Deus Ama ao Que Dá com Alegria – C.H.Spurgeon

Detalhes Que Apontam Para Textos Específicos – Aproveite sua Bíblia
22/04/2016
Adão e Eva poderiam ter povoado a Terra: “É possível”
23/04/2016

Deus Ama ao Que Dá com Alegria – C.H.Spurgeon

Sermão pregado na noite de quinta-feira, 27 de agosto de 1868
Por Charles Haddon Spurgeon
No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

“Porque Deus ama ao que dá com alegria.” 2a Coríntios 9:7

Eu desejo, ardentemente, cumprir meu ministério, especialmente, no tocante ao dever de pregar-lhes todas as partes da Palavra de Deus, e não ser encontrado culpado de limitar-me somente a um conjunto de tópicos, pois isto, certamente, poderia ser prazeroso, mas não seria de muito proveito para vocês. Se eu pudesse escolher, me encantaria pregar continuamente sobre a doutrina do amor eterno e imutável de Deus. Para mim, seria um deleite estender-me, cada domingo e certamente em cada sermão, na simples doutrina da justificação do pecador diante de Deus, por meio da fé em Jesus Cristo.

Mas na Escritura encontramos outras coisas além destas. Nem todos os temas registrados na Palavra de Deus estão ali para nosso consolo. Nem tudo são promessas; não encontramos somente palavras de alento para mentes fracas e espíritos desconsolados. Há outras palavras além daquelas que são úteis para consolar: palavras de direção e palavras de ensino. Se recusássemos estas palavras, se nunca tivessem uma participação no curso de nosso ministério, então alguma grave enfermidade brotaria na igreja, já que não se lhes teria fornecido uma relevante porção do ”pão necessário”.

Portanto, pareceu-me apropriado falar-lhes esta noite sobre este tema, e com maior razão agora que não teremos uma coleta. Não estou pedindo nada a vocês e, por isso, me sinto em inteira liberdade de ressaltar a instrução deste texto. Vocês verão que meu claro objetivo é extrair o ensino da Palavra, sem nenhum propósito interno. Minha meta é promover esse resultado que Deus mesmo quer trabalhar em vocês, mediante as palavras sob nosso minucioso exame. Relembrem que são palavras de indubitável inspiração, e por isso são dignas de toda aceitação, como qualquer outra frase saída da boca divina o é.

Irmãos, na igreja de Deus há várias formas de serviço. Alguns receberam o dom de edificar a outros; esses estão obrigados a instruir com diligência seus ouvintes, e a explicar-lhes as Escrituras. A outros lhes é dado evangelizar, abrir um terreno fresco e ganhar o não convertido; esses estão obrigados a não deixar que sua mão descanse, mas devem plantar a semente pela manhã e pela tarde. Muitas pessoas na família de Deus não têm a capacidade de serem professores na igreja nem tampouco ganhadores de almas, mas são chamadas a adornar a doutrina de Deus, seu Salvador, em todas as coisas, por meio dos deveres de uma vida humilde e tranquila. Tais pessoas devem ter o cuidado de que suas conversas sejam sempre dignas do Evangelho de Cristo e apropriadas para a família da fé; e sua oração sincera deve ser que a pregação dos demais possa ser ilustrada por eles em seu andar diário e em seu falar.

Uma parte considerável da igreja de Deus é chamada para um serviço ainda mais difícil, ou seja, o serviço do sofrimento. Deus recebe glória inclusive do fogo da aflição, quando Seu povo entoa Seus merecidos louvores desde a cama da enfermidade. Ele recebe honra tanto do leito do enfermo como do púlpito, e aqueles servos que são chamados a estar confinados em um hospital são soldados tão aceitáveis quanto aqueles a quem Ele ordena que saiam à frente da batalha. Cada um de nós deve esperar seu turno na tribulação, em conformidade com o propósito de Deus. Quando nos ordena que o façamos, devemos tomar nossa cruz com alegria e seguir ao nosso Senhor.

Também a toda à igreja e a cada membro é dado, em sua medida, servir a Deus, ofertando. Alguns têm a capacidade de dar abundantemente de suas riquezas, pois são mordomos ricos. Estão obrigados a fazê-lo, todavia não devem ofertar simplesmente porque estão obrigados, mas devem sentir que é um privilégio dar tudo o que puderem, pois Ele lhes deu tudo e Ele é tudo para eles. O cristão mais pobre não está isento deste privilégio. Se possuir pouco, Deus aceita segundo o que tenha, e não segundo o que não tenha, e se é tão pobre que nem sequer pode ofertar cinco centavos, ainda pode dar a Deus parte de seu tempo, pode oferecer a Deus a capacidade recebida para ensinar as crianças, ou para distribuir literatura cristã, ou para qualquer outra forma de serviço que, convenientemente, se encontre dentro de seu alcance.

Mas ninguém deve deixar de dar a Deus de alguma maneira, pois todos recebemos bênçãos e todos devemos ofertar. Damos a Ele nossas orações, nossos louvores, todos nossos esforços possíveis, mas todos devemos ser doadores, e prestando atenção ao texto, também devemos ser doadores alegres.

Vocês devem ter notado que o apóstolo Paulo fala sobre dar ao longo de todo o capítulo nove, mas neste ponto se põe a falar de doar como esse ato é percebido aos olhos de Deus, e o grande argumento que utiliza, a arma principal é: ”Deus ama ao que dá com alegria”, disto eu entendo que quando estamos falando do serviço cristão, sempre devemos vê-lo em seu aspecto para Deus. O apóstolo havia falado do que os homens de Acaia pensavam da benevolência, e do que os membros de outras igrejas valorizariam nos coríntios, pois Paulo havia se gloriado deles.

