ORAÇÃO EM PÚBLICO – Teologia Pastoral

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ORAÇÃO EM PÚBLICO – Teologia Pastoral

Às vezes a vanglória dos episcopais é que os membros da igreja oficial vão aos seus templos para orar e prestar culto a Deus, mas os dissidentes (os das igrejas livres) simplesmente se reúnem para ouvir sermões. Nossa réplica a isso é que, conquanto possam existir alguns crentes professos culpados deste mal, não é verdade quanto aos filhos de Deus que nos cercam, e pessoas desta estirpe espiritual são as únicas que realmente apreciam a devoção, em qualquer igreja. Os crentes de nossas igrejas se reúnem para prestar culto a Deus, e nós afirmamos, e não hesitamos em afirmá-lo, que se eleva tanta oração verdadeira e aceitável em nossas reuniões não-conformistas regulares, como nas melhores e mais pomposas realizações da Igreja da Inglaterra.

Além disso, se aquela observação tiver o propósito de fazer supor que ouvir sermões não é cultuar a Deus, funda-se em grosseiro engano, porquanto ouvir corretamente o evangelho é uma das partes mais nobres da adoração ao Altíssimo. É um exercício mental em que, quando corretamente praticado, todas as faculdades do homem espiritual são chamadas à realização de atos de devoção. Ouvir reverentemente a Palavra exercita a nossa humildade, instrui a nossa fé, engolfa-nos em raios de fulgente alegria, inflama-nos de amor, inspira-nos zelo, e nos eleva até o céu.

Muitas vezes um sermão tem sido uma espécie de escada de Jacó na qual vimos os anjos de Deus subindo e descendo, e a aliança de Deus no alto dela. Temos sentido com freqüência quando Deus fala através dos Seus servos ao íntimo das nossas almas. “Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus.” Temos engrandecido o nome do Senhor e O temos louvado de todo o coração, enquanto Ele nos tem falado mediante o Seu Espírito, que Ele deu aos homens. Daí, não existe aquela larga diferença entre a pregação e a oração, que alguns querem que admitamos; pois a primeira parte da reunião funde-se brandamente com a outra, e freqüentemente o sermão inspira a oração e o hino. A verdadeira pregação é uma aceitável adoração a Deus pela manifestação dos Seus atributos graciosos. O testemunho do Seu evangelho, que O glorifica preeminentemente, e ouvir com obediência a verdade revelada, são uma forma aceitável de culto ao Altíssimo, e talvez uma das mais espirituais de que se pode ocupar a mente humana.

Não obstante, como nos diz o velho poeta romano, é certo aprender dos nossos inimigos, e, portanto, talvez seja possível que os nossos oponentes litúrgicos nos tenham indicado o que em alguns casos ocupa má colocação em nossos cultos públicos. É de temer que os nossos exercícios espirituais não sejam, em todos os casos, modelados da melhor forma, ou apresentados da maneira mais recomendável. Há salões de culto em que as súplicas não são nem tão devotas, nem tão fervorosas como desejamos; noutros locais o fervor vem tão aliado à ignorância, e a devoção tão desfigurada pelo linguajar bombástico, que nenhum crente inteligente pode entrar para partilhar do culto com prazer. Orar no Espírito não é praticado universalmente entre nós, como também nem todos oram com o entendimento e com o coração. Há lugar para melhoramento, e em algumas partes há imperiosa exigência disso. Permitam-me, pois, amados irmãos, acautelar-vos contra o perigo de estragarem os cultos com as suas orações. Tomem solenemente a resolução de que todas as atividades do santuário haverão de ser da melhor qualidade.

Fiquem certos de que a oração espontânea é a mais bíblica, e deve ser a mais excelente forma de prece pública. Se perderem a fé no que fazem, nunca o farão bem. Portanto, ponham na cabeça que perante o Senhor vocês estão prestando um culto de maneira autorizada pela Palavra de Deus e aceita pelo Senhor. A expressão “orações para ler” a que estamos acostumados, não se acha na Escritura Sagrada, rica de palavras como ela é para a transmissão de pensamento religioso; e a frase não está lá porque a coisa de que trata nunca teve existência. Onde, nos escritos dos apóstolos se acha a idéia pura e simples de uma liturgia? Nas assembléias dos primeiros cristãos a oração não se restringia a nenhuma fórmula de palavras. Tertuliano escreve: “Oramos sem ponto porque do coração”. Justino Mártir descreve o ministro dirigente fazendo oração “de acordo com sua capacidade”.

Seria difícil descobrir quando e onde começaram as liturgias. Sua introdução foi gradativa e, segundo cremos, em paralelo com o declínio da pureza da igreja. A introdução delas entre os não-conformistas – isto é, entre as igrejas livres, não oficiais – assinalaria a era do nosso declínio e queda. O assunto me tenta a dilatar-me, mas não é o ponto em foco, e, portanto, passo adiante, anotando apenas que vocês encontrarão a matéria referente às liturgias habilmente tratada pelo Dr. John Owen, a quem farão bem em consultar.*

Compete-nos provar a superioridade da oração improvisada, fazendo-a mais espiritual e mais fervorosa do que a devoção litúrgica formal. É uma lástima quando o ouvinte é levado a observar: “O nosso ministro prega muito melhor do que ora”. Isto não está de acordo com o modelo de nosso Senhor. Ele falava como nenhum homem jamais falou; e quanto às Suas orações, tanto impressionaram os Seus discípulos que eles disseram: “Senhor, ensina-nos a orar”. Todas as nossas faculdades devem concentrar as suas energias, e o homem completo deve elevar-se ao ponto máximo do seu vigor, quando estiver orando em público, sendo nesse ínterim batizado na alma e no espírito com a Sua sagrada influência. Mas a fala desalinhada, negligente e sem vida à guisa de oração, feita para encher certo espaço de tempo durante o culto, é tédio para o homem e abominação para Deus.

Se a oração espontânea tivesse sido universalmente de categoria mais elevada, nunca se teria pensado numa liturgia, e as fórmulas de orações atuais não têm melhor desculpa do que a debilidade das devoções improvisadas. O segredo está em que não somos realmente devotos de coração, como deveríamos ser. A habitual comunhão com Deus deve ser mantida, ou senão as nossas orações públicas serão insípidas ou formalistas. Se não houver degelo das geleiras nas escarpas da montanha, não haverá arroios descendo para animar a planície. A oração em secreto é o terreno amanhado para as nossas ministrações públicas. E não podemos negligenciá-la por muito tempo sem ficarmos desajeitados quando estivermos diante do povo.

