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O Evangelho segundo João – A Bíblia Livro por Livro

INFORMAÇÕES BÁSICAS SOBRE JOÃO

■ Conteúdo: a história de Jesus, Messias e Filho de Deus, contada a partir de uma perspectiva pós-ressurreição; na sua encarnação, Jesus revelou a Deus e tornou sua vida disponível a todos por meio da cruz

■ Autor: o discípulo amado, aquele que “escreveu essas coisas” (21.24; cf 13.23; 19.25-27; 20.2; 21.7), provavelmente se refere ao apóstolo João, filho de Zebedeu (de outra forma não mencionado neste Evangelho); o “nós” (“sabemos”, 21.24) sugere uma outra pessoa responsável pelo Evangelho na sua forma final

■ Data: desconhecida; provavelmente 90-95 d.C.

■ Receptores: veja ljoão, com que este Evangelho tem relação muito próxima

■ Ênfases: Jesus é o Messias, o filho de Deus; em sua encarnação ele tanto revelou o amor de Deus como redimiu a humanidade; disci-pulado significa “permanecer na videira” (Jesus) e dar fruto (amar como ele amou); o Espírito Santo será concedido ao seu povo para continuar sua obra

VISÃO GERAL DE JOÃO

O Evangelho de João é um dos maiores tesouros da fé cristã. Propo-

sitadamente narrando a história de Jesus de uma perspectiva posterior

à ressurreição e à dádiva do Espírito (v. 2.22; 12.6; 14.26; 16.13,14), João escreve para garantir aos cristãos a veracidade daquilo em que eles creem (à luz de deserções e rejeição) — a verdade do fato de que, por meio da encarnação, Deus é plena e cabalmente conhecido. Aqui, inteira e abertamente, está o amor de Deus.

Ao fazê-lo, João insere a história de Jesus no contexto bíblico maior: o Encarnado não é ninguém menos que a Palavra, o Verbo, presente com Deus desde o início e responsável pela criação (1.1-4,10). Mas o Encarnado é também o Crucificado, aquele que, como o Cordeiro de Deus, “tira o pecado do mundo” (1.29). João também pretende demonstrar que o Filho de Deus encarnado é, de fato, o Messias judaico que havia muito era esperado; assim, Jesus irrompe no palco do mundo, cumprindo toda esperança judaica imaginável, ao mesmo tempo que se torna “o Salvador do mundo” (4.42). Visto que ele é o filho de Deus (vivo), o que ele concede é vida (= a vida do próprio Deus) — vida eterna (= a vida da era vindoura, disponível agora).

O prólogo de João exprime grande parte disso de forma poética (1.1-18), entrelaçando teologia e história enquanto prepara o cenário para a sua narrativa. Esta se divide em duas partes principais (1.19— 12.50; 13.1—20.31); ela conclui com um epílogo de comissionamento e explicação da (não esperada) morte do “discípulo a quem Jesus amava” (21.1-25).

Na parte 1, Jesus primeiro se manifesta como Filho de Deus a seus discípulos (1.19—2.11), que veem, assim, “a sua glória” (1.14) e “creem nele” (2.11). Ele então é revelado ao “mundo” (2.13—12.50) como o Messias e o Filho de Deus. João demonstra isso contando a história no cenário das festas judaicas, em que Jesus age e fala de maneiras que cumprem as ricas expectativas messiânicas exprimidas (especialmente) por meio das cerimônias ligadas a essas festas (Páscoa, 2.13—4.54; o sábado, 5.1-47; a Páscoa, 6.1-71; a festa dos taber-náculos, 7.1—10.21; a festa da dedicação, 10.22-42; [prelúdio para a última] Páscoa, 11.1—12.36). Nessa seção também se encontram os sete “sinais” (a palavra com que João sinaliza os milagres) e as sete declarações “Eu sou” (a autoidentificação de Jesus). A parte 1 termina com uma conclusão dupla, narrando a primeira rejeição de Jesus por

alguns dos judeus (12.37-43) e então o significado de Jesus e da sua missão (12.44-50).

