O Cânon e o Texto – Panorama do NT

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O Cânon e o Texto – Panorama do NT

Perguntas Normativas:

‑ Como conseguiu viver a Igreja primitiva, no começo, sem o Novo Testamento?

‑ Como foi, então, que o Novo Testamento veio a ser considerado pela Igreja como uma autoritativa coletânea de livros?

‑ Como sabemos que o nosso Novo Testamento exibe uma versão substancialmente acurada do que os seus autores originalmente escreveram?

 

O CÂNON

 

O Cânon do Novo Testamento consiste dos livros aceitos pela Igreja primitiva como Escrituras divinamente inspiradas. O termo cânon a princípio significava vara de medir, mas terminou adquirindo o sentido metafórico de padrão. No que tange ao Novo Testamento, refere‑se àqueles livros aceitos pela Igreja como o padrão autoritativo de crença e conduta.

No princípio, os cristãos não contavam com qualquer dos livros que figuram em nosso Novo Testamento. Assim sendo, eles dependiam do Antigo Testamento, de uma tradição oral acerca dos ensinamentos e da obra remidora de Jesus, e de revelações diretas da parte de Deus, por meio dos profetas cristãos. Mesmo depois de já terem sido escritos os livros do Novo Testamento, muitos desses livros não haviam ainda sido geograficamente distribuídos por toda a Igreja. E antes de serem colecionados para formação do Novo Testamento, escritores cristãos haviam produzido alguns outros livros ‑ alguns bons, e outros de inferior qualidade. Livros como as epístolas de Paulo e os evangelhos receberam reconhecimento canônico de imediato. Mas uma autoria incerta levou outros livros, como Hebreus, a serem postos em dúvida por algum tempo. A Igreja primitiva hesitou em adotar a segunda epístola de Pedro, porquanto no grego o seu estilo difere da primeira epístola de Pedro, e isso fez surgirem dúvidas sérias o quanto à sua reivindicação de ter sido escrita pelo apóstolo Pedro. Por causa de sua brevidade e circulação limitada, alguns desses livros simplesmente não se tornaram conhecidos em círculos suficientemente amplos para serem aceitos de pronto no cânon.

Citações extraídas dos livros do Novo Testamento, e isso de maneira autoritativa, pelos primeiros pais da Igreja, ajudam‑nos a reconhecer quais livros eles reputavam canônicos. Mais tarde, a Igreja compilou listas formais de livros, ou cânons. Um dos primeiros foi o cânon de Márciom (cerca de 144 D.C.). Um herege gnóstico, Márciom ensinava a existência de um severo Deus do Antigo Testamento e de um amoroso Deus do Novo Testamento, que se oporiam mutuamente, e também que Jesus Cristo viera como mensageiro do amoroso Deus do Novo Testamento, que fora morto por instigação do Deus do Antigo Testamento, que Jesus confiara o evangelho aos doze apóstolos, mas estes não tinham evitado a corrupção do mesmo e que Paulo se tornara o único pregador do verdadeiro evangelho. Assim, pois, Márciom selecionava somente aqueles livros que ele considerava livres do Antigo Testamento e do judaísmo, e contrários aos mesmos ‑ Lucas (com algumas omissões) e a maior parte das epístolas de Paulo. A violenta reação de cristãos ortodoxos contra a breve lista preparada por Márciom demonstra o fato que, como um todo, a Igreja já havia aceito os livros do Novo Testamento que Márciom rejeitava. Noutros particulares, o cânon de Márciom não teria causado tanta perturbação. No século IV D. C., todos os nosso livros do Novo Testamento já haviam sido reconhecidos de modo geral, ao passo que outros livros tinham sido rejeitados. Os concílios eclesiásticos dos séculos IV e V D.C. meramente formalizaram a crença e a prática então existente, no que concerne ao cânon do Novo Testamento.

