Hebreus: Jesus, Nosso Grande Sumo Sacerdote – Panorama do NT

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Hebreus: Jesus, Nosso Grande Sumo Sacerdote – Panorama do NT

Perguntas Normativas:

 

– Quais são os candidatos mais prováveis à autoria da epístola aos Hebreus?

– A quem foi escrita a epístola aos Hebreus, onde viviam eles e quais eram suas condições espirituais?

– Qual é a distintiva ênfase cristológica da epístola aos He­breus, e como isso se relaciona ao esforço de dissuadir seus leitores de seguirem a apostasia?

 

Tema

O autor da epístola aos Hebreus retrata distintivamente a Jesus Cristo como o grande Sumo Sacerdote que, tendo oferecido nada menos que a Si mesmo, como o sacrifício totalmente suficiente pelos pecados, agora ministra no santuário celestial. O propósito desse retrato, que exibe a superioridade de Cristo sobre todo aspecto e sobre todo herói da religião revelada no Antigo Testamento, foi o de impedir que os leitores originais da epístola revertessem ao judaísmo.

 

Autoria. Paulo

A tradição da Igreja primitiva manifesta-se em tons incertos quanto à autoria do livro anônimo dirigido aos Hebreus. Sem embargo, em data bastante recuada (cerca de 95 D. C.), a epístola aos Hebreus já era conhecida e usada, conforme se vê em I Clemente. Na porção oriental do império romano, Paulo era usualmente reputado seu autor. A teologia do tratado aos He­breus realmente se assemelha à de Paulo, quando se coteja a preexistência e a posição de Cristo como criador, em Hebreus 1:1-4 e Colossenses 1:15-17; a humilhação de Cristo, em Hebreus 2:14-17 e Filipenses 2:5-8; a nova aliança, em Hebreus 8:6 e 11 Coríntios 3:4-11; e a distribuição de dons do Espírito Santo, em Hebreus 2:4 e I Coríntios 12:11. Não obstante, o segmento ocidental da Igreja duvidava da autoria paulina, tendo chegado mesmo a excluir o livro aos Hebreus do cânon, pelo menos a princípio, por causa de dúvidas quanto à autoria do mesmo. Esse fato mostra-nos que a Igreja primitiva não aceitava credulamente a quaisquer obras no cânon neotestamentário sem primeiramente examinar as credenciais comprobatórias no tocante à autoria, à natureza fidedigna e à pureza doutrinária.

A Igreja ocidental tinha bons motivos para duvidar da autoria paulina. Nenhuma das epístolas reconhecidamente pertencentes a Paulo é anônima como a epístola aos Hebreus. O polido estilo grego de Hebreus difere radicalmente do estilo rude desse após­tolo, muito mais do que pode ser explicado pelo emprego de um amanuense diferente. E, se por um lado Paulo apelava constante­mente para sua própria autoridade apostólica, por outro lado o escritor da epístola aos Hebreus apela para autoridade daqueles que tinham sido testemunhas oculares do ministério de Jesus (vide Hebreus 2:3).

 

Barnabé

Outros estudiosos têm sugerido Barnabé, cujo passado como levita (vide Atos 4:36) se harmoniza com o interesse pelas funções sacerdotais que se manifesta por todo o livro aos Hebreus, e cuja associação com Paulo poderia explicar as similaridades com a teologia paulina. No entanto, por ter sido residente em Jerusalém (vide Atos 4:36,37), provavelmente Barnabé chegara a ouvir e ver a Jesus, ao passo que o autor da epístola aos Hebreus inclui a si mesmo entre aqueles que dependiam de outros quanto ao testemunho ocular (vide Hebreus 2:3).

 

Lucas

Lucas, um outro companheiro de Paulo, também é candidato à autoria da epístola aos Hebreus, devido à semelhança de estilo do livro aos Hebreus, em grego culto e polido, e o de Lucas-Atos. Todavia, Lucas-Atos se reveste de uma perspectiva tipicamente gentílica, ao mesmo tempo que o livro aos Hebreus manifesta-se altamente judaico.

