Estudo Harmonístico: Os Primórdios – Panorama do NT

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Estudo Harmonístico:  Os Primórdios – Panorama do NT

Perguntas Normativas:

‑ De quais modos diferentes os evangelhos introduzem suas respectivas narrações da vida e do ministério de Jesus?

‑ Quais são os detalhes e a ordem dos acontecimentos no que diz respeito à natividade e à infância de Jesus?

‑ De que modo Jesus inaugurou Sua vida pública, e como Ele agiu para obter seguidores? Qual foi a natureza de Suas atividades?

 

O prólogo lucano.

No prólogo do terceiro evangelho, Lucas aponta para o propósito que teve, ao lançar mão de material previamente compilado por testemunhas oculares, quando quis escrever uma narrativa em ordem da carreira de Jesus. Esse propósito era o de convencer a Teófilo acerca da certeza histórica do evangelho. As palavras “em ordem” deixam entrever arranjo cuidadoso, mas não necessariamente um relato cronológico em cada particularidade. Ler Lucas 1:1‑4 (§ 1).(Os parágrafos numerados, aqui e a partir deste ponto, referem‑se ao volume de A. T. Robertson, A Harmony of the Gospels, Nova Iorque: Harper & Row, 1950. As harmonias dos evangelhos colocam em colunas paralelas os textos dos evangelhos, onde seus editores sentem que os conteúdos respectivos são paralelos. Os editores também arranjam as perícopes dentro daquela que lhes parece a ordem cronológica mais provável. A harmonia de Robertson provavelmente é a mais largamente usada. A abordagem harmonística tem sofrido detrimento por causa daqueles que vêem os evangelistas como coletores de informações indignas de confiança, pois, segundo tal perspectiva, as diferenças entre os evangelhos se originam da falsificação de informes. Ora, é inútil harmonizar entre si relatórios indignos de atenção. Porém, se os evangelhos são fidedignos, dai se segue, mui naturalmente, a abordagem harmonística; porque, nesse caso, as diferenças se devem a perspectivas complementares dentro dos relatórios. A fim de conseguirmos o quadro mais completo possível, devemos combinar os relatos (embora sem a tentativa de forçar a harmonização, onde nos faltam informações suficientes).)

 

O prólogo joanino.

Ler João 1:1‑18 (§ 2). O prólogo de João é altamente teológico. Alguns eruditos pensam que originalmente se tratava de um hino, o qual passou a ser incorporado no quarto evangelho com inserções e revisões editoriais. A primeira frase, “No princípio…”, faz‑nos lembrar de Gênesis 1:1. A aplicação do termo “Verbo”, ou “Palavra” (no grego: Logos) a Jesus, indica que Ele é o porta‑voz de Deus, o Seu modo de comunicação, em contraste com o título divino dos helenistas, “Silêncio”. A expressão “a palavra do Senhor” ‑, empregada no Antigo Testamento, o uso do termo “palavra” para indicar o evangelho, no Novo Testamento, a personificação da sabedoria, no Antigo Testamento e na literatura judaica do período intertestamentário, a utilização do vocábulo “palavra” nos Targuns, como substitutivo para Deus, e o uso técnico de Logos, para indicar a Razão que governa o universo, por parte dos filósofos, como os estóicos e o judeu alexandrino Filo ‑ alguns ou todos esses empregos provêem o pano‑de‑fundo do uso que João fez do termo Logos.(Ver seleções representativas da literatura extrabiblica, em C. K. Barret, The New Testament Backeround: Selected Documents, Nova Iorque: Harper & Row, 1956, págs. 54, 55, 61, 62, 67, 68, 183, 185, 216, 221.) Mas somente João identifica o Logos, de maneira absoluta, com Deus, e em seguida ousa identificar o Logos com um ser humano que viveu na história, Jesus.

O Verbo (ou Palavra) conserva‑se em comunhão com Deus Pai (“com Deus”), e, por isso mesmo, procede Dele. Não obstante, é igual a Deus (“e o Verbo era Deus”). Ele é o Criador, e, ao vir a este mundo, tornou‑se a fonte de onde manam vida espiritual e iluminação para todos os homens. Aqueles que O recebem, por terem confiado Nele ‑ contrastando com a maior parte de Seu próprio povo, os judeus ‑ tornam‑se filhos de Deus, não mediante a capacidade humana da procriação (“do sangue … da vontade da carne … da vontade do homem”, versículo treze) ‑ isto é, não em virtude da descendência física, judaica ou não ‑ mas através de um ato do próprio Deus.

O fato que a Palavra tornou‑se um ser humano (“E o Verbo se fez carne”) e veio habitar (literalmente: “armou tenda”) entre outros seres humanos é a doutrina da encarnação (versículo 14). Sua glória não consiste de brilho exterior, mas das excelências morais do caráter de Deus (“graça e verdade”‘), que Ele revelou plenamente à humanidade como somente um filho sem igual (“unigênito”) poderia ter feito. João Batista (versículos 6‑8,15) testificou sobre a superioridade de Jesus (“O que vem depois de mim, tem contudo a primazia”, isto é, está revestido de hierarquia superior), devido à Sua preexistência na qualidade de Logos (“já existia antes de mim”, isto é, no tempo e na eternidade). Na encarnação do Logos, pois, o Deus invisível tornou‑se visível (versículo 18).

 

Genealogias.

