FERVOR: SUA DEFORMAÇÃO E SUA PRESERVAÇÃO – Teologia Pastoral

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FERVOR: SUA DEFORMAÇÃO E SUA PRESERVAÇÃO – Teologia Pastoral

Se me perguntassem: Qual a qualidade deveras essencial de um ministro cristão que assegura êxito na conquista de almas para Cristo? Eu responderia: “fervor”. E se me fizessem a mesma pergunta uma segunda e uma terceira vez, não mudaria a minha resposta, pois a observação pessoal me leva a concluir que, em regra, o verdadeiro sucesso é proporcional ao grau em que o pregador é ardoroso. Tanto os grandes homens como os de menor vulto obtêm bom êxito se vivem inteiramente para Deus, e, se não, falham. Conhecemos homens eminentes que alcançaram alta reputação, atraem multidões de ouvintes e são muito admirados, mas, não obstante, estão em baixo grau na escala dos conquistadores de almas. Isso porque tudo o que fazem naquela direção poderiam aplicar sendo preletores de anatomia ou oradores políticos.

Ao mesmo tempo, temos visto seus companheiros de habilidades sendo tão benéficos à atividade ligada à conversão dos pecadores que, evidentemente, as suas capacidades adquiridas e os seus dons não lhes constituem obstáculos, e, sim, o inverso. Sim, porquanto, pelo intenso e devotado uso das suas capacidades, e pela unção do Espírito Santo, levaram muitos a volver-se para a justiça. Temos visto irmãos de habilidades muito limitadas, terríveis carretões na igreja, que se mostram tão ineficientes em suas esferas de ação como os cegos num observatório. Por outro lado, porém, homens dotados de potencial igualmente pequeno, são-nos conhecidos como poderosos caçadores diante do Senhor, mediante cuja santa energia muitos corações foram capturados para o Salvador.

Delicia-me a observação de McCheyne: “O que Deus abençoa não é tanto o grande talento, como a grande semelhança com Cristo.”

Em muitos casos se rastreia e se encontra a explicação quase total do sucesso ministerial num zelo intenso, numa consumidora paixão pelas almas e num ardente entusiasmo pela causa de Deus; e cremos que em cada caso, estando as outras coisas presentes em igual medida, os homens prosperam no serviço divino na proporção em que os seus corações estejam inflamados de santo amor: “O deus que responder por fogo esse será Deus”; e o homem que tiver língua de fogo, esse será ministro de Deus.

Irmãos, como pregadores, vocês e eu devemos ser sempre fervorosos com referência ao nosso trabalho de púlpito. Nisto devemos labutar para atingir de fato o supremo grau de excelência. Freqüentemente digo a meus irmãos que o púlpito do as Termópilas da cristandade; ali a batalha será ganha ou perdida. Para nos ministros, a preservação do nosso poder no púlpito deve ser a nossa grande preocupação. Temos que ocupar aquela torre de vigia com os nossos corações e mentes alertados e em pleno vigor. Não nos adiantará sermos laboriosos pastores se não formos pregadores fervorosos. Receberemos o perdão de muitos pecados na questão das visitas pastorais, se as almas forem realmente alimentadas no dia de santo repouso. Mas, alimentadas é o que devem ser, e nenhuma outra coisa compensará isso. Os fracassos de muitos ministros que vão água abaixo podem ser explicados pela ineficácia no púlpito. A principal atividade de um capitão do mar é saber dirigir o seu navio; nada pode ressarcir a deficiência nisso. Assim os nossos púlpitos devem receber o nosso maior cuidado, ou tudo andará torto. Os cães brigam com freqüência porque o suprimento de ossos é escasso, e freqüentemente os membros das igrejas brigam porque não recebem alimento espiritual suficiente para mantê-los felizes e pacíficos. A razão aparente da insatisfação pode parecer alguma outra coisa, mas, nove vezes em dez a deficiência nas rações é a causa das dissensões que ocorrem em nossas igrejas. Como todos os outros animais, os homens sabem quando estão bem alimentados, e geralmente se sentem bem dispostos depois de uma refeição. Assim, quando os ouvintes vêm à casa de Deus e obtêm “alimento conveniente para eles”, esquecem muitas ofensas na alegria da festa, mas se forem mandados embora com fome, estarão irritadiços como uma ursa cujas crias lhe foram roubadas.

Agora, para sermos aceitáveis, precisamos ser fervorosos quando aplicados à pregação propriamente dita. Bem disse Cecil que o espírito e os modos do pregador muitas vezes produzem mais efeito do que o conteúdo da mensagem. Ir para o púlpito com o ar negligente daqueles cavalheiros que se refestelam aqui e acolá, e se recostam na almofada como se tivessem encontrado afinal um tranqüilo lugar de repouso, é, creio eu, extremamente censurável. Levantar-se diante do povo para distribuir lugares comuns que não custaram nada ao pregador, como se qualquer coisa servisse para um sermão, não apenas deprecia a dignidade do nosso oficio, mas é ofensivo à vista de Deus.

Temos que ser fervorosamente zelosos no púlpito por amor de nós mesmos, pois não conseguiremos manter por muito tempo a nossa posição de líderes da igreja de Deus se formos insípidos. Além disso, temos que ser dinâmicos por amor dos membros da igreja e dos conversos, pois, se não formos zelosos, nem eles o serão tampouco. Não é da ordem da natureza que os rios corram morro acima, e não acontece com freqüência que o zelo suba dos bancos dos ouvintes ao púlpito. O natural é que flua de nós para os nossos ouvintes. Portanto, o púlpito deve estar em nível mais alto de ardor, se é que havemos de, sob Deus, tornar os crentes mais fervorosos, e conservá-los assim. Aqueles que acompanham o nosso ministério têm muito que fazer durante a semana. Muitos deles têm provações na família e pesadas cargas pessoais para transportar, e freqüentemente entram na reunião frios e desligados, com os pensamentos perambulando para lá e para cá. Compete-nos apanhar aqueles pensamentos e lançá-los ao formo do nosso zelo fervoroso, fundi-los mediante contemplação santa e apelos intensos, despejando-os depois no molde da verdade.