 

Apolo

Martinho Lutero sugeria a autoria de Apolo, cuja familiaridade com Paulo (vide 1 Coríntios 16:12), além de ter sido melhor instruído por Priscila e Áqüila (vide Atos 18:26), pode ser justificativa para a semelhança com a teologia paulina que se vê em Hebreus. A eloqüência de Apolo (vide Atos 18:24,27,28) poderia ter produzido o estilo elevadamente literário da epístola aos He­breus. Outrossim, seu passado formativo alexandrino se adapta ao uso exclusivo da Setuaginta, na epístola em apreço, quando de citações extraídas do Antigo Testamento, porquanto a Setua­ginta foi produzida em Alexandria, no Egito.(Alguns eruditos traçam o paralelo entre as interpretações alegóricas do Antigo Testamento, pelo filósofo judeu Filo, contemporâneo de Apolo e também nativo de Alexandria, e o manuseio das revelações do Velho Testamento em Hebreus. Todavia, Hebreus trata o Antigo Testamento como história simbólica, e não como alegoria.) Porém, a ausência de tradições antigas em favor de Apolo deixa-nos na dúvida a esse respeito.

 

Silvano

A suposição de que Silvano (ou Silas), companheiro de Paulo, tenha sido o autor de Hebreus, também pode explicar as suas similaridades com a teologia paulina. Mas não muito mais do que isso pode ser dito em favor ou contra a autoria de Silvano.

Felipe

Outro tanto se pode dizer no que tange à sugestão de que Filipe escreveu a epístola ao Hebreus.

 

Priscila

Harnack sugeriu Priscila, devido às íntimas associações entre ela e Paulo, e engenhosamente argumentou que ela escrevera a obra no anonimato porque a autoria da parte de uma mulher não era aceitável pelo público.

 

Clemente de Roma

As semelhanças entre Hebreus e I Clemente permitem a possibilidade que seu autor tenha sido Clemente de Roma. Entre­tanto, há muitas diferenças quanto à perspectiva, e o mais provável é que Clemente tenha feito empréstimos da epístola aos He­breus, e nada mais. Juntamente com Orígenes, pai da antiga Igreja, concluímos que somente Deus sabe quem escreveu a epístola aos Hebreus.

 

Destinatários

A despeito do tradicional apêndice do título “aos Hebreus”, alguns têm pensado que esse livro foi originalmente endereçado a crentes gentílicos. Em apoio a essa opinião, apela-se ao estilo polido no grego e ao contínuo uso da Setuaginta, havendo apenas um desvio ocasional em relação à tradução grega do Antigo Testamento. Todos esses fenômenos, entretanto, nada deixam implícito quanto aos destinatários originais da epístola. Indicam tão-­somente o passado formativo de seu autor. O uso freqüente do Antigo Testamento, o pressuposto conhecimento dos rituais judaicos, a advertência para seus leitores não reverterem ao judaísmo, além do título tradicional e antiquíssimo do livro, tudo aponta para o fato que o livro foi endereçado originalmente a judeus cristãos.

 

Destinação

À primeira vista, poderia parecer mais verossímil que esses judeus cristãos viviam na Palestina. Mas, levando-se em conta o trecho de Hebreus 2:3, seus leitores não tinham visto nem ouvido a Jesus, pessoalmente, durante Seu ministério terreno, conforme muitos cristãos palestinos sem dúvida o tinham feito; e, em consonância com Hebreus 6:10, eles haviam ajudado financeira e materialmente a outros cristãos, ao passo que os cristãos palestinos eram pobres e tinham recebido ajuda externa (vide Atos 11:27-30; Romanos 15:26 e II Coríntios 8 e 9). Outrossim, o conhecimento que os seus leitores dispunham sobre os rituais judaicos ao que parece provinha do Antigo Testamento segundo a versão da Septuaginta, e não porque freqüentassem aos cultos no templo de Jerusalém. E a declaração, “Os da Itália vos saúdam­(13:24), soa como se italianos distantes da Itália estivessem enviando saudações de volta à sua pátria. Nesse caso, Roma seria o destino provável da presente epístola. Consubstanciando essa conclusão, temos de considerar o fato que a evidência em prol do conhecimento da epístola aos Hebreus nos chega, antes de tudo, de Roma (vide I Clemente). (vide ainda W. Manson, The Epistle to the Hebreus (Londres: Hodder & Stough­ton, 1951).)

