SAINDO DAS TREVAS – A Vida de Abraão

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SAINDO DAS TREVAS – A Vida de Abraão

Leia Gênesis 17:1-8; Efésios 4-6
D eus não havia falado diretamente com Abraão durante 13 anos, desde que ele decidira resolver o assunto sozinho e produzir um descendente para si. Abraão já tinha 86 anos quando Agar lhe deu à luz a Ismael (Gn 16:16). Quando o Senhor voltou a lhe aparecer, ele estava com 9? anos (17:1).

O SILÊNCIO DO INVERNO

F. B. Meyer escreveu: “Deve ter sido uma terrível provação, lembrar-se da promessa que lhe havia sido dada e buscar descobrir em seu coração se a causa estava nele próprio. Esses períodos de silêncio sempre serviram para exercitar os corações dos santos de Deus, levando-os a dizer com o salmista: ‘Não sejas surdo para comigo; para que não suceda, se te calares acerca de mim, seja eu semelhante aos que descem à cova’ (SI 28:1). Porém, eles são para o coração o que o silêncio

do inverno é para a natureza, que a prepara para o desabrochar que

* » 1 ocorre na primavera .

Nem um sussurro sequer

E difícil nos identificarmos com os 13 anos de silêncio de Abraão. Pare para pensar por um momento. Tanto eu quanto você temos a

Bíblia, a Palavra de Deus revelada. Podemos consultá-la todos os dias. Não apenas sentar e ler o relato completo da vida de Abraão, mas também ver sua vida numa perspectiva global, de Gênesis a Apocalipse.

Nós sabemos por que Deus o chamou de Ur para ir até a terra de Canaã. Não apenas temos a oportunidade de ler nas Escrituras a história de Israel, a nação que foi prometida a Abraão, mas podemos continuar acompanhando o relato histórico sobre o povo de Deus até o presente momento. Já vimos a terra ser restaurada a eles em 1948 e também aguardamos pelo próximo e incrível capítulo da história deles e da nossa: a segunda vinda de Jesus Cristo.

Mais importante ainda, já experimentamos as bênçãos que foram prometidas a Abraão, a vinda do Messias, o Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Salvador do mundo. Esta parte do plano ainda está-se desenrolando e temos o privilégio de levar esta mensagem de esperança por todo o mundo, um mundo que Abraão não tinha nem idéia que existia.

Contrastando com a nossa própria experiência, é difícil haver uma identificação com a perspectiva limitada de Abraão. Deus falava com ele brevemente e de tempos em tempos. Como já vimos, 13 anos já haviam se passado desde que ele ouvira a Deus diretamente.

Um plano de vôo humano

Durante aquele período de tempo, Abraão fazia o que podemos chamar de “vôo cego”, pensando que estava seguindo o plano de Deus para sua vida. Não é surpresa que foi uma experiência embaraçosa e desconfortável para Abraão quando ele teve de se deparar com o fato de que ele e Sara estavam seguindo um plano que era meramente humano. Aquele era o seu próprio plano de vôo. Mas Deus não havia abandonado Abraão. Mesmo que ele e Sara tivessem tentado resolver as coisas totalmente sozinhos, ao pensar que estavam ajudando a Deus, o plano soberano do Senhor estava andando conforme o planejado.

Sei que é difícil mesclar e entender os fatores humano e divino nessas histórias do Antigo Testamento. Os dois, sem dúvida, estavam ocorrendo ao mesmo tempo. Abraão e Sara com certeza estavam

fora da vontade de Deus, mas ao mesmo tempo eles também estavam trilhando o trajeto desenhado pelo Senhor na eternidade e que não interferia em sua habilidade de tomar decisões erradas e serem responsáveis por elas.

Parece confuso? Sim. Mas é por isso que Deus é Deus. Sua soberania e nosso livre-arbítrio são conceitos inter-relacionados que nunca conseguiremos compreender completamente até que sejamos levados para a vida eterna. Até mesmo no céu iremos passar toda a eternidade nos admirando com a maravilha disso tudo.

