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O método da teologia

Dissemos que a teologia é uma ciência. Isso em parte significa que ela possui um procedimento definido.

Embora os passos que descrevemos não precisem ser seguidos em rígida sequência, há um desenvolvimento lógico que leva a eles.

1. A coleta dos materiais bíblicos

O primeiro passo será identificar todas as passagens bíblicas importantes que tratam do tópico que está sendo investigado e, depois, interpretá-las com muito cuidado.

Esse é o processo conhecido por exegese. O exegeta desejará usar os melhores instrumentos e métodos. Esses instrumentos incluem concordâncias, comentários e, para quem conhece as línguas originais, os textos bíblicos, gramáticas e léxicos.

Mesmo nessa etapa, é importante pensar cuidadosamente nos materiais que estão sendo usados. Devemos considerar a posição do autor do comentário, por exemplo. Devemos, pelo menos, ter noção da perspectiva teológica do autor, a fim de que pressuposições incongruentes com nossa orientação geral não sejam importadas inconscientemente.

O possível problema, aqui, é semelhante ao que pode ocorrer quando usamos um instrumento de navegação. Se viajarmos uma longa distância, um pequeno erro numa bússola, por exemplo, pode nos colocar bem longe da rota.

Assim, é importante fazer uma avaliação cuidadosa de nossos instrumentos de interpretação.

Nesse ponto, a consideração crucial é determinar com precisão o que o autor estava dizendo à sua audiência específica. Isso implicará o estudo do contexto histórico da Bíblia, de modo que compreendamos, por assim dizer, o interlocutor do diálogo.

Ler uma passagem bíblica é um pouco como ouvir metade de uma conversa telefônica. Paulo, por exemplo, escreveu para grupos específicos, de acordo com posições por eles adotadas. A não ser que estejamos familiarizados com essas posições, será difícil determinar o significado de Paulo.

Tal pesquisa bíblica deve envolver o exame de vários tipos de material bíblico. Em alguns casos, estudaremos palavras; por exemplo, podemos determinar o significado de “fé” pelo estudo de todas as ocorrências do substantivo grego pistis e do verbo pisteuõ.

Muitas vezes será útil examinar passagens didáticas das Escrituras em que algum autor discorra de forma direta sobre um tópico em particular. Pelo fato de tais passagens terem o ensino por objetivo específico, o significado doutrinário é muitas vezes bem evidente.

Mais difíceis, mas também extremamente importantes, são as passagens narrativas. Nelas temos descrições de ações divinas e humanas, em lugar de discursos sobre questões teológicas. Essas passagens servem freqüentemente como ilustrações de verdades doutrinárias.

Em alguns casos, o autor também fornece uma interpretação ou uma explicação em que se evidencia a implicação doutrinária.

2. A unificação dos materiais bíblicos

É importante aprender o que um autor bíblico fala, em diferentes contextos, acerca de determinado assunto. A doutrina, no entanto, é mais que uma simples descrição do que Paulo, Lucas ou João disseram; e, portanto, precisamos juntar esses testemunhos, formando algum tipo de todo coerente.

Nisso, o teólogo segue um procedimento que não é totalmente diferente do adotado em outras disciplinas. Na psicologia, por exemplo, o pesquisador primeiro observaria os pontos comuns entre os psicólogos de dada escola de pensamento e, depois, procuraria averiguar se as aparentes diferenças são divergências concretas.

Esse esforço, é claro, já pressupõe uma unidade e coerência entre os vários materiais e testemunhos bíblicos.

Embora isso não deva cegar-nos para ênfases particulares e nuanças de significado, significa que vamos procurar pontos em comum em vez de divergências. Como afirmou um estudioso do Novo Testamento, “Interpretamos os 5% dos materiais em que os evangelhos sinóticos [Mateus, Marcos e Lucas] diferem de acordo com os 95% em que há consenso claro, ao invés de fazer o contrário.”

3. A análise do significado dos ensinos bíblicos

Depois que o material doutrinário foi juntado de modo a formar um todo coerente, devemos buscar seu verdadeiro sentido.

Parte do problema aqui é certificar-nos de que não estamos impondo significados contemporâneos a referências bíblicas. Também é possível, quando a maior parte de nossas conversas é travada com pessoas que estão há muito acostumadas com determinada interpretação das

Escrituras, simplesmente pensar que um conceito, como o novo nascimento, será compreendido da mesma maneira por todas as pessoas.

Os teólogos, portanto, devem repetir incansavelmente esta pergunta: “Qual é o verdadeiro sentido disso?” Pois, para que os conceitos bíblicos possam ser traduzidos com precisão para uma forma contemporânea, é importante que sejam compreendidos corretamente.

Caso contrário, haverá imprecisão ainda maior nas etapas seguintes do processo, quando a ambigüidade ficará multiplicada.

Como se costuma dizer, a não ser que algo esteja claro na mente daquele que fala, nunca ficará claro na mente daquele que ouve.