Recentemente, H. Montefiore propôs que Apolo escreveu a epístola aos Hebreus em Éfeso, à igreja de Corinto, especial­mente a seus membros judeus cristãos. (A Commentary on the Epistle to the Hebrews (Londres: Black, 1964).) em 52-54 D, C. Ele traçou numerosos paralelos entre Hebreus e a correspondência de Paulo com os crentes coríntios. De acordo com essa posição, as palavras “Os da Itália vos saúdam” (13:24) seriam Priscila e Áqüila, os quais originalmente se tinham mudado de Roma para Corinto, mas depois acompanharam Paulo de Corinto a Éfeso. Poderíamos inquirir, entretanto, por qual motivo o autor da epístola aos Hebreus não mencionou por nome a Priscila e Áquila, mas preferiu usar uma expressão generalizadora, sobretudo diante do fato que acabara de mencionar a Timóteo por nome. Não obstante, os argumentos de Montefiore merecem séria consideração.

 

Propósito

Onde quer que habitassem os destinatários da epístola, eram bem conhecidos do seu autor. Ele escreve a respeito da generosidade deles (vide 6:10), das perseguições que vinham sofrendo (vide 10:32-34 e 12:4), da imaturidade deles (vide 5:11 – 6:12) e de sua esperança de que em breve haveria de visitá-los novamente (vide 13:19,23). Dois detalhes adicionais podem ser muito significativos: (1) os leitores da epístola são exortados a saudar não somente os líderes e demais membros de sua própria congregação, mas também “a todos os santos” (13:24); (2) eles são repreendi­dos por não se reunirem com a necessária freqüência (vide 10:25). O mais provável, portanto, é que fossem um grupo de cristãos judeus que se reuniam em algum domicílio e que se tinham separado do corpo central de cristãos da localidade em que viviam, e que agora corriam o perigo de retornar ao judaísmo, a fim de evitarem as perseguições. (O desaparecimento tão repentino de uma tradição segura quanto à autoria do livro pode dever-se ao separatismo dos destinatários originais. Outras identificações quanto aos destinatários são que eles eram um grupo de sacerdotes judeus convertidos (vide Atos 6:7), ou um grupo de convertidos da seita de Qumram, a qual produziu os papiros do Mar Morto.) O propósito funda­mental da epístola é justamente o de entravar tal apostasia, trazendo-os de volta ao caudal da comunhão cristã.

 

Data

O uso da epístola aos Hebreus, em I Clemente, requer que tal epístola tenha sido escrita antes de 95 D. C., data de I Clemente. Também se tem argumentado que os verbos no tempo presente, que se vêem na epístola aos Hebreus, ao descrever a mesma os rituais expiatórios, subentendem uma data anterior ao ano 70 D. C., ano em que Tito destruiu o templo de Jerusalém e os sacrifícios deixaram de ser oferecidos ali pelos judeus. Todavia, outros escritos que por certo datam de após o ano 70 D. C., continuam a  usar verbos no tempo presente ao aludirem aos rituais mosaicos (vide I Clemente, Josefo, Justino Mártir e o Talmude). Além disso, a epístola aos Hebreus não faz a descrição dos rituais efetuados no templo, e, sim, dos rituais do “tabernáculo” pré­salomônico, pelo que os verbos no tempo presente consistem tão só de um vívido estilo literário, não podendo subentender coisa alguma no tocante à data em que foi escrito o livro aos Hebreus. O que realmente favorece uma data anterior a 70 D. C., para a escrita do livro, é a ausência a qualquer alusão, nessa epístola, à destruição do templo de Jerusalém, como indicação divina de que o sistema de holocaustos do Antigo Testamento se tornara obsoleto. Não há que duvidar que o autor sagrado ter-se-ia valido de um argumento histórico dessa magnitude, se aquele aconteci­mento já houvesse ocorrido.

