O Grande Ministério Galileu – Panorama do NT

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O Pedido Da Sabedoria Ao Seu Filho – Esboços Bíblicos
19/07/2016

O Grande Ministério Galileu – Panorama do NT

Perguntas Normativas:

‑ Como foi que Jesus obteve popularidade entre as multidões, para então perdê‑la?

‑ Por que surgiram tensões entre Jesus e os líderes judeus, e em torno de quais pontos?

‑ Quais foram as reações de Jesus ante Sua fama e o posterior declínio de Sua popularidade?

‑ De que maneira foi Ele desenvolvendo as linhas mestras de Seu ensino, conforme foi progredindo o Seu ministério?

 

Para a Galiléia e uma cura.

Ler Marcos 1:14, 15; Mateus 4:13‑17; Lucas 4:14,15 e João 4:43‑54 (§§ 36‑38, 40 (§ 39, na Harmony de Robertson, provavelmente deva ser equiparado a § 69. Lu­cas destacou a rejeição de Jesus em Nazaré como um protótipo da Sua rejeição algures. Assim, Lucas arranjou aqui seu material por tópicos, e não cronologica­mente.)). Na qualidade de Messias judaico, Jesus teria sido supremamente honrado em Jerusalém, o centro religioso do ju­daísmo. No entanto, “um profeta não é honrado em sua própria terra”. Em conseqüência, Jesus retornou à Galiléia e fez de Ca­farnaum a Sua base de atividades. Em Caná Ele curou o filho de um nobre, à distância, com o poder exclusivo de Sua palavra. Foi preciso profunda fé para o nobre ter‑se aproximado de Jesus, rogando‑lhe tal favor, e foi necessária fé maior ainda para partir, crendo que seu filho fora curado.

 

Os Primeiros discípulos.

Ler Marcos 1:16‑20; Mateus 4:18‑22 e Lucas 5:1‑11 (§ 41). A narrativa de Lucas difere da dos outros dois evangelhos sinópti­cos, podendo ter retratado um terceiro passo, posterior, tendente a um discipulado de tempo integral. No primeiro capítulo de João já fora indicado que havia um conhecimento preliminar de Jesus da parte de André, João (por inferência) e Simão Pedro, conhecimento esse que explica por que agora se dispuseram a abandonar sua profissão de pescadores, a fim de seguirem a Je­sus. A isso devemos adicionar o fato que Tiago e João eram meio‑primos de Jesus (comparar com Marcos 15:40; 16:1; Mateus 27:56 e João 19:25, juntamente com comentários que falem a respeito desses trechos).

 

Doutrinamentos, Curas e exorcismos.

Os escribas apelavam continuamente às tradições rabínicas. Em contraste com isso, o tom autoritativo do ensino de Jesus e o fato que Ele expulsava os demônios com grande poder impressionavam às multidões. Ler Marcos 1:21‑39; Lucas 4:31‑44; Mateus 4:23‑25; 8:14‑17 (§§ 42‑44). Após ter curado a sogra de Pedro, Jesus curou a muitas outras pessoas enfermas e expeliu demônios após o pôr‑do‑sol, porquanto era então que terminava o dia de sábado, e as pessoas podiam transportar os seus parentes e amigos afligidos até à presença de Jesus, sem desobedecerem à proibição de se trabalhar no sábado. As caracterizações gerais do ministério de Jesus na Galiléia davam ênfase não somente ao ensino e à prédica, mas também à realização de milagres e aos exorcismos (termo técnico que indica a expulsão de demônios). Curas, ressurreições e exorcismos representam a invasão do reino de Deus, em seus estágios preliminares, sobre o reino de Satanás, preanunciando a derrocada deste. O reino de Satanás, nesse caso, é representado pelas enfermidades, pela morte e pelo demonismo.

 

A purificação de um leproso.

Sendo párias da sociedade, os leprosos eram vedados de entrar em qualquer cidade murada, e tinham de gritar “Imundo!”, a fim de que ninguém se aproximasse deles. Ler Marcos 1:40‑45; Mateus 8:1‑4; Lucas 5:12‑16 (§ 45). A lei mosaica proibia que se tocasse em um leproso; mas, quando Jesus tocou no leproso, não contraiu a imundícia deste. Pelo contrário, a pureza de Jesus limpou a lepra. Em seguida, Jesus ordenou ao leproso que realizasse o rito prescrito, a fim de que todos tivessem a certeza de que ele estava apto a reingressar na sociedade. E talvez Jesus também quisesse dar a entender que, na realidade, não se opunha aos preceitos mosaicos.

 

Um paralítico é perdoado e curado.

Uma outra narrativa de cura frisa o poder de Jesus para perdoar pecados, tanto quanto para curar. Ler Marcos 2:1‑12; Mateus 9:1‑8; Lucas 5:17‑26 (§ 46). Visto que as coberturas das casas eram feitas de barro amassado, lançado sobre uma teia de ripas e ramos, era questão relativamente simples cavar uma perfuração sobre o lugar onde Jesus se encontrava. Segundo o evangelho de Lucas, parece que primeiramente tiveram de ser removidas algumas telhas, e assim, ao que parece, Lucas fez uma “tradução cultural”, das típicas residências palestinas com cobertura de barro para as coberturas de telhas, muito mais comuns em outras regiões do império romano, visando ao benefício de seus leitores.

 

Chamamento de Mateus-Levi

Levi e Mateus eram nomes alternados do mesmo indivíduo. Ler Marcos 2:13‑17; Mateus 9:9‑13; Lucas 5:27‑32 (§ 47). Por ocasião da refeição oferecida por Levi, o fato que Jesus se relacionou socialmente com os desprezados cobradores de impostos e com os “pescadores” (os quais eram lassos na sua observância dos preceitos mosaicos e rabínicos), estabeleceu um violento contraste com a atitude indiferente e de justiça‑própria que caracterizava os fariseus, bem como com o isolacionismo dos sectaristas de Qumran, que produziram os Papiros do Mar Morto.

 

A questão do jejum.

Ler Marcos 2:18‑22; Mateus 9:14‑17; Lucas 5:33‑39 (§ 48). Ao defender os Seus discípulos, por não jejuarem, Jesus comparou o Seu ministério às bodas messiânicas que eram aguardadas pelos judeus. As festas de casamento são ocasiões festivas. É impróprio para convivas de uma festa assim não se alimentarem, em sinal de lamentação. Em seguida, Jesus comparou a incompatibilidade entre uma peça de roupa velha e um pedaço de pano não previamente encolhido (pois este retira da roupa velha um pedaço maior, tornando‑se maior a rasgadura, quando a roupa é lavada e o material novo encolhe!) e também entre odres velhos e vinho novo; pois neste último caso os odres já foram esticados ao máximo, ação dos gases formados, e o vinho novo, mediante a fermentação, faz os odres já usados estourarem sob a pressão.

 

Cura do paralítico no banquete de Betesda.

Ler João 5:1‑47 (§ 49). A festividade cujo nome não é esclarecido, e que foi o meio‑ambiente no qual Jesus curou o aleijado em dia de sábado, pode ter sido a páscoa (vide os comentários). Os arqueólogos têm escavado o que quase certamente foi o tanque de Betesda, (ou Betzata ou Betsaida) com cinco alpendres.

 

Os mais antigos manuscritos omitem a explicação que aparece nos versículos 3b e 4, sobre um anjo que periodicamente viria agitar as águas. Os preceitos rabínicos permitiam a um médico tratar de uma enfermidade em dia de sábado, somente quando a vida do doente corria risco, pelo que a cura de um aleijão, bem como o ato de carregar um colchão (“leito”), constituíam quebras sérias dos preceitos rabínicos. Mas Jesus defendeu o Seu ato ao associar tal cura com a obra de Deus Pai, o qual sustenta a criação, obra essa que, diferentemente da criação, jamais cessara, mesmo em dia de sábado (versículo 17). Essa íntima associação com Deus soou como uma blasfêmia para os judeus (versículo 18). Porém, longe de ceder a eles, Jesus passou a reivindicar a posse de completo conhecimento das atividades do Pai e de total autoridade da parte do Pai, para doar a vida eterna e para julgar a humanidade. Jesus tanto outorga vida aos que estão espiritualmente mortos (versículos 24 e 25) como também ressuscitará os fisicamente mortos, no último dia (versículos 28 e 29). Ao reivindicar a autoridade de julgar à raça humana, na posição de Filho do homem, Jesus alicerçou‑se sobre a visão do sétimo capítulo do livro e Daniel, identificando-se com o super‑humano Filho do homem proveniente dos céus, a quem o Ancião de Dias (Deus) dera autoridade para julgar a todos os homens. Jesus admitiu que, de conformidade com as leis judaicas e romanas, Sua própria palavra seria considerada inadmissível em tribunal, em apoio às Suas próprias reivindicações (versículo 31). Mas João Batista havia testificado a Seu favor. E ainda mais convincente era a evidência formada pelos milagres que Deus permitia a Jesus realizar, além do testemunho dado pelo próprio Pai, provavelmente Sua voz no coração do crente, e que serve de garantia a este (versículos 32‑37). Acresça‑se a isso que, se os judeus houvessem dado ouvidos às suas próprias Escrituras, nas quais tanto confiavam, teriam reconhecido ser Jesus aquele que cumpria as profecias messiânicas.

 

 

Controvérsias sobre o Sábado.

