ORAÇÃO PARTICULAR DO PREGADOR – Teologia Pastoral

TEOLOGIA PURITANA – REVIEW 15
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ORAÇÃO PARTICULAR DO PREGADOR – Teologia Pastoral

Naturalmente o pregador se distingue acima de todos os demais como homem de oração. Ele ora como um cristão comum, ou de outra forma seria hipócrita. Ora mais que os cristãos comuns, ou de outra forma estaria desqualificado para o cargo que assumiu. “Seria totalmente monstruoso”, diz Bernard, “um homem estar no ofício mais elevado, e ser o mais baixo de alma; o primeiro na posição e o último no viver.” Todas as suas outras formas de relacionamento são aureoladas pela preeminência da responsabilidade pastoral, e se ele for fiel a seu Senhor, tornar-se-á distinguido em todas elas por sua prática da oração. Como cidadão, seu país goza a vantagem da sua intercessão; como vizinho, os que estão à sombra dele são lembrados em suas súplicas. Ora como marido e como pai; luta para fazer das devoções domésticas um modelo para o seu rebanho; e se o fogo do altar de Deus há de bruxulear em algum outro lugar, é bem mantido na casa do servo escolhido do Senhor – pois ele vela para que os sacrifícios da manhã e da tarde santifiquem a sua habitação. Mas há algumas das suas orações que concernem ao seu ofício, e o nosso plano nestas preleções nos induz a falar mais destas. Ele eleva súplicas peculiares como ministro, e se aproxima de Deus nesta função além e acima de todas as suas outras abordagens em todos os seus outros relacionamentos.

Tomo por suposto que, como ministro, ele está sempre orando. Toda vez que a sua mente se volta para o seu trabalho, quer esteja efetuando-o, quer não, lança uma petição, disparando os seus santos desejos como flechas bem dirigidas para o céu. Não está sempre no ato de orar, mas vive no espírito de oração. Se o seu coração está posto no trabalho, ele não consegue comer ou beber ou recrear-se ou dormir ou levantar-se de manhã, sem sentir sempre um ardor de desejo, um peso de ansiedade e uma simplicidade da sua dependência de Deus; assim, de um modo ou de outro, continua em oração. Se há algum homem debaixo do céu compelido a cumprir o preceito – “Orai sem cessar”, certamente é o ministro cristão. Cabem-lhe tentações peculiares, provações especiais, dificuldades singulares e deveres extraordinários; ele tem que se entender com Deus em formidáveis relacionamentos, e com os homens em misteriosos interesses; por isso ele tem muito mais necessidade da graça divina do que os homens comuns, e, sabedor disto, é levado a rogar constantemente ao Forte por força, e a dizer: “Elevo os meus olhos para os montes, de onde me virá o socorro”.

Certa vez Alleine escreveu a um amigo: “Embora eu seja propenso à agitação e a sair rapidamente dos eixos, considero-me, porém, como um pássaro fora do ninho, e não me tranqüilizo, enquanto não retomo a minha antiga maneira de manter comunhão com Deus, como a agulha da bússola, inquieta enquanto não se volta para o pólo. Posso dizer, pela graça, com a igreja: “De alma te desejei de noite, e com meu espírito dentro em mim te busquei de manhã”. Cedo e de noite o meu coração está com Deus; a ocupação e o prazer da minha vida é buscá-Lo.”

Do mesmo teor deve ser o seu modo de ser e de agir, ó homens de Deus! Se vocês, na qualidade de ministros, não são de muita oração, são dignos de muito dó. Se futuramente, chamados para exercer pastorados, pequenos ou grandes, relaxarem nas devoções secretas, não só vocês merecerão dó; os seus rebanhos também o merecerão; em acréscimo, vocês serão censurados, e chegará o dia em que ficarão envergonhados e confusos.

Dificilmente seria necessário recomendar-lhes os agradáveis usos da devoção particular, e, contudo, não posso abster-me de fazê-lo. Para vocês, como embaixadores de Deus, o propiciatório tem valor que ultrapassa todas as estimativas. Quanto mais familiarizados estiverem com a corte do céu, melhor se desincumbirão do seu encargo celeste.