 

Forma literária

Tal como no caso de outras epístolas, Hebreus termina com alusões pessoais, mas, divergentemente de outras epístolas, ela não conta com saudações introdutórias. O estilo de oratória e observações como “Certamente me faltará o tempo necessário para referir…” (11:32), parecem indicar mais um sermão. Porém, a assertiva: “…vos escrevi resumidamente” (13:22), requer que pensemos que o livro de Hebreus é uma epístola, afinal de contas, embora escrita segundo o estilo de um sermão.

 

A superioridade de Cristo

A fim de impedir seus leitores de retornarem ao judaísmo, o autor de Hebreus ressalta a superioridade de Cristo em relação a tudo o mais, especialmente em relação a várias características do judaísmo originadas do Antigo Testamento. A expressão “melhor que” epitoma o tema predominante da superioridade de Cristo, um tema reiterado enfaticamente por toda a obra, mediante exortações para que seus leitores não apostatassem da fé cristã.

 

Superior aos profetas

Cristo é superior aos profetas do Antigo Testamento por­quanto é Ele o próprio Filho de Deus, o herdeiro do universo, o criador, o reflexo exato da natureza divina, o sustentador da vida no mundo, o purificador dos pecados, o Ser exaltado – e, por conseguinte, a última e mais excelente palavra de Deus ao homem (vide 1:13a).

 

Superior aos anjos

         Cristo é também superior aos anjos, a quem os contemporâneos judeus do autor sagrado reputavam mediadores da legislação mosaica, no Monte Sinai (vide Atos 7:53 e Galátas 3:19); porque Cristo é o Filho divino e criador eterno, mas os anjos são apenas servos e seres criados (vide 1:3b – 2:18). E mesmo o fato que Ele se tornou menor que os anjos, mediante a encarnação e a morte, foi uma ocorrência meramente temporária. Era mister que Ele se tivesse tornado um ser humano a fim de estar qualificado como aquele que, por Sua morte, pudesse elevar o homem decaído àquela dignidade que originalmente lhe fora propiciada  por Deus, quando da criação. Por causa de Seu ato expiatório, Cristo foi revestido de imensa honra. Na metade dessa seção é que ocorre uma exortação que insta para que os leitores originais da epístola não declinassem da sua profissão cristã (vide 2:1-4). Ler Hebreus 1 e 2.

 

Superior a Moisés

Na posição de divino Filho sobre a casa de Deus, Jesus Cristo é superior a Moisés, um servo na casa de Deus(vide 3:1-6). A exortação, pois, visa a evitarmos incorrer no juízo de Deus, em resultado da incredulidade. A geração de israelitas que saiu do Egito sob a liderança de Moisés, mas morreu no deserto por causa da indignação divina contra a rebelião deles provê um terrível exemplo de advertência (vide 3:7-19).

 