Os estudiosos têm sugerido várias explicações para as diferenças que há nas genealogias de Jesus em Mateus e em Lucas.(Quanto a uma pesquisa, ver a extensa nota no final da Harmony de Robertson, págs. 259‑262.) A solução mais provável é que Lucas tenha apresentado a ascendência real de Jesus, através de Maria, Sua mãe, embora tivesse substituído o nome dela pelo de seu marido (“Era, como se cuidava, filho de José”, Lucas 3:23), porquanto não era costumeiro incluir os nomes femininos nas linhagens ancestrais. Por outra parte, Mateus expõe a linhagem do pai de criação de Jesus, porquanto na sociedade judaica (e Mateus escreveu para os judeus) os direitos legais, como por exemplo a reivindicação ao trono messiânico de Davi, passava pelo pai, apesar deste ser apenas um pai de criação. Sem embargo, a verdade é que tanto José quanto Maria descendiam de Davi, e, naturalmente, de Abraão.

Contrariamente ao costume, a geneologia de Mateus inclui quatro mulheres: Tamar, uma adúltera; Raabe, uma meretriz; Rute, uma moabita, de quem facilmente se poderia por em dúvida a propriedade do apelo que ela fez a Boaz à meia‑noite (Rute 3:1‑14); e a esposa de Urias, Bateseba, a quem Davi seduziu. Evidentemente Mateus queria desarmar, logo de entrada, os preconceitos arrogantes contra as circunstâncias nas quais Maria deu à luz a Jesus, lembrando seus leitores judeus acerca de incidentes que envolveram mulheres em sua própria preciosa história, incidentes esses que bem poderiam lançar reparos aos olhos de pessoas de fora. Outrossim, todas aquelas quatro mulheres haviam sido gentias. A inclusão delas, nesta genealogia, aponta para o motivo da salvação universal, que figura no restante do evangelho. Na declaração de Mateus 1:16, “E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo”, a palavra grega aqui traduzida por “da qual”, também é feminina, podendo referir‑se exclusivamente a Maria, em consonância com a doutrina do nascimento virginal. Mateus dispõe, artisticamente, a sua genealogia em três grupos de catorze gerações cada. Mas, a fim de conseguir tal efeito, ele omitiu deliberadamente três gerações alistadas no Antigo Testamento e computou Davi por duas vezes, a fim de realçar, perante seus leitores judeus, que Jesus é o Messias davídico. É possível mesmo que Mateus tenha ressaltado mais ainda o ponto, querendo que o número catorze servisse de sutil referência a Davi, porquanto, em hebraico, o valor numérico do nome Davi é catorze. Ler Mateus 1:1‑17 e Lucas 3:23‑38 (§ 3).

NATIVIDADE E INFÂNCIA DE JESUS

 

Anunciação a Zacarias.

Ler Lucas 1:5‑25 (§ 4). Vinte e quatro turnos de sacerdotes serviam no templo, cada turno aproximadamente por duas semanas diferentes durante o ano. Zacarias cumpria sua tarefa no “turno de Abias”. O lançamento de sortes determinava qual sacerdote individual tinha o privilégio de queimar o incenso no templo; e uma vez obtido tal privilégio, o sacerdote era vedado de dar a outro sacerdote a sua chance. Durante essa experiência que provavelmente só ocorria uma vez na vida, um anjo do Senhor anunciou a Zacarias que ele e sua esposa, Isabel, haveriam de ter um filho, o qual viveria como nazireu (“não beberá vinho nem bebida forte”), e que prepararia o povo judeu para os tempos messiânicos. O anjo castigou a Zacarias com mudez, por causa da incredulidade deste.

 

Anunciação a Maria.

Lucas narra a história da natividade segundo a perspectiva de Maria. O anjo Gabriel anunciou a Maria que em futuro próximo ela haveria de dar nascimento a Jesus, o Filho de Deus e rei davídico. Além disso, haveria de ter a criança em seu estado virginal, mediante o poder miraculoso do Espírito Santo. Após a partida de Gabriel, Maria foi visitar sua parenta, Isabel, na Judéia, para compartilhar com ela de seu segredo. Ali chegando, ela explodiu em um hino de louvor, intitulado depois de “O Magnificat de Maria”, baseado quase inteiramente no cântico de Ana, no Antigo Testamento (vide I Samuel 2:1‑10).

 

Nascimento de João Batista.

No tempo certo, Isabel deu à luz a seu filho. Por ocasião da cerimônia da circuncisão, quando os bebes recebiam seus nomes, ao oitavo dia após o nascimento, amigos e parentes sugeriram que a criança recebesse o mesmo nome de seu pai. Os próprios progenitores, entretanto, insistiam sobre o nome “João”, que significa “O Senhor é gracioso”, nome mui apropriado devido à avançada idade de seus pais. Quando a mudez de Zacarias desapareceu repentinamente, ele prorrompeu em jubilosa hino, conhecido como “O Benedictus”, Ler Lucas 1:26‑80 (§§ 5-8).

 

Anunciação a José.

Ler Mateus 1:18‑25 (§ 9). O propósito de Mateus, no seu relato sobre a natividade, é apologético. Ele queria contrabalançar a calúnia judaica de que Jesus nascera como filho ilegítimo, e isso fez dando, do ponto de vista de José, um informe pormenorizado das circunstâncias que circundaram o nascimento de Jesus. Na sociedade judaica, o noivado era tão comprometedor quanto o matrimônio. Somente o divórcio ou a morte eram capazes de rompê‑lo. No caso de falecimento, o noivo restante era considerado viúvo ou viúva. Ora, José e Maria estavam noivos. Quando José descobriu que Maria estava grávida, resolveu divorciar‑se dela o mais privadamente possível (isto é, com um mínimo de testemunhas legais), a fim de evitar o escândalo público. José deve ter suspeitado de infidelidade por parte de Maria; ou então, se porventura Maria já lhe tinha informado do que estava acontecendo, ele pode ter temido intrometer‑se, como marido, em tão sacrossanta situação. Ou então ele não queria apresentar a si mesmo como o pai do infante divino. Quaisquer que tenham sido seu conhecimento e seus sentimentos, o fato é que um anjo do Senhor veio instrui‑lo para que providenciasse o matrimônio e desse o nome de “Jesus” (“o Senhor é salvação”) à criança, por que livramento de pecados haveria de ser realizado por intermédio Dele.