Somos levados a crer que Deus guiou providencialmente a Igreja primitiva em sua avaliação de vários livros, pelo que aqueles que realmente foram inspirados tornaram‑se aceitos, ao passo que aqueles que não eram inspirados, embora ocasionalmente aceitos como dotados de nível não‑autoritativo, foram rejeitados do cânon. O processo de seleção precisou de algum tempo, e levantaram‑se diferenças de opinião. Porém, podemos estar gratos porque a Igreja primitiva não aceitou certos livros sem a devida avaliação, e, algumas vezes, sem debate. A maioria dos leitores que faz a comparação dos escritos sub‑apostólicos (Assim chamados por terem sido escritos em época imediatamente posterior à dos apóstolos, pelos “pais apostólicos”. Livros dessa categoria são I e II Clemente, as epístolas de Inácio, a epístola de Policarpo aos Filipenses, o Didache ou Ensino dos Doze Apóstolos, a epístola de Barnabé, o Pastor de Hermas, o Martírio de Policarpo, a epístola de Diogneto e os fragmentos de Papias.) e dos livros apócrifos(Esses livros fantasiosos e algumas vezes heréticos são diferentes dos livros apócrifos do Antigo Testamento, não sendo aceitos como canônicos por qualquer dos ramos da cristandade.) do Novo Testamento com os livros canônicos do Novo Testamento, de todo coração endossa o julgamento crítico dos cristãos primitivos.

Diversos critérios de canonicidade têm sido sugeridos, como a consonância com a doutrina oral apostólica do primeiro século de nossa era, ou como o efeito moral edificante. Não obstante, alguns livros capazes de edificar a seus leitores não conseguiram atingir estado canônico na Igreja. Outro tanto se pode dizer quanto a alguns livros que levavam avante a tradição da doutrina apostólica. O critério mais importante ‑ de fato, crucial ‑ era o da apostolicidade, isto é, autoria da parte de um apóstolo ou de um associado de algum dos apóstolos, e, por conseguinte, também haver sido escrito numa data dentro do período apostólico.

Marcos foi companheiro tanto do apóstolo Pedro quanto do apóstolo Paulo. Lucas foi companheiro de Paulo. E quem quer que tenha sido o autor da epístola aos Hebreus, exibe contatos teológicos bem próximos de Paulo. Tiago e Judas eram meio-irmãos de Jesus, associados dos apóstolos na primitiva igreja de Jerusalém. Tradicionalmente, todos os demais autores cujas obras fazem parte do Novo Testamento eram apóstolos ‑ Mateus, João, Paulo e Pedro. A crítica moderna lança dúvidas sobre a exatidão da atribuição tradicional a certos autores. Essas questões são tratadas individualmente em seções posteriores deste livro. Porém, mesmo segundo pontos de vista críticos negativos, usualmente não é negado que livros não apostólicos tivessem sido escritos, dentro da tradição apostólica, por seguidores dos apóstolos.

O próprio Jesus asseverou a total autoridade do Antigo Testamento como Escritura.(Por exemplo, Mateus 5:17‑19a: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas: não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus…”; e João 10:35b: “… e a Escritura não pode falhar…”) Outrossim, conferiu às Suas próprias palavras e ações um privilégio igualmente autoritativo,(Vide, por exemplo, as declarações: “Ouvistes que foi dito aos antigos (e segue-se uma citação do Antigo Testamento). . Eu, porem, vos digo…”, no Sermão da Montanha (Mateus 5:21, 27, 31, 33, 38, 43; comparar com Marcos 1:22, 27 e Lucas 4:32,36).) e prometeu aos apóstolos que o Espírito Santo haveria de relembrar‑lhes o Seu ministério, ensinando‑lhes a significação do mesmo (João 14:26; 16:12‑15). O cânon do Novo Testamento, pois, é o registro e a interpretação autoritativos da revelação que Deus fez de Si mesmo por meio de Jesus Cristo ‑ um registro interpretativo autenticado pelo nosso Senhor em pessoa, cuja perspectiva acerca de Suas próprias palavras e ações, agora escritas e explanadas pelos apóstolos e seus associados, certamente não era menos que Sua perspectiva acerca do Antigo Testamento como a Palavra de Deus.

 

O TEXTO

 

O papiro foi o material de escrita da maioria, e, talvez, de todos os nossos livros do Novo Testamento. Sem dúvida, os autores ou seus amanuenses se utilizaram do antigo formato do rolo, embora alguns dos livros possam ter sido escritos em forma de códex, com páginas separadas e vinculadas como nos livros modernos. Era prática comum um autor ditar a um amanuense. E às vezes o autor dava a seu amanuense certo grau de liberdade na escolha das palavras.

Os documentos originais, nenhum dos quais existe até hoje, têm recebido o nome de autógrafos. A princípio, quando indivíduos e igrejas particulares desejavam cópias, um leitor ditava com base em um exemplar para uma sala repleta de copistas. Gradualmente, erros de vista e de sons, omissões e reiterações inadvertidas, notas marginais e “melhoramentos” teológicos e gramaticais deliberados foram penetrando no texto. A preocupação com a pureza do texto provocou o confronto de manuscritos com manuscritos anteriores, ocasionalmente por diversas vezes. Apesar de tudo, o número de equívocos foi aumentando cada vez mais.

Conforme a natureza sacrossanta do Novo Testamento foi sendo mais e mais sentida e a Igreja se foi desenvolvendo, material de escrita de melhor qualidade e de maior durabilidade passou a ser usado, como o velum (pele de vitela) e o pergaminho (pele de carneiro). Os primeiros manuscritos usualmente eram escritos inteiramente em letras maiúsculas (unciais ou maiúsculas), mas depois houve manuscritos em letras cursivas (ou minúsculas). Ausentes a princípio, as divisões de palavras, os sinais de pontuação e as divisões em capítulos e versículos foram desenvolvimentos posteriores.( Estêvão Langton (morto em 1228) dividiu o texto em capítulos; R. Stephanus, em versículos, em sua edição impressa de 1551.) Os mais antigos manuscritos que estão nas mãos dos eruditos pertencem ao século II D.C. (O mais antigo, o Fragmento Rylands do evangelho de João, data de cerca de 135 D. C.) A maior parte das formas variantes, ou diferenças, nos mais antigos manuscritos, tem a ver com a soletração, ordem de palavras, a presença ou ausência da conjução “e” e o artigo definido, e outras questões relativamente sem conseqüência.

 

 

 

As fontes primárias que nos permitem determinar qual o texto original do Novo Testamento são os manuscritos gregos, as antigas versões (isto é, traduções, mormente em siríaco e latim), e citações nos escritos dos primeiros pais da Igreja, ou então lecionários (textos de leitura, extraídos do Novo Testamento, para ocasiões litúrgicas). Mediante a comparação dessas fontes, usualmente os eruditos chegam a uma decisão entre textos variantes, com regular grau de certeza. Entre os seus mais importantes critérios de avaliação estão: a preferênica pelo texto dos manuscritos e versões mais antigos e copiadas com maior cuidado, a preferência pela forma que melhor explica o desenvolvimento de outras formas, a preferência pela forma mais difícil (por ser mais provável que um copista tentasse facilitar uma expressão, ao invés de complicá‑la), e preferência pela forma mais curta (porquanto um copista optaria antes por adicionar algo ao texto, em lugar de apagar algo). O material que nos permite determinar o texto original do Novo Testamento é muito mais abundante e antigo do que aquele que se presta para o estudo de qualquer dos antigos escritos clássicos. Graças aos labores dos críticos textuais, as incertezas que ainda restam sobre o texto do Novo Testamento grego não são suficientemente sérias para afetar nossa compreensão sobre o que o mesmo ensina.

