quem é mestre como ele?” (v. 22). No seu ensino ele apela às pessoas a que se arrependam, e procura livrá-las de seus apertos.

Finalmente, quando se esgotaram os argumentos de Jó, dos con­soladores e de Eliú, Yavé revela-se e fala. A julgar da resposta de Jó, a atitude recomendada agora pode ser chamada de auto-entrega. Deus está longe de juntar-se às acusações dos três amigos de Jó, e não o culpa pelo fato de afirmar sua inocência (42:8). O Senhor leva a sério as reclamações de Jó, portanto, responde-lhe. Contudo, Jó proferiu “palavras sem entendimento”, visto que jamais é correto culpar, acu­sar, e muito menos “argüir” a Deus (40:2). “Acaso anularás tu, de fato, o meu juízo” pergunta Deus (40:8). E Jó responde: “Eu te co­nhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza” (42:5-6). Antes ele se defendeu, teve pena de si mesmo e afirmou-se a si mesmo, e acusou a Deus. Agora, despreza a si mesmo e adora a Deus. O que foi que ele “viu” que o converteu da auto-afirmação à auto-entrega?

Jó foi convidado a examinar de novo a criação, e vislumbrou a glória do Criador. Deus bombardeia-o com perguntas. Onde estava quando a terra e o mar foram formados? Pode ele controlar a neve, a tem­pestade e as estrelas? Possui ele a perícia de supervisionar e sustentar o mundo animal — os leões e as cabras montanhesas, o jumento selvagem e o boi selvagem, a avestruz e o cavalo, os falcões e as águias? Acima de tudo, consegue Jó compreender os mistérios e sub­jugar a força do hipopótamo e do crocodilo? O que Deus deu a Jó foi uma extensa introdução às maravilhas da natureza, e, por meio dela, uma revelação de seu gênio criador, a qual silenciou as suas acusações e o levou — mesmo em meio ao pesar, sofrimento e dor — a humilhar-se a si mesmo, arrepender-se da sua rebeldia, e confiar novamente em Deus.

Se para Jó foi racional confiar no Deus cuja sabedoria e poder foram revelados na criação, quanto mais racional é que confiemos no Deus cujo amor e justiça foram revelados na cruz? A racionalidade da con­fiança jaz na conhecida confiabilidade de seu objeto. E ninguém é mais digno de confiança do que o Deus da cruz. A cruz nos assegura que não há possibilidade de erro da justiça ou de derrota do amor agora ou no último dia. “Aquele que não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosa­mente com ele todas as coisas?” (Romanos 8:32). É a atitude auto-doadora de Deus na dádiva de seu Filho que nos convence de que ele não reterá nada de nós daquilo de que precisamos, e não permitirá que nada nos separe do seu amor (vv. 35-39). Assim, entre a cruz, onde o amor e a justiça de Deus começaram a ser claramente reve­lados, e o dia do juízo, quando serão completamente revelados, é racional que confiemos nele.

Temos de aprender a subir o monte chamado Calvário, e dessa posição vantajosa contemplar todas as tragédias da vida. A cruz não soluciona o problema do sofrimento, mas supre a perspectiva essen­cial da qual podemos examiná-lo. Visto que Deus demonstrou seu santo amor e justiça amorosa num evento histórico (a cruz), nenhum outro evento histórico (quer seja pessoal, quer global) pode superá-lo ou desprová-lo. Certamente deve ser por isso que o rolo (o livro da história e destino) encontra-se agora nas mãos do Cordeiro que foi morto, e é por isso que somente ele é digno de quebrar os seus selos, revelar o seu conteúdo e controlar o fluxo do futuro.