Ler Marcos 2:23‑28; Mateus 12:1‑8; Lucas 6:1‑5 (§ 50). Os discípulos iam colhendo espigas, enquanto percorriam os campos plantados, não porque quisessem antagonizar aos fariseus, mas por estarem genuinamente famintos. O trecho de Deuteronômio 23:25 permitia tal prática. Assim sendo, a acusação lançada contra eles não foi a de que estivessem roubando, e, sim, a de que estavam trabalhando no sábado, quando esfregavam o grão nas mãos, para separarem o grão limpo da palha (trabalho de eira!). Defendendo uma vez mais os Seus discípulos, Jesus apelou para o episódio no qual Davi e seus homens comeram dos pães da apresentação, o que não era legítimo (vide I Samuel 21:16). Isso provava que as necessidades humanas tomam precedência acima de minúcias técnicas legais. A ilustração era ainda mais pertinente porque Davi comera dos pães da proposição em dia de sábado, de conformidade com a tradição rabínica. E Jesus também apelou para o fato que a própria lei determinava os sacerdotes que quebrassem o sábado, ao queimarem incenso, ao trocarem os pães da apresentação e ao oferecerem um duplo holocausto (vide Número 28:9,10). Ora, se Davi e os sacerdotes podiam desprezar as proibições sabáticas, e ficar sem culpa, por causa de questões mais importantes, quanto maior é o Filho do homem, juntamente com aqueles que com Ele se associavam!

Ainda, uma outra controvérsia em torno do sábado terminou com os fariseus e herodianos juntando as forças, ficando então arquitetada por eles a remoção de Jesus. Normalmente, os fariseus eram adversários daqueles apoiadores da família de Herodes, para que esta se mantivesse no poder; e os herodianos provinham principalmente do grupo dos saduceus. Mas agora, o ódio comum que votavam a Jesus, levou‑os a se unificarem. Ler Marcos 3:1‑6; Mateus 12:9‑14; Lucas 6:6‑11 (§ 51).

 

Retirada.

Ler Marcos 3:7‑12 e Mateus 12:15‑21 (§ 52). Marcos indica que vinham ver Jesus pessoas provenientes de regiões tão ao sul quanto a Iduméia e de regiões tão ao norte quanto Tiro e Sidom (vide o mapa). Mateus relata como Jesus se retirou dentre as multidões, por evitar a publicidade, em consonância com a predição de Isaías, de que o Servo do Senhor não procuraria publicidade para Si mesmo.

 

A escolha dos Doze.

Ler Marcos 3:13‑19 e Lucas 6:12‑16 (§ 53). Os doze discípulos a quem Jesus escolhera, após uma noite passada em oração, tornaram‑se o núcleo de um novo povo de Deus, a Igreja. O número desses discípulos correspondia aos doze patriarcas (filhos de Jacó), de quem descendiam as tribos de Israel. O vocábulo apóstolo, usado por Lucas, dá a entender alguém enviado com autoridade delegada para representar aquele que o enviou.

 

Sermão da Montanha.

 

Em sua narrativa sobre o sermão da Montanha, Mateus pinta a Jesus como o novo Moisés. que subiu a um monte a fim de promulgar a nova lei, tal e qual Moisés entregou ao povo a lei do Antigo Testamento, estando ele no monte Sinai. No sermão da Montanha, Jesus interpretou espiritualmente os princípios inalteráveis da lei divina, os quais já estavam incorporados na legislação mosaica. Cristo omitiu a maior parte dos elementos cerimoniais da lei mosaica, embora a menção da oferta sobre o “altar” (vide Mateus 5:23,24) deixe entrever a natureza transitória do período durante o qual Ele pregou o Seu sermão. A era antiga estava moribunda; elementos distintivamente mosaicos, portanto, ficam ausentes de modo geral. A nova era estava raiando; e Jesus, por isso mesmo, promulgava as justas exigências divinas para o novo povo de Deus, os Seus discípulos.

Lucas indica que Jesus discursou em um “lugar plano”, na vertente de um monte, onde pudera reunir‑se uma multidão. Alternativamente, Lucas antecipa o que sucedeu somente depois do sermão ter sido proferido, ao dizer que Jesus desceu e se colocou em um lugar plano (6:17‑19), e em seguida Lucas retrocede um pouco, a fim de registrar o sermão que Jesus proferiu antes de haver descido. (A seqüência cronológica nem sempre é a principal consideração em qualquer dos evangelhos). Lucas omite algumas das questões destacadamente judaicas, que aparecem em Mateus. E Mateus inseriu declarações que Jesus asseverou noutras ocasiões, em lugares apropriados do sermão da Montanha.

 

As Bem-aventuranças.

“Bem‑aventurados (felizes) os…” significa “Congratulações a …!” Essa forma de declaração passou a ser conhecida pelo nome de “bem‑aventurança”. Lucas também deixou registrada uma série de ais, que contrabalançam as bem‑aventuranças. Ler Mateus 5:1‑20; Lucas 6:17‑26 (§ 54, a introdução e sub‑seções 1 e 2). Usualmente se pensa que, ao chamar a Seus discípulos de “o sal da terra”, Jesus se referia às qualidades preservativas, e, por conseguinte, doadoras de vida, do sal. Porém, Ele poderia ter tido em mente o emprego de certas variedades de sal como fertilizante. Ao enriquecerem o solo, os cristãos produzem fruto espiritual agradável a Deus. Entretanto a mistura de qualidades estranhas com as virtudes do discipulado reduz a eficácia fertilizadora ou transmissora de vida. Jesus prosseguiu a fim de asseverar a plena autoridade do Antigo Testamento como Escrituras, até o último i, a menor das letras do alfabeto hebraico, e até ao til, o curto golpe de pena que diferencia algumas letras do alfabeto hebraico que são extremamente parecidas entre si. Em seguida, Jesus situou os Seus próprios ensinamentos em igual nível de autoridade com as Escrituras do Antigo Testamento.

 

A verdadeira retidão.

Na porção seguinte do sermão da Montanha Jesus não eliminou audaciosamente os mandamentos do Antigo Testamento. Pois Ele acabara de afirmar a plena autoridade dos mesmos! Entretanto, Ele confrontou Sua própria interpretação profunda do Antigo Testamento com as interpretações externas e superficiais que os rabinos davam ao Antigo Testamento. E deixou patenteado que, dentro da nova situação escatológica, se faziam necessários certos novos mandamentos que transcendessem aos antigos. Ler Mateus 5:21‑48 e Lucas 6.27‑30.32‑36 (§ 54, subseção 3).

A proibição de darmos a “irmãos” apodos abusivos sublinha a necessidade do amor mútuo entre os discípulos. A instrução que manda arrancar um olho ou decepar uma mão inclinados ao mal, exibe o uso de hipérboles, exageros deliberados, com o intuito de pôr em relevo algum pensamento. O que Jesus queria é que Seus discípulos exerçam a mais rigorosa auto‑disciplina moral. “Jurar falso” (vide Mateus 5:33) é quebrar um juramento prévio. Os rabinos ensinavam que um juramento que omita o nome de Deus podia ser quebrado sem que isso envolvesse culpa. Mas Jesus argumentou que em vista de todas as coisas ‑ os céus, a terra, Jerusalém e tudo o mais ‑ terem vinculações com Deus, um juramento feito com base em qualquer coisa torna‑se fatalmente obrigatório. Por conseguinte, é errôneo o uso de juramentos. O “sim” e o “não” de um indivíduo deveria indicar sim e não de modo tão coerente e constante que se tornasse desnecessário convencer aos outros de que estamos afirmando a verdade.

 

Não retaliação.

Ser forçado a caminhar uma milha (vide Mateus 5:41) aludia a ser forçado por soldados romanos e pelos agentes do governo a transportar suprimentos. Jesus ensinou que a lex talionis (lei da retaliação: “olho por olho…”) não deve ser empregada para fins de vingança pessoal. Entretanto, não negou a validade da mesma como um princípio da justiça legal (vide Mateus 5:38). Contrariamente à moderna errônea interpretação popular, a lex talionis salvaguarda a justiça, por não permitir uma punição excessiva, além de insistir sobre um castigo adequado. “Amarás o teu próximo…” (Mateus 5:43) procede do Antigo Testamento, ao passo que”… odiarás o teu inimigo” provém do ensinamento dos essênios. Um outro óbvio exemplo de hipérbole ocorre em Lucas 6:29: “… e ao que tirar a tua capa, deixa‑o levar também a túnica”. A capa era a veste exterior, e a túnica, a interior.

 

Oração do Pai Nosso.

Ler Mateus 6:1‑18 (§ 54, subseção 4). Os hipócritas já receberam toda a recompensa que jamais obteriam, quando outros homens elogiam a sua religiosidade. Sem dúvida Deus não haverá de prestar‑lhes reconhecimento algum. Na oração modelo do Pai Nosso transparece um senso de divina proximidade (“Nosso Pai”), há um contrabalanceamento do senso da transcendência divina (“que estás nos céus”). As palavras “santificado seja o teu nome” requerem que a reputação de Deus seja tida em alta conta. “Venha o teu reino, faça‑se a tua vontade, assim na terra como no céu”, são declarações que exprimem o anelo pelo estabelecimento do reino de Deus à face da terra. “O pão nosso de cada dia dá‑nos hoje”, solicita a satisfação das necessidades físicas da vida diária. Na petição acerca do perdão, as dívidas atuam como uma figura simbólica de atos pecaminosos. Tal petição, no entanto, não subentende que o fato que perdoamos a outras pessoas mereça que Deus, por Sua vez, nos perdoe. Pelo contrário, a atitude que perdoa a outros comprova o caráter genuíno do arrependimento por causa de nossos próprios pecados: “Perdoa‑nos as nossas dívidas, assim [e não por causa] como nós temos perdoado aos nossos devedores”. “E não nos deixes cair em tentação” significa “Não nos permitas sucumbir diante das provas [quer as provas das dificuldades, quer a instigação ao mal] “, expressando aquela atitude contrária e auto‑confiante que, mais tarde, chegou a caracterizar a Pedro. A petição final é um pedido de livramento do mal, personificado este por Satanás, “o maligno”. Os melhores e mais antigos manuscristos não trazem a doxologia tão familiar: “pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém”.

