Autocompreensão e Autodoação – A Cruz de Cristo

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Autocompreensão e Autodoação – A Cruz de Cristo

A cruz revoluciona a nossa atitude para com nós mes­mos e também para com Deus. De modo que a co­munidade da cruz, além de ser uma comunidade de celebração, é também uma comunidade de autocom­preensão. Embora isso possa parecer uma reversão ao individualismo, não deve ser assim, visto que a autocompreensão tem o propósito de autodoação. Como pode alguém dar o que não sabe que possui? Daí ser essencial a busca da identidade própria.

Quem somos, pois? Como devemos pensar de nós mesmos? Que atitude devemos adotar para com nós mesmos? Essas são questões que não podem receber respostas satisfatórias sem referência à cruz. Uma auto-estima baixa é comparativamente comum hoje. Muitos possuem sentimentos de inferioridade aleijantes. Às vezes a origem desses sentimentos encontra-se numa infância destituída, às vezes numa tragédia mais recente de ser indesejado ou desamado. As pres­sões de uma sociedade competitiva pioram as coisas. E outras influên­cias modernas tornam-nas ainda piores. Onde quer que as pessoas sejam política ou economicamente oprimidas, sentem-se diminuídas. O preconceito racial e sexual, e o trauma de ser declarado “redun­dante”, podem determinar a autoconfiança de qualquer pessoa. A tecnologia rebaixa as pessoas, como disse certa vez Arnold Toynbee, a “números de série marcados num cartão, com o objetivo de viajar pelas vísceras de um computador”. Nesse ínterim, etólogos, como Desmond Morris, dizem-nos que não passamos de animais, e behavioristas, como B. F. Skinner, que não passamos de máquinas, pro­gramadas para produzir respostas automáticas a estímulos externos. Não é de admirar que muitos hoje sentem-se como se fossem nulidades sem valor.

Em reação exagerada a esse conjunto de influências, e caminhando na direção oposta encontra-se o movimento popular do “potencial humano”. “Sejam vocês mesmos, expressem-se, cumpram-se a si mesmos!”, grita o movimento, e enfatiza “o poder do pensamento positivo”, juntamente com a necessidade do “pensamento da pos­sibilidade” e “atitudes mentais positivas”. Com o louvável desejo de construir a auto-estima, o movimento dá a impressão de que nosso potencial de desenvolvimento é praticamente ilimitado. Surgiu toda uma literatura em torno desse conceito, a qual foi descrita e docu­mentada pelo Dr. Paul Vitz em seu livro A Psicologia Como Religião: A Seita da Auto-adoração. Escreve ele: “A psicologia transformou-se em religião, em particular uma forma de humanismo secular baseado na adoração do eu”. Ele começa analisando “os quatro teoristas do eu mais importantes”, a saber, Erich Fromm, Carl Rogers, Abraham Maslow e Rollo May, todos os quais, com diferentes voltas e torneios, ensinam a bondade intrínseca da natureza humana, e a conseqüente necessidade de auto-respeito incondicional, autoconscientização e auto-atualização.

Essas teorias do eu têm sido popularizadas por meio da “análise transacional” (“Eu Estou Ok; Você Está Ok”) e dos Seminários de Treinamento de Erhard, aos quais o Dr. Vitz corretamente chama de “autodeificação espantosamente literal”. Ele também cita um anúncio na revista Psychology Today como exemplo do “jargão autista”: “Eu amo a mim. Eu não sou convencido. Eu sou apenas um bom amigo de mim mesmo. E eu gosto de fazer tudo aquilo que me faz sentir bem.

Infelizmente, muitos cristãos parecem ter-se permitido serem su­gados para esse movimento, sob a falsa impressão de que o man­damento de Moisés, endossado por Jesus, de que amemos a nosso próximo como a nós mesmos é um mandamento tanto para que ame­mos a nós mesmos como ao nosso próximo. Mas na realidade não o é. Podemos deduzir três argumentos.

Primeiro, e gramaticalmente, Jesus não disse: “o primeiro man­damento é amar o Senhor teu Deus, o segundo é amar o teu próximo, e o terceiro é amar a ti mesmo”. Ele falou apenas do primeiro grande mandamento e do segundo que era semelhante a esse. O acréscimo de “como a ti mesmo” provê um guia tosco, fácil e prático do amor ao próximo, porque “ninguém jamais odiou a sua própria carne” (Efésios 5:29). Nesse aspecto é como a Regra de Ouro: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” {Mateus 7:12). A maioria de nós ama a si mesmos. De modo que sabemos como gostaríamos de ser tratados, e isso nos dirá como tratar os outros. O amor próprio é um fato que deve ser reconhecido e uma regra que deve ser usada, não uma virtude a ser elogiada.

Segundo, e lingüisticamente, o verbo é agapao, e o amor agape sig­nifica auto-sacrifício no serviço de outros. Portanto, não pode ser autodirigido. O conceito de sacrificar-nos a nós mesmos a fim de servir a nós mesmos é tolice.

Terceiro, e teologicamente, o auto-amor é a compreensão bíblica do pecado. Pecador é o ser curvado em direção de si mesmo (no dizer de Lutero). Um dos sinais dos últimos dias é que os homens serão antes amigos “dos prazeres que amigos de Deus” (2 Timóteo 3:1-5). O seu amor será desviado de Deus e do próximo para si mesmos.