O ferreiro não pode fazer nada depois que se apaga o fogo, e, neste aspecto, é o tipo do ministro. Se todas as luzes do mundo exterior se extinguem, a lâmpada que arde no santuário deve permanecer chamejante; por este fogo jamais deve repicar o toque de recolher. Devemos considerar os freqüentadores como a madeira e o sacrifício, bem embebidos duas ou três vezes pelas preocupações da semana, e sobre os quais devemos, como o profeta, rogar fogo dos céus. Um ministro molenga cria um auditório de molengas. Você não pode esperar que os oficiais e os membros da igreja viajem a vapor se o próprio pastor que elegeram ainda dirige a velha carroça de rodas grandes. Cada um de nós devia ser como aquele reformador descrito como, “Vividus vultus, vividi occuli, vividae manus, denique omnia vivida“, que prefiro traduzir livremente assim: “Figura irradiando vida, olhos e mãos cheios de vida; em suma, um pregador vívido, totalmente vivo.”

“A tua alma precisa transbordar,

se alcançar a alma de outrem é o que quer.

A fim de dar aos lábios bem falar,

coração transbordante se requer.”

Como a igreja, o mundo também sofrerá, se não formos fervorosos. Não podemos esperar que um evangelho vazio de fervor exerça poderoso efeito sobre os inconversos ao nosso redor. Uma das desculpas mais soporíferas para a consciência de uma gerarão iníqua é a indiferença do pregador. Se o pecador nota que o pregador está meio dormindo enquanto fala do juízo vindouro, concluí que esse juízo é algo sobre o que o pregador está sonhando, e resolve considerar isso tudo como simples ficção. Todo o mundo exterior é objeto de sério perigo a que o submete o pregador de coração frio, pois ele deduz a mesma conclusão a que chega o pecador individual: persevera em sua negligência, dedica suas energias aos seus bens transitórios, e se considera sábio por agir assim. Como poderia ser de outro modo? Se o profeta deixa para trás o coração quando professa falar em nome de Deus, que poderá esperar, senão que os ímpios ao seu redor fiquem persuadidos de que não há nada na mensagem dele, e que sua comissão evangélica é uma farsa?

Ouçam como Whitefield pregava, e nunca mais ousem ser letárgicos. Winter diz dele que “às vezes chorava copiosamente, e freqüentemente ficava tão dominado que, por alguns segundos, você suspeitaria que ele nunca mais se recuperaria; e ao recuperar-se, a natureza exigia um pouco de tempo para recompor-se. Mal sei se houve alguma ocasião em que ele foi até o fim do sermão sem chorar pouco ou muito. Sua voz muitas vezes era interrompida por seus impulsos de afeto. Eu lhe ouvi dizer no púlpito: “Vocês me censuram por chorar. Mas, como posso deixar de fazê-lo, quando vocês não choram por si mesmos, apesar de que as suas almas estão à beira da destruição, e algo me diz que vocês estão ouvindo um sermão pela última vez e pode ser que nunca mais tenham oportunidade de receber o oferecimento de Cristo?”

O fervor no púlpito deve ser real. Não deve ser um arremedo. Nós o vimos falsificado, mas qualquer pessoa com um pingo de discernimento podia detectar o embuste. Bater os pés, golpear o púlpito, suar, gritar, vociferar, citar trechos patéticos de sermões alheios, ou derramar voluntárias lágrimas de olhos aguacentos, nunca substituirão a verdadeira agonia de alma e real ternura de espírito. A melhor peça de representação não passa de representação. Os que só olham as aparências podem agradar-se dela, mas os que amam a realidade terão desgosto. Que presunção! Que hipocrisia é, com habilidoso controle da voz, imitar a paixão que é a obra genuína do Espírito Santo! Tenham cuidado os meros atores, para não serem achados pecando contra o Espírito Santo com as suas representações teatrais.

Devemos ser fervorosos no púlpito porque somos fervorosos em toda parte. Precisamos flamejar em nossos discursos porque estamos continuadamente inflamados. O zelo que fica armazenado para ser posto em ação somente nas ocasiões grandiosas é um gás que um dia destruirá o seu proprietário. Nada senão a verdade pode aparecer na casa do Senhor. Toda afetação é fogo estranho e provoca a indignação do Deus da verdade. Seja fervoroso, e parecerá fervoroso. Um coração ardente logo achará para si uma língua flamejante. Fingir fervor é um dos mais desprezíveis artifícios empregados para cortejar a popularidade; detestemos até o pensar nisso. Pode ir, e seja negligente no púlpito, se é o que você é no coração. Seja lerdo no falar, arrastado na entonação e monótono na voz, se é assim que expressa melhor a sua alma. Mesmo isso seria infinitamente melhor do que fazer do seu ministério uma mascarada, e de você mesmo um ator.

Entretanto, o nosso zelo durante o ato de pregar deve ser seguido por intensa solicitude quanto aos resultados posteriores. Se não for assim, teremos razão para questionar a nossa sinceridade. Deus não enviará uma colheita de almas aos que nunca vigiam nem regam os campos que semearam.

Concluído o sermão, só temos que lançar a rede que depois arrastaremos para a praia mediante a oração e a vigilância. Aqui penso que não posso fazer melhor do que deixar que um advogado mais hábil argumente com vocês, e cito as palavras do dr. Watts: “Seja muito solícito acerca do sucesso dos seus trabalhos no púlpito. Regue a semente semeada, não somente com oração pública, mas também com oração em secreto. Rogue a Deus importunamente que Ele não permita que você trabalhe em vão. Não seja como a estulta avestruz que põe os ovos na terra e ali os deixa, sem considerar se chegarão à vida ou não (Jó 39:14-17). Deus não deu entendimento àquela ave, mas não permita que essa insensatez seja o seu caráter ou sua prática. Trabalhe, vigie e ore, para que os seus sermões e o fruto dos seus estudos se transformem em palavras de vida divina para as almas.

Uma observação do piedoso Sr. Baxter (que li algures em suas obras) é que ele jamais conheceu qualquer sucesso considerável dos talentos mais brilhantes e mais nobres, nem da mais excelente espécie de pregação, nem mesmo quando os pregadores eram verdadeiramente religiosos, se não tinham solícito interesse pelo êxito das suas ministrações. Que o terrível e importante pensamento nas almas salvas mediante a nossa pregação, ou deixadas a perecer condenadas ao inferno por nossa negligência – digo, que esse temível e tremendo pensamento habite para sempre os nossos espíritos. Fomos feitos atalaias sobre a casa de Israel, como Ezequiel; e, se não dermos aviso da aproximação do perigo, as almas de multidões podem perecer devido à nossa negligência; mas o sangue das almas será terrivelmente requerido das nossas mãos (Ezequiel 3:17 etc.).