Todas as coisas cooperam para o bem

Deus usou os erros de Abraão para preparar tanto ele quanto Sara para darem o seu próximo passo de fé importante. E durante esses períodos de inverno que a maioria de nós aprende algumas das nossas lições espirituais mais importantes. Por um simples motivo: Deus consegue atrair a nossa atenção. Nessas ocasiões ficamos prontos para ouvir.

Isso imediatamente passou a ser verdade na vida de Abraão e mais tarde na de Sara. Quando Deus falou novamente com o patriarca, ele lhe deu uma mensagem e Abraão respondeu. O silêncio do inverno havia se transformado novamente em primavera. A mensagem do Senhor era alta e clara: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso\ anda na minha presença e sê perfeito” (Gn 17:1). •

El-Shaddai

Deus havia se identificado por muitos nomes, mas essa é a primeira vez que ele se revela como El-Shaddai, que quer dizer Deus Todo-Poderoso. Antes disso, Abraão o conhecia como Elohim, o Deus que criou a natureza, aquele que faz as coisas acontecerem, o Deus que a tudo preserva. El-Shaddai, por outro lado, refere-se ao Deus que sujeita a natureza, aquele que pode fazer o mundo natural agir contra si mesmo.

Uma coisa é Deus ter criado o universo e suas leis naturais — para fazer o Sol, a Lua e as estrelas circularem em suas órbitas, estabe-

lecer as leis da gravidade e outros fenômenos previsíveis. Mas é outra coisa para Deus fazer com que o Sol e a Lua parem, como ele fez quando respondeu à oração de Josué durante a batalha de Israel contra os amonitas (JslO:12-13).As Escrituras registram que “Não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, tendo o Senhor, assim, atendido à voz de um homem; porque o Senhor pelejava por Israel” (v. 14).

Deus criou a natureza, e mesmo que ele tenha determinado que as leis naturais e imutáveis governem o universo de uma maneira ordeira e previsível, ele pode revertê-las ou passar por cima dessas leis e operar milagres em meio à ordem natural de sua criação. Ele é o Deus onipotente, El-Shaddai, aquele que não está limitado em seu poder.
AS LEIS DE REPRODUÇÃO

Abraão e Sara ainda tinham de conhecer e confiar em Deus como aquele que era capaz e estava disposto a fazer milagres, especialmente na área da reprodução. Eles já conheciam o Senhor como um Deus pessoal, que ama a humanidade e quer se comunicar conosco. Também já haviam tido experiências onde Deus foi seu escudo. Eles já haviam visto Deus guiar as suas vidas, protegendo-os enquanto eles viajavam de Ur para Canaã. Ele já os havia libertado da mão de Faraó e os protegido dos quatro reis guerreiros de Canaã.

Mas Abraão e Sara foram incapazes de entender as promessas específicas de que teriam um filho de uma maneira sobrenatural. Eles podiam apenas ver esse processo natural, através de olhos humanos. Por isso concluíram que precisavam ajudar a Deus. Do seu ponto de vista, eles não acreditavam que Deus era capaz de fazer com que Sara concebesse um filho, mesmo sendo estéril, especialmente por ela já ter passado da idade normal de se dar à luz. Essa perspectiva incoerente a respeito do poder e da habilidade divina os levou a cometer um sério erro.

Mas Deus usou o erro que eles cometeram para ensinar-lhes — e a nós também – uma grande lição. Ele é o Deus Todo-Poderoso. Ele

é capaz de operar milagres. Ele criou leis naturais e pode passar por cima delas.

Quando o Senhor quer dar sua mensagem especial para a humanidade, ele decide usar seu poder dessa maneira. Milênios mais tarde, Jesus Cristo foi concebido de forma sobrenatural pelo Espírito Santo no útero de Maria, mais uma vez mesclando elementos humanos e divinos. Esse é um motivo por que ele é identificado como o Deus-homem. O Deus infinito era seu pai e uma mulher finita, sua mie.