Como, pois, devemos ver a nós mesmos? Como podemos renunciar aos dois extremos do auto-ódio e do auto-amor, e não desprezar nem deleitar-nos em nós mesmos? Como podemos evitar uma auto-avaliação baixa demais ou alta demais, e em vez disso obedecer à ad-moestação de Paulo: “digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo, além do que convém, antes, pense com moderação” (Ro­manos 12:3)? A cruz de Cristo supre a resposta, pois ela nos convoca tanto para a autonegação como para a auto-afirmação. Mas, antes que estejamos na posição de examinar essas exortações complementares, ela nos diz que já somos novas criaturas porque morremos e ressur­gimos com Cristo.

É nesse aspecto que a morte de Jesus deve ser corretamente cha­mada de “representativa” como também “substitutiva”. O “substi­tuto” é aquele que age no lugar de outro de tal modo que torne desnecessária a ação desse outro. O “representante” é aquele que age em favor de outro, de tal modo que envolva esse outro em sua ação.

Assim, a pessoa que, em tempos passados servia ao exército (por dinheiro) em vez da que fora convocada era um “substituto”. Também o é o jogador de futebol que joga no lugar de outro que sofreu um ferimento. O recruta convocado e o jogador ferido agora estão ina­tivos; foram substituídos.

O agente, porém, que serve como “representante” de sua firma, recebe a autoridade para agir em nome da firma. Ele não fala em lugar da firma, mas por ela. A firma se responsabiliza pelo que ele diz e faz.

Da mesma forma, como nosso substituto, Cristo fez por nós o que não podíamos fazer por nós mesmos: levou o nosso pecado e o nosso juízo. Mas, como nosso representante ele fez o que nós, estando unidos a ele, também fizemos: nós morremos e ressurgimos com ele.

A mais extensa exposição de Paulo desse extraordinário mas ma­ravilhoso tema aparece no começo do capítulo 6 de Romanos.1 Veio como resultado da sugestão maligna de que, tendo em vista que quando o pecado aumentou, a graça aumentou ainda mais, poderiamos muito bem continuar pecando para que a graça aumentasse ainda mais (5:20—6:1). Paulo, indignadamente repudia a idéia pela simples razão de que morremos para o pecado e, portanto, já não podemos viver nele (6:2). Quando foi que ocorreu essa morte? Em nosso ba­tismo: “Ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida” (6:3-4). De modo que o batismo dramatiza visivelmente a nossa participação na morte e ressurreição de Jesus. É por isso que se pode dizer que morremos para o pecado, para que não mais an­dássemos nele.

A peça que falta no quebra-cabeça é que a morte de Cristo (da qual partilhamos pela fé interiormente e pelo batismo externamente) foi uma morte para o pecado: “Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus” (v. 10). Há apenas um sentido no qual pode-se dizer que Jesus “morreu para o pecado”, e esse é que ele levou a sua penalidade, visto que o “salário do pecado é a morte” (v. 23). Tendo pago o salário do pecado (ou levado a sua penalidade) ao morrer, ele ressurgiu para uma nova vida. Assim também nós, em união com ele. Nós também morremos para o pecado, não no sentido de que pagamos pessoal­mente a sua penalidade (Cristo fez isso em nosso lugar, em vez de nós), mas no sentido de que partilhamos do benefício da sua morte. Visto que a penalidade do pecado já foi levada, e a sua dívida, paga, estamos livres do horrível fardo da culpa e condenação. E ressurgimos com Cristo para uma nova vida, tendo deixado para trás de nós so­lucionada a questão do pecado.

Como, pois, poderíamos continuar vivendo no pecado para o qual morremos? Não é impossível, pois ainda temos de tomar precauções a fim de não permitir que o pecado reine em nós (vv. 12-14). Mas é inconcebível, por ser incompatível com o fato de nossa morte e res­surreição com Jesus. Foram a morte e a ressurreição que nos sepa­raram de nossa velha vida; como jamais poderíamos pensar em voltar a ela? É por isso que temos de considerar-nos “mortos para o pecado, mas vivos para Deus” (v. 11). Morrer para o pecado não significa fingir que morremos para o pecado e ressurgimos para Deus, quando sabemos muito bem que não o fizemos. Pelo contrário, sabemos que, em união com Cristo, partilhamos a sua morte e ressurreição, e assim nós mesmos morremos para o pecado e ressurgimos para Deus; de­vemos, portanto, lembrar-nos constantemente desse fato e levar uma vida coerente com ele. William Tyndale expressou-o com termos caracteristicamente vividos no final do seu prólogo ao livro sobre Ro­manos:

Agora, leitor, vá, e de acordo com a ordem do escrito de Paulo, faça o mesmo. . . Lembre-se de que Cristo fez essa expiação para que você não irasse a Deus novamente; nem ele morreu para os seus pecados para que você ainda vi­vesse neles; nem o purificou para que você retornasse, como o porco, ao seu antigo lamaçal; mas para que você pudesse ser uma nova criatura, e vivesse uma nova vida segundo a vontade de Deus, e não da carne.2

Barth compreendeu a natureza radical desse ensino e aludiu a ele em sua seção sobre a justificação. “A sentença que foi executada como o julgamento divino na morte de Jesus é que. . . Eu sou o homem de pecado, e que este homem de pecado e, portanto, eu mesmo, estou pregado na cruz e crucificado (no poder do sacrifício e obediência de Jesus Cristo em meu lugar), que eu, portanto, estou destruído e subs­tituído. . .” Este é o lado negativo da justificação. Mas “no mesmo julgamento em que Deus nos acusa e nos condena como pecadores, e nos entrega ã morte, ele nos perdoa e nos coloca numa nova vida na presença dele e com ele”. Essas duas coisas vão juntas, “nossa morte real e nossa vida real além da morte”, a destruição pela morte e a substituição pela ressurreição, o “Não” e o “Sim” de Deus à mesma pessoa.3

Se aceitarmos esse fato fundamental acerca de todos os que estão em Cristo, a saber, que morremos e ressurgimos com ele, de modo que nossa vida antiga de pecado, culpa e vergonha foi terminada e teve início uma vida inteiramente nova de santidade, perdão e liber­dade, qual deve ser nossa atitude para com nosso novo eu? Visto que o nosso novo eu, embora redimido, ainda está caído, será necessária uma atitude dupla, a saber, de autonegação e de auto-afirmação, ambas iluminadas pela cruz.