As nossas orações nunca devem rastejar; devem alçar vôo e subir. Temos necessidade de uma estrutura mental celeste. As nossas petições dirigidas ao trono da graça devem ser solenes e humildes, não petulantes e ostensivas, nem formalistas e negligentes. A maneira coloquial de falar está deslocada, diante do Senhor; devemos inclinar-nos reverentemente e com o mais profundo temor. Podemos falar sem embaraço com Deus, mas Ele ainda está no céu e nós na terra, e devemos evitar toda presunção. Na súplica nos colocamos peculiarmente diante do trono do Infinito, e, como o cortesão assume no palácio real outros ares e outros modos, diferentes dos que exibe a seus colegas da corte, assim deve ser conosco.

Nas igrejas da Holanda observamos que, tão logo o ministro começa a pregar, todos os homens põem o chapéu, mas no instante em que passa a orar, todos tiram o chapéu. Este era o costume nas igrejas puritanas mais antigas da Inglaterra, e perdurou com os batistas. Usavam seus gorros durante as partes do culto que entendiam que não eram propriamente atos de adoração, mas os tiravam lago que havia uma direta aproximação a Deus, no hino ou na oração. Considero imprópria a prática, e errôneo o seu motivo. Tenho insistido em que a distinção entre orar e ouvir a Palavra não é grande, e estou certo de que ninguém iria propor retorno ao velho costume ou à opinião da qual ele é indicativo. Contudo, há uma diferença, e, considerando que na oração estamos falando diretamente com Deus, mais do que procurando a edificação dos nossos semelhantes, temos que tirar os sapatos dos pés, pois o lugar em que estamos pisando é terra santa.

Que somente o Senhor seja o objeto das nossas orações. Cuidado para não ficarem com um olho posto nos ouvintes; cuidado para não se tornarem retóricos a fim de agradarem as suas audiências. A oração não deve ser transformada num “sermão indireto”. É pouco menos que blasfêmia fazer da devoção uma oportunidade para exibição. As belas orações geralmente são muito ímpias. Na presença do Senhor dos Exércitos não fica bem o pecador fazer desfilar a plumagem e os atavios de um linguajar extravagante, tendo em vista receber aplauso dos seus semelhantes, como ele mortais. Os hipócritas que se atrevem a fazer isso têm sua recompensa, mas esta é de causar pavor. Uma pesada sentença de condenação foi imposta a um ministro quando se disse lisonjeiramente que a sua oração foi a mais eloqüente de todas as orações já apresentada a uma igreja de Boston. Podemos ter o objetivo de estimular os anseios e aspirações dos que nos ouvem orar; mas cada palavra e cada pensamento devem ser dirigidos a Deus, devendo tocar nas pessoas presentes só o bastante para levá-las e suas necessidades à presença do Senhor. Lembrem-se das pessoas em suas orações, mas não modelem as suas súplicas com vistas a obter a sua estima. Olhem para o alto; olhem para o alto com os dois olhos. .

Evitem todas as vulgaridades na oração. Admito que ouvi algumas delas, mas não seria proveitoso repeti-las; especialmente quando se tornam cada dia menos freqüentes. Raramente topamos agora com as vulgaridades na oração que outrora eram muito comuns nas reuniões de oração dos metodistas, provavelmente muito mais comuns nos boatos do que na realidade. As pessoas sem instrução têm que orar do seu jeito, quando têm fervor, e a sua linguagem muitas vezes choca os exigentes, senão os devotos; mas essa permissão tem que ser dada, e se o espírito for evidentemente sincero, podemos perdoar as expressões toscas.

Uma vez, numa reunião de oração, ouvi um pobre homem orando assim: “Senhor, toma conta destes jovens nos dias de festa, pois sabes, Senhor, como os inimigos deles os espreitam como o gato espreita os ratos”. Alguns zombaram da expressão, mas a mim me pareceu natural e significativa, considerando a pessoa que a empregou.

Um pouco de instrução com delicadeza, e uma ou duas sugestões geralmente impedem a repetição de coisas objetáveis em casos assim, mas nós, que ocupamos o púlpito, precisamos ter o cuidado de ser bem claros. O biógrafo daquele notável pregador metodista americano, Jacob Gruber, menciona como exemplo da sua presença de espírito, que, depois de ter ouvido um jovem ministro calvinista atacar o seu credo, foi-lhe solicitado concluir com oração, e, entre outras petições, orou que o Senhor abençoasse o jovem que estivera pregando, e lhe concedesse muita graça, “para que o seu coração ficasse mole como a sua cabeça”.

Deixando de lado o mau gosto de tal animadversão pública contra um colega, qualquer pessoa cuja mente funcione bem verá que o trono do Altíssimo não é lugar para a emissão desses gracejos vulgares. Muito provavelmente o jovem orador mereceu castigo por sua ofensa ao amor cristão, mas o mais velho pecou dez vezes mais com sua falta de reverência. Ao Rei dos reis é cabível dirigir palavras seletas, não as que foram poluídas por línguas grosseiras.

Outro defeito que se deve evitar na oração é a irreverente e repugnante superabundância de palavras afetuosas. Quando expressões como “Querido Senhor”, “Bendito Senhor” e “Doce Senhor” aparecem e tornam a aparecer como vãs repetições, estão entre as piores nódoas. Devo confessar que não causariam repulsa à minha mente as palavras “Querido Jesus”, se saíssem dos lábios de um Rutherford, ou de um Hawker, ou de um Herbert; mas quando ouço expressões amigáveis e afetuosas desgastadas por pessoas nada notáveis por sua espiritualidade, inclino-me a desejar que possam, de uma forma ou de outra, chegar a ter melhor entendimento da verdadeira relação existente entre o homem e Deus. A palavra “querido”, dado o seu uso habitual, veio a ser tão comum, tão fraca e, em alguns casos, tão afetada e tola, que misturar com ela as orações não produz edificação.

