Os Quatro Evangelhos – Panorama do NT

Revelaçao e Conversão – Esboços Bíblicos
15/07/2016
Louvor Aberto E Confissão Pública – Esboços Bíblicos
16/07/2016

Os Quatro Evangelhos – Panorama do NT

Perguntas Normativas:

 

‑ Quem escreveu os evangelhos?

‑ Como determinamos a autoria dos mesmos?

‑ Quão próximos estiveram os autores da tradição das testemunhas oculares sobre a vida e os ensinamentos de Jesus?

‑ Quais são as indicações a respeito da data de sua escrita?

‑ Os evangelistas escreveram para qual audiência, de qual perspectiva e com qual propósito?

‑ Quais são as características distintivas e as ênfases especiais dos diversos evangelhos?

‑ Qual é o plano geral e o movimento de cada um dos evangelhos?

 

Os livros que denominamos de evangelhos estabeleceram uma nova modalidade de literatura quando foram escritos. Diferentes das verdadeiras biografias, falta‑lhes pano‑de‑fundo histórico contemporâneo, análise de caráter e personalidade e sondagens dos pensamentos íntimos do herói. Os evangelhos também não se parecem com as narrativas de milagres dos helenistas, nas quais os atos reais ou supostos de antigos operadores de milagres eram celebrados ‑ há muito mais que a narração de milagres nos evangelhos. Por igual modo, os evangelhos não nos apresentam simples memórias. Antes, são proclamações escritas da história da redenção, de acordo com perspectivas teológicas.

 

MARCOS: EVANGELHO DA ATIVIDADE REDENTORA D       E JESUS

 

A autoria marcana e tradição petrina

Visto que os títulos somente mais tarde foram adicionados aos evangelhos, dependemos da tradição antiga e das evidências internas no que tange a questões de autoria. O primeiro dos evangelhos a ser escrito deriva seu nome de João Marcos, o qual figura como companheiro de Paulo, Barnabé e Pedro, no livro de Atos e nas epístolas. Papias, pai da Igreja antiga, segundo se sabe, disse na primeira metade do século II D. C. que Marcos anotou cuidadosamente, em seu evangelho, as reminiscências de Pedro sobre a vida e os ensinamentos de Jesus, embora nem sempre em ordem cronológica ou retórica, porquanto seu propósito era o da instrução espiritual, e não fazer uma crônica artística dos acontecimentos.(Citado por Eusébio, História Eclesiástica III. 39. 15. Comparar a menção especial de Pedro, em Marcos 16:7: “Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro…”) Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes e Jerônimo confirmam a autoria de Marcos, em associação com Pedro.

Embora a ordem do material de Marcos pareça ser cronológica em suas linhas gerais, palavras chaves e similaridade de assunto com freqüência formam o princípio de arranjo no que concerne a relatos e declarações isolados. Por exemplo, Marcos 2:1 3:6 contém as seguintes narrativas: a cura do paralítico e o perdão de seus pecados, com a subseqüente discussão sobre a autoridade que Jesus tem de perdoar pecados; o argumento acerca do fato que Jesus comia com publicanos, após o chamamento de Levi (Mateus); o debate por causa do jejum; as críticas contra os discípulos por terem colhido e comido espigas em dia de sábado, e a defesa dos mesmos por parte de Jesus; e a cura de um homem de mão mirrada, contra as objeções dos fariseus. Marcos reúne essas narrativas aparentemente porque tratam de controvérsias de Jesus com os escribas e os fariseus.

 

Ação

Com raras exceções, Marcos é o evangelho da ação, e não dos longos discursos. Em uma narrativa de movimentos rápidos, Marcos narra as atividades de Jesus na qualidade do poderoso e autorizado Filho de Deus, particularizando Seus milagres de curas e exorcismos. O reino de Deus invade o reino do mal, enquanto Jesus combate as forças satânicas e demoníacas. Um advérbio, usualmente traduzido por “imediatamente” ou “logo”, ou alguma expressão semelhante, é a palavra chave. Marcos gostava tanto de usar o termo que nem sempre ele quis dizer “imediatamente” no sentido estrito, tendo‑o usado simplesmente como elemento de transição para transmitir a idéia que Jesus mostrava‑se constantemente atarefado, na qualidade de Servo trabalhador.

A atividade redentora de Jesus culmina na narrativa da paixão, da morte e da ressurreição de Jesus, à qual Marcos devota um espaço desproporcionalmente grande ‑ tanto, na realidade, que seu evangelho tem sido chamado de pouco mais que a narrativa da paixão, com um prólogo. A confissão de Pedro a respeito do caráter messiânico de Jesus, em Cesaréia de Filipe (8:27‑30), forma um ponto nevrálgico nesse evangelho. Dali por diante Jesus começou a predizer Seus sofrimentos e Sua morte, como o Filho do homem, e a narrativa se movimenta inexoravelmente para o seu fim. Os discípulos estavam acostumados a pensar sobre o Filho do homem, auto‑designação favorita de Jesus, extraída da visão de Daniel acerca de uma figura semelhante a um ser humano, que viria em glória para julgar a humanidade (vide Daniel 7:13,14), em termos de majestade; e, por isso mesmo, os discípulos encontraram dificuldade em compreender e aceitar as declarações de Jesus.

 

Propósito e Plano

Eruditos modernos têm sugerido certo número de diferentes propósitos por detrás do relato de Marcos. Alguns opinam que Marcos escreveu a fim de prover instrução catequética a novos convertidos. Porém, o fato que ele não se esforça muito por expor os ensinamentos de Jesus solapa esse ponto de vista. Outros pensam que Marcos escreveu seu evangelho para uso litúrgico em cultos das igrejas. Porém, o arranjo e o estilo se ressentem da falta de suavidade e simetria que esperaríamos de um documento litúrgico. Ainda outros supõem que Marcos escreveu para encobrir o fracasso de Jesus, por não se ter proclamado o Messias. Marcos, desajeitadamente, teria removido esse embaraço da teologia cristã ao inventar o “segredo do Messias”. Noutras palavras, teria posto nos lábios de Jesus a proibição reiterada de se tornar pública a revelação de Seu papel messiânico (por exemplo, 8:30), a fim de dar a entender que Jesus realmente ensinou, em particular, que era o Messias, embora, na verdade, não o fosse.(W. Wrede, Das Messiasgebeimnis in den Evangelien: Zugieich ein Beitrag zum Verstãndnis des Markusevangeliums (Gottingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1901, 39 edição, 1963). Wrede atribuía esse motivo aos predecessores de Marcos, cujo material ele teria usado.) Ainda outros pensam exatamente o oposto, ou seja, que ao inventar o segredo messiânico Marcos estava procurando suavizar o caráter ofensivo de um ministério abertamente messiânico. Essas duas posições, que vêem o propósito de Marcos ligado ao segredo messiânico, dependem de um ceticismo ilegítimo no tocante à exatidão das narrativas dos evangelhos; e a maioria dos leitores de Marcos não tem a impressão que ele estivesse embaraçado diante de exageradamente pouco ou exageradamente muito messianismo nas tradições que circulavam sobre Jesus.

Historicamente, é perfeitamente compreensível por qual razão Jesus teria suprimido a publicidade em torno do Seu caráter messiânico: (1) os judeus concebiam erroneamente o Messias como uma personagem político‑militar, excluindo, para todas as finalidades práticas, a idéia de Sua redenção espiritual ‑ assim Jesus referiu‑se à Sua paixão e morte em termos do Servo sofredor do Senhor, descrito em Isaías (particularmente 52:13 ‑ 53:12); (2) aos judeus faltava a dimensão da deidade, no conceito que faziam sobre o Messias ‑ assim Jesus aludiu a Si mesmo como o superhumano Filho do homem, que viria com os símbolos da teofania das nuvens, para estabelecer domínio sempiterno sobre o mundo, conforme uma das visões de Daniel (7:13,14); (3) se Jesus houvesse encorajado a publicidade em torno de Seu papel messiânico, apesar da certeza de que esse papel seria mal entendido, quase certamente ter‑se‑ia arriscado a ser imediatamente encarcerado e julgado ‑ assim, pois, Ele ganhou tempo e evitou o final prematuro de Seu ministério, mediante aquela supressão de publicidade. Não é, de forma alguma necessário ou aconselhável, pois, pensarmos que Marcos teria “inventado” o segredo messiânico.

O propósito provável de Marcos é evangelizador. Ele narra a história de Jesus a fim de ganhar convertidos à fé cristã. Para consecução de seu propósito. Marcos constrói seu evangelho de modo bastante simples. Ele começa por João Batista, o batismo de Jesus e a Sua tentação (1:1‑13), prossegue falando sobre o ministério de Jesus na Galiléia e seus arredores (1:14 9:50), continua pelo ministério de Jesus a caminho de Jerusalém, ao atravessar a Transjordânia e a Judéia (10:1‑52), e conclui com as narrativas da paixão, da morte e da ressurreição de Jesus, as quais foram divinamente planejadas (11:1 ‑ 16:8).

No entanto, não sabemos como terminava esse evangelho. Alguns dos melhores manuscritos e traduções antigas terminam em 16:8. Outros acrescentam o “final longo” (incluído na familiar versão inglesa do King James), ao passo que ainda outros incluem um breve final. O final longo parece ter sido a tentativa de algum escriba para criar uma conclusão apropriada, ao sumariar as aparições pós‑ressurreição, registradas nos outros evangelhos. O final curto, por igual modo, parece não estar revestido de autenticidade. Porém, desconhece‑se se esse evangelho termina mesmo em 16:8, ou se o seu verdadeiro final se perdeu.(Essa questão textual não afeta qualquer doutrina maior da fé cristã A inspiração bíblica por certo não está em pauta, mas somente qual teria sido o texto original da Bíblia, em oposição a adições posteriores feitas por copistas. Os mais antigos e mais fidedignos manuscritos do Novo Testamento ainda não haviam sido descoberto em 1611, pelo que os tradutores da versão do King James não podiam saber que o final longo era textualmente duvidoso.)

 

Data

A primitiva tradição cristã deixa transparecer incerteza sobre se Marcos escreveu seu evangelho antes ou depois do martírio de Pedro (64 D. C.), e eruditos modernos disputam acerca da data em que Marcos escreveu. Aqueles que consideram “a abominação desoladora”, em 13:14, como referência à queda de Jerusalém, no ano 70 D. C., depois que a mesma teve lugar, necessariamente, datam o livro após esse evento. Mas uma alusão pós-evento à destruição do templo por certo teria sido mais clara, e esse método de datar supõe que o versículo em pauta é uma referência histórica retrospectiva, e não uma genuína predição feita por Jesus. Faltam‑nos informes para responder com firmeza à pergunta sobre a data. Porém, quando alguém aceita o fenômeno da profecia preditiva, não existem quaisquer razões compelidoras que o levem a negar uma data anterior ao período de 45‑70 D. C. De fato, se Lucas encerrou o livro de Atos sem descrever o resultado final do julgamento de Paulo em Roma, porquanto tal julgamento ainda não sucedera, então Atos deve ser datado em cerca de 61 D. C., o seu volume anterior e companheiro, o evangelho de Lucas, deve ser datado em pouco antes disso, e, visto que o evangelho de Marcos foi utilizado por Lucas, Marcos deve ser datado ainda em data mais recuada, na década de 50 ou fim da década de 40 D. C.

 

Leitores romanos e Lugar de Escrita

Provavelmente, Marcos escreveu para leitores romanos. Ele traduziu expressões em aramaico para benefício de seus leitores (3:17; 5:41; 7:34; 14:36 e 15:34). De modo ainda mais indicativo, ele esclareceu expressões gregas com seus eqüivalentes latinos (12:42 e 15:16), tendo usado certo número de outros termos latinos. A confirmação disso se obtém na menção de Rufo, em 15:21, o qual, de acordo com Romanos 16:31, vivia em Roma (a menos que os dois textos se refiram a indivíduos diferentes do mesmo nome). Em adição, a presença de Marcos em Roma (simbolicamente chamada “Babilônia”), de acordo com 1 Pedro 5:13, a combinação da declaração de Papias no sentido que Marcos foi o intérprete de Pedro com a antiga tradição sobre o martírio de Pedro em Roma, a indicação, no prólogo anti‑marcionita de Marcos,(Os prólogos anti‑marcionitas são antigas introduções constantes de manuscritos que visam a combater as idéias de Márciom, uma variedade de heresia gnóstica.) de que Marcos escreveu seu evangelho na Itália, e posteriores declarações feitas por Clemente de Alexandria e Irineu, todas essas coisas adicionam um testemunho externo em prol da origem romana do evangelho de Marcos e de ter sido endereçado a leitores romanos.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE MARCOS

 

Tema: as atividades remidoras de Jesus

INTRODUÇÃO

  1. Ministério de João Batista (1:1‑8)
  2. O batismo de Jesus (1:9‑I I )
  3. A tentação de Jesus (1:12,13)
  4. ATIVIDADES REMIDORAS DE JESUS, NA GALILÉIA E ARREDORES (1:14 ‑ 9:50)
  5. A primeira pregação (1:14,15)
  6. Chamada de Simão, André, Tiago e João (1:16‑20)
  7. Um grupo de milagres (1:21‑45)
  8. Exorcismo na sinagoga de Cafarnaum (1:21‑28)
  9. Cura da sogra de Pedro e outros (1:29‑39)
  10. Purificação de um leproso (1:40‑45)
  11. Um grupo de controvérsias (2:1 ‑ 3:35)
  12. Perdão e cura de um paralítico (2:1‑12)
  13. Chamada de Levi (Mateus) e o fato que Jesus comia com publicamos e pecadores (2:13‑17)
  14. A questão do jejum (2:18‑22)
  15. Colheita e ingestão de cercal em dia de sábado (2:23‑27)
  16. Cura da mão mirrada em dia de sábado (3:1‑6)
  17. Jesus retira‑se e escolhe os Doze (3:7‑19a)
  18. Acusações de que Jesus era insano e possesso por Belzebu (3:19b‑35)