 

A dor de Deus

O sexto modo pelo qual os sofrimentos de Cristo se relacionam com os nossos é o mais importante da série. É que a cruz de Cristo é a prova do amor solidário de Deus, isto é, de sua solidariedade pessoal e amorosa para conosco em nossa dor. Pois o verdadeiro aguilhão do sofrimento não é o infortúnio em si, nem mesmo a sua dor ou a sua injustiça, mas seu aparente abandono por Deus. A dor é suportável, mas a aparente indiferença de Deus não o é. Às vezes o vemos como estando descansando, ou até mesmo tirando uma soneca em alguma cadeira de balanço celestial, enquanto milhões de pessoas morrem de fome. Pensamos nele como um espectador, quase tendo prazer no sofrimento do mundo, e desfrutando seu próprio isolamento. Philip Yancey avançou um pouco mais e proferiu o indizível que podemos ter pensado mas que jamais ousamos colocar em palavras: “Se Deus realmente está no comando, de algum modo ligado a todo o sofri­mento do mundo, por que ele é tão caprichoso, injusto? É ele um sadista cósmico que se deleita em ver-nos retorcer?”28 Jó havia dito algo parecido: Deus se ri “do desespero do inocente” (9:23).

É essa terrível caricatura de Deus que a cruz desfaz em pedaços. Não devemos vê-lo numa cadeira de balanço, mas numa cruz. O Deus que nos permite sofrer, ele próprio uma vez sofreu em Cristo, e continua a sofrer conosco e para nós hoje. Visto que a cruz é um evento histórico de uma vez por todas, no qual Deus em Cristo levou os nossos pecados e morreu a nossa morte por causa do seu amor e justiça, não devemos pensar nela como a expressão de um eterno levar o pecado no coração de Deus. O que a Bíblia nos permite dizer, entretanto, é que o eterno e santo amor de Deus, que foi singular­mente demonstrado no sacrifício da cruz, continua a sofrer conosco em cada situação a que é chamado. Mas é legítimo falarmos de um Deus sofredor? Não nos impede de assim fazer a doutrina tradicional da impassibilidade divina? O adjetivo latino impassibilis significa “in­capaz de sofrer” e, portanto, “vazio de emoção”. Seu equivalente grego apathes era aplicado pelos filósofos a Deus, a quem declaravam estar acima do prazer e da dor, visto que estes interromperiam a sua tranqüilidade.

Os primitivos pais gregos da igreja aceitaram essa noção sem muitas reservas. Em conseqüência, seu ensino acerca de Deus às vezes parece mais grego do que hebraico. Era também ambivalente. É verdade que sabiam que Jesus Cristo, o Filho Encarnado, sofreu, mas não o próprio Deus. Por exemplo, Inácio escreveu a Policarpo do Deus que “não pode sofrer, que por amor a nós aceitou o sofrimento”, isto é, em Cristo.29 De modo semelhante, írineu afirmava que por causa da encarnação “o invisível se fez visível, o incompreensível, compreensível, e o impassível, passível”.30 É verdade, novamente, eles sabiam que os autores do Antigo Testamento escreveram livremente do amor, piedade, ira, pesar e ciúme de Deus. Mas acrescentavam que essas coisas eram antropormofismos que não deviam ser tomados literal­mente, visto que a natureza divina não é movida por todas as emo­ções.31 Gregório Taumaturgus, no terceiro século, chegou a escrever que “em seu sofrimento Deus mostra a sua impassibilidade”.

Esses e outros antigos pais da igreja merecem a nossa compreensão. Desejam acima de tudo salvaguardar as verdades de que Deus é perfeito (de modo que nada pode acrescentar a ele nem dele subtrair) e que Deus é imutável {de modo que nada pode perturbá-lo).32 Hoje ainda devemos desejar manter essas verdades. Deus não pode ser influenciado contra a sua vontade nem de fora nem de dentro. Ele jamais é vítima de ações que o influenciem de fora, ou de emoções que o perturbem por dentro. Como disse William Temple: “Há um sentido altamente técnico no qual Deus, como Cristo o revelou, é ‘sem paixões’; pois ele é Criador e supremo, e jamais é ‘passivo’ no sentido de que as coisas lhe aconteçam sem o seu consentimento; ele também é constante, e livre de rajadas de sentimento que o leve de um lado para outro”. Todavia, Temple prosseguiu a dizer, com razão, que o vocábulo “impassível” como usado pela maioria dos teólogos na rea­lidade significava “incapaz de sofrer”, e que “nesse sentido sua predicação de Deus é quase totalmente falsa”.33