As duas narrativas ligadas à Páscoa (2.13— 4.54; 6.1-71) também prenunciam a última Páscoa narrada na parte 2. O autor se concentra, aqui, primeiro nos discípulos como os que irão continuar o ministério de Jesus (caps. 13— 17) e depois na própria crucificação (caps. 18— 19), em que o Filho de Deus brada (em triunfo) quanto à própria obra: “Está consumado” (19.30). A narrativa conclui com a ressurreição (cap. 20), concentrando-se especialmente na comissão dos discípulos (20.19-23) e realçando, por meio da necessidade de Tomé de ver para crer, o valor da fé dos que creem sem ver (v. 24-31).

ORIENTAÇÕES PARA A LEITURA DE JOÃO

Provavelmente a coisa mais marcante quando se lê o Evangelho de João depois dos Sinóticos é o quanto ele é diferente destes. Não só o cenário básico do ministério de Jesus é outro (Jerusalém em vez da Galileia), mas o seu ministério todo parece ter um aspecto bem diferente. Não há, aqui, segredo messiânico (Jesus é confessado como o Messias desde o início); nem parábolas (mas há uma rica linguagem simbólica); nem expulsão de demônios; nem as narrativas da provação no deserto, da transfiguração ou da ceia do Senhor. Em vez de colocar a ênfase no reino de Deus, a ênfase está no próprio Jesus (a Vida que concede a vida eterna); em vez de declarações curtas, incisivas, memoráveis, o ensino aparece mais frequentemente em discursos longos. Como disse um estudioso, “João parece pertencer a um mundo diferente”.

A razão é que João se empenha deliberadamente em contar a história de Jesus da perspectiva do que ele passou a saber depois de a luz ter surgido (causada pela ressurreição de Jesus e pela dádiva do Espírito). Ademais, o interesse de João em Jesus nesse ponto da história (c. de 90-95 d.C.) é moldado em particular pelos falsos profetas que, na época, estavam negando a encarnação e o significado salvífico da morte e ressurreição de Jesus, e que se caracterizam por uma deficiência em amar outros (ver “Orientações para a leitura de ljoão, p. 490). Assim, pode se fazer remontar parte da razão para a sua perspectiva pós-ressurreição a esse cenário histórico. Você deve observar que João

enfatiza frequentemente que Jesus está profundamente enraizado em uma história de carne e sangue (ele fica cansado, sente sede, chora diante da morte; sangue e água escorrem do seu lado quando está na cruz). João pretende exprimir que aquele homem que ele e os seus leitores conhecem como o Filho exaltado de Deus viveu uma vida verdadeiramente humana no planeta Terra, e o fez no ambiente do judaísmo histórico.

A perspectiva especial de João explica dois outros fenômenos peculiares ao seu relato da história — (1) a natureza de muitas das suas narrativas e (2) o uso de palavras com significado duplo, o que tem uma ligação próxima com o rico simbolismo desse Evangelho. Você precisa estar preparado para ler algumas coisas em dois níveis distintos. João frequentemente começa com uma narrativa que, então, evolui para um discurso — e às vezes você não consegue saber onde Jesus parou de falar e onde o próprio João está interpretando o que ele disse (esse Evangelho é especialmente problemático para edições da Bíblia com letra vermelha!). Por exemplo, em 3.1-21 ele começa com uma narrativa direta do encontro de Jesus com Nicodemos, mas em seu núcleo há jogos de palavra com as palavras gregas anõthen (que pode significar tanto “de novo” como “de cima”; Nicodemos a ouve como “de novo”, mas fica claro que João tem em mente ambos os sentidos) e pneuma (que significa tanto “vento” como “Espírito”). E, no versículo 11, o eu/tu (singular) se transforma em nós/vós (plural), e então se transforma em um discurso explícito, que dos versículos 15 ao 21 aparece na linguagem e no estilo de João. Isso tem todas as características da pregação cristã, e é recorrente ao longo de todo esse Evangelho.