Mas logo reconsidera e afirma que o verdadeiro juízo de uma boa obra não é o que a igreja ou o mundo possa pensar dela, mas sim a estima em que Deus a tem. “Deus”, diz o apóstolo, “ama ao que dá com alegria”. Esse é o ponto.

Amado leitor, você é um cristão que professa sua religião. Você serve em sua igreja conforme este modelo? Poderá perguntar-me: “Que quer dizer?” Quero dizer o seguinte: quando você vai à casa de Deus, vai ali para adorar a Deus? Quando você ensina na escola dominical, o faz simplesmente para ter uma participação com seus companheiros cristãos, ou ensina como se fosse para Deus? Você fala, meu irmão, em nome de Deus; acaso não se descobre pregando algumas vezes de alguma outra maneira que não é como para Deus? Meu querido amigo, você que se envolve orando ativamente na reunião de oração, acaso nunca se perguntou alguma vez: “Minha oração foi do agrado daqueles que a escutaram?”. Você esquece que a oração deve ser vista como para Deus, e que todo o serviço do cristão não é para o homem, não é para a igreja – ainda que tenha suas repercussões em ambas as direções – mas sim que sua principal orientação e relação é para Deus. Fazer tudo como para o Altíssimo é o mais importante dos deveres. Você não deve viver neste mundo:

“Despreocupado, eu mesmo um moribundo,

Sendo estimado por homens moribundos.”

Você jamais deve se perguntar: “O que pensará de mim o senhor Fulano de Tal?”, ou, “Serei louvado ou encontrarei a censura?”. Mas deve dizer: “Posto que sirvo a meu Deus e não a meus colegas, os homens, o que me dirá o grandioso Senhor? O que Ele dirá do meu serviço? Como este será visto diante de Seus olhos? Será ouro, prata, pedras preciosas ou será consumido pelo fogo como madeira, feno e palha?”. Esta é a verdadeira maneira de trabalhar e viver.

Observem então, antes de retomar meu texto e de entrar de cabeça em seu ensino, que se trate de serviço, ou de ensino, ou de sofrimentos, ou de ofertas, o ponto mais importante é fazer tudo para Deus, e se a igreja se aplica a isso, então encontrará sua força; servirá a Deus de uma maneira mais nobre e mais aceitável, pois Ele é Espírito, e aqueles que o servem, ao servi-Lo em espírito e em verdade, O servirão mais valorosa, abundante, e de forma mais aceitável por meio de Jesus Cristo.

Isto está relacionado à parte externa do texto. “Deus ama ao que dá com alegria”. Já que dar é uma parte do serviço cristão, então aprendemos que a maneira correta de fazê-lo é a forma em que o próprio Deus o aceitará, e consiste em dar com alegria. “Deus ama ao que dá com alegria”.

Não pretendo me estender em cada um dos pontos, senão que primeiro colocarei muito brevemente o que significa ser um doador alegre; em segundo lugar, por que o Senhor ama ao que dá com alegria; e logo, em terceiro lugar, será necessário que digamos uma palavra ou duas sobre por que, nós que somos Seu povo, devemos dar com alegria.

  1. Em primeiro lugar, O QUE SIGNIFICA SER UM QUE DÁ COM ALEGRIA?

O resto do versículo descreve o que não significa, e assim nos ajuda a ver o que se quer descrever. ”Não com tristeza, ou por necessidade, porque Deus ama ao que dá com alegria.” ”Não com tristeza!’, não dando como se desejassem evitá-lo, e, por conseguinte, dando o menos possível, contando cada centavo, e considerando-o tão valioso como uma gota de seu sangue. Devemos dar com despreocupação, espontaneidade, liberdade e prazer; isto é dar com alegria.

Para alcançar satisfação, uma pessoa deve dar proporcionalmente, pois os que dão com alegria calculam quanto devem dar, quanto se pode esperar de suas mãos, como bons mordomos. Quem recebe uma boa renda daria de má vontade se não desse mais que alguém que somente recebe a décima parte dessa renda. Quem tem poucos gastos e vive com pouco, se não dá mais que outro que tem uma família muito grande e altas saídas de dinheiro, não pode se dizer que dá com alegria. Evidentemente, daria de má vontade se não desse proporcionalmente.

Muito foi dito sobre dar um décimo – dízimo – do ingresso ao Senhor. Sou do parecer que se trata de um dever cristão que ninguém deveria questionar nem por um instante. Se se tratava de um dever sob a lei judaica, é agora um dever muito maior sob a dispensação cristã. Mas é um grande erro supor que o judeu dava o dízimo somente. O judeu dava muito, muito, muito mais que isso. O dízimo era o pagamento que devia realizar, mas depois disso vinham todas as ofertas voluntárias, todas as várias doações em diversas épocas do ano, de tal forma que, talvez, ele dava um terço, ou certamente algo muito mais aproximado a isso, do que o dízimo. E é estranho que em nosso tempo, os seguidores de ídolos, tais como os hindus, também deem essa proporção de seus ingressos, envergonhando assim totalmente a falta de liberalidade de muitos que professam serem seguidores de Jesus Cristo.

