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Epístolas Gerais  – Panorama do NT

Perguntas Normativas:

 

– Por que as epístolas gerais ou católicas são chamadas assim?

– Qual Tiago escreveu a epístola que tem esse nome ? A quem ele a endereçou? Qual é o valor prático da epistola de Tiago? Como comparar a sua doutrina de obras da fé com o ponto de vista paulino da fé?

– Qual era a natureza da perseguição por que passavam os primeiros leitores de I Pedro? De que modo Pedro os encorajou? Onde ficava a “Babilônia” de onde ele escreveu essa epístola?

– De que maneira devemos avaliar as dúvidas modernas no que concerne à autoria petrina e à canonicidade de II Pedro? Qual tema comum e qual relação há entre essa epístola e a de Judas?

– Quem foi Judas? Por que ele mudou de idéia no tocante ao conteúdo de sua epístola? Como deveríamos compreender o fato que ele extraiu uma citação de fontes pseudepigráficas?

– A quem e contra quem João endereçou a sua primeira epístola?

– Quais são os critérios joaninos no que tange ao genuíno cristianismo?

– Quais eram “a senhora eleita e seus filhos”, a quem João dirigiu a advertência de que não entretivessem falsos mestres?

– Quais papéis foram desempenhados por Gaio, Diótrefes e Demétrio, na disputa eclesiástica em torno da qual gira a terceira epístola de João?

 

O vocábulo “católico”, cujo significado é “geral, universal”, veio a ser aplicado pela Igreja primitiva às epístolas de Tiago, I e II Pedro, I – III João e Judas porque, excetuando II e III João, elas não contam com indicações de terem sido endereçadas a alguma única localidade. Deve-se observar que receberam nome de seus autores tradicionais, no que se parecem com os evangelhos, mas, diferentemente das epístolas paulinas e de Hebreus, que derivam seu nome dos seus destinatários tradicionalmente atribuídos.

 

 

TIAGO: SALVAÇÃO PELAS OBRAS

 

A epístola de Tiago é a menos doutrinária e mais prática de to­dos os livros do Novo Testamento. (Esse fato, todavia, não nos deveria levar nem a subestimar e nem a superestimar o valor da obra, pois doutrina e prática são aspectos igualmente importantes.) Portanto, estamos manuseando um manual de conduta cristã, o qual pressupõe um alicerce de fé por parte de seus leitores.

 

O autor

Esta epístola traz o nome de seu autor, Tiago (forma grega do apelativo hebraico “Jacó”), líder da primitiva igreja de Jerusalém (vide Atos 15:12 ss.; 21:18; Gálatas 2:9,12) e usualmente considerado meio-irmão de Jesus.(Tiago filho de Zebedeu e um dos doze, foi martirizado em 44 A.D. (vide Atos 12:2), talvez cedo demais para aceitarmos que ele escreveu a epístola. O tom autoritário da mesma elimina os menos conhecidos Tiagos do Novo Testamento, o filho de Alfeu o mais jovem e filho de Maria (não a mãe de Jesus) e o pai de Judas (não o Iscariotes). Vide uma concordância quanto às referências.) É possível, não obstante, que Tiago tivesse sido meio-irmão de Jesus através de um casamento (conjecturado) anterior de José, antes de ter este contraído matrimônio com Maria. Este último ponto de vista, que excluiria qualquer relacionamento de sangue com Jesus, talvez explique melhor por qual razão os irmãos de Jesus não creram Nele durante Seu período de vida terrena (vide Marcos 3:21 e João 7:2­8); e também explanaria melhor a falta de interesse deles por Maria, que seria apenas sua madrasta, além de também explicar melhor por que Jesus, estando na cruz, entregou Sua mãe aos cuidados do apóstolo João (vide João 19:25-27). Entretanto, a razão pode ter sido que o discipulado de Maria a alienara de seus outros filhos, que continuavam não crendo em Jesus.

A fim de manter a doutrina da perpétua virgindade de Maria, o ponto de vista tradicional da Igreja Católica Romana é que o termo “irmãos” significa “primos”. Porém as associações que se depreendem ter havido entre Jesus e Seus irmãos, em trechos como Mateus 13:55; Marcos 6:3; João 2:12 e 7:2-10, subentendem que havia laços de sangue mais íntimos do que o de meros irmãos de criação. A opinião de que o Tiago que escreveu esta epístola era meio-irmão de Jesus, por conseguinte, permanece como a mais provável.

Embora não fosse crente em Jesus, durante o ministério público do Senhor, Tiago foi testemunha do Cristo ressurreto (vide 1 Coríntios 15:7) e se encontrava entre aqueles que esperavam pela descida do Espírito Santo, no dia de Pentecostes (vide Atos 1:14). Isso dá a entender que Tiago e os demais irmãos de Jesus tornaram-se crentes em algum tempo durante o último estágio da carreira terrena de Jesus. Embora o próprio Tiago fosse praticante zeloso da legislação mosaica (vide Gálatas 2:12 e Atos 21:17-26), quando do concílio de Jerusalém ele apoiou a posição de Paulo, no sentido de que os convertidos dentre os gen­tios não deveriam ser forçados a guardar a lei mosaica (vide Atos 15:12-21).

O tema da epístola de Tiago tem tons fortemente judaicos, destacando-se a saliência dada à lei, o que se harmoniza com aquilo que sabemos sobre Tiago, irmão do Senhor, através dos livros de Atos e Gálatas, e outras fontes. Outrossim, há alguns sig­nificativos paralelos verbais entre a epístola de Tiago e as pala­vras proferidas por Tiago, no capítulo 15 do livro de Atos, como o termo “saudações” (no grego. chairein, usado no Novo Testa­mento somente em Tiago 1:1 e Atos 15:23, o decreto redigido sob a liderança de Tiago), o vocábulo “visitar”, ou seja, “preocupar-­se com” (vide Tiago 1:27 e Atos 15:14, dentro do discurso de Tiago perante o concílio de Jerusalém) e outros (comparar Tiago 2:5,7 com Atos 15:13,17). Aqueles que reputam a epístola como obra posterior pseudepigráfica, pertencente ao fim do primeiro ou aos primórdios do segundo século da era cristã, afiançam que um galileu simples, como era Tiago, não poderia ter escrito no grego estilizado que se observa nessa epístola. Entretanto, a obje­ção superestima a qualidade literária do estilo grego e, o que ainda é mais importante, não leva em conta o fato que os judeus da Palestina, especialmente os galileus, que viviam em uma re­gião ocupada predominantemente por gentios, conheciam e usa­vam o grego, paralelamente ao aramaico e hebraico. (Vide o artigo citado à pág. 23 e J. N. Sevenster. Do You Know Greek? Leiden: Brill, 1968.)

 

Canonicidade

A epístola de Tiago encontrou algumas dificuldades para ad­quirir lugar no cânon do Novo Testamento. Diversos fatores ajudam-nos a explicar a hesitação da Igreja primitiva quanto a isso: (1) a brevidade da epístola, sua natureza proeminentemente prática, e não doutrinária e a limitação do seu endereço a cris­tãos judeus – tudo o que, sem dúvida, retardou uma mais ampla circulação da mesma: (2) o fato que Tiago não fora um dos doze apóstolos originais; e (3) a incerteza a respeito da identidade de Tiago, em Tiago 1:1, porquanto aparecem diversos homens com esse nome, nas páginas do Novo Testamento. A impressão equi­vocada (expressa por Martinho Lutero) de que a doutrina de obras, na epístola de Tiago, contradiz a doutrina paulina da fé não perturbou a Igreja primitiva, pelo menos até onde podemos averiguar. Quando se chegou a perceber que o autor quase certa­mente era Tiago, irmão do Senhor, o veredito final foi favorável para com a canonicidade da epístola de Tiago.