É verdade que a linguagem do Antigo Testamento é uma acomo­dação à compreensão humana, e que Deus é representado como ex­perimentando emoções humanas. Contudo, aceitar que seus sentimentos não sejam humanos não é negar que sejam reais. Se forem apenas metafóricos, “então o único Deus que nos resta será o iceberg infinito da metafísica”.34

Em contraste com esse conceito, podemos agradecer ao erudito judaico Abraham Heschel, que, em seu livro Os Profetas refere-se à sua “teologia patética”, porque retratam a um Deus de sentimento. Os “antropomorfismos” freqüentes do Antigo Testamento (os quais atribuem o sofrimento humano a Deus) não devem ser rejeitados como rudes ou primitivos, escreve ele, antes, devem ser recebidos com prazer como cruciais à nossa compreensão dele: “a idéia mais exaltada aplicada a Deus não é a sabedoria infinita, o poder infinito, mas o interesse infinito”. Assim, antes do dilúvio Yavé “se arrependeu” de haver criado os seres humanos, e “isso lhe pesou no coração”, e quando o seu povo foi oprimido por estrangeiros, na época dos juizes, o Senhor “não pôde reter a sua compaixão por causa da desgraça de Israel”.35

Mais admirável ainda são as ocasiões em que, por intermédio dos profetas, Deus expressa o seu anelo e compaixão para com seu povo e dirige-se diretamente a Israel: “Com amor eterno eu te amei. . . pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama. . . Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti. . . Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel?. . . Meu coração está comovido dentro em mim, as minhas compaixões à uma se acendem.”36

Além do mais, se a revelação divina final e completa foi dada em Jesus, então seus sentimentos e sofrimentos são um reflexo autêntico dos sentimentos e sofrimentos do próprio Deus. Os escritores do evangelho atribuem-lhe o espectro total das emoções humanas, pas­sando do amor e compaixão através da ira e indignação ao pesar e alegria. A teimosia do coração humano causou-lhe angústia e ira. Na entrada do túmulo de Lázaro, em face da morte, ele chorou de pesar e agitou-se de indignação. Ele chorou novamente sobre Jerusalém, e proferiu um lamento sobre sua cegueira e obstinação. E ainda hoje ele pode “compadecer-se das nossas fraquezas”, sentindo conosco nelas.37

A melhor maneira de confrontar a perspectiva tradicional da impassibilidade divina, porém, é perguntar “que significado pode haver num amor que não é custoso ao que ama”.38 Se o amor é autodoador, então inevitavelmente é vulnerável à dor, visto que se expõe a si mesmo à possibilidade de rejeição e insulto. Foi a “afirmação cristã fundamental de que Deus é amor”, escreve Jürgen Moltmann, “que em princípio quebrou o encanto da doutrina aristotélica de Deus” (isto é, como “impassível”). “Fosse Deus incapaz de sofrer. . ., então ele também seria incapaz de amar”, ao passo que “aquele que é capaz de amar também é capaz de sofrer, porque ele também se abre ao sofrimento que o amor acarreta.”39 Certamente que foi por isso que Bonhoeffer, do cárcere, nove meses antes da sua execução, escreveu ao seu amigo Eberhard Bethge: “somente o Deus sofredor pode aju­dar”.40

Digno de menção especial, como um forte oponente de perspectivas falsas da impassibilidade divina, está o erudito luterano japonês Kazoh Kitamori. Ele escreveu o seu admirável livro Teologia da Dor de Deus em 1945, não muito depois de as primeiras bombas atômicas terem destruído Hiroshima e Nagasáqui. Foi inspirado, diz-nos ele, por Jeremias 31:20, onde Deus descreve seu coração como comovido ou compadecido por Efraim. “O coração do evangelho me foi revelado como a ‘dor de Deus’ “, escreve ele. Para começar, a ira divina contra o pecado lhe causa dor. “Essa ira de Deus é absoluta e firme. Podemos dizer que o reconhecimento da ira de Deus é o princípio da sabedoria.” Mas Deus ama as próprias pessoas com as quais está irado. De modo que a “dor de Deus reflete a sua vontade de amar o objeto de sua ira”. É o seu amor e a sua ira que, juntos, produzem a dor. Porque aqui, na arrebatadora frase de Lutero, é “Deus lutando com Deus”. “O fato de que esse Deus que luta não é dois deuses diferentes mas o mesmo Deus, causa-lhe dor”. A dor de Deus é “uma síntese de sua ira e amor” e é “sua essência”. Ela foi revelada de modo supremo na cruz. Pois “a dor de Deus resulta do amor daquele que intercepta e bloqueia sua ira para conosco, aquele que foi ele próprio atingido por sua ira”. Esta fraseologia é admiravelmente ousada. Ajuda-nos a com­preender como a dor de Deus continua onde quer que sua ira e amor, sua justiça e misericórdia, encontram-se em tensão hoje.