Para comprovar que Jesus Cristo era o “Deus-homem”, seu Pai celestial o capacitou a operar milagres que viraram as leis naturais do avesso. Ele transformou água em vinho, ignorando o processo natural de cultivar e colher uvas. Jesus curou pessoas que estavam doentes, revertendo ou prolongando as leis naturais do nascimento e da morte. Ele até mesmo levantou da sepultura pessoas que já haviam morrido. No caso de Lázaro, o corpo já havia começado a se decompor. Jesus Cristo caminhou sobre a água, desafiando as leis da gravidade. Ele parou instantaneamente os ventos e as chuvas e acalmou as ondas perigosas do mar da Galiléia, vencendo mais uma vez as leis naturais.

Quando Deus capacitou Abraão e Sara a conceberem um filho em sua velhice, tudo isso foi uma prévia de coisas maiores ainda. Isaque, o filho da promessa, seria o canal usado para trazer Jesus Cristo ao mundo de uma maneira milagrosa para ser uma bênção para todos que dessem ouvido à sua mensagem.

MUDANÇAS DE NOME SÃO IMPORTANTES

Quando Deus apareceu para Abraão com um novo nome, El-Shaddai, ele também deu novos nomes a Abraão e Sara. O Senhor lhes disse: “Não será mais chamado Abrão [que significa “pai exaltado”]; seu nome será Abraão [ou seja, “pai de multidões”] ”(Gn 17:5, NVI). Deus então explicou por que motivo estava dando um novo nome a seu servo: “eu o tornarei extremamente prolifero; de você farei nações e de você procederão reis” (v. 6, NVI). Deus também mudou o nome de Sara: “De agora em diante sua mulher já não se chamará Sarai; seu nome será Sara [que quer dizer “princesa”]. Eu a abençoarei

e também por meio dela darei a você um filho. Sim, eu a abençoarei e dela procederão nações e reis de povos” (w. 15,16, NVI).

Esses novos nomes seriam lembretes constantes, que a cada minuto os lembraria da promessa feita por Deus a Abraão e Sara, e de seu poder para cumprir aquela promessa. Mudar seus nomes, ao mesmo tempo em que se apresentou pela primeira vez como El-Shaddai, era outra maneira de expressar a graça do Senhor e seu desejo de alcançar a todos os povos. Seu silêncio não demonstrava qualquer punição ou vingança, mas disciplina amorosa e uma forma de treinar Abraão e Sara a andarem por fé para fazer a perfeita vontade de Deus.

Abraão aprendeu essa lição rapidamente. Veja a reflexão de Paulo sobre o que aconteceu:

Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera.

Romanos 4:18-21

ANDA NA MINHA PRESENÇA E SÊ PERFEITO

Quando o Senhor se revelou a Abraão, ele se concentrou em uma segunda lição que estava ensinado a Abraão durante os 13 anos de silêncio. Deus lhe disse: “Anda na minha presença e sê perfeito” (Gn 17:1).

Essa ordem divina tem relação com sua revelação de que ele era El-Shaddai, o Deus Todo-Poderoso. Quando temos uma perspectiva correta de Deus (de quem ele é, o que ele tem feito e está continuamente fazendo por nós), isso deveria afetar a maneira que vivemos nossas vidas.

Abraão tinha falhado em sua caminhada com Deus. Ainda que seus motivos fossem corretos, isso não mudava o fato de que ele havia pecado. Ele não havia consultado a Deus. Tinha sido impacien-

te. Tentou resolver as coisas sozinho. Afastara-se da perfeita vontade de Deus. Mas agora estava pronto para ouvir, disposto a fazer o que Deus desejava que ele fizesse. Vemos um homem cujo coração estava amaciado e disposto a servir ao Senhor que ele amava, apesar de ter falhado durante sua caminhada com Deus.