Superior a Josué

Cristo é melhor do que Josué; pois embora Josué tenha feito Israel entrar na terra de Canaã, Cristo conduzirá aos crentes ao lugar de repouso eterno, nos céus, onde Deus descansa de Sua obra criativa (vide 4:1-10). É óbvio que Josué não conseguiu fazer Israel entrar nesse repouso celestial; porquanto muito tempo de­pois de Josué ter vivido e morrido, Davi falou do lugar de re­pouso de Israel como lugar ainda não atingido (vide Salmo 95:7,8).(Outra interpretação é que o “descanso” ao qual Jesus conduz os crentes não é o futuro repouso celeste, após as boas obras do viver cristão, mas é o presente repouso espiritual, ou cessação da justiça própria mediante as obras da lei, ante a redenção já realizada por meio de Cristo. Todavia, o aviso intimamente relacionado acerca da apostasia, com suas temíveis conseqüências, e o paralelo entre o fato que Deus descansou de Sua (boa) obra da criação e nosso repouso do trabalho favorecem a interpretação acima. Ainda uma outra opinião diz que o descanso do crente não é a própria salvação (quer presente quer futura), mas um vi­ver cristão bem sucedido, tipificado pela conquista de Canaã por Josué. Nova­mente, porém, essa interpretação tende por cortar a conexão entre a passagem e os avisos contra a apostasia.) A comparação entre Jesus e Josué é bem mais impressionante no Novo Testamento grego, pois o apelativo hebraico “Josué” assume a forma “Jesus”, no grego. Noutras palavras, o texto grego desconhece a distinção entre o nome próprio Josué, do Antigo Testamento, e o nome próprio Jesus, do Novo Testa­mento.

Em prosseguimento, o autor exorta os seus leitores a entrarem no descanso celestial, através da fidelidade à sua profissão cristã (vide 4:11-16). Essa ênfase posterior sobre a total suficiência da obra expiatória de Jesus elimina qualquer implicação de que a continuação das boas obras, na vida do crente, merece a salvação. Entretanto, as boas obras e o desviar-se da apostasia são coisas necessárias para demonstração da genuinidade da profissão de fé cristã. O décimo segundo versículo contém a famosa comparação da Palavra de Deus com uma espada de dois gumes, que penetra e desnuda o ser mais interior do homem. Por conseguinte, os crentes devem provar que sua externa profissão de fé se origina de uma realidade interna. Ler Hebreus 3 e 4.

 

Superior Arão

Cristo é superior a Arão e seus sucessores no ofício sumo sacerdotal (vide 5:1 – 12:29). O autor da epístola aos Hebreus primeiramente destaca dois pontos de semelhança entre os sacerdotes arônicos e Jesus Cristo: (1) à semelhança de Arão, Cristo foi divinamente nomeado ao sumo sacerdócio, e (2) ao compartilhar de nossa experiência humana, Cristo adquiriu por nós uma simpatia pelo menos igual àquela de Arão (vide 5:1-10). O mais proeminente exemplo desses sentimentos de Jesus foi que Ele instintivamente procurou furtar-se da morte, quando orava no jardim do Getsêmani (embora jamais do terror da morte, como se fosse culpado, e, obviamente, também não houve a recusa de aceitar a cruz).

Em seguida há uma longa exortação (vide 5:11 – 6:20) com vis­tas ao progresso que nos leva da infância à maturidade espirituais, se avançarmos para além das doutrinas elementares da fé judaica, que formam o alicerce da fé cristã e que adquirem uma nova significação no seu contexto cristão. Quando o crente não se desenvolve espiritualmente, isso aumenta o perigo de vir a apostatar. E se um cristão renunciar a Cristo de maneira pública, voluntária e final, deixará de existir para sempre toda e qualquer possibilidade de salvação. O autor sagrado descreveu os seus leitores como cristãos falando do ponto de vista de sua presente profissão de fé (não conhecendo os seus corações, de que outra maneira poderia tê-los descrito?), mas continua e salienta que a apostasia tanto haveria de demonstrar a ilegitimidade de sua profissão cristã como os levaria a incorrer em irrevogável julga­mento, por motivo de falsa profissão. Deve-se notar que a apostasia envolve um sentido muito mais grave do que no caso de desobediência temporária. Ler Hebreus 5 e 6.