 

Cobiça e ansiedade.

Um olho saudável rebrilha de luz, como se fora uma lâmpada. A enfermidade, porém, embota esse brilho. Os “olhos maus” (doentios) representam a enfermidade espiritual, resultante da

 

cobiça pelo dinheiro. Ler Mateus 6:19‑34 (§ 54, subseção 5). “Não andeis ansiosos” significa o mesmo que “não andeis preocupados”. A cobiça e a ansiedade, portanto, jazem por detrás da concupiscência pelo dinheiro. Ao assim ensinar, contudo, Jesus não proibiu que se fizessem planos e provisões quanto ao futuro.

 

Julgamento.

Ler Mateus 7:1 ‑ 8:1; Lucas 6:37‑42,31,43‑49 (§ 54, subseções 68). Jesus proibiu a crítica capciosa que se deleita em encontrar faltas (“Não julgueis, para que não sejais julgados”). Sem embargo, Ele não estava negando o direito, e mesmo a necessidade, de fazer juízos de ordem moral ou espiritual (comparar com I Coríntios 2:15). O “argueiro” é um cisco de poeira, ao passo que a “trave” é uma volumosa peça de madeira. As palavras “não deis aos cães o que é santo” proíbem a propagação indiscriminada da verdade cristã àqueles que se mostram inabaláveis em sua hostilidade contra o evangelho. É mister resguardarmos a verdade do envilecimento pelo ridículo. A porta que conduz à vida é apertada porque os falsos mestres, sobre quem Jesus advertia, a obscurecem, mas também porque um indivíduo pode iludir a si mesmo ao pensar que a lealdade só de lábios é capaz de conferir os benefícios do discipulado. Jesus concluiu o sermão da Montanha apresentando um retrato de Si mesmo como o juiz dos destinos eternos dos homens, consoante haverem obedecido ou não às Suas palavras ‑ uma estupenda reivindicação, digamos a verdade!

 

A fé do centurião.

Ler Mateus 8:5‑13 e Lucas 7:1‑10 (§ 55). A condensada narrativa de Mateus parece dar a entender que o centurião aproximou‑se pessoalmente de Jesus. Mas os detalhes dados por Lucas informam‑nos que o centurião enviou recados a Jesus, mediante duas delegações sucessivas de judeus e amigos, respectivamente. O centurião se julgava indigno, gentio que era, de acolher a Jesus sob o seu teto. Mas cria que bastaria uma palavra de ordem da parte de Jesus para que seu servo fosse libertado da enfermidade, tão facilmente como se ele mesmo estivesse baixando ordens a seus soldados. Ao comentar sobre a profunda fé do centurião, Jesus deixou entendido que muitos gentios haverão de entrar no reino dos céus, ao mesmo tempo que judeus (“filhos do reino”), apesar de terem gozado de vantagens espirituais superiores, seriam lançados nas trevas exteriores, onde haveria choro e ranger de dentes (o que, em linguagem figurada, indica o desespero do remorso).

 

A viúva de Naim.

Quando da ressurreição do filho da viúva, em Naim, a preocupação primária de Jesus não foi com o filho falecido, e, sim, com a mãe desamparada. Ler Lucas 7:11‑17 (§ 56).

 

João Batista e suas dúvidas.

Desencorajado face a seu próprio encarceramento, João Batista enviou dois de seus seguidores para que perguntassem a Jesus se Ele era, efetivamente, o Messias, conforme João anunciara anteriormente. Ler Mateus 11:2‑19 e Lucas 7:18‑35 (§ 57). Em resposta a tal indagação, Jesus ressaltou os Seus milagres e a Sua evangelização como provas adequadas, por estar sendo cumprido o predito em Isaías 35:5,6 e 61:1, de que Ele era, verdadeiramente, o Messias. E também proferiu uma bem‑aventurança em favor daqueles que não se escandalizassem ante o fato de não estar Ele se transformando em um herói militar. A seguir, Jesus elogiou a João, dizendo que “entre os nascidos de mulher”, ninguém era maior do que João. No entanto, “o menor no reino dos céus é maior do que ele”. Por quê? Porque João era anterior e estava fora do reino? Dificilmente, porquanto, em Cristo, o reino já chegara (vide Mateus 12:28; Lucas 11:20 e 17:20,21), e porquanto mesmo os patriarcas do Antigo Testamento, Abraão, Isaque e Jacó, pertenceram ao mesmo (vide Mateus 8:11). Talvez Jesus estivesse contrastando grandezas puramente humanas (o que se vê na ênfase sobre “os nascidos de mulher”) com o privilégio espiritual da cidadania no reino. Mais misteriosa ainda é a possibilidade de que “o menor no reino dos céus” seja o próprio Jesus em Seu papel de Servo sofredor do Senhor, e como alguém mais jovem que João Batista, quanto à idade física. Passou então Jesus a repreender aos judeus, por se mostrarem tão irredutíveis em sua incredulidade que não aceitaram nem o asceta João e nem o afável Jesus. E comparou a severa mensagem de João Batista com um folguedo infantil, de enterro de brincadeira, com choros e lamentações, em contraste com a Sua própria graciosa mensagem, representada por uma festa de casamento de brincadeira, com flautas e danças. À semelhança de crianças volúveis, nada era capaz de agradar aos judeus. No entanto, todos quantos são conhecedores da sabedoria, por conhecerem a Deus, reconhecem a verdade, sem importar como ou por quem ela esteja sendo exposta.

 

Aos “ais” e um convite.

Ler Mateus 11:20‑30 (§ 58). Após os “ais” contra as “cidades privilegiadas” da Galiléia, Jesus agradeceu a Deus por haver‑lhe revelado todas as coisas e por haver escolhido pessoas humildes e acolhedoras (“os pequeninos”), e não a indivíduos sábios aos seus próprios olhos. Vem a seguir um convite no qual Jesus declara‑se um mestre gentil e paciente, que não sobrecarrega os Seus seguidores com numerosos regulamentos insignificantes, conforme faziam os rabinos.

 

Unção de Jesus por uma meretriz.

Era costume pessoas não‑convidadas entrarem e contemplarem banquetes. A prostituta que assim fez, na história que se segue, pôde ficar de pé, por detrás de Jesus, a perfumar‑lhe os pés, porque, segundo o hábito, Jesus se reclinara horizontalmente em um divã, com a cabeça na direção da mesa e com os pés esticados para trás, sem sandálias. Ler Lucas 7:36‑50 (§ 59).

 

Benfeitoras femininas.

Ler Lucas 8:1‑3 (§ 60). As mulheres mencionadas na presente passagem sustentaram financeiramente a Jesus e Seus doze discípulos, durante seus circuitos evangelizadores.

 

 

O pecado imperdoável.

Ler Marcos 3:19‑30 e Mateus 12:22‑37 (§ 61). Em resposta à acusação de que Jesus expulsava demônios pelo poder de Satanás, o Senhor ridicularizou a noção de que Satanás faz oposição às suas próprias forças. Mas, se Jesus expulsava aos demônios pelo poder do Espírito Santo, isso era sinal de que chegara o reino de Deus. Rejeitar essa evidência, de forma deliberada e final, conforme os fariseus e escribas faziam, constituía o pecado imperdoável.

 

O sinal de Jonas.

Ler Mateus 12:38‑45 (§ 62). Visto que Jesus já havia realizado numerosos milagres, o pedido feito por escribas e fariseus, de que lhes fosse conferido um sinal autenticador da parte de Jesus, era inspirado por mentes fechadas, e não por mentes abertas. Em resposta, Jesus comparou o sinal futuro de Sua morte, sepultamento e ressurreição à permanência de Jonas, por três dias e três noites, no ventre do monstro marinho. Porém, se Jesus morreu na sexta‑feira da Paixão e ressuscitou na manhã do domingo de Páscoa, então não passou no túmulo por três períodos completos de vinte e quatro horas cada. Para os judeus, entretanto, qualquer porção de um período de dia‑noite de vinte e quatro horas era contada como um período inteiro; e Jesus esteve no túmulo por um período inteiro de vinte e quatro horas, mais porções de dois outros períodos iguais. Alternativamente, “três dias e três noites” é uma expressão imprecisa para indicar um breve período de tempo, não havendo necessidade de a tomarmos literalmente. No versículo quarenta e dois, “a rainha do sul” é a rainha de Sabá. A parábola do homem que “varreu e guarneceu” a si mesmo, após a partida de um demônio que nele habitava, somente para que este retornasse com sete outros piores do que ele mesmo, aponta para os escribas e fariseus: sua justiça própria, tão bem escovada, convidava uma sorte pior do que se tivessem permanecido pecadores grosseiros, como o povo comum que por eles era desprezado.

 

Parentesco espiritual.

Os familiares de Jesus tentaram aproximar‑se Dele, mas não puderam, em face da multidão. A omissão do nome de José talvez subentenda que o pai de criação de Jesus já havia falecido há algum tempo. O recado de que a mãe e os irmãos de Jesus desejavam falar com Ele, deu a Jesus a oportunidade de afirmar que os Seus parentes espirituais são aqueles que obedecem à vontade de Deus. Ler Marcos 3:31‑35; Mateus 12:46‑50 e Lucas 8:19‑21 (§ 63).

 

EXCURSO SOBRE O REINO, NO ENSINO DE JESUS

 

Com a exceção parcial de Lucas, os evangelhos deixam de ressaltar os termos evangelho (“boas novas”) e pregar o evangelho (ou evangelizar), mas ressaltam antes o tema do reino. Exatamente o contrário disso se verifica no livro de Atos e nas epístolas.

 

“Céus” e “Deus”.