 

A autonegação

Primeiro, o chamado à autonegação. O convite de Jesus é claro: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8:34). Jesus acaba de predizer os seus sofrimentos e morte pela primeira vez. “Era necessário” que lhe acontecesse, diz ele (v. 31). Mas agora ele expressa implicitamente um “deve” aos seus seguidores também. Ele deve ir à cruz; eles devem tomar a sua cruz e segui-lo. Deveras, devem fazê-lo “diariamente”. E, como a contra-parte negativa, se alguém não toma a sua cruz e não o segue, não é digno dele e não pode ser seu discípulo.4 Dessa maneira, pode-se dizer, todo cristão é tanto um Simão de Cirene quanto um Barrabás. Como Barrabás, escapamos da cruz, pois Cristo morreu em nosso lugar. Como Simão de Cirene, carregamos a cruz, pois ele nos chama a tomá-la e segui-lo (Marcos 15:21).

Os romanos haviam feito da cruz uma vista comum em todas as suas províncias colonizadas, e a Palestina não era exceção. Todo re­belde condenado à crucificação era forçado a levar a sua cruz, ou pelo menos o patibulum (o braço da cruz), para o local da execução. Plutarco escreveu que ”todo criminoso condenado à morte carrega nas costas a sua própria cruz”5. De modo que João escreveu acerca de Jesus “carregando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário” (João 19:17). Tomar a cruz, portanto, e seguir a Jesus, é “colocar-se na posição de um condenado a caminho da execução”.6 Pois se estamos seguindo a Jesus com uma cruz nos ombros, há somente um lugar para o qual nos dirigirmos: o local da crucificação. Como disse Bonhoeffer: “Quando Cristo chama uma pessoa, ele a chama para vir e morrer”.7 Nossa “cruz”, portanto, não é um marido irritadiço ou uma mulher rancorosa. É, antes, o símbolo da morte do eu.

Embora Jesus possa ter tido a possibilidade de martírio em mente, a natureza universal de seu chamado (“se alguém. . .”) sugere uma aplicação mais ampla. Certamente é a autonegação que, mediante essa imagem vivida, Jesus está descrevendo. Negar a nós mesmos é comportar-nos para com nós mesmos como Pedro o fez para com Jesus quando o negou três vezes. O verbo é o mesmo (aparneomai). Ele o deserdou, repudiou, voltou-lhe as costas, A autonegação não é negar a nós mesmos certos luxos como bombons, bolos, cigarro e coquetéis (embora possa incluir essas coisas); é, em verdade, negar ou deserdar os nossos próprios seres, renunciando a nosso suposto direito de seguir o nosso próprio caminho. “Negar-se a si mesmo é. . . voltar-se da idolatria da centralidade do eu”.8

Paulo deve estar-se referindo à mesma coisa quando escreveu que os que pertencem a Cristo “crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5:24). Quadro algum poderia ser mais gráfico do que esse: pegar um martelo e pregos a fim de pregar nossa natureza caída, e escorregadia na cruz, matando-a assim. A palavra tradicional para esse ato é “mortificação”; é a determinação contínua mediante o poder do Espírito Santo de mortificar “os feitos da carne”, para que através dessa morte possamos viver em comunhão com Deus.9

De fato, Paulo escreve em suas cartas acerca de três diferentes tipos de morte e ressurreição, as quais são parte integrante de nossa ex­periência cristã. Levanta-se muita confusão quando falhamos em di­ferençá-las. A primeira (que já examinamos) é a morte para o pecado e a subseqüente vida para Deus, a qual acontece a todos os cristãos mediante a virtude de nossa união com Cristo em sua morte e res­surreição. Através dela partilhamos dos benefícios tanto da morte de Cristo (seu perdão) quanto da sua ressurreição (seu poder). Esse tipo de morte é inerente à nossa conversão/batismo.

A segunda é a morte para o eu, a qual recebe vários nomes, como tomar a cruz, ou negar, crucificar ou mortificar a nós mesmos. Como resultado, vivemos uma vida de comunhão com Deus. Essa morte não é algo que aconteceu a nós, e que agora se nos ordena que “consideremos” ou que recapitulemos dele, mas algo que nós mesmos deliberadamente devemos fazer, embora mediante o poder do Espí­rito, mortifiçando nossa antiga natureza. Deveras, todos os cristãos o fizeram, no sentido de que é um aspecto essencial de nosso arre­pendimento original e contínuo, e não podemos ser discípulos de Cristo sem ela. Mas temos de manter essa atitude, isto é, tomar a nossa cruz diariamente.

O terceiro tipo de morte e ressurreição é o que mencionei no capítulo 9. E o carregar em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida dele seja revelada em nosso corpo (2 Coríntios 4:9-10). Claramente, a arena dessa morte são os nossos corpos. Refere-se à enfermidade, à perseguição e à mortalidade deles. É nesse aspecto que Paulo podia dizer tanto “morro diariamente” (1 Coríntios 15:30-31) quanto “en­frentamos a morte todo o dia” (Romanos 8:36). Pois é uma fragilidade física contínua. Mas então a “ressurreição”, a vitalidade interior ou a renovação da vida de Jesus dentro de nós, também é contínua (2 Coríntios 4:16).