A paixão de João nesse relato “pregado” da história é tríplice, sendo que dois aspectos disso ocorrem em sua declaração de propósito em 20.30,31. Em primeiro lugar, ele se importa especialmente em demonstrar que Jesus está profundamente enraizado na história como o Messias judaico, o que os discípulos explicitamente confessam (1.41,45; cf. 11.27) e Jesus confirma (4.25,26; 5.46; 10.24). Assim, algumas das declarações “Eu sou” são repletas de alusões ao Antigo Testamento — pastor (Ez 34),videira (Is 5.1-7),pão (Êx 16.4; SI 78.24) — em que Jesus desempenha o papel do próprio Israel (videira), assim

como o Messias real de Israel (pastor). Muito significativamente, João situa toda a história no contexto de Jesus ser o cumprimento de expectativas messiânicas judaicas associadas com vários aspectos das celebrações dos festivais, questões muitas vezes ocultas para nós, mas bem conhecidas para ele e seus leitores.

Por exemplo, na festa dos tabernáculos havia um rito especial de despejamento de água no templo (descrito no Talmude). O rito estava primeiramente relacionado à concessão de água da pedra no deserto (Ex 17.1-7); ele passou a ser interpretado de um modo messiânico como apontando para a concessão do Espírito pelo Messias. É no “dia mais importante” dessa festa que Jesus exclama: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba”, o que João então interpreta à luz da dádiva do Espírito (Jo 7.37-39). Não se espera que você compreenda tudo isso na leitura (um bom comentário pode orientá-lo a respeito desses detalhes), mas é importante observar que muitas vezes há mais do que se percebe à primeira vista ao ler este Evangelho. Nós chamaremos a sua atenção para um pouco disso à medida que você continuar lendo.

Em segundo lugar, João está interessado em demonstrar que Jesus, o Messias judaico, não é ninguém menos que o Filho de Deus (o título messiânico judaico de SI 2.7, agora compreendido como a segunda pessoa da Trindade). Em Jesus, o próprio Deus se tornou presente pela encarnação. João aproveita todas as oportunidades disponíveis para enfatizar esse ponto (cf. ljo).

Essas duas questões levam à terceira — o páthos do evangelho, que é encontrado na rejeição judaica do seu Messias, precisamente por causa de suas reivindicações de divindade. Esse fato vem à tona pela primeira vez no prólogo (1.10-13), tornando-se um tema menor ao longo de todo o Evangelho, mas especialmente em 2.13—12.50. Não se trata de antissemitismo, como se costuma afirmar (não mais do que quando os próprios profetas judaicos, de maneira ainda mais furiosa, denunciavam seus compatriotas judeus pelo fracasso destes em seguir a Deus); exprime-se isso, antes, por meio do coração partido de Jesus diante do fato de o povo não seguir o seu Messias. Aqueles que estavam na melhor posição para compreender Jesus o rejeitaram, porque

não quiseram se arriscar a abandonar as suas próprias categorias seguras. Mas seja como for, João crê que Jesus morreu pela nação judaica, assim como pelo mundo (11.51,52).

UMA CAMINHADA POR JOÃO

Prólogo (1.1-18)

Essa é uma passagem maravilhosa, que você desejará ler e reler. Aqui João enfatiza tanto o aspecto ante-histórico quanto o aspecto histórico de Jesus, como a Palavra [o Verbo], o Filho de Deus. Começando pelo Verbo antes da Criação (v. 1,2), João então fala do papel dele na Criação (v. 3-5) e da resposta dúplice à sua vinda ao mundo (v. 9-13), concluindo com uma confissão (observe a mudança para a primeira pessoa do plural) sobre sua encarnação (v. 14) e divindade (v. 18). Aqui também tem início o tema do novo êxodo: os que creem em Jesus são os verdadeiros “filhos de Deus” (cf. Êx 4.22,23), enquanto Jesus é apresentando como maior que Moisés (v. 16,17), que liderou o primeiro Êxodo. Intercala então um contraste com João Batista (v. 6-8,15), que introduz o início da narrativa evangélica propriamente dita.