Os itens frisados da superioridade de Cristo sobre Arão são: (1) Cristo se tornou sacerdote em virtude de um juramento divino, mas não assim com os aronitas (Arão e seus descendentes sacerdotais); (2) Cristo é eterno, ao passo que os aronitas morriam e tinham de ser substituídos; (3) Cristo é impecável, ao passo que os aronitas não o eram; (4) as funções sacerdotais de Cristo envolvem as realidades celestiais, mas as dos aronitas dizem respeito somente a símbolos terrenais; (5) Cristo ofereceu-se a Si mesmo voluntariamente como um sacrifício que jamais precisará ser repetido, ao passo que as repetitivas ofertas de animais desmascaram a sua ineficácia, pois animais inferiores não podem tirar os nossos pecados; e (6) o próprio Antigo Testamento, escrito durante o período do sacerdócio arônico, predizia que sobreviria uma nova aliança, que tornaria obsoleto ao antigo pacto, segundo o qual funcionava o sacerdócio arônico (vide Jeremias 31:31-34).

Muito se tem disputado sobre a interpretação correta da advertência que aparece em Hebreus 6:1-12, a saber:

(1) Aqueles que ensinam que a passagem fala de aterrorizante possibilidade de um verdadeiro crente reverter à condição de perdição, têm de ver-se a braços com a declarada impossibilidade de restauração (vide 6:4), e isso contrariamente àqueles trechos neotestamentários que asseguram a eterna segurança para os crentes, para os eleitos (vide João 6:39,40; 10:27-29; Romanos 11:29: Filipenses 1:6; 1 Pedro 1:5 e 1 João 2:1), e também em desacordo com a doutrina inteira da regeneração.

(2) Aqueles que sentem que o autor da epístola aos Hebreus postula aqui uma hipótese, e não uma possibilidade realista, descobrem que a reiteração dessa urgente advertência, aqui e alhures nesta epístola (vide especialmente 10:26-31), é algo muito embaraçador.

(3) Aqueles que diluem a severidade do juízo ameaçador, da perda da salvação para a perda de galardões (em que a salvação por um triz não se perdera – comparar com 1 Coríntios 3:12-15), descobrem-se antagonizando o que fica implícito em Hebreus 6:9, isto é, que o juízo aqui ameaçado é o oposto da salvação: `…estamos persuadidos das cousas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira.” (Comparar isso com Hebreus 10:27: “… certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários”.)

(4) Aqueles que encaram essa advertência como se ela houvesse sido dirigida a quase cristãos, e não a cristãos no mais alto sentido da palavra, são forçados a minimizar a força das expressões “… aqueles que uma vez foram iluminados (comparar com 10:32; II Coríntios 4:4,6; I Pedro 2:9; et passim), e provaram do dom celestial (comparar com o fato que Cristo `provou’ a morte a favor de todo homem (vide 2:9), certamente uma experiência plena), e se tornaram participantes do Espírito Santo (comparar com o fato que Cristo se tornou participante da natureza humana (vide 2:14), certamente não uma encarnação parcial), e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro (comparar com I Pedro 2:3)”. Esses também sentem grande dificuldade ante o apelo em favor da maturidade, e não da conversão, ante a advertência a respeito da “apostasia” (vide 6:6), e não a respeito de não se haver confessado a Cristo no princípio, e ante o título conferido aos leitores da epístola, “amados”, um termo distintivamente cristão (vide 6:9; comparar com 10:30: “O Senhor julgará o seu povo”).

(5) A interpretação mais promissora é aquela que encara essa advertência como uma aviso dirigido a cristãos professos, ficando entendido que esses devem demonstrar a genuinidade de sua profissão resistindo à pressão tendente à apostasia. Se, por uma parte, as passagens que nos asseguram a eterna segurança do crente refletem a perspectiva divina (Deus, que conhece perfeitamente aos corações dos homens, resguardará para sempre aos que Lhe pertencem), por outra parte a presente advertência,  juntamente com outras que lhe são correlatas, reflete a perspectiva humana (os cristãos, que conhecem imperfeitamente aos seus corações, devem demonstrar a si mesmo e a outros, me­diante exteriorizações na forma de correta conduta, que a sua profissão de fé é real, não mediante uma perfeição impecável, mas mediante a perseverança contra a oposição e a tentação). Dessa forma, o autor do livro aos Hebreus dirige-se a seus leitores como cristãos, como não poderia mesmo ser diferente, por­quanto ao escrever-lhes todos se professavam crentes. Todavia, diferentemente de Deus, ele não poderia conhecer seu estado espiritual interno. Por isso, viu-se forçado a adverti-los contra o perigo da profissão falsa, contra a apostasia final que vem mediante a negação voluntária, e finai da fé cristã anteriormente professada, e contra o julgamento irrevogável disso tudo resultante. Na verdade, não é possível alguém ser salvo e depois perder-se, mas isso é aparentemente possível, e essa “aparência” deve ser tratada com toda a gravidade, porquanto os seres humanos se movimentam principalmente no nível do que é aparente.