E._Um grupo de parábolas (4:1‑34)

  1. A semente e os solos: mais comumente, o semeador (4:1‑20)
  2. A lâmpada (4:21‑25)
  3. O grão em desenvolvimento (4:26‑29)
  4. A semente de mostarda e outras (4:30‑34)
  5. Mais milagres (4:35 ‑ 5:43)
  6. Jesus acalma a tempestade (4:35‑41)
  7. Exorcismo da legião do endemoninhado geraseno (5:1‑20)
  8. Cura da mulher hemorrágica e ressurreição da filha de Jairo (5:21‑43)
  9. Rejeição de Jesus em Nazaré (6:1‑6)
  10. Missão dos Doze pela Galiléia (6:7‑13)
  11. Decapitação de João Batista (6:14‑29)
  12. Multiplicação dos pães para os cinco mil homens (6:30‑44)
  13. Jesus anda por sobre as águas (6:45‑52)
  14. Ministério em Genezaré, com controvérsia sobre a contaminação cerimonial (6:53 ‑ 7:23)
  15. Mais milagres (7:24 ‑ 8:26;
  16. Exorcismo de um demônio da filha da mulher siro‑fenícia (7:24‑30)
  17. Cura do surdo‑mudo (7:31‑37)
  18. Multiplicação dos pães para os quatro mil homens (8:1 ‑ 10)
  19. Os fariseus exigem um sinal, em meio a milagres (8:11‑21)
  20. Cura do cego (8:22‑26)
  21. Pedro confessa ser Jesus o Messias (8:27‑30)
  22. Conceito de Pedro sobre o caráter messiânico de Jesus e o discipulado corrigido pela predição de Jesus sobre seus sofrimentos, morte e ressurreição (8:31 ‑9:1)
  23. A transfiguração (9:2‑13)
  24. Exorcismo de um demônio de um menino (9:14‑29)
  25. Outra predição de Jesus sobre Sua morte e ressurreição (9:30‑32)
  26. Jesus faz uma criança ser exemplo para Seus discípulos (9:33‑50)
  27. A ATIVIDADE REMIDORA DE JESUS NO CAMINHO PARA JERUSALÉM ATRAVÉS DA TRANSJORDÂNI.A E DA JUDÉIA (10:1‑52)
  28. A questão do divórcio (10:1‑12)
  29. Jesus abençoa as crianças (10:13‑16)
  30. O jovem rico (10:17‑31)
  31. Uma nova predição por Jesus da Sua morte e ressurreição (10:32‑34)
  32. O pedido de Tiago e João de lugares de honra e a resposta de Jesus acerca do serviço sacrificial (10:35‑45)
  33. A cura do cego Bartimeu (10:46‑52)

III. ATIVIDADES REMIDORAS DE JESUS DURANTE A SEMANA DE SUA PAIXÃO, MORTE E RESSURREIÇÃO (11:1 ‑ 16:8)

  1. Entrada triunfal em Jerusalém (11:1‑11)
  2. A figueira estéril é amaldiçoada (11:12‑14)
  3. Purificação do templo (11:15‑19)
  4. Ressecamento da figueira (11:20‑26)
  5. Debates no templo (11:27 ‑ 12:44)
  6. Requisitado um sinal da parte de Jesus (11:27‑33)
  7. Parábola da vinha (12:1‑12)
  8. Questão do tributo pago a César (12:13‑17)
  9. Questão sobre a ressurreição (12:18‑27)
  10. Questão sobre o mais importante mandamento (12:28‑34)
  11. Pergunta de Jesus sobre a descendência do Messias de Davi, e Seu senhorio (12:35‑37)
  12. Jesus adverte sobre os escribas (12:38‑40)
  13. Moedinha da viúva versus polpudas ofertas dos ricos (12:41‑44)
  14. O discurso do monte das Oliveiras (13:1‑37)
  15. O Sinédrio conspira contra Jesus (.14:1.2)
  16. Unção de Jesus por Maria de Betânia (14:3‑9)
  17. Barganha de Judas para trair a Jesus (14:10,11)
  18. A última Ceia (14:12‑31)
  19. Jesus ora no horto do Getsêmani (14:32‑52)
  20. Detenção de Jesus (14:43‑52)
  21. Julgamento de Jesus (14:53 ‑ 15:20)
  22. Audição ante o sinédrio, com negativas de Pedro (14:53‑72)
  23. Audição ante Pôncio Pilatos, com soltura de Barrabás (15:1‑20)
  24. Crucificação, morte e sepultamento de Jesus (15:21‑47)
  25. Ressurreição de Jesus (16:1‑8).

 

MATEUS: EVANGELHO DO MESSIAS E DO NOVEL POVO DE DEUS

Autoria

O mesmo Papias que disse que Marcos registrou as reminiscências de Pedro também disse que Mateus escreveu as logias (termo grego que significa “declarações, oráculos”), em hebraico ou aramaico, que outros iam traduzindo conforme eram capazes.(Citado por Eusébio, História Eclesiástica III. 39.16) No contexto, mui naturalmente logia se refere a um evangelho. Não obstante, não possuímos um evangelho derivado da pena de Mateus em qualquer destas línguas semíticas, o hebraico e o aramico, mas tão‑somente o atual evangelho em grego, o qual não parece ser uma tradução feita de um original semítico. Por exemplo, por que teria Mateus fornecido tanto o original semítico como sua tradução grega de alguns poucos vocábulos como “Emanuel” (vide 1:23), se o evangelho inteiro tivesse sido tradução do hebraico ou aramaico? Alguns estudiosos têm pensado que Papias se reportara apenas a uma série de textos de prova messiânicos em hebraico ou aramaico, coligidos por Mateus e posteriormente incorporados em seu evangelho, tendo sido traduzidos para o grego; ou ainda que Papias aludira a uma anterior edição semítica de Mateus, mas não diretamente ligada à nossa atual edição grega. Sem embargo, há ainda uma outra maneira de entender a questão, a saber, que Papias mencionara nosso atual evangelho de Mateus, em grego, embora escrito no estilo hebraico (e não no idioma propriamente dito), e como a interpretação de Mateus sobre a vida de Jesus (paralelamente à interpretação de Marcos). Nesse caso, inexiste qualquer tradução de Mateus feita com base em um original semítico. Finalmente, alguns têm imaginado que as logias aludidas por Papias se referem ao documento Q. Como se vê, a certeza com respeito ao significado da declaração de Papias é algo que nos escapa.

A erudição moderna usualmente nega que o apóstolo Mateus tenha escrito o evangelho que traz seu nome. Aceitando a equação das logia de Papias com o documento Q, alguns têm sugerido que Mateus realmente escreveu o documento Q, e que o seu nome equivocadamente foi vinculado ao primeiro evangelho (na ordem em que aparecem os livros do cânon), porquanto o autor desconhecido do primeiro evangelho muito se utilizou do documento Q. Porém, se houve um documento Q, não existem razões adequadas para negar que Mateus pode haver escrito ambas as obras, mormente se o documento Q era um grupo de anotações frouxas acerca da doutrina de Jesus, feitas por Mateus, posteriormente incorporado em seu evangelho formal. Tem‑se argumentado também, contrariamente a isso, que um apóstolo como Mateus não haveria de tomar material de empréstimo de alguém como Marcos, que não era apóstolo. Mateus, entretanto, simplesmente podia estar corroborando a tradição petrina, e, portanto, apostólica, registrada por Marcos, ao mesmo tempo que adicionava o seu próprio material. E, independentemente da estatura, os autores antigos regularmente tomavam material emprestado de escritores anteriores; e ninguém pensava que, ao assim fazer, estivesse plagiando, e nem que estivesse se aviltando. Os sentimentos modernos não se aplicavam ao caso. As tradições da Igreja primitiva unanimemente atribuem a Mateus o primeiro evangelho, e uma falsa atribuição a um apóstolo relativamente obscuro como foi Mateus, parece improvável até haver chegado uma época posterior, quando todos os apóstolos foram canonizados na imaginação cristã.

A habilidade de organização exibida pelo autor (ver abaixo) concorda com a mentalidade provável de um cobrador de impostos, como fora o apóstolo Mateus. Concorda também com isso o fato que esse é o único evangelho que encerra o episódio do pagamento da taxa do templo por parte de Jesus (17:24‑27). A narrativa do chamamento de Mateus ao discipulado usa o nome apostólico, “Mateus”,(Ver as listas dos apóstolos em Mateus 10:24: Marcos 3:16‑19; Lucas 6:13‑16 e Atos 1:13.) ao invés do nome “Levi”, utilizado por Marcos e Lucas, e omite o pronome possessivo “dele”, usado em conjunto com o termo “casa (lar)”, de que se valeram Marcos e Lucas, ao descreverem o lugar onde Mateus entreteve Jesus em uma refeição (vide Mateus 9:9‑13, em confronto com Marcos 2:13‑17 e Lucas 5:27‑32). Esses detalhes incidentais bem poderiam constituir indicações notáveis de que Mateus é o autor desse primeiro evangelho, em apoio às tradições da Igreja primitiva.

 

Data de Escrita

Se Mateus se valeu do evangelho de Marcos, e este é do período de 45‑70 D.C., então provavelmente Mateus pertence a data levemente posterior, dentro daquele mesmo período. A atitude que nega a Jesus a capacidade de profetizar preditivamente, como também unia abordagem crítica geralmente mais negativa, forçará o estudioso a pensarem data posterior, nas décadas de 80 a 90 D.C.(Aqueles que descrêem da profecia preditiva pensam que a fraseologia de 22:7 (“O rei… enviando as suas tropas… lhes incendiou a cidade”) claramente aponta de volta à destruição de Jerusalém, em 70 D.C., de um ponto vantajoso posterior.), e embora certo número de eruditos ortodoxos prefira uma data posterior, devido a outras considerações, como o argumento que o interesse de Mateus pela Igreja (ele é o único evangelista a usar o termo Igreja, e isso por duas vezes) deixa entrever um período posterior, quando a doutrina da Igreja estava adquirindo maior importância, em resultado da demora da volta de Jesus. Mas a doutrina da Igreja já desempenha papel importantíssimo nas epístolas paulinas, todas elas escritas antes de 70 D.C. E se Mateus escreveu com o fito de evangelizar aos judeus,(A questão tem sido motivo de disputa, mas isso é natural, sendo a impressão geral obtida desse evangelho pela maioria de seus leitores.) parece menos provável que ele tenha escrito depois de 70 D.C., quando se alargou mais ainda a brecha entre a Igreja e a sinagoga, do que antes de 70 D.C., quando as possibilidades de conversão de judeus pareciam mais favoráveis.

 

Temas e Plano

O evangelho de Mateus é o evangelho do Messias e do novel povo de Deus, a Igreja, o qual, pelo menos por enquanto, tem tomado o lugar da nação de Israel, no antigo pacto. O primeiro evangelho começa com a natividade (capítulos 1 e 2). Na seção média, mais extensa, alternam‑se a narrativa basicamente marcana (usualmente em forma condensada) e discursos de Jesus. Os capítulos 26 ‑ 28 concluem o evangelho com narrativas da paixão e da ressurreição de Jesus.

 

Os Cinco Discursos

Os discursos constantes em Mateus são “sermões” mais ou menos longos, aos quais foram acrescentados ditos isolados de Jesus, em lugares apropriados. Cada discurso termina com esta fórmula: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras …” Os discursos e seus temas respectivos são conforme mostramos abaixo:

(1) O Sermão da Montanha (capítulos 5 ‑ 7): Significado da Verdadeira (Interna) Retidão.

(2) A Comissão dos Doze (capítulo 10): Significado do Testemunho em Prol de Cristo (Perseguição e Galardões).

(3) As Parábolas (capítulo 13): Significado do Reino.

(4) Sem qualquer título geral (capítulo 18): Significado da Humildade e do Perdão.

(5) A Denúncia contra os Escribas e Fariseus (capítulo 23) e o Discurso do monte das Oliveiras, freqüentemente chamado “O Pequeno Apocalipse” (capítulos 24 e 25): Significado da Rejeição de Israel. Deus rejeitou a Israel, por haver a nação rejeitado a Jesus, O Messias; ocorrerá um hiato de tempo, Jerusalém será destruída, as nações serão evangelizadas, e então Cristo retornará.

A quíntupla estrutura desses discursos sugere‑nos que, para benefício de seus leitores judeus, Mateus retratava a Jesus como um novo e maior Moisés. Tal como Moisés, Ele proferiu parte de Sua lei em um monte. Tal como Moisés, Seu ensinamento está contido em cinco seções, correspondentes ao Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, coletivamente intitulados “a lei de Moisés”). Ao omitir o lance da minúscula oferta da viúva pobre, Mateus chega a soldar a denúncia contra os escribas e fariseus com o discurso do monte das Oliveiras, para que formem uma só unidade (contrastar com Marcos 12:38 ss. e Lucas 20:45 ss.), a fim de tornar possível seu arranjo em cinco porções.

A comparação que ele faz entre Jesus e Moisés também transparece alhures, quando ele toma por empréstimo a fraseologia da história de Moisés, ao descrever a natividade e a transfiguração de Jesus (vide Êxodo 2:15; 4:19,20; 34:29 e Deuteronômio 18:15 juntamente com Mateus 2:13,20,21 e 17:2,5 respectivamente). De fato, na versão de Mateus (mas não na de Lucas) sobre o Sermão da Montanha, o próprio Jesus conscientemente firma Seus princípios segundo moldes paralelos à lei mosaica, em uma série de afirmativas: “Ouvistes que foi dito aos antigos…” e segue‑se uma citação extraída do Pentateuco ‑ “Eu, porém, vos digo…” (Mateus 5:21,27,31,33,38,43.)

Além da quíntupla estrutura dos discursos, há muitas outras indicações do pendor de Mateus para a organização. Agrupamentos de três e de sete parecem ter sido os favoritos de Mateus. Ele divide a genealogia de Jesus em três porções (1:17). Dentre os ensinamentos de Jesus, ele fornece três exemplos de reta conduta, três proibições e três mandamentos (6:1 ‑ 7:20). E temos ainda de considerar o caso de três parábolas, três indagações, três orações e três negações. Talvez Mateus houvesse escrito sob a impressão deixada pela lei judaica que diz que pela boca de duas ou três testemunhas, toda palavra será confirmada (vide Deuteronômio 17:6 e 19:5, afirmativa essa que chega a ser realmente citada em Mateus 18:16). Há sete parábolas em Mateus 13 e sete ais contra os escribas e fariseus, no capítulo vinte e três. Embora alguns desses agrupamentos numéricos sem dúvida retrocedam até ao próprio Jesus e aos acontecimentos reais propriamente ditos, sua freqüência, no evangelho de Mateus, demonstra o quanto ele apreciava essas questões, acima dos demais evangelistas.

Características judaicas

A organização editorial dos ensinamentos de Jesus, o seu conteúdo incisivamente ético, e sua ênfase sobre o discipulado, têm produzido as idéias que o primeiro evangelho tinha por escopo servir de manual catequético para recém‑covertidos, ou servir de manual escolástico para os líderes da Igreja, adaptado à leitura litúrgica e homilética, nas reuniões das igrejas primitivas. Todavia, o primeiro evangelho dá‑nos a impressão mais clara ainda de ter sido escrito para evangelizar aos judeus, confirmando‑os na fé, após a sua conversão.

A contínua ênfase dada por Mateus sobre o fato que Jesus cumpriu a lei e as profecias messiânicas do Antigo Testamento (“Isto e aquilo aconteceram, para que o que foi dito por este ou aquele profeta se cumprisse”), como também o fato que ele traçou a genealogia de Jesus fazendo‑a recuar até Abraão, pai da nação judaica, também indicam as preferências judaicas do primeiro evangelho. Em contraste com isso, Marcos não alude de forma alguma aos antepassados de Jesus. Seu interesse jaz naquilo que Jesus fizera, e os seus leitores gentios (à semelhança da maioria dos leitores modernos) pouco interesse haveriam de ter pela genealogia de Jesus. Porém, era importantíssimo que Mateus demonstrasse a seus leitores judeus o fato de que a genealogia de Jesus, seu Messias, remonta a Abraão, por intermédio de Davi.

Ainda outras características tipicamente judaicas são a designação judaica de Deus como “Pai que está nos céus” (por quinze vezes em Mateus, uma só vez em Marcos, e nenhuma vez em Lucas), a substituição reverente do nome de Deus, por “céus” (sobretudo na frase “reino dos céus”, onde os outros evangelistas dizem “reino de Deus”), um interesse tipicamente judaico pela escatologia (Mateus encerra um capitulo inteiro a mais, sobre o discurso do monte das Oliveiras, do que o fazem Marcos e Lucas), referências freqüentes a Jesus como “o Filho de Davi”, alusões a costumes judaicos sem qualquer elucidação (23:5,27; 15:2, em contraste com a explanação existente em Marcos 7:2,3), o registro do pagamento do imposto do templo por parte de Jesus (17:24‑27), inexistente nos outros evangelhos, e declarações feitas por Jesus revestidas de um sabor claramente judaico (por exemplo: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” 15:24; “Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel” 10:5,6; e também 5:17‑24; 6:16‑18 e 23:2,3). Mateus parece ter narrado a história da natividade a fim de contrariar acusações assacadas por judeus no sentido que Jesus era filho ilegítimo, que Ele aprendera artes mágicas no Egito, e que proviera de Nazaré, ao invés de ter vindo do lugar certo, Belém da Judéia (capítulos um e dois). Mateus também combate a acusação judaica de que os díscipulos de Jesus furtaram‑lhe o cadáver (28:11‑15).

 

Universalismo

Por outra parte, o universalismo também caracteriza o evangelho de Mateus. Ele encerra sua narração com a Grande Comissão dirigida aos seguidores de Cristo, que ordena fazerem discípulos de todas as nações (28:19,20). Ainda nos primeiros lances do evangelho, os magos gentios adoram ao Messias infante, na narrativa da natividade (2:1‑12). Jesus é citado como quem dissera que “muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. Ao passo que os filhos do reino serão lançados para fora, nas trevas…” (8:11,12). “…o campo é o mundo…”, na parábola do trigo e do joio (13:38). De acordo com a parábola da vinha, Deus haveria de transferir Seu reino da nação de Israel para outros (21:33‑43). E Mateus é o único entre os evangelistas a utilizar‑se do termo “igreja”, em seu evangelho (16:18 e 18:17). Precisamos asseverar, por conseguinte, que o evangelho de Mateus é um evangelho cristão judaico, mas com uma perspectiva universal.

 

Lugar de Escrita

A natureza judaica do primeiro evangelho sugere que o mesmo foi escrito na Palestina ou na Síria, particularmente em Antioquia, para onde haviam imigrado muitos dos originais discípulos habitantes da Palestina (vide Atos 1 1:19,27). A notável preocupação pelos gentios talvez faça o prato da balança inclinar‑se em favor de Antioquia, a cidade onde estava a igreja local que enviou a Paulo em suas missões aos gentios. Em harmonia com isso temos de considerar o fato que o mais antigo testemunho acerca do conhecimento da existência do evangelho de Mateus nos chega do antigo bispo da igreja de Antioquia, Inácio (primeiro quartel do segundo século: Epístola aos Esmirneanos 1:1; Epístola a Policarpo 1:2,3).

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE MATEUS

 

Tema: o Messias e o novel povo de Deus

  1. A NATIVIDADE DO MESSIAS (1:1 ‑ 2:23)
  2. Sua genealogia (1:1‑17)
  3. Seu nascimento (1:18‑25)
  4. Sua adoração pelos magos (2:1‑12)
  5. Fuga para o Egito para proteção das mãos de Herodes o Grande (2:13‑18)
  6. Retorno e residência em Nazaré (2:19 ‑ 23)
  7. MINISTÉRIO DO MESSIAS EM PALAVRAS E OBRAS (3:1 ‑ 25:46)
  8. Narrativa (3:1 ‑ 4:25)
  9. Ministério preparatório de João Batista (3:1‑17)
  10. Sua pregação (3:1‑12)
  11. João batiza a Jesus (3:13‑17)
  12. Tentação de Jesus por Satanás (4:1‑11 )
  13. Primórdios da pregação messiânica e operações miraculosas na Galiléia com chamada de Simão Pedro. André, Tiago e João (4:12‑25)
  14. Primeiro discurso: o sermão da Montanha (5:1 ‑ 7:29)
  15. Narrativa (8:1 ‑ 9:34)
  16. Purificação de um leproso (8:1‑4)
  17. Cura do servo do centurião (8:5‑13)
  18. Cura da sogra de Pedro e outros (8:14‑17)
  19. Preço e urgência do discipulado (8:18‑22)
  20. A tempestade é acalmada (8:23‑27)
  21. Livramento de dois endemoninhados gadarenos (8:28‑34)
  22. Perdão e cura de um paralítico (9:1‑8)
  23. Chamada de Mateus, e Jesus come com publicanos e pecadores (9:9‑13)
  24. A questão sobre o jejum (9:14‑17)
  25. Cura da mulher hemorrágica e ressurreição da filha de um chefe (9:18‑26)
  26. Cura de dois cegos (9:27‑31 )
  27. Livramento de um endemoninhado mudo (9:32‑34)
  28. Segundo discurso: comissão e instrução aos doze discípulos para sua missão pela Galiléia (9:35 ‑ 11:1)
  29. Narrativa (11:2 ‑ 12:50)
  30. Testemunho de Jesus sobre João Batista (11:2‑15)
  31. Jesus condena os impenitentes (11:16‑24)
  32. Jesus agradece ao Pai e convida aos cansados (11:25‑30)
  33. Jesus é senhor do sábado (12:1‑14)
  34. Defende Seus discípulos por terem colhido e comido espigas num sábado (12: 1‑8)
  35. Cura o homem de mão mirrada num sábado (12:9‑14)
  36. Jesus retira‑se e opera mais curas (12:15‑21)
  37. Livramento de um endemoninhado cego e mudo, e defesa do exorcismo praticado por Jesus (12:22‑37)
  38. Jesus recusa‑se a dar outro sinal além do de Jonas, condena a justiça própria e identifica Seus verdadeiros parentes espirituais (12:38‑50)
  39. Terceiro discurso: sete parábolas sobre o reino (13:1‑52)
  40. A semente e os solos: mais comumente, o semeador (13:1‑9)
  41. Razões do ensino por parábolas: confundir aos incrédulos e iluminar aos crentes (13:10‑17)
  42. Interpretação da semente e dos solos (13:18‑23)
  43. O trigo e o joio (13:24‑30)
  44. O grão de mostarda (13:31,32)
  45. O fermento e o cumprimento das Escrituras pelo método de parábolas (13:33‑35)
  46. Interpretação do trigo e do joio (13:36‑43)
  47. O tesouro escondido (13:44)
  48. A pérola de grande preço (13:45,46)
  49. A rede com peixes bons e maus, e declaração final sobre a compreensão das parábolas (13:47‑52)
  50. Narrativa (13:53 ‑ 17:27)
  51. Rejeição de Jesus em Nazaré (13:53‑58)
  52. Morte de João Batista (14:1‑12)
  53. Multiplicação de pães para cinco mil homens (14:13‑21)
  54. Jesus e Pedro andam por sobre as águas (14:22‑36)
  55. Contaminação cerimonial versus contaminação moral e ética (15:1‑20)
  56. Livramento da filha endemoninhada da mulher cananéia, e outras curas (15:21‑28)
  57. Multiplicação de pães para quatro mil homens (15:32‑39)
  58. Outra recusa a dar sinal, senão o de Jonas (16:1‑4)
  59. Advertência contra fariseus e saduceus (16:5‑12)
  60. Pedro confessa a Jesus como o Messias e é abençoado (16:13‑20)
  61. Jesus prediz Seus sofrimentos, morte e ressurreição; repreende a Pedro por tentar dissuadi‑lo: e convida os discípulos a levarem a cruz do discipulado (16:24‑28)
  62. Transfiguração de Jesus (17:1‑13)
  63. Cura do menino endemoninhado (17:14‑21)
  64. Jesus torna a predizer Sua morte e ressurreição (17:22,23)
  65. Jesus paga a taxa do templo (17:24‑27)
  66. Quarto discurso: humildade e perdão, com a parábola dos dois devedores (18:1‑35)
  67. Narrativa (19:1 ‑ 22:46)
  68. Questões do divórcio e do casamento (19:1‑12)
  69. Jesus abençoa as crianças (19:13‑15)
  70. O jovem rico e o preço e a recompensa do discipulado (19:16-30)
  71. Parábola do empregador e seus trabalhadores (20:1‑16)
  72. Outra predição de Jesus sobre Sua morte e ressurreição (20:17‑19)
  73. Solicitação de posição de honra pela mãe de Tiago e João para seus filhos (20:20‑28)
  74. Cura de dois cegos perto de Jericó (20:29‑34)
  75. Entrada triunfal em Jerusalém (21:1‑11)
  76. Purificação do templo (21:12‑17)
  77. A figueira estéril é amaldiçoada (21:18‑22)
  78. Desafio à autoridade de Jesus (21:23‑27)
  79. Parábola do filho obediente e do desobediente (21:28‑32)
  80. Parábola dos lavradores maus (21:33‑46)
  81. Parábola das bodas reais e do traje nupcial (22:1‑14)
  82. Questão do pagamento de taxas a César (22:15‑22)
  83. Questão da ressurreição, exposta pelos saduceus (22:23‑33)
  84. Questão sobre o maior mandamento (22:34‑40)
  85. Jesus indaga sobre o Messias como descendente de Davi e Seu senhorio (22:41‑46)
  86. Quinto discurso (23:1 ‑ 25:46)
  87. Ais contra os escribas e fariseus (23:1‑39)
  88. Discurso do monte das Oliveiras (24:1 ‑ 25:46)
  89. Previsão dos eventos pressagiadores até à volta de Cristo (24:1‑31)
  90. Exortações à vigilância, com as parábolas da figueira, do ladrão, dos servos fiéis e infiéis, das dez virgens e dos talentos (24:32 ‑ 25:30)
  91. Julgamento das ovelhas e dos bodes (25:31‑46)

 

  1. MORTE E RESSURREIÇÃO DO MESSIAS (26:1 ‑ 28:20)
  2. Outra predição de Jesus sobre Sua morte, e a conspiração do Sinédrio, a unção de Jesus em Betânia e a resultante barganha de Judas, traidor de Jesus (26:1‑16)
  3. A última Ceia (26:17‑35)
  4. Oração de Jesus no horto do Getsêmani (26:36‑46)
  5. Detenção de Jesus (26:47‑56)
  6. O julgamento (26:57 ‑ 27:26)
  7. Audição ante Caifás, com as negações de Pedro (26:57‑75)
  8. Decisão condenatória do Sinédrio (27:1,2)
  9. Audição ante Pôncio Pilatos, o suicídio de Judas e a soltura de Barrabás (27:3‑26)
  10. Crucificação e morte de Jesus (27:27‑56)
  11. Sepultamento de Jesus (27:57‑66)
  12. A ressurreição (28:1‑15)
  13. A Grande Comissão (28:16‑20)

 

EXCURSO DE CITAÇÕES, NO NOVO TESTAMENTO, EM CUMPRIMENTO A TRECHOS DO ANTIGO TESTAMENTO

A ênfase posta por Mateus sobre o cumprimento das profecias messiânicas, por parte de Jesus, torna mui apropriada, neste ponto, a consideração sobre o motivo do cumprimento, que figura por todo o Novo Testamento. Os escritores do Novo Testamento e o próprio Jesus viam, na nova era, o cumprimento tanto das predições conscientes quanto da tipologia inconsciente do Antigo Testamento. (Tipologia é termo que se refere a eventos históricos, a indivíduos e a instituições divinas que Deus queria que fossem prefiguradores, inteiramente à parte do fato que os autores do Antigo Testamento estavam ou não cônscios do seu simbolismo preditivo).

 

Temas de cumprimento

Eis um sumário dos principais temas do cumprimento direto e tipológico, em Mateus e no resto do Novo Testamento. Jesus cumpriu as atividades do próprio Senhor, conforme é descrito e predito no Antigo Testamento (Mateus 1:21; 3:3,4 par.(A abreviação par significa paralelo(s), referindo‑se a passagens em outros evangelhos. Quanto às passagens do Velho Testamento citadas ou aludidas, ver as referências marginais em uma boa Bíblia com concordâncias cruzadas.); 11:5 par.; 13:41; 24:31 par.; 27:9,10). Jesus é o rei messiânico que fora predito (Mateus 1:23; 2:6,23; 3:17 par.; 4:15,16; 21:5; 22:44 par.; 26:64 par.), é o Servo do Senhor, referido em Isaías (Mateus 3:17 par.; 8:17; 11:5 par.; 12:18‑21; I Ped. 2:22 ss.), é o Filho do homem de Daniel (Mateus 24:30 par.; 26:64 par.; 28:18). Ele é a figura culminante da linhagem profética (Mateus 12:39,40 par.; 13:13‑15 par., 35; 17:5 par.; I Coríntios 10:2; II Coríntios 3:7 ss.; Hebreus 3:1 ss.), da sucessão de sofredores justos, desde os tempos do Antigo Testamento (Mateus 21:42 par.; 27:34,35 par., 39 par., 43, 46 par., 48 par.), e da dinastia davídica (Mateus 12:42 par.). Ele reverteu a obra de Adão, o qual fez a raça humana mergulhar no pecado (Mateus 4:1 ss. par.; Romanos 5:12; 1 Coríntios 15:21, 22,45 ss.; Hebreus 2:6 ss.; comparar com Lucas 3:38). Ele cumpriu a promessa feita a Abraão (Gálatas 3:16). Visto ser Ele o israelita ideal, Jesus recapitulou a história nacional de Israel em Sua própria história (Mateus 2:15,18; 4:4,7,10 par.).

Melquisedeque prefigurou o sacerdócio de Cristo, segundo também o fazia, embora de maneira inferior e às vezes contrastante, o sacerdócio arônico (Hebreus 7 ‑ 10). O cordeiro pascal e outros sacrifícios simbolizavam a Sua morte remidora (I Corintios 5:7; Efésios 5:2; Hebreus 9 e 10; Romanos 3:25; I Pedro 1:19 ss.; Apocalipse 5:6 ss.), bem como a devoção e o serviço dos cristãos (Romanos 12:1; 15:16; Filipenses 2:17). Jesus é o pão doador da vida, semelhante ao maná (João 6:35; 1 Coríntios 10:3), a fonte da água da vida, semelhante à rocha no deserto, durante as jornadas de Israel do Egito à terra de Canaã (I Coríntios 10:4; comparar com João 7:37), a serpente levantada no deserto (João 3:14) e o tabernáculo e o templo de Deus, habitação divina entre os homens (João 1:14; 2:19 ss., comparar com Colossenses (1:19).

João Batista foi o predito precursor de Jesus (Marcos 1:2, 3). Jesus inaugurou o vaticinado período escatológico de salvação (João 6:45) e estabeleceu o novo pacto (Hebreus 8:8‑12 e 10:16,17). Judas Iscariotes cumpriu o papel dos ímpios oponentes dos sofredores justos que viveram durante o Antigo Testamento (Atos 1:20). A Igreja, coletivamente, ou os crentes, individualmente, são a nova criação (II Coríntios 5:17; Gálatas 6:15; Colossenses 3:10), a descendência espiritual de Abraão, por haverem sido incorporados em Cristo (Gálatas 3:29; 4:24 ss.; Romanos 4:1 ss.; 9:6 ss.; Filipenses 3:3), o novo Israel (Romanos 9:6 ss.; 11:17 ss.; II Coríntios 6:16; I Pedro 2:9,10), e o novo templo (I Coríntios 3:16; 6:19; II Coríntios 6:16 e Efésios 2:2(, ss.). A lei mosaica prefigurava a graça divina, positiva e negativamente (João 1:17; Colossenses 2:17 e Gálatas). O dilúvio representa o juízo final (Mateus 24:34 ss.), bem como o batismo (I Pedro 3:20,21). A passagem em seco pelo mar Vermelho, como também o rito da circuncisão, prefiguravam o batismo (I Coríntios 10:2; Colossenses 2:11.12). Jerusalém é símbolo da cidade celestial (Hebreus 12:22; Apocalipse 21:2 ss. e Gálatas 4:26). A entrada na terra de Canaã prefigurou a entrada dos crentes no descanso espiritual (Hebreus 3:18 ‑ 4:13). E a proclamação do evangelho a todos os homens cumpre a promessa feita a Abraão, como também predições proféticas atinentes à salvação universal (Atos 2:17 ss.; 3:25; 13:47; 15:16 ss. e Romanos 15:9 ss., 21).

 

Textos seletos e Livros de Testemunho

C.H. Dodd chamou atenção para o fato que os escritores do Novo Testamento inclinavam‑se por extrair citações de cumprimento de um grupo bastante limitado de passagens do Antigo Testamento (“textos‑delineados”), consideradas extremamente relevantes para a nossa nova era.(C. H. Dodd. According to the Scriptures (Londres: Nisbet, 1961).) Talvez os cristãos primitivos também tenham traçado manuais de textos de provas extraídos do Antigo Testamento, intitulados “livros de testemunho” pelos eruditos modernos. Algo parecido com um livro de testemunho apareceu entre os Papiros do Mar Morto, mas, naturalmente, não tinha orientação cristã.

 

Método interpretativo

Também é digno de nota que os escritores do Novo Testamento não distorceram o sentido original dos textos do Antigo Testamento, nem mesmo em suas aplicações tipológicas (embora a questão seja disputada por críticos negativos), fazendo violento contraste com o desavergonhado desrespeito ao intuito original por parte de outros judeus, que viveram no período do Novo Testamento. Evidentemente os primitivos cristãos aprenderam a nova e apropriada maneira de interpretar a significação escatológica do Antigo Testamento, por parte do próprio Jesus (comparar com Lucas 24:27).

 

Formas do texto

A Septuaginta serviu de base textual para a maioria das citações extraídas do Antigo Testamento, embora ocorram variações com certa freqüência. Mateus, em particular, parece ter‑se valido do texto hebraico do Antigo Testamento, dos Targuns e de outras tradições textuais, em adição à Setuaginta.(Ver K. Stendahl, The School of St. Matthew„ and Its Use of the 0ld Testament (Filadélfia: Fortress, 1968) R.H. Gundry, The Use of lhe 0ld Testament in St. Matthew’s Gospel (Leiden: Brill, 1967), quanto a estudos técnicos.)

 

Historicidade

Algumas vezes se têm assacado acusações contra os primitivos cristãos, que teriam distorcido e mesmo criado incidentes na vida de Jesus, a fim de forçarem o “cumprimento” de alguma suposta profecia messiânica. É verdade que os escritores dos evangelhos com freqüência tomaram por empréstimo a fraseologia do Antigo Testamento a fim de descreverem eventos da carreira de Jesus. Mas as alusões aos textos do Antigo Testamento por muitas vezes são por demais fugidias e passageiras para que tenham servido de base de invenções e distorções livres das tradições. Algumas das passagens citadas do Antigo Testamento são tão obscuras que dificilmente poderiam ter‑se prestado como fontes de corrupção das tradições a respeito de Jesus. As citações tiradas do Antigo Testamento parecem ser adições posteriores às informações concernentes a Jesus. A tradição evangélica figura em primeiro lugar, e somente em segundo lugar figura o reconhecimento de certas correspondências entre aquela tradição e antigas predições messiânicas.

 

LUCAS: O EVANGELHO DA CERTEZA HISTÓRICA

 

Prólogo

O autor do terceiro evangelho começa com uma referência a narrativas prévias sobre os primórdios do movimento cristão, baseadas sobre relatórios de quem havia sido “testemunhas oculares e ministros da palavra” (1:1,2). Em seguida, ele refina o seu projeto, declarando‑o “uma exposição em ordem” sobre aquela fidedigna tradição, além de esclarecer seu propósito, que é o de convencer seus leitores, sobre a exatidão histórica das tradições cristãs (1:3,4).

 

Autoria

O evangelho de Lucas e o Livro de Atos dos Apóstolos forçosamente saíram da pena de um mesmo autor, porquanto começam ambos com uma dedicatória a Teófilo, além de compartilharem de interesses comuns e de um só estilo de redação. Outrossim, o livro de Atos faz alusão ao “primeiro livro”  (Atos 1:1). E visto que o terceiro evangelho e o livro de Atos devem ter vindo do mesmo autor, deduzimos a autoria lucana de Lucas‑Atos do fato de ter sido ele o único dos companheiros de viagem de Paulo, mencionados nas epístolas, que poderia haver escrito as chamadas seções ‑ “nós” do livro de Atos. Todas as demais personagens estão excluídas por terem sido mencionadas na terceira pessoa, no livro de Atos, ou devido à impossibilidade de harmonizar seus movimentos geográficos em consonância com as seções ‑ “nós” do livro de Atos. Outrossim, as antigas tradições confirmam a autoria lucana. (O Cânon Muratoriano: o prólogo antimarcionita de Lucas; Irineu, Contra Heresias III.i.I ; e os escritores posteriores.)

 

O homem Lucas

Mui provavelmente Lucas era um gentio (ou, pelo menos, um judeu helenista), podendo ter‑se convertido em Antioquia da Síria.(Comparar o prólogo antimarcionita do terceiro evangelho e a forma “nós” do códex D, em Atos I 1:28, um contexto antioqueano. A maioria dos eruditos pensa ter sido Lucas um gentio. Quanto a estudos recentes que o apontam como judeu, ver E.E. Ellis, The Gospel of Luke (Londres: Nelson, 1966), págs. 52, 53: W. F. Albright, em obra de Johannes Munck, The Acts of the Apostles (Garden City: Doubleday, 1967), págs. 264‑267: B. Reicke, The Gospel of Luke. traduzido por R. Mackenrie (Richmond: Knox, 1964), págs. 12‑23.) Seu nome é de origem grega. Nas despedidas constantes em Colossenses 4:10‑14, Paulo parece distingui‑lo de judeus (hebraístas?), vinculando‑o com os gentios. Sua facilidade no uso do idioma grego sugere que era gentio (ou judeu helenista), mais afeito ao idioma grego que a maioria cios judeus tê-lo‑ia sido. O estilo grego de Lucas, juntamente com o estilo da epístola aos Hebreus, é o mais refinado de todo o Novo Testamento. As exceções têm lugar quando parece que ele seguia fontes informativas semíticas, orais ou escritas, ou então quando adotava um estilo semítico de grego, para que soasse como grego “bíblico” da Septuaginta. Por outra parte, ambos os livros de autoria lucana começam com uma dedicatória formal, ao estilo literário greco‑romano ‑ os únicos livros do Novo Testamento que assim fazem. Paulo chama Lucas de “médico amado”, em Colossenses 4:14, descrição essa confirmada pelo interesse acima do normal que Lucas demonstrou por enfermidades, mediante seu uso freqüente de termos médicos(Vide, por exemplo, o comentário de Lucas sobre o frito que a mulher hemorrágica gastara todo o seu dinheiro com médicos (Lucas 8:43, segundo alguns manuscritos antigos).) ‑ embora esse aspecto de sua redação possa ser exagerada por nós.

Universalismo gentílico

Lucas dedica a sua obra a Teófilo, talvez um convertido recente ou em potencial, ou então um patrono que patrocinou a circulação do terceiro evangelho (e do livro de Atos), fazendo ambos os seus livros penderem mais para os gentios, sobretudo aqueles dotados de um interesse franco nas origens históricas do cristianismo. Assim sendo, Lucas estava interessado em estabelecer a inocência política de Jesus sob as leis romanas.(Vide especialmente a narrativa lucana sobre a cena do julgamento perante Pilatos, onde o governador romano repetidamente absolveu a Jesus de qualquer culpa (23:1‑25).) Ele mostra que o evangelho é universal, que Jesus derrubara a barreira entre judeus e gentios e inaugurara uma comunidade de âmbito mundial na qual as antigas desigualdades entre escravos e libertos, entre homens e mulheres, não mais existem. Porquanto Lucas se dirigiu a uma audiência gentílica, ele não demonstra o interesse judaico pelas profecias messiânicas cumpridas, com o mesmo grau de intensidade com que o faz Mateus. E também modificou expressões peculiarmente judaicas, juntamente com alusões a costumes judaicos, a fim de que seus leitores gentios pudessem compreender melhor o que lessem.(Por exemplo, “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados” (Mateus 23:27), onde há alusão ao costume judaico de caiar os túmulos para torná‑los claramente visíveis, para que ninguém viesse a contrair contaminação cerimonial inadvertidamente, ao tocar em algum deles. Lucas faz uma paráfrase a fim de desvencilhar‑se do costume distintivo, mas mantém o pensamento essencial: “Ai de vós! que sois como as sepulturas invisíveis, sobre as quais os homens passam sem o saber” (Lucas 11:44).)

Há muitas indicações específicas desse universalismo que inclui os povos gentílicos, indicações quase todas elas ausentes nos demais evangelhos. Verifica‑se um interesse especial em vincular episódios da carreira de Jesus a datas da história secular (1:5; 2:1 e 3:1,2). Jesus é “luz para revelação aos gentios” (2:32). A citação do trecho de lsaías 40 inclui as palavras “e toda a carne verá a salvação de Deus” (3:6). A genealogia de Jesus não remonta somente até Abraão (consoante se vê em Mateus), mas até Adão, progenitor da raça humana inteira (3:23‑38). Jesus chamou atenção para o fato que Elias foi abrigado por uma viúva fenícia, e não por uma israelita, e para o fato que Eliseu curou a um leproso sírio (Naamã), e não um leproso israelita (4:25‑27). Em comum com Mateus, Lucas inclui a Grande Comissão de evangelizar “a todas as nações” (24:47; comparar com Mateus 28:19,20). Todavia, o universalismo que transparece no evangelho de Mateus é um universalismo no qual os cristãos judeus haviam dado seu colorido paroquial. O de Lucas, porém, é um universalismo helenista, que desconhece os estreitos limites judaicos.

 

Universalismo social e econômico

O universalismo de Lucas inclui não apenas os gentios em geral, mas também os párias sociais, como se deu com a mulher de vida imoral que veio ungir os pés de Jesus (7:36‑50), como Zaqueu , o publicano (i9:1‑10), como o criminoso penitente que morreu na cruz ao lado da de Jesus (23:39‑43), como o filho pródigo (15:11‑32, uma parábola), como o publicano que se arrependeu (18:9‑14, uma parábola), como os samaritanos e os pobres. Tiago e João foram repreendidos por haverem querido chamar fogo do céu contra uma aldeia de samaritanos (9:51‑56). O bom samaritano, em certa parábola, aparece sob luz que lhe é favorável (10:29‑37). O único leproso, dentre nove outros, que voltou para agradecer a Jesus pela cura recebida, era um samaritano, tendo sido chamado ‑ este estrangeiro” (17:11‑19). Em Nazaré, Jesus pregou as boas novas “aos pobres” (4:16‑22). No Magnificat, Maria afirma que Deus”… exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos…” (1:52b,53). Na bem‑aventurança acerca dos pobres, falta a qualificação “de espírito”, que se vê em Mateus (6:20; comparar com Mateus 5:3), como também na bem‑aventurança sobre os famintos falta a qualificação “de justiça”, que se vê em Mateus (6:21; comparar com Mateus 5:6). E Lucas equilibra as bem‑aventuranças concernentes aos pobres e famintos com ais dirigidos aos ricos e satisfeitos (6:24,25). Lucas é o único evangelista a incluir as palavras de Jesus: “Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos… Antes, ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados , os coxos e os cegos.” (14:12,13) Lucas é quem chama os fariseus de “avarentos” (16:14), e é igualmente quem nos expõe as parábolas do rico insensato, do gerente injusto que agiu com caridade (e , por conseguinte, com astúcia), e do rico e Lázaro (12:13‑21; 16:1.‑13, 19‑31).

O universalismo de Lucas também se evidencia na especial atenção que ele dá às mulheres: Maria, Isabel e Ana, na narrativa da natividade (1 e 2), a viúva de Naim (7:11‑17), as mulheres que sustentavam a Jesus (8:1‑3), a mulher imoral (7:36‑50), Maria e Marta (10:38‑42), a viúva pobre (21:1‑4), as mulheres que se lamentaram por Jesus (23:27‑31), que observaram a crucificação (23:49), e que tencionaram embalsamar a Jesus e acabaram por ser testemunhas do túmulo vazio e deram notícia sobre a ressurreição (23:55 ‑ 24:11).

 

Um Cristo cosmopolita

Assim, pois Lucas retrata a Jesus como um Salvador cosmopolita, dotado de amplas simpatias, capaz de associar‑se com toda espécie de gente, que tinha contatos com fariseus e publicanos igualmente (7:36 ss.; 11:37 ss.: 14:1 ss.; 19:1‑10), e que demonstrava preocupação com vítimas de calamidades pessoais (7:11-17; 8:40‑56 e 9:37‑43). Nos pontos em que Mateus se concentra sobre Jesus e o reino, Lucas se concentra sobre Jesus e o povo comum, com resultantes esboços de caráter que são intensamente vívidos.

 

Oração

Em numerosas oportunidades Jesus aparece como homem de oração: quando de Seu batismo (3:21), após ministrar às multidões (5:16), antes de escolher aos Doze (6:12), antes da confissão de Pedro e da predição de Sua própria morte e ressurreição (9:18), por ocasião de Sua transfiguração (9:28,29), ao retornarem os setenta discípulos de sua missão (10:21), antes de ensinar aos discípulos como orar (11:1), no Getsêmani (22:39‑46), e por duas vezes, estando cravado na Cruz (23:34,46). Quase todas essas alusões ao fato que Jesus orou são distintivas do evangelho de Lucas. Somente Lucas registra certas duas parábolas de Jesus a respeito da oração (11:5‑13 e 18:1‑8), além de informar‑nos que Jesus havia orado especialmente em favor de Pedro (22:31,32).

 

O Espírito Santo

Por semelhante modo, Lucas destaca a obra do Espírito Santo. Ele revela‑nos que João Batista seria cheio do Espírito Santo desde o próprio ventre de sua mãe (1:15). O Espírito Santo desceu sobre Maria, a fim de que, miraculosamente, ela viesse a dar à luz ao Filho de Deus (1:35). Quando Maria visitou Isabel, esta última foi cheia do Espírito Santo, exclamando: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre.” (1:41,42). Quando João Batista nasceu e recebeu o seu nome, seu pai, Zacarias, foi cheio do Espírito Santo e profetizou (1:67). O Espírito Santo repousava sobre Simeão, tendo‑o informado que ele contemplaria o Messias antes de sua morte, tendo‑o impulsionado a que fosse ao templo, para ver o infante Jesus Cristo (2:25‑27). Após ter recebido o Espírito Santo, por ocasião de Seu batismo, Jesus, “cheio do Espírito Santo” e “guiado pelo mesmo Espírito”, foi ao deserto (4:1). Terminado seu período de tentações, Jesus retornou à Galiléia “no poder do Espírito” (4:14). Quando da volta dos setenta discípulos, após sua bem sucedida missão, Cristo exultou “no Espírito Santo” (10:21). E antes de Sua ascensão prometeu que o Espírito Santo viria revestir Seus discípulos “de poder” proveniente do alto (24:49).

 

O sucesso do Evangelho

Em resultado, o evangelho de Lucas (tal como, mais adiante, o livro de Atos) pulsa com a alegria do bom êxito, com as emoções de um irresistível movimento da graça divina, na história humana.(Ver as referências à alegria em Lucas 1:14,44,47: 6:21,23: 10:21; 15:57,9,10,23‑25,32; 24:52.53.) É exatamente pelo motivo que acabamos de exprimir, acima de qualquer outra razão, que nos cumpre repelir as recentes tentativas para interpretar a perspectiva lucana da história como um ajustamento a uma demora cada vez maior da parousia. Lucas não escrevia impelido pelo embaraço, mas pela suprema confiança do avanço inevitavelmente bem sucedido do evangelho, inaugurado por Jesus, o “Senhor” (designação favorita de Lucas, que ele aplicava a Jesus) e levado avante por Seus discípulos, na energia do Espírito.

 

Data

Nada impede uma data regularmente recuada para o terceiro evangelho, pouco depois da publicação do evangelho de Marcos, sob a suposição que Lucas se utilizou de Marcos. Muitos eruditos sentem que o fato de Lucas ter alterado as palavras de Marcos, “a abominação desoladora”. para uma descrição sobre o cerco de Jerusalém (21:20) prova que Lucas escreveu após o ano 70 D.C. Mas esse raciocínio novamente se olvida ou mesmo nega a possibilidade que Jesus realmente predisse o cerco e a destruição de Jerusalém. Lucas pode ter omitido menção à “abominação desoladora” meramente porque sabia que essa expressão, tirada do livro de Daniel 9:27: 11:31 e 12:11, não teria qualquer sentido para os seus leitores gentios. Mas, se Lucas estava realmente moldando as palavras de Jesus aos acontecimentos do ano 70 D.C. e de dias próximos, por que ele reteve o mandamento: “fujam para os montes” (21:21), e isso a despeito do fato que durante o cerco de Jerusalém os cristãos que então habitavam em Jerusalém fugiram para Pela, na região não‑montanhosa da Transjordânia?

O livro de Atos termina no ponto em que Paulo esperava ser julgado em Roma, provavelmente porque as circunstâncias não se tinham modificado ao tempo da escrita do livro. Nesse caso, o livro de Atos data de algum tempo antes de 64 D.C., a data tradicional e geralmente aceita para o martírio de Paulo (e Pedro). Além disso, se Lucas escreveu seu evangelho antes do livro de Atos, conforme parece lógico, o evangelho, por igual maneira, deve datar de algum tempo levemente anterior ao ano de 64 D.C. O lugar de escrita poderia ter sido Roma, onde Lucas permaneceu em companhia de Paulo, quando do encarceramento do apóstolo (embora a tradição antiga esteja dividida entre a Grécia e Roma, como local onde Lucas escreveu seus livros).

 

Plano

O evangelho de Lucas é o mais completo dos evangelhos sinópticos. Na verdade, é o mais volumoso livro de todo o Novo Testamento. Nos primeiros dois capítulos, Lucas começa com um prólogo e com a narração do nascimento e de episódios da infância de Jesus. O Seu batismo, genealogia e tentação aparecem em seguida, em 3:1 ‑ 4:13; o ministério na Galiléia (paralelo a Marcos), em 4:14 ‑ 9:50; a última jornada a Jerusalém, em 9:51 19:27; e, finalmente, a semana da paixão, a crucificação, a ressurreição, o ministério pós‑ressurreição e a ascensão, em 19:28 24:53. A última viagem a Jerusalém é a mais distintiva contribuição de Lucas ao nosso conhecimento da carreira de Jesus. Naquela seção, ele apresenta o ministério de Jesus na Peréia, registra muitas das mais famosas parábolas em nenhum outro lugar registradas (o bom samaritano, o rico insensato, o filho pródigo, o rico e Lázaro, o fariseu e o publicano, além de outras), e dá ênfase à significação de Jerusalém como o alvo colimado pelo ministério de Jesus. (Mais tarde, no livro de Atos, vê‑se que Jerusalém tornar‑se‑ia o centro de onde o testemunho cristão partiria para evangelizar ao mundo.) A história da natividade, em Lucas, contém muitíssima informação que não se encontra em Mateus, incluindo vários hinos e a narrativa do nascimento de João Batista. Finalmente, Lucas nos brinda com material bastante diferente daquele que se acha noutros evangelhos, no tocante à sua história da ressurreição de Cristo, e torna‑se o único evangelista que descreve a ascensão de Jesus.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE LUCAS

 

Tema: a certeza histórica do evangelho

Prólogo: Dedicatória a Teófilo e definição de propósitos ao escrever uma narrativa em ordem sobre fatos históricos dignos de confiança (1:1‑4)

I.- NATIVIDADE E INFÂNCIA DE JOÃO BATISTA E DE JESUS (1:5 ‑2:52)

  1. Anúncio do nascimento de João Batista a Zacarias e Isabel (1:5‑2:25)
  2. Anúncio do nascimento de Jesus a Maria (1:26‑38)
  3. Visita de Maria a Isabel, e o Magnificat (1:39‑56).
  4. Nascimento, circuncisão e outorga do nome a João Batista, e o Benedictus (1:57‑79)
  5. João Batista cresce no deserto (1:80)
  6. Nascimento de Jesus (2:1‑7)
  7. A visita dos pastores (2:8‑20)
  8. Circuncisão e outorga do nome a Jesus (2:21)
  9. Apresentação no templo, e o Nunc Dimittis de Simeão, e a adoração de Ana (2:22‑40)
  10. Jesus visita o templo com doze anos (2:41‑52)
  11. PRIMÓRDIOS DO MINISTÉRIO DE JESUS (3:1 ‑ 4:13)
  12. Ministério preparatório de João Batista (3:1‑20)
  13. O batismo de Jesus (3:21,22)
  14. A genealogia de Jesus (3:23‑38)
  15. A tentação de Jesus (4:1‑13)