Andar na presença do Senhor e ser perfeito significa, literalmente, ser completo, íntegro. Deus não estava sugerindo que ele esperava que Abraão enquanto estivesse na terra fosse viver sem pecados ou ser perfeito no sentido literal da palavra. Se fosse isso que Deus esperava dele, então teríamos de chegar à conclusão de que o Senhor desejava que Abraão se tornasse igual a ele em sua santidade e em todos os aspectos, algo totalmente impossível. Abraão tinha um longo caminho a percorrer em seu crescimento espiritual para que conseguisse refletir a justiça de Deus, e ele nunca alcançaria seu objetivo até que fosse levado até a presença de Deus no céu.

Ainda hoje, mesmo nós, que temos em mãos a revelação completa de Deus na forma escrita, bem como na pessoa de Jesus Cristo, estamos sempre sujeitos ao pecado e continuamos a estar abaixo da perfeição moral do Senhor e de seus padrões. Mas é impossível andar diante de Deus de tal maneira que nossas vidas estejam refletindo contínua e progressivamente a vida de Jesus Cristo. Quanto mais viermos a conhecer verdadeiramente o amor de Deus, seu poder e sua graça demonstrados a nós, mais iremos querer nos tornar como seu Filho Jesus Cristo, que revelou o Pai a nós (Jo T.14). *

UM FASCINANTE PARALELO NO NOVO TESTAMENTO

O melhor comentário a respeito dessas lições que Deus ensinou a Abraão e Sara é a carta que Paulo escreveu aos efésios. De todas as cartas do Novo Testamento, ela (além de Romanos) se destaca como sendo a mais completa em seu ensinamento bíblico e doutrina sobre por que deveriamos viver uma vida santa e o que Deus espera de nós.

Nos primeiros três capítulos de Efésios Paulo descreve o grande poder e a soberana graça de Deus que estão envolvidos em seu divino

plano de redenção. Assim como fez com Abraão e Sara, o Senhor nos escolhe para responder à sua graça. Preste atenção a estas palavras incríveis e impressionantes:

Assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade […] no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência.

Efésios 1:4,5,7,8

Esse grandioso plano de redenção que está agora em andamento é o cumprimento das promessas que Deus fez a Abraão – que através dele todas as nações da terra seriam abençoadas. Aquela promessa refere-se claramente à vinda do Senhor Jesus Cristo para ser o Salvador do mundo.

Paulo estava tomado de tanto entusiasmo e emoção ao apresentar esse plano redentor que terminou a primeira parte da carta aos efésios com a gloriosa doxologia: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (3:20, 21).

Paulo estava dizendo que é por esse motivo que deveriamos andar diante de Deus em justiça e santidade. Deveriamos ser motivados pela sua graça e misericórdia soberana.

NOSSA CAMINHADA CRISTÃ

Após sua apresentação nos três primeiros capítulos de Efésios, onde relatava quem Deus era e o que ele havia feito, está fazendo e irá fazer por nós como seus filhos, Paulo passa a descrever como devemos andar diante de Deus (4:1,17; 5:2,8,15).

Em cinco ocasiões Paulo usou uma metáfora descritiva. A palavra grega é peripateo. Infelizmente, quando essa palavra do Novo Tes-

tamento é traduzida por “viver” em vez de “andar” – como aparece na NVI – perde-se a bela imagem que o apóstolo queria mostrar. Era o mesmo que Deus tinha em mente quando disse a Abraão: “anda na minha presença e sê perfeito” (Gn 17:1).

A palavra hebraica usada por Deus para falar com Abraão é hawlak. Ela aparece no Antigo Testamento cerca de 300 vezes, e em quase 100% delas é usada como uma metáfora. Outra metáfora relacionada a ela é a palavra para “caminho”, que aparece aproximadamente 65 vezes no Antigo Testamento. Por exemplo, ela é usada de uma bela maneira no Salmo 119 e está claramente relacionada com a metáfora de “andar”. Lemos: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos ’ (v. 105).

