Olhando Abaixo da Superfície – A Cruz de Cristo

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Olhando Abaixo da Superfície – A Cruz de Cristo

Nos capítulos anteriores procurei estabelecer dois fatos acerca da cruz. Primeiro, sua importância central (para Cristo, para seus apóstolos e para a igreja mun­dial desde então), e, segundo, seu caráter deliberado (pois embora tenha sido devida à maldade humana, foi também por causa de um propósito determinado de Deus, volun­tariamente aceito por Cristo, que se entregou a si mesmo à morte).

Mas por quê? Voltamos a esse enigma básico. O que há acerca da crucificação de Jesus que, apesar de seu horror, vergonha e dor, a faz tão importante ao ponto de Deus a planejar de antemão e de Cristo vir para suportá-la?

 

Uma construção inicial

Pode ser útil responder a essa pergunta em quatro estágios, co­meçando com o claro e não controverso, e, passo a passo, ir pene­trando mais profundamente no mistério.

Primeiro, Cristo morreu por nós. Além de ser necessária e voluntária, sua morte foi altruísta e benéfica. Ele a empreendeu por nossa causa, não pela sua, e cria que através dela nos garantia um bem que não poderia ser garantido de nenhum outro modo. O Bom Pastor, disse ele, ia dar a sua vida pelas ovelhas, em benefício delas. Similarmente, as palavras que ele proferiu no cenáculo, ao dar o pão aos seus dis­cípulos, foram: “Isto é o meu corpo oferecido por vós”. Os apóstolos pegaram esse simples conceito e o repetiram, às vezes tornando-o mais pessoal, trocando a segunda pessoa pela primeira: “Cristo mor­reu por nós”.1 Ainda não há nenhuma explicação e nenhuma iden­tificação da bênção que ele nos assegurou mediante a sua morte, mas pelo menos concordamos quanto às expressões “por vós” e “por nós”.

Segundo, Cristo morreu para conduzir-nos a Deus (1 Pedro 3:18). O foco do propósito benéfico da sua morte é a nossa reconciliação. Como diz o Credo Niceno: “por nós (geral) e por nossa salvação (particular) ele desceu do céu. . .” A salvação que ele conseguiu para nós me­diante sua morte é retratada de vários modos. Às vezes é concebida negativamente como redenção, perdão ou libertação. Outras vezes é positiva — vida nova ou eterna, ou paz com Deus no gozo de seu favor e comunhão.2 No presente, o vocabulário preciso não importa. O ponto importante é que, em conseqüência da sua morte, Jesus é capaz de conferir-nos a grande bênção da salvação.

Terceiro, Cristo morreu por nossos pecados. Nossos pecados eram o obstáculo que nos impedia de receber o dom que ele desejava dar­nos. De modo que eles tinham de ser removidos antes que a salvação nos fosse outorgada. E ele ocupou-se dos nossos pecados, ou os levou, na sua morte. A expressão: “por nossos pecados” (ou fraseado muito similar) é usada pela maioria dos escritores do Novo Testamento; parece que eles tinham certeza de que — de um modo ainda não determinado — a morte de Cristo e nossos pecados se relacionavam. Eis uma amostra de citações: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (Paulo); “Cristo morreu pelos pecados uma vez por todas” (Pedro); “ele apareceu de uma vez por todas. . . para desfazer o pecado mediante o sacrifício de si mesmo”, e ele “ofereceu de uma vez por todas um sacrifício pelos pecados” (Hebreus); “o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (João); “àquele que nos ama e nos libertou de nossos pecados através do seu sangue. . . seja a glória” (Apocalipse).3 Todos estes versículos (e mui­tos mais) ligam a morte de Jesus aos nossos pecados. Que elo é esse?

Quarto, Cristo sofreu a nossa morte, ao morrer por nossos pecados. Isso quer dizer que se a sua morte e os nossos pecados estão ligados, esse elo não é efeito de mera conseqüência (ele foi vítima de nossa brutalidade humana), mas de penalidade (ele suportou em sua pessoa inocente a pena que nossos pecados mereciam). Pois segundo a Es­critura, a morte se relaciona com o pecado como sua justa recompensa: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). A Bíblia toda vê a morte humana não como um evento natural, mas penal. E uma invasão alienígena do bom mundo de Deus, e não faz parte de sua intenção original para a humanidade. É certo que o registro fóssil indica que a pilhagem e a morte existiam no reino animal antes da criação do homem. Porém parece que Deus tinha em mente um fim mais nobre para os seres humanos portadores de sua imagem, fim talvez seme­lhante ao traslado que Enoque e Elias experimentaram, e à “trans­formação” que ocorrerá com aqueles que estiverem vivos na volta de Jesus.4 Através de toda a Escritura, pois, a morte (tanto física como espiritual) é vista como juízo divino sobre a desobediência humana.5 Daí as expressões de horror com relação à morte, a sensação de ano­malia de que o homem se tivesse tornado como as bestas que perecem, uma vez que o mesmo destino aguarda a todos.6 Daí também a vio­lenta indignação de que Jesus foi alvo em seu confronto com a morte ao lado do túmulo de Lázaro.7 A morte era um corpo estranho. Jesus resistiu-lhe; ele não pôde aceitá-la.

Se, pois, a morte é a pena do pecado, e se Jesus não tinha pecado próprio em sua natureza, caráter e conduta, não devemos dizer que ele não precisava ter morrido? Não poderia ele, em vez de morrer, ter sido trasladado? Quando o seu corpo se tornou translúcido durante a transfiguração no monte, não tiveram os apóstolos uma previsão do seu corpo da ressurreição (daí a instrução de a ninguém contarem acerca desse acontecimento até que ele ressurgisse dentre os mortos, Marcos 9:9)? Não podia ele naquele momento ter entrado no céu e escapado à morte? Mas ele voltou ao nosso mundo a fim de ir volun­tariamente à cruz. Ninguém lhe tiraria a vida, insistia ele; ele ia dá-la de sua própria vontade. De modo que quando o momento da morte chegou, Lucas a representou como um ato autodeterminado do Se­nhor. “Pai”, disse ele, “nas tuas mãos entrego o meu espírito”.8 Tudo isso significa que a simples afirmativa do Novo Testamento: “ele mor­reu por nossos pecados” diz muito mais do que aparenta na superfície. Afirma que Jesus Cristo, sendo sem pecado e não tendo necessidade de morrer, sofreu a nossa morte, a morte que nossos pecados me­reciam.