Existe a mais forte objeção à constante repetição da palavra “Senhor”, que ocorre nas primeiras orações dos jovens conversos, e mesmo entre os estudantes. As palavras “Ó Senhor! Ó Senhor! Ó Senhor!” nos afligem quando as ouvimos tão perpetuamente repetidas. “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão”, é um grande mandamento, e, embora se possa quebrar a leí inconscientemente, quebrá-la ainda é pecado, e grave. O nome de Deus não deve ser um tapa-buracos, para suprir a nossa pobreza de vocabulário. Tomem cuidado para empregar com a máxima reverência a nome do infinito Jeová. Em seus escritos sagrados, os judeus, ou deixam espaço em branco no lugar da palavra “Jeová”, ou então escrevem a palavra “Adonai”, porque na concepção deles aquele nome santo é demasiado sagrado para ser usado de modo comum. Não precisamos ser supersticiosos assim, mas seria bom sermos escrupulosamente reverentes. A profusão de “Ohs!” e de outras interjeições bem pode ser dispensada; os jovens pregadores freqüentemente estão em falta aqui.

Evitem aquele tipo de oração que pode ser denominada – embora o assunto seja tal que sobre ele a língua não nos deu muitos termos – uma espécie de peremptória exigência feita a Deus. É deleitável ouvir um homem lutar com Deus e dizer: “Não te deixarei ir, se me não abençoares”, mas isso tem que ser dito suavemente, e não com espírito de bravata, como se pudéssemos mandar no Senhor de tudo quanto há, e exigir-Lhe bênçãos. Lembrem-se, ainda se trata de um homem que está lutando, conquanto tenha a permissão de lutar com o eterno EU SOU. Jacó “manquejava da coxa” depois daquele santo conflito noturno, para fazê-lo ver que Deus é terrível, e que o poder com o qual prevalecera não jazia nele próprio. Somos ensinados a dizer, “Pai nosso”, mas ainda é “Pai nosso, que estás nos céus”.

Familiaridade pode haver, mas familiaridade santa; intrepidez, mas a intrepidez que brota da graça e que é obra do Espírito Santo; não a intrepidez do rebelde que anda com fronte de bronze na presença do seu rei ofendido, mas a intrepidez da criança que teme porque ama, e ama porque teme. Jamais caiam no inglório modo de dirigir-se a Deus com impertinência. Ele não deve ser assaltado como se fosse um adversário, mas deve ser invocado como nosso Senhor e Deus. Sejamos humildes e submissos de espírito, e assim oremos.

Orem quando anunciam que oram, e não falem disso, apenas. Os homens de negócio dizem: “Um lugar para cada coisa, e cada coisa em seu lugar”. Preguem no sermão e orem na oração. Fazer dissertações sobre a nossa necessidade de recorrer à oração não é orar. Por que os homens não se põem a orar de uma vez? – por que ficam procurando evasivas? Em lugar de dizer o que deveriam e gostariam de fazer, por que não põem mãos à obra, em nome de Deus, e o fazem? Com decidido fervor, dedique-se cada um à intercessão, e volte o rosto para o Senhor. Rogue a Deus que supra as grandes e constantes necessidades da igreja, e não deixe de instar, com devoto fervor, pelas necessidades especiais da hora e do público presentes. Mencione os enfermos, os pobres, os moribundos, o gentio, o judeu, e toda classe de pessoas esquecidas, à medida que constranjam o seu coração.

Ore pelas pessoas da sua igreja como sendo santas e pecadoras – não como se fossem todas santas. Mencione os jovens e os idosos, os cuidadosos e os negligentes; os consagrados e os infiéis. Nunca vire para a direita ou para a esquerda, mas continue arando, seguindo os sulcos da oração veraz. Sejam as suas confissões de pecado e as suas ações de graça sinceras e específicas; e sejam as suas petições apresentadas como se você de fato cresse em Deus e não duvidasse da eficácia da oração. Digo isto porque muitos oram de maneira tão formal que levam os observadores a concluírem que os que as fazem acham que orar é uma coisa muito decente, mas é, afinal, uma atividade bem pobre e duvidosa, quanto a quaisquer resultados práticos. Ore como alguém que experimentou e provou o seu Deus, e portanto vem renovar as suas petições com indubitável confiança. E lembre-se de orar a Deus durante a oração toda, e jamais passe a fazer discurso ou pregação enquanto ora – e muito menos, como fazem alguns – a ministrar censura e a fazer queixas.

Como regra geral, se for convidado a pregar, dirija você mesmo a oração. E se você gozar de alta estima no ministério, como espero que aconteça, determine-se, com grande cortesia, mas com igual firmeza, a resistir à prática da escolha de homens para orarem, com a idéia de honrá-los dando-lhes algo para fazer. As nossas devoções públicas nunca devem ser rebaixadas a oportunidades para atenções sociais. De vez em quando ouço chamar a oração e o cântico de hinos de “serviços preliminares”, como se fossem apenas um prefácio do sermão. Espero que isso seja raro entre nós – se fosse comum, seria para nossa maior vergonha. Esforço-me invariavelmente para encarregar-me eu mesmo de toda a ordem do culto, para o meu bem, e creio que também para o bem do povo. Não acredito que “qualquer pessoa serve para fazer oração”.

Não, senhores, é minha solene convicção que a oração é uma das mais importantes, úteis e honoráveis partes do culto, e que deve até merece maior consideração do que o sermão. Não devemos chamar para orar pessoas de todo e qualquer tipo e, depois, fazer dentre elas a seleção do mais capaz para pregar. Pode suceder que, ou por fraqueza, ou por se tratar de ocasião especial, seja um alívio para o ministro ter alguém que tome o seu lugar para elevar a oração. Mas se o Senhor lhe deu capacidade para amar o seu trabalho, não muitas vezes, nem prontamente, você fará essa parte por meio de procurador. Se delegar todo o culto a outro, que o faça a alguém em cuja espiritualidade e adequado preparo você tenha a mais plena confiança. Mas, pegar de improviso um irmão menos dotado, e empurrá-lo para que realize pessoalmente os atos de devoção, é vergonhoso.

“Ao céu nós serviremos com menor respeito

do que o fazemos com nossas toscas pessoas?”

Designe o mais competente para orar, e se houver falha, antes seja no sermão do que na visita ao céu. Que o infinito Senhor seja servido com o que temos de melhor; que a oração dirigida à Majestade divina seja cuidadosamente avaliada, e então apresentada com todos os poderes de um coração desperto e de um entendimento espiritual. Aquele que, pela comunhão com Deus, foi preparado para ministrar ao povo, é normalmente de todos os presentes o mais idôneo para aplicar-se à oração. Elaborar um programa que coloca outro irmão em seu lugar, é macular a harmonia do culto, privar ao pregador uma função que o encorajaria para o sermão, e em muitos casos sugere comparações entre uma parte do culto e outra, coisa que não se deve tolerar. Se irmãos despreparados hão de ser mandados ao púlpito para fazer a minha oração no meu lugar quando me compete pregar, não vejo por que não me permitir que ore e depois me retire para deixar que aqueles irmãos preguem. Não consigo ver nenhuma razão para privar-me do mais santo, mais doce e mais proveitoso serviço de que o meu Senhor me incumbiu. Se eu puder fazer a escolha, preferirei dispensar o sermão a dispensar a oração. Irmãos, falei tanto assim para fazê-los fixar o fato de que necessitam ter em alta estima a oração pública, e busquem do Senhor os dons e graças necessárias para efetuá-la bem.