Durante a segunda metade deste século, é provável que tenha ha­vido dois exemplos altamente conspícuos do sofrimento humano. O primeiro é a fome e a pobreza numa escala global. O segundo é o holocausto nazista no qual foram mortos seis milhões de judeus. De que maneira a cruz fala a males como esses?

Estima-se que um milhão de pessoas hoje, por terem falta do su­primento das necessidades básicas da vida, podem ser corretamente descritas como “destituídas”. Muitas levam uma existência lamen­tável nas favelas da Ásia, da América espanhola e do Brasil. A penúria do povo, a lotação de seus miseráveis abrigos, a falta de saneamento elementar, a nudez das crianças, a fome, a doença, o desemprego e a ausência de educação — tudo isso vem a ser um relato horroroso da necessidade humana. Não é de surpreender que tais favelas sejam focos de amargura e ressentimento; o que surpreende é que a desumanidade e injustiça da situação não gera uma ira ainda mais virulenta. Rolf Italiaander imagina um homem pobre de uma das favelas do Rio de Janeiro, o qual sobe até a colossal estátua de Cristo, a 704 metros de altura, que sobressai sobre o Rio, “o Cristo do Corcovado”. O homem pobre diz à estátua:

Subi a ti, ó Cristo, dos alojamentos imundos e confinados lá de baixo. . . para colocar na tua presença, com o maior respeito, estas considerações: há 900.000 pessoas como eu nas favelas desta esplêndida cidade. . . E tu, ó Cristo. . . permaneces aqui no Corcovado cercado pela glória divina? Desce lá para as favelas. Vem comigo para as favelas e mora conosco lá embaixo. Não fiques longe de nós; vive entre nós e renova a nossa fé em ti e no Pai. Amém.41

O que diria Cristo em resposta a tal apelo? Não diria ele: “Eu realmente desci para viver entre vocês, e ainda vivo entre vocês”?

Esse é, de fato, o modo pelo qual alguns teólogos latino-americanos estão apresentando a cruz hoje. Em seu livro Cristologia nas Encruzi­lhadas, por exemplo, o professor Jon Sobrino, de El Salvador, desen­volve um protesto tanto contra uma teologia puramente acadêmica que falha em tomar ações apropriadas, como contra o “misticismo” tradicional e choroso da cruz que é passivo e individualista demais. Em lugar disso, ele procura relacionar a cruz ao mundo moderno e à injustiça social. Foi o próprio Deus, pergunta ele, “intocado pela cruz histórica por ser ele essencialmente intocável?” Não, não. “O próprio Deus, o Pai, estava na cruz de Jesus”. Além disso, “Deus é encontrado nas cruzes dos oprimidos”. Desde que o professor Sobrino não esteja negando o propósito expiador fundamental da cruz, acho que não deveríamos rejeitar o que ele afirma. Eis seu resumo: “Na cruz de Jesus o próprio Deus está crucificado. O Pai sofre a morte do Filho e toma sobre si mesmo a dor e o sofrimento da história”. E, nessa solidariedade última com os seres humanos, Deus ‘”revela-se a si mesmo como o Deus do amor”.

Portanto, o que dizer do holocausto? “Depois de Auschwitz”, disse Richard Rubinstein, “é impossível crer em Deus”. Certa tarde de domingo, num subacampamento de Buchenwald, um grupo de eru­ditos judeus decidiu levar Deus a julgamento por haver ele negligen­ciado o seu povo escolhido. Apresentaram-se testemunhas para a promotoria e para a defesa, mas o caso da promotoria era esmagador. Os juizes eram rabis. Pronunciaram o réu culpado e solenemente o condenaram.42 É compreensível. A pura bestialidade dos acampa­mentos e das câmaras de gás, e o fracasso de Deus em intervir em favor do seu antigo povo, apesar de suas orações freqüentes e fer­vorosas, têm sacudido a fé de muita gente.