Quanto à distinção entre a perspectiva divina e a perspectiva humana, podemos consultar o trecho de I Samuel 16:7b (“O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração”), confrontando­o com a doutrina paulina da justificação pela fé (à vista de Deus), e também com a doutrina de Tiago da justificação comprovada pelas obras (à vista dos homens). É importante reconhecermos a validade e a seriedade de ambas perspectivas. Finalmente, o propósito de advertências como essa não é perturbar os crentes conscienciosos, e, sim, acautelar os crentes negligentes, para que não terminem por nem ser cristãos, afinal de contas.

 

Melquisedeque

Alicerçando-se sobre a sugestão da assertiva em Salmo 110:4, de que o rei messiânico seria sacerdote segundo o padrão de Melquisedeque, o autor da epístola aos Hebreus descobre diversos paralelos entre Cristo e aquela misteriosa personagem do Antigo Testamento, a quem Abraão deu uma décima parte dos despojos, depois da batalha na qual resgatou a Ló de seus captores (vide Gênesis 14). Ora, Melquisedeque era sacerdote de Deus; assim também o é Cristo. O nome “Melquisedeque” significa “Rei da Justiça” (ou, mais literalmente ainda, “meu rei é justo”); o homem que tinha esse nome era rei de “Salém” (provavelmente uma forma abreviada de “Jerusalém”), que significa “paz” (no sentido de completa bênção divina); e justiça e paz são características e resultados do ministério sacerdotal de Cristo. A ausência, nas páginas do Antigo Testamento, de qualquer genealogia registrada de Melquisedeque ou de narrativas sobre seu nas­cimento e morte (naturalmente, ele teve pais e antepassados, nasceu e morreu), tipifica a real eternidade de Cristo como Filho de Deus, em contraste com a morte que atingia a todos os sacerdotes da linhagem de Arão. A superioridade de Cristo sobre Arão é ainda retratada pelo fato que Abraão deu a Melquisede­que a décima parte dos despojos tomados em batalha, sendo que Arão era descendente de Abraão. A solidariedade de uma pessoa com seus ancestrais fica assim pressuposta. Idêntica superioridade aparece, novamente, no fato que Melquisedeque abençoou a Abraão, e não vice-versa, pois o maior é quem abençoa ao menor. Ler Hebreus 7:1 – 10:18.

 

Exortação

A epístola aos Hebreus se encerra com longa seção exortatória e algumas saudações finais (vide 10:19 – 13:25). O autor dela exorta seus leitores a usarem o método superior de aproximação a Deus por intermédio de Cristo, e não através do método ultrapassado do Antigo Testamento, mormente na adoração coletiva, a qual estavam abandonando (vide 10:19-22). E adverte-os novamente, tal como no sexto capítulos, a respeito do terrível julgamento que sobrevém àqueles que, aberta e terminante­mente, repudiam a sua profissão cristã, apesar do que, expressa a sua confiança, baseada na constância anterior de seus leitores, sob a perseguição, de que não haveriam de cair na apostasia (vide 10:23-31).