A mensagem inicial, tanto de João Batista quanto de Jesus, enfocava o reino. Com freqüência, as designações “de Deus” e “dos céus”, qualificam o termo “reino”. Tais designações são sinônimas. E um uso paralelo ocorre até dentro de uma mesma passagem. Por exemplo, em Mateus 19:23,24, Jesus diz que é muito difícil um homem entrar no reino dos céus; tão difícil, de fato, que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus. Tais designações, por semelhante modo, se alternam nas narrativas paralelas de diferentes evangelhos. Por exemplo, “porque dos tais [das criancinhas] é o reino de Deus” (Marcos 10:14), que se torna em “… dos céus“, em Mateus 19:14. Somente o evangelho de Mateus contém a expressão “reino dos céus“, porquanto Mateus, ao escrever para judeus, refletiu o crescente costume judaico de evitar os nomes divinos, temendo profaná‑lo. Nesse caso, “céus” é substituição para “Deus“, tal como o filho pródigo dissera; “Pequei contra os céus”, isto é, contra “Deus”, e tal como algumas pessoas até hoje dizem: “Pelo amor dos céus”, ao invés de “Pelo amor de Deus”. Ou a expressão de Mateus “reino dos céus” representa a frase de Jesus, que os demais evangelistas traduziram por “reino de Deus”, por causa de leitores gentios, que não entenderiam o uso de “céus” em lugar de “Deus”; ou então Jesus usava regularmente a expressão “reino de Deus”, mas Mateus a substituiu por “reino dos céus”, em deferência para com seus leitores judeus. Mas também é possível que Jesus tivesse usado ambas as expressões, no qual caso a Sua escolha dependia de Sua audiência e da ênfase que Ele desejasse dar. O uso do termo “céus” frisa levemente a soberania divina.

 

Definição.

O vocábulo reino tem dois sentidos primários: (1) a esfera de domínio; e (2) a atividade de reinar. Por causa da idéia verbal constante no segundo sentido, muitos eruditos dão preferência à tradução, “o reino, ou governo, de Deus”. Ambas as idéias se fazem presentes no uso que o Novo Testamento faz da palavra reino. O fluxo de pensamento, no contexto, é que determina qual dessas significações predomina. O conceito geral de reinar inclui a idéia de livrar os súditos e a idéia de prodigalizar‑lhes bênçãos, além da idéia de exercer autoridade sobre eles.

 

Escatologia realizada.

João Batista e Jesus (a princípio) diziam que o reino estava “próximo”, e que as pessoas deveriam preparar‑se para o mesmo mediante o arrependimento (vide Mateus 3:2; 4:17 e Marcos 1:14,15). Estando já em andamento o Seu ministério, Jesus começou a dizer que o reino já chegara. “Se, porém, eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós” (Mateus 12:28 = Lucas 11:20; comparar com Mateus 11:12,13= Lucas 16:16 e 17:20,21). Em outras palavras, o governo divino estava invadindo este mundo através da pessoa e das atividades de Jesus. Por conseguinte, é mister que alguém entre no reino por meio da fé em Cristo (João 3:3). A ênfase posta sobre a chegada do reino, por ocasião do primeiro advento e do ministério de Jesus, se chama “escatologia realizada”, sendo tal designação associada a C. H. Dodd.

 

Escatologia consistente.

Jesus também falou sobre a chegada do reino, mas segundo outro quadro mental, considerando‑o como algo ainda futuro, a realizar‑se no fim da era presente: “… até aquele dia em que o hei de beber, novo, no reino de Deus” (Marcos 14:25); “muitos virão… e tomarão lugar à mesa… no reino dos céus” (Mateus 8:11 = Lucas 13:28,29). A petição que Jesus ensinou a Seus discípulos, para que a incluíssem em suas orações, “venha o teu reino”, também subentende que o reino ainda não chegou. A ênfase exclusiva sobre a vinda futura do reino é intitulada “escatologia consistente”, estando associada especialmente com Albert Schweitzer. O próprio Schweitzer, naturalmente, não cria na escatologia consistente, mas argumentava que o próprio Jesus assim acreditava e ensinou.(A Schweitzer, The Quest of the Historical Jesus, 3ª edição, traduzido por W. Montgomery, Londres: Adam & Charles Black, 1954, especialmente os capítulos XV ss.)

 

O mistério do reino.

Tanto a idéia da escatologia realizada quanto a da escatologia consistente recebem o apoio de convincentes textos de prova. Há fortes evidências de que Jesus ensinou formas tanto presentes quanto futuras do reino. Portanto, o “mistério” do reino consiste do fato que, antes de sua plena manifestação sobre a terra, quando da Segunda Vinda de Cristo, desde agora os crentes já desfrutam das bênçãos futuras da vida eterna, como uma antecipação.

 

O Reino, Israel e a Igreja.

Em Sua pregação, Jesus ofereceu o reino de Deus aos judeus; porém, com base espiritual no arrependimento e na fé individuais, e não sobre bases político‑nacionalistas. Ao repelir a Jesus, a maioria dos judeus, incluindo os líderes oficiais do judaísmo, rejeitou ao governo divino por intermédio do Messias. Em conseqüência disso, Deus transferiu o Seu reino para a Igreja (vide Mateus 21:42,43; comparar com Colossenses 1:13; Romanos 14:17; Atos 8:12; 28:23, 28‑31), até à restauração de Israel (vide Mateus 19:28).(Vide ainda os três livros de G. E. Ladd, The Gospel of the Kingdom,  Grand Rapids: Eermdans, 1959; Jesus and the Kingdom, Nova lorque: Harper & Row, 1964: e Crucial Questions about the Kingdom of God, Grand Rapids: Eerdmans, 1952; e A. J. MCClain, The Greamess of the Kingdom, Grand Rapids: Zondervan, 1959, quanto a uma perspectiva mais ampla.)

 

Parábolas.

Jesus reduziu à forma de parábola grande parte dos Seus ensinamentos sobre o reino. As parábolas são figuras de linguagem mais ou menos extensas, geralmente sob o formato de uma estória. No passado, os intérpretes costumavam atribuir sentidos alegóricos e a cada detalhe existente nas parábolas. O mundo da erudição, mais tarde, voltou‑se para a idéia, sob a insistência de Adolf Jülicher, de que cada parábola contém apenas um ponto didático, e que os demais detalhes servem tão‑somente para emprestar maior realismo às parábolas.(A. Jülicher, Die Gleichnisreden Jesu, 2 volume, Tübingen, 1910. Quanto a grande riqueza de informações sobre o pano‑de‑fundo das parábolas, ver J. Jeremias, As Parábolas de Jesus, Ed. Paulinas, SP.) Nos dias em que vivemos, entretanto, cada vez melhor se percebe que a distinção entre uma parábola com um único ponto didático e uma alegoria de múltiplas facetas é uma distinção artificial. É necessário que cedamos lugar a certos aspectos alegóricos nas parábolas, sobretudo nas mais longas.

Jesus, ao falar em parábolas, tinha por escopo obscurecer a verdade sobre o reino sob uma linguagem figurada, no caso de incrédulos que se recusavam a dar ouvidos às Suas palavras claras, bem como ilustrar a verdade, no caso de discípulos Seus, para os quais Ele explanou pelo menos as parábolas mais elaboradas. As parábolas faziam parte distintiva do estilo de ensino de Jesus. Ele é o único a lançar mão de parábolas, em todo o Novo Testamento ‑ o que serve de forte indicação de autenticidade, porquanto as parábolas também figurariam em outras porções do Novo Testamento, se elas tivessem sido um método didático empregado pela Igreja primitiva, para mais tarde terem sido postas nos lábios de Jesus, pelos escritores sagrados.

 

A semente e os solos.

 

“A parábola do semeador” (vide Mateus 13:18) pode ser um título ilusório, se for erroneamente usado na interpretação. O semeador nem ao menos é identificado na interpretação. A ênfase inteira da parábola recai sobre a própria semente, a qual representa a palavra, ou mensagem do reino, e sobre os diferentes tipos de solo, que apontam para diversas maneiras pelas quais a mensagem é acolhida pelos homens. Talvez pareça estranho que o semeador tivesse desperdiçado sementes por entre os espinhos, nos lugares pedregosos, e, sobretudo, à beira dos caminhos. Mas os aldeões abriam picadas através dos campos, devido à ausência de um sistema de rodovias, e os agricultores palestinos, ao que parece, não aravam a terra antes do plantio, mas depois. Além disso, dificilmente ele poderia prever onde haviam ficado ocultas as sementes lançadas ao solo, a fina camada de solo também impedia que ele percebesse as rochas abaixo da superfície, noutras porções do campo. Os pássaros mergulhavam a fim de apanhar as sementes que ficassem expostas sobre o terreno endurecido dos caminhos. Após a lavragem, a semente caída em solo de pouca profundidade germinava primeiro, porquanto só lhe restava uma direção para desenvolver‑se, ao mesmo tempo que o calor absorvido pelas rochas abaixo da superfície fazia as plantas germinarem mais rapidamente. Porém, a ausência de profundidade do solo logo ressecava os brotos e os fazia morrer. Em outras áreas as sementes de espinhos e abrolhos ressequidos no ano anterior eram revolvidas, durante a lavagem, juntamente com a boa semente. E as sementes daninhas germinavam e sufocavam as tenras plantinhas de cereal. Finalmente, porém, o bom solo produzia uma colheita compensadora.