Necessitaremos, em capítulos posteriores, penetrar mais profun­damente na razão, moralidade e eficácia dessas afirmativas. Por en­quanto devemos contentar-nos com esta construção quádrupla preliminar, que Cristo morreu por nós, para o nosso bem; que esse “bem” pelo qual ele morreu era a nossa salvação; que a fim de no-la assegurar, ele teve de enfrentar os nossos pecados; e que, ao morrer por nossos pecados, foi a nossa morte que ele sofreu.

A pergunta que desejo fazer agora, e à qual procurarei responder no restante deste capítulo, é se os fatos se encaixam nesta construção teológica preliminar. Será ela uma teoria um tanto complexa imposta sobre a história da cruz, ou será que a narrativa dos evangelistas lhe supre evidência e até mesmo permanece ininteligível sem ela? Ar­gumentarei em favor do último caso. Além do mais, procurarei de­monstrar que o que os evangelistas retratam, embora seja testemunho deles, não é de sua invenção. O que estão fazendo é permitir que entremos um pouco na mente do próprio Cristo.

De modo que olharemos para três das cenas principais das últimas vinte e quatro horas de Jesus na terra — o cenáculo, o jardim do Getsêmani, e o lugar chamado Gólgota. Ao fazermos esse exame, seremos incapazes de nos limitar ao mero relato de uma história pungente, visto que cada cena contém ditos de Jesus, os quais exigem explicação e não podem ser deixados de lado. Algo mais profundo do que meras palavras e ações estava acontecendo abaixo da super­fície. A verdade teológica continua a aparecer, mesmo quando de­sejamos que ela nos deixe em paz. Em particular, sentimo-nos obrigados a fazer perguntas acerca da instituição da Ceia do Senhor no cenáculo, sobre a “agonia” no jardim do Getsêmani, e acerca do “grito de desespero” na cruz.

Contudo, antes que possamos fazer essas perguntas, há um fato digno que nos diminuirá o passo, e que tem de ver com a perspectiva de Jesus através de todos esses eventos. Nossa história tem início na noite de Quinta-Feira Santa. Jesus tinha visto o sol se pôr pela última vez. Dentro de mais ou menos quinze horas seus membros seriam estendidos na cruz. Dentro de vinte e quatro horas ele estaria morto e enterrado. E ele sabia disso. Contudo, o extraordinário é que ele estava pensando a respeito de sua missão como ainda no futuro, não no passado. Comparativamente, ele era jovem, por certo entre os trinta e trinta e cinco anos de idade. Ele nem bem tinha vivido metade da vida humana. Ele ainda estava no auge de seus poderes. Na idade dele a maioria das pessoas tem seus melhores anos pela frente. Maomé viveu até os sessenta, Sócrates até os setenta, e Platão e Buda tinham mais de oitenta anos quando morreram. Se a morte ameaça encurtar a vida de uma pessoa, o sentimento de frustração lança-a na tristeza. Mas não a Jesus, por este simples motivo: ele não considera a morte que estava prestes a sofrer como o fim último de sua missão, mas como necessária à sua realização. Somente alguns segundos antes de ele morrer (e não antes) ele foi capaz de gritar: “Está terminado!” De modo que, então, embora fosse a sua última noite, e embora tivesse poucas horas de vida, Jesus não olhava para trás, para uma missão que havia completado, muito menos pensando ter falhado; olhava para frente, para uma missão que estava prestes a cumprir. A missão de uma vida de trinta ou trinta e cinco anos haveria de ser realizada em suas últimas vinte e quatro horas, deveras, suas últimas seis.

 

A Última Ceia no cenáculo

Jesus estava passando sua última noite na terra em reclusão tran­qüila com os apóstolos. Era o primeiro dia da festa dos Pães Asmos, e haviam-se reunido para tomar a refeição pascal juntos na casa de um amigo. O lugar é descrito como “um cenáculo grande, mobiliado e preparado”, e podemos imaginá-los ao redor de uma mesa baixa, reclinados sobre almofadas no chão. Evidentemente não havia criados que os servissem, de modo que ninguém lhes lavou os pés antes da refeição. Nem um dos apóstolos, tampouco, foi humilde suficiente para se desincumbir de tão vil tarefa. Foi para intensa consternação deles, portanto, que durante a ceia Jesus vestiu um avental de escravo, despejou água numa bacia e lavou os pés aos apóstolos, realizando assim o que nenhum deles estivera disposto a fazer. A seguir ele lhes disse como o amor autêntico sempre se expressa mediante o serviço humilde e como o mundo os identificaria como discípulos somente se amassem uns aos outros. Em contraste com a prioridade do amor sacrifícial e serviçal, ele os advertiu de que um membro do grupo iria traí-lo. Ele também falou muito da sua iminente partida, da vinda do Consolador que tomaria o seu lugar, e do variado ministério de ensino e testemunho desse Espírito da verdade.

Então, continuando a refeição, eles observaram encantados quando ele pegou um pão, abençoou-o (isto é, deu graças), quebrou-o em pedaços e passou-os aos discípulos, dizendo: “Este é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim”. Da mesma forma, terminada a ceia, ele tomou um cálice de vinho, deu graças, entregou-o aos discípulos e disse: “Este é o cálice da nova aliança em meu sangue”; ou: “Este é o meu sangue da nova aliança, que é derramado por muitos para o perdão de pecados; fazei isto, sempre que o be­berdes, em memória de mim”.9

Essas são ações e palavras tremendamente significativas. E pena que, por estarmos tão familiarizados com elas, tendam a perder o seu impacto. Pois lançam inundações de luz sobre a visão que o próprio Jesus tinha a respeito da sua morte. Através do que fez com o pão e com o vinho, e mediante o que disse a respeito desses elementos, ele estava dramatizando visivelmente sua morte antes que acontecesse e dando a sua própria autorizada explicação acerca do seu significado e propósito. Ele ensinava pelos menos três lições.