Mateus ajunta que esses acontecimentos cumpriram a profecia de Isaías acerca do nascimento virginal. A declaração de que José evitou ter contacto sexual com sua esposa, “enquanto ela não deu à luz um filho” (versículo 25) deixa entendido que Maria não continuou perpetuamente virgem. Os paralelos mitológicos, freqüentemente citados, da história do nascimento virginal de Jesus, não são paralelos autênticos, pois nesses mitos seres divinos teriam contacto sexual físico com mães em potencial. Por conseguinte, é um erro falar‑se de nascimentos virginais nesses mitos.(ver J. G. Machen, The Virgin Birth of Christ, 2ª edição, Nova Iorque: Harper, 1932, especialmente o capítulo XIV: J. Orr, The Virgin Birth of Christ, Londres: Hodder & Stoughton. 1970, especialmente o capítulo VI.)

 

Nascimento de Jesus e visita dos pastores.

Ler Lucas 2:1‑38 (§§ 10‑13). Lucas encaixa o nascimento de Jesus no contexto de um recenseamento levado a efeito durante a administração de Quirinio, na Síria. Já foi costume dizer‑se que Lucas atribuiu a Quirinio um período governamental bem antes do tempo correto. Mas investigações posteriores, incluindo descobertas arqueológicas, sugerem que Lucas sob hipótese alguma se equivocou. (O quadro da história secular até agora não está perfeitamente claro). José e Maria tiveram de arrolar‑se em Belém, cidade de seus antepassados. Ali chegando, Maria deu à luz em uma manjedoura. Talvez a manjedoura não passasse de um lugar bem socado com os pés, em uma caverna. Anjos anunciaram o nascimento do Messias a pastores que se achavam nas cercanias de Belém, mediante um cântico, “Gloria in excelsis (Glória nas maiores alturas; isto é, louvores nos céus)…” Os pastores foram os precursores das pessoas humildes que, anos depois, haveriam de juntar‑se em grande número em redor de Jesus. Mais importante que isso, porém, é que eles forneceram o ambiente apropriado para a apresentação de Jesus como um outro rei‑pastor, similar a Davi.

 

Apresentação no templo.

Passados os quarenta dias de purificação ritual de Maria, ela e José levaram o menino Jesus ao templo. Ali, Simeão e Ana, dois idosos e piedosos judeus, reconheceram, em meio a intensa felicidade, o longamente esperado Messias, na pessoa do infante Jesus. Mas Simeão soturnamente advertiu que muitos israelistas “cairiam”, embora outros se “levantassem”, por causa de Jesus, além do fato que algo sucederia que atravessaria o coração de Maria como se fora uma espada. Essas enigmáticas afirmações preanunciavam o ministério público e a crucificação de Jesus, o que haveria de provocar, entre os judeus, tanto a incredulidade (que conduziria à queda sob o julgamento divino) quanto a fé (que levaria à ascensão ao favor divino). A sorte determinada para Jesus também haveria de infundir tristeza a Maria.

 

A adoração dos magos.

Em seguida, Mateus narra sua versão sobre o nascimento de Jesus. Seu propósito continua sendo apologético. Se Jesus chegou a ser reconhecido como o Messias real, por parte de gentios (os magos), então judeus também haveriam de reconhecê‑Lo como tal. O fato de ter‑se criado em Nazaré não servia para desqualificar a Jesus para o papel messiânico, conforme acusavam alguns judeus; pois a despeito de certas circunstâncias políticas terem feito com que Nazaré fosse o lugar de Sua criação, contudo Ele nascera realmente em Belém, exatamente conforme fora profetizado sobre o Messias.

Os magos, ou sábios, talvez fossem astrólogos persas. Os três tipos diferentes de presentes que trouxeram não subentendem, necessariamente, que os magos eram três. Não sabemos dizer qual estrela eles viram “no Oriente” (ou melhor ainda, “ao surgir no horizonte”, vide Mateus 2:2,9). Pode ter sido uma conjunção de Saturno e Júpiter, o que tinha significações simbólicas bem conhecidas. Ou pode ter sido um cometa, ou um corpo luminoso miraculoso, preparado exclusivamente para aquela ocasião especial. Quando chegaram os magos, Jesus não mais estava no estábulo onde nascera, mas em uma casa. O fato que Herodes o Grande ordenou que fossem mortos os infantes de Belém, de dois anos de idade para baixo, um feito que se coaduna bem com o seu caráter, segundo nos informam fontes históricas extra‑bíblicas, não dá a entender forçosamente que Jesus então já tinha quase dois anos de idade. Herodes simplesmente pode ter querido garantir uma margem de erro. E visto que Herodes faleceu em 4 A.C., o nascimento de Jesus deve ter ocorrido antes daquele ano.(Vide a ampla nota em Robertson, Harmony, págs. 262 ‑ 267, sobre o tempo provável do nascimento do Salvador.)

 

Fuga para o Egito.