Da mesma forma, a não ser que a coisa esteja clara na mente do teólogo como exegeta, não ficará clara na mente do teólogo como pregador, na tentativa de, por sua vez, comunicar aos outros os resultados da exegese.

4. O exame das interpretações históricas

Um dos instrumentos da teologia é o estudo da história da igreja. Aqui, temos condições de colocar nossas interpretações em contraste com a forma pela qual determinada doutrina foi entendida no passado. O objetivo disso não é simplesmente formular o menor denominador comum entre o que foi defendido em vários pontos do passado, mas nos ajudar a perceber que, com muita freqüência, nossas interpretações ou construções são paralelas a outras, mais antigas. Muitas vezes, portanto, podemos dizer as implicações de uma interpretação presente pela observação dos resultados históricos de uma interpretação semelhante.
Outro benefício do estudo da teologia histórica é que aprendemos a fazer teologia observando como outros a fizeram. Vendo como Agostinho e Tomás de Aquino adaptaram a expressão da mensagem cristã a uma situação específica da época deles, podemos aprender a fazer algo parecido em nosso tempo.

5. A identificação da essência da doutrina

Tendo em mente que os ensinos bíblicos foram escritos para situações específicas e que nosso cenário cultural de hoje pode ser em alguns aspectos consideravelmente diferente daquele dos escritores bíblicos, precisamos nos certificar de que não estamos apenas reexpressando a mensagem bíblica na mesma forma. Precisamos descobrir a mensagem que existe por trás de todas as suas formas específicas de expressão. Precisamos averiguar, por exemplo, a verdade comum entre o que encontramos acerca da salvação no livro de Deuteronômio e no livro de Romanos. Se não o fizermos, podemos ter uma de duas conseqüências.

Podemos insistir em conservar uma forma particular de determinado ensino. Podemos, por exemplo, insistir na manutenção do sistema sacrificial do Antigo Testamento.

O outro perigo é que, no processo de tentar declarar a mensagem, podemos alterá-la de tal forma que passe a ser, de fato, um novo gênero, em vez de ser uma espécie diferente do mesmo gênero. No exemplo do sistema sacrificial, o que é permanente e imutável não é a forma do sacrifício, mas a verdade de que é preciso haver um sacrifício vicário pelos pecados da humanidade. Essa tarefa de identificar a verdade permanente dentro das formas de expressão temporárias é tão importante que estaremos dedicando grande parte do próximo capítulo ao assunto.

6. A iluminação por meio de fontes extrabíblicas

Já dissemos que a Bíblia é a fonte principal de nossa construção doutrinária.

Embora ela seja a fonte mais importante, não é a única. Deus se revelou em um sentido mais geral na sua criação e na história humana. O exame dessa revelação nos ajudará a compreender mais plenamente a revelação especial que nos foi preservada na Bíblia.

Um exemplo é a questão da imagem de Deus na raça humana. A Bíblia nos ensina que Deus criou os homens à sua própria imagem e semelhança. Apesar de existirem algumas indicações gerais de sua natureza, não somos capazes de determinar pelas Escrituras as implicações exatas dessa imagem de Deus.

As ciências do comportamento, por sua vez, podem nos dar algumas informações acerca da imagem de Deus, dando-nos condições de identificar o que faz com que o homem seja sem igual em meio a tantos tipos de criaturas.
Vale notar que, na história da interpretação bíblica, algumas disciplinas não-bíblicas têm de fato contribuído para nosso conhecimento teológico —apesar, muitas vezes, da relutância de teólogos e exegetas estudiosos da Bíblia.

Por exemplo, o esforço acadêmico para determinar se os dias mencionados em Gênesis 1 devem ser considerados dias de 24 horas, períodos mais longos ou, até, conceitos não-temporais, não se limita à exegese bíblica. As ciências naturais, em especial a geologia, têm contribuído para nosso conhecimento do que Deus fez.

Precisamos nos certificar, no entanto, de que a Bíblia seja a autoridade principal em nosso trabalho. Também precisamos nos certificar de que não estamos tirando conclusões precipitadas acerca da relação entre materiais bíblicos e não-bíblicos.

Embora a Bíblia, quando completamente compreendida, e a criação, quando completamente compreendida, estejam em perfeita harmonia entre si, precisamos reconhecer que não temos uma compreensão perfeita de nenhuma delas. Por conseguinte, é bem possível que haja às vezes alguma tensão entre as interpretações que delas fazemos.

7. A expressão contemporânea da doutrina

Depois de determinar a essência duradoura ou o conteúdo permanente da doutrina, precisamos expressá-la de uma forma que seja razoavelmente acessível às pessoas dos nossos dias.

Uma das maneiras pelas quais se pode fazer isso foi formulada pela primeira vez por Paul Tillich, sendo conhecida como método de correlação.