Dentre todas as influências estruturadoras que formam um honrado homem de Deus no ministério, não ser de nenhuma outra que seja mais poderosa que a sua familiaridade com o propiciatório. Tudo que o curso da faculdade pode fazer por um estudante é tosco e superficial, comparado com o refinamento espiritual excelente obtido pela comunhão com Deus. Enquanto o ministro que ainda não tomou forma gira sobre o eixo da preparação, a oração é a ferramenta do grande oleiro com a qual molda o vaso. Todas as nossas bibliotecas e escritórios são uma simples vacuidade, comparados com os nossos quartos. Crescemos, ficamos cada vez mais poderosos, prevalecemos na oração secreta.

As suas orações serão os seus assessores mais competentes, enquanto os seus discursos estão ainda na bigorna. Enquanto outros, do tipo de Esaú, andam à caça da sua porção, vocês, com o auxílio da oração, encontrarão saborosa refeição aí mesmo, em casa, e poderão dizer de verdade o que Jacó disse com tanta falsidade: “O Senhor, teu Deus, a mandou ao meu encontro”. Se vocês puderem afundar suas canetas em seus corações, recorrendo ardorosamente ao Senhor, escreverão bem; e se puderem juntar o seu material de joelhos às portas do céu, não deixarão de falar bem. A oração, como exercício mental, trar-lhes-á à mente muitos assuntos, e assim os ajudará na seleção de um tópico, enquanto que, como elevada ocupação espiritual, limpará a sua visão interior para poderem ver a verdade à luz de Deus.

Muitas vezes os textos se negarão a revelar os seus tesouros, enquanto não os abrirem com a chave da oração. De que maneira maravilhosa se abriram os livros para Daniel quando elevou súplicas a Deus! Quanta coisa Pedro aprendeu no eirado! O quarto é o melhor gabinete de trabalho. Os comentadores são bons instrutores, mas o próprio Autor é muito melhor, e a oração faz um apelo direto a Ele e O alista em nossa causa. É coisa grandiosa a gente orar compenetrado do espírito e da essência de um texto; penetrá-lo alimentando-se sagradamente dele, exatamente como o verme perfura o seu trajeto rumo ao miolo da noz.

A oração fornece força à alavanca para levantar verdades de peso. Causa espanto pensar em como as pedras de Stonehenge [nome do monumento pré-histórico mais importante da Grã-bretanha] puderam ser colocadas em seus lugares. Causa mais espanto ainda pensar de onde alguns homens obtiveram tão admirável conhecimento de doutrinas misteriosas. Acaso não foi a oração o potente maquinismo que operou a maravilha? Esperar em Deus muitas vezes transforma as trevas em luz. A perseverante perquirição no oráculo sagrado (oração) levanta o véu, e dá-nos graça sondar as profundas realidades de Deus. Observou-se muitas vezes que certo teólogo puritano, durante um debate, escrevia algo num papel que tinha diante de si. Outros, procurando curiosamente ler as suas anotações, nada viram na página, senão as palavras, “Mais luz, Senhor”, “Mais luz, Senhor”, repetidas muitas vezes; oração sumamente própria para o estudante da Palavra quando está preparando o seu sermão.

Com freqüência vocês encontrarão novas correntes de pensamento saltando da passagem à sua frente, como rocha batida pela vara de Moisés. Novos veios de minério precioso se descortinarão ao seu olhar admirado quando vocês escavarem a Palavra de Deus e usarem diligentemente o martelo da oração. Às vezes vocês se sentirão como se estivessem inteiramente bloqueados, e de repente uma nova estrada se abrirá à sua frente. Aquele que tem a chave de Davi abre, e ninguém fecha. Se vocês viajaram alguma vez descendo o Reno. o cenário aquático daquele majestoso rio os terá surpreendido, lembrando muito o efeito de uma série de laços. Adiante e atrás o barco parece encerrado por maciças muralhas de rocha, ou ladeado de terraços de parreirais, até que num súbito virar de uma curva, eis em sua frente o rio, jubiloso e abundante, a fluir, avançando com todo o seu vigor.

Assim, o laborioso estudante muitas vezes vê isso no texto; parece estar fortemente cerrado contra vocês, mas a oração impele o barco e dirige a proa para águas vigorosas, e vocês contemplam a larga e profunda torrente da verdade sagrada a fluir em sua plenitude, e levando-os com ela. Não é esta razão convincente para perseverar nas súplicas ao Senhor? Usem a oração como vara de sondagem, e as fontes de águas vivas saltarão das entranhas da Palavra de Deus. Quem vai contentar-se em ficar com sede, quando as águas vivas aí estão, prontas para quem quiser obtê-las?!