Para resumir, a primeira morte é legal; é uma morte ao pecado mediante a união com Cristo em sua morte ao pecado (levando a sua penalidade), e a ressurreição resultante com ele leva à nova vida de liberdade a qual os pecadores justificados desfrutam. A segunda morte é moral; é uma morte para o ego à medida que mortificamos a antiga natureza e os seus ímpios desejos, e a ressurreição que se segue leva a uma nova vida de justiça em comunhão com Deus. A terceira morte é física; é uma morte para a segurança, um “ser entregue à morte por amor de Jesus”, e a ressurreição correspondente é o poder de Cristo o qual ele aperfeiçoa em nossa fraqueza. A morte legal foi uma “morte para o pecado de uma vez por todas”, mas as mortes moral e física são experiências diárias — até mesmo contínuas — para o discípulo cristão.

Fico a imaginar a reação dos leitores até aqui, especialmente quanto à ênfase que dou ao morrer para o ego, ou, antes, mortificá-lo, crucificando-o! Espero que você se tenha sentido incomodado. Expressei uma atitude para com o ego tão negativa que pode parecer que me pus ao lado dos burocratas e tecnocratas, dos etólogos e dos behavioristas, em diminuir o valor dos seres humanos. Não é que o que escrevi seja errado (pois foi Jesus quem ordenou que tomássemos a nossa cruz e o seguíssemos até à morte), mas esse é apenas um lado da verdade. Implica que nosso ser é totalmente mau, e que, por causa dessa maldade, deve ser completamente repudiado, de fato, “cruci­ficado”.

 

Afirmação própria

Mas não devemos deixar de lado outra posição bíblica. Ao lado do chamado explícito de Jesus à autonegação encontra-se o seu chamado implícito à auto-afirmação (o que não é, de modo nenhum, a mesma coisa que amor próprio). Ninguém que lê os Evangelhos como um todo pode ter a impressão de que Jesus possui uma atitude negativa para com os seres humanos, nem que a tivesse estimulado nos outros. Acontece justamente o oposto.

Considere, primeiro, o ensino de Jesus acerca das pessoas. É verdade que ele chamou a atenção para o mal e para as coisas feias que pro­cedem do coração humano (Marcos 7:21-23). Entretanto, ele também falou do “valor” dos seres humanos aos olhos de Deus. São muito mais valiosos do que pássaros ou animais, disse ele.10 Qual era o fundamento desse juízo de valores? Deve ter sido a doutrina da cria­ção, a qual Jesus tirou do Antigo Testamento, a saber, que os seres humanos são a coroa da atividade criadora de Deus, e que ele criou o homem à sua própria imagem. É a imagem divina em nós que nos dá o nosso valor distintivo. Em seu excelente livro Um Cristão Olha Para Si Mesmo o Dr. Anthony Hoekema cita um jovem negro norte-americano que, rebelando-se contra os sentimentos de inferioridade nele inculcados pelos brancos, pregou uma faixa na parede do seu quarto, a qual dizia: “Eu sou eu e sou bom, porque Deus não produz lixo”.

Segundo, temos de considerar a atitude de Jesus para com as pes­soas. Ele não desprezou a ninguém e a ninguém rejeitou. Pelo con­trário, fez tudo o que podia para honrar àqueles a quem o mundo desonrava, e aceitar àqueles a quem o mundo abandonava. Ele foi cortês com as mulheres em público. Convidou os pequenos que fos­sem a ele. Ele proferiu palavras de esperança aos samaritanos e aos gentios. Ele permitiu que leprosos se aproximassem e que uma meretriz o ungisse e lhe beijasse os pés. Ele fez amizade com os rejeitados da sociedade, e ministrou aos pobres e aos famintos. Em todo esse diversificado ministério brilha o respeito compassivo que ele tinha para com os seres humanos. Ele reconheceu o valor dos homens e os amou, e, amando-os, aumentou-lhes ainda mais o valor.

Terceiro, e em particular, devemos lembrar-nos da missão e morte de Jesus pelos seres humanos. Ele tinha vindo para servir, não para ser servido, dissera ele, e para dar a sua vida em resgate por muitos. Nada indica mais claramente o grande valor que Jesus atribuía às pessoas do que a sua determinação de sofrer e morrer por elas. Ele era o Bom Pastor que foi ao deserto, enfrentando a dureza e arris­cando-se ao perigo, a fim de procurar e salvar uma única ovelha perdida. De fato, ele deu a sua vida pelas ovelhas. Somente quando olhamos para a cruz é que vemos o verdadeiro valor dos seres hu­manos. Como se expressou William Temple: “O meu valor é o que valho para Deus; e esse é grande e maravilhoso, pois Cristo morreu por mim”.11

Até aqui temos visto que a cruz de Cristo é tanto uma prova do valor do ser humano quanto um quadro de como negá-lo ou crucificá-lo. Como podemos resolver esse paradoxo bíblico? Como é possível valorizar a nós mesmos e negar a nós mesmos ao mesmo tempo?

Essa questão surge porque discutimos e desenvolvemos atitudes alternativas para com nós mesmos antes de termos definido o “ego” sobre o qual estamos falando. Nosso “ego” não é uma entidade sim­ples totalmente boa nem totalmente má, e, portanto, para ser total­mente avaliada ou totalmente negada. Pelo contrário, nosso “ego” é uma entidade complexa constituída de bem e mal, glória e vergonha, que por causa disso requer que desenvolvamos atitudes mais sutis para com nós mesmos.