O CAMINHO DE DEUS ‘

Lembro-me de uma viagem de pesca que fiz para o Alaska. Estávamos em um grupo de nove homens, e bem cedo numa manhã saímos da casa onde estávamos hospedados. Tomamos o hidroavião e fomos até uma pequena enseada. Desembarcamos e subimos uma pequena planície típica daquela região, cercada de montanhas, lagos e rios. No alto do monte encontramos uma trilha que cortava todo aquele belo local. Com um guia indo a nossa frente e outro atrás, seguimos por aquela trilha até chegarmos ao local onde iríamos pescar. Os guias traziam consigo pistolas para nos proteger de qualquer animal selvagem que pudesse tentar nos atacar.

O hidroavião decolou e voltou para a sua base. Enquanto fazia a volta e passava por cima de nós, o piloto fez um movimento para baixo e para cima com as asas do avião. Eu pensei: “Que bacana, ele está dando um ‘tchauzinho’ e nos desejando um bom dia”. Certo? Errado. Descobrimos naquela noite, quando voltamos para nossa base, que sua intenção era nos avisar que havia um urso na mesma trilha que nós, cerca de 200 metros atrás.

Felizmente, não chegamos a nos encontrar com ele. Mas estou contente que aquela trilha nos levou até o nosso destino. Também me alegro por saber que tínhamos guias que estavam ali para nos orientar e nos proteger do perigo. De certa maneira, eles eram como uma

lâmpada para os nossos pés e uma luz para o nosso caminho. Eles estavam nos mostrando claramente como e onde devíamos andar.

Deus tem um caminho por onde ele deseja que andemos em nossa caminhada cristã. É uma trilha de santidade e justiça. Quando a seguimos, ela é boa, agradável e perfeita. Quando saímos dela, acabamos preparando as coisas para que haja um período de problemas e dificuldades em nossas vidas. Acabamos tentando direcionar nossas vidas e, na maioria das vezes, fazemos uma confusão.

Essa era a mensagem de Deus para Abraão e também para nós. Vamos ver como Paulo dá os detalhes dessa mensagem na carta de Efésios.
ANDEIS DE MODO DIGNO

“… andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados” (Ef 4:1b). Paulo iniciou essa parte de sua carta com uma exortação genérica: “Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados” (v. 1). 2

Esta é a mesma lição que Deus estava ensinando a Abraão milhares de anos antes. Deus o havia chamado de modo gracioso e soberano do meio de uma sociedade pagã, tirando-o da perdição e levando o patriarca para um novo país. O Senhor protegeu Abraão, supriu suas necessidades, prometeu nunca abandoná-lo e nem a seus filhos que ainda haveríam de nascer. Na verdade, suas promessas eram eternas. Após o pecado de Abraão com Agar, Deus disse: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sêperfeito” (Gn 17:1b). Em outras palavras, Deus estava dizendo: “Abraão, ande à altura de seu grande chamado”.

“…que não mais andeis como também andam os gentios” (Ef 4:17). Após ter exortado os cristãos efésios a andarem de modo digno de seu grande chamado em Cristo, ele passou a ser mais específico. Resolveu então mostrar como andar de modo digno. Já que muitos daqueles cristãos haviam se convertido, mas vinham de um mundo pagão, ele prosseguiu usando sua metáfora e lhes disse para não andar mais do modo que andam os gentios. O apóstolo Paulo estava

preocupado que aqueles cristãos não voltassem ao seu antigo modo pagão de viver.

Quero enfatizar que essa é a mesma lição que Abraão estava aprendendo. Ao tentar produzir o descendente prometido através de seu relacionamento com Agar, o patriarca demonstrou que havia voltado ao seu antigo estilo de vida e práticas pagãs. O Senhor não queria que ele vivesse mais daquela maneira.