III. MINISTÉRIO NA GALILÉIA (4:14 ‑ 9:50)

  1. Jesus é rejeitado em Nazaré (4:14‑30)
  2. Exorcismo na sinagoga de Cafarnaum (4:31‑37)
  3. Cura da sogra de Pedro, outros milagres e pregação (4:38‑44)
  4. Pesca miraculosa e chamada de Simão Pedro. Tiago e João ao discipulado (5:1‑11)
  5. Purificação de um leproso (5:12‑16) F. Perdão e cura de um paralítico (5:17‑26)
  6. Chamada de Levi (Mateus), e Jesus come com publicanos e pecadores (5:27‑32)
  7. Observações sobre o jejum (5:33‑39)
  8. Jesus defende Seus discípulos por terem colhido e comido espigas em dia de sábado (6:1‑5)
  9. Cura do homem de mão mirrada, em dia de sábado (6:6‑11)
  10. A escolha dos Doze (6:12‑16)
  11. O sermão no “lugar plano” no monte (6:17‑49)
  12. Cura do servo de um centurião (7:1‑10)
  13. Ressurreição do filho da viúva (7:11‑17)
  14. Indagação de João Batista e a resposta de Jesus, com elogio a João (7:18‑35)
  15. Jesus é ungido pela pecadora, que é perdoada (7:36‑50)
  16. Jesus prega com apoio financeiro de certas mulheres (8:1‑3)
  17. Parábola da semente e dos solos (mais comumente, do semeador) e da lâmpada (8:4‑18)
  18. Tentativa dos familiares de Jesus por vê‑Lo, Sua observação sobre Seus verdadeiros parentes espirituais (8:19‑21)
  19. A tempestade é acalmada (8:22‑25)
  20. Livramento do endemoninhado geraseno (8:26‑39)
  21. Cura da mulher hemorrágica e ressurreição da filha de Jairo (8:40‑56)
  22. A missão dos Doze (9 :1‑6)
  23. O temor culposo de Herodes Antipas ante a morte de João Batista (9:7‑9)
  24. Multiplicação dos pães para os cinco mil homens (9:10‑17)
  25. Confissão de Pedro sobre o caráter messiânico de Jesus e a predição deste sobre a Sua morte e ressurreição, com convite a que levemos a cruz do discipulado (9:18‑27)
  26. A transfiguração (9:28‑36)
  27. Livramento de um menino endemoninhado (9:37‑45)
  28. Observações sobre a humildade (com uma criança a servir de exemplo) e a tolerância (9:46‑50)
  29. ÚLTIMA JORNADA A JERUSALÉM (9:51 ‑ 19:27)
  30. Determinação de Jesus de ir a Jerusalém, e a falta de hospitalidade em uma aldeia de samaritanos (9:51‑56)
  31. Observações sobre o discipulado ante discípulos em potencial (9:57‑62)
  32. A missão dos setenta (10:1‑24)
  33. A parábola do bom samaritano (10:25‑37)
  34. Jesus é hospedado por Maria e Marta (10:38‑42)
  35. Ensino sobre a oração, incluindo o Pai Nosso, e a parábola do amigo que viera à meia noite (11:1‑13)
  36. Episódios polêmicos (11:36 ‑ 12:12)
  37. Defesa contra a acusação de ser possuído pelo diabo, recusa de dar qual quer sinal salvo o de Jonas, e parábola da lâmpada (I 1:33‑36)
  38. Desmascaramento dos fariseus e escribas (11:37‑54)

 

  1. Advertência contra o farisaísmo (12:1‑12)
  2. Observações sobre a cobiça, a ansiedade, a confiança e a vigilância escatológica, incluindo a parábola do rico insensato (12:13‑59)
  3. Convite ao arrependimento, incluindo a parábola da figueira (13:1‑9)
  4. Cura de uma mulher corcunda, em dia de sábado (13:10‑17)
  5. Parábolas da semente de mostarda, do fermento e da porta estreita (13:18-30)
  6. Jesus recusa‑se a entrarem pânico por causa de Herodes Antipas, e Sua Lamentação por Jerusalém (13:31‑35)
  7. Cura de um hidrópico, em dia de sábado (14:1‑6)
  8. Parábola dos convites a uma festa de casamento (14:7‑14)
  9. Parábola do grande banquete (14:15‑24)
  10. Parábolas do edificador da torre e do rei em época de guerra (14:25‑35)
  11. Três Parábolas em defesa da acolhida dada a pecadores (15:1‑32)
  12. Parábola da ovelha perdida (15:1‑7)
  13. Parábola da moeda perdida (15:8‑10)
  14. Parábola do filho pródigo e seu irmão mais velho (15:11‑32)
  15. Duas parábolas sobre o uso do dinheiro (16:1‑31)
  16. Parábola do gerente injusto, com mais comentários sobre os fariseus (16:1‑ 18)
  17. Parábola do rico e Lázaro (16:19‑31)
  18. Observações sobre o perdão, a fé e o senso do dever (17:1‑10)
  19. Cura dos dez leprosos e a gratidão de um deles, um samaritano (17:11‑19)
  20. Vinda do reino de Deus e do Filho do homem, incluindo a parábola da viúva e do juiz injusto (17:20 ‑ 18:8)
  21. Parábola do fariseu e do publicano (18:9‑14)
  22. Jesus acolhe as criancinhas (18:15‑17)
  23. O jovem rico (18:18‑30)
  24. Jesus prediz Sua morte e ressurreição (18:31‑34)
  25. Cura do cego, perto de Jericó (18:35‑43)
  26. A conversão de Zaqueu (19:1‑10)
  27. A parábola das minas (19:11‑27)
  28. SEMANA DA PAIXÃO E A MORTE, RESSURREIÇÃO E MINISTÉRIO PÓS‑RESSURREIÇÃO E ASCENSÃO DE JESUS EM JERUSALÉM E CERCANIAS (19:28 ‑ 24:53)
  29. A semana da paixão e a morte de Jesus (19:28 ‑ 23:56)
  30. Entrada triunfal em Jerusalém, incluindo a purificação do templo (19:28‑48)
  31. Debate teológico no recinto do templo (20:1 ‑ 21:4)
  32. Desafio à autoridade de Jesus (20:1‑8)
  33. Parábola dos lavradores maus e dá vinha (20:9‑18)
  34. Questão do pagamento de taxas a César (20:19‑26)
  35. Pergunta dos saduceus sobre a ressurreição (20:27‑40)
  36. Pergunta de Jesus sobre o Messias ser descendente de Davi e Seu senhorio (20:41‑44)
  37. Advertência contra os escribas (20:45‑47)
  38. As duas moedinhas da viúva (21:1‑4)
  39. Discurso do monte das Oliveiras (21:5‑38)
  40. O Sinédrio planeja matar a Jesus e a barganha de Judas Iscariotes (22:1‑6)
  41. A última Ceia (22:7‑38)
  42. Jesus ora no horto do Getsêmani (22:39‑46)
  43. Detenção de Jesus (22:47‑53)
  44. Julgamento de Jesus (22:54 ‑ 23:25)
  45. Audição noturna na casa do sumo sacerdote e as negações de Pedro (22:54‑65)
  46. Condenação pelo Sinédrio, cedo de manhã (22:66‑71)
  47. Primeira audição ante Pilatos (23:1‑5)
  48. Audição ante Herodes Antipas (23:6‑12)
  49. Segunda audição ante Pilatos, quando Pilatos, contra a vontade, solta a Barrabás e entrega a Jesus à crucificação (23:13‑25)
  50. A crucificação de Jesus
  51. Simão o cireneu leva a cruz de Jesus e as mulheres se lamentam (23:26-31)
  52. Jesus é crucificado e escarnecido (23:32‑38)
  53. O criminoso penitente (23:39‑43)
  54. Morte de Jesus (23:44‑49)
  55. Sepultamento de Jesus (23:50‑56)
  56. Ressurreição de Jesus (24:1‑12)
  57. Ministério pós‑ressurreição (24:13‑49)
  58. Jornada a Emaús, com Cleopas e outro discípulo (24:13‑35)
  59. Aparecimento de Jesus em Jerusalém (24:36‑43)
  60. Jesus ensina sobre Si mesmo, com base no Antigo Testamento, e dá a Grande Comissão (24:44‑49)
  61. Ascensão de Jesus (24:50‑53)

 

 

JOÃO: O EVANGELHO DA FÉ EM JESUS PARA A VIDA ETERNA

 

Autoria

Escrito em estilo simples, o último dos quatro evangelhos exibe uma profundeza teológica que ultrapassa à dos evangelhos sinópticos. As tradições da Igreja primitiva indicam que o apóstolo João escreveu o quarto evangelho já no término do primeiro século da era cristã, em Éfeso, cidade da Ásia Menor. Particularmente importante quanto a isso é o testemunho de Irineu, discípulo de Policarpo, o qual, por sua vez, fora discípulo do apóstolo João ‑ uma direta linha de tradição, com um elo de ligação entre Irineu e o próprio João. (Contra Heresias II.22.5; III.1.1; 3.4; e os relatos de Eusébio, História Eclesiástica III.23.1‑4; IV.15.3‑8; V.8.4 e 20.4‑8.)

No passado, alguns eruditos insistiram em que esse evangelho não teria sido escrito senão já nos meados do século II D.C., pelo que certamente não era da lavra do apóstolo João. Porém, o descobrimento do Fragmento Rylands, do evangelho de João, forçou o abandono de tal ponto de vista. Esse fragmento de papiro pertence à data de cerca de 135 D.C., e necessariamente subentende que já se tinham passado várias décadas desde que esse evangelho fora escrito, e que já estivera circulando desde há algum tempo pelo interior do Egito, onde foi descoberto o fragmento. Outros antiquíssimos papiros, contendo textos extraídos do evangelho de João, confirmam o que se pode subentender do Fragmento Rylands.

Apesar disso, ainda existem muitos eruditos que não estão convencidos de que o apóstolo João escreveu o evangelho que traz o seu nome. Alguns sugerem que um discípulo do apóstolo João, talvez o ancião João, mencionado por Papias(Citado por Eusébio, História Eclesiástica III.39.4.) (125 D.C.), tenha escrito o mesmo, para mais tarde haver sido confundido com o apóstolo do mesmo nome. Uma inspeção mais precisa sobre a declaração de Papias, entretanto, demonstra que mui provavelmente Papias utilizou‑se do termo “ancião” em um sentido apostólico, pelo que também seria um antiquíssimo testemunho em favor da autoria pelo apóstolo João.(Se, pois, chegasse alguém que fora seguidor dos anciãos, eu o interrogaria sobre as palavras dos anciãos ‑ que dissera André ou Pedro, ou que fora dito por Filipe, por Tomé, por Tiago, por João, por Mateus, ou por qualquer outro dos discípulos do Senhor, e quais coisas dizem Aristiom e o ancião João, discípulo do Senhor” (Papias, conforme foi citado por Eusébio, segundo a tradução em A Select Library of Nicene and Post‑Nicene Fathers of the Christian Church. 2• série, editado por P. Schaff e H. Wace, traduzido por A.C. McGiffert (Nova Iorque: Scribner’s, 1904), vol. 1, pág. 171). De ambas as vezes em que o nome de João aparece na afirmativa de Papias, aparece com ambas as designações de “ancião” e “discípulo”. Em contraste, embora Aristiom seja designado discípulo, não recebe o título de “ancião”, ao ser mencionado paralelamente a João. Esse fato frisa um único indivíduo chamado João. Papias queria deixar clara a identificação de um único João, ao reiterar a designação “ancião”, que acabara de usarem relação aos apóstolos, mas que omite agora em relação a Aristiom. Papias menciona João pela segunda vez porque ele era o único dos apóstolos a continuar vivo e a pregar. Admitimos que Eusébio interpretou Papias como se este houvesse aludido a dois homens diferentes, de nome João, e chegou a falar de uma tradição acerca de dois homens de nome João, com diferentes sepulcros em Éfeso; mas Eusébio queria achar outro autor para o livro de Apocalipse, que ele não apreciava. Parece, pois, que com base nas declarações de Papias, pode‑se pensarem um certo ancião João, alegadamente distinto do apóstolo João, a fim de atribuir o livro de Apocalipse ao ancião, e não ao apóstolo.)

O autor do quarto evangelho reivindica o privilégio de ter sido testemunha ocular do ministério de Jesus (1:4, comparar com 19:35 e 21:24,25), além de demonstrar um estilo semítico em sua redação(O que é visto especialmente em declarações paralelas. Isso tem dado azo à teoria, não popular, que originalmente João teria escrito seu evangelho em aramaico.) e de possuir conhecimento acurado sobre os costumes dos judeus (por exemplo, os costumes de oferecer libações de água e de acender os candelabros, durante a festa dos Tabernáculos, pressupostos em 7:37‑39 e 8:12). Também era profundo conhecedor da topografia da Palestina, conforme ela era antes do holocausto de 70 D.C. (por exemplo, a fonte com os cinco pórticos, nas proximidades da Porta das Ovelhas [5:21 e a área pavimentada que havia do lado de fora do Pátio [19:131, ambas as coisas em Jerusalém, e ambas confirmadas pelas descobertas arqueológicas em tempos recentes).(Alguns eruditos, pois, datam o quarto evangelho em três décadas, mais ou menos, antes do fim do século I de nossa era, em contraposição à tradição antiga.) Em adição a isso, detalhes vívidos que só poderiam ser esperados da parte de uma testemunha ocular, apesar de incidentais à história, aparecem por toda a parte ‑ números (seis talhas para água 2:6, três ou quatro milhas [5:19], cem jardas (duzentos côvados) [21:8], cento e cinqüenta e três peixes [21:11]), nomes (Natanael [1:45 ss.], Nicodemos [3:1 ss], Lázaro [11: 1ss], Malco [18:10], etc.), e muitos outros toques vívidos. Esses fatos consubstanciam tanto a antiga tradição sobre a autoria apostólica deste evangelho como o seu corolário, o de que ali temos uma fidedigna tradição histórica.