O que somos (nosso ego ou identidade pessoal) é, em parte, re­sultado da criação (a imagem de Deus) e, em parte, resultado da Queda (a imagem estragada). O ego que devemos negar, rejeitar e crucificar é o caído, tudo o que dentro de nós for incompatível com Jesus Cristo {daí os seus mandamentos: “negue-se a si mesmo” e então “siga-me”). O ego que devemos afirmar e valorizar é o criado, tudo o que em nós for compatível com Jesus Cristo (daí a sua afir­mativa de que se perdermos a nossa vida mediante a negação própria a encontraremos). A verdadeira autonegação (a negação de nosso ego falso e caído) não é a estrada para a autodestruição, mas o caminho da autodescoberta.

Assim, pois, devemos afirmar tudo o que somos mediante a criação: nossa racionalidade, nosso senso de obrigação moral, nossa sexuali­dade (quer masculina quer feminina), nossa vida familiar, nossos dons de apreciação estética e criatividade artística, nossa mordomia dos frutos da terra, nossa fome de amor e experiência de comunidade, nossa consciência da majestade transcendental divina, e nosso im­pulso inato de nos prostrar e adorar a Deus. Tudo isso (e muito mais) faz parte de nossa humanidade criada. E verdade que essa natureza foi manchada e distorcida pelo pecado. Contudo, Cristo veio para redimi-la, não para destruí-la. De modo que devemos, grata e posi­tivamente, afirmá-la.

Entretanto, devemos negar ou repudiar tudo o que somos mediante a Queda: nossa irracionalidade, nossa perversidade moral, nosso obs-curecimento das distinções sexuais e nossa falta de domínio próprio sexual, nosso egoísmo que deturpa a vida familiar, nossa fascinação pelo feio, nossa recusa indolente em desenvolver os dons de Deus, nossa poluição e o dano que causamos ao ambiente, nossas tendências anti-sociais que inibem a verdadeira comunidade, nossa autonomia orgulhosa, e nossa recusa idolatra em adorar ao Deus vivo e verda­deiro. Tudo isso (e muito mais) faz parte de nossa humanidade de­caída. Cristo veio não a fim de redimi-la, mas para destruí-la. De modo que devemos negá-la ou repudiá-la.

Até aqui tenho deliberadamente simplificado o contraste entre a nossa criação e a nossa decadência. Agora é necessário que modifi­quemos o quadro, deveras o enriqueçamos, de duas maneiras. Ambos os enriquecimentos são devidos à introdução da redenção de Cristo no cenário humano. Os cristãos já não podem pensar em si mesmos somente como “criados e caídos”, mas, pelo contrário, como “criados, caídos e redimidos”. E a injeção desse novo elemento nos dá mais o que afirmar e mais o que negar.

Primeiro, temos mais o que afirmar. Pois não somente fomos criados à imagem de Deus, mas também recriados nela. A graciosa obra de Deus em nós, a qual é de vários modos retratada no Novo Testamento como “regeneração”, “ressurreição”, “redenção”, etc, é, em sua es­sência, uma recriação. O nosso novo ser foi “criado para ser como Deus em verdadeira justiça e santidade”, e “está sendo renovado em conhecimento à imagem do seu Criador”. De fato, cada pessoa que está em Cristo “agora é uma nova criatura” .12 Isso significa que nossa mente, nosso caráter e nossos relacionamentos estão sendo renova­dos. Somos filhos de Deus, discípulos de Cristo e santuário do Espírito Santo. Pertencemos à nova comunidade que é a família de Deus. O Espírito Santo nos enriquece com os seus frutos e dons. E somos herdeiros de Deus, antecipando com confiança a glória que um dia será revelada. Tornar-se cristão é uma experiência transformadora, a qual, ao nos transformar, transforma também nossa auto-imagem. Agora temos muito mais a afirmar, não por vanglória mas por gra­tidão.

Pergunta o Dt. Hoekema como podemos declarai “sem valor” o que Jesus disse possuir grande valor? Não possui valor ser filho de Deus, membro de Cristo e herdeiro do reino do céu? Assim, pois, uma parte vital de nossa afirmação própria, a qual, na realidade, é uma afirmação da graça de Deus nosso Criador e Redentor, é o que nos tornamos em Cristo. “A base última da nossa imagem própria positiva deve ser a aceitação de Deus de nós em Cristo”.

Segundo, os cristãos têm mais a negar como também mais a afirmar. Até aqui incluí somente nossa decadência no que ela precisa ser ne­gada. Às vezes, contudo, Deus nos chama para que neguemos a nós mesmos em coisas que, embora em si mesmas não sejam erradas, nem possam ser atribuídas à queda, entretanto impedem que façamos a sua vontade particular. E por isso que Jesus, cuja humanidade foi perfeita e não caída, ainda teve de negar-se a si mesmo. Diz-nos a Escritura que “não julgou como usurpação o ser igual a Deus”, isto é, desfrutar egoisticamente dessa igualdade (Filipenses 2:6). A igual­dade já lhe pertencia. Ele não se tornou igual a Deus como reclamaram seus críticos (João 5:18); ele era eternamente igual à Deus, de modo que ele e seu Pai eram “um” (João 10:30). Contudo, ele não se apegou aos privilégios de sua situação, pelo contrário, ele se esvaziou da sua glória. Mas o motivo pelo qual ele a colocou de lado não é que lhe pertencesse por direito, mas que não a podia reter e ao mesmo tempo cumprir o seu destino de ser o Messias de Deus e o Mediador. Ele foi à cruz em negação própria, é claro, não por que tivesse feito alguma coisa que merecesse a morte, mas porque era essa a vontade do Pai para ele segundo a Escritura, e se tinha entregue voluntariamente para fazer essa vontade. Durante toda a sua vida ele resistiu à tentação de evitar a cruz. Nas palavras sucintas de Max Warren: “Todo o viver de Cristo foi um morrer”.13 Ele negou-se a si mesmo a fim de se dar a si mesmo por nós.

O mesmo princípio é aplicável aos seguidores de Cristo. “Tende a mesma mente”, escreveu Paulo. Pois ele conhecia o chamado à autonegação em sua própria experiência apostólica. Ele possuía direitos legítimos, por exemplo, de se casar e receber ajuda financeira, os quais deliberadamente rejeitou porque cria ser essa a vontade de Deus para ele. Ele também escreveu que cristãos maduros devem estar dispostos a renunciar aos seus direitos e limitar as suas liberdades a fim de não fazer que irmãos imaturos pequem. Ainda hoje alguns cristãos são chamados a abrir mão da vida de casados, da segurança de um bom emprego, de uma promoção profissional ou de um lar confortável, não porque essas coisas em si mesmas sejam erradas, mas por serem incompatíveis com um chamado particular de Deus para irem ao além-mar ou viverem nas áreas mais pobres da cidade ou se identificarem mais intimamente com os destituídos e os famintos do mundo.

Há, portanto, uma grande necessidade de discernimento em nossa autocompreensão. Quem sou eu? O que é o meu “ego”? A resposta é que eu sou Jekyll e Hyde, um ser confuso, possuindo tanto digni­dade porque sou criado e fui recriado à imagem divina, quanto depravação porque ainda possuo uma natureza decaída e rebelde. Sou ao mesmo tempo nobre e ignóbil, lindo e feio, bom e mau, direito e retorcido, imagem e filho de Deus, e, contudo, às vezes concedo homenagem ao diabo de cujas garras Cristo me resgatou. O meu ser verdadeiro é o que sou mediante a criação, o que Cristo veio a fim de redimir, e pelo chamado. Meu ser falso é o que sou mediante a Queda, o que Cristo veio a fim de destruir.

Somente quando discernirmos a nós mesmos, saberemos que ati­tude adotar para com os nossos egos. Devemos ser verdadeiros para com nosso ser verdadeiro e falsos para com nosso ser falso. Devemos ser corajosos em afirmar o que somos mediante a criação, redenção e chamado, e impiedosos em rejeitar tudo o que somos pela Queda.

Além do mais, a cruz de Cristo nos ensina as duas atitudes. Por um lado, a cruz é a medida dada por Deus do valor de nosso ser verdadeiro, visto Cristo ter-nos amado e morrido por nós. Por outro lado, é o modelo dado por Deus para a negação de nosso ego falso, visto que devemos pregá-lo na cruz, mortificando-o. Ou, de modo mais simples, diante da cruz vemos simultaneamente o nosso valor e a nossa indignidade, já que percebemos tanto a grandeza do amor e da morte de Cristo quanto a grandeza de nosso pecado que lhe causou a morte.

 

Amor auto-sacrificial

Nem a negação própria (o repúdio de nossos pecados) nem a afir­mação própria (a apreciação dos dons de Deus) é um beco sem saída de absorção própria. Pelo contrário, as duas coisas são meios de auto-sacrifício. A compreensão própria devia levar à doação própria. A comunidade da cruz é, em essência, uma comunidade do amor autodoador, expresso na adoração a Deus (o qual foi o nosso tema do capítulo anterior) e no serviço aos outros {que é o nosso tema do final deste capítulo). E para isso que a cruz coerente e insistentemente nos chama.

O contraste entre os padrões da cruz e os do mundo, em lugar algum é apresentado mais dramaticamente do que no pedido de Tiago e João e da resposta que Jesus lhes deu.

“Então se aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos que nos conceda o que te vamos pedir.

E ele lhes perguntou: Que quereis que vos faça?

Responderam-lhe: Permita-nos que na tua glória nos as­sentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda.

Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo, ou receber o batismo com que eu sou batizado?

Disseram-lhe: Podemos.

Tornou-lhes Jesus: Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou batizado; quanto, po­rém, a assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado.

Ouvindo isto, indignavam-se os dez contra Tiago e João. Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob o seu domínio, e sobre os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será servo de todos. Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:35-45).

O versículo 35 (“Queremos que nos conceda o que te vamos pedir”) e o versículo 45 (“o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir. . . e dar”), um introduzindo e o outro concluindo essa história, retratam os filhos de Zebedeu e o Filho do homem em irreconciliável desacordo. Falam línguas diferentes, respiram espíritos diferentes e exprimem ambições diferentes. Tiago e João desejam sentar-se em tronos de poder e glória; Jesus sabe que deve ser pen­durado numa cruz em fraqueza e vergonha. A antítese é total.

Houve, primeiro, a escolha entre a ambição egoísta e o sacrifício. A afirmativa dos irmãos: “queremos que nos concedas o que te vamos pedir” certamente se qualifica como a pior e mais obviamente centrada oração no ego que jamais foi feita. Parece que eles tinham pensado que haveria uma corrida ímpia pelos lugares mais honrosos do reino; de modo que acharam prudente fazer uma reserva adiantada. O seu pedido de assentar-se com Jesus não passava de um “brilhante es­pelho da vaidade humana”.14 Foi o oposto exato da verdadeira oração, cujo propósito jamais é dobrar a vontade de Deus à nossa, mas sempre dobrar a nossa vontade à dele. Contudo, o mundo (e até mesmo a igreja) está cheio de Tiagos e Joões, procurando posição, famintos de honra e prestígio, medindo a vida pela realização, eternamente so­nhando com o êxito. Ambicionam agressivamente o sucesso para si mesmos.