Os gentios que viviam nos dias de Abraão não eram diferentes dos gentios do primeiro século da era cristã. Eles também estavam “obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus”. Eles também haviam endurecido seus corações e se “entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza” (Ef 4:18,19). O cenário descrito por Paulo no primeiro capítulo de Romanos igualava os dias de Abraão aos que ele mesmo estava vivendo. Por isso, quando Deus disse a Abraão: “anda na minha presença e sê perfeito”, ele estava dizendo ao patriarca o mesmo que Paulo estava explicando aos cristãos do Novo Testamento.

“…andai em amor” (Ef 5:2). Quando Jesus Cristo, o descendente prometido de Abraão, pagou pelos pecados de toda a humanidade, ele ensinou a todos nós o que significa o verdadeiro amor. Por isso João escreveu: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos” (1 Jo 3:16).

Em alguns aspectos, o amor de Abraão por Ló é uma janela profética através da qual as pessoas de Canaã podiam olhar e ter uma amostra do amor de Cristo. A atitude do idoso patriarca e seu comportamento em relação ao seu sobrinho não tinham paralelos naquele mundo pagão onde as pessoas pensavam apenas em si mesmas. O que Abraão fez por Ló, entretanto, é apenas um ponto de partida para ilustrar o amor de Cristo quando vemos o que aquele santo do Antigo Testamento estava disposto a fazer com seu filho Isaque. Naquela altura de sua vida, Abraão mal podia compreender como Deus iria testar seu amor e, ao mesmo tempo, dar-lhe a oportunidade de demonstrar o mesmo tipo de amor que Deus tinha por nós quando sacrificou seu Filho unigênito numa rude cruz.

“…andai como filhos da luz ” (Ef 5:8). Para andar de maneira digna de nosso grande chamado em Cristo, devemos também andar “como filhos da luz”. Em certo sentido, esse é o lado positivo das primeiras exortações para não andarmos mais como os gentios (4:17). Eles andavam nas trevas. Como cristãos, devemos refletir a vida de Cristo, que se identificou como sendo a luz do mundo. Jesus disse: “quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (Jo 8:12).

O contexto da exortação de Paulo aos efésios demonstra o que o apóstolo estava pensando:

Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças. […] ‘ Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz (porque o fruto da luz consfste em toda bondade, e justiça, e verdade), provando sempre o que é , agradável ao Senhor. E não sejais cúmplices nas obras infrutí- ‘ feras das trevas; antes, porém, reprovai-as. A

Efésios 5:3, 4, 8-11 ú

Também é fascinante ver o contexto no qual Jesus declarou ser a luz do mundo. Os judeus que diziam ter Abraão como pai não estavam andando na luz. Assim sendo, a Bíblia nos mostra como se deu esse diálogo usando essas poderosas palavras: “Então, lhe responderam: Nosso pai é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me, a mim que vos tenho falado a verdade que ouvi de Deus; assim não procedeu Abraão ’ (Jo 8:39, 40).

Esse é um grande tributo a Abraão. Jesus sem dúvida estava se referindo de modo especial ao período da vida de Abraão após os 13 anos em que Deus esteve em silêncio. Com cada nova revelação de Deus, aquele santo do Antigo Testamento dava outro passo à frente. Porém, mais do que nunca, naquela altura de sua vida, ele começou a andar diante de Deus e ser perfeito.