Mui significativamente, a história pessoal do Messias reiterou certos aspectos da história nacional de Israel: a ida para o Egito e o retorno sob a proteção divina (vide Oséias 11:1), as lamentações das mães ante a morte de seus infantes assassinados em Belém e também por causa de seus filhos exilados, por ocasião do cativeiro babilônico (vide Jeremias 31:15). Ler Mateus 2:1‑23 e Lucas 2:39 (§§ 14‑16).

 

Volta e Residência em Nazaré.

“Ele será chamado Nazareno” (Mateus 2:23), é declaração que não ocorre em lugar algum do Antigo Testamento, mas pode referir‑se ao fato que Jesus residiria em Nazaré, em cumprimento de Isaías 11:1 e outras passagens paralelas. Isaías chama Jesus de “renovo” (no hebraico: netzer, com o qual substantivo talvez esteja associado o termo “Nazaré”), o qual brotaria até chegar à grandeza, partindo da obscuridade da dinastia de Davi, a qual é comparada com o toco restante de uma árvore decepada. Por certo, a aldeia de Nazaré, que mais se assemelhava a um “renovo”, foi um lugar obscuro e improvável para ali crescer e ser criado o Messias‑Renovo!

 

Visita ao templo.

Lucas é o único que nos relata qualquer coisa sobre a meninice de Jesus, e mesmo assim, muito pouco. Ao chegarem aos treze anos, os meninos judeus tornavam‑se membros com todas as regalias da religião judaica. Ao que parece, os pais de Jesus levaram‑No ao templo, quando tinha Ele doze anos de idade, a fim de familiarizá‑Lo com o templo e com as festividades religiosas ali efetuadas. Ler Lucas 2:40‑52 (§§ 17‑19). A pergunta feita por Jesus: “Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?” revela que desde cedo Ele tomou consciência de seu relacionamento ímpar com Deus Pai. Lucas conclui com uma declaração sumária de que Jesus crescia intelectualmente (“em sabedoria”), fisicamente (“estatura”), espiritualmente (“graça, diante de Deus”) e socialmente (“graça, diante … dos homens”).

 

PRIMÓRDIOS DO MINISTÉRIO DE JESUS PELA PALESTINA

 

A preparação por João Batista.

João Batista estreou na cena pública nalgum tempo durante os poucos anos antes de 30 D.C. O mais provável é que ele não tivesse qualquer conexão com a comunidade essênia de Qumran, nas praias noroestinas do mar Morto. Alguns eruditos, porém, pensam exatamente o contrário; mas a verdade é que João parece ter sido um profeta isolado, tipo eremita, e não membro de algum agrupamento monástico. Ele pregava aos judeus a necessidade do arrependimento, em preparação para a iminente chegada do reino de Deus. Esse ministério preparatório cumpriu profecias feitas por Malaquias e Isaías. (Marcos menciona por nome apenas Isaías, o mais proeminente dentre esses dois profetas.) Na época de João, provavelmente era requerido da parte de prosélitos gentios que batizassem a si mesmos, como rito de iniciação no judaísmo; mas João exigia o batismo para judeus, como sinal de arrependimento dos pecados. Ou, então, se o batismo de prosélitos ainda não tivesse sido adotado no judaísmo (as evidências são motivo de disputas), então João pode ter tomado por empréstimo a prática das auto‑lavagens, um ritual costumeiro dos essênios, revestindo‑a de nova significação.(Vide a nota de C.S. Mann em J. Munck, The Acts of the Apostles, revisado por W.F. Albright e C.S. Mann,  Garden City: Doubleday, 1967, Págs. 281‑283, e C. H. H. Scobie, John the Baptist, Filadélfia: Fortress, 1964, págs. 95 ss. A posição oposta se vê em H.H. Rowley, “The Baptism of John and the Qumran Sect”, New Testament Essayas: Studies in Memory of T. W. Manson, editado por A. J. B. Higgins, Manchester University Press, 1959, págs. 218‑229. Sabemos que no século II D.C., se um gentio se apresentasse para ser batizado, era indagado por qual razão o fazia, por causa do anti‑semitismo. Se por acaso respondesse como quem considerava indigno participar dos sofrimentos de Israel, então era instruído quanto a certos aspectos da lei mosaica. Então mergulhava por iniciativa própria na água, enquanto dois profundos conhecedores da Torah recitavam mandamentos do Antigo Testamento. Vide G. F. Moore, Judaism,  Cambridge: Harvard, 1950, vol. I, págs. 332‑335.) Qualquer que seja a teoria de sua origem, o fato é que João criara uma inovação, administrando ele mesmo o rito batismal ‑ donde provém a expressão “batismo de João”. Fariseus e saduceus hipócritas tinham vindo ao batismo, tão‑somente porque queriam manter sua reputação de religiosidade. Mas João comparou‑os a serpentes que fugiam de diante do incêndio em um capinzal.

Demonstrando seu interesse pelos problemas sociais, Lucas cita a admoestação feita por João, perante as multidões, no sentido que arrepender‑se significava compartilhar com os necessitados, que para os cobradores de impostos arrependimento eqüivalia à honestidade, e que para os militares o arrependimento era idêntico à gentileza no trato e ao contentamento com o soldo recebido. Porém, a mensagem escatológica mais profunda de João é que estava prestes a entrarem cena uma figura maior ainda que ele, alguém que haveria de batizar os penitentes, comparáveis ao trigo, com o Espírito Santo, ao passo que os impenitentes, comparáveis à palha, seriam batizados com o fogo do julgamento. O trigo era pisado em uma eira, com o fito de separar o grão da palha, e então era padejado no ar, a fim de que a palha se separasse do grão; e então a palha era varrida para um lado e o montículo era lançado ao fogo. O grão limpo era então guardado em um celeiro. Ler Marcos 1:1‑8; Mateus 2:1‑12 e Lucas 3:1‑18 (§§ 20‑23).