Contudo, eu não gosto de estabelecer a respeito nenhuma regra para o povo de Deus, pois o Novo Testamento do Senhor não é um grande livro de regras; não é um livro apegado à letra, pois a letra mata, senão que é o livro do Espírito, que nos ensina melhor a alma da liberalidade e não seu corpo, e em vez de escrever leis sobre pedras ou papel, escreve leis em nossos corações.

Queridos amigos, deem como propuseram em seu coração, e o façam proporcionalmente, segundo a prosperidade que o Senhor lhes deu. E não calculem quanto devem dar em função do que seria respeitável que fosse dado, ou do que outras pessoas esperam que vocês deem, senão como sob o olhar do Senhor, pois Ele ama ao que dá com alegria; e como o que dá com alegria é o que dá proporcionalmente, vocês devem ter o cuidado de, como bons mordomos, somente prestar contas ao grandioso Rei.

Porém, eu disse que aquele que dá com alegria é também o que dá voluntariamente, aquele que não necessita ser “sangrado”, como dizemos às vezes; aquele que não necessita que o bisturi seja usado nele constantemente; não como a jovem uva, que deve ser pressionada e apertada para que seu suco seja tirado, porque não está madura, mas como um cacho cheio de suco revigorante. Nós devemos ser como o favo de mel, gotejando constantemente o mel virgem, extremamente contentes se nossos dons puderem ser aceitos por meio de quem é o altar, e que torna aceitáveis a Deus tanto o ofertante como a oferta. Não deveríamos necessitar de que nos fosse pregado, nem sermos exortados, nem devemos ser pressionados mediante chamamentos públicos ou solicitações privadas. Deveria ser dito de nós, o mesmo que se dizia da igreja de Corinto: “QUANTO à ministração que se faz a favor dos santos, não necessito escrever-vos.” Então, seja um que dá proporcionalmente, e seja aquele que dá voluntariamente.

Um homem que dá a Deus alegremente transcendeu o espírito de um servo, de um escravo. O escravo traz seu quinhão, que está obrigado a pagar, e o põe aos pés do capataz, e continua seu caminho na miséria. Mas o filho amado, tão satisfeito de dar a seu Pai o que pode, coloca sua pequena oferta no tesouro de seu Pai, na medida do possível, sem ser observado pelos homens; contempla o sorriso do Pai e continua cheio de alegria o seu caminho.

Vocês não estão sob a lei, mas sob a graça; portanto, não devem dar nem fazer coisa alguma para Deus como por compulsão, como se escutassem o velho chicote mosaico estalando perto de seus ouvidos. Vocês não devem se encurvar diante do Senhor como o filho de Agar, a escrava, como recém-chegados da Arábia e dos tremores do Sinai; vocês têm de avançar alegremente como alguém que veio do Monte Sião, como o filho da promessa: como Isaque, cujo nome significa riso; alegrando-se porque vocês são capacitados, favorecidos e privilegiados para fazer tudo por Quem os amou até a morte.

Aquele que dá com alegria é um que dá de todo coração, e há uma maneira de dar de todo o coração, especialmente quando a oferta é a de seu tempo ou de seu serviço. Alguns dão para Deus seu tempo aos domingos, mas estão meio adormecidos. Alguns Lhe dão seus esforços na escola, ou nas aulas, ou na pregação nas ruas, mas não parecem colocar nunca toda a alma em seus compromissos. O que a igreja necessita, hoje em dia, é de um serviço mais alegre, de maior entrega. Por acaso vocês não sentem um arrepio quando escutam a pregação de alguns homens: uma palavra hoje e outra palavra amanhã; e o gélido sermão é expresso de maneira tão suave (quando poderiam falar suficientemente alto, se quisessem) que vocês mesmos podem testemunhar que não puderam sacudir suas almas com o tema que pretendiam gravar nelas? Com tais pregações, as congregações se tornam “gradualmente menores e menos atraentes”, porque estão sob a convicção de que o pregador não tem nada a dizer que considere digno, pois, do contrário, falaria claro e com ousadia.

Oh, se todos os ministros de Cristo, todos os diáconos, os anciãos, os professores da escola dominical, os pregadores nas ruas e os missionários na cidade fossem fervorosos, que pessoas tão diferentes seriam! Se o serviço fosse todo alegre no sentido de ser intenso, cheio de força, envolvendo toda a humanidade do homem, que tempos de avivamento, brilhantes e alegres, poderíamos esperar, pois neste sentido ”Deus ama ao que dá com alegria”. Esse que dá com alegria, não desempenha seu serviço para cumprir simplesmente com o dever, ou porque é um assunto de rotina e chegou a hora, e as pessoas estão esperando, mas sim o faz porque gosta de falar do amor de Jesus, porque lhe encanta tratar de ganhar almas, porque desfruta ao declarar todo o conselho de Deus, porque gosta de ver o rosto dessas amadas crianças, orar por elas, juntá-las e ensiná-las sobre o Salvador que verteu o Seu sangue pelos pecadores. Ali, onde há um serviço prestado com a entrega da alma, deve haver bênção; mas se não servirmos ao nosso Senhor com alegria e, por conseguinte, não o fizermos de todo coração, Deus não amará esse serviço, e não se obterá nenhum resultado dele.