Eu já disse que não acredito que o modo de interpretar Auschwitz e seu resultado seja em termos de morte e ressurreição. Haverá, então, outra maneira? Acho que Elie (Eliezer) Wiesel pode ajudar-nos. Nas­cido judeu húngaro, e agora autor de renome internacional, ele nos deu em seu livro Noite um relato profundamente comovedor de suas experiências de infância nos acampamentos de morte de Auschwitz, Buna e Buchenwald. Ele não tinha ainda completado quinze anos quando a Gestapo chegou e deportou todos os judeus de Sighet, na primavera de 1944. Viajaram de trem durante três dias, oitenta pessoas em cada vagão de gado. Ao chegarem a Auschwitz, os homens e as mulheres foram separados, e Elie jamais viu sua mãe ou irmão no­vamente, “Jamais me esquecerei daquela noite, a primeira no acam­pamento, que transformou a minha vida numa longa noite, sete vezes amaldiçoada e sete vezes selada. Jamais me esquecerei daquela fumaça (do crematório). . . Jamais me esquecerei daquelas chamas que con­sumiram a minha fé para sempre. . . Jamais me esquecerei daqueles momentos que assassinaram meu Deus e minha alma, e transfor­maram os meus sonhos em pó. . .” Pouco mais tarde ele escreveu: “Alguns falavam acerca de Deus, de seus caminhos misteriosos, dos pecados do povo judeu, e de sua libertação futura. Mas eu tinha cessado de orar. Como eu me identificava com Jó! Eu não negava a existência de Deus, mas duvidava de sua justiça absoluta”.

Talvez a experiência mais horrorosa de todas foi quando os guardas primeiro torturaram e depois enforcaram um menino, “uma criança com um rosto refinado e lindo”, um “anjo de olhos tristes”. Logo antes do enforcamento Elie ouviu alguém detrás dele murmurar: “Onde está Deus? Onde está ele?” Milhares de prisioneiros foram forçados a assistir ao enforcamento (o menino levou meia hora para morrer) e então tiveram de passar por ele marchando, olhando-o de cheio no rosto. Atrás de si Elie ouviu a mesma voz perguntar: “Onde está Deus agora?” “E ouvi dentro em mim uma voz responder: Onde está ele? Ei-lo aqui — ele está pendurado aqui nesta forca. . .” Suas palavras eram mais verdadeiras do que ele sabia, pois ele não era cristão. Deveras, com cada fibra do seu ser ele se rebelou contra Deus ter permitido que o seu povo fosse torturado, morto, e queimado. “Eu estava sozinho — terrivelmente sozinho num mundo sem Deus e sem o homem. Sem amor nem misericórdia.” Teria ele dito isso se, em Jesus, tivesse visto Deus no cadafalso?

Há boa evidência bíblica de que Deus não apenas sofreu em Cristo, mas que também ele em Cristo ainda sofre com o seu povo. Não está escrito a respeito de Deus, que durante os primeiros dias do amargo cativeiro de Israel no Egito, ele não apenas viu a sua miséria, e ouviu o seu gemido, mas também “em toda a angústia deles foi ele angus­tiado”? Não perguntou Jesus a Saulo de Tarso por que o perseguia, revelando assim solidariedade com a sua igreja? É maravilhoso que possamos partilhar dos sofrimentos de Cristo; é mais maravilhoso ainda que ele partilhe dos nossos. Verdadeiramente seu nome é “Ema­nuel”, “Deus conosco”. Mas sua “compaixão” não se limita ao so­frimento com o povo da aliança. Não disse Jesus que, ao ministrarmos aos famintos e aos sedentos, aos estrangeiros, aos nus, aos enfermos e aos presos, estaríamos ministrando a ele, indicando que ele se iden­tificava com todas as pessoas necessitadas e sofredoras?43