A primeira lição se referia à centralidade de sua morte. Solene e de­liberadamente, durante sua última noite com os discípulos, ele dava instruções concernentes ao seu próprio culto memorial. Contudo, não devia ser uma única ocasião, como nossos cultos memorais modernos, o tributo final pago por amigos e parentes. Pelo contrário, devia ser uma refeição regular ou culto, ou ambos. Ele lhes disse especifica­mente que o repetissem: “fazei isto em memória de mim”. O que deviam fazer? Deviam copiar o que ele tinha feito, tanto os seus atos como suas palavras, isto é, tomar, quebrar, abençoar, identificar e partilhar o pão e o vinho. O que significavam o pão e o vinho? As palavras que ele proferira tinham a explicação. Acerca do pão ele dissera: “Este é o meu corpo que é dado por vós”, e do vinho: “Este é o meu sangue que é derramado por vós”. De modo que sua morte falava aos discípulos de ambos os elementos. O pão não representava seu corpo vivo, enquanto ele se reclinava com eles à mesa, mas seu corpo que em breve seria dado por eles na morte. Da mesma forma, o vinho não representava o seu sangue que lhe corria nas veias en­quanto lhes falava, mas seu sangue que em breve seria derramado por eles na morte. A evidência é clara e irrefutável. A Ceia do Senhor, que foi instituída por Jesus, e que é o único ato comemorativo au­torizado por ele, não dramatiza nem seu nascimento nem sua vida, nem suas palavras nem suas obras, mas somente a sua morte. Nada poderia indicar mais claramente a significação central que Jesus atri­buía à sua morte. Era por sua morte que ele desejava, acima de tudo, ser lembrado. Portanto, é seguro dizer que não há Cristianismo sem a cruz. Se a cruz não for o centro da nossa religião, a nossa religião não é a de Jesus.

Segunda, Jesus estava ensinando a respeito do propósito da sua morte. De acordo com Paulo e Mateus, as palavras de Jesus acerca do cálice referiam-se não somente ao seu sangue mas também à nova aliança associada com o seu sangue, e Mateus acrescenta que o sangue de Cristo devia ser derramado pelo perdão dos pecados. Aqui temos a afirmação verdadeiramente fantástica de que por intermédio do der­ramamento do sangue de Jesus, na morte, Deus estava tomando a iniciativa de estabelecer um novo pacto ou “aliança” com o seu povo, na qual uma das maiores promessas seria o perdão dos pecadores. Que quis ele dizer?

Muitos séculos antes Deus tinha feito uma aliança com Abraão, prometendo abençoá-lo com uma boa terra e uma posteridade abun­dante. Deus renovou essa aliança no monte Sinai, depois de tirar a Israel (descendentes de Abraão) do Egito. Ele prometeu ser o seu Deus e fazê-los o seu povo. Além disso, essa aliança foi ratificada com o sangue do sacrifício: “Então tomou Moisés aquele sangue e o as­pergiu sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco a respeito de todas estas palavras.”10 Passaram-se cen­tenas de anos, durante os quais o povo se esqueceu de Deus, quebrou a sua aliança e provocou o seu juízo, até que um dia no sétimo século a.C. a palavra do Senhor veio a Jeremias, dizendo:

Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anu­laram a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o Senhor. Porque esta é aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dia, diz o Senhor. Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscre­verei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor. Pois, perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pe­cados jamais me lembrarei.

(Jeremias 31:31-34)

Passaram-se mais seis séculos, anos de espera paciente e expectativa crescente, até uma noite num cenáculo de Jerusalém, em que um camponês galileu, carpinteiro de profissão e pregador por vocação, ousou dizer, com efeito: “Esta nova aliança, profetizada por Jeremias, está prestes a ser estabelecida; o perdão de pecados prometido como uma das bênçãos distintivas está prestes a ficar disponível; e o sacri­fício para selar esta aliança e assegurar este perdão será o derrama­mento do meu sangue na morte.” Será possível exagerar a natureza espantosa dessa reivindicação? Aqui está a visão que Jesus tinha da sua morte. É o sacrifício divinamente ordenado pelo qual a nova aliança com a sua promessa de perdão será ratificada. Ele vai morrer a fim de levar o seu povo a um novo relacionamento de aliança com Deus.

A terceira lição que Jesus estava ensinando referia-se à necessidade de apropriarmo-nos pessoalmente da sua morte. Se tivermos razão em dizer que, no cenáculo, Jesus estava apresentando uma dramatização de sua morte, é importante que observemos a forma que ela tomou. Não consistia em um ator num palco, e doze pessoas no auditório. Não; envolveu a todos como também a ele, de modo que tanto eles como ele participaram do drama. É verdade que Jesus tomou o pão, aben­çoou-o e o quebrou, mas então, enquanto comiam, ele explicou a significação do seu gesto. Novamente, ele tomou o cálice e o aben­çoou, mas então, enquanto bebiam, explicou a significação do seu gesto. Assim, não eram meros espectadores deste drama da cruz; eram participantes dele. Não poderiam ter deixado de entender a mensagem. Assim como não era suficiente que o pão fosse quebrado e o vinho derramado, mas que tinham de comer e beber, da mesma forma não era suficiente que ele morresse, mas eles tinham de se apropriar pessoalmente dos benefícios da sua morte. O comer e o beber eram, como ainda o são, uma parábola viva de recebermos a Cristo como nosso Salvador crucificado, e nos alimentarmos dele, pela fé, em nossos corações. Jesus já havia ensinado essa mensagem em seu grande discurso sobre o Pão da Vida, o qual veio logo depois da alimentação dos cinco mil:

Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida (João 6:53-55).

As palavras de Jesus naquela ocasião, e suas ações no cenáculo testemunham a mesma realidade. Dar ele o seu corpo e o seu sangue na morte era uma coisa; apropriarmo-nos nós das bênçãos da sua morte é outra muito diferente. Contudo, muitos ainda não apren­deram essa distinção. Posso ainda lembrar-me da grande revelação que foi para mim, na juventude, quando me disseram que era ne­cessário uma ação de minha parte. Eu costumava imaginar que, por haver Cristo morrido, o mundo tinha sido corrigido automaticamente. Quando alguém me explicou que Cristo havia morrido por mim, res­pondi um tanto altivamente: “Todo mundo sabe disso”, como se o fato em si ou o meu conhecimento do fato me houvesse trazido a salvação. Mas Deus não força as suas dádivas sobre nós; temos de recebê-las mediante a fé. A Ceia do Senhor permanece como o sinal externo perpétuo tanto da dádiva divina como da recepção humana. Tem o propósito de ser a comunhão do corpo e do sangue de Cristo (1 Coríntios 10:16).

Portanto, eis as lições do cenácúlo acerca da morte de Cristo. Pri­meira, ocupava o centro do pensamento que ele tinha acerca de si mesmo e de sua missão, e ele desejava que fosse o centro do nosso. Segunda, aconteceu a fim de estabelecer a nova aliança e assegurar o seu perdão prometido. Terceira, precisa ser apropriada individual­mente, se quisermos desfrutar os seus benefícios (a aliança e o per­dão). A Ceia do Senhor instituída por Jesus não tinha o propósito de ser um “não-me-esqueça” piegas, mas, antes, um culto rico de sig­nificação espiritual.