 

Batismo de Jesus.

 

O batismo de Jesus assinalou Sua entrada na vida pública. O batismo ministrado por João ordinariamente simbolizava o arrependimento do pecado. Mas, visto Jesus não ter pecado, Seu batismo postulou um problema. João protestou, dizendo que os papéis deveriam ser invertidos, de tal maneira que Jesus o batizasse com o Espírito Santo. Mas Jesus insistiu em deixar‑se batizar por ele, pelo menos por dois motivos: (1) Ele precisava identificar‑se com a humanidade pecaminosa, que viera salvar; e (2) Seu sepultamento batismal na água, e Sua saída da mesma, haveriam de dramatizar Sua vindoura morte, sepultamento e ressurreição. Ler Marcos 1:9‑11; Mateus 3:13‑17 e Lucas 3.21‑23 (§ 24).

Todos os três membros da Triunidade participaram da cena batismal de Jesus: o filho submeteu‑se ao batismo; o Pai O identificou; e o Espírito O ungiu para Sua tarefa oficial. As palavras ditas pelo Pai procedem do Antigo Testamento, identificando a Jesus tanto como o Messias davídico (“Tu és o meu Filho amado”, declaração extraída de Salmos 2:7, um salmo real) quanto como o Servo do Senhor (“em ti me comprazo”, declaração extraída de Isaías 42:1, um dos “cânticos do Servo”, na última porção do livro de Isaías).

 

A tentação.

Ler Marcos 1:12,13; Mateus 4:1‑11 e Lucas 4:1‑13 (§ 25). A tentação de Jesus consistiu de um teste para qualificá‑Lo a levar os pecados alheios, resistindo Ele mesmo ao pecado. O primeiro Adão sucumbiu sob as mais favoráveis condições. Cristo, o último Adão, resistiu sob as piores condições. Tal como na narrativa da Queda, Satanás foi o tentador.(“Satanás” é termo hebraico eqüivalente ao vocábulo grego “diabo” (diabolos). Ambos os termos significam “acusador”.) As tentações podem ter sido internas e mentais, externa e literais, ou podem ter sido a combinação dos dois tipos.

 

A introdução às duas primeiras tentações: “Se és Filho de Deus”, foi uma tentativa para fazer Jesus duvidar da voz certificadora, quando de Seu batismo: “Este é o meu Filho amado…” As sugestões no sentido que Ele transformasse as pedras em pães, e que saltasse no vácuo desde o pináculo do templo (ou então desde a sacada do templo), ou mesmo da beirada da área do templo, para verificar se Deus enviaria anjos que O amparassem no meio da queda, tinham por intuito impelir Jesus a testar aquela palavra de garantia que Lhe fora dirigida quando de Seu batismo. Na terceira tentação, “Tudo isto [a saber, os reinos e o seu fausto] te darei se, prostrado, me adorares”, Satanás tinha por alvo persuadir a Jesus a conquistar Seu destino como governante messiânico do mundo através do repúdio à cruz. Mas de cada vez Jesus enfrentou as tentações com uma citação extraída de Deuteronômio, atinente aos testes a que Israel foi sujeitado no deserto. É digno de nota, entretanto, que Satanás também citou Escrituras para as suas próprias finalidades. E nos pontos onde Israel, a nação, fracassou diante do teste, Jesus, o israelita ideal, foi aprovado plenamente.

Lucas reverte a ordem entre a segunda e a terceira tentações, aparentemente para dar uma ênfase climática à tentação que ocorreu em Jerusalém; pois através de toda a obra lucana de Lucas‑Atos, Jerusalém aparece como palco central da história da redenção, o alvo na direção do qual Jesus se movimentava, conforme o evangelho de Lucas, e a base de operações de onde os cristãos fizeram propagar‑se o evangelho, conforme o livro de Atos. Assim sendo, a ordem, de tentações seguida por Mateus é cronológica, e aquela por Lucas é por tópicos.

 

Testemunho de João Batista sobre Jesus.

Certos líderes judeus enviaram uma delegação a fim de indagar de João Batista se ele era o Cristo, ou Elias (que teria retornado para preparar Israel para o dia do Senhor, em consonância com Malaquias 4:5) ou se era algum outro grande profeta, conforme se esperava que surgisse nos últimos tempos. (Os judeus aguardavam o aparecimento de determinada variedade de personagens escatológicas). João, entretanto, negou todas as identificações que lhe foram propostas, embora houvesse asseverado ser a voz que clamava a fim de preparar o caminho do Senhor (vide Isaías 40:3). E também deixou claro que alguém maior do que ele mesmo já se encontrava no palco dos acontecimentos. Ler João 1:19‑34 (§§ 26,27). João foi capaz de proclamar a Jesus como o cordeiro sacrificial de Deus que viera remover o pecado do mundo, por causa da divina identificação de Jesus, por ocasião da descida do Espírito Santo, ao ser Ele batizado. A narrativa de Mateus já havia informado previamente que antes mesmo do ato do batismo, João já tinha reconhecido a identidade de Jesus como o Messias, porquanto entendera que Ele não precisava ser batizado como sinal de Seu arrependimento do pecado. O quarto evangelho meramente indica que João não reconhecera Jesus antes dessa ocasião, e que a descida do Espírito confirmou a intuição de João de que Jesus era aquele que batiza no Espírito Santo (1:31‑34).