O ponto frisado nessa parábola é que o governo divino, trazido por Jesus, a princípio não coage os homens à submissão, como que debaixo de espada. Isso só ocorrerá quando da volta de Cristo, depois que os homens tiverem recebido a oportunidade de crer voluntariamente. Por enquanto, bem ao contrário, Deus acha por bem introduzir o Seu reino através de meras palavras, pela pregação do evangelho, ou (figuradamente), pela semeadura. Agora tudo depende do tipo de receptividade que os homens derem a essa mensagem. Alguns, à semelhança da terra batida, não permitem que a palavra penetre. O resultado disso é que Satanás imediatamente a arrebata. Outros, à moda do solo rochoso e sem profundidade, recebem a palavra com entusiasmo, mas de maneira apenas superficial. Em resultado, desistem de sua profissão de discipulado, ao ocorrerem dificuldades ou a perseguição. Ainda outros permitem‑se entregar aos afãs seculares, o que serve para neutralizar a palavra. E finalmente, alguns recebem a palavra com seriedade, com profundeza, sem reservas. E os resultados desta última atitude são compensadores: “a trinta, a sessenta e a cem por um”, palavras essas que indicam que tantas e tantas vezes mais sementes serão colhidas do que aquelas que foram semeadas. A proporção de trinta por um perfazia a média. Sessenta por um era colheita excelente. E cem por um, extraordinária (comparar com Gênesis 26:12). O que Jesus desejava ensinar é que no fim, ao ter lugar a colheita, que é o Seu retorno, a palavra do reino terá produzido resultados favoráveis além de toda a expectativa.(Quanto a um cálculo fantástico sobre a produção agrícola durante a era messiânica, ver o livro siríaco de Baruque 29:5, onde se lê que a produção será de dez mil por um. Cada vinha deitará mil ramos, cada ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil uvas; e cada uva produzirá um coro de vinho. (O coro é uma medida de quantidade incerta, provavelmente dentro dos limites entre 130 a 230 l.)) Ler Marcos 4:1‑25; Mateus 13:1‑23 e por Lucas 8:4‑18 (§ 64, introdução e subseção 1a).

 

A semente em desenvolvimento.

Ler Marcos 4:26‑29 (§ 64, subseção 1 b). Na parábola da lavoura em desenvolvimento, a semente germina e se desenvolve sem o concurso de qualquer poder criativo por parte do lavrador, e osso desafia o seu entendimento. Dessa maneira, pois, Jesus nega que o reino venha a tornar‑se realidade por meio do esforço ou das realizações humanas. Deus, com exclusividade, é que o produzirá, à parte das tentativas de zelotes por precipitarem o reino mediante a revolução e à parte dos tentames de rabinos e outros, que buscam induzi‑lo através da perfeita observância da lei mosaica. Isso destaca ante a nossa atenção a plena manifestação e o estabelecimento do reino, por ocasião do retorno de Cristo, o que é indicado pelas alusões à colheita. A ordem das palavras, dentro da expressão, “dormisse e se levantasse, de noite e de dia”, reflete o conceito judaico de um dia de vinte e quatro horas, a contar pelo cair da tarde.

 

A semente de mostarda e o fermento.

Ler Mateus 13:24‑53 e Marcos 4:30‑34 (§ 64, subseção 1 c‑2 e ). Os judeus esperavam que o reino de Deus fosse inaugurado entre deslumbrantes manifestações de glória, com vitórias militares sobre os poderes gentílicos. Os supostos primórdios do reino, dentro do ministério de Jesus, parecia‑lhes singularmente destituídos de importância. Mas a parábola da semente de mostarda, quase invisível, que se desenvolve em um arbusto suficientemente grande para as aves do céu se aninharem sob os seus ramos, indica que, embora o reino possa ter começado com grande modéstia, quando do primeiro advento de Cristo, contudo, no fim será extremamente ponderável. A parábola do fermento aponta na mesma direção. Três medidas de farinha equivale a cerca de 23 kg de farinha, uma imensa quantidade se for considerada como uma única fornada de farinha! Dessa maneira, portanto, Jesus sublinhou a lição dada pela parábola: por enquanto o reino pode ser comparado com uma mera pitada de fermento em uma volumosa massa de farinha, mas, por fim, o reino dominará a terra inteira. Naturalmente, Jesus não quis dar a entender que os Seus Discípulos conseguiriam converter a todos os homens. Antes, quando de Sua volta, o reino envolverá o mundo inteiro. (Outros interpretam o fermento como símbolo do mal, que corrompe a cristandade. É verdade que noutras passagens o fermento regularmente simboliza o mal, mas a associação com a parábola da semente de mostarda e com o crescente desencanto dos judeus com Jesus, no tempo em que Ele proferiu a parábola, favorecem a interpretação acima, segundo a qual Jesus teria afirmado que o reino já está presente, a despeito de sua relativa falta de importância. Outras figuras de linguagem ocorrem com sentidos claramente diferentes, em diversos trechos. Por exemplo, o sal representa variegadamente a incorrupção, a fidelidade e o juízo (vide Mateus 5:13: Marcos 9:49,50; Lucas 14:34; comparar com Colossenses 4:6). Jesus pode ter escolhido aqui, propositalmente, uma figura de linguagem que usualmente tem um sentido negativo, a fim de salientar o ponto que o reino de Deus é mais ativo e poderoso do que o reino maligno de Satanás. Alguns também têm pensado que as aves do céu, da parábola da semente de mostarda, representam os falsos mestres que invadem a Igreja. Mas a fraseologia se deriva do sonho de Nabucodonosor (vide Daniel 4:12,21), onde o fato que as aves tinham feito ninhos em seus ramos indubitavelmente aponta para as grandes dimensões da árvore.)

 

O tesouro e pérola.

As parábolas gêmeas do tesouro descoberto e da pérola de grande valor não nos emulam tanto ao heróico auto‑sacrifício, e, sim, à jubilosa total dedicação ao reino de Deus, através da percepção de seu valor final, na era vindoura. Em face disso, nenhuma privação é, realmente, um sacrifício. Reiteradas invasões da Palestina fizeram pessoas temerosas enterrarem seus tesouros, a fim de resguardá‑los. Neste caso, aquele que enterrara o seu tesouro evidentemente morrera ou fora morto, pelo que o tesouro não tinha proprietário algum. Sob a legislação da época, era perfeitamente ético para o descobridor de um tesouro assim ocultá‑lo novamente e adquirir o campo, a fim de obter legalmente o tesouro.

 

O trigo e o joio; os peixes bons e maus.

As parábolas gêmeas do trigo e do joio (uma espécie de erva daninha) e dos peixes bons e maus, apanhados numa mesma rede, ensinam‑nos que enquanto o reino de Deus não se tornar plenamente dominante, o que sucederá quando do retorno de Cristo (a colheita), coexistirá no mundo juntamente com o reino de Satanás. Noutras palavras, a separação ocasionada pelo juízo não haveria de ocorrer imediatamente, conforme esperavam os judeus, em termos nacionalistas. Ordinariamente o joio era arrancado fora. Neste caso, entretanto, aparecem em tão grande número que suas raízes se embaraçam com as raízes do trigo. As redes de arrastão eram ou arrastadas mediante o emprego de dois botes, ou eram lançadas por um bote e arrastadas para a terra por meio de duas longas cordas. Os peixes ruins eram peixes cerimonialmente imundos, de acordo com a legislação mosaica, por lhes faltar escamas ou barbatanas, além de outras criaturas marinhas que os judeus não reputavam comestíveis.

 

O dono da casa.

A parábola do “dono de casa que de seu baú retira coisas novas e coisas velhas”, conclui a coleção de parábolas do décimo terceiro capítulo de Mateus com um quadro sobre o discípulo que sabe extrair verdades espirituais das parábolas.

 

A tempestade é acalmada.

No episódio da tempestade e sua pacificação, a humanidade e deidade de Jesus se destacam lado a lado. Por causa de cansaço físico Ele dormia durante o temporal. Não obstante, mediante Seu poder divino Ele acalmou a tempestade mediante mera palavra de comando. Ler Marcos 4.35‑41; Mateus 8:18, 23‑27 e Lucas 8.22‑25 (§ 65).

 

Os endemoninhados gerasenos (ou gadarenos).

Ler Marcos 5:1‑20; Mateus 8.28‑34 e Lucas 8.26‑39 (§ 66). Marcos e Lucas mencionam somente o porta‑voz do par de endemoninhados que se aproximou de Jesus. Os demônios intitularam a si mesmos de “Legião”, por serem muitos. Uma legião do exército romano usualmente se compunha de seis mil homens, mas esse número aqui é apenas simbólico. Os demônios pressentiam que deles se avizinhava uma catástrofe. Porém, sentiram‑se surpresos porque a catástrofe os apanhara tão cedo: “vieste aqui atormentar‑nos antes de tempo [isto é, antes do julgamento final]?” Rogaram não ser lançados no abismo (inferno), mas que lhes fosse permitido entrarem numa vara de porcos que pastava nas proximidades. Aqui, como noutros trechos bíblicos, os demônios aparecem como espíritos malignos vagabundos, que desejam habitar em corpos vivos. Mas aqueles demônios não haviam podido prever que, se entrassem nos porcos, fariam‑nos precipitar‑se loucamente pela barranca abaixo, afogando‑se no lago.

Libertados dos demônios, os dois homens não mais se sentiam desassossegados, mas vestiram‑se, tornaram‑se sensíveis e sociáveis. E Jesus pôde exortá‑los a que contassem como haviam sido libertados, porquanto a região de Decápolis era um território gentílico. As duas importantes razões que impeliam Jesus a manter Sua missão messiânica como algo comparativamente secreto ‑ as errôneas noções dos judeus sobre o Messias, como se este fosse um político, e o perigo de Sua detenção prematura ‑ não existiam fora do território judaico. Certos críticos têm feito objeção à destruição de propriedade particular, resultante do exorcismo praticado por Jesus. Mas isso apenas demonstra que as operações do reino de Deus são mais importantes que direitos de propriedade, tanto porque o reino representa a soberania divina em ação como porque essas operações satisfazem necessidades humanas, que são mais importantes que direitos de propriedade. Aqueles que se lamentaram ante a perda dos porcos, deveriam antes ter‑se regozijado, diante da exibição de graça e poder, em favor de dois seres humanos oprimidos.

 

A mulher hemorrágica.