No que concerne às versões inglesas do Novo Testamento, João Wycliffe produziu sua tradução, baseada no latim, em 1382, e Guilherme Tyndale fez uma tradução diretamente alicerçada sobre o grego, em 1525. Seguindo uma sucessão de Bíblias em inglês, posteriores, apareceu a versão Douay, católica‑romana, em 1582, e a versão do King James (ou Autorizada), em 1611. Porém, os mais antigos e melhores manuscritos do Novo Testamento ainda não haviam sido descobertos, e os séculos que se seguiram desde então testemunharam grande avanço no conhecimento erudito sobre o tipo de grego usado nas páginas do Novo Testamento. Uma imensa contribuição foi dada pelo estudo de inúmeros papiros achados durante os últimos cem anos. Como resultado, numerosas versões têm aparecido em tempos recentes: a English Revised Version (1881), a American Standard Version (1901), a Revised Standard Version (1946), a New English Bible (1961), a New American Standard Bible ‑ Novo Testamento (1963), além de vários empreendimentos individuais, o mais bem conhecido dos quais é o de J. B. Phillips, The New Testament in Modern English.

 

Para discussão posterior:

 

‑ Procure reconstituir um típico culto numa igreja, antes da formação do cânon do Novo Testamento, como base de pregação e ensino. Reconstitua igualmente a antiga vida devocional de primitivos cristãos, ainda sem o Novo Testamento.

‑ Quais evidências se fazem presentes até hoje de um marcionismo que prossegue até nossos dias?

‑ Como e por quais razões certos clássicos cristãos, como as Confissões de Agostinho e o Peregrino, de João Bunyan, ou alguns dos hinos de Carlos Wesley, devem ser distinguidos dos livros canônicos do Novo Testamento?

‑ Por qual motivo a Igreja encerrou o cânon? Ou ainda está o mesmo em aberto?

‑ A tradução das Escrituras tira de modo prático a sua qualidade de inspiração, ao remover o leitor um passo do texto original?

‑ Quais são as vantagens de uma única tradução aceita do Novo Testamento versus muitas traduções diferentes?

 

Para investigação posterior:

 

(Material primário, que contém traduções dos escritos sub‑apostólicos e dos livros apócrifos do Novo Testamento.)

Grant, R.M. et al. The Apostolic Fathers. 6 volumes. Nova Iorque: Nelson, 1964 ‑ Com extensas introduções e notas.

Lake, K. The Apostolic Fathers. 2 volumes. Loeb Classical Library. Nova Iorque: Putnam’s 1930. Com o texto grego e tradução para o inglês.

Lightfoot, J. B. The Apostolic Fathers. Editado e completado por J. R. Harmer. Nova Iorque: MacMillan, 1898 (reimpresso pela Baker Book House, em Grand Rapids). Com breves introduções e o texto em grego com tradução em inglês.

James, M .R. The Apocryphal New Testament Nova Iorque: Oxford, 1924.

Hennecke, E. New Testament Apocrypha. Editado por W. Schneemelcher e traduzido por R. M. Wilson. 2 volumes. Filadélfia: Westminster, 1963/66. Com introduções e notas técnicas.

 

(Tratados modernos sobre o cânon)

Harris, R.L. lnspiration and Canonicity of the Bible. Grand Rapids: Zondervan, 1957.

Ridderbos, H.N. Authority of the New Testament Scriptures. Traduzido por H. De Jongste. Nutley, Nova Jérsei: Presbyterian & Reformed, 1963.

Filson, F.V. Whieh Books Belong in the Bible? Filadélfia: Westminster. 1957. Capítulo V.

Cross, F. L. The Early Christian Fathers. Naperville, Illinois: Allenson, 1960. Capítulo V.

 

(Pesquisas modernas sobre crítica textual)

Bruce, F. F. The Books and the Parchments. Edição revisada. Westwood, Nova Jérsei: Revell, 1953.

Metzger, B. M. The Text of the New Testament: lts Transmission, Corruption, and Restoration. 2ª edição. Nova Iorque: Oxford, 1969. Um tanto mais técnico, mas o melhor estudo moderno de que dispomos.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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