O que torna os eventos do cenácúlo e a significação da Ceia do Senhor ainda mais impressionantes é pertencerem ao contexto da Páscoa. Já vimos que Jesus pensava em sua morte como sendo um sacrifício do Antigo Testamento. Mas qual dos sacrifícios tinha ele em mente? Parece que ele pensava no sacrifício do monte Sinai, de Êxodo 24, mediante o qual a aliança foi renovada, mas também no da Páscoa, de Êxodo 12, o qual se transformou em celebração anual da libertação de Israel e uma aliança da parte de Deus com eles.

Segundo os evangelistas sinóticos, a última ceia foi a refeição pascal que se realizava depois que os cordeiros eram sacrificados. Essa idéia está clara na pergunta que os discípulos fizeram a Jesus: “Onde queres que a preparemos?” E o próprio Jesus se referiu à refeição como “esta páscoa”.11 Segundo João, porém, a refeição da páscoa não seria rea­lizada até a noite de sexta-feira, o que significa que Jesus morria na cruz no mesmo instante em que os cordeiros pascais estavam sendo mortos.32 Em seu importante livro As Palavras Eucarísticas de Jesus, Joachim Jeremias elaborou as três principais tentativas que se têm feito para harmonizar essas duas cronologias. O melhor parece ser declarar que ambas estão corretas, pois ambas foram seguidas por um grupo diferente. Ou os fariseus e os saduceus usavam calendários alternativos, com a diferença de um dia, ou havia tantos peregrinos em Jerusalém por ocasião do festival (talvez até 100.000) que os ga­lileus matavam os seus cordeiros na quinta-feira e os comiam nessa noite, ao passo que os judeus observavam a celebração um dia depois. Qualquer que seja o modo de reconciliar as duas cronologias, o contexto da páscoa reforça ainda mais as três lições que já conside­ramos. A importância central que Jesus atribuía à sua morte é acen­tuada pelo fato de que ele, na realidade, estava dando instruções no sentido de que sua própria ceia substituísse a celebração anual da páscoa. Pois proferiu palavras de explicação sobre o pão e o vinho (“Isto é o meu corpo. . . Isto é o meu sangue. . .”), assim como o chefe da família arameu-judaica fazia sobre o alimento pascal (“Este é o pão de aflição que nossos pais comeram quando saíram do Egito”.13 Assim, “Jesus modelou seus ditos no ritual de interpretação da pás­coa.”

As palavras de Jesus esclarecem ainda mais a compreensão que ele tinha do propósito da sua morte. Ele “pressupõe”, escreveu Jeremias “uma morte que separou a carne e o sangue. Por outras palavras, Jesus falou de si mesmo como um sacrifício.” Deveras, é bem provável que ele “estivesse falando de si mesmo como o cordeiro pascal”, de modo que o significado de sua última parábola foi: “Eu vou à morte como o verdadeiro sacrifício da páscoa.” As implicações deste racio­cínio são muito abrangentes, pois na páscoa original no Egito cada cordeiro morreu em lugar do primogênito, e o primogênito só seria poupado se um cordeiro morresse em seu lugar. O cordeiro não ape­nas tinha de ser morto, mas também o seu sangue tinha de ser as­pergido na porta da frente, e a sua carne comida numa refeição de comunhão. Assim, o ritual da páscoa também ensina a terceira lição: era necessário que os benefícios da morte sacrificial fossem apropria­dos pessoalmente.

 

A agonia no jardim do Getsêmani

A ceia terminou e Jesus acabou de dar suas instruções aos apóstolos. Ele instou com eles a que permanecessem nele assim como os ramos permanecem na videira. Ele os advertiu da oposição do mundo, con­tudo, encorajou-os a testemunhar dele, lembrando-lhes de que o Es­pírito da verdade seria a testemunha principal. Ele também orou — primeiro por si mesmo, para que glorificasse o seu Pai no suplício que se seguiria, então pelos discípulos, para que se mantivessem na verdade, santidade, missão e unidade, e, por último, orou por aqueles que fariam parte de gerações subseqüentes e que creriam nele através da mensagem dos apóstolos. É provável que depois disso tenham cantado um hino, e, juntos tenham deixado o cenáculo. Andam pelas ruas da cidade no silêncio da noite; à suave luz da lua pascal atra­vessam o vale de Cedrom, começam a subir o monte das Oliveiras, e entram num jardim de oliveiras, como o nome “Getsêmani” (“prensa de azeite”) sugere. Este é, evidentemente, um dos retiros favoritos de Jesus, pois João comenta que “ali estivera muitas vezes com seus discípulos” (18:2). Aqui acontece algo que, apesar da ma­neira sombria como os evangelistas o descrevem, simplesmente clama por uma explicação, e começa a revelar o enorme preço da cruz de Cristo. Nós o chamamos, de modo correto, de “a agonia do jardim”.

Deixando a maioria dos apóstolos para trás, e instando com eles a que vigiem e orem, Jesus leva a Pedro, Tiago e João — os três íntimos — a certa distância, diz-lhes que se sente “profundamente triste até à morte”, e pede-lhes que vigiem com ele. Então se adianta um pouco, prostra-se com o rosto em terra e ora, dizendo: “Meu Pai: se possível, passa de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e, sim, como tu queres”. Voltando aos apóstolos, encontra-os dormindo e os repreende. Saindo pela segunda vez, ele ora: “Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade.” Novamente encontra os discípulos dormindo. De modo que os deixa uma vez mais e ora, pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. Depois desse terceiro período de oração, ele volta e os en­contra dormindo novamente, pois não conseguem penetrar o incon­cebível mistério do seu sofrimento. Esse é um caminho que ele tem de palmilhar sozinho. A certa altura Lucas diz que ele estava “em agonia”, e orava mais intensamente de modo que “o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra”.14

Ao nos aproximarmos dessa cena sagrada, devemos primeiro con­siderar as palavras vigorosas que Jesus e os evangelistas usaram para expressar as suas fortes emoções. Fomos preparados para elas por duas afirmativas anteriores do Mestre. A primeira, registrada por Lucas, foi que ele tinha um “batismo com o qual hei de ser batizado” e “se angustiava” (no grego synecho) até que se realizasse. A segunda é um dito registrado por João de que a alma de Cristo estava angus­tiada (no grego tarasso) de tal modo que ele não sabia se devia pedir que o seu Pai o livrasse dessa hora. É uma antecipação do Getsêmani.15