Outrossim, o autor escreve como “aquele a quem Jesus amava”, não movido pelo egoísmo ‑ porquanto nunca se identifica por seu próprio nome! ‑ mas a fim de ressaltar que o conteúdo do evangelho merece crença, porquanto proveio de alguém em quem Jesus confiava. Acresça‑se a isso que os discípulo amado repetidas vezes aparece em chegada associação com Pedro (13:23,24; 20:2‑10; 21:2,7,20 ss.). Os evangelistas sinópticos informam‑nos que Tiago e João eram filhos de Zebedeu, que trabalhavam como pescadores juntamente com Pedro, e que com ele formaram o círculo mais interior dos Doze. Visto que desde há muito Tiago morrera como mártir (vide Atos 12:1‑5), e visto que Pedro figura como uma pessoa diferente da do discípulo amado, resta‑nos somente João para ser o discípulo arnado e autor do quarto evangelho. Pois se alguma outra pessoa, fora do discípulo amado, escreveu o quarto evangelho, então por que ele não vinculou o nome de João ao “discípulo a quem Jesus amava”? O anonimato do discípulo amado dificilmente poderia ser explicado, a menos que ele mesmo tivesse sido autor desse evangelho, e o processo de eliminação o identifica com o apóstolo João.

 

Suplementação dos evangelhos sinópticos

Conscientemente, João suplementa os evangelhos sinópticos.(Outros sentem que o quarto evangelista desconhecia os sinópticos, ou que alterou a tradição daqueles em certo número de pontos.) Ele destaca o ministério da Judéia, omitindo muitas parábolas e o tema do reino de Deus. Evidentemente João era da opinião que os evangelistas sinópticos já haviam apresentado informações suficientes sobre o ministério na Galiléia e sobre o reino. João também suplementa os evangelhos sinópticos ao esclarecer que o ministério público de Jesus durou por consideravelmente mais tempo do que a leitura isolada dos evangelhos sinópticos nos levaria a crer. Não se tendo preocupado em dar uma cronologia completa da vida de Jesus, os evangelistas sinópticos mencionam somente a última Páscoa, quando Jesus morreu. Mas João deixa‑nos saber que houve pelo menos três, e talvez até quatro Páscoas, durante a carreira pública de Jesus, pelo que também esta se prolongou pelo menos pelo espaço de mais de dois anos, e provavelmente de três a três anos e meio.(Vide A.T. Robertson, A Harmony of the Gospels (Nova Iorque: Harper & Row, 1950), págs. 267‑270.)

 

 

Discursos de Jesus em João

Com a exceção possível de Mateus, o quarto evangelho contém discursos mais longos, feitos por Jesus, do que os outros evangelhos sinópticos. Os discursos, tendem por eliminar porções históricas. Perguntas e objeções feitas pelos ouvintes de Jesus com freqüência pontuam os discursos, e João, de maneira regular, apresenta‑nos um Cristo que falava em estilo bastante diferente, em muitos particulares, daquilo que os evangelistas sinópticos nos dão a entender. Essas diferenças se originam em parte da própria maneira pela qual João traduzia para o grego, em ensinamentos dominicais, aquilo que originalmente fora dito em aramaico e hebraico (bem como em grego), e em parte pelo próprio hábito que João tinha de parafrasear, com o resultado que o vocabulário e o estilo do próprio evangelista com freqüência aparecem no seu registro sobre os ensinamentos de Jesus. Nos evangelhos sinópticos, a tradução evidentemente é mais literal e as paráfrases são menos extensas.(O vocabulário e o estilo do próprio João podem ser reconhecidos naquelas porções do quarto evangelho onde Jesus não estava falando, e com base em I‑III João. O Apocalipse, também joanino, é um tanto diferente, por várias razões possíveis.) Muitas vezes, uma tradução frouxa e a paráfrase podem transmitir melhor o sentido tencionado do orador do que as citações diretas, pelo que o modo de proceder joanino não é ilegítimo sob hipótese alguma. Por outro lado, não devemos superestimar o grau de paráfrases e de traduções lassas feitas por João, porquanto as duas famosas passagens paralelas que existem em Mateus 11:25-27 e Lucas 10:21,22 provam que Jesus podia falar e realmente falou no estilo que encontramos no quarto evangelho. Destacam-se proeminentemente nessas passagens os temas do relacionamento entre o Pai e o Filho, da ênfase acerca da revelação divina, do conhecimento e da eleição ‑ tudo o que é perfeitamente típico do evangelho de João. Também é possível que João tivesse preservado os aspectos mais formais do ensinamento de Jesus, a saber, Seus sermões nas sinagogas e Suas disputas com os teólogos judeus.

 

A teologia joanina

Percorrendo todo o quarto evangelho, muitos importantes temas teológicos aparecem e reaparecem, em diferentes combinações, algumas vezes figurando novamente em I ‑ III João e no Apocalipse. João expõe esses temas mediante uma habilidosa alternância de narrativas e discursos, de tal maneira que as palavras de Jesus ressaltam o sentido mais interior de Suas obras. Grande proporção das ações constantes nesse evangelho, pois, se reveste de papel simbólico. Por exemplo, a lavagem dos pés dos discípulos, por parte de Jesus, representa o efeito purificador de Sua obra remidora. Também se nota um freqüente toque irônico, como aquele que atinge a pergunta feita por Jesus: .”Tenho‑vos mostrado muitas obras boas da parte do Pai; por qual delas me apedrejais?” (10:32). E tal como os atos de Jesus envolvem um significado simbólico, assim também as Suas palavras com freqüência encerram um segundo e mesmo um terceiro significados. “Nascer de novo” também significa “nascer do alto” (3:3 ss.), e a referência ao fato que Jesus seria “levantado” salienta não só o método de Sua execução, mas também a Sua ressurreição e exaltação de volta aos céus (12:20‑36, especialmente 32).

 

A Palavra. A Verdade

Os temas teológicos joaninos começam sob a categoria de revelação. Jesus é a Palavra (ou Logos) revelatória de Deus. Nesse papel, ele revela a verdade, a qual é mais que mera veracidade.

Testemunho. Luz. Trevas

Trata‑se da realidade última da própria pessoa e do caráter de Deus, conforme testemunhado por Jesus, pelo próprio Pai, pelo Espírito Santo, pelas Escrituras e por outros. Ele é a luz que desse modo ilumina àqueles que crêem e que dissipa as trevas do mal.

 

Julgamento

A dissipação das trevas é o Julgamento do mundo. Não que Jesus tivesse vindo a fim de condenar ao mundo, mas é que Ele veio para discriminar entre aqueles que pertencem à luz e aqueles que pertencem às trevas ‑ e estes últimos já estão condenados por si mesmos, devido à sua incredulidade.

 

O mundo

O mundo, a sociedade humana controlada por Satanás, faz oposição à luz, e por isso torna-se objeto da ira divina. Isso torna tanto mais admirável o fato que Deus “amou o mundo” (3:16).

 

Amor

O amor de Deus veio por meio de Jesus Cristo e continua a manifestar‑se através do amor que os discípulos de Jesus têm uns pelos outros. A fim de exibir o amor divino, Jesus desceu da parte do Pai e procurou chegar à Sua “hora”, o tempo de Seu sofrimento e morte, em favor do mundo.

 

Glória

Com o intuito de revelara glória do Pai desse modo, o Pai, por Sua vez, glorificou ao Filho mediante a exaltação celestial.

 

Eleição. Crença. Regeneração. Conhecimento

Por meio de eleição e da fé (João permite que permaneça de pé a antinomia entre a escolha divina e a resposta favorável humana), alguns homens experimentam a regeneração do Espiríto Santo, pelo que chegam ao conhecimento salvador de Deus por intermédio de Cristo.

 

Universalidade. Vida Eterna. Permanência. Paracleto

Porém, apesar do fato que a eleição e a fé real caracterizem apenas a alguns indivíduos, o convite é caracterizado pela universalidade. Aqueles que aceitam tal convite recebem a vida eterna (não apenas quantitativamente permanente, mas também qualitativamente divina), um lugar permanente em Cristo, e o Paracleto, ou Espírito Santo, em Seu papel variado de Consolador, Conselheiro e Advogado. Tudo isso, entretanto, é perfurar apenas a casca superficial da teologia joanina; cada um desses temas conta com nuanças que não são mencionadas nestas linhas.

 

Crendo em Jesus

Acima de qualquer consideração, entretanto, João é o evangelho da fé. De fato, o verbo crer é a palavra chave do presente evangelho:

Na verdade fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. (20:30,31)

 

Cristológica em seu conteúdo, essa fé salienta supremamente a divindade de Jesus, como o Filho de Deus único e preexistente, o qual, em obediência a Seu Pai, tornou‑se um real ser humano a fim de morrer sacrificialmente, com vistas à redenção da humanidade. Tal ênfase labora contra a negação de Sua humanidade e de Sua morte, conforme faziam os gnósticos, primitivos hereges cristãos que pensavam que tudo quanto fosse material ou físico teria de ser inerentemente mal. Assim sendo, não somente a deidade de Jesus é encarecida (a começar pela declaração “o Verbo era Deus” 1:1, e muitas vezes destacada por todo este evangelho); mas também é posta em realce a Sua humanidade: “E o Verbo se fez carne” (1:14) ‑ Jesus cansou‑se e sentiu sede (4:6,7 e 19:28), chorou (11:35) e morreu fisicamente e voltou à vida (19:30‑42; 20:12,17,20,27,28). (Notemos o quádruplo retrato que os evangelhos nos oferecem de Jesus: o real Messias judeu, em Mateus; o divino Servo trabalhador, em Marcos; o simpatizante Salvador, em Lucas; o Filho encarnado de Deus, em João.) O próprio Jesus exigiu essa fé cristológica ao apresentar uma série de reivindicações pessoais, utilizando‑se da expressão “Eu sou”, no quarto evangelho:

“Eu sou o pão da vida” (6:35,48; comparar com os versículos 41 e 51).

“Eu sou a luz do mundo” (8:12).

“Eu sou a porta” (10:7,9).

“Eu sou o bom pastor” (10:1 1,14).

“Eu sou a ressurreição e a vida” (11:25).

“Eu sou o caminho, e a verdade e a vida” (14:6).

“Eu sou a videira verdadeira” (15:1,5).

 

Escatologia realizada

Além dessas reivindicações, há aquelas declarações que envolvem a expressão “Eu sou”, não seguidas por qualquer complemento, e que sugerem a reivindicação de ser Ele o eterno EU SOU – Javé do Antigo Testamento (4:25, 26; 8:24, 28, 58; 13:19; comparar com 6:20; 7:34, 36;14:3;17:24; Êxodo 3:13 ss.).

Quando uma pessoa crê, imediatamente recebe a vida eterna o que explana a expressão usada por C. H. Dodd, “escatologia realizada”. (Mas, contrariamente a uma escatologia totalmente cumprida, na qual a futura esperança cristã se tenha perdido, comparar as referências à ressurreição e ao julgamento final, em 5:25‑29, bem como à segunda vinda de Cristo, em 14: 1‑3. A expressão “escatologia inaugurada (ou proléptica)” caberia melhor aqui.) Pleno aprazimento ainda tem de esperar o futuro, mas todo o crente também saboreia uma prelibação presente. Talvez alguns cristãos se sentissem perturbados e alguns não-cristãos se mostrassem incrédulos ante a demora de regresso de Jesus ‑ daí a ênfase joanina sobre a salvação desfrutada agora mesmo. É segundo essas diretrizes que João procura evangelizar aos incrédulos com o evangelho e/ou estabelecer firmemente os crentes em sua fé. (É difícil decidirmos se João escreveu para os incrédulos, para os crentes, ou para ambas as classes.)

 

Polêmica anti-Batista

É possível que um propósito subsidiário de João fosse a correção das idéias de um culto que se desenvolvera em torno da figura de João Batista. Atos 19:1‑7 demonstra que continuava havendo seguidores de João Batista, em Éfeso, algumas décadas antes, nos dias de Paulo, e, consoante a uma antiga tradição, Éfeso teria sido a localidade onde o apóstolo João escreveu seu evangelho. Outrossim, João envida grandes esforços para mostrar que Jesus é superior a João Batista, que este precisava diminuir e Jesus crescer, que através de Seus discípulos Jesus batizava mais seguidores do que João Batista, e que o testemunho de Jesus era superior ao de João Batista (1:15‑37; 3:25‑30; 4:1,2; 5:33‑40). Toda a questão paira em meio a dúvidas, entretanto, porquanto esses fenômenos podem antes refletir as próprias experiências do apóstolo João, ao volver‑se do Batista para Jesus.