Os que desprezam toda oração improvisada, provavelmente apanharão estas observações e as usarão contra ela, mas posso assegurar-lhes que os defeitos contra os quais vos adverti não são comuns entre nós, e na verdade estão quase extintos. Também é fato que o tropeço causado por eles, mesmo no pior dos casos, nunca foi tão grande como o causado, muitas vezes, pela maneira de realizar o culto, usando a liturgia formal. Com muitíssima freqüência o culto na igreja é desenvolvido apressadamente, com tanta falta de devoção como se fosse uma canção de um cantor de baladas. As palavras são papagueadas sem a mínima apreciação do seu significado; não às vezes, mas, muito freqüentemente, nos lugares reservados para o culto episcopal, podem-se ver os olhos do povo, os olhos dos coristas e os olhos do próprio clérigo, vagando por todas as direções, uma vez que, evidentemente, pelo próprio tom da leitura, não há sentimento algum em sintonia com o que está sendo lido.

Estive em funerais em que o ofício fúnebre da Igreja da Inglaterra foi conduzido a galope, de maneira tão indecorosa, que me foi necessário empregar todo o cavalheirismo que tinha para impedir-me de atirar um capacho na cabeça da criatura. Fiquei tão indignado que não soube o que fazer ao ouvir, na presença dos parentes do falecido, que estavam com o coração sangrando, um homem a matraquear o ritual como se fosse pago por peça e tivesse mais trabalho para fazer logo depois e, portanto, quisesse chegar ao fim o mais depressa possível. Que efeito ele poderia pensar que estava produzindo, ou que bom resultado poderia provir de palavras arrancadas e arremessadas com força e violência, nem posso imaginar. É realmente chocante pensar como aquele maravilhoso cerimonial de enterro é assassinado e transformado numa abominação pelo modo como freqüentemente o ofício é lido. Menciono isto simplesmente porque, se eles criticarem as nossas orações com demasiada severidade, podemos fazer um formidável contra-ataque para silenciá-los. Todavia, muito melhor será corrigir as nossas tolices do que achar defeito nos outros.

A fim de transformar a nossa oração pública naquilo que ela deve ser, a primeira coisa necessária é, que tem que ser uma coisa do coração. O homem tem que estar de fato com fervor quando ora. É preciso que seja oração verdadeira e, se for, cobrirá multidão de pecados, como o amor. Podem-se perdoar as familiaridades e vulgaridades de uma pessoa, quando se vê claramente que o âmago do seu coração está falando com o seu Criador, e que somente a sua educação defeituosa é que ocasiona os seus defeitos na oração, e não quaisquer males morais ou espirituais do seu coração.

Aquele que eleva súplicas a Deus em público deve ter ardor, pois, que pode ser pior preparo para o sermão do que uma oração sonolenta? Que é que pode levar mais o povo a não querer ir à casa de Deus do que uma oração sonolenta? Ponha toda a alma no ato da oração. Se alguma vez todo o seu ser se envolveu com alguma coisa, que o faça no sentido de chegar perto de Deus em público. Ore, pois, para que, mediante uma divina atração, você leve consigo todos os ouvintes até o trono de Deus. Ore, pois, para que, mediante o poder do Espírito Santo pousando sobre você, expresse os desejos e pensamentos de cada um dos presentes, e se erga como a única voz falando por centenas de corações frementes, que estão inflamados de fervor perante o trono de Deus.

Logo a seguir, as nossas orações devem ser pertinentes. Não digo que se entre em todas e em cada uma das minúcias das circunstâncias dos membros da igreja. Como já disse, não há necessidade de transformar a oração pública numa gazeta dos acontecimentos da semana, ou num registro de nascimentos, mortes e casamentos do pessoal da igreja, mas os movimentos gerais que se deram entre os irmãos devem ser notados pelo diligente coração do ministro. Ele deve apresentar igualmente as alegrias e as tristezas do seu povo ao trono da graça, e pedir que a bênção divina repouse sobre o seu rebanho em todos os seus movimentos, atividades espirituais, serviços e santos empreendimentos, e que Deus estenda o Seu perdão a todas as falhas e inumeráveis pecados dos irmãos.

Depois, por meio de uma regra dada em termos negativos, devo dizer, não alongue a sua oração. Acho que era John Macdonald que costumava dizer: “Se você estiver com espírito de oração, não se alongue, porque as outras pessoas não conseguirão manter o passo com você nessa incomum espiritualidade; e se você não estiver com espírito de oração, não se alongue, porque esteja certo de que aborrecerá os ouvintes”.

A respeito de Robert Bruce, de Edimburgo, o famoso contemporâneo de Andrew Melville, diz Livingstone: “Ninguém em seu tempo falava com tal evidência e poder do Espírito. Ninguém possuía tantos selos da conversão; sim, muitos dos seus ouvintes achavam que homem nenhum, desde os apóstolos, falara com tal poder. … Ele era muito breve na oração quando havia outros presentes, mas cada frase era como um poderoso dardo disparado para o céu. Ouvi-o dizer que se cansava quando outros faziam oração comprida; mas, estando a sós, passava muito tempo em luta espiritual e oração”.

Em ocasiões especiais, uma pessoa pode, se se sentir extraordinariamente movida e arrebatada, orar durante vinte minutos no culto matutino mais longo, mas isto não deve suceder com freqüência. O meu amigo, Dr. Charles Brown, de Edimburgo, estabelece, como resultado do seu ponderado julgamento, que dez minutos é o limite a que deve estender-se a oração pública.