Uma coisa sei: o que dá com alegria sempre deseja poder dar dez vezes mais do que dá. O que faz com alegria sempre anseia ter maior capacidade para fazer mais. Um pregador alegre gostaria de ter mil línguas, e nenhuma delas teria descanso. Amados, acaso não se lembram de ter desejado alguma vez poder afastar-se desta vida monótona e alçar uma vida espiritual mais elevada? Nunca leram a vida de Henry Martyn, um polido erudito, um homem de muitos estudos e grande reputação, que abandonou tudo por Cristo e foi para a Pérsia e ali morreu sem ter visto um só convertido e, contudo, estava tão contente de viver e morrer em terras tão longínquas por seu Senhor? Nunca leram sobre David Brainerd, que viveu longe em meio aos índios, trabalhou arduamente e, em sua velhice, ensinou um garoto negro a ler, e dava graças a Deus porque quando já não podia pregar, contudo podia ensinar esse menino, e assim fazer algo por seu amado Senhor que havia feito tanto por ele? Ai, nunca leram, ou consideraram, até mesmo a são Francisco Xavier, católico romano como era? Contudo, que homem, quão consagrado, quão zeloso! Com todos os seus erros e equívocos, percorria mar e terra, penetrava nos bosques, tendo enfrentado a morte mil vezes, para poder pregar por todas as partes as pobres doutrinas extraviadas nas quais cria. Assim como odeio seu ensinamento, admiro seu zelo que somente posso chamar de milagroso.

Quando penso em homens como esses, e quero censurar seus erros, somente posso censurar-me a mim mesmo que nem sequer posso pensar, ou unicamente posso pensar em levar uma vida como a que eles viveram. Oh, que pudéssemos aprender o segredo da completa consagração! Oh, que pudéssemos receber o veemente anseio e o desejo de uma dedicação perfeita de nosso ser a nosso Senhor e Mestre! Então, nosso lutar diário brilharia com a glória da santidade. Então, reluziríamos como serafins ao mesmo tempo em que nos esforçamos como homens comuns aqui embaixo. Então, ensinaríamos, pregaríamos, oraríamos, trabalharíamos e ofertaríamos com tal espírito e uma divina unção tal, que o mundo se perguntaria de onde procedem e de onde aprendemos essas sagradas artes. É esta alegria, entrega, sinceridade, intensidade, fogo da alma, o que Deus ama. Oh, se tivéssemos isso! Oh, se pudéssemos alcançar isso, pois Deus ama a tais fazedores e doadores.

  1. Em segundo lugar, POR QUE DEUS AMA AO QUE DÁ COM ALEGRIA?

Lembrem que esta frase não se refere a todos os homens. Está dirigida aos membros de uma igreja cristã. Deus ama a todos, mas tem uma complacência especial por aqueles a quem, por Sua graça, ensinou a serem pessoas que contribuem com alegria. Uma pessoa que contribuísse alegremente, mas não fosse cristã, não se impactaria com o que está sendo dito aqui. Ainda assim seria alguém com quem Deus está irado todo dia. É de homens salvos, homens cristãos, homens unidos à igreja cristã que se diz “Deus ama ao que dá com alegria”’.

Agora notem, primeiramente, que Deus ama ao que dá com alegria, pois Ele fez o mundo com o plano de dar alegremente, e um grande artista ama tudo o que é consistente com seu plano. Eu digo que Deus criou todo o mundo sobre este plano. Vou mostrar a vocês. Olhem para o sol. Que esplendor luminoso! Que gloriosa criação de Deus! Por que é brilhante? Porque presenteia sua luz. Por que é glorioso? Porque espalha seus raios por toda a parte. Imaginem que o sol dissesse: “Já não darei mais a minha luz”, onde ficaria seu brilho? Se dissesse: “Não espalharei mais meus raios’, onde ficaria seu esplendor? É na magnífica generosidade desse grande pai do dia que sua glória se torna mais forte. Para nós é o mais grandioso dos astros porque dá com generosidade essa força revigorante que é calor, luz e vida.

Contemplem a lua, a formosa rainha da noite; por que nos deleitamos com ela? Porque toda a luz que recebe do sol, ela nos entrega fielmente. Se não projetasse sua luz, quem falaria dela? Se fosse um luzeiro egoísta, e absorvesse para si todos os raios do sol, se fosse um círculo avarento que confinasse e armazenasse cada raio de sol dentro de si, que coisa seria ela? Provavelmente, nem sequer saberíamos de sua existência, exceto quando, como uma mancha negra, passasse entre nós e algum luzeiro brilhante. Mas como ela espalha seus raios sobre a pobreza da meia-noite, nos deleitamos e damos graças a Deus por esse rastro de beleza.

E aquelas estrelas que centelham e que nos parecem tão diminutas, acaso seu brilho e seu esplendor não provêm daquilo que dão? ”Uma estrela é diferente de outra em glória”, porque uma estrela difere de outra estrela no que é capaz de entregar.

Isso acontece com os corpos celestes; agora voltemos aos corpos terrestres.

Olhem para esta terra sob nossos pés; em que consiste sua excelência senão naquilo que produz? Existem lugares na terra que são sublimemente solitários, tais como o Grande Saara. Esses terrenos não dão nada, logo, o que são? Desertos. E quem os exalta? Se vocês forem àquela terra uma vez tão abençoada, Palestina, e caminharem sobre aquele solo que produz tão pouco, acaso não se poderia pensar que está maldito? E por qual razão? Porque todos os elementos de sua fertilidade estão sem uso e não são cultivados para o bem do homem.

Mas, onde estão os países alegres? Onde estão os países onde os habitantes se regozijam e louvam à mãe pátria? Acaso não são essas férteis colinas e planícies que sorriem com colheitas superabundantes, produzidas pelos depósitos da terra, fazendo com que os homens celebrem e se alegrem? Qual é a terra mais seleta de nossa raça, a chamada Beulá[1] das nações? Não é a terra que monopoliza; não é a terra sedenta, que absorve tudo e não produz nada; não é o terreno faminto que o agricultor ara, mas que nega a espiga de trigo e não permite a colheita da cevada.