  1. B. Warfield escreveu um excelente estudo intitulado “Acerca da Vida Emocional de Nosso Senhor”, no qual se referiu aos termos empregados pelos evangelistas sinóticos com relação ao Getsêmani. A palavra agonia, registrada por Lucas, ele a define como “conster­nação, relutância pavorosa”. Mateus e Marcos possuem duas ex­pressões em comum. A idéia primária de “perturbar” {ademoneo), sugere ele, é “aversão repugnante, talvez misturada com tristeza”, enquanto a autodescrição de Jesus como “profundamente triste” (pe-rilypos) “expressa uma tristeza, ou talvez melhor disséssemos, uma dor mental, ou uma perturbação que o pressiona de todos os lados, da qual, pois, não há escape”. Marcos usa outra palavra, “profun­damente perturbada” (ekthambeomai), que pode ser traduzida por “to­mado de horror”; e, acrescenta Warfield: “é um termo que define mais estreitamente a aflição como consternação — se não exatamente pavor, contudo, um assombro alarmado”.16 Reunidas, essas palavras expressivas indicam que Jesus estava sentindo uma dor emocional aguda, que causava profuso suor, à medida que ele olhava com apreensão e quase terror para o seu suplício vindouro.

Ele se refere a esse suplício como um “cálice” amargo pelo qual ardentemente ora que, se possível, passe dele, para que não tenha de bebê-lo. Que cálice é esse? Será um sofrimento físico do qual deseja desviar-se, a tortura do açoite e da cruz juntamente, talvez, com a angústia mental da traição, negação e deserção da parte dos seus amigos, e a zombaria e o abuso dos seus inimigos? Nada poderia fazer-me crer que o cálice que Jesus temia era qualquer uma destas coisas (por mais terríveis fossem) ou todas juntas. Sua coragem física e moral durante todo o seu ministério público havia sido indomável. Para mim, é ridículo supor que agora ele estava com medo da dor, do insulto e da morte. Sócrates, na cela de um cárcere em Atenas, segundo relato de Platão, tomou o cálice de cicuta “sem tremer nem mudar de cor ou de expressão”. Então ele “levou o cálice aos lábios, e alegre e tranqüilamente o sorveu”. Quando seus amigos começaram a chorar, ele os repreendeu por seu comportamento “absurdo” e instou com eles a que “se aquietassem e fossem fortes”.17 Ele morreu sem temor, pesar ou protesto. Seria Sócrates mais corajoso do que Jesus? Ou continham os seus cálices venenos diferentes?

Então vêm os mártires cristãos. O próprio Jesus dissera aos seus seguidores que quando fossem insultados, perseguidos e injuriados, deviam “regozijar-se e alegrar-se”. Será que Jesus não praticava o que pregava? Seus apóstolos o fizeram. Deixando o Sinédrio com as costas sangrando de um açoite sem misericórdia, eles, na realidade, rego­zijavam-se por terem sido achados dignos de sofrer vergonha pelo “Nome”. A dor e a rejeição para eles eram alegria e privilégio, não um suplício do qual deviam fugir em assombro.18

No período pós-apostólico até mesmo surgiu o anseio de se unir a Cristo no martírio. Inácio, bispo de Antioquia da Síria, no começo do segundo século, a caminho de Roma, implorou à igreja aí que não tentasse procurar sua liberdade a fim de não privá-lo dessa honra! “Que o fogo e a cruz”, escreveu ele, “que a companhia das feras selvagens, que o quebrar de ossos e o despedaçar de membros, que o moer de todo o corpo, e toda a malícia do diabo venham sobre mim; que assim seja, se tão-somente eu puder ganhar a Cristo Jesus!”19

Alguns anos mais tarde, nos meados do segundo século, Policarpo, bispo de Esmirna, de oitenta anos de idade, tendo-se recusado a escapar da morte pela fuga ou pela negação de Cristo, foi queimado na fogueira. Logo antes de acender-se o fogo, ele orou, dizendo: “Ó Pai, bendigo-te por teres-me achado digno de receber a minha porção entre o número dos mártires”.20

Quanto a Albano, o primeiro mártir cristão inglês de que se tem conhecimento, durante uma das severas perseguições do terceiro sé­culo, primeiro ele foi “surrado cruelmente, contudo, sofreu-o pacien­temente, aliás, com alegria, por amor do Senhor”, e então foi decapitado.21

E assim continuou em todas as gerações. “Oh, as alegrias que os mártires em Cristo sentiram”, exclamou Richard Baxter, “no meio das chamas ardentes!” Embora feito de carne e sangue como nós, conti­nuou ele, as suas almas podiam regozijar-se até mesmo enquanto seus corpos se queimavam.22

Dos muitos exemplos que poderíamos tirar do presente século, escolho só aqueles mencionados por Sadhu Sundar Singh, místico e evangelista cristão hindu. Ele contou, por exemplo, de um evangelista tibetano, açoitado por atormentadores que então esfregaram sal nas suas feridas. Diz ele que a face desse evangelista “brilhava com paz e alegria”. Ele conta que outro foi costurado dentro da pele úmida de um iaque e deixado ao sol durante três dias. Este, porém, “esteve alegre o tempo todo”, agradecendo a Deus o privilégio de sofrer por ele. É verdade que às vezes Sadhu embelezava ou romantizava as suas histórias, contudo, não parece haver motivo para duvidarmos do seu testemunho, de sua própria experiência e da de outros, que, mesmo no meio da tortura Deus dá ao seu povo uma alegria e uma paz sobrenaturais.23

Voltamos à figura solitária no jardim do Getsêmani — prostrado, suando, vencido pela dor e pelo pavor, implorando, se possível, fosse poupado de beber o cálice. Os mártires foram alegres, mas ele estava triste; eles se mostraram dispostos, mas ele estava relutante. Como podemos compará-los? Como podiam eles ter extraído sua inspiração dele, se ele titubeou quando eles não o fizeram? Além disso, até agora ele havia tido uma perspectiva clara da necessidade dos seus sofrimentos e da sua morte, e estava decidido a cumprir o seu destino, e era veemente na oposição a todo aquele que procurasse desviá-lo. Tinha tudo isso de repente mudado? Era ele agora, afinal de contas, chegado o momento da prova, um covarde? Não, não! Toda a evi­dência do seu ensino, caráter e comportamento vai contra tal conclu­são.

