O Ambiente Religioso – Panorama do NT

O Ambiente Secular – Panorama do NT
12/07/2016
Presunção Repreendida – Esboços Bíblicos
13/07/2016

O Ambiente Religioso – Panorama do NT

Perguntas Normativas:

‑ Quais eram as crenças e práticas religiosas ‑ esotéricas, mitológicas, supersticiosas, filosóficas ‑ entre os pagãos, no período greco‑romano?

‑ Como se desenvolveram as instituições e as crenças judaicas do Antigo Testamento para os tempos do Novo Testamento?

– De que modo se combinaram o meio ambiente pagão e o meio ambiente religioso dos judeus, em contribuição para o nascimento do cristianismo?

 

 

O PAGANISMO

 

Mitologia

O deus supremo do panteão grego ou hierarquia de divindades era Zeus, filho de Cronos. Cronos, que arrebatara o governo do mundo das mãos de seu pai, Urano, canibal que era, devorava os seus próprios filhos conforme iam nascendo. Todavia, a mãe de Zeus salvou ao seu infante ao entregar a Cronos uma pedra envolta em cobertores infantis, para que a engolisse. Ao atingir a idade adulta, Zeus derrubou seu pai e dividiu os domínios daquele com seus dois irmãos, Poseidom, que passou a governar os mares, e Hades, que se tornou senhor do mundo inferior. O próprio Zeus pôs‑se a governar os céus. Os deuses tinham acesso à terra, vindos de sua capital, o monte Olimpo, na Grécia.

De acordo com a mitologia, Zeus era forçado a abafar ocasionais rebeliões da parte dos deuses, os quais exibiam pendores perfeitamente humanos de paixões e concupiscências, de amor e ciúmes, de ira e ódio. De fato, os deuses seriam superiores aos homens somente quanto ao poder, à inteligência e à imortalidade ‑ mas por certo não quanto à moralidade. Um deus extremamente popular era Apolo, filho de Zeus, inspirados de poetas, videntes e profetas, e que também realizava numerosas outras funções. Em Delfos, na Grécia, um templo dedicado a Apolo fora erigido por cima de uma caverna, de onde se emanavam vapores, que o vulgo julgava ser o hálito de Apolo. Uma sacerdotisa, assentada sobre um tripé, acima da abertura, inalava os vapores e, em estado de transe, murmurava palavras que eram registradas e interpretadas de modo muito vago pelos sacerdotes, em respostas aos adoradores inquiridores.

 

Religião oficial.

A religião oficial de Roma adotou grande parte do panteão e da mitologia gregos. As divindades romanas vieram a ser identificadas com os deuses gregos (Júpiter com Zeus, Vênus com Afrodite, e assim por diante). Os romanos também adicionaram certas características, como a de um sacerdócio sobre o qual o próprio imperador atuava como pontifex maximus (sumo sacerdote). As características perfeitamente humanas de tais deuses destruíam a fé de muitas pessoas no panteão greco‑romano. Quanto a outras pessoas, entretanto, tal fé persistiu por todo o período do Novo Testamento.

 

Adoração ao Imperador.

Seguindo a prática desde há muito firmada de atribuir atributos divinos aos governantes, o senado romano lançou a idéia do culto ao imperador, ao deificar, após a morte, a Augusto e a subseqüentes imperadores que porventura tivessem servido bem como tais. Elementos leais e entusiastas das províncias orientais algumas vezes antecipavam essa deificação pós‑morte. Os imperadores do primeiro século que reivindicaram a divindade para si mesmos, enquanto ainda viviam ‑ Calígula, Nero e Domiciano ‑ não foram honrados com tal distinção ao morrerem. O insano Calígula (37‑41 D.C.) ordenara que uma estátua sua fosse levantada no templo de Jerusalém, a fim de ser adorada. Afortunadamente, tal medida foi adiada pelo mais sensato embaixador sírio, porquanto os judeus sem dúvida ter‑se‑iam revoltado. Nesse ínterim, Calígula foi assassinado. Domiciano (81‑96 D.C.) foi o primeiro a tomar providências sérias e generalizadas para forçar a adoração de sua pessoa. A recusa dos cristãos em participarem do que passou a ser tido como um dever patriótico, como uma medida tendente a unificar o preito de lealdade ao imperador, como uma divindade, provocou uma perseguição que foi crescendo de intensidade.

 

Religiões misteriosas.

 

 

Muito se tem escrito sobre a larga popularidade e influência das religiões misteriosas dos gregos, egípcios e povos orientais sobre o primeiro século cristão ‑ os cultos de Eleusis, Mitra, Isis, Dionísio, Cibele e inúmeros cultos locais. Prometendo purificação e a imortalidade do indivíduo, freqüentemente esses cultos giravam em torno de mitos sobre uma deusa cujo amante ou filho fora arrebatado dela, usualmente através da morte, para ser subseqüentemente restaurado. Esses mistérios também envolviam o ritos secretos de iniciação e outras cerimônias, como lavagens cerimoniais, aspersão de sangue, refeições sacramentais, intoxicação alcoólica, frenesi emocional e um impressionante fausto, por meio dos quais os devotos entrariam em união mística com os deuses. A igualdade social no seio desses cultos misteriosos contribuía para a atração que exerciam. Em anos mais recentes, contudo, tem‑se percebido de maneira crescente que a ausência de antigas informações sobre essas religiões mui provavelmente significa que não desempenham um papel dos mais importantes nos estudos sobre o Novo Testamento.

É somente já nos séculos II, III e IV da era cristã que chegamos a obter informações detalhadas a respeito das crenças defendidas pelos devotos desses mistérios. Assim sendo, apesar de ser indubitável a existência das religiões misteriosas antes do cristianismo, suas crenças pré‑cristãs nos são desconhecidas. Onde as suas crenças posteriores se tornaram um tanto paralelas às crenças cristãs (aliás, esse paralelismo com freqüência tem sido exagerado), o mais provável é que as religiões misteriosas é que tenham tomado por empréstimo certas idéias do cristianismo, e não vice‑versa, mormente se levarmos em conta que os pagãos eram notáveis assimiladores (ver abaixo acerca do sincretismo), ao passo que os primitivos cristãos eram exclusivistas. Não obstante, os paralelos geralmente são mais aparentes do que reais, e mesmo quando são reais, isso não implica necessariamente em que tenham havido empréstimos de uma coisa para a outra.