Eu mesmo jamais poderia crer em Deus, se não fosse pela cruz. O único Deus em que creio é o que Nietzsche ridicularizou como o “Deus da cruz”. No mundo real da dor, como se pode adorar um Deus que seja imune a ela? Já entrei em muitos templos budistas em diferentes países da Ásia e parei respeitosamente ante a estátua de Buda, as pernas e os braços cruzados, os olhos fechados, o fantasma de um sorriso a brincar em torno dos lábios, um olhar distante, isolado das agonias do mundo. Mas cada vez, depois de algum tempo, tive de me virar. E, na imaginação, voltei-me para aquela figura solitária, retorcida e torturada na cruz, os cravos atravessando as mãos e os pés, as costas laceradas, os membros deslocados, a fronte sangrando por causa dos espinhos, a boca intoleravelmente sedenta, lançada nas trevas do abandono de Deus. É esse o Deus para mim! Ele deixou de lado a sua imunidade à dor. Ele entrou em nosso mundo de carne e sangue, lágrimas e morte. Ele sofreu por nós. Nossos sofrimentos tornam-se mais manejáveis à luz dos seus. Ainda há um ponto de interrogação contra o sofrimento humano, mas em cima dele podemos estampar outra marca, a cruz, que simboliza o sofrimento divino. “A cruz de Cristo. . . é a única autojustificação de Deus em um mundo como o nosso.”44

A pequena peça de teatro intitulada “O Longo Silêncio”, diz tudo:

No fim dos tempos, bilhões de pessoas estavam espalhadas numa grande planície perante o trono de Deus.

A maioria fugia da luz brilhante que se lhes apresentava pela frente. Mas alguns grupos falavam animadamente — não com vergonha abjeta, mas com beligerância.

“Pode Deus julgar-nos? Como pode ele saber acerca do sofrimento?” perguntou uma impertinente jovem de ca­belos negros. Ela rasgou a manga da blusa e mostrou um número que lhe fora tatuado num acampamento de con­centração nazista. “Nós suportamos terror. . . espanca­mentos. . . tortura. . . morte!”

Em outro grupo um rapaz negro abaixou o colarinho. “E que dizer disto?” exigiu ele, mostrando uma horrível quei­madura de corda. “Linchado. . . pelo único crime de ser preto!”

Em outra multidão, uma colegial grávida, de olhos mal­criados. “Por que devo sofrer?”, murmurou ela. “Não foi culpa minha.”

Por toda a planície havia centenas de grupos como esses. Cada um deles tinha uma reclamação contra Deus por causa do mal e do sofrimento que ele havia permitido no seu mundo. Quão feliz era Deus por viver no céu onde tudo era doçura e luz, onde não havia choro nem medo, nem fome nem ódio. O que sabia Deus acerca de tudo o que o homem fora forçado a suportar neste mundo? Pois Deus leva uma vida muito protegida, diziam.

De modo que cada um desses grupos enviou o seu líder, escolhido por ter sido o que mais sofreu. Um judeu, um negro, uma pessoa de Hiroshirna, um artrítico horrivel­mente deformado, uma criança talidomídica. No centro da planície tomaram conselho uns com os outros. Finalmente estavam prontos para apresentar o seu caso.

Antes que pudesse qualificar-se para ser juiz deles, Deus deve suportar o que suportaram. A decisão deles foi que Deus devia ser sentenciado a viver na terra — como ho­mem!

“Que ele nasça judeu. Que haja dúvida acerca da legi­timidade de seu nascimento. Dê-se-lhe um trabalho tão difícil que, ao tentar realizá-lo, até mesmo a sua família pensará que ele está louco. Que ele seja traído por seus amigos mais íntimos. Que ele enfrente acusações falsas, seja julgado por um júri preconceituoso, e condenado por um juiz covarde. Que ele seja torturado.

“Finalmente, que ele conheça o terrível sentimento de estar sozinho. Então que ele morra. Que ele morra de tal forma que não haja dúvida de que morreu. Que haja uma grande multidão de testemunhas que o comprove.”

E quando o último acabou de pronunciar a sentença, houve um longo silêncio. Ninguém proferiu palavras. Nin­guém se moveu. Pois, de súbito, todos sabiam que Deus já havia cumprido a sua sentença.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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