 

Primeiros discípulos.

Na narrativa que se segue, dois dos discípulos de João começam a seguir a Jesus. Esses dois eram André e um discípulo cujo nome não é desvendado provavelmente, o apóstolo João, o qual, na qualidade de autor, refreia‑se de mencionar seu próprio nome. André conduziu a seu irmão Simão até à presença de Jesus. Jesus então revelou que Simão haveria de ser conhecido como “Cefas” (em aramaico) ou “Pedro” (em grego). A tradução portuguesa de ambos esses termos é “rocha” ou “seixo”. Ato contínuo, Jesus convocou a Filipe. Filipe por sua vez, trouxe a Natanael, o qual, por ser nativo de Caná da Galiléia, expressou seu ceticismo de que algo de bom pudesse originar‑se na aldeia rival e vizinha de Nazaré. Mas Jesus elogiou a Natanael por sua honestidade, e assegurou‑lhe que, por fim , ele veria a Jesus como o exaltado Filho do homem, servido pelos anjos, nos céus.(As interpretações alternativas de João 1:51 dizem que Jesus tornar‑se‑ia a linha de comunicação entre os céus e a terra, como a escada de Jacó (vide Génesis 28:12), ou que o Pai, nos céus, entraria em contato com o Filho do Homem, na terra.) Ler João 1:35‑51 (§ 28).

 

O Primeiro milagre.

João apresenta‑nos a transformação da água em vinho, em Caná, como um sinal que simboliza que a mensagem e a realização remidoras de Jesus, retratadas pelo vinho produzido por Jesus, ultrapassam ao que é produzido pelo judaísmo, retratado pelo “água benta” usada nos rituais de purificação dos judeus. Terminara o suprimento de vinho original, durante as bodas, que se prolongavam por uma semana. Ao ser informado dessa falha, por Sua mãe, Jesus, cortês (“Mulher” não era então um tratamento rude, conforme parece ser na nossa tradução portuguesa) mas decisivamente deu a entender que, embora Ele pudesse remediar a situação, não o faria em face da sugestão dela. A única razão válida para a realização de um milagre seria se isso estivesse em harmonia com o plano de ação traçado pelo Pai, e que conduzia à “hora” de Jesus, à semana culminante de Sua morte e ressurreição.(Vide João 7:30; 8:20; 12:23,27; 13:1 e 17:1.) As seis talhas de pedra tinham cerca de 75 l de capacidade cada uma. O mestre de cerimônias (intitulado no relato bíblico “mestre‑sala”), entre admirado e escarninho, observou um tanto cruamente que embore a maioria dos hospedeiros só servisse o vinho inferior após os convivas já se terem embebedado, não podendo mais distinguir a diferença de qualidade entre vinhos, aquele hospedeiro havia reservado vinho superior exatamente para o fim. Ler João 1:1‑12 (§§ 29,30).

 

EXCURSO SOBRE MILAGRES DO EVANGELHO

O primeiro milagre de Jesus levanta a questão do sobrenatural, ao que o moderno homem “científico” com freqüência objeta. Todavia, se realmente existe um Deus que tem atuado na história, mormente revelando a Si mesmo através de Jesus Cristo, de que outra maneira poderíamos esperar que Ele agisse, senão de modo sobrenatural? Se Deus não tivesse atuado assim, bem poderíamos frisar a ausência de evidências históricas que comprovem que Deus estava, realmente, operando. Nada é mais natural, para um Deus que revela a Si mesmo, do que Ele tê‑lo feito sob formas extraordinárias, para que pudéssemos reconhecê‑Lo.  O próprio fato que outras religiões, com freqüência, afirmam entrar no sobrenatural comprova que os homens realmente esperam que o divino se manifeste dessa maneira.

Uma atitude verdadeiramente cientifica manterá aberta a possibilidade do sobrenatural e submeterá a teste eventos extraordinários referidos na história passada, mediante indagações perscrutadoras. Houve testemunhas oculares? Nesse caso, o número delas foi suficiente, e o caráter e a inteligência delas eram dignos de confiança? Quão tenazmente elas se aferraram a seu testemunho, mesmo sob pressão? Existem antigos registros escritos, ou somente registros feitos longo tempo depois, quando a mitologia pode ter invadido a tradição oral? Perguntas como essas situam as reivindicações do sobrenatural, apresentadas por outras religiões, em precária situação, ao passo que as reivindicações do cristianismo são postas sob luz favorável. No caso da carreira de Jesus, houve muitíssimas testemunhas oculares. Aqueles que se aliaram a Jesus sofreram espontaneamente o ostracismo, a tortura e mesmo a morte, por causa do que proclamaram a respeito Dele ‑ e continuaram sentindo‑se constrangidos a prosseguirem sua proclamação, mesmo tendo de pagar tal preço. No entanto, poderiam ter preservado a própria vida se tivessem admitido falsidade em seu testemunho sobre Jesus, ou mesmo se ao menos tivessem feito cessar o seu testemunho.