Na história que vem a seguir, a mulher com uma hemorragia constante era um pária da sociedade, incapaz de tomar parte nas cerimônias da religião judaica, de entrar no templo ou de tocarem outras pessoas. Era requerido pela lei mosaica, segundo se vê no décimo quinto capítulo do livro de Levítico, que ela se mantivesse separada até mesmo de seu marido. O costume oriental de chamar todos os médicos disponíveis na esperança de que pelo menos um deles pudesse curá‑la, havia exaurido todos os recursos financeiros da mulher. Jesus tornou pública a cura dela, em parte para remover de sobre ela o estigma social, e assim facilitar sua reentrada na vida da sociedade. Ler Marcos 5:21‑43; Mateus 9:18‑26 e Lucas 8:40‑56 (§ 67).

 

Ressurreição da filha de Jairo.

Marcos e Lucas dão‑nos a impressão que Jairo disse que sua filha estava prestes a morrer. Mateus apresenta‑o como quem disse que ela acabara de falecer. Mas Mateus simplesmente encurtou a narrativa, pelo que em sua versão abreviada, a notícia sobre a morte da jovem aparece quase de imediato, ao passo que essa notícia pode ser guardada para mais adiante, nos relatos mais detalhados e longos de Marcos e Lucas. As carpideiras profissionais, na casa de Jairo, ridicularizavam a Jesus, quando este disse que a menina estava apenas dormindo. Jesus, porém, sabia que viera ressuscitá‑la dos mortos, pelo que aludira à morte dela como se fora mero sono. Em adição a isso, o confronto entre a morte e o sono era uma comparação comum no mundo antigo, mesmo à parte da expectação de ser alguém ressuscitado dentre os mortos. As palavras “Talitha cumi” são as palavras aramaicas que significam “Menininha, levanta‑te”. E o fato que ela se alimentou, comprova a realidade de sua ressurreição.

 

Jesus é rejeitado em Nazaré.

Ler Mateus 9:27‑34; Marcos 6:1‑6; Mateus 13:54‑58 e Lucas 4:16‑31 (§§ 68, 69 e 39). Os habitantes de Nazaré não podiam entender como é que o menino que tinham visto crescer em sua própria aldeia poderia ter‑se transformado em um rabino dotado de poderes sobrenaturais. A incredulidade deles impediu que Jesus realizasse ali muitos milagres. Na sinagoga, Jesus seguiu o costume de pôr‑se de pé para ler as Escrituras e de assentar‑se para pregar. Vários itens daquele sermão deixaram indignados os Seus ouvintes: (1) Sua reivindicação implícita de ser o Servo do Senhor, ao aludir à passagem bíblica do livro de Isaías; (2) o fato que Ele cessou a leitura imediatamente antes da referência ao “dia da vingança” (Isaías 61:2), o tema central do messianismo nacionalista dos judeus do primeiro século da era cristã, os quais interpretavam aquelas palavras em termos da vingança dos judeus contra as nações gentílicas; e (3) o subentendido que Seu ministério, afinal, incluiria gentios, tal como sucedera no caso dos ministérios de Elias e Eliseu. Jesus escapou da tentativa de atirarem‑no despenhadeiro abaixo deslizando por entre a multidão turbulenta ‑ se miraculosamente, ou não, não sabemos, pois tal informe não nos é dado.

 

A missão dos doze.

Ler Marcos 6:6‑13; Mateus 9:35 ‑ 11:1 e Lucas 9:1‑6 (§ 70). Jesus ordenou que orássemos em favor do envio de trabalhadores à seara, e ato contínuo passou a enviar os Doze em pares, para que pregassem e fizessem curas por toda a Galiléia. A urgência foi a consideração primária na primeira parte das instruções dadas por Jesus. Não lhes restando tempo para ministrarem aos galileus e samaritanos, os discípulos teriam de limitar suas atividades aos judeus, na qualidade de povo compactuado com Deus, e que mais direitos tinha disso. A fim de fazerem uma viagem rápida, os discípulos não tinham de seguir carregados de peso. Por isso, Jesus proibiu toda bagagem desnecessária. (O “alforje” era a sacola dos mendigos. Os discípulos não deveriam pedir esmolas. Marcos 6:8 permite um bordão, mas Mateus 10:10 e Lucas 9:3 o proíbem. É para duvidar que tenhamos aqui o texto correto de Marcos, porque Mateus e Lucas raramente se desviaram juntos do texto de Marcos, e provavelmente jamais em um caso de clara contradição. Um antigo escriba bem pode ter pensado que era severa por demais a proibição de se levar ao menos um bordão, e assim modificou o texto original de Marcos. A mesma possibilidade existe no tocante à permissão que Marcos dá de um par de sandálias, ao passo que Mateus o proíbe. Alternativamente, Mateus e Lucas proíbem um cajado extra, bem como uma túnica extra, um par de sapatos extra e outros itens desnecessários.) Não deveriam perder tempo à procura dos melhores lugares de hospedagem, e nem à cata de procurarem convencer àqueles que se demorassem em aceitar a sua mensagem.

A menção ao “dia do juízo”, em Mateus 10:15, serve de gatilho que dispara uma série de instruções escatológicas, que visam ao futuro distante (versículos 16‑42). Jesus não dirigiu as instruções dessa seção àquela ocasião imediata, mas ao remanescente judeu do período da tribulação, antes de Sua volta. No futuro imediato, os discípulos não deveriam falar a gentios (versículos 5, 6). Mas agora o testemunho prestado a povos gentílicos é enfocado (versículo 18). A despeito das perseguições, durante a tribulação, o remanescente judaico haverá de testificar com ousadia, temendo exclusivamente a Deus, o único que tem o poder de destruir tanto a alma quanto o corpo (versículo 28).

 

Decapitação de João Batista e temores de Antipas.

O relato da morte de João Batista provê o pano‑de‑fundo para o terror culposo de Herodes Antipas de que Jesus seria o mesmo João, que teria regressado de entre os mortos. O relacionamento entre João e Herodes e Herodias nos faz relembrar vivamente do relacionamento paralelo entre Elias e Acabe e Jezabel, sobretudo quando se recorda que João Batista viera “no espírito e poder de Elias”. Ler Marcos 6:14‑29; Mateus 14:1‑12 e Lucas 9:7‑9 (§ 71).

 

Multiplicação de pães para os cinco mil: inversão na carreira de Jesus.

Por diversos motivos, todos os quatro evangelhos relatam a multiplicação de pães para cinco mil homens. Quiçá tenha sido esse o mais impressionante dos milagres de Jesus. Em retrospecto, os pães multiplicados têm associações com a Ceia do Senhor. E tal incidente foi um episódio que deu certa guinada na carreira de Jesus. Jesus realizou tal milagre durante a estação primaveril da Páscoa, exatamente o tempo do ano em que os judeus esperavam que o Messias se manifestasse. Outrossim, os judeus esperavam que o Messias repetisse o milagre veterotestamentário do maná, alimentando‑os qual um segundo Moisés, por ocasião do grande banquete apocalíptico. Os Papiros do Mar Morto contêm instruções sobre o arranjo das mesas, por ocasião desse banquete. Conseqüentemente, quando Jesus alimentou miraculosamente a multidão (precisamente o que os judeus esperavam que o Messias fizesse), quando do período da Páscoa (exatamente quando esperavam que o Messias se manifestasse abertamente como o Messias), as turbas se adiantaram no intuito de declararem‑No rei. Mas Jesus se recusou a tal. Jesus insistia em tornar‑se o monarca espiritual sobre os corações dos homens, antes de aceitar qualquer coroa político‑militar. Dessa forma, despediu as multidões, enviou os Seus discípulos para o lado oposto do lago, e retirou‑se para um monte, a fim de orarem particular. Por Sua própria decisão, o clímax da Sua popularidade se transmutou no declive de Sua sorte. Ler Marcos 6.30‑46; Mateus 14:13‑23; Lucas 9:10‑17 e João 6:1‑15 (§§ 72 e 73).

 

Andando sobre as águas.

“A quarta vigília da noite”, durante a qual Jesus andando por sobre as águas, aproximou‑se dos discípulos que lutavam contra o vendaval, era aproximadamente entre as três da madrugada e as seis da manhã. A narrativa nem glorifica à fé de Pedro, por ter andado também por sobre as águas, como fazia Jesus, e nem critica a hesitação de Pedro e seu afundamento. Antes, magnifica a graça e o poder de Jesus. Ler Marcos 6:47‑56; Mateus 14:24‑36 e João 6:16‑21 (§§ 74, 75).

 

Discurso sobre o Pão da Vida.

No dia subseqüente àquele em que multiplicou pães para os cinco mil homens, Jesus acusou às multidãos de não terem percebido a significação de Seu milagre. Os judeus acreditavam que Deus dera o maná, através dos méritos de Moisés. Jesus deu a entender, porém, que o verdadeiro pão não fora o maná dado por Moisés, e, sim, era o próprio Jesus, enviado da parte de Deus Pai. Aqueles a quem Deus escolheu, virão a Cristo e jamais se perderão. As palavras de Jesus acerca do comer da Sua carne e do beber do Seu sangue referem‑se à apropriação, mediante a fé, dos benefícios de Sua violenta morte expiatória. A fraseologia empregada faz lembrar as palavras da instituição da última Ceia. Ler João 6:22‑71 (§ 76).

 

Pureza real e pureza espiritual.