Caminhem por todo esse imenso mundo e considerem por um minuto. Há milhares de anos, antes que nossa raça estivesse neste planeta, é provável que existissem extensos bosques se mexendo sob os raios do sol, e que faziam? Destinavam-se a cair e morrer, mas por quê? Para formar vastos depósitos, nos quais a mãe terra armazenou o carvão durante muito tempo, até que veio o homem e rompeu o cadeado, tomando posse dos abundantes depósitos de carvão que ajudam as nossas artes e ciências, nos aquecendo e nos alegrando nas profundidades do Inverno, de tal maneira que nos regozijamos ao comprovar como aquilo que foi armazenado um dia pela generosa natureza, é entregue no dia seguinte de forma gratuita, para uso nosso. Vamos, não há uma só árvore que cresça que não esteja dando perenemente. Não há uma flor que brote, que não possua doçura ao derramar sua fragrância no ar. Todos os rios vão para o mar, e o oceano alimenta as nuvens, e as nuvens esvaziam seus tesouros, e a terra converte a chuva em fertilidade, e assim é uma cadeia sem fim de generosidade doadora.

A generosidade é a rainha suprema na natureza. Não há nada neste mundo que não viva para dar, exceto o homem ganancioso, e tal homem é como um fragmento de cascalho em uma máquina; não se encaixa no universo. O homem é uma roda que corre em direção oposta às rodas da grande maquinaria de Deus. O homem é um cavalo empinando em um jugo. É alguém que não fará o que estão fazendo a seu lado as demais forças do mundo. É um monstro; não está feito inteiramente para este mundo. Não se deu conta do movimento dos astros. Não mantém o passo com a marcha das eras. Está fora de época; está fora de lugar; está completamente fora da ordem de Deus. Mas o que dá com alegria está sintonizado com a música das esferas celestes. Está sincronizado com as leis naturais do grandioso Deus e, portanto, Deus o ama, pois vê Sua própria obra nele.

Em segundo lugar, considerem que Deus ama ao que dá com alegria, porque a graça colocou a tal homem em ordem com as leis da redenção, bem como com as leis da natureza. E quais são estas leis? Nós que somos chamados “calvinistas”, nos deleitamos em afirmar que toda a economia do Evangelho é a da graça. Tudo é pela graça do princípio ao fim, e não se trata de um assunto de dívida ou de recompensa. A salvação não é algo que os homens possam ganhar ou merecer, mas sim o resultado e o exercício da graça imerecida recebida de Deus. Se há eleição, é uma eleição livre que não procede nunca de nenhuma bondade em nós. Se há redenção, “graças a Deus por seu dom inefável!”, se há um chamado, se há justificação, se há santificação, em tudo vemos a obra imerecida do grandioso Doador. Deus não poupa, não é avarento, não dá de má vontade. Ele dá com liberalidade e não se restringe em nenhuma coisa boa. Deus se manifesta na obra da graça como um maravilhoso doador.

Agora, o homem cristão, ou o que professa ser cristão que não é doador ou, sendo doador, não é um doador alegre, está fora de ordem com o sistema que gira em torno do pacto da graça e a cruz de Cristo; está fora de sintonia com o sangue e as feridas de Jesus; está fora de ordem com os propósitos eternos do Altíssimo; não flui junto à corrente da graça divina; deveria estar sob a lei, ainda que nisso, em verdade, nem sequer cumpre com a letra; mas como o espírito do Evangelho é todo liberdade, graça, amor e abundância, o homem não está em harmonia com ele, e não o entende por completo. Então, devido ao fato de o doador alegre, feito assim pela graça divina, estar em sintonia com a redenção e com a natureza, conforme a sua medida e o seu chamamento, é exaltado pelo Senhor.

Além disso, Deus ama ao que dá com alegria, porque Ele ama as coisas que fazem Seu povo feliz; e Ele entende muito bem que o espírito de abnegação e de amor para com os outros é a mais segura fonte de felicidade que pode ser encontrada no peito humano. Aquele que vive para si mesmo é infeliz. Quem unicamente se regozija no prazer egoísta, não tem senão limitados canais para sua felicidade; mas quem se deleita em fazer aos demais felizes, e quem se deleita em glorificar a Deus, e pode negar sua própria carne e seus próprios desejos para honrar ao seu Senhor e bendizer ao mundo, esse é o homem feliz; e como Deus se deleita na felicidade resultante, por isso se deleita em dar com alegria, que é a causa.

Além disso, Deus se deleita naquele que dá com alegria, porque em tal crente Ele vê a obra de Seu Espírito. Requer-se muita graça para converter os homens em doadores alegres. Com alguns, a última parte de sua natureza que chega à santificação é o seu bolso. A graça de Deus abre caminho na moralidade de seu negócio e nas atividades da casa, mas essas pessoas não parecem reconhecer que a riqueza deve ser consagrada tanto como seu coração.

