Os critérios de permanência na doutrina

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Os critérios de permanência na doutrina

Por fim, precisamos nos perguntar quais são os critérios que nos ajudam a distinguir entre o conteúdo ou a essência permanente, atemporal da doutrina e as suas expressões ou formas temporárias.

Em alguns casos, não é difícil fazê-lo, pois a doutrina essencial pode aparecer de modo explícito numa passagem didática em que se destaque seu aspecto permanente.

Um exemplo é encontrado no Salmo 100.5: “Porque o SENHOR é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração a sua fidelidade”.

Existe aqui um indício de que estamos lidando com um aspecto atemporal da natureza e da obra de Deus. Em outros casos, contudo, a tarefa pode ser mais difícil.

Talvez seja necessário extrair a verdade atemporal de uma narrativa ou de um ensinamento escrito para certo grupo ou indivíduo, a fim de tratar de um problema específico. Nesses casos, há alguns critérios ou padrões que podemos aplicar para facilitar a identificação do fator permanente.

Deus usa nossos esforços por transmitir sua verdade do modo mais compreensível que conseguimos. O que precisamos fazer é manter o significado essencial do ensino bíblico ao mesmo tempo que o aplicamos à situação contemporânea.

1. Presença em várias culturas. Em geraj, temos consciência da variedade de culturas hoje existentes e também das diferenças culturais entre nossa época presente e os tempos bíblicos.

Mas é fácil esquecer que dentro do período bíblico também havia uma variedade de ambientes temporais, geográficos, lingüísticos e culturais. Muitos séculos se interpõem entre a escrita dos primeiros livros do Antigo Testamento e os últimos livros do Novo.

Os cenários geográficos e culturais abrangem desde ambientes pastoris na antiga Palestina até o ambiente urbano da Roma imperial. Conquanto muitas vezes tenham sido exageradas, as diferenças entre as culturas e as línguas hebraicas e gregas são reais. Se, portanto, conseguirmos identificar fatores que são encontrados em vários desses ambientes, é bem possível que estejamos lidando com elementos permanentes ou imutáveis da mensagem.

Um exemplo de tal presença em várias culturas é encontrado no princípio da expiação sacrificial juntamente com a rejeição de todo tipo de justificação por obras. Esse princípio é encontrado no sistema sacrificial do Antigo Testamento e no ensino do Novo Testamento acerca da morte expiatória de Jesus.

Outro exemplo é a centralidade da crença em Jesus Cristo, ensino reforçado tanto no contexto judaico como no gentílico. Pedro, por exemplo, pregou-a a judeus de várias culturas, em Jerusalém, no Pentecostes. Paulo a declarou em um ambiente gentílico ao carcereiro filipense (At 16.31).

2. Aplicação universal. Algumas doutrinas são ensinadas de tal forma a deixar claro que têm aplicação universal. Um exemplo é o batismo. Existem, obviamente, várias referências bíblicas a situações específicas em que o ritual era praticado, mas o batismo também ocupa um lugar importante na aplicação universal da Grande Comissão: “Foi-me dada toda autoridade no céu e na terra.

Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28.18-20, NIV). Note três aspectos em que isso pode ter aplicação universal.

(1) A afirmação de Jesus, dizendo que toda autoridade lhe foi dada insinua que, quando ele transfere autoridade para seus discípulos, tem em mente uma tarefa que deve ser desempenhada indefinidamente.

(2) “Todas as nações” dá a entender uma universalidade de lugar e cultura (cf. a comissão de At 1.8 —”sereis minhas testemunhas […] até aos confins da terra”).

(3) Jesus estaria sempre com os discípulos, até o fim dos tempos. Isso indica que a comissão deve ser aplicada permanentemente. Baseados nessas considerações, podemos concluir que o batismo não foi praticado apenas em algumas poucas épocas e lugares, mas possui aplicabilidade permanente.