Por exemplo, os mitos sobre deuses que morriam e ressuscitavam não correspondiam verdadeiramente às narrativas do Novo Testamento sobre a morte e a ressurreição de Jesus. Em primeiro lugar, as mortes de tais divindades não tinham cunho redentor. Outrossim, a história da morte e ressurreição de Jesus está vinculada a um bem recente personagem histórico, ao passo que os mitos usualmente tinham algo a ver com personificações de processos vegetativos, pelo que também nada tinham a ver com o plano da história, e muito menos com a história recente. Finalmente, os deuses mitológicos não ressuscitavam de modo plenamente corpóreo, mas ressuscitavam apenas em parte, ou meramente reviviam no mundo inferior. Quando as catorze porções constituintes do corpo de Osíris foram reunidas, ele se tornou o rei dos mortos no mundo inferior. Tudo quanto Cibele pôde conseguir acerca do corpo de Atis, é que este não entraria em decomposição, que seus cabelos continuariam a crescer e que seu dedo mínimo se moveria ‑ e no entanto, a história de Cibele e Atis (que teria morrido por haver castrado a si mesmo) é algumas vezes citada rumo um paralelo e como uma fonte originadora da narrativa sobre a morte e a ressurreição de Jesus, da parte daqueles que, por negligência, não examinam os pormenores de tal mito. A bem da verdade, as próprias idéias de morte por crucificação e de ressurreição física pareciam abomináveis aos povos antigos, os quais sabiam que a crucificação estava reservada aos criminosos e que concebiam o corpo como uma prisão da alma e como sede do mal. Se houvessem os cristãos tomado os seus conceitos por empréstimos das religiões misteriosas, bem poderíamos indagar por qual motivo os pagãos consideravam, de modo geral, o evangelho cristão, como algo tolo, incrível e somente digno de perseguição. (Ver J. G. Machen, The Origin of Paul’s Religion,Grand Rapids: Eerdmans, 1947, caps. vi e vii; J. S. Stewart, A Man in Christ, Nova Iorque: Harper, n.d., págs. 64‑68.)

 

Superstições e Sincretismo.

As superstições estavam firmemente entrincheiradas nas mentes da maioria do povo do império romano. O emprego de fórmulas mágicas, consultas de horóscopos e oráculos, augúrios ou predições sobre o futuro, mediante a observação do vôo dos pássaros, os movimentos do azeite sobre a água, as circunvoluções do fígado e o uso de exorcistas profissionais (peritos na arte de expulsar demônios) ‑ todas essas práticas supersticiosas, além de muitas outras, faziam parte integrante da vida diária. Os judeus eram numerados entre os exorcistas mais avidamente procurados, em parte porque julgava‑se que somente eles eram capazes de pronunciar corretamente o nome magicamente potente de Yahweh (nome hebraico traduzido por “Senhor”). A pronúncia correta, juntamente com a idéia de algo secreto, segundo se pensava, seria necessária para a eficácia de qualquer encantamento. Na prática apodada de sincretismo, o povo comum simplesmente fazia a mescla de diversas crenças religiosas com práticas supersticiosas. As prateleiras para ídolos, existentes nas residências, eram atulhadas de imagens de aves, cães, crocodilos, bezouros e outras criaturas.

 

Gnosticismo.

O contraste dualista concebido por Platão entre o mundo invisível das idéias e o mundo visível da matéria, formava o substrato do gnosticismo do primeiro século de nossa era, e segundo o qual a matéria era equiparada ao mal, ao passo que o espírito seria eqüivalente ao bem. Daí resultavam dois modos opostos de conduta: (1) a supressão dos desejos do corpo, devido à sua conexão com a matéria má (ascetismo) e (2) a indulgência quanto às paixões físicas, por causa da irrealidade e inconseqüência da matéria (libertinagem ou sensualismo). Em ambos esses casos as noções religiosas orientais haviam corrompido as idéias originais de Platão. O conceito da ressurreição física era abominável, devido ao fato da matéria ser tida por inerentemente má. Todavia, a imortalidade do espírito seria desejável, podendo‑se chegar a ela por meio do conhecimento de doutrinas secretas e de senhas, através das quais coisas a alma, por ocasião da morte, conseguiria escapar da vigilância de guardiães demoníacos dos planetas e das estrelas, em seu vôo da terra para o céu. Segundo esse ponto de vista, o problema religioso não consistia da culpa humana, para a qual é preciso que se proveja perdão, mas consistia muito mais da ignorância humana, para a qual era mister prover conhecimento. De fato, o vocábulo gnosticismo vem de gnosis, termo grego que significa conhecimento. A fim de assegurar‑se a pureza do Deus supremo, era este separado do universo material, e, portanto mau, mediante uma série de seres progressivamente menos divinos, chamados “aeons”, que se teriam emanado dele. Dessa forma, uma elaborada angelologia se desenvolveu paralelamente à demonologia.

As idéias gnósticas parecem ocultar‑se por detrás de determinadas heresias que são atacadas no Novo Testamento. Porém, o conteúdo da biblioteca gnóstica, descoberta na década de 1940, em Nag Hammadi ou Chenoboskion, no Egito, parece confirmar que não existia ainda o conceito gnóstico de um redentor celestial, quando começou o movimento cristão. Ao que parece, os gnósticos tomaram por empréstimo do cristianismo, em data posterior, a doutrina de um redentor celeste. No primeiro século, o gnosticismo era ainda um agregado de concepções religiosas frouxamente ligado, e não um sistema doutrinário altamente organizado.

 

Filosofias.