Os nossos antepassados puritanos costumavam orar por três quartos de hora, ou mais, mas aí você precisa lembrar-se de que eles não sabiam se teriam outra oportunidade de orar de novo diante de uma assembléia e, portanto, faziam-no até saciar-se. Além disso, naquele tempo as pessoas não eram propensas a contender pela extensão das orações ou dos sermões como hoje em dia. Nunca será demasiado longa a sua oração em particular. Não a limitaremos a dez minutos ali, nem a dez horas, nem a dez semanas, se quiser. Quanto mais tempo estiver de joelhos a sós, melhor. Agora estamos falando daquelas orações que vêm antes ou depois do sermão, e para essas orações, dez minutos é melhor limite do que quinze. Apenas um em mil se queixaria de você por ser breve demais, ao passo que dezenas murmurarão por você ser enfadonho por alongar-se muito. “Ele orou de modo que me colocou em bom estado de espírito”, disse uma vez George Whitefield sobre certo pregador, “e se tivesse parado ali, estaria tudo muito bem; mas, continuando a orar, tirou-me de novo dele”.

A imensa longanimidade de Deus exemplifica-se no fato de ter Ele poupado alguns pregadores que neste sentido têm cometido grave pecado; eles têm lesado a piedade do povo de Deus com suas orações de longo fôlego e, apesar disso, Deus, em Sua misericórdia, permite que continuem a ministrar no santuário. Ah! pobres daqueles que têm que ouvir pastores que fazem orações de quase meia hora e depois pedem perdão a Deus por suas “omissões”! Não se alongue, por diversos motivos. Primeiro, porque você e o povo se cansarão; segundo, porque fazer oração muito comprida indispõe o coração das pessoas para o sermão.

Toda aquela árida, fastidiosa e prolixa tagarelice na oração serve apenas para embotar a atenção, e assim, os ouvidos se fecham como se estivessem entupidos. Ninguém que pretenda tomar de assalto a “porta da audição” pensará em bloqueá-la com barro ou pedras. Não; trate de deixar limpo o portal, para que o aríete do evangelho produza efeito quando chegar o tempo de usá-lo. As orações longas consistem, ou de repetições, ou de explicações desnecessárias que Deus não requer; ou então degeneram, transformando-se em pregações indiretas, de sorte que deixa de haver diferença entre a oração e a pregação, exceto que na primeira o ministro mantém os olhos fechados, e na segunda os mantém abertos.

Na oração não é preciso recitar o Catecismo da Assembléia de Westminster. Na oração não é preciso relatar a experiência de todos os presentes, e nem mesmo a sua própria. Na oração não é preciso enfileirar uma seleção de textos da Escritura, e citar Davi, Daniel, Jó, Paulo, Pedro, e todos os demais, sob o título de “Teu servo do passado”. Na oração é preciso aproximar-se de Deus, mas não se requer que você prolongue tanto o seu falar, que toda gente fique ansiosa por ouvir a palavra “Amém”.

Não posso deixar de fazer uma breve sugestão: Nunca faça parecer que está concluindo, recomeçando então a falar mais uns cinco minutos. Quando os amigos ficam com a idéia de que você está prestes a terminar, não podem com um tranco retomar o espírito devoto e prosseguir. Conheci homens que nos impunham o suplício de Tântalo, dando-nos a esperança de que se aproximavam do fim, e depois se impunham por novos períodos, duas ou três vezes. Isso é sumamente insensato e desagradável.

Outra norma é – não empregue frases bombásticas. Irmãos, acabemos de uma vez com essas coisas desprezíveis. Tiveram os seus dias; deixemos que morram. Não há como exagerar na crítica a essas peças de gritante pompa espiritual. Algumas delas são puras invenções; outras são passagens tiradas dos apócrifos; outras são textos que se originaram na Escritura, mas que têm sido horrivelmente deformados desde quando foram produzidos pelo Autor da Bíblia.

Na Revista Batista de 1861 eu fiz as seguintes observações sobre as vulgaridades que ocorrem comumente nas reuniões de oração:

“As frases bombásticas são um grande mal. Quem poderia justificar expressões como as de que tratarei a seguir? “Não deveríamos correr para a presença do Senhor como o cavalo, incapaz de pensar, corre para a batalha”. Como se os cavalos alguma vez pensassem, e como se não fosse melhor exibir a elegância e a energia do cavalo do que a lentidão e a estupidez do asno! Como a estrofe da qual imaginamos que essa fina citação foi extraída relaciona-se mais com pecados do que com orações, alegramo-nos com o fato de que a frase está em plena decadência. “Vá de coração em coração, como o óleo vai de vaso em vaso” é provavelmente citação do conto infantil de Ali Babá e os Quarenta Ladrões, mas destituída de sentido, de Escritura e de poesia, como qualquer frase que se poderia conceber. Não nos consta que o óleo corra de um vaso a outro de algum modo misterioso ou maravilhoso. É certo que ao ser despejado escorre lentamente e, portanto, é adequado símbolo do fervor de algumas pessoas. Mas, certamente seria melhor receber a graça diretamente do céu do que de outro vaso – idéia papista que a metáfora parece insinuar, se é que de fato tem algum significado. “Teu pobre e indigno pó”, epíteto que geralmente os homens mais orgulhosos da igreja se aplicam a si próprios, e não raro os mais presos ao dinheiro e mais ordinários, caso em que as duas últimas palavras da frase não são muito impróprias.

“Ouvimos falar de um bom homem que, intercedendo por seus filhos e netos, ficou tão obscurecido pela alucinante influência da sua expressão, que exclamou: “Ó Senhor, salva o Teu pó, e o pó do Teu pó, e o pó do pó do Teu pó”. Quando Abraão disse, “Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza”, a sua declaração foi vívida e expressiva; mas em sua forma mal citada, pervertida e exagerada, quanto mais depressa for reduzida a pó, melhor. Um miserável aglomerado de perversões da Escritura, rudes símiles e ridículas metáforas constituem uma espécie de gíria espiritual, fruto de ignorância ímpia, de imitação desfibrada ou de hipocrisia decorrente de ausência da graça; são ao mesmo tempo uma desonra para os que estão sempre repetindo essas coisas, e um aborrecimento intolerável para aqueles cujos ouvidos são atormentados por elas.”

O Dr. Charles Brown, de Edimburgo, em admirável discurso numa reunião da New College Missionary Association, dá exemplos de citações truncadas peculiares à Escócia que, todavia, às vezes atravessa o rio Tweed. Com sua permissão, farei citação completa.