Os melhores e mais santos homens sempre fizeram da oração a parte mais importante do preparo para o púlpito. De McCheyne se diz: “Desejoso de dar a seu povo no dia do Senhor o que lhe tivesse custado algo, jamais sem motivo urgente, se apresentava diante dele sem antes meditar e orar muito. Seu princípio sobre esta questão foi incluído numa observação que fez a alguns de nós quando conversávamos sobre o assunto. Quando alguém lhe perguntou qual o seu conceito do diligente preparo para o púlpito, lembrou-nos Êxodo 27:20 – “Azeite batido – azeite batido para as lâmpadas do santuário”. Entretanto, sua vida de oração foi maior ainda. Ele realmente não conseguia negligenciar a comunhão com Deus antes de comparecer perante a igreja reunida. Tinha necessidade de banhar-se no amor de Deus. Seu ministério era em tão grande parte a exposição de noções que primeiro santificaram a sua própria alma, que a saúde da sua alma era absolutamente necessária para o vigor e o poder das suas ministrações”. “Para ele o começo de todo trabalho invariavelmente consistia no preparo da sua alma. As paredes do seu quarto eram testemunhas da sua vida de oração e de suas lágrimas, como também dos seus clamores.”

A oração lhes prestará singular assistência na transmissão do sermão. De fato, nenhuma outra coisa pode qualificar-vos tão gloriosamente para pregar como alguém que desce do monte da comunhão com Deus a fim de falar com os homens. Ninguém é tão capaz de pleitear com os homens como quem esteve pelejando com Deus em favor deles. Dizem de Alleine que “Ele derramava o coração quando orava e pregava. Suas súplicas e suas exortações eram tão afetuosas, tão cheias de zelo, vida e vigor, que conquistavam os seus ouvintes; ele se fundia sobre eles, de modo que amolecia, derretia, e às vezes dissolvia os mais duros corações”. Jamais dissolveria coração nenhum se antes a sua mente não ficasse exposta aos raios tropicais do Sol da Justiça pela secreta comunhão com o Senhor ressurreto. Uma pregação deveras comovente, em que não há afetação, mas muita afeição, só pode brotar da oração. Não há retórica igual à do coração, e nenhuma escola onde aprendê-la, senão aos pés da cruz. Seria melhor que vocês nunca aprendessem uma só regra de oratória humana, porém estivessem cheios de poder do amor oriundo do céu; isto seria melhor do que dominar Quintiliano, Cícero e Aristóteles, e ficar sem a unção apostólica.

A oração não poderá torná-los eloqüentes à moda humana, mas os tornará verdadeiramente eloqüentes, pois falarão de coração; e não é este o sentido da palavra eloqüência? Ela trará rogo do céu sobre o seu sacrifício, e assim provará que é aceito pelo Senhor.

Assim como vigorosas fontes de pensamento muitas vezes irromperão em resposta à oração, enquanto se preparam, também será na entrega do sermão. Muitos pregadores que se põem na dependência do Espírito de Deus lhes dirão que os seus pensamentos mais vívidos e melhores não são os que foram premeditados, mas as idéias que lhes vêm, voando como que em asas de anjos; inesperados tesouros trazidos de repente por mãos celestiais, sementes das flores do paraíso que vêm flutuando dos montes de mirra. Muitíssimas vezes, quando me sinto embaraçado no pensamento e na expressão, o meu secreto gemido de coração me tem trazido alívio; e passo a desfrutar liberdade maior do que a costumeira. Mas, como ousarei orar na batalha se nunca clamei ao Senhor enquanto afivelo a armadura?! A lembrança das suas lutas em casa fortalece o pregador agrilhoado quando no púlpito. Deus não nos abandonará, a menos que O abandonemos. Vocês verão, irmãos, que a oração lhes assegurará força suficiente para o seu dia.

Como as línguas de fogo vieram sobre os apóstolos quando ficaram vigiando e orando, assim também virão sobre vocês. Ver-se-ão a si próprios, talvez quando poderiam ter desfalecido, subitamente revivificados, como que pelo poder de um anjo. Rodas de fogo serão ajustadas à sua carruagem. que começara a arrastar-se dificultosamente, e corcéis angélicos serão num instante atrelados em seu carro chamejante até você galgar os céus, como Elias, numa arrebatamento de inflamada inspiração.

Depois do sermão, como poderia o pregador consciencioso dar livre curso aos seus sentimentos e achar consolo para a sua alma se lhe fosse negado acesso à sede da misericórdia? Elevados ao mais alto grau de comoção, como podemos aliviar a nossa alma, senão com intercessões importunas? Ou, deprimidos pelo medo de fracassar, como seremos confortados senão chorando nossas mágoas diante do nosso Deus? Quantas vezes alguns de nós ficamos virando para um lado e para outro na cama a metade da noite por causa dos nossos conscientes defeitos no testemunho! Com que freqüência ansiamos por correr de volta ao púlpito para dizer outra vez, com maior veemência, o que tínhamos dito de maneira tão fria! Onde poderíamos achar descanso para o nosso espírito, senão na confissão do pecado, e nos ardentes rogos para que a nossa fraqueza ou estultícia de modo nenhum estorve o Espírito de Deus? Numa assembléia pública não é possível derramar todo o amor do nosso coração pelo rebanho que está a nosso cargo. Como José, o ministro afetuoso procurará onde chorar; suas emoções, por mais livremente que possa ele expressar-se, ficarão enjauladas quando ele estiver no púlpito, e somente pela oração secreta poderá abrir as comportas e fazê-las fluir para fora.

Se não podemos persuadir os homens a favor de Deus, havemos de, pelo menos, esforçar-nos para persuadir a Deus a favor dos homens. Não podemos salvá-los; nem sequer podemos induzi-los a serem salvos, mas ao menos podemos deplorar a loucura deles e suplicar a intervenção de Deus. Como Jeremias, podemos tomar nossa a resolução: “E, se isto não ouvirdes, a minha alma chorará em lugares ocultos, por causa da vossa soberba; e amargamente chorarão os meus olhos, e se desfarão em lágrimas”. A esses apelos tão comoventes o coração do Senhor nunca pode ser indiferente; no devido tempo, o lacrimoso intercessor se tornará jubiloso ganhador de almas. Existe clara conexão entre a agonia importuna e o verdadeiro sucesso, semelhante à que existe entre as dores de parto e o nascimento, entre semear em lágrimas e colher com alegria.

“Como é que a semente que você planta brota depressa assim?”, perguntou um jardineiro a outro. “É porque a rego”, foi a resposta. Temos que regar com lágrimas todos os nossos ensinamentos “quando ninguém está perto, exceto Deus”, e o crescimento deles nos causará surpresa e deleite. Poderia alguém admirar-se com o sucesso de Brainerd, quando o seu diário contém anotações tais como a seguinte? – “Dia do Senhor, 25 de abril – Esta manhã passei cerca de duas horas ocupado com deveres sagrados e, extraordinariamente, pude agonizar pelas almas imortais; embora fosse bem cedo, e o sol mal começasse a brilhar, meu corpo ficou molhado de suor”. O segredo do poder de Lutero esteve nessa mesma direção. Teodoro disse ele: “Escutei-o em oração, mas, bom Deus, com que vida e com que espírito ele orava! Era com tanta reverência, como se estivesse falando com Deus, mas com tão confiante liberdade, como se estivesse falando com um amigo”.

Meus irmãos, permitam-me rogar-lhes que sejam homens de oração. Pode ser que nunca venham a ter grandes talentos, mas se desempenharão satisfatoriamente sem eles, se forem abundantes na intercessão. Se não orarem sobre aquilo que semearam, Deus, na Sua soberania, talvez decida conceder uma bênção, mas vocês não terão direito de esperá-la, e se ela vier, não lhes trará conforto ao coração.

Estive lendo ontem um livro do Padre Faber, finado religioso da Ordem do Oratório, em Brompton, maravilhosa composição de verdade e erro. Relata nele uma lenda do seguinte teor: Certo pregador, cujos sermões convertia homens aos montes, recebeu uma revelação do céu de que nenhuma das suas conversões se devia aos seus talentos ou à sua eloqüência, mas todas se deviam às orações de um irmão leigo iletrado, que ficava sentado nos degraus do púlpito, orando o tempo todo pelo sucesso do sermão. Poderá dar-se isso conosco no dia da revelação de todas as coisas. Talvez descubramos, depois de termos trabalhado demorada e cansativamente na pregação, que a honra toda pertence a outro construtor, cujas orações foram ouro, prata e pedras preciosas, ao passo que os nossos sermões, sendo apregoados sem oração, não passaram de feno e palha.