Amados, eu sei que há alguns membros do povo de Deus que consideram de maneira muito sagrada tudo o que possuem, como algo que não é próprio, e que, não como uma teoria, mas sim como um assunto de prática diária, fazem dinheiro para Cristo, e dão dinheiro a Cristo e nunca estão tão felizes como quando podem fazer algo mais do que estão acostumados a fazer para adiantar Seu reino de acordo à sua capacidade. Todavia, por outro lado, há outros de um temperamento totalmente diferente, nos quais a graça de Deus golpeou forte antes de obter uma resposta; que sabem muito bem o que deveriam fazer, mas acham que o fecho de sua bolsa é difícil de abrir, e os dedos utilizados para dar estão quase paralisados; sendo que, realmente, quando chegam a dar um centavo, parece-lhes um esforço tão grande de abnegação como quando outros que, de acordo a sua proporção, deram muito mais.

Porém, o Senhor não gosta de ver que Seu povo acaricia o mundo desta maneira. Ele gosta de ver que superaram os elementos terrenos, que estão chegando a amar o espiritual mais que o carnal, a amá-Lo acima deles mesmos, e a buscar os tesouros que estão no céu e não os tesouros que estão na terra. Estou certo de que o Espírito de Deus se contrista quando vê que os que foram comprados com o sangue vão atrás do dinheiro igual aos que pertencem ao mundo.

O Espírito se contrista e, com frequência, retira sua influência consoladora quando vê Seus servos caindo ao nível torpe, morto e embrutecido dos homens do mundo, cujo clamor é: “O que comeremos, ou o que beberemos, ou o que vestiremos?” Ele quer que Seu povo busque primeiro o Seu reino e a Sua justiça. Ele quer que se deleitem n’Ele, e não nas criaturas que definham a carne e o sangue. Ele quer que bebam de ribeiros mais puros que os rios lodosos da terra. Ele quer que busquem riquezas melhores do que esses tesouros egípcios que

perecem com o uso, e dos quais nos separaremos muito em breve.

No entanto, há uma razão pela qual Deus ama ao que dá com alegria, a qual devo considerar com mais detalhes, a dizer, porque Ele mesmo dá com alegria. O homem ama geralmente o que é semelhante a ele mesmo. Nós nos gratificamos dessa maneira. Geralmente, nossos afetos se encaminham para um objeto que é de alguma forma consistente com nosso próprio caráter. Agora, o Senhor é o mais alegre de todos os doadores. Quero que pensem nisso por um momento. “Aquele que não poupou nem a seu próprio Filho.” Oh, que dom foi esse! Mães, vocês poderiam dar seus filhos? Pais, vocês poderiam não poupar seus filhos? Bem, talvez pudessem fazê-lo por seu país, mas não poderiam fazê-lo por seus inimigos.

Mas Deus, aquele que dá com alegria, não poupou nem a Seu próprio Filho, entregando-o por todos nós, como diz a palavra. E desde então, que doador alegre tem sido! Deu-nos sem que fosse necessário pedir a Ele. Nós não Lhe pedimos que fizesse o pacto da graça. Não Lhe pedimos que nos escolhesse. Não Lhe pedimos que nos redimisse. Todas estas coisas foram feitas antes que nós nascéssemos. Não Lhe pedimos que nos chamasse por Sua graça, pois, não conhecíamos o valor desse chamado, e estávamos mortos em nossos delitos e pecados, mas Ele nos deu livremente por esse amor ilimitado que nós nem havíamos buscado. A graça que previne veio a nós, superando em velocidade a todos os nossos desejos, inclinações e orações. Primeiro, ela nos fez orar; deu-nos o espírito de súplica, pois do contrário nunca teríamos orado. Ele nos deu a vontade de vir a Ele, pois do contrário teríamos permanecido afastados. Então Ele foi um doador alegre para nós.

E quando nos aproximamos d’Ele com nossos corações quebrantados, quão alegremente nos concedeu o perdão! Como correu e teve compaixão de nós, nos abraçando e beijando! Quão alegremente nos conduziu ao banquete com músicas e danças, pois Seu filho que era morto, reviveu, e o que se havia perdido, fora encontrado!

“Muitos dias passaram desde então,

Muitas mudanças nós vimos,”

Mas não houve nenhuma mudança n’Ele, pois sempre foi um doador alegre. Temos necessitado da Sua graça diariamente, e Ele tem nos proporcionado com liberalidade, sem nos reprovar. Quando pedimos a Ele um ovo, nunca nos deu um escorpião; quando pedimos pão, nunca nos deu pedra. Ele nos deu Seu Santo Espírito.

Oh, a generosidade de Deus na providência para alguns de nós! Não faz muito tempo, éramos muito pobres, mas a Ele lhe agradou dar-nos tudo o que houvéssemos podido desejar. Alguns presentes aqui estiveram enfermos, e se perguntaram sobre o que aconteceria com suas pequenas famílias para as quais eram o único sustento; mas Deus, que dá com alegria, os proveu, os restabeleceu, e os enviou novamente a seus trabalhos, cheios de saúde e força. Outros experimentaram caminhos estreitos, mas os braços eternos os sustiveram, e ainda que os leõezinhos necessitem e tenham fome, contudo vocês, tendo buscado o Senhor, não tiveram falta de nenhum bem. Ele dá com alegria.

Ah, pobres pecadores, vocês que não são salvos, quisera eu que vocês soubessem o quanto Deus se compraz em dar de Sua misericórdia. Ele é o doador mais alegre do universo. Não pensem que Ele poupará algo a vocês. Se vocês vêm até Ele buscando o perdão do pecado, Ele está pronto para perdoá-los abundantemente. Se buscarem Seu rosto, não terão que gritar como se Ele estivesse surdo ou não os quisesse escutar. Ele ouvirá os gritos do penitente; Ele prestará atenção aos desejos daqueles que abandonam seus pecados e encontram a Cristo. Se vocês simplesmente confiam no Senhor Jesus, descobrirão que Ele é o mais alegre doador e o melhor amigo que jamais sonharam.