“Há aquilo que se poderia denominar mescla infeliz, às vezes inteiramente grotesca, de textos da Escritura. Quem não conhece as seguintes palavras dirigidas a Deus em oração: “Tu és o alto e sublime, que habitas a eternidade e seus louvores“?, confusão de dois textos gloriosos, cada um deles glorioso se tomado isoladamente – ambos maculados, e um deles na verdade irremediavelmente perdido, quando assim combinados e misturados. Um é Isaías 57:15: “Porque assim diz o alto e sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é santo”. O outro é o Salmo 22:3: “Porém tu és Santo, o que habitas entre os louvores de Israel’. A referência à habitação entre louvores da eternidade é, para dizer o mínimo, pobre. Não havia louvores na eternidade passada para serem habitados. Mas, que glória há em condescender Deus em habitar, em fazer Seu domicílio, entre os louvores de Israel, da igreja resgatada!

“Depois há um exemplo nada menos que grotesco sob este título e, contudo, em tão freqüente uso que suspeito que geralmente se considera que tem a sanção da Escritura. Ei-lo: “Poríamos a nossa mão em nossa boca, e a nossa boca no pó, e clamaríamos: Imundos, imundos; ó Deus, tem misericórdia de nós, pecadores!” Trata-se de não menos de quatro textos reunidos, cada um deles belo, isoladamente. O primeiro é o de Jó 40:4: “Eis que sou vil; que te responderia eu? A minha mão ponho na minha boca”. O segundo é o de Lamentações 3:29: “Ponha a sua boca no pó; talvez assim haja esperança”. O terceiro é o de Levítico 13:45, onde se diz ao leproso que cubra o lábio superior, e grite: “Imundo, imundo”. E o quarto é a oração do publicano. Mas como é incongruente pôr alguém primeiro a mão na boca, depois a boca no pó, e, por último, clamar, etc.!

“O único outro exemplo que dou é uma expressão quase universal entre nós, e, desconfio, considerada quase universalmente como registrada na Escritura: “Em teu favor há vida, e tua benignidade é melhor do que a vida”. O fato é que isso também não passa de uma infeliz junção de duas passagens, em que o termo vida é empregado em sentidos completamente diversos, e mesmo incompatíveis, a saber, o Salmo 63:3, “Porque a tua benignidade é melhor do que a vida”, onde evidentemente, vida significa a presente vida temporal. A outra passagem é o Salmo 30:5b – “no seu favor está a vida”.

“Uma segunda classe pode ser descrita como infelizes alterações da linguagem da Escritura. Terei necessidade de dizer que o Salmo 130, “Das profundezas”, etc., é um dos mais preciosos de todo o livro de Salmos? Por que havemos de ter as palavras de Davi e do Espírito Santo dadas assim na oração pública, e com tanta freqüência, que os piedosos crentes de nossas igrejas vieram a adotá-las em suas orações comunitárias e domésticas: “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido, e abundante redenção para que sejas procurado“? Como são preciosas as singelas palavras registradas no salmo citado [versículo 4): “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido”; versículos 7.8: “no Senhor há misericórdia, e nele há abundante redenção. E ele remirá a Israel de todas as suas iniqüidades”!

“Outra vez, nesse abençoado salmo, as palavras do versículo 3, “Se tu, Senhor, observares as iniqüidades, Senhor, quem subsistirá?”, muito raramente nos são deixadas com sua manifesta simplicidade, mas têm que sofrer a seguinte mudança: “Se tu fores estrito em observar as iniqüidades”, etc. Lembro-me de que nos meus tempos de estudante, costumávamos dar-lhe forma muito mais ofensiva: “Se tu fores estrito para observar e rigoroso para punir“! Outra mudança favorita é a seguinte: “Tu estás nos céus, e nós sobre a terra; pelo que sejam poucas e bem ordenadas as nossas palavras”. O pronunciamento simples e sublime de Salomão (certamente cheio de instrução sobre o tema de que estou tratando) é: “Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; pelo que sejam poucas as tuas palavras” (Eclesiastes 5:2). Para outro exemplo desta classe, veja-se como são torturadas as sublimes palavras de Habacuque: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e não podes contemplar o pecado sem te aborreceres“. As palavras do Espírito Santo são (Habacuque 1:13): “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a vexação não podes contemplar”. Precisaria dizer que a força da figura, “e a vexação não podes contemplar”, quase se perde quando você acrescenta que Deus pode contemplá-la, só que não sem se aborrecer?

“Uma terceira classe consiste de pleonasmos inexpressivos, de vulgares e banais redundâncias de expressão, na citação das Escrituras. Um desses casos tornou-se tão universal, que me aventuro a dizer que raramente você o omite quando a passagem em foco entra em cena. “Fica no meio de nós” (ou, como alguns preferem expressá-lo, de modo um tanto infeliz segundo penso, “em nosso meio”), “para abençoar-nos, e fazer-nos bem“. Que idéia adicional há na última expressão, “e fazer-nos bem”? A passagem aludida é Êxodo 20:24: “em todo o lugar onde eu fizer celebrar a memória do meu nome, virei a ti, e te abençoarei”. Esta é a simplicidade da Escritura. O nosso acréscimo é: “para abençoar-nos, e fazer-nos bem”. Em Daniel 4:35 lemos as nobres palavras: “não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?” A mudança favorita é: “Ninguém pode impedir a tua mão de agir“. “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam.” Isto sofre a seguinte alteração: “e não subiu ao coração do homem conceber as coisas”. Constantemente ouvimos referência a Deus como Aquele “que ouve e responde a oração”, mero pleonasmo vulgar e inútil, pois a idéia que a Escritura contém é de que se Deus ouve a oração, Ele responde – “Ó tu que ouves as orações! a ti virá toda a carne.” “Ouve, Senhor, a minha oração”. “Amo ao Senhor, porque ele ouviu a minha voz e a minha súplica.”

“Por que, outra vez, aquele chavão da oração pública, “As tuas consolações não são nem poucas nem pequenas”? Suponho que a referência seja às palavras de Jó: “Porventura as consolações de Deus te são pequenas?” Assim também raramente se ouve aquela oração do Salmo 74, “Atenta para o teu concerto; pois os lugares tenebrosos da terra estão cheios de moradas de crueldade”, sem o acréscimo, “horrenda crueldade”; nem o chamamento à oração, em Isaías, “ó vós, os que fazeis menção do Senhor, não haja silêncio em vós, nem estejais em silêncio, até que confirme, e até que ponha a Jerusalém por louvor na terra”, sem o acréscimo, “em toda a terra”; nem o apelo do salmista: “Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti”, sem o acréscimo: “em toda a terra”.