Tais considerações deveriam fazer-nos insistentes a tempo e fora de tempo, e levar-nos a manter-nos vestidos de zelo o tempo todo, como de um manto. Devemos estar todos com o ânimo desperto e sempre estar assim. Uma coluna de luz e de fogo deve ser o emblema próprio do pregador. O nosso ministério tem que ser enfático, ou nunca influirá nestes tempos caracterizados pela irreflexão. E para esse fim os nossos corações precisam estar habitualmente ardendo, e toda a nossa natureza precisa estar inflamada de consumidora paixão pela glória de Deus e pelo bem dos homens.

Agora, irmãos, é tristemente certo que, uma vez obtido, o santo fervor pode ser facilmente levado ao desânimo. E como questão de fato esfria-se com maior freqüência na solidão de um pastorado de aldeia do que no meio de uma sociedade composta de cristãos ardorosos de coração. Adam, autor de Private Thoughts (Pensamentos Privados) observou uma vez que “um pobre pároco rural, lutando com o diabo em sua paróquia, tem idéias mais nobres do que as de Alexandre, o Grande, em toda a sua vida.” E acrescentarei que ele precisa de algo mais que o ardor de Alexandre para capacitar-se a prosseguir vitorioso em sua guerra santa. Sleepy Hollow e Dormer’s Land (A Cova do Dorminhoco e A Terra do Dormitório) serão demasiadas para nós, a menos que oremos rogando que Deus nos anime diariamente.

Contudo, a vida da cidade também tem os seus perigos, e o zelo está sujeito a arder com fogo brando devido a numerosos envolvimentos, como fogo espalhado, em vez de concentrado numa pilha. Aquelas incessantes batidas à porta, e as perpétuas visitas de gente ociosa, são outros tantos baldes de água fria atirados sobre o nosso devotado zelo. De algum modo precisamos garantir a meditação não interrompida, ou perderemos poder. Londres é um campo de ação peculiarmente tentador neste sentido.

O zelo também se restringe mais depressa depois de longos anos de permanência no mesmo serviço, do que quando a novidade dá encanto ao trabalho. João Wesley diz, no décimo quinto volume dos seus Diários e Cartas (Journals and Letters): “Sei que, se eu tivesse que pregar um ano inteiro num lugar só, tanto o pregador como a maioria dos ouvintes acabaria adormecido.” Que será, então, se se tem que ocupar o mesmo púlpito durante muitos anos?! Neste caso, não é o passo que mata, mas a extensão da corrida. Nosso Deus é sempre o mesmo, existindo perpetuamente, e somente Ele pode capacitar-nos a resistir até o fim. Aquele que ao final de vinte anos de ministério exercido entre as mesmas pessoas está mais animado que nunca, é grande devedor ao Espírito vivificante.

O fervor pode ser diminuído pela negligência nos estudos, e freqüentemente o é. Se não nos exercitamos na Palavra de Deus, Não pregaremos com o fervor e o garbo espiritual daquele que se alimenta da verdade que prega e, portanto, é forte e ardoroso. Segundo algumas autoridades, o ânimo de um inglês em combate depende de estar ele bem alimentado; não terá estômago para a batalha, se estiver faminto. Se formos bem nutridos pelo saudável alimento do evangelho, seremos vigorosos e cheios de ardor.

Um velho e obtuso comandante em Cadiz é descrito por Selden como tendo-se dirigido aos seus soldados da seguinte maneira: “Que vergonha será, vocês ingleses, que se alimentam de boa carne e de cerveja, deixar-se bater por esses desprezíveis espanhóis que não comem nada mais que laranjas e limões!” A filosofia dele e a minha concordam: ele esperava entusiasmo e coragem daqueles que estavam bem alimentados. Irmãos, nunca negligenciem as suas refeições espirituais, ou terão falta de vigor e os seus espíritos afundarão. Alimentem-se das substanciais doutrinas da graça, e sobreviverão e suplantarão em produtividade aqueles que se deleitam com os bolos e com as beberagens de vinho e leite do “pensamento moderno.”

Por outro lado, o zelo pode ser amortecido por nossos estudos. Existe, sem dúvida, algo como alimentar o cérebro às custas do coração, e muitos, em suas aspirações a serem literatos, qualificam-se mais para escrever revistas do que para pregar sermões. Um fantástico evangelista costumava dizer que Cristo foi crucificado embaixo do grego, do latim e do hebraico. Não devia ser assim, mas acontece muitas vezes que o estudante juntou lenha na escola, mas perdeu o fogo para fazê-la inflamar-se. Será para a nossa eterna desgraça, se enterrarmos as nossas chamas debaixo da lenha reunida para sustentá-las. Se degenerarmos, transformando-nos em escravos dos livros, será para a satisfação da antiga serpente, e para a nossa desgraça.

O verdadeiro fervor pode ser grandemente enfraquecido pelas conversas levianas, e principalmente pelas piadas partilhadas com colegas de ministério, em cuja companhia freqüentemente tomamos mais liberdade do que gostaríamos de fazer quando reunidos com outros cristãos. Há excelentes motivos para sentir-nos em casa quando estamos com colegas, mas se esta liberdade for levada longe demais, logo perceberemos que nos sobreveio dano por meio do nosso linguajar fútil. Jovialidade é uma coisa, frivolidade é outra. É sábio quem, mediante séria felicidade na conversação, navega entre as negras rochas da carranca e as areias movediças da leviandade.

Muitas vezes nos vemos em perigo de deteriorar-nos quanto ao zelo devido aos cristãos frios com quem entramos em contato. Que terríveis desmancha-prazeres alguns crentes professos são! Suas observações depois de um sermão bastam para deixar você tonto. Você pensa que certamente comoveu os corações de pedra mas dolorosamente vê que aqueles ouvintes não foram influenciados de modo nenhum. Vocês ferviam, e eles se congelavam. Vocês vinham lutando por uma questão de vida ou morte, e eles calculavam quantos segundos o sermão ia demorar, resmungando pelos cinco minutos que acaso foram além da hora usual – tempo adicional que o seu fervor os impeliu a ocupar pelejando em favor das almas humanas.