Visto que, ao que parece, Jesus não compareceu a esta festa da Páscoa, em Jerusalém, as autoridades judaicas enviaram uma delegação que investigasse as atividades Dele. Ao chegarem, os membros da delegação criticaram aos discípulos de Jesus porque violavam as tradições rabínicas ao comer com mãos cerimonialmente impuras. (A higiene não era a questão em foco.) Em resposta à crítica, Jesus indagou por qual razão eles transgrediam contra a lei de Deus, na observância de suas tradições rabínicas. E citou um exemplo: um filho que quisesse evitar a obrigação de sustentar ou dar algo útil a seus progenitores necessitados, de acordo com os rabinos, que dedicasse a Deus, como uma oferenda futura, o que teria de dar aos seus pais, não lhe sendo mais legal ajudar nisso aos mesmos. Entrementes, o filho retinha a posse e o uso de tal item para si mesmo. Jesus declarou em seguida o princípio de que a contaminação espiritual, interna é muito mais importante do que a mera contaminação externa, cerimonial. Ao assim repelir as restrições dietéticas do Antigo Testamento, Jesus antecipou a abrogação da lei mosaica, como algo resultante de Sua morte. Ler Marcos 7:1‑23; Mateus 15:1‑20 e João 7:1 (§ 77).

 

A fé da mulher siro-fenícia.

Jesus foi então para a região de Tiro e Sidom (Fenícia, ou nosso moderno Líbano), a fim de evitar as multidões da Galiléia. Ler Marcos 7:24‑30: Mateus 15.21‑28 (§ 78). Jesus testou a fé da mulher siro‑fenícia. No diálogo que houve, “filhos” alude ao povo judeu, “cachorrinhos” refere‑se aos gentios. Os judeus regularmente chamavam os gentios de “cães”. Mas a forma da palavra usada por Jesus significa “cachorrinhos”, animais domésticos de estimação. A mulher apegou‑se esperançosamente a essa expressão, a fim de argumentar que até os gentios esperavam uma migalha da graça de Deus, caída da mesa do banquete messiânico. Foi preciso grande fé da parte dela para conceber que o livramento de sua filha seria, para Cristo, o eqüivalente apenas a uma migalha.

 

Multiplicação de pães para os quatro mil.

Mui apropriadamente, após o diálogo sobre judeus e gentios, Jesus realizou outro milagre de multiplicação de pães ‑ desta vez para uma multidão de quatro mil pessoas, incluindo muitos gentios. Conforme os judeus foram rejeitando a Jesus mais e mais, os gentios, em números sempre crescentes, foram participando das bênçãos. Ler Marcos 7:31 ‑8:9; Mateus 15.29‑38 (§ 79).

 

Sinais messiânicos.

Ler Marcos 8:10‑12: Mateus 15:39 ‑ 16:4 (§ 80). Neste episódio, Jesus acusa os fariseus e saduceus por serem suficientemente inteligentes para saber, como previsores das condições atmosféricas, que um mesmo fenômeno no firmamento pode significar coisas diferentes em ocasiões diferentes. Contudo, não eram capazes de reconhecer o óbvio sinal de que já tinham chegado os tempos messiânicos. Esse sinal era o Seu ministério miraculoso, considerado em seu todo.

 

O fermento dos saduceus e fariseus.

Ler Marcos 8:13‑26 e Mateus 16.5‑12 (§ 81). O fermento de Herodes e o fermento dos saduceus (Marcos e Mateus, respectivamente), são uma e a mesma coisa, pois os sustentadores políticos da família dos Herodes eram saduceus por convicção religiosa. O fermento dos saduceus (ou de Herodes) consistia do materialismo e anti‑supernaturalismo. O fermento dos fariseus era o rígido legalismo deles. A última porção desta seção registra a única instância conhecida de uma cura gradual, realizada por Jesus. Dificilmente é possível que Marcos tivesse por intuito ensinar que a visão sem nitidez do cego, no primeiro estágio da cura, simbolizava o conceito nebuloso sobre o Messias, exibido por Pedro na seção a seguir.

 

Pedro confessa ser Jesus o Messias.

Ler Marcos 8:27‑30: Mateus 16:13‑20 e Lucas 9:18‑21 (§ 82). Não foi essa a primeira vez em que os discípulos reconheceram ser Jesus o Messias. Mas foi um episódio significativo porque a popularidade de Jesus se estava dissipando, o que, sem dúvida alguma, os discípulos puderam perceber. Quando Jesus disse a Pedro: “não foi carne e sangue quem to revelou”, quis dizer que nenhum ser humano havia dado tal revelação a Simão Pedro.

 

“Sobre esta pedra”.

O nome “Pedro” significa “rocha”, ou “seixo”. A assertiva, “sobre esta pedra edificarei a minha igreja”, emprega um vocábulo grego correlato, petra (“rocha”). Todavia, se porventura Jesus tivesse falado em aramaico, as palavras para “pedro” e “pedra” seriam uma só, e não duas. As principais interpretações possíveis são que a rocha basilar da Igreja é: (1) Jesus, o leito rochoso, em distinção a Pedro, um mero seixo; (2) a verdade contida na confissão de Pedro, isto é, que Jesus é o Messias e é Deus; e (3) Pedro, na qualidade de líder e representante do grupo apostólico (não necessariamente na posição de “primeiro papa”). E a declaração de que as portas do hades não prevaleceriam contra a Igreja significa que, por causa da ressurreição para a vida eterna, a morte não será capaz de vencer a Igreja.

 

As chaves: retendo ou liberando.

As chaves do reino, juntamente com a idéia de liberar e reter os pecados, têm sido variegadamente explanadas como alusões à autoridade para estabelecer regras sobre ordem e disciplina eclesiástica, à autoridade para abrir as portas da Igreja, primeiramente aos judeus e então aos gentios (conforme fez Pedro no dia de Pentecoste, e posteriormente, na casa de Cornélio), à autoridade para perdoar pecados (conforme é a opinião da Igreja Católica Romana), e ‑ o mais provável ‑ uma alusão à autoridade de admitir ou de recusar admissão à Igreja, com base na reação das pessoas para com o evangelho. Ao ser investido dessa autoridade, Pedro representava o grupo apostólico inteiro; porquanto o poder de liberar ou reter pertence igualmente a todos os apóstolos, de acordo com Mateus 18:18. E na verdade, se a liberação ou retenção se refere à declaração das condições para o perdão, exaradas no evangelho, então tal autoridade pertence a todos os crentes; pois todos eles devem proclamar o evangelho.

 

Predição da paixão e o levar a própria cruz.

Pedro, entretanto, compartilhava do comum e errôneo ponto de vista judaico sobre o Messias. Quando Jesus começou a predizer Sua própria morte e ressurreição, que já se avizinhava, Pedro levantou objeção. Em tons ríspidos, porém, Jesus declarou a Pedro que este não entendia o plano de Deus. Em seguida, Jesus exortou a todos os discípulos para que tomassem de suas cruzes e O seguissem. O indivíduo condenado à crucificação era forçado a levar a trave horizontal da cruz ao lugar da execução, passando por entre as multidões que vaiavam, cuspiam e amaldiçoavam. Tomar a própria cruz, e seguir a Jesus, portanto, significa expor-se voluntariamente à hostilidade do mundo incrédulo, ao risco de perder a própria vida. Ler Marcos 8:31‑37; Mateus 16:21‑26; Lucas 9:22‑25 (§ 83).

 

Transfiguração de Jesus.

A narrativa sobre a transfiguração de Jesus aparece imediatamente depois da predição de que “alguns” dos discípulos veriam a gloriosa vinda de Cristo e do reino. Uma observação feita quanto ao tempo que se escoara, “seis dias depois”, serve de liame entre a transfiguração e a predição. (Lucas registra “cerca de oito dias depois”, porquanto ele contou à moda inclusiva, computando o dia da declaração e o dia da transfiguração, em adição aos dias entre as duas ocasiões.) É lógico concluirmos que a transfiguração cumpriu a promessa de Jesus. “Alguns” dos discípulos ‑ Pedro, Tiago e João ‑ foram testemunhas oculares desse evento. E isso foi uma prelibação particular da glória do reino de Deus sobre a terra, quando do retorno de Cristo. Ler Marcos 8:38 ‑ 9:8; Mateus 16:27 ‑ 17:8 e Lucas 9.26‑36 (§§ 84 e 85).

O rosto fulgurante, a nuvem e a voz são informes que nos lembram a experiência de Moisés no monte Sinai, indicando que Jesus estava sendo retratado então como alguém “maior que Moisés”. O aparecimento de Moisés e Elias indica que Jesus é o cumprimento da lei e dos profetas, respectivamente. O tópico da conversa havida foi o “êxodo” ou “saída” de Jesus, o que Ele haveria de realizar em Jerusalém O verbo “cumprir” subentende que a morte de Jesus era algo predeterminado, não tendo sido fruto de algum acidente. Pedro queria armar tendas a fim de passar um período prolongado no monte. Mas Jesus tinha de continuar palmilhando a vereda da cruz. O divino intuito por detrás da transfiguração era o de escorar a fé dos discípulos, fortalecendo‑a. A fé que tinham depositado em Jesus corria o perigo de arruinar‑se, ante a oposição crescente dos judeus e a rejeição de Sua pessoa por parte deles.

 

João Batista e Elias.

Na caminhada, descida abaixo, pelo monte da transfiguração, Jesus revelou a Seus perplexos discípulos que, em um sentido verdadeiro, Elias já havia reaparecido, conforme Malaquias profetizara, na pessoa de João Batista. Mas, em um outro sentido, Elias voltaria a fim de preparar Israel, através do arrependimento, para o segundo advento de Cristo. Ler Marcos 9:9‑13; Mateus 17:9‑13 e Lucas 9:36 (§ 86).

 

A fé.