Quando tivermos terminado de pregar, não teremos terminado ainda de orar, se formos fiéis ministros de Deus, porque a igreja inteira, com muitas bocas, estará clamando, na expressão do macedônio: “Passa à Macedônia, e ajuda-nos” com oração. Se vocês estiverem habilitados a prevalecer em oração, terão muitas súplicas para fazer por outros que se juntarão ao seu redor e pedirão participação em suas intercessões, e assim vocês se verão comissionados com mensagens enviados ao trono da misericórdia a favor de amigos e ouvintes. Essa é sempre a cota que me cabe, e para mim é uma satisfação ter tais súplicas para apresentar ao meu Senhor. Vocês nunca podem ficar sem temas para oração, mesmo que ninguém lhos sugira. Observem as pessoas da sua igreja. Há sempre doentes entre elas, e muitas outras que são doentes da alma. Algumas não são salvas; outras estão procurando e não conseguem achar. Muitas vivem desanimadas, e não poucos crentes são infiéis ou lamurientos. Há lágrimas de viúvas e suspiros de órfãos para pôr no seu frasco e derramar perante o Senhor.

Se você é um autêntico ministro de Deus, manter-se-á diante do Senhor como um sacerdote, usando espiritualmente o peitoral em que você porta os nomes dos filhos de Israel, intercedendo por eles, detrás do véu. Conheci irmãos que mantinham uma lista de pessoas pelas quais se sentiam especialmente incumbidos a orar, e não tenho dúvida de que aquele registro muitas vezes os lembrava de algo que de outra maneira teria fugido da sua memória. No entanto seu rebanho não o absorverá totalmente; a nação e o mundo requererão sua parte. O homem que for poderoso na oração poderá ser uma muralha de fogo ao redor do seu país, seu “anjo da guarda” e seu escudo. Todos já ouvimos sobre como os inimigos da causa do protestantismo temiam as orações de Knox mais que a exércitos de dez mil homens. O famoso Welch também foi um grande intercessor por seu país. Ele costumava dizer que “se admirava de como um cristão podia ficar no leito a noite inteira sem se levantar para orar”. Quando sua esposa, temendo que ele ficasse resfriado, foi até o quarto ao qual se havia retirado, ouviu-o clamar em frases entrecortadas: “Senhor, não me concederás a Escócia?”

Ah! se ficássemos lutando assim a desoras clamando: “Senhor, não nos concederás as almas dos nossos ouvintes?”

O ministro que não ora fervorosamente pela obra que realiza, só pode ser um homem fútil e vaidoso. Age como que se considerando auto-suficiente, e, portanto, como se não precisasse apelar para Deus. Todavia, que orgulho mais sem fundamento, conceber que a nossa pregação seja em si mesma tão poderosa que pode converter os homens dos seus pecados, e trazê-los para Deus sem a ação do Espírito Santo! Se formos verdadeiramente humildes de coração, não nos aventuraremos a meter-nos no combate enquanto o Senhor dos Exércitos não nos revestir de todo o poder, e nos disser: “Vai nesta tua força”.

O pregador que negligencia orar só pode ser muito desleixado quanto ao seu ministério. Não é possível que tenha compreendido a sua vocação. Não pode ter computado o valor de uma alma, nem avaliado o sentido da eternidade. Certamente não passa de um oficial, tentado ao púlpito porque o pedaço de pão que pertence ao ofício ministerial é-lhe muito necessário; ou não passa de um detestável hipócrita que gosta do louvor dos homens e não se preocupa com o louvor de Deus. Será por certo um simples palrador superficial, mais bem aprovado onde a graça é menos apreciada, e onde uma exibição vã é grandemente admirada. Ele não pode ser um daqueles que aram bem e colhem messes abundantes. É um reles vadio, não um trabalhador. Como pregador, tem nome de que vive, e está morto. Manqueja em sua vida como o coxo de Provérbios, cujas pernas eram desiguais, pois a sua oração é mais curta que a sua pregação.