Se acontecer que esses indivíduos enregelados forem oficiais da igreja, de quem vocês naturalmente esperam a mais calorosa simpatia, o resultado será esfriamento ao máximo grau, quanto mais se vocês forem jovens e inexperientes. É como se um anjo ficasse confinado numa geleira flutuante. “Não porás o boi e o jumento sob o mesmo jugo”, era um preceito misericordioso. Mas quando um ministro que dá duro como um boi fica no mesmo jugo com um oficial que não é outro boi, o trabalho de arar fica difícil. Alguns doutores impertinentes terão muito que responder a Deus nesta matéria. Um desses, não faz muito tempo, foi a um jovem e zeloso evangelista que estava fazendo o melhor que podia, e lhe disse: “Jovem, você chama isso de pregação?” Considerava-se fiel, mas foi cruel e descortês e, embora o bom irmão tenha sobrevivido ao golpe, este não foi menos brutal por isso. Tais ofensas contra os pequeninos do Senhor são muito raras, espero, mas são mortificantes, e tendem a afastar os nossos jovens esperançosos.

Muitas vezes os ouvintes como um todo tenderão a enfraquecer o seu zelo. Você pode ver pelo olhar e pela atitude deles, que não estão apreciando os seus sinceros e calorosos esforços, e ficará desanimado. Aqueles bancos vazios do uma grave provação também, e se o recinto for grande e pequeno o número de freqüentadores, a influência será muito deprimente. Não é todo homem que pode agüentar ser “uma voz que clama no deserto.” Desordem entre os ouvintes também aflige dolorosamente os oradores sensíveis. O caminhar de uma mulher com ruidosos saltos de sapatos, o ranger de um par de botas novas, a queda freqüente de guarda-chuvas e bengalas, o choro de crianças, e especialmente o atraso da metade dos componentes da reunião – isso tudo tende a irritar a mente, a desviá-la do seu objetivo e a diminuir o ardor.

Dificilmente gostamos de confessar que os nossos corações são logo prejudicados por essas bagatelas, mas é assim, e não há motivo para admirar-nos disso. Como os frascos do mais precioso ungüento são mais freqüentemente corrompidos por moscas mortas do que por camelos mortos, assim coisas insignificantes destroem o fervor mais depressa do que as maiores contrariedades. Quando se vê em grande desalento, o homem impulsiona-se a si próprio sem interrupção, e então se atira a seu Deus, e recebe força divina; mas quando sofre depressões menores é possível que ele se aflija, e a picuinha causará irritação e se inflamará, até acontecerem conseqüências mais graves.

Perdoem-me dizer que vocês devem atentar para as condições dos seus corpos, especialmente na questão de comer, pois qualquer medida de excesso pode prejudicar a sua digestão e deixá-los aturdidos quando deviam estar ardendo de fervor. Das memórias de Duncan Matheson recolho uma historieta muito pertinente:

“Em certo lugar onde se estavam fazendo reuniões evangelísticas, os pregadores leigos, entre os quais estava o Sr. Matheson, foram tratados suntuosamente na casa de um cavalheiro cristão. Depois do jantar, foram para a reunião, não sem alguma diferença de opinião quanto ao melhor método de dirigir os trabalhos da norte. ‘O Espírito foi entristecido; Ele não está aqui, de modo algum; é o que sinto’, disse um dos mais jovens, com um gemido que de alguma forma contrastava com o imenso prazer anterior, quando desfrutava as luxúrias da mesa. ‘Tolice’, replicou Matheson, que detestava toda espiritualidade chorosa e mórbida. ‘Não é nada desse tipo. Vocês simplesmente comeram muito na janta, e agora sentem o peso da indigestão.’ ”

Duncan Matheson estava certo, e um pouco mais do seu bom senso seria grande ganho para alguns que são ultra-espirituais e atribuem todas as suas modalidades de disposição de ânimo e de sentimento a alguma causa sobrenatural, quando a verdadeira razão está muito mais perto, à mão. Não tem acontecido muitas vezes que a dispepsia é confundida com apostasia, e a má digestão é repreendida como dureza de coração? Não digo mais nada; para bom entendedor uma palavra basta.

Muitas causas físicas e mentais podem agir para criar letargia aparente onde há intenso fervor no coração. Em alguns de nós uma noite mal dormida, uma alteração no tempo, ou uma observação indelicada produzirão o mais lamentável efeito. Mas geralmente aqueles que se queixam de falta de zelo são os mais zelosos do mundo, e a confissão de falta de vida é em si mesma um argumento de que a vida existe, e não sem vigor. Não se poupem, nem se deixem levar pela auto-satisfação; mas, por outro lado, não se difamem a si próprios, nem se afundem no desânimo. Sua opinião a respeito de si mesmos não tem muito valor; peçam ao Senhor que os sonde.

Trabalho realizado continuamente por muito tempo sem sucesso visível é outro freqüente estrago para o zelo fervoroso, conquanto, retamente compreendido, devesse constituir incentivo para diligência sete vezes maior. O original Thomas Fuller observa que “nisto Deus tem humilhado muitos pastores laboriosos fazendo deles nuvens de chuva, não sobre a Arábia feliz, mas sobre a Arábia deserta e pedregosa.” Se o insucesso nos humilha, está bem, mas se nos desanima, e especialmente nos leva a pensamentos amargos sobre os colegas mais prósperos, devemos olhar em torno de nós com grave preocupação. É possível que tenhamos sido fiéis, e que tenhamos adotado métodos sábios, e que estejamos no lugar certo, sem contudo atingir o alvo; provavelmente nos curvaremos e nos sentiremos incapazes de continuar a obra. Mas, se tratarmos de arrancar coragem e de aumentar o nosso fervor, teremos um dia abundante colheita, que nos recompensará além da expectativa por nossa espera. “O lavrador espera pelos preciosos frutos da terra.” E com a santa paciência gerada pelo zelo devemos esperar, sem jamais duvidar de que o tempo de Sião ser favorecida ainda chegará.