O Messias/Filho de Deus é manifestado a seus discípulos (1.19— 2.12)

Continuando a partir de 1.1, João relata o começo da nova criação em um esquema de sete dias (cinco dias de fato; o último deliberadamente especificado como três dias depois do quarto [2.1]), que por sua vez prenuncia os sete dias finais da última semana (12.1). Aquilo que começa no ministério de João Batista — alguns discípulos dele seguem a Jesus — atinge o apogeu no casamento em Caná, onde os discípulos “creram nele” (2.11).

□ 1.19-42 Dias 1 a 3: Não João, mas Jesus é o Messias

Observe como esses três primeiros dias retomam as três coisas ditas sobre João Batista no prólogo (1.7,8): ele não era a luz (v. 19-28); ele veio para dar testemunho da luz, em nada menos do que quatro confissões messiânicas diferentes (v. 29-34); o seu testemunho era para que os outros — nesse caso, os próprios discípulos de João Batista

— pudessem crer em Jesus Cristo (v. 35-42). Observe especialmente como essa série termina com a confissão de alguns dos discípulos de João: “Achamos o Messias.”

□ 1.43-51 Dia 4: Jesus é reconhecido por um

verdadeiro israelita

Observe os modos com que esse quarto dia introduz o tema do cumprimento das expectativas judaicas que permeia o restante da história: um genuíno israelita, “em quem não há fingimento” (um jogo de palavras com o nome de Jacó [“enganador”], Gn 25.26), confessa Jesus, na confissão mais judaica no Evangelho (“Filho de Deus […] rei de Israel”; v. SI 2); ele (e os demais) verão o cumprimento do que a escada de Jacó prenunciou (Gn 28.10-22: “Este lugar não é outro senão a casa de Deus”) acontecer em Jesus Cristo.

□ 2.1-12 Dia 7: Jesus é reconhecido como o

cumprimento das esperanças messiânicas judaicas

Chega-se agora ao clímax, no sétimo dia da nova criação: o melhor vinho (“guardaste até agora”), guardado em seis jarros de pedra usados para as purificações cerimoniais judaicas, é entornado! Esse despeja-mento do melhor vinho é visto por seus discípulos como cumprindo um aspecto significativo das esperanças messiânicas judaicas (p. ex., Is 25.6; Jr 31.12; Am 9.13,14). Com essa revelação da sua “glória”, o seu “primeiro […] sinal”, os seus discípulos “creram nele”.

O Messias/Filho de Deus é manifestado ao mundo (2.13—12.50)

Nessa seção, João situa cada uma das narrativas no ambiente dos festivais judaicos; em cada caso, Jesus cumpre algum aspecto das expectativas messiânicas ligadas a essa festa.

□ 2.13—4.54 A primeira Páscoa

No contexto da Páscoa, João primeiro narra a purificação do templo, cuja importância reside em dois aspectos: (1) as ações de Jesus dividem o mundo entre os que creem e os que não creem, e (2) o próprio Jesus substitui o templo como o local da presença de Deus (cf. 1.51).

A isso se segue uma série de quatro narrativas (Nicodemos, João Batista, os samaritanos, o filho do oficial) que dão prosseguimento a temas já existentes: a exaltação de Jesus como o Filho de Deus no contexto de alguns que creem e outros que não creem (3.1-36); Jesus, não Jerusalém ou o monte Gerizim, como o lugar da presença de Deus; e a confissão de Jesus como “o Salvador do mundo” (4.1-54). Observe como as duas narrativas do capítulo 4 também apontam para o ajuntamento das nações — Samaria (v. 1-42) e o “oficial do rei” (v. 43-54).

□ 5.1-47 Uma festa não denominada

A festa seguinte não é denominada porque o interesse de João está no dia de festividade semanal, o sábado (5.1-47). A narrativa pressupõe a crença judaica em que Deus continua trabalhando nas três áreas das suas prerrogativas divinas especiais, a saber, nascimento, morte e chuva — todas as quais podiam ocorrer e de fato ocorriam nos dias de sábado, evidenciando a “obra” de Deus nesse dia.

Observe como João usa a cura de um inválido no sábado como base para um discurso (v. 16-47) sobre Jesus assumir a prerrogativa divina da “obra” no sábado (dar vida e julgar [tirar a vida]), que resulta em um confronto com os líderes judaicos.

□ 6.1-71 A segunda Páscoa

À medida que você lê essa segunda narrativa de Páscoa, você encontra Jesus operando como o “profeta” esperado que era semelhante a Moisés (Dt 18.18), enquanto alimenta a multidão e oferece o pão da vida. Num jogo de palavras com o tema de Êxodo do pão da vida, que os judeus esperavam que fosse renovado na era messiânica, Jesus oferece a si mesmo como esse pão, ao lhes oferecer sua “carne” e seu “sangue” (Jo 6.48-58), desse modo prenunciando a última Páscoa (caps. 13— 20). Observe que essa festa termina com um peneiramento dos discípulos.

□ 7.1—10.21 A festa dos tabernáculos

Para a festa dos tabernáculos, João seleciona narrativas em que Jesus deliberadamente cumpre os três grandes símbolos de Êxodo celebrados de diferentes maneiras durante essa festa em Jerusalém: (1) a água

da pedra (Êx 17.1-7), (2) a luz (coluna de nuvem/fogo) que guiava os israelitas (Nm 9.15-23) e (3) a concessão do nome divino (Ex 3.13-15)

— para o pano de fundo ver especialmente Zacarias 14.6-9,16-19. A narrativa de conclusão — conceder vista a um homem cego (Jo 9)

— ilustra como Jesus é a luz do mundo. Os líderes judaicos agora ameaçam expulsar da sinagoga qualquer um que confesse Jesus como o Cristo (v. 22,34). Na sua leitura da narrativa inteira desse Evangelho, observe como Jesus é vez após vez a causa de divisão em Israel.

O ápice da narrativa vem quando o homem anteriormente cego e os fariseus, estes em marcante contraste com aquele, se encontram com Jesus (9.35-41), e Jesus declara aos fariseus (10.1-21) que ele próprio é o grande profeta messiânico predito pelo profeta (Ez 34.11-16, 20-31). Observe como ela termina (Jo 10.19-21): Jesus como a causa de divisão.

□ 10.22-42 A festa da dedicação

A festa da dedicação celebrava a restauração, efetuada pelos maca-beus, da adoração no segundo templo depois de ele ter sido profanado por Antíoco Epifânio (v. Dn 7—12); era, portanto, uma festa em que o patriotismo e o messianismo judaicos eram exaltados. Observe como Jesus, nesse ambiente, se apresenta — no pátio do templo — como o Messias e o Filho de Deus, o que novamente causa divisão em Israel: alguns agora queriam prendê-lo (Jo 10.39); outros creram nele (v. 42).

□ 11.1—12.36 Prelúdio para a última Páscoa

O prelúdio para a última Páscoa (observe 11.55— 12.1) está repleto de eventos e declarações que prenunciam os capítulos 13—20 — o ápice dos sinais realizados por aquele que oferece a vida eterna é a ressurreição de Lázaro, que (ironicamente) levará à morte de Jesus, na qual a glória de Deus é plenamente revelada; como a Ressurreição e a Vida (11.25), ele tanto concede vida quanto ressuscitará os seus no último dia; o sumo sacerdote “profetiz[a]”que um homem morrerá pela nação judaica e pelos “filhos de Deus que estão dispersos” (= gentios; 11.51,52); Jesus é ungido para o seu sepultamento (12.1-11); ele entra

em Jerusalém como seu Rei esperado havia muito tempo (v. 12-19); e aos gregos que querem “ver Jesus” ele responde apontando para sua exaltação na cruz (v. 20-36).

□ 12.37-50 Conclusão: a casa está dividida

Observe que agora João oferece uma conclusão dupla para a manifestação de Jesus ao mundo (v. 37-43,44-50). Você não ficará surpreso a essa altura com o fato de que a primeira resume a resposta a Jesus, de aceitação por uns e rejeição por outros, como cumprimento das profecias de Isaías. A segunda, então, resume o que você aprendeu sobre Jesus nessa seção do Evangelho.