ANDAR COM PRUDÊNCIA

“Portanto, vede prudentemente como andais” (Ef 5:15). Paulo iniciou essa porção de sua carta com uma exortação genérica para que se ande de modo digno. Após isso, ele forneceu mais detalhes. Como cristãos, não devemos mais andar do modo antigo, voltando aos nossos caminhos pagãos. Em vez disso, precisamos “andar em amor”, a marca registrada da maturidade cristã (1 Co 13:13). Devemos também “andar na luz”, demonstrando em especial a pureza moral. Por isso Paulo conclui esses pensamentos com outra generalização: “Portanto, vede prudentemente como andais”

(Ef 5:15)

Mais uma vez o apóstolo Paulo explicou o que estava querendo dizer. Sermos prudentes com o modo como andamos significa sermos sábios e não insensatos. Isso quer dizer que devemos aproveitar ao máximè cada oportunidade. Significa “compreender qual a vontade do Senhor” (5:15-17). *

Como resultado do seu erro, Abraão estava aprendendo a entender, a vontade de Deus de maneira mais perfeita. O que ele pensava ser uma decisão sábia, e pelos padrões pagãos talvez até fosse, demonstrou ser bastante insensata. Como normalmente acontece, decisões insensatas que nos afastam da perfeita vontade de Deus nos levam a viver períodos de escuridão e dificuldades.

Mais importante ainda, Abraão é um modelo para todos nós pela maneira que respondeu à disciplina de Deus ao tomar aquela decisão tola. Diferente de alguns de nós, Abraão não culpou a Deus ou a outros pela confusão que ele mesmo havia criado. Ele provavelmente sentiu-se tentado a culpar Sara, Agar ou até mesmo Ismael. Além disso, o patriarca poderia ter ficado irritado com Deus por não ter sido mais específico em suas revelações prévias. Mas ele não fez isso. Pelo contrário, aceitou a responsabilidade pelas suas ações e não se afundou num sentimento de autocomiseração. Ele havia agido de modo tolo e tratou de corrigir o problema e andar de modo digno.

TORNANDO-SE UM HOMEM DE DEUS HOJE

Princípios de vida

Os princípios de Deus para nós hoje ficam claros com este estudo, especialmente se virmos as exortações específicas feitas por Paulo aos cristãos efésios. Assim como Abraão, Deus quer que andemos diante dele e sejamos perfeitos. Repito, isso não quer dizer a perfeição em seu sentido mais restrito, mas nosso objetivo deveria ser refletir cada vez mais a justiça e a santidade de Deus em tudo que fizermos. Isso é o que Jesus estava pensando quando declarou no Sermão do Monte: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5:48). Esse é um processo que algumas vezes chamamos de santificação progressiva.

• Princípio 1: Como cristãos, o modo que vivemos deveria refletir nosso supremo chamado e posição em Jesus Cristo.

Pense por um momento no que significa ser “herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8:17). Recebemos uma herança eterna que não merecíamos. Como cristãos, levamos sobre nós “o nome que está acima de todo nome” – o nome de Cristo (Fp 2:9). Trazer reprovação sobre o nome de Cristo é desprezar seu amor e graça e envergonhar e magoar profundamente aquele que derramou seu sangue para que tivéssemos a vida eterna.

Uma bagunça real

Para entendermos essa verdade de maneira mais completa, pense, em termos de realeza, na metáfora que Paulo e outros autores das Escrituras usaram para descrever nosso chamado em Cristo. Reflita sobre o que aconteceu na Inglaterra com o príncipe Charles e a princesa Diana. Eles escandalizaram o trono. Envergonharam seus compatriotas (ao menos eles deveriam sentir-se envergonhados). Trouxeram vergonha sobre a Igreja da Inglaterra, que afirma seguir os ensinamentos de Jesus Cristo. E também envergonharam a rainha e desilu-

diram seus filhos. No final das contas, eles foram uma desgraça para tudo aquilo que significa a realeza.

Também somos parte da realeza

E nossas vidas como filhos do Rei? Assim como todo príncipe é herdeiro do trono, mesmo sem ter méritos próprios, nós também somos co-herdeiros com Cristo, mesmo sem termos qualquer mérito nosso. Tudo o que recebemos é devido à graça e à misericórdia de Deus. Nunca deveriamos escandalizar aquele que deu sua vida para nos redimir.