Também é preciso não esquecer nunca que a carne é fraca e naturalmente inclinada à sonolência. Necessitamos de constante renovação do impulso divino que nos iniciou na carreira do serviço cristão. Não somos como flechas, que acham caminho para o alvo somente graças à instrumentalidade da força com que partiram do arco. Nem como os pássaros, que levam dentro de si a sua energia motora. Temos que ser impelidos para a frente como caravelas no mar, pelo constante poder dos ventos celestiais, ou não avançaremos. Os pregadores enviados por Deus não são como caixas de música que, uma vez acionadas, tocam as melodias programadas; são, porém, como trombetas, completamente mudas até que o sopro vigoroso os faz emitir certo som. Lemos sobre alguns que não passam de cães broncos, dados a cochilar, e seria esse o caráter de todos nós, se não o impedisse a graça de Deus. Temos necessidade de lutar contra o espírito descuidado e indiferente. Se não o fizermos, logo seremos mornos como Laodicéia.

Lembrando, pois, diletos irmãos, que devemos ter fervor, que não podemos usar imitações dele nem achar-lhe substituto, e que é muito fácil perdê-lo, consideremos por um pouco os modos e meios de conservar todo o nosso fervor e obter mais. Se havemos de prosseguir, o nosso fervor deve ser inflamado por uma chama eterna, e só conheço uma – a chama do amor de Cristo, que mesmo muitas águas não conseguem apagar. Uma centelha do sol celestial será imorredoura como a fonte da qual provém. Se a pudermos obter, sim, se a tivermos, continuaremos cheios de entusiasmo, por mais tempo que vivamos, por mais que sejamos provados e por mais numerosas sejam as razões para ficarmos desanimados. Para continuarmos fervorosos no transcurso desta vida, temos que possuir o fervor da vida celeste com que começar. Temos esse fogo? É preciso que a verdade arda em nossas almas, ou não arderá em nossos lábios. Entendemos isto? As doutrinas da graça devem ser parte integrante de nós, entretecidas com a urdidura e a trama do nosso ser, e isto somente pode ser efetuado pela mão que originalmente fez o tecido.

Jamais perderemos o nosso amor a Cristo e o nosso amor às almas, se foi o Senhor que no-los deu. O Espírito Santo faz que o zelo por Deus seja um permanente princípio de vida, em vez de uma paixão; será que o Espírito Santo repousa em nós, ou o nosso presente fervor é um simples sentimento humano? Sobre este ponto devemos fazer sério exame dos nossos corações, fazendo-nos a nós mesmos a pergunta: Temos nós o fogo santo oriundo da verdadeira vocação para o ministério? Se não, por que estamos aqui? Se alguém pode viver sem pregar, que viva sem pregar. Se alguém pode estar satisfeito sem ser um conquistador de almas – quase ia dizer que seria melhor não tentar fazer esse trabalho, mas, em vez disso digo – procure ver que a pedra seja tirada do seu coração, para que possa ter sensibilidade quanto aos que perecem. Antes disto, na qualidade de ministro, ele pode cometer um engano total, ocupando o lugar de alguém que poderia ter tido êxito na bendita obra em que aquele será por certo um fracasso.

O fogo do nosso fervor deve arder no centro vital da fé nas verdades que pregamos, e da fé no poder que elas têm de abençoar a humanidade quando o Espírito as aplica ao coração. Aquele que proclama uma coisa que pode ser verdade ou não, e aquilo que, no todo, considera bom como qualquer outro tipo de ensino, necessariamente dará um pregador muito fraco. Como poderá ser zeloso sobre aquilo de que não está seguro? Se não conhece nada do poder interior da verdade em seu coração, se nunca provou nem tocou a Palavra da vida, como pode ser entusiasta? Mas, se o Espírito Santo nos ensinou nos lugares secretos, e fez a nossa alma compreender no seu íntimo a doutrina que nos cabe proclamar, então falaremos sempre com língua de fogo.

Irmão, não comece a ensinar outros enquanto o Senhor não o tenha ensinado. Deve ser um trabalho enfadonho papaguear dogmas que não interessam ao seu coração nem levam convicção ao seu entendimento. Eu preferiria catar estopa ou girar manivelas para conseguir o meu café da manhã, como fazem os mendigos aqui e ali, a ser escravo de um grupo de freqüentadores de igreja e levar-lhes alimento espiritual que eu mesmo nunca provei. E depois, que terrível há de ser o fim dessa carreira! Que temíveis contas deve prestar no final aquele que ensina publicamente aquilo em que não crê de coração, praticando em nome de Deus esta detestável hipocrisia!

Irmãos, se o fogo vem do lugar certo para o lugar certo, temos bom começo; e temos os principais elementos de um final glorioso. Inflamados por uma brasa viva, trazida do altar aos nossos lábios pelo querubim alado, o fogo começou a ser mantido no íntimo do nosso espírito, e ali manterá vivas as chamas, ainda que o próprio Satanás labute para apagá-las com os pés.

Mesmo a melhor chama na palavra precisa ser renovada. Ignoro se os espíritos imortais, como os anjos, bebem do vento e se alimentam de algum maná superior preparado no céu para eles. Mas o provável é que nenhum ser criado, embora imortal, esteja completamente livre da necessidade de receber de fonte externa o sustento de suas forças. Certamente a chama de zelo no coração renovado, conquanto divina, precisa ser constantemente alimentada de novo combustível. Mesmo as lâmpadas do santuário precisavam de azeite. Alimente a chama, meu irmão, alimente-a freqüentemente. Alimente-a com pensamento santo e santa contemplação, especialmente com o pensamento sobre a sua obra, os motivos que o levam a procurar realizá-la, e os grandes resultados dela, se o Senhor estiver com você. Firme-se no amor de Deus aos pecadores, na morte de Cristo em favor deles e na obra do Espírito nos corações humanos. Pense no que tem que ser efetuado no coração dos homens antes de estes poderem ser salvos. Lembre-se, você não é enviado para caiar túmulos, mas para abri-los, e esta é uma obra que homem nenhum pode realizar, a menos que, como fez o Senhor Jesus junto ao sepulcro de Lázaro, se agite no espírito; e mesmo assim você não tem poder, sem o Espírito Santo.