Essa mentalidade é incompatível com o caminho da cruz. “O próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e dar. . .” Ele renunciou ao poder e glória do céu e se humilhou, tor­nando-se um escravo. Ele deu a si mesmo sem reservas e sem temor às seções desprezadas e negligenciadas da comunidade. a obsessão dele era a glória de Deus e o bem dos seres humanos que levam a sua imagem. A fim de prover essas coisas, ele estava disposto a su­portar até mesmo a vergonha da cruz. Agora ele nos chama para segui-lo, não a fim de procurar grandes coisas para nós mesmos mas pelo contrário, buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça.15

A segunda escolha foi entre o poder e o serviço. Parece claro que Tiago e João queriam tanto poder como honra. Ao pedir para se assentar cada um ao lado de Jesus em sua glória, podemos estar certos de que não estavam sonhando com assentos no chão, com almofadas nem com cadeiras, mas com tronos. Cada um deles se via assentado num trono. Sabemos que procediam de uma família rica, porque Zebedeu, pai deles, tinha empregados no seu negócio de pesca no lago. Talvez sentissem falta dos seus servos, mas estavam dispostos a perder por algum tempo esse luxo, se, no final, fossem compensados com tronos. O mundo ama o poder. “Sabeis que os que são considerados gover­nadores dos povos, têm-nos sob seu domínio” (v. 42), Estava ele pensando em Roma, cujos imperadores mandavam cunhar moedas representando sua cabeça e com uma inscrição que dizia: “Aquele que merece a adoração”? Ou estava pensando nos Herodes que, em­bora não passassem de reis títeres, reinavam como tiranos? O desejo de poder é endêmico à nossa queda.

É também totalmente incompatível com o caminho da cruz, que significa serviço. A afirmativa de Jesus de que “o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” foi admiravelmente original. Pois o Filho do homem na visão de Daniel recebeu o poder de modo que todas as nações o servissem (7:13-14). Jesus reivindicou o título, mas mudou o papel. Ele não tinha vindo para ser servido, antes, para ser “o servo do Senhor” dos Cânticos do Servo. Ele fundiu os dois retratos. Ele foi tanto o glorioso Filho do homem quanto o servo sofredor; entraria na glória apenas através do sofri­mento. Novamente, ele nos chama para segui-lo. No mundo secular, os que governam continuam a forçar sua vontade, a manipular, a ex­plorar e a tiranizar. “Mas entre vós não é assim” (v. 43),disse Jesus enfaticamente. A sua nova comunidade deve ser organizada sob um princípio diferente e de acordo com um modelo diferente – serviço humilde e não poder opressivo. Liderança e senhorio são conceitos distintos. O símbolo de uma liderança autenticamente cristã não é a veste de púrpura de um imperador, mas o avental batido de um escravo; não um trono de marfim e ouro, mas uma bacia de água para a lavagem dos pés.

A terceira escolha foi, e ainda é, entre o conforto e o sofrimento. Ao pedirem tronos na glória, Tiago e João desejavam segurança confor­tável além de honra e poder. Seguindo a Jesus, haviam-se tornado viajantes, até mesmo vagabundos. Será que sentiam falta de seu agra­dável lar? Quando Jesus respondeu à sua pergunta com outra, se eles podiam partilhar do seu cálice e do seu batismo como também do seu trono, a reação fácil deles foi dizer: “Podemos” (vv. 38-39). Mas cer­tamente não compreendiam. Estavam sonhando acordado com o cá­lice de vinho do banquete messiânico, o qual era precedido de banhos luxuosos dos quais Herodes tanto gostava. Jesus, porém, se referia aos seus sofrimentos. De fato, eles partilhariam do seu cálice e ba­tismo, disse ele, sem mais explicação. Tiago deveria perder a cabeça nas mãos de Herodes Antipas e João haveria de sofrer um solitário exílio.

O espírito de Tiago e de João permanece, especialmente naqueles que nasceram em lares ricos. É verdade que muitos, por causa da inflação e do desemprego, têm experimentado uma nova insegurança. Contudo, ainda consideramos a segurança como nosso direito de nascença e temos como lema prudente “a segurança em primeiro lugar”. Onde está o espírito de aventura, o senso de desinteresseira solidariedade com os menos privilegiados? Onde estão os cristãos dispostos a colocar o serviço acima da segurança, a compaixão acima do conforto, a dureza acima da vida fácil? Milhares de tarefas cristãs pioneiras, que desafiam a nossa complacência e demandam risco, aguardam para serem feitas.

A insistência na segurança é incompatível com o caminho da cruz. Que aventuras ousadas foram a encarnação e a expiação! Que quebra de convenções e decoro ter o Deus Todo-poderoso renunciado a seus privilégios a fim de se vestir de carne e levar o pecado do homem! Jesus não tinha segurança nenhuma a não ser em seu Pai. De modo que seguir a Jesus é sempre aceitar pelo menos certa medida de in­certeza, perigo e rejeição por amor a ele.

Assim Tiago e João cobiçaram honra, poder e segurança confortável, ao passo que toda a carreira de Jesus foi marcada pelo sacrifício, pelo serviço e pelo sofrimento. Marcos, que cada vez mais é reconhecido como um evangelista teólogo e também historiador, espreme o pedido de Tiago e João entre duas referências explícitas à cruz. É a glória de Cristo que mostra a ambição egoísta deles como a coisa andrajosa e imunda que era. Ela também ressalta a escolha, e confronta a co­munidade cristã em cada geração, entre o caminho da multidão e o da cruz.

 

Esferas de serviço

Compreendendo-se que a comunidade de Cristo é uma comunidade da cruz, e, portanto, será marcada pelo sacrifício, serviço e sofrimento, como isso se resolverá nas três esferas do lar, da igreja e do mundo?