“Estes últimos exemplos parecem coisas na verdade insignificantes. E são. Nem valeria a pena achar-lhes defeito, se ocorressem apenas ocasionalmente. Mas examinados como lugares comuns estereotipados, bem fracos em si mesmos, mas ocorrendo com tanta freqüência que dão a impressão de terem autoridade bíblica, humildemente acho que deviam ser desaprovados e descartados – banidos totalmente do culto presbiteriano. Talvez vocês se surpreendam ao saberem que a única autorização dada pela Escritura àquela expressão favorita e algo peculiar sobre o “perverso pecado que rola como doce manjar sob as suas línguas”, está nas seguintes palavras do livro de Jó (20:12): “Ainda que o mal lhe seja doce na boca, e ele o esconda debaixo da sua língua”.”

Basta disto, porém. Só lamento ser forçado a estender-me tanto sobre um assunto infeliz como esse. Todavia, não posso deixar a matéria sem insistir com vocês que façam com exatidão literal todas as citações da Palavra de Deus.

Deveria ser uma questão de honra entre os ministros citar sempre corretamente a Escritura. É difícil sempre fazê-lo com exatidão, e, porque é difícil, deveria constituir objeto do nosso maior cuidado. Nos salões de Oxford ou Cambridge seria considerado quase traição ou crime um membro proeminente da universidade citar erroneamente Homero, Virgílio ou Tácito; mas um pregador citar erradamente Davi, Moisés ou Paulo é coisa muito mais séria, e bem merecedora da mais severa censura. Notem que eu me referi a um membro proeminente da universidade, não a um principiante; e de um pastor esperamos pelo menos igual precisão em seu próprio departamento à daquele que faz parte de um corpo universitário. Vocês que sem vacilar crêem na teoria da inspiração verbal (para minha intensa satisfação), nunca deveriam fazer uma citação enquanto não puderem usar as palavras precisas, porque, de acordo com a explicação que vocês mesmos dão, pela alteração de uma única palavra pode-se perder por completo o sentido que Deus deu à passagem. Se não conseguem citar a Escritura corretamente, por que citá-la de qualquer modo em suas petições? Façam uso de uma expressão nova, oriunda da sua própria mente, e será tão aceitável para Deus como uma frase bíblica desfigurada ou mutilada. Lutem com todo o vigor contra as mutilações e perversões da Escritura, e renunciem para sempre a todas as frases bombásticas, pois constituem deformações da oração improvisada.

Notei um hábito entre alguns – espero que vocês não tenham caído nisso – de orar com os olhos abertos. É inatural, inconveniente e de mau gosto. Ocasionalmente, os olhos abertos e elevados ao céu podem ser adequados e causar impressão, mas correr o olhar pelo ambiente enquanto se declara que se está falando com o Deus invisível, é detestável. Nos primeiros tempos da igreja os chamados pais denunciaram esta prática imprópria. Deve-se fazer o mínimo de movimentos, se tanto, durante a oração. Raramente é bom levantar e mover o braço, como se se estivesse pregando. Contudo, os braços estendidos e as mãos cerradas são naturais e sugestivos, quando se está sob forte e santa comoção. A voz deve harmonizar-se com o assunto, e jamais deve ser tempestuosa ou arrogante. Ao falar com Deus, usem-se entonações reverentes e humildes. Não é verdade que até a natureza lhes ensina isto? Se a graça não o fizer, perco a esperança.

Com especial atenção às suas orações nos cultos do dia do Senhor, talvez sejam úteis algumas observações. Para impedir que o mero costume e a rotina se entronizem entre nós, será bom variar quanto possível a ordem do culto. O que quer que o Espírito nos mova a fazer, façamos de uma vez. Até pouco tempo atrás eu não tinha ciência da extensão em que permitiram que se intrometesse o controle dos diáconos sobre os ministros em certas igrejas desafortunadas. Estou acostumado a dirigir sempre os cultos da maneira que considero mais adequada e edificante, e nunca ouvi sequer uma palavra de objeção, e creio que posso dizer que vivo nas mais amáveis relações de amizade com os meus cooperadores. Mas um irmão e colega de ministério me contou esta manhã que certa ocasião orou no início do culto matutino, em vez de mandar cantar um hino, e quando se retirou para o gabinete pastoral depois do culto, os oficiais lhe disseram que não queriam saber de inovações.

Até aqui entendíamos que as igrejas batistas não estão sob a escravidão de tradições e de regras fixas quanto às maneiras de prestar culto, e, contudo, essas pobres criaturas, esses pretensos senhores, que bradam contra a liturgia formal, querem prender os seus ministros com indicações limitadoras produzidas pelo costume. É tempo de silenciar para sempre esse absurdo. Pretendemos dirigir o culto conforme nos mova o Espírito Santo, e como nos pareça melhor. Não queremos ser obrigados a cantar aqui e orar ali, mas queremos variar a ordem do culto para evitar a monotonia.

Ouvi dizer que o sr. Hinton uma vez pregou o sermão no começo do culto, de modo que os retardatários puderam ter oportunidade de orar. E por que não? Alterações da regularidade fazem bem; a monotonia aborrece. Muitas vezes será uma coisa sumamente proveitosa deixar o povo serenamente sentado no mais profundo silêncio uns dois a cinco minutos. O silêncio solene dá nobreza ao culto.

Verdadeira oração não é barulho imenso

de lábios habituados ao clamor;

mas é o silêncio d’alma, sim, profundo e intenso,

d’alma que abraça os pés do seu Senhor.

Variem, pois, a ordem das suas orações, para manter a atenção e impedir que as pessoas passem pelo programa todo do mesmo modo como anda o relógio até os pesos irem até o chão.

Variem a extensão das suas orações públicas. Não acham que às vezes seria muito melhor que, em vez de dar três minutos à primeira oração e quinze à segunda, dessem nove minutos a cada uma delas? Não seria melhor, às vezes, estender-se mais na primeira oração, e menos na segunda? Não seria melhor fazer duas orações de durarão tolerável, do que uma extremamente longa e outra extremamente curta? Não seria bom também ter um hino depois da leitura do capítulo, ou um versículo ou dois antes da oração? Por que não cantar quatro vezes, ocasionalmente? Por que não se contentar com dois hinos, ou só um, ocasionalmente? Por que cantar depois do sermão? Por outro lado, por que alguns jamais cantam no fim do culto? É aconselhável fazer sempre, ou mesmo freqüentemente, uma oração depois da pregação? Não causaria maior impressão se fosse feita de vez em quando? A direção do Espírito Santo não nos propiciaria uma variedade desconhecida no presente? Tratemos de ter algo de maneira que o nosso povo não venha a considerar qualquer forma do culto como determinada, e assim torne a cair na superstição da qual escapou.