Os entendidos no assunto estavam se voltando para formas filosóficas mais puras. O epicurismo pensava ser os prazeres (não necessariamente de ordem sensual) o sumo bem da vida. O estoicismo ensinava que a aceitação racional da própria sorte, determinada por uma Razão impessoal, que governaria o universo e da qual todos os homens fazem parte, é dever do homem. Os cínicos, antigas contrapartes dos modernos “hippies”, reputavam a virtude suprema como se fora uma vida simples e sem convenções, rejeitando a busca popular pelo conforto, pelas riquezas e pelo prestígio social. Os céticos, tendo abandonado em seu relativismo toda esperança de qualquer coisa em termos absolutos, sucumbiam ante a dúvida e a conformidade para com costumes prevalescentes. Essas e outras filosofias, entretanto, não determinavam as vidas de um grande número de pessoas. De modo geral, as superstições e o sincretismo caracterizavam as massas, pelo que também o cristianismo teve de penetrar numa sociedade religiosa e filosoficamente confusa. A antiga confiança dos primeiros gregos desaparecera. O enigmático universo desafiava a compreensão. A filosofia não obtivera êxito em fornecer respostas satisfatórias. Outro tanto sucedera às religiões tradicionais. Os homens se sentiam inermes ante a sorte ditada pelas estrelas, as quais eram consideradas seres angélico‑demoníacos. Prevalecia uma atitude de desespero, ou, pelo menos, de pessimismo.

 

O JUDAÍSMO

 

A Sinagoga.

Mais importante que o meio ambiente pagão religioso e filosófico era o judaísmo, do qual se originou o cristianismo. O judaísmo, tal qual era no primeiro século, teve seu começo perto do final do período do Antigo Testamento, durante o exílio assírio‑babilônico. Os profetas haviam predito o desterro como uma punição pela idolatria praticada pela nação israelita. O cumprimento dessa predição curou permanentemente a nação de sua idolatria. A perda temporária do templo, durante o exílio deu azo a um crescente estudo e observância da lei (a Torá – O termo hebraico torah tinha sentido mais lato que “lei”. Também indicava instrução, ensino e a revelação divina in toto, aludindo ora aos dez mandamentos, ora ao Pentateuco, ora ao Antigo Testamento inteiro, e também à lei oral, ou seja, as interpretações tradicionais dos rabinos.) do Antigo Testamento, e, pelo menos, afinal de contas, ao estabelecimento das sinagogas como uma instituição. É motivo de debate se as sinagogas tiveram origem justamente durante o exílio ou mais tarde, já no período intertestamentário. Uma conjectura razoável, entretanto, é que em face de Nabucodonosor haver destruído o primeiro templo (o de Salomão) e haver deportado da Palestina a maioria de seus habitantes, os judeus estabeleceram centros locais de adoração intitulados sinagogas (“assembléias”), onde quer que pudessem ser encontrados dez judeus adultos do sexo masculino. Uma vez instituída como uma instituição, as sinagogas prosseguiram em existência até à reconstrução do templo, sob a liderança de Zorobabel. (Vide Esdras 3 ‑ 6; Ageu: Zacarias 1 ‑ 8 quanto à reedificarão do templo.)

 

 

A sinagoga típica era um auditório retangular com uma plataforma elevada para o orador, por detrás da qual havia uma arca portátil ou um nicho, contendo rolos do Antigo Testamento. A congregação se assentava em bancos de pedra, que estavam alinhados ao longo de duas ou três paredes, ou em esteiras e, possivelmente, assentos de madeira no centro do salão. Defronte, de rostos voltados para a congregação, assentavam‑se os dirigentes ou anciãos da sinagoga. Os cânticos não eram acompanhados por instrumentos musicais. A fim de ler algum rolo do Antigo Testamento, o orador se punha de pé. Ao pregar, ele se sentava. Quando das orações, todos se erguiam de pé. O culto típico de uma sinagoga consistia de recitação responsiva do Shema (Deuteronômio 6:4 e ss., o “texto áureo” do judaísmo –  “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Deuteronômio 6:4), mais tarde ampliado pelos versículos 5‑9; 11:13‑21; Números 15:37‑41. Shema é a palavra hebraica que, nessa citação, corresponde ao “Ouve”.) e do Shemone Esreh (uma série de louvores a Deus), (Shemone Esreh significa dezoito, mas na realidade o número exato de bênçãos tem variado de tempo para tempo.), oração, cântico de salmos, leituras do Antigo Testamento hebraico, da lei e dos profetas, com um targum, ou seja, frouxa tradução oral para o aramaico (ou para o grego), que muitos judeus entendiam melhor que o hebraico, um sermão (se alguém competente para tanto estivesse presente), e uma bênção proferida. Havia ampla liberdade no fraseado da liturgia. A congregarão inteira adicionava o seu “Amém”, no final das orações. O chefe da sinagoga selecionava diferentes membros da congregação para conduzir as recitações, ler as Escrituras e orar. Visitantes competentes, por semelhante modo, eram convidados a falar, uma prática que abriu muitas oportunidades para Paulo pregar o evangelho nas sinagogas.

 

 

 

O chefe ou presidente eleito da sinagoga presidia às reuniões e fazia a apresentação dos estranhos. O atendente (ou hazzan) cuidava dos rolos e dos móveis, acendia as lâmpadas, soprava a trombeta que anunciava o dia de sábado, punha‑se ao lado dos leitores para assegurar a pronúncia correta e a leitura acurada dos textos sagrados, e, algumas vezes, ensinava na escola da sinagoga. Uma junta de anciãos exercia superintendência espiritual sobre a congregação. Os membros que caíssem em erro eram punidos por meio de açoites ou de exclusão. As esmolas recolhidas pela sinagoga eram distribuídas entre os pobres. Os primeiros cristãos, principalmente judeus, mui naturalmente adotaram a organização da sinagoga como um modelo básico para suas igrejas locais.

A sinagoga era mais do que mero centro de adoração religiosa a cada sábado. Durante os dias úteis da semana ela se tornava em centro de administração de justiça, de reuniões políticas, de serviços fúnebres, de educação de jovens judeus, e de estudos do Antigo Testamento. O estudo da Torá nas sinagogas tendia por obscurecer a importância da oferenda de sacrifícios no templo judaico, razão pela qual o rabino, ou mestre da lei, começou a ultrapassar ao sacerdote em importância.

 

O templo.