O primeiro passo é averiguar as questões que estão sendo levantadas por nossa época. Estamos falando não apenas das simples questões existenciais imediatas enfrentadas pelos indivíduos, mas de todo o modo pelo qual a cultura em geral vê a realidade.«Essas questões tornam-se, então, o ponto de partida para nossa apresentação da mensagem cristã; ou seja, fazemos a ligação entre elas e o conteúdo da teologia bíblica. É claro que não podemos permitir que o mundo não-cristão dite totalmente a agenda, pois em muitos casos ele não faz as perguntas ou nem mesmo reconhece a existência delas.

Contudo, com freqüência, é útil determinar as questões que estão sendo levantadas.

Vários temas mostrar-se-ão férteis para exploração ao tentarmos formular uma expressão contemporânea da mensagem. Embora nossa época pareça caracterizar-se por despersonalização e indiferença, há sinais de que existe um anseio por uma dimensão pessoal na vida, de modo que pode ser proveitosa a associação com a doutrina do Deus que conhece cada pessoa e se importa com cada uma.

E conquanto houvesse confiança de que a tecnologia moderna resolveria todos os problemas do mundo, existe uma consciência cada vez maior de que os problemas são muito mais amplos e mais ameaçadores do que se pensava, e de que os seres humanos são o maior problema para si mesmos. Contra esse pano de fundo, o poder e a providência de Deus ganham uma nova pertinência.

Hoje, é comum falar sobre “contextualização” da mensagem. Esse termo é muitas vezes usados no campo da missiologia, quando há necessidade de traduzir conceitos da cultura ocidental para as culturas de Terceiro Mundo.

Ao que parece, há três dimensões no processo de contextualização. A primeira pode ser chamada comprimento. Significa buscar a mensagem nos tempos bíblicos e a trazer para o presente, reexpressando-a.

A segunda dimensão pode ser chamada largura —o cristianismo pode assumir diferentes formas de expressão em diferentes culturas.

Os missionários ocidentais devem se certificar de que não estão simplesmente carregando a própria cultura a outras partes do mundo.

Algumas capelas brancas com torres foram construídas para culto cristão no Oriente. A arquitetura eclesiástica não é o único universo em que ocorre esse problema. E imperativo, por exemplo, encontrarmos as características filosóficas das várias culturas.

Tem-se observado que, de maneira crescente, no aspecto cultural, a distinção mais importante será entre Norte e Sul, e não entre Oriente e Ocidente, à medida que o Terceiro Mundo ganhar proeminência.

Precisamos desenvolver a habilidade de expressar conceitos como pecado e expiação de maneiras culturalmente pertinentes, pois esses conceitos formam a essência da mensagem cristã.

Também existe a dimensão da altura. Uma mensagem pode ser expressa em diferentes níveis de complexidade e refinamento.

Talvez isso só dependa da idade dos ouvintes. Por exemplo, não se pode comunicar, da mesma forma, a mensagem cristã para uma criança e para um professor universitário. Além disso, existe a questão dos conhecimentos preliminares de conceitos bíblicos e teológicos.

Com freqüência, os alunos lêem obras de teólogos profissionais que estão em um nível muito mais avançado do que estão as pessoas a quem eles, por sua vez, devem testemunhar a verdade. A habilidade de expressar a verdade bíblica em tempos e lugares diferentes para ouvintes diferentes é vital.

8. O desenvolvimento de um tema central interpretação ativa

Nem sempre é necessário que os cristãos formulem, individualmente, um esboço central de sua teologia. No entanto, muitas vezes isso é útil. Às vezes, esse tema reflete a denominação da pessoa.

Por exemplo, algumas pessoas de tradição reformada salientam a soberania de Deus, enquanto alguns luteranos destacam a graça de Deus e a importância da fé.

A maneira pela qual caracterizamos nossa teologia está com freqüência relacionada com nossa personalidade e formação.

O toque personalizado fará com que a verdade bíblica seja mais funcional quando a aplicarmos em nossa vida.

9. A estratificação dos tópicos

E importante decidirmos quais são os temas mais importantes da teologia e seus subpontos ou subtemas. Quanto maior a importância de um ponto, tanto maior deve ser o grau de tenacidade com que insistimos nele. Assim, embora uma pessoa, para manter comunhão com outra, não possa impor como condição que esta concorde que a igreja será arrebatada do mundo antes ou depois da grande tribulação, deve haver acordo quanto à questão da volta de Cristo. Em parte, trata-se apenas de esboçar nossa teologia, de forma a determinar os pontos importantes, os subpontos e os tópicos que estão subordinados aos subpontos.

Depois de afirmar isso, no entanto, reconhecemos que ainda existe uma gradação entre os pontos mais importantes. Por exemplo, a doutrina da Escritura é fundamental porque nosso entendimento de todas as outras doutrinas deriva dela. Além disso, a doutrina de Deus é básica porque fornece a própria estrutura dentro da qual são feitas todas as outras construções teológicas. Também pode acontecer de, em determinada época, certo assunto ou tópico exigir mais atenção por estar recebendo ataques ou atenção especial no mundo a que estamos nos dirigindo. Com certeza, é essencial considerar com cuidado o significado relativo dos tópicos teológicos.

 

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Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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