A última Páscoa: o Messias/Filho de Deus morre pelo mundo (13.1—20.31)

Além das narrativas da crucificação (caps. 18—19) e da ressurreição de Jesus (20.1-10), observe a ênfase especial de João durante essa última Páscoa nos discípulos, que continuarão o ministério de Jesus (13.1—17.26; 20.19-29).

□ 13.1—17.26 Jesus à mesa com seus discípulos

Nessa longa conversa à mesa, você encontrará Jesus repetindo três temas vez após vez: eu estou indo; vocês permanecerão para continuar a minha obra; mas vocês não podem fazê-lo sozinhos, de modo que lhes enviarei o Espírito.

Observe especialmente como o capítulo 13 estabelece o todo — a ação de servo de Jesus que simboliza todo o seu ministério (vindo do céu [ele se despe de sua roupagem exterior], ele assume o lugar do servo em prol deles e os chama para segui-lo). Observe como as duas principais figuras nas duas cenas seguintes (Judas, que irá trair Jesus, e Pedro, que negará conhecer Jesus) já estão presentes na primeira cena (v. 2,6-11).

Agora observe como o capítulo 14 enfatiza os três temas principais: Jesus voltará ao Pai, a quem ele agora revelou plenamente (v. 1-10); eles ficarão para continuar as suas obras (v. 11-14); ele retornará a eles na pessoa do Espírito (v. 15-31). Isso leva à aplicação que Jesus faz da parábola da videira de Isaías (Is 5.1-7) a si mesmo e

a eles (Jo 15.1-8), o que conduz a uma exposição adicional dos temas principais (15.9—16.33), que agora inclui o ódio do mundo por eles, assim como o mundo odiou a Jesus.

Por fim, a oração de Jesus (17.1-26) não só ecoa esses mesmos temas, mas também prenuncia o êxito da missão dos discípulos às nações — por quem Jesus também ora.

□ 18.1—20.31 Jesus: o Cordeiro morto e ressuscitado

Observe como a narrativa da crucificação de João começa relatando o cumprimento das palavras proféticas do capítulo 13 — primeiro Judas (13.18-30) em 18.1-14; então Pedro (13.31-38) em 18.15-27. Depois disso, João faz duas observações importantes: (1) Jesus é de fato o Messias/Rei judaico, mas de um reino que não é deste mundo (18.28-40), e (2) Jesus morre ao mesmo tempo que morrem os cordeiros da Páscoa (19.14), quando é “levantado” na cruz (cf. 3.14,15; 12.32,33) para a glória de Deus (cf. 11.4). A sua última declaração, “Está consumado” (19.30), é um jogo de palavras com cumprir, tendo um sentido duplo deliberado. Jesus agora morre; sua morte cumpre a obra para cuja realização ele veio ao mundo.

A narrativa da ressurreição então se concentra especialmente nos discípulos, levando ao comissionamento. Observe especialmente a importância da narrativa de Tomé para os leitores de João: Tomé creu porque viu; bem-aventurados são aqueles (os leitores de João, o que também nos inclui) que, sem ver, creem com base nesse evangelho.

Epílogo (21.1-25)

Depois da bem-aventurança e declaração de propósito em 20.29-31, o epílogo se concentra especialmente em Pedro e no “discípulo a quem Jesus amava”, com uma preocupação quanto à longevidade deste, mas cuja morte, agora, já ocorreu ou é iminente — antes da vinda de Cristo. Assim, o epílogo explica o que Jesus realmente disse à luz de aparentes mal-entendidos.Se os Evangelhos Sínóticos se interessam pelo lugar de Jesus na história de Israel e além, João se interessa pelo lugar de Jesus no quadro geral das coisas — da Criação à redenção e além (a última ressurreição). As boas-novas centrais da história cristã consistem no fato de que o Messias não é ninguém menos que o próprio Filho eterno de Deus.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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