 

Destinatários judeus cristãos

         Tiago escreveu às “doze tribos que se encontram na Dispersão” (1 :1 ). Essa designação pode ser compreendida metaforicamente, tal como se vê em I Pedro 3, indicando a Igreja predominantemente gentílica, espalhada por todo o império romano. Na epístola de Tiago, sem embargo, a referência mais provável é aos cristãos judeus que viviam fora da Palestina, posição essa favorecida por certo número de itens existentes na epístola: a referência específica às “doze tribos”, o emprego, em Tiago 2:2, do vocábulo grego que significa sinagoga, traduzido por sentido não­técnico de “assembléia”, em algumas versões, mas mantido como “sinagoga” em nossa versão portuguesa; as cinco citações e as numerosas alusões ao Antigo Testamento, expressões idiomáticas hebraicas, como “Senhor dos Exércitos” (5:4); a ênfase posta sobre diversos princípios permanentes da lei judaica (2:8­13 e 4:11,12) e sobre o monoteísmo (2:19); e a omissão de qual­quer alusão à escravatura e de qualquer polêmica contra a idolatria, ambas as quais coisas não caracterizavam aos judeus do primeiro século cristão, embora ambas fossem práticas comuns entre os gentios.

 

Data

Josefo data o martírio de Tiago em 62 D. C.(Antiguidades XX, ix. l. Menos provável é a data de 68 D.C., de Hegesipo, con­forme ficou registrado por Eusébio. História Eclesiástica II. xxiii. 18.), pelo que a sua epístola precisa ser datada antes desse prazo. Há eruditos que argumentam em prol de uma data tão recuada (45-50 D. C.) que a epístola de Tiago poderia ser considerada o primeiro livro do Novo Testamento a ser escrito. Por exemplo, a ausência de qual­quer alusão à controvérsia judaizante é tomada como prova implícita de uma data antes do surgimento daquela controvérsia, imediatamente antes do concílio de Jerusalém, que teve lugar em cerca de 49 D. C.; e o tom tipicamente judaico da epístola é tido como prova implícita de que, ao ser escrita a epístola, o cristianismo ainda não se expandira para fora da Palestina. No entanto, a limitação do endereço a cristãos judeus, e a perspectiva decisivamente judaica do próprio Tiago poderiam justificar ambos esses fenômenos, em razão do que só nos resta contentarmo-nos com uma data indeterminada para o martírio de Tiago.

 

Relação com o ensino de Jesus

É notável que a epístola de Tiago contém numerosas alusões a afirmações de Jesus, também registradas nos evangelhos, sobretudo material associado ao Sermão da Montanha. Por exemplo, o contraste em Tiago 1:22, entre ouvintes e praticantes da palavra faz-nos lembrar a parábola do homem sábio, que edificou sua residência sobre um sólido alicerce, por ter ouvido e posto em prática as palavras de Jesus, e do homem insensato, que edificou sobre a areia, por ter ouvido mas não praticado as Suas palavras (vide Mateus 7:24-27 e Lucas 6:47-49).

 

Estrutura literária

É bastante difícil traçar o esboço da epístola de Tiago. Pois ela compartilha do estilo desconexo e moralista do livro de Provérbios e de outra literatura de sabedoria; porém, os preceitos são proferidos aos moldes de um sermão profético esbraseado. Após a saudação inicial (1:1), pode-se tão somente alistar a série de exortações práticas que versam sobre diversos tópicos:

Regozijo ante as tribulações (1:2-4).

Petições confiantes a Deus, pedindo-Lhe sabedoria (1:5-8).

Necessidade de não desejar riquezas materiais (1:9-11).

Distinção entre os testes que procedem de Deus e as tentações, as quais procedem das paixões humanas, porque Deus só nos outorga boas dádivas (1:12-18).

Necessidade de pôr em prática a Palavra, no uso da língua e nas ações, para não sermos meros ouvintes (1:19-27).

Necessidade de não exibir parcialidade em prol dos ricos, mas amar igualmente a todos como a nós mesmos (2:1-13). Tal como no Antigo Testamento, a ênfase sobre “os ricos” recai muito mais sobre sua ímpia perseguição contra os piedosos do que mesmo sobre sua abastança, tal como “os pobres” freqüentemente indica “piedosos e perseguidos” mais que “necessita­dos”.

 

As obras  e a fé

Demonstração da genuinidade da fé mediante as boas obras produzidas pela fé (2:14-26). Tiago escreve acerca da justificação pelas obras como evidência externa, perante os homens, daquela fé interna. Não contradizia a Paulo, o qual escreveu sobre a justificação mediante a fé, perante Deus. Conhecedor que é dos corações de todos os homens, Deus não precisa ver e evidência ex­terna dada pelas obras. Alguns dos eruditos que pensam que Tiago escreveu sua epístola já nos últimos anos de sua vida argumentam que ele estava corrigindo a distorção antinomiana do ensino paulino da justificação pela fé. Outros estudiosos, não percebendo que Tiago e Paulo se complementam mutuamente (Paulo, por igual modo, salienta as boas obras como conseqüência da verdadeira fé!), asseveram que Tiago ou um falsificador posterior estava atacando não uma mera distorção da doutrina paulina, mas a formulação paulina propriamente dita. Ler Tiago 1 e 2.

 

Controlando a língua

Produção das qualidades da sabedoria genuína, requeridas da parte dos mestres cristãos: o controle da língua, isto é, do linguajar:  a mansidão, que evita a inclinação para a desavença; e a pureza, que evita o mundanismo (3:1 – 4:10).

Necessidade de não nos caluniarmos uns aos outros (4:11,12).

Necessidade de não traçar planos alicerçados sobre confiança própria excessiva, sem levar em conta a vontade de Deus e a possibilidade da morte (4:13-17).

Necessidade da paciência até o retorno de Jesus, pois então é que Deus punirá aos ricos e poderosos perseguidores (5:1-11).

Necessidade de ser adquirida a reputação de honestidade, para que ninguém tenha de reforçar suas palavras com juramentos (5:12).

 

Ungindo aos enfermos

Necessidade de compartilhar com outros crentes de nossas preocupações e alegrias (5:13-18). Em particular, que os anciãos da igreja orem confiantemente pela cura dos enfermos, ungindo-­os com óleo em nome do Senhor. Se a pessoa enferma cometeu algum pecado e o confessa, a cura demonstrará que Deus a per­doou. (O reverso – que a enfermidade sempre é uma punição direta por causa de pecado, e que o não recuperar-se subentende que Deus não perdoou – não é uma conclusão lógica.) Visto que o azeite de oliveira era um remédio caseiro comum, Tiago pode­ria ter tido em mente suas propriedades medicinais, como que a dizer: “Tratai com um medicamento e orai pela recuperação do doente”. A ordem para a unção com óleo forma a base do sacramento católico-romano da extrema unção, segundo o qual o padre unge os olhos, as orelhas, as narinas, as mãos e os pés de uma pessoa moribunda, como meio de perdão se tal indivíduo está impossibilitado de confessar conscientemente os seus pecados a fim de receber a absolvição sacerdotal. Porém, Tiago fala sobre “anciãos”, e não sobre padres. E também não alude a pessoa à beira da morte.

 

Confissão de pecados

Similarmente, o mandamento: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros…” (5:16), é um texto de prova utilizado pelos católicos-romanos em apoio à confissão auricular. Mas Tiago registra “uns aos outros” (um estranho nome para um padre, conforme o comentário de Martinho Lutero), e mui provavelmente ele se referia à solução de divergências entre os crentes, e não à prática de segredar alguém os seus próprios pecados aos ouvidos de um padre ou da igreja inteira.

 

Arrancando irmãos na fé da apostasia

Necessidade de impedir que companheiros de profissão cristã venham a apostatar e incorrer no juízo eterno (5:19, 20). (Vide as observações sobre a apostasia, em conexão com a epístola aos He­breus, às págs. 374) Ler Tiago 3 – 5. Aquele que “converte o pecador do seu caminho errado” salva da morte não a sua própria alma, e, sim, a alma do crente desviado (crente por profissão de fé), e cobre “multidão de pecados” da pessoa que tendia à apostasia, e não de si mesmo.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE TIAGO (Devido ao estilo de Tiago, é duvidoso se o esboço usual, que salienta apenas alguns poucos pontos principais, pode ser imposto à sua epístola sem violar a sua natureza.)

 

Tema: A conduta cristã na vida diária

INTRODUÇÃO: Saudação aos crentes judeus da dispersão (1:1)

  1. ALEGRIA NAS TRIBULAÇÕES (1:2-4)
  2. ORAÇÃO PEDINDO SABEDORIA (1:5-8)

III. DESINTERESSE PELAS RIQUEZAS MATERIAIS (1:9-11)

  1. DISTINÇÃO ENTRE PROVAS E TENTAÇÕES (1:12-I8)
  2. A OBEDIÊNCIA À PALAVRA (1:19-27)
  3. AMAR SEM SER PARCIAL PARA COM OS RICOS (2:1-13)

VII. AS OBRAS COMO PROVA DE FÉ (2:14-26)

VIII. A SABEDORIA (3:1 – 4:10)

  1. Sabedoria no controle da língua (3:1-12)
  2. Sabedoria na mansidão e na ausência da atitude mundana (3:13 – 4:10)
  3. EVITANDO A CALÚNIA (4:11,12)
  4. A CONFIANÇA SEM BASE (4:13-17)
  5. A PACIÊNCIA (5:1-II)

XII. A HONESTIDADE (5:12)

XIII. A ATITUDE DF COLETIVIDADE, INCLUINDO A ORAÇÃO PELOS DOENTES E A MÚTUA CONFISSÃO DE PECADOS (5:13-18)

XIV. RECUPERAÇÃO DE CRENTES QUE ERRAREM (5:19,20)

 

Para investigação posterior:

 

Tasker, R. V. G. A Commentary on the General Epistle of James. Grand Rapids: Eerdmans, 1957.

Robertson, A. T. Studies in the Epistle of James. Nova Iorque: Doran, 1915.

Ross, A. The Epistles of James and John. Grand Rapids. Eerdmans, 1954.

Mitton, C. L. The Epistle of James. Grand Rapids: Eerdmans, 1966.

Romanos 4, em comparação com Tiago 2:14-16, acerca da fé e das obras produzidas pela fé.

 

 

I PEDRO: A SALVAÇÃO E OS SOFRIMENTOS

 

Tema

Os leitores a quem esta epístola foi endereçada originalmente estavam sendo perseguidos. Portanto, ela se concentra no tema da conduta cristã apropriada em face de hostilidades anticristãs, bem como no tema do dom compensador da salvação, o qual atingirá seu estágio culminante no futuro.

 

Autoria

O autor da epístola identifica-se como Pedro (1:1). Essa identificação concorda de modo notável com dois fenômenos: (1) certo número de expressões em 1 Pedro faz-nos lembrar da fraseologia do sermão de Pedro, registrado no livro de Atos, (Comparar, por exemplo, com Atos 2:23 e I Pedro 1:20, acerca de ter sido preordenada a morte de Cristo; comparar Atos 10:42 e I Pedro 4:5 sobre o julga­mento dos “vivos e mortos”; e o uso distintivo do termo grego xylon (literalmente, “madeira”), para indicar a cruz, em Atos 5:30, 10:39 e I Pedro 2:24.) e (2) as alusões às declarações e aos feitos de Jesus, conforme eles se acham registrados nos evangelhos, procedem de situações nas quais Pedro desempenhou papel especial, ou nas quais ele tinha um interesse especial. (Por exemplo, a exortação, em 2:13-17, para vivermos como libertos, mas ao mesmo tempo vivermos em sujeição às autoridades civis, para não causarmos ofensa, recua ao incidente registrado em Mateus 17:24-27, onde Jesus disse que Ele e Seus discípulos estavam isentos realmente da autoridade humana; mas que, para evitar escandalizá-las, Ele pagava a taxa do templo, com a “moeda” achada por Pedro na boca de um peixe. Quanto a outros exemplos, vide R. H. Gundry, Verba Christi” in I Peter: Their Implications Concerning the Authorship of I Pe­ter and the Authenticity of the Gospel Tradition, “New Testament Studies, 13 (1967), págs. 336-350.) Portanto, embora alguns eruditos modernos tenham postulado a teoria de que originalmente I Pedro fora um sermão ou liturgia batismal (vide 1:3 – 4:11), que foi transformado em uma epístola mediante a adição dos trechos de 1:1,2 e 4:12 – 5:14, e, assim sendo, provavelmente não sendo de origem petrina, é melhor aceitarmos a declaração constante na própria epístola, a qual assegura ter sido escrita pelo apóstolo Pedro, reivindicação essa respaldada na tradição da Igreja antiga.

 

Data

O tema da perseguição aos cristãos, que percorre essa epístola toda, sugere que Pedro a escreveu por volta de 63 D. C., pouco antes de seu martírio em Roma, por ordens de Nero, o que sucedeu em 64 D. C.

 

Perseguição

A perseguição pressuposta em I Pedro parece não ter-se originado de uma proscrição do cristianismo, por decreto imperial, porquanto Pedro continuava falando do governo como um protetor (vide 3:13 e 2:13-17). Essa proscrição que se estendeu por todo o império, só teve lugar mais tarde. Tal perseguição, pelo contrário, assumira a forma de acusações caluniosas, ostracismo social, levantes populares e ações policiais locais. Os eruditos que negam a autoria petrina da epístola usualmente datam a epístola como pertencente ao período de perseguições movidas por Domiciano (81-96 D. C.) ou as movidas por Trajano (98-117 D. C.). Não obstante, durante esses citados períodos de perseguição a questão dominante era a recusa dos cristãos em oferecer sacrifícios em honra ao imperador. Mas, visto não figurar esse tópico em I Pedro, torna-se preferível a data mais antiga, junta­mente com a aceitação da autoria petrina.

 

Silvano, o amanuense

Silvano atuou como amanuense de Pedro nesta epístola (“Por meio de Silvano… vos escrevo…”, 5:12), e ele pode ter sido o responsável pelo estilo bastante aceitável do grego em que foi vazada a epístola, embora não devamos imaginar que judeus palestinos, como era Pedro, fossem incapazes de usar bem o idioma  grego. “Silvano” talvez seja outra forma (quiçá latina) de “Silas”, alusiva ao Silas que acompanhara ao apóstolo Paulo quando de sua segunda viagem missionária, pois Paulo menciona um certo “Silvano” como seu companheiro, por ocasião da segunda jornada missionária (vide I Tessalonicenses 1:1; II Tessalonicen­ses 1:1 e II Coríntios 1:19), ao passo que na narrativa lucana sobre a segunda viagem missionária, o nome que ali figura é “Silas” (por nove vezes no trecho de Atos 15:40 – 18:5). A similaridade entre as exortações éticas de Pedro e aquelas que figuram na literatura paulina sugere que Pedro foi influenciado pelos escritos de Paulo, os quais talvez tivessem chegado a seu conhecimento por intermédio de Silvano; ou então ambos os apóstolos se fundamentaram sobre um tesouro comum de instruções catequéticas mais ou menos estereotipadas – orais ou escritas, para antes ou para depois de conferido o rito do batismo.

 

Origem em Roma

Pedro escreveu de “Babilônia” (vide 5:13), provavelmente não a cidade desse nome na Mesopotâmia, mas Roma. (A Babilônia da Mesopotâmia estava quase deserta de habitantes nos primórdios da era cristã.) “Babilônia” ocorre como nome simbólico para Roma, em Apocalipse 17:4-6,9,18, como é óbvio, porquanto Roma era a cidade dominante no período do Novo Testamento (vide o versículo 18), a cidade de sete colinas (vide o versículo 9 – a Babilônia da Mesopotâmia ficava em uma planície, e suas ruínas são visíveis até hoje) que perseguia à Igreja (versículo 6). Roma foi chamada “Babilônia” por ser a capital mundial da idolatria, posição essa em tempos remotos ocupada pela cidade da Mesopotâmia. (Comparar o título dado a Jerusalém, “Sodoma e Gomorra”. por causa de sua iniqüidade (vide Apocalipse 11.8).) As referências extra-bíblicas a Roma como “Babilônia” também sugerem que Pedro se valeu de uma designação bem conhecida da capital do império. Outrossim, os primeiros pais da Igreja entenderam que “Babilônia”, nesse caso, era uma referência a Roma.

A tradição desconhece a existência de qualquer igreja em Babilônia da Mesopotâmia e nada sabe de alguma visita ali feita por Pedro; todavia, a tradição indica que Pedro morreu em Roma. Quando o fato que João Marcos estava em Roma ao tempo do aprisionamento de Paulo ali (vide Colossenses 4:10) é conectado à sua presença com Pedro, ao ser escrita a primeira epístola de Pedro (vide I Pedro 5:13 ), então aparece um outro formidável argumento em favor da origem romana dessa epístola. Final­mente, a ordem em que as províncias são citadas no endereço (vide 1:1) sugere que o portador da epístola partira de Roma, no Ocidente, fizera um circuito por certas províncias da Ásia Menor com a epístola, e retornou para Roma, voltando para o oeste. Isso pode ser averiguado se acompanharmos as províncias de Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia no mapa. Vide as págs. 256 e 257.

 

Destinatários

As frases “eleitos que são forasteiros da Dispersão” (vide 1:1 ), “no meio dos gentios” (vide 2:12) e “gentios” (como um terceiro grupo, vide 4:3) à primeira vista parecem implicar em que os destinatários originais da epístola eram cristãos judeus. Porém, as alusões ao seu pecado de idolatria, anterior à sua conversão (vide 4:3 – os judeus dos dias do Novo Testamento não praticavam a idolatria) e as expressões “paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância” e “vosso fútil procedimento” (vide 1:14,18;

 

comparar com Efésios 4:17, onde uma fraseologia similar é aplicada a gentios) indicam claramente o fundo predominantemente gentílico dos leitores em mira. Essa conclusão é confirmada por I Pedro 2:10, que diz: “vós, sim, que antes não éreis povo (dificilmente isso poderia ter sido dito a respeito de judeus, a nação em relação de pacto com Deus], mas agora sois povo de Deus”. Tal como Pedro utiliza-se do termo “Babilônia” para representar a cidade de Roma, também usa o vocábulo “gentios”, figurada­mente, para indicar não-cristãos, e igualmente “forasteiros da Dispersão” para indicar os cristãos espalhados por todo o

 

mundo. Visto que a Igreja tem substituído a Israel (pelo menos pelo presente), as designações atribuídas antes aos judeus podem agora ser aplicadas à Igreja, que se compõe predominantemente de gentios.

 

Os sofrimentos e os galardões

Após a saudação, Pedro exalça o nome de Deus ante a expectativa da gloriosa herança celestial, a qual torna suportável a presente perseguição. Cristo também teve de sofrer antes de Sua glorificação, algo que os profetas do Antigo Testamento não puderam entender, porquanto não discerniam a distinção que há entre o primeiro advento de Jesus, a fim de provar a morte, e o Seu segundo advento, para impor o Seu domínio universal. Ler I Pedro 1:1-12.

 

Conduta

Em face da glória futura, é imperativo que os crentes tenham uma conduta santa. Eles foram liberados (“remidos”) pelo sangue de Jesus da servidão ao pecado, redenção essa que evidencia que Ele sacrificou a Sua vida em favor dos pecadores. Também é imperativo que os crentes se amem mutuamente, com base no fato que todos eles nasceram na família de Deus através de Sua Palavra, a fim de crescerem como infantes recém-nascidos e de serem edificados qual templo, tendo a Cristo como pedra angular ou pedra de arremate. Acresça-se que os crentes estão na obrigação de impor ao mundo uma impressão favorável ao evangelho, mediante seu ordeiro comportamento. Isso envolve uma cidadania exemplar, a obediência dos escravos para com seus senhores, sem desrespeito nas palavras, o adorno das esposas cristãs com a obediência a seus esposos, ao invés de seguirem modas espalhafatosas, o respeito das mulheres para com seus maridos, e, uma vez mais, o amor mútuo dentro da comunidade cristã. Ler I Pedro 1:13 – 3:22.

 

A descida ao hades A pregação de Cristo aos espíritos aprisionados (vide 3: 18 ss.) mui provavelmente significa que durante o intervalo entre a Sua morte e a Sua ressurreição Cristo desceu em Seu espírito ao ha­des, (Leve variação é a idéia que a prisão não seria o hades mas a atmosfera terres­tre, à qual os espíritos demoníacos estão agora confinados. Comparar com Efésios 2:2: 6:12; mas, quanto à idéia acima, vide II Pedro 2:4 e Judas 6.) a fim de proclamar o Seu triunfo sobre os espíritos de­moníacos que ali haviam sido acorrentados por Deus, por causa da sua influência corruptora entre os homens, na época de Noé, imediatamente antes do dilúvio. Não é necessário pensarmos que essa prédica era oferta de salvação. Quando o vocábulo não é qualificado, “espíritos”, na Bíblia refere-se a seres sobrenaturais, e não a espíritos humanos daqui saídos. O ponto frisado pela pas­sagem é que assim como o Senhor Deus vindicou a Cristo pe­rante os espíritos mesmos que tinham procurado distorcer o pro­pósito divino na história, assim também Deus, algum dia, vindi­cará os crentes na presença de seus perseguidores.

Interpretação alternativa é aquela que afiança que o Cristo preencarnado ofereceu a salvação por meio da prédica de Noé à geração ante-diluviana, a qual estaria agora confinada ao hades por terem rejeitado aquela mensagem. Segundo essa interpreta­ção fica salientado nesta passagem o paralelo entre a vindicação divina de Noé (e não de Cristo) e a vindicação divina dos cris­tãos. Porém, a sucessão de frases verbais que aludem principal­mente a Cristo – “Cristo morreu”, “vivificado no espírito”, “foi”, “pregou”, “ressurreição de Jesus Cristo”, “depois de ir para o céu” e “está à destra de Deus” – torna extremamente estranha uma possível referência às atividades de Cristo nos milênios an­tes de Sua encarnação.,

 

Batismo

         Ao comparar o batismo com o dilúvio, Pedro indica cuidado­samente que o contato do batizando com a água não remove o pecado (“não sendo a remoção da imundícia da carne”); antes, a atitude interna de arrependimento e fé, que se exibe mediante a submissão ao rito batismal (“a indagação de uma boa consciên­cia para com Deus”, vide 3:21), é que conduz à remissão de peca­dos.

 

Exortações

         A seção próxima começa com uma exortação sumariada para não pecarmos, mas para nos amarmos uns aos outros. A assertiva que estipula, “aquele que sofreu [= morreu (Vide 2:21 e, segundo muitos manuscritos antigos, 3:18, onde sofrimento e morte são idéias equivalentes.)] na carne deixou o pecado” (4:1), lança mão do duplo sentido da palavra “carne”, a saber: (1) o corpo e (2) o impulso pecaminoso. Quando Jesus mor­reu no Seu corpo, a natureza pecaminosa dos crentes também morreu, até onde Deus está envolvido. Todo crente, portanto já mor­reu para o pecado, mediante a união com Jesus Cristo em Sua morte. Resta ainda, porém, traduzir o ponto de vista divino para a realidade da conduta diária. Comparar com Romanos 6:1-14. Os “mortos”, aos quais o evangelho fora anunciado (vide 4:6), não seriam “os espíritos em prisão”, referidos em 3:18 ss. Mas seriam os crentes que tinham sido martirizados (“julgados na carne [por seus perseguidores]”), os quais, como resultado, agora desfrutam da vida nos céus (“vivam no espírito”). As exor­tações finais conclamam-nos ao regozijo quando sofrermos por amor a Cristo, a termos a certeza de sofrermos somente por causa do testemunho cristão, e não devido à má conduta, a ser­mos humildes e a resistirmos corajosamente ante as perseguições inspiradas por Satanás. Ler I Pedro 4:1 – 5:14.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE I PEDRO

Tema: a salvação e a conduta dos crentes que sofrem

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

  1. LOUVOR PELA HERANÇA CELESTE DOS CRENTES PERSEGUIDOS (1:3-12)
  2. EXORTAÇÃO QUANTO À SANTIDADE PESSOAL (1:13-21)

III. EXORTAÇÃO QUANTO AO AMOR MÚTUO (1:22-25)

  1. EXORTAÇÃO AO AVANÇO QUANTO À SALVAÇÃO (2:1-10)
  2. EXORTAÇÃO QUANTO À CONDUTA CRISTÃ, NUMA SOCIEDADE NÃO CRISTÃ (2:11 – 4:19)
  3. Ações corretas (2:11,12)
  4. Boa cidadania (2:13-17)
  5. Submissão dos escravos, com o exemplo dado por Cristo (2:18-25)
  6. Submissão das esposas (3:1-6)
  7. Consideração dos esposos para com suas esposas (3:7)
  8. Unidade caracterizada pela simpatia e pelo amor (3:8-12)
  9. Os crentes sofrem inocentemente com o exemplo de Cristo e Sua vindica­ção no hades (3:13 -4:6)
  10. Sofrendo com alegria (4:12-19)
  11. EXORTAÇÃO À HUMILDADE NO SEIO DA IGREJA E À RESISTÊN­CIA ANTE A PERSEGUIÇÃO (5:1-11)

CONCLUSÃO: A função de Silvano como amanuense, saudações e bênção final (5:12-14)

 

Para investigação posterior:

 

Stibbs, A.M., e A.F. Walls. The First Epistle General of Peter. Grand Rapids, Eerdmans, 1959.

Thomas à Kempis. The Imitation of Christ. Para comparar com o mesmo tema em I Pedro.

Foxe, John. Book of Martyrs

Lewis, C.S. The Problem of Pain. Nova Iorque: Macmillan, 1962.

I Enoque 6-21, 67-69: Jubileus 10, na edição de R.H. Charles de The Aprocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament. Para comparar com a pregação de Cristo aos espíritos em prisão, segundo I Pedro 3:19.

 

 

II PEDRO: DEFENDENDO A ORTODOXIA

 

Tema

Mestres heréticos, que mascateavam com doutrinas falsas e praticavam uma moralidade frouxa, começavam a lançar sérias investidas contra a Igreja, penetrando nela. A segunda epístola de Pedro é uma polêmica contra os tais, e, particularmente con­tra o ensino deles, no qual negavam a realidade da volta de Jesus. Pedro assevera o verdadeiro conhecimento da fé cristã a fim de fazer frente aquela doutrinação herética.

 

Autenticidade e canonicidade

         Entre os eruditos modernos há uma dúvida generalizada de que o apóstolo Pedro foi o autor desta epístola. A Igreja primi­tiva demonstrou alguma vacilação por aceitá-la no cânon do Novo Testamento. Entretanto, isso poderia ser explicado me­diante a comparativa brevidade da carta, e, quiçá, por uma limi­tada distribuição da mesma, que assim ficou relativamente des­conhecida. Não nos devemos esquecer, contudo, que a Igreja primitiva finalmente a aceitou como genuína e como escrito ca­nônico saído da pena de Pedro. Também é digno de nota que dois livros apócrifos do Novo Testamento, a saber, o Evangelho da Verdade e o Apócrifom de João, contêm prováveis citações ou alusões extraídas da segunda epístola de Pedro, comprovando-se desse modo que desde os primórdios II Pedro era aceita como obra autoritativa, isto é, já no segundo século da era cristã. (Vide A. Helmbold, The Nag Hammadi Gnostic Texts and the Bible (Grand Ra­pids: Baker, 1967), págs. 90 e 91.) Por igual modo, o antiquíssimo (século III D. C.) papiro Bodmer, designado P72, mostra que II Pedro era livro aceito como canônico; pois naquele manuscrito, II Pedro compartilha, com I Pedro e com Judas, de uma bênção invocada sobre os leitores desses livros sagrados, e chega mesmo a receber um apoio mais elaborado que as duas outras epístolas citadas. O estilo de II Pedro é diferente do de I Pedro; mas o trabalho de dois amanuenses diversos pode explicar isso. Todavia, destacadas similaridades na fraseologia, entre II Pedro, I Pedro e os sermões de Pedro no livro de Atos, apontam para uma origem comum, o apóstolo Pedro.(Vide E. M. B. Green, 2 Peter Reconsidered (Londres: Tyndale, 1961), págs. 12­14, e o monógrafo interior quanto a uma plena discussão sobre todos os aspectos do problema. Vide também D. Guthrie, Nem Testament Introduction. Hebrews to Revelation (Chicago:; Inter-Varsity, 1962), págs. 137-185; e quanto a similaridades de conceito com os Papiros do Mar Morto, anteriores à era cristã, vide W. F. Al­bright, From the Stone Age to Christianity, 2ª edição (Garden City, Nova lorque: Doubleday, 1957), págs. 22 e 23.)

 

Relação com Judas

Tem-se igualmente argumentado que II Pedro fez alguns em­préstimos da epístola de Judas, mormente na descrição acerca dos falsos mestres, e que um homem da estatura apostólica de Pedro não teria buscado subsídios de um escritor comparativa­mente insignificante como foi Judas. Todavia, poderíamos sub­meter à apreciação crítica a última porção desse argumento. A história literária está prenhe de exemplos de escritores proeminentes que se valeram de fontes obscuras (Shakespeare é um desses). Outrossim, certo número de estudiosos tem argumentado, mui abalizados em fatos, que Judas escreveu sua epístola mais tarde, e que foi ele quem se escudou na segunda epístola de Pedro. Por exemplo, o fato que II Pedro fala do aparecimento de falsos mestres predominantemente com verbo no tempo futuro, mas Judas o faz com verbos no passado, parece servir de indicação que II Pedro foi escrita antes da heresia ter-se propalado, e que Judas escreveu sua epístola depois de tal propagação. E também é possível que sua fraseologia similar se tenha derivado de alguma fonte informativa comum, que não chegou até nós.

 

Alusão às epístolas de Paulo

Uma outra objeção à autoria petrina é que a referência feita às epístolas de Paulo, em II Pedro 3:15, dá a entender que todas elas já haviam sido escritas, coligidas e publicadas; e que isso só poderia ter sucedido depois do martírio de Pedro e Paulo, por­quanto Paulo continuou escrevendo até o fim de sua vida terrena. Porém, a alusão às epístolas paulinas precisam implicar na existência somente daquelas epístolas escritas por Paulo até ao tempo em que Pedro escreveu sua segunda epístola. O conheci­mento que Pedro teve delas provavelmente se deve às suas viagens, à circulação das epístolas paulinas e a Silvano (ou Silas), que foi tanto companheiro missionário de Paulo quanto amanuense de Pedro (vide 1 Pedro: 5:12).A descrição petrina de Paulo como “o nosso amado irmão Paulo” (II Pedro 3:15) reflete o que um igual e contemporâneo apostólico teria escrito, e não o que um autor pseudônimo teria escrito sobre um grande herói eclesiástico de uma geração anterior. A despeito das dúvidas modernas, portanto, podemos acatar o veredicto final da Igreja primitiva, que afiança que pouco depois do apóstolo Pedro ter escrito a sua primeira epístola, e pouco antes do seu martírio, que teve lugar em 64 D.C., ele escreveu esta segunda epístola que es­tampa o seu nome.

 

A ortodoxia é fidedigna

A segunda epístola de Pedro afirma o verdadeiro conheci­mento da crença cristã em oposição aos ensinamentos falsos. Terminada a saudação, Pedro se ufana da magnitude das promessas de Deus aos crentes, por meio das quais eles chegam a participar da natureza divina, e ressalta a necessidade, daí resultante, de desenvolverem os crentes as virtudes cristãs. Relembra então a seus leitores de quão digna de crédito é a fé cristã, apoiada como está sobre o testemunho de testemunhas oculares dos eventos da vida de Jesus (Pedro singulariza o fato que ele mesmo contemplara a transfiguração, vide 1:16-18), tudo com­provado pelo cumprimento de profecias divinamente inspiradas. Ler II Pedro 1. “…nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação” (1:20), mui provavelmente é afirmativa que significa que as predições vetero-testamentárias sobre os eventos messiânicos não se originaram da interpretação dada pelos próprios profetas acerca do futuro, e, sim, da influência do Espírito Santo. Comparar com II Pedro 1:21: “porque nunca jamais qual­quer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo”.(Outras interpretações são: (1) as predições proféticas não devem ser interpretadas isoladamente de outras. Escrituras: (2) as predições proféticas não eram endereçadas somente à geração contemporânea dos profetas: (3) o Espírito de Deus é o interprete real das profecias, bem como o seu inspirador; e (4) o crente individual não tem a capacidade de interpretar corretamente as escrituras sozinho, mas precisa do norteamento eclesiástico.)

 

Juízo contra a heterodoxia

A menção à profecia autêntica, no final do primeiro capítulo, leva o apóstolo a condenar as profecias fictícias. Os mestres falsos, presentes e futuros, encontram-se na mesma posição de condenação em que eram tidos os profetas falsos do Antigo Testa­mento, e terão de sofrer o mesmo juízo divino condenatório que aqueles. Sua vida licenciosa demonstra a sua depravação e escravidão às concupiscências, embora eles mesmos prometam liberdade a seus ouvintes. Os crentes autênticos, todavia, deveriam relembrar as predições de juízo, quando da segunda vinda de Cristo, segundo os moldes do dilúvio, embora através do fogo, e não da água. A demora aparente do retorno de Jesus não deve ser erroneamente interpretada como um cancelamento. Antes, essa postergação se deve à paciência de Deus, que deseja dar a cada geração mais tempo para arrependimento. Pois, em última análise, o que representa mil anos para a Deus eterno? Mas, visto que o presente esquema das coisas será destruído, os crentes deveriam viver retamente, à luz dos valores eternos, em antecipação à volta de Jesus. A classificação das epístolas de Paulo entre “as demais Escrituras” (3:15,16) mostra-nos que elas já eram então consideradas Escrituras inspiradas. Ler II Pedro 2 e 3.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE II PEDRO

 

Tema: o verdadeiro conhecimento da fé cristã contra os falsos mestres e a sua negação da Parousia.

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

  1. O VERDADEIRO CONHECIMENTO DA FÉ CRISTÃ (1:3-21)
  2. O fundamento moral da fé cristã em relação à conduta certa (1:3-11)
  3. A fidedignidade histórica da fé cristã, sustentada pelo testemunho ocular (particularmente da transfiguração) e a profecia cumprida (1:12-21)
  4. MESTRES FALSOS (2:1-22)
  5. O seu futuro aparecimento na Igreja (2:1-3)
  6. O seu futuro julgamento (2:4-10a)
  7. Os seus costumes imorais (2:10b-22)

III. A PAROUSIA E A DISSOLUÇÃO FINAL (3:1-18a)

  1. A certeza destes acontecimentos a despeito da demora e as negações dos falsos mestres (3:1-10)
  2. A chamada destes acontecimentos a uma vida santa (3:11-18a)

CONCLUSÃO: doxologia (3:18b)

 

Para investigação posterior:

 

McNab, A. “II Pedro”, em O Novo Comentário da Bíblia. Editado por F. Davidson, A. M. Stibbs, e E. F. Kevan. Edições Vida Nova, São Paulo, 1976. Pp. 1418-­1427.

Paine, S. W. The Second Epistle of Peter”, em The Wycliffe Bible Commentary. Editado por C. F. Pleiffer e E. F. Harrison. Chicago: Moody, 1963. Pp. 1453-1462.

 

 

JUDAS: PERIGO! FALSOS MESTRES !

 

Tema

Da mesma forma que II Pedro, a epístola de Judas polemiza contra os falsos mestres que se haviam intrometido na Igreja – em maior número, ao que parece, que na época em que fora escrita a segunda epístola de Pedro. (O ponto é disputado; vide a pág. 396.) Suas heresias particulares não merecem uma descrição detalhada ou refutação na epístola, mas os próprios hereges são veementemente assediados.

 

O autor

O autor da epístola identifica-se como Judas “irmão de Tiago” (vide o versículo primeiro). O mais certo é que ele não estivesse aludindo ao apóstolo Tiago do bem conhecido trio, Pedro, Tiago e João. Herodes Agripa I havia martirizado ao apóstolo Tiago quase no começo do movimento cristão (vide Atos 12:1,2). O escritor sagrado refere-se antes a Tiago, líder da igreja de Jerusalém (vide Atos 15 e Gálatas 1 e 2), meio-irmão de Jesus. Dessa maneira, Judas também era meio-irmão de Jesus, mas, por modéstia, descreveu a si mesmo como um “servo de Jesus Cristo” (vide 1:1) . A data em que a epístola foi escrita está cercada de in­certezas, mas é suficientemente tardia para pertencer a um tempo em que os hereges já tinham invadido seriamente a Igreja.

 

Os falsos mestres

Judas tinha tencionado escrever um tratado doutrinário , mas a infiltração da Igreja por parte de falsos mestres o compelira a alterar a natureza de sua epístola para uma exortação a que os cristãos contendessem vigorosamente em defesa da verdade do Evangelho. Ele descreve em termos vívidos tanto a iniqüidade dos mestres falsos quanto a condenação deles, ao citar exemplos de juízo divino no passado: a geração de israelenses que perecera no deserto, por causa de sua infidelidade; os anjos caídos (provavelmente os espíritos demoníacos que tinham corrompido a raça humana imediatamente antes do dilúvio (vide Gênesis 6:1 ss. e I Pedro 3:18 ss. 1 ; e Sodoma e Gomorra. Os falsos mestres eram destituídos de reverência pelas realidades espirituais e por seres so­bre-humanos, o que contrasta com a cautela com que o arcanjo Miguel disputara com Satanás em torno do cadáver de Moisés. A epistola termina com uma doxologia. Ler Judas.

 

Referências a obras pseudepígrafas

Nos versículos 14 e 15, Judas cita o livro apocalíptico pseudepígrafo de I Enoque (“… profetizou Enoque… Eis que veio o senhor entre suas santas miríades”, trecho extraído de I Enoque 1:9). Na alusão à disputa havida entre Miguel e Satanás (verso 9) ele parece referir-se a outro pseudepígrafo, Assunção de Moisés. Embora o texto completo da Assunção de Moisés não tenha sobrevivido até nós e os fragmentos existentes não contenham tal relato, parece provável que  Judas tenha citado tal fonte. Não nos deveríamos surpreender que um escritor canônico tivesse citado escritos não-canônicos. Paulo se refere a uma certa midrash (exposição) rabínica sobre a rocha da qual manava água e que “seguia” a Israel no deserto (vide I Coríntios 10:4), cita a poetas pagãos no sermão que pregou em Atenas (vide Atos 17:28 e aparentemente tomou por empréstimo, de alguma fonte informativa não-canônica os nomes dos mágicos de Faraó que se opuseram a Moisés (Janes e Jambres, vide II Timóteo 3:8) . As citações extraídas de tal material não implicam, necessariamente, na crença de que fosse divinamente inspirado; e também não precisa subentender na historicidade desse material, porquanto os escritores do Novo Testa­mento poderiam estar simplesmente ilustrando um ponto qual­quer, da mesma forma que João Milton (somente para citarmos um dentre tão numerosos exemplos) se utilizou de mitos gregos, sem que isso quisesse dar a entender que cria nos mesmos como história literal.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE JUDAS

 

Tema: Advertência sobre os falsos mestres na Igreja.

INTRODUÇÃO: Saudação (1,2)

  1. PENETRAÇÃO DE FALSOS MESTRES NA IGREJA (3,4)
  2. CARÁTER ÍMPIO E JULGAMENTO FUTURO DOS FALSOS MES­TRES (5-16)

III. RESISTÊNCIA CONTRA OS FALSOS MESTRES (17-23)

CONCLUSÃO: Bênção final (24,25)

 

Para investigação posterior.

 

Robertson, R. “A Epístola Geral de Judas”, em O Novo Comentário da Bíblia, editado por F. Davidson, A.M. Stibbs e E.F. Kevan. São Paulo; Edições Vida Nova, 1976, Pp. 1441 – 1447.

Wallace , D.H. “Jude”, em The Wycliffe Bible Commentary. Editado por C.F. Pfeiffer e E. F. Harrison. Chicago: Moody, 1963, pp 1487 – 1490.

Henry, C. F. H. Frontiers in Modern Theology. Chicago: Moody, 1966.

Para correntes teológicas que se enquadrem nas advertências de II Pedro e Judas.

 

I JOÃO: INSTRUÇÕES PATERNAIS AOS “FILHINHOS”

 

Tema

Para os cristãos primitivos, as heresias na Igreja postulavam o problema de distinguir a ortodoxia da heterodoxia, os legítimos mestres da Palavra dos mestres falsos. A primeira epístola de João formula diversos critérios primários – retidão, amor e uma correta cristologia – pelos quais os crentes pudessem testar a pro­fissão cristã dos mestres e de si mesmos.

 

Forma literária e endereço

Tendo sido mui provavelmente escrita nos fins do século primeiro da era cristã, pelo apóstolo João, a primeira epístola de João não inclui introdução, saudações da parte do autor e nem saudações concludentes. Contudo, as declarações: “…vos es­crevo…” e “Isto que vos acabo de escrever…” (vide 2:1 e 26), demonstram que, originalmente, I João não fora um sermão oral, mas uma composição escrita. Talvez fosse um panfleto geral para uso da Igreja inteira. Entretanto, o tratamento afetuoso, “filhinhos meus”, mediante o qual o escritor reiteradamente se dirige a seus leitores, subentende um circulo limitado de cristãos com os quais o autor sagrado estava intimamente vinculado. De acordo com uma tradição da Igreja antiga, João viveu em Éfeso nos últimos anos de sua vida. Por conseguinte, I João mui provavelmente foi uma epístola geral, escrito em estilo homilético, para cristãos que ele conhecera na Ásia Menor, na área que circundava Éfeso (comparar com a epistola circular de Paulo aos “Efésios”, e com o estilo homilético da epístola aos Hebreus).(Também é possível que I João seja uma nota asiática ocidental, à qual não se adicionava endereço nem saudações.) João assevera claramente qual o seu propósito ao escrever: fortalecer a seus leitores no conhecimento, na alegria e na certeza da fé cristã (vide 1:3,4 e 5:13), em contraposição ao falso doutrina­mento (vide 2:1 ss. e 4:1 ss.).

 

Polêmica anti-gnóstica

A heresia gnóstica sem dúvida se desenvolvia no seio da cristandade ao tempo em que João escreveu. De fato, consoante a uma antiquíssima tradição, João teria deixado precipitadamente a um banho público, em Éfeso, ao inteirar-se de que Cerinto, o líder gnóstico, acabara de entrar. (Irineu, Contra Heresias III.3.4: “Também há quem ouviu dele (Policarpo) que João, discípulo do Senhor, indo banhar-se em Éfeso, e notando que Cerinto ali estava, saiu de imediato das termais sem banhar-se, exclamando: “Fujamos. para que não caiam as termais, porque Cerinto, o inimigo da verdade, esta lá dentro” (tradução da edição de Roberts e Donaldson).) Fundamentando-se sobre a noção errônea que a matéria é inerentemente má, Cerinto distinguia entre um Cristo-espírito divino e imaterial e um Jesus humano, dotado de corpo físico, asseverando que o Cristo-espírito descera sobre o Jesus humano por ocasião de Seu batismo, tendo-O abandonado por ocasião de Sua crucificação.

Contra essa doutrina de Cerinto é que João ressalta que foi a pessoa única, “Jesus Cristo”, que deu início à Sua manifestação pública ao ser batizado e que a encerrou com Sua crucificação: “Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas com a água e com o sangue…” (vide 5:6). Em outras palavras, Jesus Cristo realmente morreu, tal como dera inicio a Seu ministério através do batismo na água. A água referida também aponta para a água e o sangue que fluíram do lado traspassado de Jesus, como comprovação da realidade de Sua morte.

Partindo da mesma errada pressuposição de que tudo quanto é material e físico deve ser, forçosamente, mau, outros gnósticos também tentaram evitar a encarnação e a morte física de Jesus Cristo afirmando que Ele era humano apenas na aparência (posição essa intitulada docetismo, proveniente do verbo grego dokeo, parecer). Daí é que João encareceu a realidade da encarnação: “… o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam… e nós a temos visto…” (vide 1:1 e 2). Ironicamente, a primeira grande heresia do cristianismo atacou a humanidade, e não a deidade de Jesus Cristo.

 

Critérios da experiência cristã

No intuito de cumprir o seu propósito de fortalecer a seus leitores, combatendo a heresia por meio da verdade, João discute três critérios pelos quais se pode determinar a genuína profissão de fé cristã: (1) a vida reta; (2) o amor por outros crentes; e (3) a fé em Jesus como o Cristo que veio em carne. Da mesma forma que o critério da fé em Jesus como o Cristo que veio em carne visa ao gnosticismo, assim também o critério da conduta reta tem por alvo a lassidão moral dos gnósticos e o critério do amor para com outros crentes alveja o exclusivismo altivo do gnosticismo.

Após ter-se declarado possuidor de conhecimento em primeira mão sobre a vida de Jesus (vide 1:1-4), João insiste em que os verdadeiros crentes, apesar de não serem impecáveis, vivem reta­mente (vide 1:5 – 2:6), amam-se mutuamente, ao invés de amar ao mundo (2:7-17) e confiam na verdade atinente a Cristo. Portanto, rejeitam aos falsos mestres, aqui intitulados “anticristos”. por serem es precursores do verdadeiro Anticristo (vide 2:18-28), o qual entrará no palco da história durante o período da tribulação, pouco antes do fim da presente dispensação. Em seguida, João discorre novamente sobre os critérios que apresentara: a retidão (vide 2:29-110a); o amor (vide 3:10b-24a); a verdade (vide 3:24b – 4:6); o amor (uma vez mais, vide 4:7 – 5:3); e a retidão (uma vez mais, vide 5:4-21). Ler I João 1 – 5.

 

Impecabilidade

No terceiro capítulo, a vigorosa linguagem acerca do fato que os crentes não vivem no pecado, não pode denotar impecabilidade, segundo se verifica em confronto com I João 1:8: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (comparar com I João 1:10 e 2:1). Os verbos no tempo presente, no terceiro capitulo, no original grego, sem dúvida indicam que a conduta dos crentes autênticos não é predominantemente pecaminosa. E talvez João também quisesse dar a entender que o crente não pode pecar como um crente. Quando ele peca, nega temporariamente a sua nova natureza. Isso não significa que ele tenha deixado de ser um crente, mas que ele deixou de agir como um crente que é. Ora, os gnósticos se jactavam de sua “liberdade cristã”, pela qual podiam praticar qualquer coisa que desejassem, incluindo a liberdade de pecar.

O pecado para a morte

A menção enigmática de certo pecado que conduz à morte, um pecado que desmerece toda oração intercessória (vide 5:16,17), provavelmente alude à apostasia definitiva, sobre o que somos advertidos na epístola aos Hebreus e na qual vinham caindo os mestres gnósticos, com o resultado de uma irrevogável condenação. Alternativamente, João se refere à morte física (e não eterna) como castigo aplicado a crentes desobedientes (com­parar com I Coríntios 5:5 e 11:27-34).

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE I JOÃO

 

Tema: critérios da verdadeira crença e prática cristã, em contraste com o gnosticismo

PRÓLOGO: A encarnação de Cristo, a Palavra da vida, confirmada por testemunho ocular, que serve de base da comunhão entre os cristãos

  1. O CRITÉRIO DA CONDUTA RETA (1:5 – 2:6)
  2. O CRITÉRIO DO MÚTUO AMOR CRISTÃO (2:7-17)

III. O CRITÉRIO DO CRISTO MANIFESTADO EM CARNE (2:18-28)

  1. O CRITÉRIO DA CONDUTA RETA (2:29 – 3:10a)
  2. O CRITÉRIO DO MÚTUO AMOR CRISTÃO (3:10b – 24a)
  3. O CRITÉRIO DO CRISTO MANIFESTADO EM CARNE (3:24b – 4:6)

VII. O CRITÉRIO DO MÚTUO AMOR CRISTÃO (4:7 – 5.3)

VIII: O CRITÉRIO DA CONDUTA RETA (5:4-21)

 

 

 

II e III JOÃO: INSTRUÇÃO PATERNAL AO POVO CRISTÃO

 

Canonicidade e autoria de II e III João

A confirmação da segunda e da terceira epístolas de João, nos escritos patrísticos é um tanto débil, sem dúvida por causa da brevidade das mesmas. Os mais antigos pais da Igreja, todavia, não exibiram qualquer dúvida sobre a autoria joanina dessas epístolas. Em ambas João se identifica como “o ancião”, não no sentido de ser um oficial eclesiástico de alguma igreja local, mas no sentido de ser um idoso estadista da Igreja, isto é, um apóstolo (comparar com I Pedro 5:1). Esse vocábulo faz contraste com a designação favorita de João para designar os seus leitores, “filhinhos” ou “filhinhos meus”.

 

Temas, propósitos e destinatários de II João

A segunda epístola de João é dominada pelos temas do amor e da verdade cristãos. Seu propósito é advertir acerca da hospitalidade outorgada a qualquer mestre falso (“não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas”, versículo 10). Os destinatários da epístola são “à senhora eleita [ou escolhida] e aos seus filhos” (primeiro versículo). Alguns intérpretes consideram que essas pessoas eram bem conhecidas pelo apóstolo. Porém, é bem mais provável que a “senhora eleita” seja aqui a personificação de uma igreja local, ao passo que os “seus filhos” sejam os membros individuais de dita igreja; e assim pensamos porque a senhora eleita e seus filhos são amados por “todos os que conhecem a verdade” (primeiro versículo). É altamente improvável que uma única família desfrutasse de tão ampla reputação por toda a cristandade, mas é perfeitamente concebível que assim acontecesse com alguma igreja local proeminente. Acresça-se também que nem os filhos daquela senhora e nem os seus sobrinhos (vide o décimo terceiro versículo) são mencionados por nomes próprios, (Alguns têm aceito as palavras “eleita” e “senhora” como se fossem nomes próprios de uma mulher, a saber, “Electa”, “Kina”, ou ambos. Mas “eleita” dificilmente pode ser aqui um nome próprio, porque a irmã dessa senhora também era “eleita” (vide o versículo treze). Duas irmãs dificilmente teriam o mesmo nome, “Electa”! Além disso, as considerações feitas no texto acima militam contra tomar-se a palavra “senhora” como nome próprio ou como descrição de uma mulher cristã individual.) e o pronome “vós”, usado nos versículos oito, dez e doze, está obviamente no plural. Ora, todos esses informes, junto à advertência concernente aos falsos mestres e ao manda­mento para nos amarmos uns aos outros, são mais apropriados a uma igreja do que se tivessem em mira uma família (comparar com I João). Não sabemos, contudo, onde estava localizada essa igreja local. Ler II João.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE II JOÃO

 

Temas: o amor cristão e a verdade cristã

INTRODUÇÃO: Saudação (I-3)

  1. EXORTAÇÃO AO AMOR CRISTÃO (4-6)
  2. ADVERTÊNCIA CONTRA AS DOUTRINAS FALSAS E CONTRA O ACOLHIMENTO DADO A FALSOS MESTRES (7-11)

CONCLUSÃO: esperança de uma futura visita, e outra saudação (12 e 13).

 

 

Tema, endereço e propósitos e II João

O enfoque da atenção, na terceira epístola de João, é sobre certa disputa eclesiástica. O lugar da residência dos destinatários é desconhecido, mas o mais provável é que fosse na região em torno de Éfeso. João enviou a epístola a Gaio a fim de: (1) elogiar a hospitalidade de Gaio pelos “irmãos” (provavelmente mestres itinerantes enviados por João); (2) exprobrar a Diótrefes, um mestre da igreja local que se impunha qual superior, por sua falta de hospitalidade para com os “irmãos”, por seus métodos ditatoriais e por sua oposição à autoridade apostólica de João; e (3) elogiar a Demétrio, provável portador da epístola. Demétrio pode ter tido necessidade dessa recomendação, porquanto es­tava de mudança da igreja de Éfeso, com a qual o apóstolo João estava associado, para a igreja onde Gaio era membro (comparar com a recomendação proporcionada a Febe, em Romanos 16:1,2), ou então por ser Demétrio um dos pregadores itinerantes a quem Diótrefes costumava recusar hospitalidade. Na verdade, Diótrefes expulsara da igreja local os membros que ousassem oferecer alimentos e abrigo àqueles pregadores itinerantes. João também indica que havia escrito uma outra epístola à igreja inteira da qual Gaio fazia parte (vide o nono versículo). Essa outra epístola pode ser a segunda epístola de João, ou a epístola circular de I João, ou então uma epístola que não chegou até nós. O décimo versículo contém a ameaça de uma visita pessoal de João, para efeito de uma confrontação direta com Diótrefes. Ler III João.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE III JOÃO

Lema: uma disputa eclesiástica

INTRODUÇÃO: Saudação (1)

  1. ELOGIO A GAIO POR SUA HOSPITALIDADE PARA COM PREGADORES CRISTÃOS ITINERANTES (2-8)
  2. CONDENAÇÃO DA REBELDIA DE DIÓTREFES CONTRA A AUTORIDADE APOSTÓLICA DE JOÃO E A SUA RECUSA DE ACOLHER PREGADORES CRISTÃOS ITINERANTES (9-11)

III. ELOGIO A DEMÉTRIO, PROVÁVEL PORTADOR DA EPÍSTOLA E ENVIADO DE JOÃO (12)

CONCLUSÃO: expectativa de uma visita futura e saudações finais (13-15)

 

Para discussão posterior:

– Existe algo de especificamente cristão (e não meramente judaico) na epístola de Tiago? Se há, por que tão pouco?

– Que relevância pode ter para a Igreja moderna, que vive em uma sociedade livre, uma epístola que se originou da perseguição, como I Pedro?

– Como devem ser tratados na Igreja os falso mestres? E quão sério é mister que seja um desvio doutrinário para merecer o epíteto ignominioso de “mestre falso “ou “herege”?

– Quais são as conexões lógicas entre a retidão, o amor e a ortodoxia em I João?

 

Para investigação posterior:

 

Ross, A. The Epistles of James and John. Grand Rapids: Eerdmans, 1954.

Law, R. The Tests of Life. Edimburgo: T. & T. Clarck, 1909.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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