Irmãos, meditem com profunda solenidade no destino do pecador perdido e, como Abraão, quando se levantarem de manhã para ir ao local de sua comunhão com Deus, dêem uma olhada para os lados de Sodoma e vejam a fumaça que sobe de lá, como a fumarada de uma fornalha. Evitem todas as idéias sobre a punição vindoura que a faça parecer menos terrível e assim embotem a sua ansiedade por salvar seres imortais do fogo inextinguível. Se os homens são apenas uma espécie mais nobre de macaco e expiram como os animais irracionais, você pode muito bem deixá-los perecer sem dó. Se, porém, sua criação à imagem de Deus incluí a imortalidade, e há algum temor de que por sua incredulidade trarão infelicidade sobre si, ponham-se à altura das agonias desse acontecimento, e envergonhem-se da simples suspeita de desinteresse. Pensem muito também na bem-aventurança do pecador salvo, e em como o piedoso Baxter apresenta valiosos argumentos em favor do zelo fervoroso, derivando-os do “sempiterno repouso dos santos.” Subam aos montes celestiais e recolham lenha lá. Empilhem as gloriosas achas de madeira do Líbano, e o fogo arderá livremente e dará um suave perfume quando cada pedaço de cedro seleto rebrilhar nas chamas. Não haverá por que temer que caiam na letargia, se mantiverem permanente intimidade com as realidades eternas.

Acima de tudo, alimentem a chama com íntima comunhão com Cristo. Ninguém que tenha vivido com Jesus nos termos em que viveram João e Maria jamais foi frio de coração, pois Ele faz arder o coração. Nunca encontrei um pregador desanimado que estivesse em muita comunhão com o Senhor Jesus. O zelo da casa de Deus consumia a nosso Senhor, e quando entramos em contato com Ele, o mesmo zelo começa a consumir-nos também – e vemos que não podemos senão falar das coisas que temos visto e ouvido em Sua companhia. Nem podemos deixar de falar dessas coisas com o fervor que provém da real familiaridade com elas. Aqueles de nós que têm estado pregando durante estes vinte cinco anos, às vezes sentem que a mesma obra, o mesmo assunto, o mesmo povo e o mesmo púlpito, juntos, são capazes de gerar um sentimento de monotonia, e a monotonia logo pode levar à fadiga.

Mas aí trazemos à memória outra mesmice, que vem a ser a nossa completa libertação – o Salvador é o mesmo, e podemos ir a Ele do mesmo modo como o fizemos da primeira vez, visto que “Jesus Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente.” Em Sua presença bebemos vinho novo e renovamos a nossa mocidade. Ele é a fonte que mana para sempre a refrescante e restauradora água da vida. Em comunhão com Ele teremos nossas almas vivificadas para o usufruto de energia perpétua. Sob o seu sorriso o trabalho de há muito costumeiro é sempre agradável, e mostra mais encanto do que aquele que a novidade poderia conferir.

Colhemos novo maná para o nosso povo cada manhã, e quando vamos distribuí-lo, sentimos a unção de novo óleo destilando sobre nós. “… os que esperam no Senhor renovarão as suas forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão.” Recém-vindos da presença dAquele que anda entre os candeeiros de ouro, estamos prontos para escrever ou falar no poder que somente Ele pode dar. Soldados de Cristo, vocês somente poderão ser dignos do Capitão que os comanda, permanecendo em comunhão com Ele e ouvindo a Sua voz, como fez Josué quando se pós junto ao Jordão e indagou : “Que diz meu Senhor a Seu servo?”

Abanem o fogo, além de alimentá-lo. Abanem-no com muitas súplicas. Não há como sermos demasiado insistentes uns com os outros neste ponto; nenhuma linguagem pode ser veemente demais quando se trata de implorar aos ministros que orem. Para nós e para os nossos colegas há necessidade absoluta de oração. Necessidade! – Não gosto muito de falar desse modo; prefiro falar da delícia da oração – o maravilhoso dulçor e a divina felicidade advinda à alma que vive na atmosfera da oração. John Fox dizia: “O tempo que passamos com Deus em secreto é o mais ameno e o mais bem aproveitado. Portanto se amas tua vida, enamora-te da oração.” O devoto Sr. Herve, tomou a seguinte resolução no leito de enfermidade: “Se Deus poupar a minha vida, lerei menos e orarei mais.” John Cooke, de Maidenhead, escreveu: “O exercício, o prazer, a honra e o beneficio da oração premem meu espírito com força crescente, todo dia.” Um finado pastor, ao se aproximar do fim, exclamou: “Desejaria ter orado mais.” Este desejo muitos de nós poderíamos exprimir.

Deve haver períodos especiais de devoção, e é bom mantê-los com regularidade. Mas o espírito de oração é ainda melhor do que o hábito de orar. Orar sem cessar é melhor do que orar a intervalos. Será uma feliz circunstância se nos pudermos com freqüência dobrar os joelhos junto com irmãos consagrados, e creio que deveria ser uma regra para nós ministros, nunca separar-nos sem uma palavra de oração. Muita intercessão mais subiria ao Céu se fizéssemos disso um ponto para cumprir particularmente quanto àqueles dentre nos que foram colegas de estudos. Se possível, que a oração e o louvor santifiquem cada encontro de amigo e amigo.

Uma prática revigorante é ter um minuto ou dois de súplicas ao Senhor no gabinete pastoral antes da pregação, se vocês puderem reunir ali três ou quatro diáconos de coração ardente, ou outros irmãos. Isto sempre me anima para a luta. Mas, com tudo isso, para abanar o seu fervor até torná-lo uma chama vigorosa vocês devem buscar o espírito de continua oração, de modo que estejam orando no Espírito Santo, em todo lugar e sempre: no estudo, no gabinete pastoral e no púlpito. É bom estar pleiteando o tempo todo com Deus – sentados ao púlpito, de pé para anunciar um hino, lendo a passagem bíblica, pregando o sermão; erguendo uma das mãos vazia para Deus a fim de receber, e com a outra repartindo ao povo o que Deus dá. Na pregação sejam como um tubo de transmissão entre os eternos e infinitos suprimentos do Céu e as necessidades humanas, quase ilimitadas. Para fazer isso, vocês precisam alcançar o Céu e manter a comunicação, sem interrupção. Orem pelas pessoas enquanto lhes pregam. Falem com Deus a favor delas enquanto lhes falam a favor de Deus. Só assim poderão esperar, manter-se em contínuo fervor. Poucas vezes uma pessoa se levantará sem fervor depois de pôr-se de joelhos; ou, se acontecer isso, o melhor que faz é voltar a orar até que a chama sagrada desça sobre a sua alma.

Adam Clarke disse uma vez: “Morra de estudar, e então ore para tornar a viver.” É uma sabia sentença. Não tentem a primeira realização sem a segunda; e não pensem que a segunda pode ser levada a efeito honestamente sem a primeira. Trabalhem e orem, como também vigiem e orem. Mas orem sempre.

Agitem o fogo também, mediante freqüentes tentativas para realizar novos serviços. Sacudam-se para livrar-se da rotina, saindo dos costumeiros campos de trabalho e exigindo solo virgem. Sugiro-lhes, como um meio subordinado mas muito útil para manter o coração robusto, o freqüente acréscimo de novas obras aos seus compromissos habituais. Gostaria de dizer aos irmãos que estão prestes a deixar a escola para estabelecer-se em ambientes onde terão contato com apenas umas poucas mentes superiores, e talvez estejam quase sozinhos nas mais altas alamedas da espiritualidade: olhem bem por vocês mesmos, para que não se tornem rasos, insípidos e inúteis; conservem sua capacidade de cativar as almas mantendo espírito empreendedor. Terão boa parte do trabalho para fazer, poucos os ajudarão, e os anos vão rolando e rolando pesadamente. Estejam vigilantes contra isso, e empreguem todos os meios possíveis para impedir que se tornem fastidiosos e sonolentos, e entre os meios usem aquele que a experiência me induz a impor-lhes.

Acho bom ter sempre à mão algum trabalho novo. Os velhos e habituais empreendimentos têm que ser mantidos, mas algo deve ser-lhes acrescentado. Deve dar-se conosco o que se dá com os intrusos que usurpam terreno público. A cerca do nosso jardim deve avançar meio metro ou mais, abrangendo um pouco mais do terreno comum cada ano. Nunca digam: “Já basta”, nem aceitem a política de “Repousem e sejam agradecidos.” Façam tudo que puderem, e depois façam um pouco mais. Não ser por qual processo o cavalheiro que anuncia que pode tornar baixotes mais altos procura fazer isso, mas imagino que, se se há de obter algum resultado no sentido de acrescentar um côvado à estatura de alguém, seria a pessoa erguer-se todas as manhãs o mais alto que pudesse na ponta dos pés e, tendo feito isso, tentar dia após dia atingir um ponto um pouco mais alto. Certamente é esta a maneira de crescer mental e espiritualmente – “avançando para as (coisas) que estão diante de mim.”

Se o antigo vai ficando um tanto gasto, irmão, junte-lhes novos esforços, e a massa toda será elevada de novo. Prove-o, e logo descobrirá a virtude de abrir novos terrenos invadindo novas províncias do inimigo e escalando alturas antes não atingidas para ali hastear o estandarte do Senhor. Com relação aos expedientes de que temos tratado, este é por certo secundário. Contudo, é muito útil e pode beneficiá-lo grandemente. Numa cidade campestre, digamos de dois mil habitantes, você, depois de algum tempo, irá pensar: “Bem, agora, fiz quase tudo que podia neste lugar.” Que fazer então? Há um lugarejo a alguns quilômetros. Planeje abrir ali uma sala. Encontrando-se ocupado um vilarejo, excursione a outro, espie a terra, e faça do socorro à indigência espiritual exposta diante de você uma ambição sua. Suprida a primeira localidade, pense numa segunda. É o seu dever, e será também a sua salvaguarda. Toda gente sabe do interesse que há por uma obra nova. O jardineiro se cansará do seu labor, a menos que lhe permitam introduzir novas flores na estufa de plantas, ou dar nova forma aos canteiros do jardim. Todo trabalho monótono é antinatural e cansativo para a mente. Portanto, é sábio dar variedade ao seu labor.

De muito maior peso é este conselho: fiquem perto de Deus, e fiquem perto dos seus semelhantes aos quais vocês querem comunicar bênçãos. Habitem à sombra do Onipotente, habitem onde Jesus se manifesta, e vivam no poder do Espírito Santo. Sua própria vida depende disso. Whitefield menciona um rapaz que tinha tão vívida consciência da presença de Deus, que geralmente andava sem chapéu pelas estradas. Como eu gostaria que sempre fosse essa a nossa maneira de sentir! Neste caso, não haveria dificuldade nenhuma em manter o fervor.

Cuidem também. para manter-se nos mais amistosos termos com aqueles de cujas almas vocês têm a responsabilidade de zelar. Fiquem na corrente e pesquem. Muitos pregadores ignoram completamente como vive a grande maioria das pessoas. Estão em casa entre os livros, mas em alto mar entre os homens. Que pensariam vocês de um botânico que raramente viu flores de verdade, ou de um astrônomo que nunca passou uma noite observando os astros? Seriam dignos do nome de homens de ciência? Assim também o ministro do evangelho não passará de um charlatão, a menos que se misture com os homens e estude pessoalmente o caráter deles. “Estudos a partir da vida” – cavalheiros; precisamos ter muitos destes, se havemos de fazer fiel pintura da vida em nossos sermões. Leiam os homens como lêem os livros, e amem as pessoas antes que as opiniões, ou, do contrário, serão pregadores inanimados.

Fiquem perto dos que se encontram em estado de ansiedade. Observem as suas dificuldades, as suas angústias e as suas dores de consciência. Ajudará a fazê-los fervorosos ver-lhes a avidez com que buscam paz. Por outro lado, ver quão pouco fervorosos os homens são, na maioria, pode ajudá-los a ter maior zelo para o despertamento deles. Regozijem-se com aqueles que estão se encontrando com o Salvador; este é um importante meio de avivar-lhes a alma. Quando puderem levar a Jesus uma pessoa que chora a perda de um ente querido, sentir-se-ão jovens de novo. Será como óleo nos ossos ouvir um pecador arrependido chorar e exclamar: “Agora vejo tudo! Creio, e minha carga se foi. Estou salvo!”

Às vezes o arrebatamento das almas recém-nascidas de novo os eletrizarão levando-os a terem ardor apostólico. Quem não se sentiria capaz de pregar depois de ver pecadores convertidos? Estejam a postos quando finalmente a graça prende a ovelha perdida, a fim de que, pela participação no regozijo do grandioso Pastor, vocês possam renovar a sua mocidade. Morram de trabalhar em favor dos pecadores, e serão recompensados por ir após eles em fatigante busca, talvez depois de seguí-los durante meses e anos. Segurem-nos com os firmes laços do amor, e digam : “Sim, pela graça de Deus, ganhei realmente estas almas” – e o seu entusiasmo se inflamará.