Em seguida, encoraja-os a uma contínua perseverança, citando, como exemplos, os heróis da fé do Antigo Testamento, (O capítulo 11 é, às vezes, considerado o grande capítulo da fé do Novo Testa­mento, assim como I Coríntios 13 é o capítulo do amor e I Coríntios 15 o capítulo da ressurreição.) vinculando a estes os seus leitores, e, finalmente, citando a pessoa de Jesus como o mais extraordinário exemplo de paciente perseverança sob os sofrimentos, após o que recebeu o seu galardão (vide 10:32 – 12:3). O sofrimento é uma excelente disciplina, além de ser um sinal de filiação (vide 12:4-13). Por outro lado, Esaú se torna um exemplo negativo, que adverte acerca do fim dos apóstatas infiéis (vide 12:14-17).

Em conclusão, o escritor sagrado novamente põe em relevo a superioridade do novo pacto, fundamentado como está sobre o sangue de Cristo (vide 12:18-29), e exorta os seus leitores ao amor mútuo, à hospitalidade (especialmente necessária naqueles dias, para os pregadores itinerantes), à simpatia, ao uso saudável e moral do sexo, dentro dos liames do matrimônio, à necessidade de evitar a avareza, à imitação do exemplo dado pelos líderes eclesiásticos piedosos, à necessidade de evitar os ensinamentos distorcidos, à aceitação conformada diante da perseguição, às ações de graças, à generosidade, à obediência aos líderes eclesiásticos e à oração. Ler Hebreus 10:19 – 13,25.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE HEBREUS

 

Tema: a superioridade de Cristo como impediente da apostasia, ou seja, a rever­são do cristianismo ao judaísmo

  1. A SUPERIORIDADE DE CRISTO SOBRE OS PROFETAS DO ANTIGO TESTAMENTO (1:1-3a)
  2. A SUPERIORIDADE DE CRISTO SOBRE OS ANJOS (1:3b – 2:18), E AVISO QUANTO À APOSTASIA (2:1-4)

III. A SUPERIORIDADE DE CRISTO SOBRE MOISÉS (3:1-6), E AVISO QUANTO À APOSTASIA (3:7-19)

  1. A SUPERIORIDADE DE CRISTO SOBRE JOSUÉ (4:1-10), E AVISO QUANTO À APOSTASIA (4:11-6)
  2. A SUPERIORIDADE DE CRISTO SOBRE OS ARONITAS E AVISOS QUANTO À APOSTASIA (51 – 12:29)
  3. A Simpatia humana de Cristo e Sua divina nomeação ao sumo sacerdócio (5:1-10)
  4. Aviso quanto à apostasia com uma exortação acerca da busca pela maturidade (5:11 – 6:10)
  5. Melquisedeque, modelo do sumo sacerdócio de Cristo (7:1-10)
  6. Caráter transitório do sacerdócio arônico (7:11-28)
  7. Realezas celestiais do sacerdócio de Cristo (8:1 – 10:18)
  8. Advertência contra a apostasia (10:19-39)
  9. Encorajamento derivado dos heróis da fé do Antigo Testamento (11:1-40)
  10. Encorajamento derivado do exemplo dado por Cristo (12:1-11)
  11. Advertência acerca da apostasia, com o mau exemplo de Esaú (12:12-29)
  12. EXORTAÇOES PRÁTICAS (13:1-19)

CONCLUSÃO: Saudações, notícia da libertação de Timóteo, e bênção final (13:20-25)

 

Para discussão posterior.­

 

– É importante determinar a autoria da epístola aos Hebreus, bem como sua data, destino geográfico e leitores originais da mesma?

– Qual teria sido a provável apologia do autor da epístola aos Hebreus, se defrontado pela moderna denúncia de que a salvação mediante o sangue sacrificial é um conceito religioso primitivo?

– Se Deus percebe com exatidão o estado espiritual íntimo de um crente professo, enquanto outras pessoas julgam-no apenas com uma relativa certeza, através das aparências externas, de que modos um crente pode informar-se sobre seu próprio estado espiritual, e com que grau de certeza?

 

Para investigação posterior:

 

Bruce, F.F. The Epistle to the Hebrews. Grand Rapids: Eerdmans, 1964.

Hewitt, T. The Epistle to the Hebrews. Grand Rapids: Eerdmans, 1960.

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Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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