Foi então que Jesus expeliu um demônio, o que fora tarefa impossível para Seus discípulos, devido à ausência de oração confiante. Ler Marcos 9:14‑32; Mateus 17:14‑20,22,23 e Lucas 9:37‑45 (§§ 87 e 88). A afirmativa: “Vendo Jesus que a multidão concorria, repreendeu o espírito imundo” (Marcos 9:25), dá a entender que Jesus apressou a expulsão, para escapar da multidão que se concentrava. Na fase final de Seu ministério, Jesus procurou constantemente a privacidade, a fim de poder instruir a Seus discípulos. “Este monte” (que poderia ser removido mediante a fé, vide Mateus 17:20) era o monte próximo da transfiguração, provavelmente o monte Hermom, ao norte da Galiléia, e que neste caso representava qualquer tarefa ou problema de solução impossível para os homens. E visto que o exorcismo excitava novamente as esperanças de que Jesus terminaria por ser um Messias de vitórias militares, repetiu Ele a predição de Sua morte e ressurreição.

 

A moeda de Pedro ou taxa do templo.

A história do “estáter de Pedro”, conforme é ela comumente conhecida, estava ligada ao imposto anual que todo judeu do sexo masculino de mais de dezenove anos de idade deveria pagar, para manutenção dos serviços no templo. O fato que somente Mateus relata o episódio corresponde ao fato que fora antes cobrador de impostos. Ler Mateus 17.24‑27 (§ 89). O argumento usado por Jesus é que a nova era do reino de Deus já havia sido inaugurada, pelo que o templo se tornara ultrapassado, devido à presença de Jesus. E visto que um rei não cobra impostos de seus próprios filhos, Jesus e Seus discípulos não tinham a obrigação de pagar a taxa do templo. Mas, seguindo a lei do amor isto é, procurando não ofender desnecessariamente às pessoas Jesus instruiu a Pedro que pagasse a taxa, por ele mesmo e por Jesus, com uma moeda que caíra no lago e fora engolida por certo peixe.

 

Atitude infantil e discipulado.

Ler Marcos 9:33‑50; Mateus 18:1‑14 e Lucas 9.46‑50 (§§ 90 e 91). A criança que Jesus tomou em Seus braços representa o discípulo confiante (vide Marcos 9:42), em toda a sua debilidade infantil, sem defesa, perseguido e humilde, em contraste com o conceito dos doze, que pensavam no discipulado como se fora uma auto‑promoção. Receber uma criancinha em nome de Cristo significa aceitar e crer no testemunho dado por um discípulo de Cristo (a “criancinha”). “Fazer tropeçar” significa “induzir ao pecado”. O ensino sobre a necessidade de decepar a própria mão, quando esta nos leva a pecar, ilustra o uso que Jesus fez de hipérboles. Mas o mandamento não deve ser levado menos a sério, por causa do exagero envolvido! Marcos 9:49,50 contém um jogo de palavras sobre o duplo simbolismo do sal: o sal exemplifica (1) o tempero da punição eterna (“salgado com fogo”); e (2) as virtudes incorruptíveis do discipulado, como a san­tidade e a graciosidade, as quais, por sua vez, produzem a paz de espírito (“Tende sal em vós mesmos, e paz uns com os outros”). A referência existente em Mateus 18:10, alusiva aos anjos dos “pequeninos”, faz parte inclusiva da doutrina da existência de anjos guardiões daqueles que estão destinados à salvação.

 

Reconciliação e perdão.

Ler Mateus 18:15‑35 (§ 92). A comunidade de Qumran, que produziu os Papiros do Mar Morto, contava com regras similares àquelas baixadas por Jesus, para casos de desavenças entre os discípulos.(Documento de Damasco 9:2 e Manual de Disciplina 6:1.) Os quatro passos que fazem parte das intruções da­das por Jesus, são: (1) uma conferência em particular; (2) uma conferência na presença de duas ou três testemunhas; (3) consi­deração sobre a questão, por parte da comunidade cristã inteira; e (4) ostracismo para a parte obstinada. A pessoa ofendida não deve esperar apologias do ofensor, mas de tomar a iniciativa, vi­sando à reconciliação. Na melhor das hipóteses, espera‑se que os lados em choque resolvam suas diferenças antes de todos esses quatro passos serem dados. A expressão “setenta vezes sete”, que se acha no versículo vinte e dois, provavelmente deveria ser traduzida por “setenta e sete vezes”. Ela denota que o perdão deve ser dado por um número indefinido de vezes, em contraste com a vingança sedenta de sangue, das setenta vezes sete, sobre o que Lameque se jactava, conforme se lê em Gênesis 4:24.

 

O servo sem misericórdia.

Na parábola de servo destituído de misericórdia, a dívida de dez mil talentos, que deveria ser paga ao rei, por parte do pri­meiro servo, orçava em cerca de 10 milhões de dólares, se cal­cularmos somente o volume da prata envolvida, uma cifra fantás­tica e irrealista, cujo desígnio é frisar a magnitude de nossa dívida a Deus, por causa do pecado. O rei ordenou que o servo, sua es­posa e seus filhos fossem vendidos como escravos, como paga­mento parcial da dívida, mas, principalmente como punição. E visto que entre os judeus era vedada a venda de esposas, eviden­temente Jesus procurava chocar Seus ouvintes judeus com uma prática gentílica desumana. O rogo apresentado pelo servo, pe­dindo paciência, “Tudo te pagarei”, faz soar uma outra nota ir­real. Pois como poderia ele pagar uma dívida tão imensa? E o pe­dido que ele fez, solicitando algum tempo mais, foi igualmente absurdo, como absurdo é qualquer pensamento, por parte de um homem pecaminoso, de que ele tem capacidade de pagar a Deus a dívida pelos seus pecados. O de que precisamos, da parte de Deus, não é de mais tempo, para podermos saldar a nossa dívida, mas é de imediata misericórdia. E foi isso que o rei ofereceu. A magnitude da dívida foi equiparada com a magnitude do perdão do rei.

Mas o perdão divino não é o ponto central da parábola; esse ponto é antes a necessidade do perdão humano, em imitação ao perdão dado por Deus. Quando o servo ia saindo, com o senso de perdão ainda fresco na mente, repeliu o apelo que lhe fez um conservo, o qual solicitava um pouco mais de prazo, a fim de sal­dar uma dívida perfeitamente resgatável de cerca de quatrocen­tos cruzeiros. Por conseguinte, não havia necessidade alguma de crueldade, mas o primeiro servo lançou seu conservo na prisão dos devedores. Não há que duvidar que estaria pronto até mesmo a vender seu conservo à servidão. Porém, porquanto a lei proibia que um homem fosse vendido por menos que o seu próprio valor, em um mercado de escravos (e um homem valia mais do que quatrocentos cruzeiros), então foi tomada a medida mais cruel nessas circunstâncias ‑ encarceramento. A reação dos demais servos levou o monarca a reverter o seu veredito inicial. “Até que lhe pagasse toda a dívida” são palavras que indicam a puni­ção eterna, porquanto ele jamais poderia esperar pagar tão gigan­tesca dívida. E assim, já que Deus nos perdoa tanto, também de­veríamos perdoar o pouco que nossos semelhantes fazem contra nós. Não merecemos a misericórdia divina por termos perdoado a outros. Mas ninguém estará verdadeiramente arrependido de seus pecados, se não estiver disposto a perdoar os pecados alheios contra si mesmo. A “sociedade dos perdoados” não pode existir a menos que seus membros se inclinem para o perdão, pois de outra forma não terão comunhão nem com o Deus per­doador e nem entre eles mesmos. O perdão tem de ser posto em prática, tanto quanto tem de ser recebido. Quando alguém deixa de agir assim, tal atitude indica não somente que esse alguém não soube apreciar a misericórdia divina como deve, mas também que não se apropriou dela.

 

Natureza do discipulado.

Ler Mateus 8:19‑22 e Lucas 9:57‑62 (§ 93). Nesta seção do Novo Testamento, o primeiro homem a apresentar‑se como se­guidor voluntário de Jesus exsudava de auto‑confiança. Faltava-­lhe a consciência de que o discipulado envolve sofrimento. Já ao segundo homem faltava o senso de urgência. Ir para casa a fim de sepultar o próprio pai teria custado dias de lamentação e purifi­cações cerimoniais, e provavelmente também significava per­manecer em casa até que seu pai falecesse. O discipulado, entre­tanto, é mais importante do que a devoção aos pais. O terceiro homem, que primeiramente desejava despedir‑se de seus familia­res, não possuía singeleza de propósitos. As respostas de Jesus enfileiram três qualidades necessárias ao discipulado: um espírito disposto a sacrificar‑se, a obediência imediata e a dedicação in­condicional.

 

Jornada à festa dos Tabernáculos.

Os incrédulos meio‑irmãos de Jesus sugeriram, sarcastica­mente, que uma personagem pública, como era Ele, deveria fazer propaganda, exibindo Seus milagres em Jerusalém, quando da

 

festa dos Tabernáculos, a mais popular e, por isso mesmo, a mais concorrida dentre as festividades de peregrinação. Mas Jesus retrucou que, de modo diverso de outros, Ele regulava os Seus movimentos pelo cronograma de Deus, e não segundo considerações de popularidade. Além disso, Ele tinha por destino ser alvo do ódio do mundo, e não receber aclamações populares. De conformidade com isso, pois, esperou por algum tempo, antes de subir secretamente a Jerusalém. Ler João 7:2‑10; Lucas 9:51‑56 (§ 94 e 95).

 

Para discussão posterior:

‑ Jesus violou o sábado?

‑ Qual foi o propósito da escolha de doze discípulos especiais?

‑ Como deveríamos aplicar o ensino de Jesus acerca da não-retaliação? Suas instruções, no sermão da Montanha, são pacifistas, idealistas, realistas, práticas?

‑ Que devemos pensar, homens modernos que somos, sobre a possessão demoníaca e o exorcismo de Jesus? Por que a possessão demoníaca parece menos evidente na cultura ocidental?

‑ Fundamentando‑se sobre a moderna vida urbana, componha uma parábola que ilustre um dos pontos destacados nas parábolas de Jesus; então compare‑a, quanto a sua naturalidade e impacto, com a parábola correspondente contada por Jesus.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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