Temo que, uns mais, outros menos, a maioria de nós necessita de um auto-exame quanto a este assunto. Se alguém aqui se aventurasse a dizer que ora quanto deve, como estudante, eu questionaria seriamente a sua afirmação; e se estiver presente algum ministro, diácono ou presbítero capaz de dizer que se dedica a Deus em oração em toda a extensão da sua possibilidade, eu gostaria de conhecê-lo. Só posso dizer que, se ele pode arrogar-se este grau de excelência, deixa-me bem para trás, pois eu não posso alegar isso em meu favor. Gostaria que fosse possível. E faço a confissão com grande medida de vergonha e confusão, mas sou obrigado a fazê-la. Se não somos mais negligentes do que os outros, isto não nos serve de consolo; as falhas de outros não nos inocentam.

Quão poucos de nós poderíamos comparar-nos com o Sr. Joseph Alleine, cujo caráter mencionei anteriormente! “Quando estava bem de saúde”, escreve sua esposa, “levantava-se constantemente às quatro horas, ou antes, e ficava aborrecido quando ouvia ferreiros ou outros artesãos em suas atividades antes de ele estar em comunhão com Deus, dizendo-me muitas vezes: “Como este ruído me envergonha! O meu Senhor não merece mais que o deles?” Das quatro às oito ficava em oração, em santa contemplação e cantando salmos, com que se deleitava muito, e o que praticava diariamente, a sós e com a família. Às vezes ele suspendia a rotina dos seus compromissos paroquiais e dedicava dias completos a esses exercícios secretos, para o que dava um jeito de ficar sozinho numa casa desocupada, ou senão em algum ponto isolado, em pleno vale. Ali fazia muita oração e meditação sobre Deus e o céu.”

Poderíamos ler, sem ruborizar-nos, a discrição que Jonathan Edwards faz de Davi Brainerd? “Sua vida”, diz Edwards, “mostra o modo certo de se obter sucesso nos labores ministeriais. Ele o buscava como um soldado resoluto busca a vitória num assédio ou numa batalha; ou como um homem que disputa numa corrida um grande prêmio. Animado pelo amor a Cristo e às almas, como trabalhava sempre com fervor, não só na palavra e na doutrina, em público e em particular, mas também em orações dia e noite, “lutando com Deus” em secreto, e “com dores de parto”, com gemidos e agonias inexprimíveis, “até ser Cristo formado” nos corações das pessoas às quais ele foi enviado! Como era sedento por uma bênção a seu ministério, e velava pelas almas “como quem deve prestar contas”! Como ele ia “na força do Senhor” Deus, procurando e se pondo na dependência da influência especial do Espírito para assisti-lo e prosperá-lo! E que feliz fruto, afinal, depois de longa espera e de muitos aspectos tenebrosos e desanimadores; como um verdadeiro filho de Jacó, perseverava lutando através de toda a escuridão da noite, até romper o dia.”

Por certo nos causaria vergonha o diário de Henry Martyn, em que achamos assentamentos como estes: “24 de setembro – A determinação com que fui para a cama a noite passada, de devotar o dia de hoje à oração e ao jejum, pude pôr em execução. Em minha primeira oração por libertação de pensamentos mundanos, confiando no poder e nas promessas de Deus, firmando a minha alma enquanto orava, tive ajuda para desfrutar muita abstinência do mundo por quase uma hora: Li depois a história de Abraão, para ver com que familiaridade Deus Se revelara a mortais da antigüidade. Em seguida, orando por minha santificação pessoal, minha alma aspirou livre e ardentemente a santidade de Deus, e este foi o melhor período do dia”. Talvez pudéssemos juntar-nos mais sinceramente a ele em seus lamentos após o primeiro ano do seu ministério, em que julgou “ter dedicado demasiado tempo às ministrações públicas, e pouquíssimo à comunhão a sós com Deus”.

Quanta bênção perdemos por sermos remissos nas súplicas, mal podemos imaginar, e nenhum de nós pode saber como somos pobres em comparação com o que poderíamos ser se vivêssemos habitualmente mais perto de Deus em oração. Vãos pesares e conjeturas são inúteis, mas uma vigorosa determinação a corrigir-nos será muito mais útil. Não só devemos orar mais, mas precisamos. O fato é que o segredo de todo o sucesso ministerial está em prevalecer na sede da misericórdia – no propiciatório.