 

Polêmica anti-judaica

É improvável que João tenha escrito o seu evangelho como uma polêmica contra o judaísmo; pois apesar dos judeus incrédulos figurarem ali como maus caracteres, devido à sua incredulidade, o “mundo” como um todo também figura assim (por exemplo, ver 15:18,19). Durante a última porção do primeiro século cristão, os judeus incorporaram na liturgia de suas sinagogas a Bênção contra os Hereges, a fim de desarraigar todos os judeus cristãos que porventura ainda participassem dos cultos das sinagogas.(“Aos excomungados não haja esperança, e que o reino da soberba seja por Ti desarraigado prontamente em nossos dias. E que os cristãos e os hereges pereçam num momento. Que sejam apagados do livro da vida, e não sejam registrados juntamente com os justos. Bendito és Tu, ó Senhor, que subjugas aos orgulhosos.”) Alguns têm imaginado que tal bênção deve ter provido o motivo para o quarto evangelho, como um encorajamento dirigido aos judeus cristãos, a fim de suportarem o seu ostracismo da sinagoga, sem se retratarem de sua profissão cristã. Porém, embora a Bênção contra os Hereges possa ser salientada em face de trechos como 9:22 e 16:2, que mencionam o fato que os discípulos de Jesus seriam expulsos das sinagogas, a verdade é que o quarto evangelho, em contraste com os livros de Mateus, Hebreus e Tiago, não dá a impressão de ter sido escrito para uma audiência tão limitada que incluísse somente cristãos judeus. Não predominam ali as características judaicas típicas, e aquelas que porventura aparecem se originam meramente do meio ambiente judaico da vida de Jesus, e não por causa de uma ênfase deliberada.

 

Tendências judaicas versus tendências helenistas

Por outra parte, não há qualquer supressão consciente de caracteres judaicos da carreira de Jesus. Portanto, devemos rejeitar a hipótese de que o quarto evangelho representa um retrato helenista de Jesus, no qual Ele desempenhou o papel de um homem divino, em contraste com o retrato histórico e realista que O apresenta como um profeta escatológico. A bem da verdade, a deidade de Jesus aparece com clareza, e desde o princípio, nos evangelhos sinópticos. Outrossim, os papiros do Mar Morto têm demonstrado que o vocabulário religioso do evangelho de João é característico do judaísmo do primeiro século, pelo que não há necessidade alguma de procurarmos modelos helenistas em campos distantes.(Contra C. H. Dodd, The Interpretation of the Fourth Gospel (Cambridge University Press, 1960). Ed. em português por Ed. Paulinas.)

 

Origens e Desarranjo

As teorias atinentes a fontes literárias, por detrás do quarto evangelho, rolam por terra ante a unidade de estilo que permeia a obra inteira. As teorias que falam em desarranjo do texto original só solucionam problemas de interpretação para criar outros problemas; e excetuando um caso mui secundário, falta‑lhes qualquer evidência nos manuscritos.

 

Conteúdo

Quanto a vários particulares, o trecho de João 1:11,12 apresenta um sumário das variedades de material inclusas no quarto evangelho. “Os seus não o receberam” ‑‑ o sombrio pano‑de-fundo do evangelho consiste das reiteradas rejeições de Jesus por parte dos Judeus: quando Ele purificou o templo (capítulo 2); depois que Ele curara o paralítico (capítulo 5); após ter Ele multiplicado os pães para os cinco mil homens (capítulo 6); quando Seus meio‑irmãos procuraram tratá‑Lo com sarcasmo (capítulo 7); quando Ele se fez presente à festa dos Tabernáculos (capítulo 7); quando Ele afirmou ser a luz do mundo (capítulo 8); quando Ele asseverou a Sua unidade com Deus Pai (capítulo 10); e depois de haver ressuscitado a Lázaro (capítulo 11).

“Mas, a todos quantos o receberam” ‑ em contraste com a rejeição geral dos judeus, alguns indivídos acolheram a Jesus, mediante o encontro pessoal com Ele: André, João (cujo nome não figura no texto), Pedro, Filipe, Natanael (capítulo 1); Nicodemos (capítulo 3); a mulher samaritana (capítulo 4); o cego de nascença (capítulo 9); Maria e Marta (capítulo 11); os onze, no cenáculo (capítulos 13 ‑ 16), e Maria Madalena (capítulo 20).

“Deu‑lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” ‑ João descreve pormenorizadamente certo número de milagres realizados por Jesus, mas intitula‑os “sinais”, devido ao valor que têm como símbolos do poder transformador da fé em Jesus: a transformação da água em vinho ilustra a passagem do ritualismo judaico para a superior realidade do evangelho (capítulo 2); a cura do filho do nobre aponta para a transformação que nos tira da enfermidade para a higidez espiritual (capítulo 4); a cura do paralítico, da impotência para a força (capítulo 5); a multiplicação de pães para os cinco mil, da penúria para a plenitude (capítulo 6); o caminhar por sobre as águas, do temor para o senso de segurança (capítulo 6); a devolução da vista a um cego, das trevas para a luz (capítulo 9); a ressurreição de Lázaro, da morte para a vida (capítulo 11); e a pesca miraculosa, do fracasso para um sucesso quase incontrolável (capítulo 21).

Todas essas três linhas de pensamento convergem para a narrativa da paixão: “Os seus não o receberam” ‑ o julgamento e a crucificação; “mas, a todos quantos o receberam” ‑ as três Marias e o discípulo amado, de pé ao lado da Cruz; “deu‑lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” ‑ o poder transformador da ressureição de Cristo.(Ver ainda J. S. Baxter, Examinai as Escrituras (São Paulo, Edições Vida Nova), Vol. 5, lição 19.)

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE JOÃO

 

Tema: a fé em Jesus, como o Cristo e o Filho de Deus, com vistas à vida eterna.

PRÓLOGO: Jesus Cristo, a Palavra (Logos) revelatória (1:1‑18)

  1. O IMPACTO PRODUTOR DE FÉ DO MINISTÉRIO INICIAL DE JESUS (1:19 ‑ 4:42)
  2. Narrativa (1:19 ‑ 2:25)
  3. Testemunho de João Batista e os primeiros discípulos (1:19‑51)
  4. Transformação de água em vinho, no casamento em Caná (2:1‑12)
  5. A purificação do templo e a realização de sinais miraculosos em Jerusalém (2:13‑25).
  6. Discurso (3:1 ‑ 4:42) (A palavra “discurso” com freqüência envolve certo grau de diálogo.)
  7. O novo nascimento, em conversa com Nicodemos (3:1‑21)
  8. A superioridade de Jesus, testificada por João Batista durante seus ministérios paralelos de batismos (3:22‑36)
  9. A água da vida, em conversa com a mulher samaritana, com a resultante conversão dela mesma e de seus concidadãos (4:1‑42)
  10. AUTORIDADE DAS PALAVRAS DOADORAS DE VIDA DE JESUS (4:43 ‑ 5:47)
  11. Narrativa (4:43 ‑ 5:18)
  12. Cura do filho de um oficial (4:43‑54)
  13. Cura do inválido, num poço de Jerusalém, em dia de sábado (5:1‑9a)
  14. Discurso: a autoridade das palavras de Jesus (5:9b‑47)

III. OUTORGA DO CORPO E DO SANGUE DE JESUS PELA VIDA DO  MUNDO (6:1‑71)

  1. Narrativa: multiplicação dos pães para os cinco mil homens e o caminhar por sobre as águas (6:1 :21)
  2. Discurso: o pão da vida (6:22‑71)
  3. ILUMINAÇÃO DA HUMANIDADE POR JESUS, COM A RESULTANTE DIVISÃO EM: INCRÉDULOS, DESTINADOS AO JUÍZO, E CRENTES, DESTINADOS À VIDA ETERNA (7:1 ‑ 8:59)
  4. Narrativa: Jesus se faz presente à festa dos Tabernáculos, e divisão das opiniões a Seu respeito (7:1‑52)
  5. Discurso: a luz do mundo e os verdadeiros filhos de Abraão (8:12‑59)
  6. A TERNURA DE JESUS, EM CONTRASTE COM A CRUELDADE DAS AUTORIDADES RELIGIOSAS DOS JUDEUS (9:1 ‑ 19:39)
  7. Narrativa: cura do cego e sua exclusão da sinagoga (9:1‑41)
  8. Discurso: o bom pastor, os mercenários, os assaltantes e os ladrões (10:1‑39)
  9. O DOM DA VIDA MEDIANTE A MORTE DE JESUS (10:40 ‑ 12:50)
  10. Narrativa (10:40 ‑ 12:19)
  11. A ressurreição de Lázaro e a conseqüente conspiração do Sinédrio para tirar a vida de Jesus (10:40 ‑ 11:57)
  12. Jesus é ungido por Maria de Betânia, e a conspiração do Sinédrio para tirar a vida a Lázaro (12:1‑11)
  13. A entrada triunfal em Jerusalém (12:12‑19).
  14. Discurso: o grão de trigo que morre, ressurgindo depois para uma vida frutífera (12:20‑50).

VII. RETIRADA E RETORNO DE JESUS (13:1 ‑ 20:29)

  1. Discurso (13:1 ‑ 17:26)
  2. Purificação dos discípulos e seu serviço manual mútuo, simbolizados pelo lava‑pés (13:1 ‑20)
  3. Anúncio sobre a traição e desligamento de Judas Iscariotes (13:21 ‑ 30)
  4. Vantagens da retirada de Jesus para os discípulos, e a vinda do Paracleto (Consolador): Discurso do Cenáculo (13:31 ‑ 16:33)
  5. Oração sumo‑sacerdotal de Jesus por Seus discípulos (17:1‑26)
  6. Narrativa (18:1 ‑ 20:29)
  7. Detenção de Jesus (18:1 ‑ 11)
  8. Audições ante Anás e Caifas, com as negações de Pedro (18:12‑27)
  9. Audição ante Pilatos (18:28 ‑ 19:16)
  10. Crucificação e sepultamento de Jesus (19:17‑42)
  11. O túmulo vazio e duas aparições pós ressurreição, primeiro a Maria, e então aos discípulos (20:1‑29)

CONCLUSÃO: O propósito da escrita do quarto evangelho, inspirar a fé doadora de vida, em Jesus, o Cristo, o Filho de Deus (20:30,31)

EPILOGO (21:1‑25)

  1. Narrativa: terceira aparição pós ressurreição, aos discípulos, com pesca miraculosa e desjejum nas praias do mar de Tiberíades ‑ Galiléia (21:1‑14)
  2. Discurso: Pedro é recomissionado (21:15‑23)

AUTENTICAÇÃO FINAL (21:24,25).

   
  COMPARAÇÃO DOS QUATRO EVANGELHOS  
     
  EVANGELHOS MARCOS MATEUS LUCAS JOÃO  
  Data provável da escrita 50s 60s 60s 80s ou 90s  
  Lugar provável da escrita Roma Antioquia da Síria Roma Éfeso  
  Endereçados originais Gentios de Roma Judeus da Síria (e Palestina?) Interessados gentios População geral da Ásia  
          Menor  
  Ênfase Atividades Jesus, Certeza Fé em  
  Temática Remidoras de Jesus Messias judaico,  e Seus discípulos,  o novo povo de Deus Histórica do  evangelho Cristo para a vida eterna  

Para discussão posterior:

 

‑ Quais as vantagens e as desvantagens de termos um retrato quádruplo de Jesus, no Novo Testamento, em contraste com um único retrato?

– Qual dos evangelhos mais se adapta às seguintes audiências modernas ? e por que? (a) classe média brasileira; (b) grupos minoritários; (c) intelectuais; (d) crianças; (e) jovens; (f) pessoas idosas; (g) aqueles que nunca antes tinham ouvido o evangelho.

‑ Há diferença, entre os evangelhos, quanto à clareza e a prontidão com que vem à tona o caráter messiânico de Jesus? Nesse caso, como pode ser explicada essa diferença?

‑ Quanto manuseio editorial sobre os atos e palavras de Jesus, pelos evangelistas, é coerente com uma autêntica historicidade?

‑ Até que ponto a fé cristã depende da história e das pesquisas históricas ? comparar a perspectiva lucana sobre a vida de Jesus.

 

Para investigação posterior (a literatura é tão ampla que é melhor darmos apenas estudos gerais, os quais, por sua vez, recomendarão ao leitor numerosas fontes informativas primárias):

 

(Do ponto de vista conservador)

Harrison, E.F. Introduction to the New Testament. Grand Rapids. Eerdmans, 1964. Capítulos 5 ‑ 9.

Guthrie, D. New Testament lntroduction: The Gospels and Acts. Chicago: InterVarsity, 1965.

 

(Do ponto de vista liberal)

Fuller, R.H. A Critical Introduction to the New Testament. Londres: Duckworth, 1966.

Grant R.M. A Historical Introduction to the New Testament. Nova Iorque: Harper & Row, 1963.

Feine, P., J. Behm e W.G. Kümmel. Introduction to the New Testament. Traduzido por A.J. Mattill. Nova Iorque: Abingdon, 1966.

 

(Do ponto de vista da moderna erudição católica‑romana, algumas vezes liberal)

Wikenhauser, A. New Testament Introduction. Traduzido por J. Cunningham. Nova Iorque: Herder and Herder, 1958.

Feuillet, A., e A. Robert. Introduction to the New Testament. Traduzido por P. W. Skehan et al. Nova Iorque: Desclee, 1965.

Ver também Moule, C. F. D. The Birth of The New Testament. 2ª edição. Nova Iorque: Harper & Row, 1966.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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