Naquele caso o cálice do qual ele se afastou foi algo diferente. Não simbolizava nem a dor física de ser açoitado e crucificado, nem a aflição mental de ser desprezado e rejeitado até mesmo por seu pró­prio povo; antes, a agonia espiritual de levar os pecados do mundo. Por outras palavras, de suportar o juízo divino que esses pecados mereciam. O Antigo Testamento confirma de modo vigoroso que essa é a compreensão correta, pois tanto na literatura de Sabedoria como nos Profetas, o cálice do Senhor era um símbolo regular da ira de Deus. Dizia-se que o ímpio bebia “do furor do Todo-poderoso” (Jó 21:20). Mediante Ezequiel, Yavé advertiu a Jerusalém de que ela em breve teria o mesmo destino que Samaria, que fora destruída:

Beberás o copo de tua irmã, fundo e largo; servirás de riso e escárnio; pois nele cabe muito. Encher-te-ás de embria­guez e de dor; o copo de tua irmã Samaria é copo de espanto e de desolação. Tu o beberás, esgotá-lo-ás. . .(Ezequiel 23:32-34).

Não muito depois essa profecia de juízo aconteceu, e então os profetas começaram a incentivar o povo com promessas de restau­ração. Descrevendo a Jerusalém como tendo bebido da mão do Senhor “o cálice da sua ira, o cálice de atordoamento, e o esgotaste”, Isaías a convocou a despertar e levantar-se, pois Yavé agora havia tirado o cálice da mão dela e ela jamais teria de beber dele de novo. Nem tampouco foi o cálice da ira do Senhor dado somente a seu desobe­diente povo. O Salmo 75 é uma meditação sobre o juízo universal de Deus: “Na mão do Senhor há um cálice, cujo vinho espuma, cheio de mistura; dele dá a beber; sorvem-no até às escórias, todos os ímpios da terra”. Similarmente, foi dito a Jeremias que pegasse um cálice da mão do Senhor, um cálice cheio do vinho da sua ira e fizesse que todas as nações às quais era enviado bebessem dele. A mesma figura de pensamento ocorre no livro do Apocalipse, onde o ímpio “beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira”, e o juízo final é retratado como o derramamento das sete taças da cólera de Deus sobre a terra.24

Jesus teria conhecimento dessas imagens do Antigo Testamento. Ele deve ter reconhecido o cálice que lhe era oferecido como aquele que continha a ira de Deus, preparado para os ímpios, e que causava uma desorientação física completa (atordoamento) e mental (confu­são) como a embriaguez. Devia ele se identificar tanto com os peca­dores que levasse o juízo deles? Desse contato com o pecado humano, sua alma sem pecado recuava. Da experiência de alienação do seu Pai que o juízo sobre o pecado traria, ele se afastou horrorizado. Não que ele se tivesse rebelado por um único instante. Sua visão evidente­mente havia-se escurecido, à medida que uma terrível escuridão en­volvia o seu espírito, mas sua vontade permaneceu submissa. Cada oração começou com a expressão: “Meu Pai: se possível, passe de mim este cálice!” e cada oração terminou com: “Todavia, não seja como eu quero, e, sim, como tu queres.” Embora, em teoria, tudo fosse possível para Deus, como o próprio Jesus afirmou no Getsêmani (Marcos 14:36), contudo, isso não foi possível. O propósito do amor de Deus era salvar os pecadores, e salvá-los justamente; mas isso seria impossível sem a morte do Salvador que tirasse os pecados. De modo que, como poderia ele orar pedindo que fosse salvo dessa hora de morte? Não, ele havia dito, ele não pediria isso, visto que “precisa­mente com este propósito vim para esta hora” (João 12:27).

De sua agonia de pavor, enquanto contemplava as implicações da sua morte, Jesus emergiu com confiança serena e resoluta. Assim, quando Pedro sacou da espada numa tentativa frenética de impedir a prisão, Jesus pôde dizer: “Não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” (João 18:11). Visto que João não registrou as orações agonizantes de Jesus pedindo a remoção do cálice, esta referência a ele é ainda mais importante. Jesus agora sabe que o cálice não lhe será tirado. O Pai lho deu. Ele o beberá. Além disso, por mais amargo e doloroso seja o cálice, ele ainda descobrirá que fazer a vontade do Pai, que o enviou, e terminar a sua obra é sua comida e sua bebida, por assim dizer, a qual profunda e completamente lhe satisfaz a sede.

A agonia do jardim abre uma janela para uma agonia maior na cruz. Se a antecipação do levar o pecado do homem e a ira de Deus era tão terrível, como não deve ter sido a realidade?

 

O grito de desamparo na cruz

Agora devemos passar além dos detalhes da traição e da prisão de Jesus, seus julgamentos perante Anás e Caifás, Herodes e Pilatos, as negações de Pedro, a zombaria cruel dos sacerdotes e soldados, a malevolência e o açoite, e a histeria da multidão que exigiu a sua morte. Vamos ao fim da história. Condenado à morte por crucificação, “como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha, muda pe­rante os seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca” (Isaías 53:7). Carregando sua própria cruz, até que Simão, um cireneu, fosse for­çado a levá-la, ele terá andado pela via dolorosa, saído da cidade, em direção do Gólgota, “o lugar da caveira”. “Ali o crucificaram”, escreve Lucas, recusando-se a descrever o desnudamento, a pregação dos cravos, ou a distensão violenta dos seus membros enquanto a cruz era erguida e atirada no seu lugar. Até mesmo a dor cruciante não pôde silenciar seus repetidos apelos: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Os soldados lançaram sortes sobre as suas ves­tes. Algumas mulheres estavam paradas à distância. A multidão per­maneceu um pouco, para olhar. Jesus entregou sua mãe aos cuidados de João e João aos dela. Ele proferiu palavras reais de segurança ao criminoso arrependido, crucificado ao seu lado. Os dirigentes, porém, zombavam dele, gritando: “Salvou os outros; a si mesmo se salve, se é de fato o Cristo de Deus, o escolhido”. As palavras deles, proferidas como um insulto, eram a verdade literal. Ele não podia salvar a si mesmo e aos outros simultaneamente. Ele escolheu sacrificar-se a fim de salvar o mundo.

Pouco a pouco a multidão, sua curiosidade saciada, foi-se raleando. Finalmente, caiu o silêncio e chegou a escuridão — trevas, talvez porque olho algum devia ver, e silêncio, porque língua alguma poderia contar a angústia de alma que o Salvador sem pecados agora sofria. “No nascimento do Filho de Deus”, escreveu Douglas Webster, “houve luz à meia-noite; na morte do Filho de Deus, houve trevas ao meio-dia”.25 Os escritores sagrados expressam o que aconteceu nas trevas de vários modos:

. . .ele foi trespassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se des­viava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a ini­qüidade de nós todos.

Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!

O próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos.

Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados.

Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus.

Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós;para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.

Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele pró­prio maldição em nosso lugar.26

O pavoroso conceito de Jesus “levar”, na realidade “tornar-se” nosso pecado e maldição, como podia ser isso e o que podia significar, deixaremos para os próximos capítulos. Por enquanto, parece que a escuridão do céu foi um símbolo externo das trevas espirituais que o envolveram. Pois que são as trevas no simbolismo bíblico senão a separação de Deus que “é luz, e não há nele treva nenhuma” (1 João 1:5)? “Trevas exteriores” foi uma das expressões que Jesus usou para descrever o inferno, visto que é uma exclusão total da luz da presença de Deus. Nessas trevas exteriores o Filho de Deus se atirou por nós. Nossos pecados apagaram o brilho do rosto do seu Pai. Podemos até ousar dizer que os nossos pecados enviou Cristo ao inferno — não ao “inferno” (hades, a habitação dos mortos) a que se refere o Credo ao dizer que ele “desceu ao inferno” depois da morte, mas ao “in­ferno” {gehenna, o lugar de castigo) a que nossos pecados o conde­naram antes que seu corpo morresse.

Parece que a escuridão durou três horas. Pois foi à hora terceira (9:00 da manhã) que ele foi crucificado, e à hora sexta (meio-dia) que a escuridão cobriu toda a terra, e à hora nona (3:00 da tarde) que, emergindo das trevas, Jesus clamou em alta voz em aramaico: “Eloí, Eloí, lama sabactâni?” que significa: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”27 Os circunstantes de fala grega entenderam mal as suas palavras e pensaram que ele chamava por Elias. Ainda hoje muitos entendem mal o que ele disse. Quatro explicações principais para esse terrível grito de “abandono” (deserção), têm sido oferecidas. Todos os comentaristas concordam em que ele estava citando o Salmo 22:1. Mas não concordam sobre o motivo de tê-lo feito. Qual era a importância dessa citação nos seus lábios?

Primeira, sugerem alguns que foi um grito de raiva, descrença ou desespero. Talvez ele se tivesse apegado à esperança de que até no último instante o Pai enviaria anjos para salvá-lo, ou, pelo menos, que em meio à sua obediência total à vontade do Pai ele continuaria a experimentar o conforto da presença paterna. Mas não, agora estava claro que ele havia sido abandonado, e clamou com um “por quê” de partir o coração cheio de consternação e desafio. Sua fé falhou. Mas, é claro, acrescentam esses intérpretes, ele estava enganado. Ele se imaginava abandonado, quando na realidade não estava. Aqueles que desse modo explicam o grito de abandono mal conseguem com­preender o que fazem. Estão negando a perfeição moral do caráter de Jesus. Estão dizendo que ele foi culpado de descrença na cruz, de covardia no jardim. Eles o estão acusando de fracasso, e fracasso no momento de seu maior e supremo auto-sacrifício. A fé cristã protesta contra essa explicação.

Uma segunda interpretação, uma modificação da primeira, vê o grito de abandono como um grito de solidão. Jesus, sustenta-se agora, conhecia as promessas que Deus havia feito de jamais deixar nem abandonar a seu povo.28 Ele conhecia a fidelidade da aliança de amor de Deus. De modo que o seu “por quê?” não era uma reclamação de que Deus o houvesse realmente abandonado; antes, que lhe houvesse permitido sentir-se abandonado. “Às vezes penso”, escreveu T. R. Glover, “que jamais houve uma palavra que revela de modo mais espantoso a distância entre o sentimento e o fato”.29 Em vez de dirigir-se a Deus como “Pai”, ele podia agora chamá-lo apenas de “meu Deus”, o que é, deveras, uma afirmação de fé em sua fidelidade da aliança, mas fica aquém de declarar sua bondade amorosa de pai. Nesse caso, Jesus não estava nem enganado nem descrente, mas experimentava o que os santos têm chamado de a “escura noite da alma”, e, de fato, fazendo-o deliberadamente em solidariedade co­nosco. Nessa condição, como diz Thomas J. Crawford, o povo de Deus “não extrai satisfação consciente das alegrias do seu favor e dos confortos da sua comunhão”. Não se lhes garante “um sorriso de aprovação, uma voz de reconhecimento, uma manifestação do favor divino”.30 Essa explicação é possível, pois não desdoura o caráter de Jesus, como a primeira. Contudo, parece haver uma dificuldade in­superável no modo pelo qual é adotada, a saber, que as palavras do Salmo 22:1 expressem uma experiência de ser, e não apenas de sentir-se abandonado por Deus.

Uma terceira e bem popular interpretação diz que o grito de Jesus era um grito de vitória, exatamente o oposto da primeira, que diz ser um grito de desespero. Agora o argumento é que, embora Jesus citasse somente o primeiro versículo do Salmo 22, ele o fez com a intenção de representar o salmo todo que começa e continua com um relato dos aterroradores sofrimentos, mas termina com grande confiança, e até mesmo triunfo: “A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação; vós que temeis o Senhor, louvai-o. . . Pois não desprezou nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro” (vv. 22-24). Essa é uma interpretação engenhosa mas (a mim me parece) improvável. Por que citaria Jesus o começo do Salmo se na realidade indiretamente se referia ao seu final? Pareceria um tanto perverso. Teria alguém compreendido a sua intenção?

A quarta explicação é simples e direta. Ela aceita o valor real das palavras e as interpreta como um grito genuíno de abandono. Concordo com Dale, que escreveu: “Recuso-me a aceitar qualquer explicação destas palavras que diga que não representam a verdade real da dis­posição do nosso Senhor”.31 Jesus não tinha necessidade alguma de se arrepender de ter proferido um grito falso. Até esse momento, embora abandonado pelos homens, ele podia acrescentar: “Contudo não estou só, porque o Pai está comigo” (João 16:32). Na escuridão, porém, ele estava completamente sozinho, sendo agora também aban­donado por Deus. No dizer de Calvino: “Se Cristo tivesse morrido apenas uma morte física, teria sido ineficaz. . . A menos que a sua alma partilhasse do castigo, ele teria sido um Redentor de corpos somente”. Em conseqüência, “ele pagou um preço maior e muito mais excelente ao sofrer em sua alma os terríveis tormentos de um homem condenado e abandonado”.32 Portanto, uma separação real e pavorosa aconteceu entre o Pai e o Filho; ela foi aceita, voluntaria­mente, tanto pelo Pai como pelo Filho; foi devida aos nossos pecados e sua justa recompensa; Jesus expressou esse horror de grandes tre­vas, este abandono de Deus, citando o único versículo da Escritura que corretamente o descrevia, e ao qual ele tinha cumprido perfei­tamente, a saber: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Das objeções e dos problemas teológicos trataremos mais tarde, em­bora já insistimos em que o desamparo de Jesus na cruz deve ser equilibrado com uma afirmação igualmente bíblica como: “Deus es­tava reconciliando consigo mesmo o mundo em Cristo”. C. E. B. Cranfield tem razão ao enfatizar tanto a verdade de que Jesus expe­rimentou “não apenas um abandono sentido, mas real,, de seu Pai” e “o paradoxo que, embora esse abandono de Deus fosse totalmente real, a unidade da bendita Trindade permaneceu ainda assim com­pleta”.33 A esta altura, porém, é suficiente sugerir que Jesus estivera meditando no Salmo 22, que descreve o cruel castigo de um homem inocente e justo, assim como ele estava meditando em outros salmos os quais citou da cruz;34 que ele citou o versículo 1 pelo mesmo motivo que citou todas as outras passagens bíblicas, a saber, que cria as estar cumprindo; que o seu grito teve a forma de uma pergunta, não porque não conhecesse a resposta, mas somente porque o próprio texto do Antigo Testamento (o qual ele estava citando) possuía essa forma.