Uma fulgente dádiva do céu que a oração particular traz ao ministério é algo indescritível e inimitável, melhor para se experimentar do que para se contar; é um orvalho do Senhor, uma presença divina que vocês reconhecerão de imediato quando lhes disser que é “a unção do Santo”. Que será isto? Pergunto-me quanto tempo haveríamos de ficar espremendo o cérebro até podermos colocar claramente em palavras o que se quer dizer com pregar com unção. Contudo, quem prega sabe da sua presença, e quem ouve logo detecta a sua ausência. Samaria, em crise de fome, tipifica um discurso sem ela; Jerusalém, com suas testas repletas de substâncias gordas e de tutano, pode representar um sermão enriquecido por ela.

Toda gente sabe o que é o frescor da manhã quando pérolas brilhantes recobrem cada folha da grama, mas quem pode descrevê-lo e, quanto mais, produzi-lo por si mesmo? Assim é o mistério da unção espiritual; sabemos o que é, mas não a podemos explicar a outros. É tão fácil como insensato falsificá-la, como fazem alguns que usam expressões que pretendem demonstrar fervente amor, mas, com mais freqüência indicam sentimentalismo piegas ou mera gíria. “Querido Senhor!” “Doce Jesus!” “Cristo precioso!” são expressões despejadas por atacado por eles, a ponto de deixar a gente com náuseas. Estas familiaridades podem ter sido não somente toleráveis, mas até belas, quando caíram pela primeira vez dos lábios de um santo de Deus, falando como que da glória excelsa, mas quando repetidas petulantemente, não só são intoleráveis, como também indecentes, senão profanas.

Alguns têm tentado imitar a unção por meio de entonação e gemidos inaturais; virando os olhos pondo à mostra só o branco do globo ocular; e levantando as mãos de modo sumamente ridículo. Ouvem-se a entonação e o ritmo de McCheyne repetidos constantemente pelos escoceses; preferimos o seu espírito a seu maneirismo; e todo mero maneirismo sem poder é como repugnante carniça de toda forma de vida desolada, odiosa e nociva. Certos irmãos pretendem obter inspiração mediante esforços e altos gritos; mas ela não vem. Sabemos que alguns interrompem o sermão, e exclamam: “Deus os abençoe” , e que outros gesticulam de maneira selvagem, e metem as unhas nas palmas das mãos como se estivessem tendo convulsões de febre celestial. Bolas! Essa coisa toda cheira a camarim e palco. Instilar fervor nos ouvinte mediante simulação dele pelo pregador, é uma abominável fraude que deve ser desprezada pelos honestos.

“Simular sentimento”, diz Richard Cecil, “é repugnante e logo percebido mas sentir verdadeiramente é o caminho para o coração dos outros.” Unção é uma coisa que não se pode fabricar, e suas imitações são piores do que indignas; entretanto, seu valor é inestimável, e ela é necessária além de toda medida, se é que vocês desejam edificar os crentes e levar pecadores a Jesus. Àquele que pleiteia secretamente com Deus é entregue este segredo; sobre ele pousa o orvalho do Senhor, e o cerca o perfume que alegra o coração. Se a unção que levamos não provém do Senhor dos Exércitos, somos enganadores, e desde que só com oração podemos obtê-la, perseveremos em súplicas insistentes e constantes. Deixem o seu velo na eira dos rogos até umedecer-se com o orvalho do céu. Não ministrem no templo enquanto não se lavarem na pia perto do altar. Não se considerem mensageiros da graça a outros enquanto vocês mesmos não tiverem visto o Deus da graça, e enquanto não tiverem recebido a Palavra da Sua boca.

O tempo passado em quieta prostração da alma perante o Senhor é extremamente revigorante. Davi fez isso diante do Senhor (2 Sm. 7:18); é uma grande coisa manter esses “aconchegos sagrados”, com a mente receptiva, como uma flor aberta abeberando-se dos raios solares, ou como a sensível chapa fotográfica captando a imagem diante de si. A quietude, que alguns não conseguem suportar porque revela a sua pobreza interior, é como um palácio de cedro para o sábio, pois ao longo dos seus pátios sagrados o Reí em Sua formosura condescende em passear.

“Ó sagrado silêncio! tu és represa

do coração, sim, do âmago da gente;

produto de celeste natureza;

gelo da boca e degelo da mente.”