No dia em que eu estava escrevendo este material, um amigo me ligou e relatou um trágico escândalo sobre um famoso pastor evangélico, um homem que havia influenciado pessoas no mundo todo. Infelizmente, ele estava sendo acusado de ter relações sexuais com várias mulheres de sua igreja. E o que é mais trágico ainda: seus deslizes transformaram-se em manchetes nos telejornais dê todo o país.

Quando Paulo escreveu aos efésios — e para nós —, ele estava apelando para nossa posição e nosso chamado em Cristo como base para andarmos de modo digno de nosso chamado. A exortação era que não deveriamos envergonhar aquele que deu tudo para comprar nossa redenção, não escandalizar o nome de Jesus Cristo, não desiludir outros cristãos porque estamos vivendo vidas inconstantes. E também não fazer com que aqueles que não conhecem a Cristo possam rir e zombar do cristianismo porque afirmamos ser cristãos e, mesmo assim, não estamos caminhando de modo digno de nosso grande chamado.

• Princípio 2: Para viver um vida que honre o nome de Cristo, devemos experimentar “qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12:2).

Essa é a essência do que Paulo estava ensinando nos últimos capítulos de sua carta aos efésios. Após ter explicado como andar de modo digno de nosso chamado, o apóstolo resumiu seu argumento usando

a seguinte exortação: “Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor ’ (Ef 5:17).

Essa conclusão está correlacionada com a exortação de Paulo aos cristãos romanos quando escreveu em Romanos 12:

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável eperfeita vontade de Deus (w. 1,2).

Paulo destacou o chamado de Deus em nossas vidas em Romanos 1-11, assim como fez em Efésios 1-3. Após isso, ele especificou como andar de modo digno de seu chamado em Romanos 12-16, assim como fez em Efésios 4—6. Se fôssemos condensar o todo dessa verdade em um conceito básico, seria simplesmente este: Tendo em vista tudo o que Deus fez por nós, deveriamos viver nossas vidas de acordo com a vontade de Deus. Era isso que Abraão estava aprendendo em sua própria caminhada espiritual.

APLICAÇÃO PRÁTICA

A seguir, estão três diretrizes básicas que Paulo deu aos cristãos efésios para ajudá-los a determinar se estavam vivendo à altura de seu chamado em Cristo ao entender e fazer a vontade do Senhor. Até que ponto você está satisfeito com a sua própria caminhada cristã?

1. Eu não estou mais andando do mesmo modo que os não-cristãos (Ef 4:17).

Insatisfeito 1 2 3 4 5 Satisfeito

2. Estou andando em amor, como Cristo me amou (Ef 5:1). Insatisfeito 1 2 3 4 5 Satisfeito

3. Estou andando na luz (Ef 5:8)

Insatisfeito 1 2 3 4 5 Satisfeito

Estabeleça um objetivo

Enquanto você revisa as diretrizes dadas pela Bíblia e os princípios apresentados neste capítulo, que objetivo específico precisa estabelecer para sua vida? Para determinar a área de sua vida cristã que precisa receber mais atenção, leia novamente a carta de Paulo aos efésios, dando atenção especial aos capítulos 4—6. Preste atenção nas palavras escritas pelo apóstolo que estão relacionadas com as três exortações básicas ressaltadas pelo gráfico acima. Depois de ter feito isso, estabeleça um objetivo específico:
Memorize o seguinte texto bíblico

Procure memorizar esta passagem das Escrituras para ajudá-lo a alcançar o seu objetivo:

Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor.

Efésios 5:15-17
Crescendo juntos

Estas perguntas destinam-se a discussão em pequenos grupos de estudo:

1. Por que é importante para os cristãos prestar atenção especial no que significa andar à altura de nosso chamado em Cristo?

2. Que lições Deus trouxe para sua vida que o ajudaram a andar segundo a vontade dele?

3. O que significa para você experimentar pessoalmente qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus?

4. Quais os seus pedidos pessoais de oração?

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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