Quase imediatamente depois do grito de abandono, Jesus proferiu, em rápida sucessão, mais três palavras ou frases. Primeira: “Tenho sede”. Seus grandes sofrimentos espirituais tinham-lhe cobrado o preço fisicamente. Segunda, ele clamou, novamente (segundo Mateus e Marcos) com grande voz: “Está consumado”. E a terceira, tranqüila, voluntária e confiante auto-recomendação: “Pai, nas tuas mãos en­trego o meu espírito!”, enquanto tomava o último fôlego.35 O grito do meio, o alto grito de vitória é, nos Evangelhos, a palavra tetelestai.

Estando no tempo perfeito, significa: “foi e para sempre será con­sumado”. Percebemos a realização que Jesus reivindicou logo antes de morrer. Não foram os homens que consumaram sua ação brutal; foi ele que realizou o que veio ao mundo realizar. Ele levou os pecados do mundo. Deliberada, livre e perfeitamente em amor ele suportou o juízo em nosso lugar. Ele nos conseguiu a salvação, estabeleceu uma nova aliança entre Deus e a humanidade, e tornou disponível a principal bênção da aliança, o perdão dos pecados. Imediatamente, a cortina do templo, que durante séculos tinha simbolizado a alienação dos pecadores de Deus, rasgou-se de alto a baixo, a fim de demonstrar que Deus havia destruído a barreira do pecado, e aberto o caminho à sua presença.

Trinta e seis horas mais tarde, Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos. Aquele que havia sido condenado ã morte em nosso lugar, foi publicamente vindicado em sua ressurreição. Foi a demonstração decisiva de Deus de que Jesus não havia morrido em vão.

Tudo isso apresenta um quadro coerente e lógico. Dá uma expli­cação da morte de Jesus, tomando em relato científico apropriado os dados disponíveis, sem deixar nenhum de fora. Explica a importância central que Jesus atribuía à sua morte, por que ele instituiu a ceia a fim de comemorá-la, e como, mediante a sua morte, ratificou a nova aliança, com sua promessa de perdão. Explica a sua agonia de ante­cipação no jardim, sua agonia de abandono na cruz, e sua reivindi­cação de ter decisivamente realizado a nossa salvação. Todos esses fenômenos tornam-se inteligíveis se aceitarmos a explicação que Jesus deu aos seus apóstolos de que ele mesmo levou os nossos pecados em seu corpo no madeiro.

Em conclusão, a cruz reforça três verdades: acerca de nós mesmos, acerca de Deus e acerca de Jesus Cristo.

Primeira, nosso pecado deve ser extremamente horrível. Nada re­vela a gravidade do pecado como a cruz. Pois, em última instância, o que enviou Cristo ali não foi nem a ambição de Judas, nem a inveja dos sacerdotes, nem a covardia vacilante de Pilatos, mas a nossa própria ganância, inveja, covardia e outros pecados, e a resolução de Cristo em amor e misericórdia de levar o juízo desses pecados e desfazê-los. É impossível que encaremos a cruz de Cristo com inte­gridade e não sintamos vergonha de nós mesmos. Apatia, egoísmo e complacência vicejam em todos os lugares do mundo, exceto junto à cruz. Aí, essas ervas nocivas secam-se e morrem. São vistas como as coisas horríveis e venenosas que realmente são. Pois se não havia outro modo pelo qual o Deus justo pudesse justamente perdoar a nossa injustiça, a não ser que a levasse sobre si mesmo em Cristo, deve ela, deveras, ser séria. Só quando vemos essa seriedade é que, desnudados de nossa autojustiça e auto-satisfação, estamos prontos para colocar nossa confiança em Jesus Cristo como o Salvador de quem urgentemente necessitamos.

Segunda, a maravilha do amor de Deus deve ir além da compreen­são. Deus podia, com justiça, ter-nos abandonado ao nosso próprio destino. Ele podia ter-nos deixado sozinhos para colhermos o fruto de nossos erros e perecermos em nossos pecados. É isso o que me­recíamos. Mas ele não nos abandonou. Por causa do seu amor por nós, ele veio procurar-nos em Cristo. Ele nos foi ao encalço até mesmo na desolada angústia da cruz, onde levou o nosso pecado, a nossa culpa, o nosso juízo e a nossa morte. É preciso que o coração seja duro e de pedra para não se comover face a um amor como esse. E mais do que amor. Seu nome correto é “graça”, que é o amor aos que não o merecem.

Terceira, a salvação de Cristo deve ser um dom gratuito. Ele a “comprou” para nós com o alto preço de seu próprio sangue. De modo que o que nos resta pagar? Nada! Visto que ele reivindicou que tudo estava “consumado”, nada há com que possamos contribuir. Não, é claro, que agora temos a permissão de pecar e podemos sempre contar com o perdão de Deus. Pelo contrário, a mesma cruz de Cristo, que é o fundamento de uma salvação gratuita, é também o incentivo mais poderoso a uma vida santa. Mas essa nova vida vem depois. Primeiro, temos de nos humilhar aos pés da cruz, confessar que pe­camos e nada merecemos de suas mãos a não ser o juízo, agradecer-lhe o nos ter amado e morrido por nós, e receber dele um perdão completo e gratuito. Contra essa humilhação própria o nosso orgulho se rebela. Ressentimos a idéia de que não podemos ganhar — nem mesmo contribuir — para a nossa própria salvação. De modo que tropeçamos, como disse Paulo, na pedra de tropeço da cruz.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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