(Flecknoe)

Inestimável como o dom da elocução possa ser, a prática do silêncio em alguns aspectos o sobrepuja em muito. Acham que sou quacre? Bem, que o seja. Nisto eu sigo George Fox com o maior afeto, pois estou persuadido. de que a maioria de nós pensa bem demais da linguagem falada que, afinal, é apenas o invólucro do pensamento. A contemplação em silêncio, o culto silente, o arrebatamento sem articulação de palavras, são meus, quando tenho diante de mim as minhas melhores jóias. Irmãos, não neguem ao seu coração as alegrias do alto mar; não deixem de lado a vida de maior profundidade, ficando sempre a tagarelar entre as conchas quebradas e as ondas espumosas da praia.

Recomendo-lhes seriamente que, quando estiverem estabelecidos no ministério, celebrem períodos especiais de devoção. Se as orações feitas ordinariamente não estiverem mantendo a vida e o vigor das suas almas, e notarem que se enfraquecem, fiquem sozinhos por uma semana, ou até por um mês, se possível. Ocasionalmente temos feriados nacionais; por que não termos com freqüência dias santos? Sabemos de irmãos mais ricos que acham tempo para uma viagem a Jerusalém; não poderíamos dispensar tempo para uma viagem menos difícil e muito mais proveitosa à cidade celestial?

Isaac Ambrose, que foi pastor em Preston, autor do famoso livro, Looking to Jesus (Olhando para Jesus), sempre reservava um mês por ano para reclusão numa cabana em uma floresta de Garstang. Não admira que fosse um teólogo tão cheio de poder, desde que passava com regularidade tanto tempo no monte com Deus. Noto que os romanistas estão acostumados a manter o que chamam de “Retiros”, aonde certo número de sacerdotes se acolhe por um tempo, procurando a quietude completa, para passar o tempo todo em jejum e oração, com o fim de inflamar de ardor as suas almas.

Podemos aprender dos nossos adversários. Seria uma grande coisa de vez em quando um grupo de irmãos verdadeiramente espirituais passar juntos um dia ou dois em real e consumidora agonia de oração. Num retiro só de pastores, estes poderiam ter muito mais liberdade do que num grupo misto. Períodos de humilhação e de súplicas para a igreja toda também nos beneficiarão, se nos dedicarmos a isso de coração.

Os nossos períodos de jejum e oração no Tabernáculo têm sido de fato dias de grande elevação. Nunca os portais do céu estiveram mais amplamente abertos; nunca os nossos corações estiveram mais perto do centro da glória. Aguardo sequioso o nosso mês de devoção especial, como os marinheiros quando calculam que se aproximam de terra. Mesmo que o nosso trabalho público fosse posto de lado para dar-nos lugar à oração especial, poderia ser grande ganho para as nossas igrejas. Uma viagem pelos rios da comunhão e da meditação seria bem recompensada por um frete de sentimento santificado e de pensamento elevado. O nosso silêncio poderia ser melhor do que as nossas vozes, se passássemos com Deus a nossa solidão.

Foi uma atitude grandiosa a que o velho Jerônimo tomou quando pôs de lado todas as suas prementes ocupações para realizar um propósito que ele entendia ser um chamamento do céu. Tinha a seu cargo uma grande igreja, tão grande que qualquer de nós gostaria de ter igual. Mas ele disse a seu povo: “Agora há necessidade de que o Novo Testamento seja traduzido; vocês precisam encontrar outro pregador. A tradução precisa ser feita. Vejo-me forçado a partir para o deserto, e não voltarei enquanto não concluir a minha tarefa”. Lá se foi com os seus manuscritos, e orou e trabalhou, e produziu uma obra – a Vulgata Latina – que durará enquanto o mundo existir; de modo geral, a mais maravilhosa tradução da Escritura Sagrada. Como num retiro, estudo e oração igualmente e juntamente puderam produzir uma obra imortal, se às vezes disséssemos aos nossos ouvintes, quando nos sentíssemos impulsionados a fazê-lo: “Diletos amigos, precisamos realmente sair um pouco para renovar a nossa alma na solidão”; o nosso aproveitamento logo se tornaria patente, e embora não escrevêssemos Vulgatas Latinas, ainda assim realizaríamos uma obra imortal, capaz de resistir ao fogo.

 

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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