Se você tiver que trabalhar numa grande cidade, recomendo-lhe que, seja onde for o local de culto, procure familiarizar-se com a pobreza, a ignorância e as condições de alcoolismo do lugar. Se puder, vá junto com um obreiro que já conheça a parte mais pobre da cidade, e o que vai ver enchê-lo-á de espanto, e a própria visão da doença irá torná-lo ansioso para revelar o remédio. Há muitos males para se verem, mesmo nas melhores ruas das nossas grandes cidades, mas há indescritível profundidade de horror nas condições dos cortiços e favelas. Assim como o médico percorre os hospitais, você deve percorrer os becos e pátios dos cortiços para ver os danos causados pelo pecado. Será suficiente para fazer um homem derramar lágrimas de sangue contemplar as desolações que o pecado tem feito na terra. Um dia junto com um consagrado missionário seria uma bela maneira de concluir o seu curso acadêmico, e uma adequada preparação para a obra que terá que realizar em seu próprio campo.

Observe as massas vivendo em seus pecados, envilecidas pela bebida e pela quebra do dia do Senhor, entregues aos vícios e blasfemando. Veja-as morrendo curtidas e empedernidas, ou aterrorizadas e cheias de desespero. Certamente isto reacenderá o zelo que fenece, se nada mais puder fazê-lo. O mundo está repleto de pobreza que oprime e de aflição que esmaga. A vergonha e a morte são a porção de milhares, e é necessário um grande evangelho para satisfazer as medonhas necessidades das almas humanas. Verdadeiramente assim é. Você duvida? Vá e veja com os seus próprio olhos. Assim aprenderá a pregar uma grandiosa salvação, e a engrandecer o grandioso Salvador, Não com a boca somente, mas de todo o coração. Deste modo se casará com o seu trabalho além de toda a possibilidade de abandoná-lo.

Os leitos de morte do grandes escolas para nós. Estão determinados a agir como tônicos para fazer-nos apegados ao nosso labor. Tenho voltado dos quartos dos moribundos achando que toda gente é doida, e eu mais que todos. Tenho lamentado o empenho que os homens dedicam às coisas terrenas, quase dizendo a mim mesmo: Por que esse homem corria tanto? Por que aquela mulher se enfeitava daquele jeito? Visto que todos haveriam de morrer logo, eu achava que nada valia a pena, senão preparar-se para encontrar-se com o seu Deus. Estar com freqüência onde os homens morrem ajuda-nos a ensiná-los a morrer e a viver. McCheyne costumava visitar os seus ouvintes enfermos ou moribundos sábado à tarde, pois, como contou ao Dr. James Hamilton: “Antes de pregar, ele gostava de olhar por cima do limite final.”

Rogo-lhes, além disso, que meçam o seu trabalho à luz de Deus, Você é servo de Deus ou Não? Se é, como pode ter coração frio? Você foi ou não foi enviado pelo Salvador crucificado, para proclamar o Seu amor e receber a recompensa das Suas feridas? Se foi, como pode afrouxar-se? O Espírito de Deus está sobre você? Ungiu-o o Senhor para pregar boas novas aos pobres? Se não o ungiu, não pretenda fazê-lo. Se o ungiu, “vai nessa tua força, e o Senhor será a tua força.” Sua ocupação não é comércio ou profissão. Seguramente, se você a avaliar pela medida do comerciante, é o negocio mais pobre sobre a face da terra. Considere-a como profissão: quem não preferiria qualquer outra, no que concerne a lucros monetários ou a honras terrestres? Mas se se trata de vocação divina, sendo você um operador de milagres, habitando no sobrenatural e trabalhando, não para o tempo mas para a eternidade, você pertence a outra associação mais nobre – a uma fraternidade mais elevada do que qualquer outra que proceda da terra e lide com o tempo.

Olhe bem, e reconhecerá que é grande coisa ser pobre como seu Senhor, se, como Ele, você puder enriquecer a muitos; verá que é glorioso ser ignorado e desprezado como o foram os primeiros seguidores do seu Senhor, porque você está tornando conhecido Aquele que é a vida eterna. Você ficará satisfeito sendo qualquer coisa, ou nada, e o pensamento acerca de si próprio não entrará em sua mente, ou somente a cruzará para ser reconhecido como uma coisa mesquinha que o homem consagrado não deve tolerar. Este é o ponto. Avalie o seu trabalho como deve, e não temerei que o seu zelo diminua. Contemple-o à luz do dia do juízo e tendo em vista as eternas recompensas da fidelidade. Ah, irmãos, a presente alegria de ter conduzido uma alma à salvação é sobremodo agradável. Vocês a sentiram, creio, e a conhecem agora.

Salvar uma alma de cair na perdição traz-nos um pouco do céu, mas, como há de ser no dia do juízo, encontrar os espíritos redimidos por Cristo, os quais ouviram dos nossos lábios as novas da sua redenção! Nosso olhar fita adiante um bem-aventurado céu em comunhão com o nosso Mestre e Senhor, mas também conheceremos a alegria adicional de encontrar aqueles amados que levamos a Jesus mediante o nosso ministério. Suportemos todas as cruzes, e desprezemos toda a vergonha pela alegria que Jesus coloca diante de nós – a alegria de ganhar os nossos semelhantes para Ele.

Mais um pensamento que pode ajudar-nos a manter o nosso zelo fervoroso: considerem o grande mal que por certo virá sobre nós e nossos ouvintes se formos negligentes em nosso labor. “Eles perecerão” – não é esta uma sentença terrível? Para mim é tão terrível como a que se lhe segue – “mas o seu sangue da tua mão o requererei.” Como descreveremos o destino ruinoso do ministro infiel? E todo ministro destituído de zelo é infiel. Eu preferiria infinitamente ser entregue a Tofete como assassino de corpos humanos, a ser condenado como destruidor de almas humanas. Também não sei de nenhuma condição que leve o homem a perecer de modo tão fatal e infinito como a do homem que prega um evangelho em que não crê, e assume o ofício de pastor sobre um povo cujo bem não deseja intensamente.

Oremos no sentido de que sejamos achados fiéis sempre e para sempre. Permita Deus que o Espírito Santo nos torne e nos mantenha assim fiéis.

 

 

 

 

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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