Irmãos e irmãs, logo descobriremos que Deus é um doador alegre. Alguns de nossos amigos O conheceram desta forma durante esta semana. Eles rogaram, pois se encontravam enfermos, para que Ele os sustentasse. Então, Deus fez a cama deles na enfermidade, e os sustentou com Seus amáveis braços; e logo, pediram a Ele que lhes desse uma abundante entrada ao reino de Seu amado Filho, e Ele lhes concedeu. Ele os ajudou para que dessem testemunho de Sua fidelidade. Deus lhes abriu as portas que eram pérolas; não lhes negou as harpas de ouro, nem o trono do próprio Cristo, senão que, como um doador alegre, deu as boas-vindas a Seu banquete eterno, a Seu pobre povo cansado e o fez sentar à Sua destra.

O mesmo Ele fará conosco, pois Ele é um doador alegre, e quer que Seu povo seja assim, pois naqueles que são semelhantes a Ele, Ele se vê a Si mesmo em miniatura: da maneira que o sol se vê a si mesmo em cada gota de orvalho, e os céus são refletidos em cada charco. Oh, que Deus nos conceda graça para que sejamos no futuro doadores mais alegres do que fomos no passado!

III. Vou concluir, unicamente, com uma frase ou duas relativas ao MOTIVO PELO QUAL, NÓS QUE AMAMOS AO SENHOR NESTA CASA, DEVEMOS TRATAR ESPECIALMENTE DE SER DOADORES ALEGRES A QUEM DEUS AMA.

Há muitas razões, mas esta noite necessitamos estabelecê-las imediatamente. Uma é que, tudo o que temos devemos a Ele. Soube de um homem que fracassou nos negócios, que em seus melhores momentos havia ajudado a alguns de seus trabalhadores a abrir seus próprios negócios e eles prosperaram. Diziam: “Oh, eles o ajudarão; ele os ajudou tanto em seus dias de prosperidade, que eles o ajudarão.” Eu não sei se o ajudaram ou não, mas isto sim sei, que quem nos tomou quando estávamos nus, pois assim viemos ao mundo; quem nos levantou quando estávamos mais que nus, quando estávamos sujos e éramos imundos, pois assim estávamos pelo pecado e por nossa depravação original; Ele que nos tirou do lixão, sim, e nos resgatou do fogo mesmo, e nos fez o que somos, e nos envolveu em Sua justiça e nos deu de Sua misericórdia, Ele merece tudo e mais que tudo o que possamos Lhe dar. Oh, o que faremos para exaltar nosso Salvador? O que não faremos? Senhor, como tudo é devido a Ti, toma tudo, e que Te dêmos tudo sem reservas.

Recordem, continuamente, amados irmãos, que vocês são salvos: vocês, que poderiam ter sido condenados; vocês, que durante um tempo não queriam ser salvos. Vocês são salvos; seus pecados foram apagados; a justiça de Cristo é agora sua roupa real. E mais, você é salvo, e o Espírito Santo mora em você. Você é sacerdote, você é rei para Deus. Você é um herdeiro do céu: o sangue imperial corre por suas veias. Você é um dos pares do céu, um príncipe de sangue. Oh, acaso você não viverá acima das vidas dos demais? Acaso não buscará consagrar, com essas elevadas dignidades, e essas bênçãos que não têm preço, e esses favores assombrosos, seu espírito, sua alma, seu corpo, seu tudo a Ele, que é seu Pai, seu céu, seu Deus?

Irmãos, vocês podem estar desejosos de serem doadores alegres, quando recordarem que o tempo de dar logo estará terminado. Não existe o doar nos céus; ao menos o tesouro favorito de Deus, que é o bolso do homem pobre, não estará pedindo que o encha. Não haverá filhos da necessidade lá; não haverá pés pequeninos que necessitem de sapatos, não haverá mãozinhas frágeis que necessitem de pão, não haverá mulheres famintas nem homens necessitados; não será necessário construir igrejas; não será necessário enviar missionários; barcos que os transportem além dos mares não serão requeridos; não haverá ministros de Cristo que tenham necessidade de sua ajuda. Estarão além de todos esses chamados e se houvesse algo que lamentar no céu, seria que lá estes deveres devem cessar para sempre. Oh, então doem como doadores alegres enquanto podem!

E, por último, nós temos necessidade de um Deus doador. Sendo assim, (Sugestão: Então, por tudo o que nos deu) sejamos doadores alegres. Recordem essa história que a senhora Stowe narrou tão bem. Temo que não a possa repetir da mesma maneira e, seguramente, não com suas palavras, mas é mais ou menos assim:

Havia um comerciante, diz ela, que tinha prosperado sobremaneira nos negócios. Havia construído uma casa no campo, a ampliou e cultivou seus jardins com um grande custo. Quando foi ao seu escritório, foi visitado por alguém que fazia uma coleta para alguma sociedade, e ele respondeu à sua solicitação: “realmente não posso me dar ao luxo de dar-lhe algo; há tanta gente que me pede, que não o posso faz.” Pois bem, ele era um homem que, usualmente, tinha sido muito generoso, e um pouco mais tarde sentiu um peso em sua consciência ao pensar que tinha começado a poupar no que o Senhor lhe dava.