Os sacrifícios prescritos pela lei mosaica só podiam ser legitimamente oferecidos no santuário central. O segundo templo continuou a ser importante, por conseguinte, até à sua destruição por Tito, em 70 D. C. As exortações dos profetas Ageu e Zacarias haviam impulsionado a reconstrução do templo durante o período de restauração do Velho Testamento, depois do desterro. Saqueado e aviltado por Antíoco Epifânio, em 168 A. C., o templo fora reparado, purificado e reconsagrado por Judas Macabeu três anos mais tarde. Herodes o Grande iniciou grandioso programa de embelezamento, mas nem bem esse projeto se completou, muito depois de sua morte, e o templo foi novamente destruído.

 

 

 

 

 

O templo propriamente dito se erguia em meio a átrios e abóbadas que cobriam cerca de vinte e seis acres. Os gentios podiam entrar no átrio exterior; mas inscrições em latim e grego advertiam‑nos, sob pena de morte, a não entrarem nos átrios mais interiores, reservados aos judeus com exclusividade. Imediatamente do lado de fora do templo propriamente dito, havia o altar dos holocaustos e o lavatório cheio de água, para ser usado pelos sacerdotes, em suas abluções. Dentro do aposento mais exterior, ou Lugar Santo, havia um candeeiro com sete hastes, alimentado por azeite, uma mesa com o pão da presença (de Deus), ou “pães da apresentação”, e um pequeno altar onde era queimado o incenso. Uma pesada cortina separava este do aposento mais interior, o Santo dos Santos, no qual apenas o sumo sacerdote entrava, e isso apenas um dia no ano, no Dia da Expiação. A arca da aliança, a única peça de mobília que havia no Santo dos Santos, durante os dias do Antigo Testamento, desde há muito havia desaparecido em meio aos distúrbios das invasões e do cativeiro. Além dos sacrifícios particulares, holocaustos diários em prol da nação inteira eram sacrificados no meio da manhã e no meio da tarde, conjuntamente com a queima de incenso, orações, bênçãos proferidas pelos sacerdotes, libação de vinho (oferenda líquida), o toque das trombetas e um cântico por parte de um coro formado por levitas, com acompanhamento de harpas, liras e instrumentos musicais de sopro. Os sábados, as festividades e outros dias santos requeriam cerimônias adicionais.

 

 

 

 

O calendário religioso.

Intimamente relacionadas à adoração no templo havia as festividades religiosas e dias santos dos judeus. O ano civil judaico começava aproximadamente em setembro‑outubro, e o ano religioso aproximadamente em março‑abril. Abaixo apresentamos o calendário religioso dos judeus:

 

CALENDÁRIO RELIGIOSO DOS JUDEUS (Por motivo de diferenças entre os dois sistemas de calendários os equivalentes em nossos meses são apenas aproximações.)

FESTA   DATAS
Páscoa e Pães Asmos comemora o êxodo do Egito e marca o início Nisã (março-abril) 14
   (“Primícias'”) da colheita do trigo 15 – 21
     
    Iyar (abril-maio)
Pentecoste ou das marca o fim da colheita do trigo Sivã (maio-junho) 6
Semanas    
    Tamuz (junho-julho)
    Ab (julho-agosto)
    Elul (agosto-setembro)
Trombetas ou Rosh marca o início do ano civil e o fim das colheitas Tisri (set-outubro) 1 e 2
Hashanah da uva e da azeitona  
     
Dia da Expiação ou arrependimento nacional, jejum e expiação 10
Yom Kippur (não era chamado de “festa”)  
     
Tabernáculos ou da comemora o viver em tendas a caminho de 15-22
Colheita Canaã, após o êxodo do Egito – festividade  
  alegre, durante a qual o povo vivia em cabanas  
  de ramos  
     
     
Luzes, Dedicação ou comemora a rededicação do Templo, por Heshvan(out.-novembro)
Hanukkah Judas Macabeu, com luzes brilhantes nos

do templo e nos lares dos judeus.

Quisleu (nov.-dezembro) 25
    Tebete (dez-janeiro) 2 ou 3
     
     
Purim comemora o livramento de Israel ao templo de Shebet (jan.-fevereiro)
  Ester, com a leitura pública do livro de Ester nas Adar (fev.-marco) 14
  Sinagogas  
     

A lei mosaica prescrevia os seis primeiros itens do calendário (Páscoa ‑ Tabernáculos). (Vide Levítico 23:4‑43 quanto aos detalhes.) Os dois restantes (Hanukkah e Purim) surgiram posteriormente, e à parte de mandamento bíblico. Peregrinos enchiam as ruas de Jerusalém vindos de toda parte da Palestina e também de países estrangeiros, quando das três principais festividades religiosas: Páscoa‑Pães Asmos, Pentecoste e Tabernáculos.

 

Literatura judaica: o Antigo Testamento.

O Antigo Testamento existia sob três formas lingüísticas, para proveito dos judeus do primeiro século: o hebraico original, a Setuaginta (uma tradução para o grego) e os Targuns (traduções orais, para o aramaico, que estavam começando a ser postas em forma escrita. Os Targuns também continham material tradicional que não figura no texto bíblico.

 

 

 

Os apópcrifos.

Escritos em hebraico, aramaico e grego, e datados dos períodos inter e neotestamentário, os livros apócrifos do Antigo Testamento contêm história, ficção e literatura de sabedoria. Os judeus, e, posteriormente, os primitivos cristãos, de modo geral não reputavam esses livros como Escritura Sagrada, razão por que o termo apócrifos, que originalmente significava “oculto, secreto”, e, por conseguinte, “profundo'”, terminou por significar “não‑canônico”. Os livros apócrifos incluem os seguintes: I Esdras, II Esdras (ou IV Esdras, de conteúdo apocalíptico; ver o parágrafo seguinte sobre a natureza da literatura apocalíptica), Tobias, Judite, Adições ao livro de Ester, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico ou Sabedoria de Jesus filho de Siraque, Baruque, Epístola de Jeremias, Oração de Azarias, Cântico dos Três Jovens, Susana, Bel e o Dragão, Oração de Manassés, I Macabeus, II Macabeus.

 

Pseudepígrafos e Apocalípticos.

Outros livros judaicos que datam da mesma era geral são intitulados pseudepígrafos (“falsamente escritos”), porquanto alguns deles foram escritos sob a alegação de que seus autores foram figuras do Antigo Testamento desde há muito falecidas, a fim de assumirem foros de autoridade. Alguns desses escritos pseudepígrafos também cabem dentro da categoria de literatura apocalíptica, (Derivado o termo do grego apokalypsys, que significa “desvendamento, revelação”, no caso, sobre eventos futuros.) descrições vasadas em linguagem altamente simbólica e visionária, que fala sobre o fim da era presente, ante o estabelecimento do reino de Deus à face da terra. O propósito dos autores dos apocalipses era o de encorajar o povo judeu a suportar as perseguições, até que se inaugurasse o reino messiânico, em futuro próximo. Quando essa esperança não chegou a materializasse, cessou a publicação de obras de natureza apocalíptica.

A literatura pseudepígrafa, que não possui limites bem conhecidos, também contém livros anônimos (Os católicos romanos designam os livros pseudepígrafos como apócrifos, e os apócrifos como livros deutero‑canônicos. Outros chamam os pseudepígrafos de “livros externos”, pois só alguns deles são pseudônimos, e quase ninguém os considern canônicos. (O cânon etíope inclui os livros de 1 Enoque e Jubileus.)) cujo conteúdo é história lendária, salmos e observações de sabedoria. Abaixo oferecemos uma lista dos livros pseudepígrafos: I Enoque, II Enoque, II Baruque ou Apocalipse de Baruque, III Baruque, Oráculos Sibilinos, Testamentos dos Doze Patriarcas, Testamento de Jó, Vidas dos Profetas, Assunção de Moisés, Martírio de Isaías, Paralipômenos de Jeremias, Jubileus, Vida de Adão e Eva, Salmos de Salomão, Epístola de Aristéias, III Macabeus, IV Macabeus.

 

Papiros do Mar Morto.

Em adição a isso, os rolos de Qumran, descobertos em cavernas próximas do mar Morto, incluem literatura similar aos tradicionais livros pseudepígrafos: Documento de Damasco (ou Zadoquita, fragmentos do qual já eram conhecidos desde antes), Regra da Comunidade ou Manual de Disciplina, Guerra entre os Filhos da Luz e os Filhos das Trevas, Descrição da Nova Jerusalém, Hinos de Ação de Graças (Hodayoth), Salmos de Josué, Literatura pseudo jeremíaca, Literatura daniélica apócrifa, Vários comentários (peshers) sobre os Salmos, Isaías, Oséias, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias. Vários livros sobre leis, liturgias, orações, bem‑aventuranças, mistérios, visões e cálculos astronômicos e registros de calendário.

 

 

O Talmude.

As decisões rabínicas sobre casos que envolviam questões de interpretação acerca da lei do Antigo Testamento, formavam uma tradição oral memorizada, ao chegarem os tempos do Novo Testamento. Essa tradição foi crescendo durante os séculos que se sucederam, até que foi preservada em forma escrita no Talmude judaico. Uma edição palestina foi produzida no século IV D. C., e uma edição babilônica, três vezes maior, com dimensões enciclopédicas, durante o século V D. C. Cronologicamente, o Talmude consiste da Mishnah, ou lei oral, desenvolvida por rabinos através do segundo século cristão, além da Gemarah, a qual contém comentários sobre a Mishnah, feitos por rabinos que viveram nos séculos III ‑ V D. C. Quanto aos seus tópicos, o Talmude consiste da halakah, ou porções estritamente legais, e da haggadah, ou porções não‑legais (narrativas, lendas, contos explicativos). Asseverando que as leis orais remontavam ao tempo de Moisés, no monte Sinai, os rabinos elevaram suas contraditórias interpretações do Antigo Testamento a uma posição de maior importância que o próprio Antigo Testamento. Duas famosas escolas rabínicas de interpretação eram a escola moderada de Hilel e a escola rigorosa de Shammai.

 

A teologia do judaísmo.

A despeito de seu espírito intensamente nacionalista, o judaísmo atraia grande número de prosélitos, nome aplicado aos plenamente convertidos,(Os prosélitos do sexo masculino tinham de ser circuncidados. Todos tinham de batizar‑se na presença de testemunhas e (idealmente) oferecer um sacrifício no templo de Jerusalém. É possível que o auto‑batismo fosse um requisito posterior, em lugar de um sacrifício, após a destruição do templo) e de tementes a Deus, que eram gentios dispostos a praticar o judaísmo ao menos em parte, embora não quisessem passar pelo rito da circuncisão nem observar os tabus mais estritos do judaísmo. Esses gentios achavam que a teologia judaica é superior ao politeísmo e às superstições gentílicas, porquanto os judeus davam ênfase à crença monoteísta em um único Deus e se opunham à idolatria, mesmo em seu próprio templo. Os pagãos inconversos, por outro lado, não podiam compreender um templo sem um ídolo. Para que um templo, senão para abrigar uma imagem?

As crenças judaicas procederam dos atos de Deus na história, conforme ficaram registrados numa coleção de livros sagrados (o Antigo Testamento), e não, segundo se via nas religiões pagãs, da mitologia, do misticismo ou das especulações filosóficas. O Antigo Testamento frisava o destino da nação, pelo que a doutrina da ressurreição individual aparece com bastante raridade. O período intertestamentário testemunhou a ênfase crescente sobre o destino do indivíduo, e, portanto, sobre a doutrina da ressurreição individual. Todavia, o nacionalismo e a consciência de pertencer ao povo escolhido de forma alguma fenecera.

Os judeus aguardavam a vinda do Messias. Verdadeiramente, alguns judeus esperavam o aparecimento de certa variedade de personagens messiânicas ‑ profética, sacerdotal e real. Mas, de modo geral, não esperavam que o Messias fosse um salvador sofredor e moribundo, e nem um ser divino. Tinham a esperança que Deus viesse a usar uma figura humana para trazer livramento político militar da dominação romana. Ou então o próprio Deus haveria de libertar Seu corpo, para em seguida introduzir o Messias como governante. (É provável que algumas das mais elevadas caracterizações do Messias, como uma divindade preexistente, segundo se vê nas “Similitudes” de I Enoque e de II Esdras, datem de depois do surgimento do cristianismo, tendo‑se desenvolvido das tribulações judaicas com Roma, durante 66‑135 D. C., e talvez também em imitação ao elevado conceito em que Jesus era tido ente os cristãos.) “Esta era presente”, de má índole, haveria de ser seguida pelos utópicos “dias do Messias”, ou “dia do Senhor”, de duração indeterminada ou variadamente calculada. Depois disso, começaria a “era vindoura”, ou eternidade. Ocasionalmente, dentro do pensamento judaico, o reino messiânico era mesclado com a era eterna do porvir. Entrementes, os judeus seguiam um rígido sistema ético, alicerçado sobre a legislação mosaica do Antigo Testamento e sobre as interpretações rabínicas da mesma, em violento contraste com a imoralidade do panteão grego e romano, praticado pelos devotos daqueles deuses pagãos.

 

Seitas e outros grupos do judaísmo: Fariseus.

Os fariseus (“separados”, provavelmente em sentido ritual) tiveram origem pouco depois da revolta dos Macabeus, como um desenvolvimento dos hasidim, que faziam objeção à helenização da cultura judaica.(“Fariseu” talvez significasse, originalmente, “persificador’ nome provocador, que os fariseus reinterpretaram com o sentido de “separados”) Pertencendo, em sua maior parte, à classe média leiga, os fariseus compunham a mais numerosa das seitas religiosas dos judeus, embora consistissem tão‑somente de seis mil decididos, ao tempo de Herodes o Grande. Observavam escrupulosamente, tanto as leis rabínicas quanto as mosaicas. Um fariseu não podia comer na casa de um “pecador” (alguém que não praticasse o farisaísmo), embora pudesse acolher um pecador em sua própria casa. Todavia, tinha de prover‑lhe as vestes, para que as roupas do próprio pecador não fossem ritualmente impuras.

A observância do sábado era similarmente escrupulosa. Alguns rabinos fariseus proibiam que se cuspisse no chão desnudo, em dia de sábado, a fim de que a perturbação da poeira não viesse a constituir aragem, e, portanto, quebra do sábado por meio desse trabalho. As mulheres não deveriam olhar para um espelho em dia de sábado, a fim de que, se vissem algum cabelo branco, não fossem tentadas a arrancá‑lo, cedendo à tentação, e, portanto, trabalhassem em dia de sábado. Constituía um dilema se um fariseu podia comer um ovo posto em algum dia de festividade. Estariam tais ovos maculados, a despeito do fato que as galinhas não tinham consciência de dias festivos?

Os fariseus, entretanto, maquinavam evasivas que lhes fossem convenientes. Embora uma pessoa não pudesse levar nos braços as suas roupas, de dentro de uma casa que se incendiasse em dia de sábado, podia vestir‑se com várias camadas de roupas, para assim livrá‑las do incêndio. Não se julgava lícito que um fariseu viajasse em dia de sábado mais de um quilômetro para longe da cidade ou aldeia em que vivia. Mas, se desejava ir mais além, na sexta‑feira ele depositava alimentos suficientes para duas refeições, a um quilômetro distante de sua residência, na direção em que quisesse ir. O depósito de alimentos tornava aquele lugar um lar seu, distante de casa, pelo que, em dia de sábado, era‑lhe possível viajar um quilômetro extra. Jesus e os fariseus por repetidas vezes entraram em choque ante o artificialismo de tal legalismo. O judeu comum, entretanto, admirava os fariseus, como perfeitos modelos de virtude. De fato, formavam eles a coluna mestra do judaísmo.

 

Saduceus.

Os aristocráticos saduceus eram os herdeiros dos hasmoneanos do período intertestamentário. Embora em menor número que os fariseus, detinham maior influência política, porquanto controlavam o sacerdócio. (A idéia prevalente de que os saduceus formavam o partido sacerdotal tem sido desafiado por Victor Eppstein, em Zeitschrift fur die Neutestamentliche Wissenchaft,  55 (1964), págs. 50‑54, e no Journal of Biblical Literatura. 85 (1966), págs. 213‑224. “Saduceus” pode ter significado, originalmente, “membros do concílio supremo , reinterpretado pelos saduceus como “justos”. Mas outros relacionam esse termo a Zadoque, sacerdote nos tempos de Davi e Salomão.) Seus contatos com dominadores estrangeiros tendiam a reduzir sua devoção religiosa, empurrando-os mais na direção da helenização. Diferentemente dos fariseus, eles davam importância somente aos cinco primeiros livros do Antigo Testamento (o Pentateuco, lei mosaica ou Torá), como únicos plenamente autoritativos, e desprezavam às leis orais dos rabinos não‑sacerdotais. Não acreditavam na preordenação divina, em anjos, em espíritos e nem na imortalidade da alma e na ressurreição do corpo, conforme criam os fariseus.

Embora estritos, em certo sentido os fariseus eram de tendências progressistas; pois continuavam aplicando a lei do Antigo Testamento a novas e mutáveis circunstâncias da vida diária. Todavia, os saduceus, confortavelmente situados na vida como estavam, queriam manter o status quo, e, assim sendo, resistiam a qualquer contemporização com a lei, a fim de que não viessem a perder suas favoráveis posições de abastança e riqueza. Visto haver sido destruído em 70 D. C. o centro do poder sacerdotal, o templo, juntamente com grande número dos saduceus propriamente ditos, o partido dos saduceus se desintegrou. Os fariseus, porém, sobreviveram, tendo‑se tornado no alicerce do judaísmo ortodoxo de séculos posteriores.

 

Os essênios.

Os essênios formavam uma seita menor, com cerca de quatro mil adeptos. Tal como os fariseus, eles tiveram origem entre os hasidim (aqueles que se desgostavam dos expansivos alvos políticos dos hasmoneanos). Alguns essênios viviam em comunidades monásticas, como aquela de Qumran, onde foram descobertos os Papiros do Mar Morto. A admissão requeria um período de prova de dois a três anos, com abandono das propriedades privadas e das riquezas, doadas a um tesouro comum. Os elementos mais estritos se refreavam do casamento. Chegavam a ultrapassar aos fariseus em seu minucioso legalismo. Por essa razão, é duvidoso que tenham contribuído de modo significativo para o soerguimento do cristianismo, conforme tem sido sugerido por alguns escritores modernos. Se Jesus denunciara o legalismo dos fariseus, por certo não teria devido muito aos essênios, que eram ainda mais rígidos. Além disso, o fato que Jesus misturava-se com os pecadores fazia agudo contraste com a atitude dos essênios, que se retiravam da sociedade.

 

 

 

 

Os essênios não ofereciam sacrifícios de animais no templo de Jerusalém, porquanto reputavam o templo poluído por um sacerdócio corrupto. Como símbolo de sua pureza pessoal, eles usavam vestes brancas. Essa seita se considerava o remanescente vivo dos eleitos, nos últimos dias. Esperavam o aparecimento de diversas personagens escatológicas ‑ um grande profeta, um messias político‑militar e um messias sacerdotal ‑ e se aprestavam para uma guerra de quarenta anos, que culminaria no reinado messiânico. Um antigo mestre, chamado “Mestre da Justiça”, exercia profunda influência sobre suas crenças e práticas, mas nem de longe ocupava a posição da proeminência divina e remidora atribuída à Jesus dentro da doutrina cristã.

 

Herodianos e Zelotes.

Os herodianos não eram uma seita religiosa, mas uma pequena minoria de judeus influentes ‑ pertencentes sobretudo à aristocracia de sacerdotes saduceus ‑ que davam apoio à dinastia dos Herodes e, implicitamente, ao governo romano, que pusera os Herodes em posição de mando. Em contraste, os zelotes eram revolucionários dedicados à derrubada do domínio romano. Recusavam‑se a pagar taxas a Roma, consideravam a lealdade a César um pecado, e foram iniciadores de diversas revoltas, incluindo a rebelião judaica que resultou na destruição de Jerusalém, em 70 D. C. Os eruditos usualmente identificam os zelotes com os sicários (“assassinos”), que costumavam levar consigo adagas escondidas. Os sicários talvez fossem um ramo extremista dos zelotes, ou então um grupo separado que eventualmente veio a fundir‑se com o movimento dos zelotes. Um dos doze discípulos principais de Jesus fora um zelote (“Simão chamado Zelote”, Lucas 6:1 S; Atos 1 :13).

 

Escribas.

Os escribas não eram nem uma seita religiosa e nem um partido político, e, sim, um grupo de profissionais. “Doutor”, “escriba” e “mestre (da lei)” são expressões sinônimas, no Novo Testamento. A esses deveríamos acrescentar “rabino”, que literalmente quer dizer “meu grande” ou “meu mestre”, professor”. Tendo‑se originado com Esdras, segundo certa tradição, os escribas interpretavam e ensinavam a lei do Antigo Testamento e baixavam decisões judiciais sobre os casos que lhes eram apresentados. A aplicação dos preceitos da lei à vida diária tornava necessária a função interpretativa dos escribas. Por exemplo, o que constituía trabalho em dia de sábado? Os discípulos (“aprendizes”) dos escribas seguiam atrás deles por onde quer que fossem, e aprendiam por rotina de memória as minúcias das tradições do Velho Testamento e rabínicas. Os escribas ensinavam no recinto do templo e nas sinagogas, e ocasionalmente debatiam na presença de seus discípulos.

Pelo tempo de Jesus, a maior parte dos escribas pertencia à seita dos fariseus, embora nem todos os fariseus possuíssem o treinamento teológico que se requeria de um escriba. Visto que a atividade própria dos escribas era gratuita, eles ganhavam seu sustento financeiro mediante algum negócio. Por exemplo, Paulo, que recebera treinamento rabínico, era fabricante de tendas (vide Atos 18:3). Embora não houvesse recebido educação teológica formal, Jesus foi chamado “Rabi”, e cercou‑se de discípulos. Com freqüência Ele ensinava em estruturas rítmicas fáceis de memorizar, declarações concisas e vívidas parábolas. Sempre ensinava com grande autoridade (“Em verdade vos digo…”; comparar Mateus 7:28 s.). Em contraste, os escribas citavam interminavelmente opiniões de rabinos já falecidos.

 

O Sinédrio.

Os romanos permitiam aos judeus manusearem muitas de suas próprias questões religiosas e domésticas. Como resultado, existiam numerosos tribunais locais. O superior tribunal dos judeus era o grande Sinédrio, que se reunia diariamente, exceto aos sábados e outros dias santificados, na área do templo. O Sinédrio chegava mesmo a comandar uma força policial. O sumo sacerdote presidia a setenta outros juízes, membros do tribunal, provenientes dos partidos farisaico e saduceu. O Novo Testamento alude ao Sinédrio mediante os termos “concílio”, “principais sacerdotes, anciãos e escribas”, “principais sacerdotes e autoridades”, ou simplesmente “autoridades”.

 

“O povo da Terra”.

Entre os judeus palestinos, as massas do povo ordinário, chamadas “o povo da terra”, permaneciam desvinculadas das seitas e dos partidos políticos. Por causa de sua ignorância acerca da lei do Antigo Testamento e indiferença para com a mesma, juntamente com as disposições rabínicas, os fariseus menosprezavam-nas, tendo criticado a Jesus por misturar‑se socialmente com o vulgo.

 

A Diáspora.

Fora da Palestina, os judeus da diáspora (“dispersão”) se dividiam em duas categorias: (I) os hebraístas, que retinham não só sua fé judaica, mas também seu idioma judaico e seus costumes palestinos, razão pela qual incorriam no ódio dos gentios, por se manterem distantes; e (2) os helenistas, que haviam adotado o idioma, o estilo de vestes e os costumes gregos, ao mesmo tempo que se apegavam à fé judaica em vários níveis de intensidade. Um notável exemplo do judaísmo helenista foi Filo, um filósofo judeu do primeiro século cristão e residente em Alexandria. Ele combinava o judaísmo e a filosofia grega mediante alegorias baseadas no Antigo Testamento. Não há que duvidar que o judaísmo de fora da Palestina tendia por ser menos estrito e mais influenciado pelas maneiras gentílicas de pensar do que o judaísmo da Palestina. Contudo, não devemos exagerar as diferenças; pois influências helenistas haviam permeado a Palestina, pelo que ali o judaísmo era muito mais variado do que se vê no Talmude, o qual representa um estágio posterior e mais monolítico do judaísmo, segundo aquele quer fazer‑nos entender. Após os fracassos das revoltas contra Roma, em 70 e 135 D. C., o judaísmo da Palestina foi‑se consolidando crescentemente na direção da uniformidade, seguindo as linhas de um farisaísmo que buscava eliminar elementos apocalípticos; porquanto os saduceus haviam perdido a sua base de influência, que era o templo, e os romanos haviam destruído as esperanças de seitas menores de tendências apocalípticas, como eram, por exemplo, os essênios.

 

Educação judaica.

As crianças judias recebiam suas primeiras lições de história e religião dos hebreus, habilidades práticas e, quiçá, também a capacidade de ler e escrever, de seus progenitores. A lei mosaica e o livro de Provérbios, no Antigo Testamento, contêm muitas injunções concernentes a essa responsabilidade dos pais, o que incluía o emprego de punições físicas, para crianças que não aprendessem de modo devido. Os rapazes judeus ingressavam nas escolas das sinagogas locais com cerca de seis anos de idade. Ali era utilizado o Antigo Testamento como manual de leitura e de escrita. As lições também incluíam aritmética simples, tradições judaicas extrabíblicas e os complexos rituais do judaísmo. Além desse estreitíssimo treinamento acadêmico, todo jovem judeu aprendia uma profissão. A fim de tornar‑se um erudito avançado no Antigo Testamento, um jovem judeu vinculava‑se a um rabino, como seu pupilo. Por exemplo, Paulo, antes de sua conversão, estudou aos pés do famoso rabino Gamaliel (vide Atos 22:3).

 

Educação greco-romana.

Em contraste, a educação greco‑romana tinha escopo liberal. Escravos supervisionavam os meninos greco‑romanos em seus primeiros anos, conferindo‑lhes suas primeiras lições, e depois acompanhando‑os às escolas particulares e de volta das mesmas, até que chegassem à idade adulta, em meio a grande cerimonial. Na qualidade de adolescentes, podiam então freqüentar universidades em Atenas, Rodes, Tarso, Alexandria e outras localidades, onde estudavam filosofia, retórica (oratória), leis, matemática, astronomia, medicina, geografia e botânica. Ou poderiam freqüentar as preleções de um filósofo peripatético (“andarilho”), assim chamados porque iam ministrando seus conhecimentos enquanto caminhavam. A elevada taxa de alfabetismo, o que é evidenciado pelos papiros remanescentes, mostra que a educação era generalizada. Era comum as pessoas levarem consigo cadernetas de anotações, onde registravam listas de compras de mercado, encontros e outros memorandos. Até mesmo a taquigrafia já era usada.

Em conclusão, uma larga gama de literatura, incluindo escritos extra‑bíblicos, bem como o Novo Testamento, ajudam‑nos a reconstituir o pano‑de‑fundo pagão e judaico necessário para uma mais completa compreensão do Novo Testamento. O judaísmo, do qual se originou o cristianismo, era uma fé monoteísta que recebera a contribuição mescladora do pensamento religioso e político, além de diversas instituições religiosas e culturais.

 

Para discussão posterior:

‑ Qual preparação religiosa, para a vinda de Cristo e para o surgimento do cristianismo, se evidencia nos tempos imediatamente anteriores ao Novo Testamento?

‑ Há povos modernos que se aferram a crenças e práticas mitológicas, supersticiosas e sincretistas? E, caso contrário, por que não? Em caso positivo, quais são essas crenças e práticas ‑ e por qual razão os cientistas modernos não têm conseguido eliminá-las?

‑ Quais paralelos (bem como diferenças) podem ser traçados entre o gnosticismo e a atual filosofia da educação?

‑ Quais contrapartes dos fariseus, saduceus, essênios, herodianos e zelotes podemos encontrar na cristandade de hoje? A qual desses grupos você ter‑se‑ia juntado, e por quê? Se não se ajuntaria a qualquer deles, aponte seus motivos.

‑ De que modos o processo educativo da cultura ocidental tem combinado características tanto das práticas educativas judaicas quanto das greco‑romanas?

 

Para investigação posterior:

 

(Material primário)

 

Barrett, C. K. The New Testament Background: Selecled Documents. Londres: S.P.C.K., 1958. Especialmente págs. 29‑36, 48‑104, 124‑127, 139‑189, 200‑205. 216‑266.

 

The Oxford Annotated Apocrypha. Editado por B: M. Metzger. Nova Iorque: Oxford, 1965.

The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament. Editado por R. H. Charles. 2 vols. Oxford: Clarendon, 1913. Com introduções e notas técnicas.

Vermès. G. The Dead Sea Scrolls in English. Baltimore: Penguin, 1962.

 

(Tratados modernos)

 

Tenney, M. C. New Testament Times. Grand Rapids: Eerdmans, 1965. Especialmente págs. 79‑128.

Eastwood, C. C. Life and Thought in the Ancient World. Filadélfia: Westminster, 1965.

Glover, T. R. The Conflict of Religions in the Early Roman Empire. Boston: Beacon, 1960.

Rose, H. J. Religion in Greece and Rome. Nova Iorque: Harper & Row, 1959.

Jonas, H. The Gnostic Religion. 29 edição revisada. Boston: Beacon, 1963.

Grant, R. M. Gnosticism. Nova Iorque: Harper & Row, 1961.

Wilson, R. M. The Gnostic Problem. Naperville, Illinois: Allenson, 1958.

Bonsirven, J. Palestinian Judaism in the Time of Jesus Christ. Nova Iorque: Holt, Ridehart & Winston, 1963.

Guignebert, C. The Jewish World in the Time of Jesus. New Hyde Park, Nova Iorque: University Books, 1959.

Coss, T. L. Secrets from the Caves. Nova Iorque: Abingdon, 1963.

Bruce, F. F. Second Thoughts on the Dead Sea Scrolls. Edição revisada e ampliada. Grande Rapids: Eerdmans, 1961.

Mansoor, M. The Dead Sea Scrolls. Grand Rapids: Eerdmans, 1964.

Os três últimos títulos são apenas representantes de numerosos volumes sobre os Papiros do Mar Morto. Quanto a uma completa narrativa de sua descoberta, ver J. C. Trever, The Untold Story of Qumran (Westwood, Nova Jersei: Revell, 1965).

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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