Variem os temas comuns das suas orações na intercessão. Há muitos tópicos que requerem a sua atenção: a igreja com suas fraquezas, suas infidelidades, suas tristezas e suas consolações; o mundo exterior, a vizinhança, os ouvintes não convertidos, os jovens, a nação. Não orem por tudo isso todas as vezes, ou senão as suas orações serão longas e provavelmente desinteressantes. Qualquer que seja o tópico predominante em seu coração, façam-no predominar em suas súplicas. Há um modo de seguir um curso na oração, se o Espírito Santo os guiar por ele, o que dará coesão ao culto, e se harmonizará com os hinos e com a prédica.

É muito proveitoso manter unidade no culto, onde possível; não servilmente, mas com sabedoria, de sorte que o efeito seja unificante. Certos irmãos nem sequer procuram manter unidade no sermão, mas vagueiam da Inglaterra ao Japão e introduzem todos os assuntos imagináveis. Mas vocês, que já atingiram a preservação da unidade no sermão, poderiam ir um pouco além, e demonstrar algum grau de unidade no culto, sendo cuidadosos quanto ao hino, à oração e à leitura bíblica, para manter em proeminência o mesmo assunto. Pouco recomendável é a prática, comum em alguns pregadores, de reiterar o sermão na última oração. Pode ser instrutivo para os ouvintes, mas é um objetivo totalmente alheio à oração. É uma prática bombástica, escolástica e inconveniente; não a imitem.

Como fugiriam de uma víbora, evitem todas as tentativas para conseguir fervor espúrio na devoção pública. Não se esforcem para parecer fervorosos. Orem segundo os ditames do seu coração, sob a direção Espírito de Deus, e se vocês estiverem embotados e tediosos, falem disso ao Senhor. Não será ruim confessar a sua falta de vida, deplorá-la e clamar por vivificação. Será uma oração real e aceitável. Mas o ardor fingido é uma vergonhosa forma de mentir. Nunca imitem os fervorosos. Vocês conhecem um bom homem que geme, e outro cuja voz vira grito estridente quando ele é arrebatado pelo ardor, mas, nem por isso vocês deverão gemer ou chiar para parecerem fervorosos como eles. Simplesmente sejam naturais do começo ao fim, e peçam a Deus que os guie nisso tudo.

Finalmente – esta palavra lhes digo confidencialmente – preparem a sua oração. Vocês dirão com espanto: “Que será que o senhor poderá querer dizer com isso?” Bem, quero dizer o que alguns não querem. Uma vez foi discutida numa sociedade de ministros a questão: “É certo o ministro preparar a sua oração com antecedência?” Alguns afirmaram vigorosamente que não é certo; e agiram bem. Outros com igual vigor sustentaram que é certo. E não deveriam ser contraditados. Creio que ambas as partes tinham razão. Os irmãos do primeiro grupo entendiam por preparo da oração o estudo de expressões, e a colocação ordenada de uma linha de pensamento, o que todos eles diziam ser completamente oposto ao culto espiritual, no qual devemos deixar-nos nas mãos do Espírito de Deus para que Ele nos ensine tanto o assunto como as palavras.

Com essas observações concordamos plenamente, pois, se um homem escreve as suas orações e estuda as suas petições, que use logo uma fórmula litúrgica. Mas os irmãos oponentes queriam dizer por preparo uma coisa completamente diversa. Não o preparo da cabeça, mas do coração, preparo que consiste em ponderar previamente na importância da oração, em meditar nas necessidades espirituais dos homens, e em recordar as promessas que havemos de pleitear – indo, desta forma, à presença do Senhor com uma petição escrita nas tábuas de carne do coração. Segura-mente isso é melhor do que ir a Deus à esmo, correr para o trono divino ao acaso, sem mensagem ou desejo definido. “Nunca me canso de orar”, disse alguém, “porque sempre tenho uma mensagem definida quando oro.”

Irmãos, as suas orações são desta espécie? Vocês lutam para estar numa adequada disposição de espírito para dirigir as súplicas do seu povo? Vocês põem em ordem a sua causa quando vão comparecer perante o Senhor? Creio, meus irmãos, que devemos preparar-nos pela oração particular para a oração pública. Por uma vida vivida perto de Deus, devemos manter espírito de oração, e então não falharemos em nossas súplicas elevadas vocalmente. Se se deve tolerar alguma coisa além disso, deveria ser a dedicação à memorização dos Salmos e de porções da Escritura que contém promessas, súplicas, louvores e confissões, os quais possam ser de utilidade no ato de oração. De Crisóstomo se diz que aprendeu a Bíblia de cor, de modo que podia repeti-la a seu bel-prazer. Não admira que se chamasse boca de ouro.

Agora, em nossa conversação com Deus, nenhuma linguagem pode ser mais apropriada do que as palavras do Espírito Santo – “Faze como disseste” sempre prevalecerá junto ao Altíssimo. Aconselhamos, pois, a memorização dos inspirados exercícios de devoção presentes na Palavra da Verdade. Depois, a contínua leitura das Escrituras os manterá sempre supridos de renovadas preces, que serão como ungüento derramado, impregnando toda a casa de Deus com a sua fragrância, quando apresentarem as suas petições em público perante o Senhor. Sementes de oração semeadas assim na memória, constantemente produzirão excelentes colheitas, quando o Espírito lhes aquecer a alma com fogo santo na hora da oração congregacional. Como Davi usou a espada de Golias para vitórias futuras, assim podemos empregar às vezes uma petição já respondida, e capacitar-nos a dizer com o filho de Jessé: “Não há outra semelhante; dá-ma”, pois Deus tornará a cumpri-la em nossa experiência pessoal.

Oxalá as vossas orações sejam fervorosas, cheias de fogo, veemência e poder. Rogo ao Espírito Santo que ensine todos os estudantes desta Escola a fazer oração pública, de modo que Deus seja servido sempre do melhor de cada um. Oxalá as suas petições sejam singelas e brotem do coração. E, ao passo que às vezes o povo de sua igreja pode achar que o sermão esteve abaixo do normal, possa também achar que a oração compensou tudo,

 

* A Discourse Concerning Liturgies and their Imposition (Discurso Sobre Liturgia e sua Imposição), Vol. XV, Owen’s Works, Goold’s Edition.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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