Pela noite, quando a esposa e a família se retiraram para descansar, sentou-se a meditar junto à lareira e disse para si mesmo: realmente me pergunto se foi uma boa decisão construir esta casa; acarretou-me muitos gastos; são necessários novos móveis; subi a um novo nível na sociedade e os gastos aumentaram e minhas filhas necessitam de vestidos novos; tudo está em um nível de maior luxo, e, contudo, eu estou limitando o que dou ao Senhor. Creio que não agi bem; sinto-me muito intranquilo.

Supõe-se que enquanto pensava em tudo isto, adormeceu, mas se foi assim, que bom para ele, pois subitamente a porta se abriu, e entrou no quarto um estranho muito manso e humilde, que se aproximando lhe disse: “Senhor, venho para pedir sua ajuda para uma sociedade que envia o Evangelho aos gentios; eles estão morrendo, morrendo por falta de conhecimento; você é rico, poderia dar-me alguma ajuda para enviar- lhes a Palavra da vida?” O comerciante lhe respondeu: “Você deve me desculpar, realmente, pois meus gastos são demasiado elevados, e devo recortá-los; não estou em condições de lhe dar nada; devo dizer que não”. O estranho lhe dirigiu um olhar pesado e disse: “Talvez você pense que a obra está demasiado longe, e não dá porque o dinheiro será enviado além-mar. Então direi a você que há uma escola muito pobre em uma parte da cidade, muito próxima ao seu escritório, e está a ponto de fechar por falta de fundos, e ali estão as crianças pobres que a frequentam, os vagabundos destas ruas, ignorantes do caminho correto; poderia me dar uma contribuição para essa causa?” O comerciante se incomodou um pouco por estas perguntas insistentes e respondeu: “Poupe-me o problema; não tenho dinheiro, não posso lhe dar nada”. O estranho limpou uma lágrima de seu olho e disse: “Então devo pedir-lhe pelo menos algo para a sociedade bíblica; isso, como você pode imaginar, jaz na raiz de tudo; propaga a Palavra de Deus e, seguramente, se você não tem para a sociedade missionária, ou para a escola de pobres, poderá dar algo para a propagação da própria Palavra de Deus”. “Não”, respondeu o comerciante, “já lhe disse que não posso”, e então, o aspecto do estranho pareceu mudar, e ainda que seguia sendo manso e humilde, contudo, ao mesmo tempo, seu rosto se tornou majestoso. Havia uma glória em sua face e, apesar disso, havia sulcos de dor, e lhe disse, suave, mas severamente: “Há cinco anos, sua filhinha, com seus formosos cachos, estava consumida pela febre e você orou na amargura da sua alma para que a filha amada de seu coração não fosse arrebatada de sua presença e, consequentemente, você fosse livrado desse duro golpe. Quem ouviu essa oração e lhe devolveu sua filha?” O comerciante cobriu seu rosto com suas mãos e sentiu vergonha. “Há dez anos”, disse a mesma voz, “você estava em grandes dificuldades; as dívidas o sufocavam; estava à beira da falência; seu cabelo havia embranquecido pela preocupação. A quem você acudiu nessa hora de problemas? Quem o escutou e proporcionou amigos que o ajudaram através de suas dificuldades quando outros comércios estavam fracassando, e homens mais ricos que você estavam quebrando por todos os lados? Quem fez isso por você?”. “Também”, disse outra vez o estranho, “há quinze anos você sentiu a carga de seus pecados, e caminhava de baixo para cima espremendo suas mãos por temor, clamando: ‘Deus, tem misericórdia de mim!’. Seu coração estava muito sobrecarregado. Quem falou com você nessa hora a palavra de perdão que cancelou todos os seus pecados? Quem tomou todas as suas iniquidades sobre Si?”. O comerciante soluçou muito forte e tremeu quando a voz lhe disse: “Se você não me pede mais nada, eu também não lhe pedirei nada mais”. O homem caiu sobre seu rosto diante do grandioso visitante e disse: “Toma tudo, meu bendito Senhor; perdoa minha vergonhosa ingratidão, e ajuda-me para que no futuro eu não Lhe negue nada”. Se foi um sonho ou não, não sabemos, mas é certo que esse comerciante se converteu em um dos príncipes cristãos da América, e deu para a causa de Cristo como jamais alguém havia dado.

“Deus ama ao que dá com alegria”‘, e vocês sabem o que Ele lhes pede. Prossigam em seu caminho, comerciantes, e deem com generosidade conforme Deus lhes dá. Prossigam em seu caminho, lojistas, e espalhem como podem, pois Deus primeiro lhes proporciona os meios. Prossigam em seu caminho, vocês obreiros e vocês trabalhadoras esforçadas, e deem de acordo com sua capacidade. Deem, vocês, ricos, porque são ricos, e deem vocês, pobres, porque não se tornarão mais pobres, mas pode ser que, sim, se tornem mais pobres se não oferecem a Deus Sua porção. Mas, primeiro, já Lhe deram seu coração? Colocaram sua confiança em Jesus? Se isso ainda não aconteceu, este sermão não é para vocês; mas se seu coração pertence ao meu Senhor, e vocês foram lavados em Seu precioso sangue, então que meu texto fique gravado profundamente em seus ouvidos, e ainda mais profundamente em seus corações: “Deus ama ao que dá com alegria”‘.

Porções da Escritura lidas antes do sermão: 2a Coríntios 9; e 11: 18-33.


[1] Beulá: referência a uma palavra hebreia que aparece em Isaías 62:4, em que diz que Jerusalém não será como uma desamparada, mas tal qual uma mulher casada, próspera (N.R)

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *