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Oseias – A Bíblia Livro por Livro

INFORMAÇÕES BÁSICAS SOBRE OSEIAS

■ Conteúdo: a compaixão de Javé pelo Reino do Norte (Israel), e sua condenação dos israelitas, mesmo assim, em virtude da infidelidade deles

■ Profeta: Oseias, profeta do norte, provavelmente de Samaria

■ Data de atividade profética: cerca de 758-722 a.C.

■ Ênfases: o amor infalível de Javé pelo seu povo, mesmo quando precisa puni-lo por sua infidelidade

VISÃO GERAL DE OSEIAS

A estrutura do primeiro — e mais extenso — dos livros que formam O Livro dos Doze, se comparada à dos demais, não é tão fácil de perceber, em parte pela ausência geral de fórmulas seja de introdução ou de conclusão (como a fórmula “assim diz o Senhor [Javé]”)- Duas grandes divisões são claras (caps. 1—3 e 4—14). A parte 1 parece ser intencionalmente introdutória, e seu padrão, que alterna entre juízo (1.2-9; 2.2-13; 3.4) e restauração futura (1.10—2.1; 2.14-23; 3.5), talvez também sirva de base para a parte 2. Os juízos são atribuídos ao “adultério” de Israel (= idolatria, 2.8,13,17), e a restauração, ao amor infalível de Javé pelo seu povo (2.1,14,23; 3.1). A tensão nesse livro, como no de Miqueias depois, é entre o amor de Javé por seu povo e a

sua justiça, que exige que ele inflija sobre os israelitas as maldições pela infidelidade à aliança.

Assim, as imagens fornecidas pelo casamento de Oseias refletem o longo relacionamento de Javé com Israel (casamento, infidelidade, “divórcio”, restauração) e também servem de padrão para o livro na forma em que o temos. Um primeiro ciclo de oráculos (4.1—10.15) narra a sórdida história da infidelidade de Israel, tanto religiosa quanto política, juntamente com os juízos vindouros (e necessários) de Javé; enquanto em 11.1-11 se promete a restauração futura de Israel com base no amor e na compaixão de Javé. A história de infidelidade e juízo é repetida com intensidade ainda maior em um segundo ciclo (11.12—13.16), enquanto 14.1-8 encerra o livro com o cântico de amor final de Javé ao seu povo.

ORIENTAÇÕES PARA A LEITURA DE OSEIAS

Além do paralelo próximo entre o casamento simbólico de Oseias e o relacionamento de Javé com Israel/Efraim, três outras questões são cruciais para a leitura acertada desse livro.

Em primeiro lugar, o contexto histórico (v. 2Rs 14.23—18.16) é influenciado em grande parte pelos altos e baixos da Assíria. De acordo com 1.1, o chamado profético de Oseias começou perto do fim dos dias relativamente tranquilos e prósperos de Jeroboão ii (v. “Orientações para a leitura de Amós”, p. 263), mas a lista de reis de Judá, bem como os oráculos do próprio Oseias, sugerem que a maioria deles foi pronunciada durante os anos de rápido declínio que se seguiram à morte de Jeroboão ii (753 a.C.). Seis reis governaram Samaria numa rápida sucessão — em reinados caracterizados por intrigas, inconstância e assassinatos (cf. 8.4) — até o Reino do Norte ser derrubado pela Assíria em 722/1. Parte da intriga nesse caso dizia respeito à disposição (ou falta de) da parte do rei de pagar tributo à Assíria, o que por sua vez estava ligado à busca por alianças estrangeiras (7.8-11) para proteção contra a Assíria. No fim, Javé usará a Assíria como o cajado de sua punição (10.6,7).

Em segundo lugar, e ainda mais importante, você piecisa considerar o contexto religioso/teológico. Embora Oseias regularmente dê alguma atenção a Judá (v. adiante), sua paixão e páthos se concentram em

Israel. Retomando o tema dos profetas reformadores Elias e Eliseu, que haviam profetizado um século antes, ele fica ao mesmo tempo perplexo e encolerizado diante da propensão de Israel a abandonar Javé em favor de Baal — ou a misturar os dois de forma sincretis-ta (2.11,13; v. “Orientações para a leitura de Deuteronômio”, p. 68). Assim como o casamento é algo ao mesmo tempo absolutamente exclusivo e profundamente pessoal, assim é a aliança de Javé com Israel. Oseias, portanto, repetidamente lembra os seus ouvintes/leitores das suas origens (2.15; 9.10; 11.1-4; 13.4), enquanto também rememora a história de infidelidade dos israelitas (9.10,15; 10.9). A infidelidade presente do povo, refletida principalmente em sua idolatria, também é vista na violação da maior parte dos Dez Mandamentos, como o preâmbulo em 4.1-3 deixa claro de forma eloquente.

O que está em jogo nisso tudo é o caráter de Javé. Ao se voltar para os deuses de fertilidade cananeus (os baalins e Aserá), Israel atribuiu a fertilidade tanto das colheitas quanto do povo a esses deuses (2.5,12), abandonando dessa forma a Javé, o Criador de tudo, o único que provê as colheitas e abre o ventre (2.8,18,21,22; 9.11,14). Ao mesmo tempo, os israelitas se tornaram como os deuses que adoram — cheios de mentira, engano e inconstâncias. Assim, a mensagem de Oseias — e a razão do juízo vindouro — é essencialmente que, embora devesse ser o contrário, o povo simplesmente não conhece Javé (4.1,6,14; 8.2,3); os israelitas passaram a pensar em Javé não em associação com a própria história da redenção deles, mas em associação com a religião cananeia — e o resultado é fatal.

Em terceiro lugar, se às vezes você achar Oseias uma leitura difícil, isso talvez se deva, em parte, ao fato de o profeta se expressar de maneira tão sincera e apaixonada. Aqui vemos paixão epáthos sendo despejados sobre Israel oráculo após oráculo, ironia após ironia — e essa paixão não é sempre fácil de interpretar em termos de o que ele quer dizer (de fato, é difícil encontrar dois comentários bíblicos que concordem quanto aos detalhes). Ao mesmo tempo, os próprios oráculos nem sempre se encaixam nos padrões formais habituais, os anúncios de juízo e as razões para ele não sendo expressos de forma perfeita-mente clara e distinta, em muitos casos simplesmente fundindo-se na mesma frase. Além disso, o texto hebraico do livro sofreu bastante na

transmissão, havendo trechos muito difíceis de destrinchar (observe as muitas notas de rodapé na nvi).

Mas ao mesmo tempo, é justamente essa paixão que faz de Oseias uma leitura tão extraordinária. As metáforas marcantes são sua especialidade. Observe como, nesse livro, Javé é leão, leopardo, ursa, águia (abutre), ave de rapina (5.14; 11.10; 13.7,8; 8.1; 7.12), bem como marido, amante, pai, pinheiro verde (2.14-23; 14.3-7; 11.8,9; 14.8). E Israel em seus pecados é descrito de forma ainda mais vivida: mulher adúltera, novilha desgarrada, laço e rede, forno aceso, “bolo que não foi virado”, pomba insensata, arco enganador, talo que não dá cereal, filho que se recusa a nascer (2.2; 4.16; 5.1; 7.4,8,11,16; 8.7; 13.13); ele desaparecerá como névoa, orvalho, palha e fumaça (13.3); flutuará para longe como um graveto na água (10.7); ele semeou o vento e colherá a tempestade (8.7). Não há como não entender o retrato que o profeta faz. Saboreie, portanto, a leitura desse livro, ainda que você chore e lamente junto com Javé e seu profeta.

Uma palavra final sobre Oseias considerado como livro destinado à leitura. Embora as profecias se dirijam principalmente ao Reino do Norte (Israel), é bastante provável que o livro tenha sido preservado em Judá. A evidência disso está na introdução, que situa o ministério de Oseias no reinado de Ezequias em Judá (715 a.C., seis anos após a queda de Samaria). Isso sugere que, embora Oseias só pareça dar atenção ocasional a Judá nos seus oráculos (cf. 1.7,11; 4.15; 5.5,10,12-14; 6.4,11; 8.14; 10.11; 11.12; 12.2), ele não espera que seus leitores de Judá posteriores façam o mesmo em relação a Judá — nem devemos fazê-lo nós, que lemos o livro conscientes da queda posterior de ambos os reinos!

UMA CAMINHADA POR OSEIAS

□ 1.1 Título

Observe que o livro de Oseias é “A palavra do Senhor” que veio ao profeta durante um período que abarca vários reis de Judá.

□ 1.2—2.1 Oseias, Gômer e filhos

Aqui Oseias age simbolicamente, casando-se com uma “mulher adúltera” (literalmente uma “mulher de prostituição”, talvez uma metáfora

da deslealdade de Gômer a Javé). Seus filhos recebem nomes que se referem aos juízos de Deus contra sua própria “mulher infiel” (Israel); eles os recebem para simbolizar o estigma do juízo de Deus e a rejeição que Israel acabaria sofrendo por parte dele. Mas observe também como a palavra de esperança (1.10—2.1) muda o sentido de seus nomes! Observe também que, apesar de Israel e Judá terem destinos diferentes em 1.6,7, eles são reunidos no futuro prometido por Deus (v. 11).

□ 2.2-23 Israel punido e restaurado

Num oráculo poético, os filhos da adúltera agora são conclamados a repreender sua mãe (Israel), instando com ela para que abandone a idolatria; se não o fizer, Javé não demonstrará nenhum amor para com os filhos dela (v. 2-6). Israel finge voltar a Javé (v. 7,8), mas pagará por sua libertinagem (v. 9-13). Observe o quão consumada é sua idolatria. Já na palavra de restauração (v. 14-23), atente para as mudanças auspiciosas no tom da profecia, incluindo a restauração prometida à terra.

□ 3.1-5 Juízo e restauração

Observe como essa narrativa, simbolizando o exílio vindouro, corresponde a 2.14-23 — assim como 2.2-13 corresponde a 1.2-8; dessa forma, as duas narrativas (caps. 1 e 3) encerram o oráculo no capítulo 2. Na leitura do livro de Oseias, observe as maneiras como os temas desses capítulos são retomados.

□ 4.1—5.7 Acusação de Javé contra Israel por

sua infidelidade

Grande parte dessa seção assume a forma de um litígio contra Israel. Ela começa com uma acusação inicial (4.1-3), em que se apresentam todos os temas de maior vulto do livro: nenhuma fidelidade à aliança, nenhum conhecimento de Javé, a terra clama. Então, retomando temas dos capítulos 1—3, há acusações contra sacerdotes, profetas e o povo (esp. de falta de conhecimento [4.6,7,14], que assume a forma de idolatria [v. 10-14,15,17-19]). Como agora eles foram longe demais (5.1-4), eles serão julgados (v. 5-7). Observe que Judá está sempre em vista também (4.15; 5.5).

□ 5.8—7.16 A infidelidade de Israel por meio das

alianças promíscuas

Javé agora conclama o atalaia (possivelmente o próprio Oseias, v. 8.1) a tocar a trombeta de advertência (5.8). O juízo é certo (v. 9-12,14,15); flertar com a Assíria não adiantará (v. 13), e o falso arrependimento também é inútil (6.1-3), porque ele é como a “névoa da manhã” (v. 4-10); mesmo quando Javé deseja restaurá-los (v. 11), seus pecados continuam sendo expostos (7.1-7), especialmente porque eles continuam a confiar em outras nações para ajudá-los, em vez de em Javé (v. 8-16). E, mais uma vez, veja as referências a Judá (5.10,12,13,14; 6.4,11).

□ 8.1—9.9 Mais uma vez: juízo devido à infidelidade

Outro chamado a soar a trombeta (8.1) anuncia outra vez os juízos inevitáveis de Javé, dessa vez na forma da derrota de Israel pelas próprias nações às quais ele se vendeu (8.3b, 8-10,14). Observe mais uma vez a acusação de que eles violaram a aliança (8.1-3), mas agora acrescida da decadência interna da monarquia (8.4); a idolatria continua sendo o principal problema (8.4-7). O ciclo então conclui com mais um anúncio do juízo iminente e de suas razões (9.1-9).

□ 9.10—10.15 Condenação de Israel por não viver à

altura de seu chamado

Em 9.9, Javé os lembrou de Gibeá (Jz 19—20); agora ele retoma uma série de incidentes da deslealdade de Israel à aliança no passado, que servem de exemplo para os juízos atuais (Os 9.10-14, Baal-Peor [Nm 25.1-9]; Os 9.15-17, Gilgal [ISm 13; 15]; Os 10.9,10, Gibeá de novo). Observe o papel de vários reis nos oráculos em Oseias 10 (v. 3,6,7,15): porque Israel rejeitou Javé como Rei, seu próprio rei será destruído, e seus ídolos serão levados ao rei da Assíria. Observe também o convite em 10.12, prenunciando a palavra de angústia e compaixão que vem a seguir.

□ 11.1-11 O amor imperecível de Deus por Israel

Temos aqui, de muitas maneiras, a essência da mensagem de Oseias. O amor de Javé por seu “filho”, Israel (v. 1,3,4; cf. Êx 4.22); a infidelidade

de Israel (Os 11.2,7); o juízo de Javé (v. 5,6); e sua promessa de restauração (v. 8-11) — tudo isso porque só ele é Santo, totalmente outro em relação às suas criaturas humanas (v. 9). Isso prepara o caminho para a vinda de Jesus Cristo.

□ 11.12—13.16 Mais uma vez: os pecados e o juízo

vindouro de Israel

Observe como o primeiro desses oráculos retoma muitos temas anteriores — tanto os pecados de Israel (e de Judá; mentiras, engano, idolatria [bois em Gilgal, v. 11]) quanto os juízos (12.2,14) e o apelo (v. 6) de Deus; é apenas aqui (v. 7,8) que o livro de Oseias reflete de maneira explícita a injustiça social que encontramos em Amós, Isaías e Miqueias. Observe também, contudo, que a maior parte dos oráculos retoma (de 11.1-4) momentos da história deles, especialmente os papéis de Jacó (tanto o bom quanto o ruim!) e de Moisés (12.13).

O segundo oráculo (13.1-16) repete mais uma vez o tema da infidelidade do povo a Javé, especialmente a ingratidão refletida no fato de os israelitas caírem em idolatria (v. 1,2,6,9-12,16) depois de Javé ter feito tanto por eles (v. 4-6); eles serão, portanto, julgados (v. 3,7,8,15,16). Não obstante, persiste a palavra de esperança (v. 14).

□ 14.1-9 Convite e restauração

Veja como o livro conclui com mais um convite ao arrependimento (v. 1-3) e a promessa de restauração e de um futuro glorioso (v. 4-8); poderia Oseias tê-lo concluído de qualquer outra forma? O livro encerra com uma palavra no estilo dos livros da Sabedoria, conclamando a que se tenha discernimento (v. 9) — uma palavra que apresenta semelhanças com o salmo 1.
O livro de Oseias, que arde com o fogo do amor de Deus pelo seu povo, nos lembra de que o Deus da história bíblica julga a infidelidade, ainda que ofereça uma esperança para além do juízo.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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