Outrossim, os registros sobre o ministério de Jesus começaram a ser escritos ainda bem dentro do meio século depois da vida terrena de Cristo. O período de tempo que se passara era curto por demais para permitir excrescências mitológicas, especialmente ante a influência refreadora de testemunhas oculares amigáveis e contrárias. A própria extravagância das narrativas, de um ponto de vista naturalista, torna improvável que elas tenham sido inventadas ou toleradas durante aqueles anos em que ainda viviam as testemunhas oculares.(Acerca dos milagres dos apóstolos, Paulo não teria ousado apelar para os milagres que ele fizera entre os gálatas, como um argumento, se nunca o tivessem visto fazer qualquer milagre (vide Gálatas 3:4).) Dessa forma, as reivindicações de outras religiões quanto ao miraculoso sob hipótese alguma solapam reivindicações similares do cristianismo, quando ambas essas reivindicações são testadas pelos instrumentos da pesquisa histórica, estando nós com a mente receptiva. Pelo contrário, isso demonstra o que os homens esperam e têm o direito de esperar da parte de Deus, a saber, que Ele se revela de maneira não usual.(Vide ainda C. S. Lewis, Miracles, Nova Iorque: Macmillan, 1947; e quanto a discussões mais técnicas, E. L. Mascall, The Secularization of Christianity, Nova Iorque: Holt, Rinehart & Winston, 1966; H. van der Loos, The Miracles of Jesus, Leiden: Brill, 1965, págs. 3‑113.)

 

Purificação do templo.

Ler João 2:13‑22 (§ 31).(Os evangelhos sinópticos situam uma purificação do templo nos estágios finais do ministério de Jesus. Muitos eruditos sentem que ou aqueles ou João alteraram a ordem cronológica por razões tópicas. Por outra parte, não é inconcebível que Jesus tivesse iniciado o Seu ministério com um protesto contra o oficialismo corrupto do templo, para servir de desafio ao arrependimento, tendo feito outro protesto, antes de Sua paixão, como previsão da destruição divinamente punitiva, que haveria de sobrevir em 70 D.C.) A cena de fundo da purificação do templo por Jesus foi o fato que animais e aves para os holocaustos estavam sendo vendidos na área do templo para benefício de peregrinos que não pudessem trazer consigo ditos sacrifícios, por terem vindo de longas distâncias. Os cambistas trocavam moedas estrangeiras por judaicas, a fim de que os peregrinos provenientes de outros países pudessem comprar os citados animais. Jesus fazia objeções ao comercialismo nos recintos sagrados. E também parece que tanto os preços como as taxas de câmbio eram exorbitantes. Anás, o sumo sacerdote emérito, controlava tais negócios. A população, de modo geral, provavelmente simpatizava com o ato de Jesus, em oposição às cúpidas autoridades do templo. A declaração de Cristo, acerca do levantamento do templo destruído, no espaço de três dias, aludia, de maneira enigmática, à ressurreição de Seu corpo, além de deixar entendido que agora o verdadeiro templo, o centro de adoração, era o próprio Jesus. Sua presença deixava obsoleta aquela edificação em Jerusalém, tal como o fato que Ele expulsou os animais para os sacrifícios simbolizava que estes tornar‑se‑iam inúteis, porquanto já se aproximava o tempo em que Ele morreria como o sacrifício final de Deus.

Estando ainda em Jerusalém para a celebração da páscoa, Jesus obteve discípulos realizando milagres. Como lhe era costumeiro, João chama tais milagres de “sinais”. Porém, tendo reconhecido a superficialidade da fé que não progride para além da observação de prodígios, Jesus recusou‑se a ser envolvido em algum movimento messiânico popular. Ler João 2:23 ‑ 3.21 (§ 32).

 

Nicodemos e o novo nascimento.

A descrição de Nicodemos como “um dos principais dos judeus” significa que ele era membro do Sinédrio. Ele viera conversar com Jesus à noite, ao invés de fazê‑lo durante as horas do dia, provavelmente por temer danificar sua reputação. A declaração que ele proferiu, no sentido de ser Jesus um “Mestre vindo da parte de Deus” (3:2), estabelece o contraste de Jesus como operador de milagres com os teólogos puramente acadêmicos, que saiam das escolas rabínicas. E a réplica dada por Jesus, de que a pessoa deve “nascer de novo”, deu a entender a insuficiência da fé somente em milagres. A fé salvatícia deve forçosamente envolver a entrega moral e espiritual mais profunda, que efetue uma renovação comparável a um novo começo de vida, com uma nova natureza, outorgada desde os céus, lá no alto. Somente então é que um indivíduo pode ver e entrar no reino de Deus. De modo preliminar, entretanto, agora mesmo o crente começa a desfrutar da vida eterna que faz parte do governo divino.

Por si mesma, a fé não produz renovação espiritual. Antes, no momento da fé genuína em Jesus Cristo, o Espírito Santo purifica o coração.(“Nascer da água e do Espirito” simplesmente alude à operação purificadora do Espírito, na regeneração. Comparar com Tito 3:5 e Ezequiel 36:25‑27. Era com base naquele trecho de Ezequiel, e na comparação rabínica entre um prosélito e uma criança recém‑nascida que Jesus esperava que Nicodemos compreendesse as Suas palavras. Ver os comentários, quanto a outras interpretações, as quais equiparam a água com o batismo, com o nascimento natural, com o próprio Espírito ou com a Palavra.) Jesus compara as operações invisíveis do Espírito ao vento. O vento mesmo não pode ser visto, mas seus efeitos são perfeitamente evidentes. Ao estabelecer a comparação, Jesus estava criando um jogo de palavras, ante o duplo sentido do termo usado, o qual significava tanto “vento” quanto “espírito”. A obra renovadora do Espírito se fundamenta sobre a descida de Jesus, desde os céus, e sobre Sua ascensão de volta aos céus, por meio da cruz. Nesta altura, Jesus compara Sua vindoura crucificação com a ocasião em que Moisés levantou a serpente no deserto (3:13,14; vide Números 21:8,9).

 

João Batista e Jesus.

Por algum tempo, Jesus levou a efeito um ministério de batismo, através de Seus discípulos. Ele não administrava pessoalmente o rito. E quando João Batista ouviu a noticia sobre essa atividade aparentemente rival, proferiu um retumbante elogio a Jesus, no qual comparou Jesus a um noivo, ao passo que ele mesmo seria apenas o padrinho (“o amigo do noivo”). Segundo os costumes judaicos, o padrinho se encarregava dos preparativos para as bodas, da parte do noivo. João também contrastou a sua própria origem terrena com a origem celestial de Jesus. Ler João 3:22 ‑ 4.4; Lucas 3:19,20; Marcos 1:14; Mateus 4:12 e Lucas 4:14 (§§ 33 e 34).

 

A mulher samaritana.

Ler João 4:5‑42 (§ 35). Alguns afirmam que, na história da conversa que houve entre Jesus e a mulher samaritana, a “hora sexta” (versículo 6) seria o meio‑dia (de acordo com o cômputo judaico, que contava as horas a partir da alvorada e a partir do pôr‑do‑sol). O mais provável, entretanto, é que João tivesse empregado o cômputo romano (igual ao moderno), que contava as horas a partir da meia‑noite e a partir do meio‑dia. Nesse caso, seria seis horas da tarde.(João 1:39, nesse caso, significa que os primeiros discípulos se encontraram com Jesus as dez horas da manhã, o que forma base mais natural para afirmativa que “ficaram com ele aquele dia”, do que se tivessem tido esse encontro as dezesseis horas. Neste ponto do evangelho de João, seis horas da tarde é melhor que o meio‑dia, porque as mulheres costumavam tirar água do poço ao cair da tarde, e não sob o calor do meio‑dia. Aquela mulher não haveria de ter tido o pejo de evitar outras mulheres, vindo ao poço em horário irregular. Por igual modo, em João 4:52, a “hora sétima”, compreendida como as sete da noite, e não como uma hora da tarde, se adapta melhor a circunstância do nobre ter feito uma caminhada de trinta e poucos quilômetros, ou seja, a jornada de um dia inteiro, de Cafarnaum a Caná. Em João 19:14, se tomamos a “hora sexta” como seis horas da manhã (segundo cômputo romano), e não como meio‑dia (cômputo judaico), isso se harmonizará com as indicações dos evangelhos sinópticos acerca do tempo da crucificação de Jesus. E, em João 20:19, lemos sobre o cair da tarde do primeiro domingo de Páscoa, como a tarde “do primeiro dia da semana”: sem dúvida foi usado o método romano, pois, de acordo com o cômputo judaico, aquela tarde já era o começo do dia seguinte, ou seja, o segundo dia da semana (pois cada novo dia começava ao pôr‑do‑sol, segundo os judeus).) A mulher samaritana se sentiu profundamente admirada que Jesus, sendo judeu, pedia de beber de uma pessoa samaritana, “por que os judeus não se dão com os samaritanos”, conforme ajunta os versículo nono. Jesus esclareceu que Ele poderia dar‑lhe da “água viva”. Mas ela pensou que se tratava da água corrente de algum córrego ou poço artesiano, em contraste com a água parada de um poço. Então Jesus explicou que a água que Ele daria, capaz de satisfazer permanentemente a sede, resultaria em vida eterna (versículo 14). Ainda entendendo a Jesus conforme um prisma materialista, ela chegou a pensar que Ele se referia a um líquido literal, dotado de poder mágico de satisfazer à sede física.

Jesus então mudou o tópico da conversa para a sórdida vida que ela levava. Imediatamente, reconhecendo o discernimento profético de Jesus, ela perguntou se o lugar certo de adoração seria o monte Gerizim, nas proximidades, onde jazia em ruínas o templo samaritano, ou se seria Jerusalém, onde se erguia o templo dos judeus. Jesus deixou claro que os judeus tinham estado com a razão até aquela data, mas que já chegara a hora dos verdadeiros adoradores de Deus se desvencilharem de formas externas, como as cerimônias em templo. Agora esses adoradores deveriam adorar “em espírito e em verdade”. Tal expressão nada tem a ver com a sinceridade, pois se tratava de uma maneira velada de dizer que os homens só podem aproximar‑se de Deus através do próprio Jesus, o doador do Espírito (o que é simbolizado pela água transmissora de vida; comparar com 7:37‑39), sendo Ele mesmo a Verdade, aquele que revela a Deus com perfeição (comparar com 14:6). Ato contínuo, Jesus identificou‑se ante a mulher samaritana como o Messias. A mulher confiou Nele, e exerceu sua influência pessoal para que outros habitantes da aldeia também cressem em Jesus.

 

Para discussão posterior.

‑ Quais termos modernos, ao invés de “Verbo” (ou Palavra), João poderia ter usado para designar a Jesus como aquele que comunica Deus ao homem?

‑ De quais fontes informativas Mateus e Lucas devem ter respigado suas informações acerca do nascimento de Jesus? Como vieram eles a ter conhecimento de detalhes da tentação de Jesus?

‑ Compare João Batista e sua mensagem com a seita essênia de Qumran e suas crenças (ver as páginas 133 e 134).

‑ Como teria sido possível que o divino Filho de Deus houvesse sido tentado genuinamente?

‑ Analise a psicologia envolvida no modo pelo qual Jesus tratou com a mulher samaritana.

‑ Pode o método científico relegar a uniformidade da natureza e a analogia dos acontecimentos, a fim de abrir espaço para os milagres?

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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