Outra prática às vezes considerada de igual maneira permanente e universal é a lavagem dos pés descrita em João 13. Observe, entretanto, que ali não há referências gerais ou universais. Apesar de Jesus ter dito: “também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (v, 14), nada disse acerca da duração da prática. Embora tenha dito que havia dado o exemplo aos discípulos, “para que, como eu vos fiz, façais vós também” (v. 15), a razão implícita dessa ação é sugerida por sua afirmação de que o servo não é maior que seu senhor (v. 16). O que Jesus estava tentando instilar era a atitude de humildade e disposição para a subordinação mútua.

Naquela cultura, lavar os pés dos outros simbolizava tal atitude. Em outra cultura, outro ato pode expressá-la de modo muito mais eficaz. Outros trechos das Escrituras ensinam a humildade sem mencionar a lavagem dos pés (Mt 20.27; 23.10-12; Fp 2.3). Concluímos, portanto, que a atitude de humildade, não o ato específico de lavar os pés, é o elemento permanente no ensino de Jesus.

3.    Um fator reconhecidamente permanente por base. Às vezes, um ensino baseia-se num fator reconhecidamente permanente. Isso pode justificar a permanência desse ensino. Por exemplo, quando Jesus ensina sobre o casamento, ele se baseia no fato de que Deus criou os seres humanos em forma masculina e feminina, afirmando que os dois tornam-se um (Mt 19.4-6, citando Gn 2.24). Esse ato de Deus ocorreu de uma vez por todas; seu pronunciamento acerca da união de macho e fêmea deveria possuir valor permanente. Citando o ato e o pronunciamento de Deus, Jesus está declarando que o relacionamento conjugal deve ser permanente.

Outro exemplo é a doutrina do sacerdócio de todos os crentes. O autor de Hebreus baseia-se no fato de que nosso Sumo Sacerdote “penetrou os céus” de uma vez por todas. Podemos, portanto, aproximarmo-nos “do trono da graça com toda a confiança” (Hb 4.14-16, NVl).

O que Jesus fez foi feito de uma vez por todas. Não existe, por conseguinte, nenhuma reversão do processo e nenhuma necessidade de renová-lo. Além disso, por Jesus ser Sumo Sacerdote para sempre (Hb 7.21, 24), sempre é verdade que todos os que se aproximam de Deus por meio dele são salvos (v. 25).

4.    Ligação indissolúvel com uma experiência essencial. Ao lidar com a ressurreição, Rudolf Bultmann tentou fazer separação entre a questão da veracidade da ressurreição de Jesus e a experiência cristã de renovação da esperança e da abertura para o futuro. Paulo, entretanto, diz em lCoríntios 15.17 que não é possível manter a experiência independentemente da ressurreição de Cristo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados”. Por outro lado, se nossa experiência da ressurreição é real e permanente, a ressurreição de Cristo também deve ser factual, permanente e universal. Qualquer alteração nessa doutrina resultará numa alteração correspondente na experiência.

5.    Posição final dentro da revelação progressiva. Uma das razões pelas quais algumas formas de expressão foram substituídas é que aquelas não passavam de prenúncios imperfeitos da obra final que Deus faria na época do Novo Testamento ou sob a nova aliança.

Quando Deus se revelou de modo mais completo, as formas posteriores se desenvolveram e progrediram acima das expressões anteriores.

Assim, por exemplo, Jesus dizia com freqüência: “Ouvistes o que foi dito […] Eu, porém, vos digo…” Nesses casos, Jesus estava dando a expressão final de uma verdade que havia sido apresentada de forma incompleta.

Outro exemplo diz respeito à obra sacrificial de Cristo. Embora no Antigo Testamento houvesse ofertas contínuas de sacrifícios no átrio, duas ofertas diárias de incenso no Santo Lugar e o sacrifício anual feito pelo sumo sacerdote no lado interno, o Santo dos Santos (Hb 9.1-10), Cristo deu fim a esse processo, consu-mando-o (v.12).

O oferecimento de seu próprio sangue foi feito de uma vez por todas. Aqui, o fator permanente é a necessidade de uma expiação sacrificial e a satisfação dessa necessidade por meio da morte de Cristo. As formas anteriores eram meras antecipações ou reflexos do que ainda viria.

Em alguns casos, a essência de uma doutrina não foi cumprida explicitámente dentro do período bíblico. Houve apenas uma aproximação. Por exemplo, a posição das mulheres na sociedade foi elevada de maneira impressionante por Jesus. De maneira semelhante, Paulo concedeu posição incomum aos escravos. Mas a maioria desses grupos não progrediu como de fato deveria.

Portanto, para encontrar a essência de como tais pessoas devem ser tratadas, precisamos procurar os princípios lançados ou sugeridos em relação à posição deles, não os relatos sobre como eram realmente tratados nos tempos bíblicos.

Vamos tentar chegar à essência básica da mensagem, reconhecendo que toda a revelação tem sua razão de ser. As vezes, esse processo é comparado ao da separação entre o grão e a casca. Adolf von Harnack defende que se deve separar o grão da casca e, depois, descartar a casca.

Sustentamos, ao invés, que mesmo a forma de expressão transmite algo significativo. Também não estamos falando de “descartar a bagagem cultural”, como dizem alguns intérpretes da Bíblia norteados pela antropologia.

Estamos nos referindo à busca da essência da verdade espiritual sobre a qual se fundamenta um determinado trecho da Escritura para, depois, fazer aplicações contemporâneas dela. Nosso objetivo não é eliminar algum trecho da Escritura, mas encontrar o significado de toda a Escritura.

É comum observar (corretamente) que bem poucos cristãos voltam-se para as genealogias nas Escrituras em suas devoções pessoais. Mesmo assim, essas partes devem possuir algum significado.

E provável que uma tentativa de sair diretamente do que “significava a genealogia” para o que “ela significa” resulte em frustração. Em lugar disso, devemos perguntar: “Quais são as verdades que estão por trás dela?” Várias possibilidades vêm à mente:

(1) todos temos uma herança humana da qual derivamos muito do que somos;

(2) por meio do longo processo de descendência, todos recebemos de Deus a nossa vida;

(3) Deus está atuando de forma providencial na história humana, fato do qual teremos consciência mais intensa se estudarmos tal história e a maneira pela qual Deus lida com a raça humana.

Essas verdades têm sentido em nossa situação hoje.

De modo similar, as regras de higiene do Antigo Testamento nos falam acerca da preocupação de Deus com a saúde e o bem-estar dos homens e da importância de adotar medidas para preservar esse bem-estar.

O controle da poluição e a prática de uma alimentação sadia seriam aplicações modernas da verdade subjacente. Para alguns exegetas isso pode soar como alegorização.

Mas não estamos procurando simbolismos, significados espirituais escondidos em referências literais. Estamos, sim, defendendo que os cristãos devem procurar o verdadeiro motivo pelo qual certa declaração foi pronunciada ou escrita.

Ao fazer tudo isso, precisamos cuidar para reconhecer que nosso entendimento e nossa interpretação são influenciados pelas nossas próprias circunstâncias históricas, para que não identifiquemos, erroneamente, a forma pela qual expressamos um ensino bíblico com sua essência permanente. Se não reconhecermos esse ponto, estaremos considerando absoluta nossa forma, tornando-nos incapazes de atualizá-la quando a situação mudar.

Ouvi certa vez um teólogo católico romano traçando a história da formulação da doutrina da revelação. Após isso, ele tentou descrever a essência permanente da doutrina e expressou, de modo muito claro e preciso, um conceito de revelação neo-ortodoxo, de orientação existencialista, adaptado ao século XX!

É importante notar que encontrar a essência duradoura não é estudar a teologia histórica para destilar o menor denominador comum entre várias formulações de uma doutrina. Pelo contrário, a teologia histórica demonstra que todas as formulações pós-bíblicas são condicionais. E das próprias declarações bíblicas que precisamos extrair a essência, e elas são os critérios contínuos que validam tal essência.

 

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Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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