A vida em um lar cristão, a qual deve, em todo o caso, ser carac­terizada pelo amor humano natural, deve ser ainda enriquecida com o amor divino sobrenatural, isto é, o amor da cruz. Ele deve marcar todos os relacionamentos familiares cristãos, entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs. Pois devemos nos sujeitar “uns aos outros no temor de Cristo” (Efésios 5:21), o Cristo cujo amor humilde e submisso o levou até à cruz. Contudo, os maridos é que são es­pecialmente ressaltados. “Maridos, amai vossas mulheres, como tam­bém Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse. . . para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa. . .” (vv. 25-27).

Essa passagem de Efésios é comumente vista como difícil para as esposas, porque devem reconhecer a “chefia” que Deus deu aos ma­ridos e submeter-se a eles. Mas, argumenta-se que a qualidade de amor autodoador exigido dos maridos é ainda mais difícil. Pois devem amar suas mulheres com o mesmo amor que Cristo tem por sua noiva, a igreja. Esse é o amor do calvário. E ao mesmo tempo auto-sacrificial (ele “a si mesmo se entregou por ela”, v. 25) e construtivo (“para que a santificasse” e fizesse gloriosa, atingindo todo o seu potencial, w. 26-27). É também protetor e cuidador; “os maridos devem amar as suas mulheres como a seus próprios corpos”, pois “ninguém jamais odiou a sua própria carne, antes a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja” (vv. 28-29). Os lares cristãos em geral, e os casamentos cristãos, em particular, seriam mais estáveis e mais satis­fatórios se fossem marcados pela cruz.

Voltamo-nos agora do lar para a igreja,, e começamos com os pas­tores. Vimos, num capítulo anterior, que há lugar para autoridade e disciplina na comunidade de Jesus. Entretanto, o apóstolo não deu ênfase a essas coisas, mas ao novo estilo de liderança que ele intro­duziu, cuja distinção são a humildade e o serviço. O próprio Paulo sentia a tensão. Como apóstolo, ele recebera de Cristo um grau es­pecial de autoridade. Ele poderia ter ido à igreja coríntia recalcitrante com um chicote, e estava pronto a punir todo ato de desobediência, se o tivesse de fazer. Porém ele não queria ser duro no uso da sua autoridade, a qual o Senhor Jesus lhe dera a fim de edificar os crentes, não destruí-los. Ele preferia muito mais ir como um pai em visita a seus filhos queridos. Era a tensão entre a morte e a ressurreição de Jesus, entre a fraqueza e o poder. Ele poderia exercer o poder, visto que Cristo vive pelo poder de Deus. Mas, uma vez que ele foi crucificado em fraqueza, é a mansidão e a gentileza de Cristo que Paulo deseja demonstrar.16 Se os pastores cristãos se apegassem mais inti­mamente ao Cristo crucificado em fraqueza, e estivessem preparados para aceitar as humilhações que essa fraqueza acarreta, em vez de insistirem na execução do poder, haveria muito menos discórdia e muito mais harmonia na igreja.

Entretanto a cruz deve caracterizar todos os nossos relacionamentos na comunidade de Cristo, e não apenas o relacionamento entre os pastores e o povo. Devemos amar uns aos outros, insiste João em sua primeira epístola, tanto porque Deus é amor, como porque ele de­monstrou seu amor enviando o seu Filho para morrer por nós. E esse amor sempre se expressa em altruísmo. Não devemos fazer nada por ambição egoísta ou convencimento vão, mas devemos, em humil­dade, considerar os outros como melhores do que nós mesmos. Po­sitivamente, cada um de nós deve olhar não para os seus próprios interesses, mas para os interesses dos outros. Por quê? Por que essa renúncia à ambição egoísta e esse cultivo do interesse altruísta pelos outros? Porque foi essa a atitude de Cristo, que, tanto renunciou a seus próprios direitos como se humilhou a fim de servir aos outros. De fato, a cruz adoça todos os nossos relacionamentos na igreja. Somente temos de lembrar-nos de que o nosso companheiro cristão é um “irmão” por quem Cristo morreu, e jamais desprezaremos o seu verdadeiro bem-estar, e sempre procuraremos servi-lo. Pecar con­tra ele seria pecar contra Cristo.17

Se a cruz deve marcar a nossa vida cristã no lar e na igreja, essa verdade devia ser ainda mais real no mundo. A igreja tem a tendência de se preocupar demais com seus próprios assuntos, obcecando-se com coisas triviais, enquanto o mundo necessitado espera lá fora. Assim, o Filho nos envia ao mundo, como o Pai o enviara ao mundo. A missão ergue-se do nascimento, morte e ressurreição de Jesus. O seu nascimento, mediante o qual ele se identificou a si mesmo com a nossa humanidade, nos chama para uma identificação similar e custosa com os outros. Sua morte nos lembra que o sofrimento é a chave do crescimento da igreja, visto ser a semente que morre a que multiplica. E a sua ressurreição lhe deu o senhorio universal que o capacitou tanto para reivindicar que toda a autoridade agora é sua como para enviar a sua igreja a fim de fazer discípulos das nações.18

Em teoria conhecemos muito bem o princípio paradoxal de que o sofrimento é o caminho da glória, a morte o caminho da vida e a fraqueza o segredo do poder. Foi assim para Jesus e ainda o é para os seus seguidores hoje. Relutamos em aplicar o princípio à missão, como a Bíblia o faz. Na imagem obscura do servo sofredor de Isaías, o sofrimento devia ser a condição do seu êxito em levar luz e justiça às nações. Como escreveu Douglas Webster: “missão, cedo ou tarde, leva à paixão. Nas categorias bíblicas. . . o servo deve sofrer. . . Cada forma de missão leva à mesma forma de cruz. A própria missão é cruciforme. Só podemos entender a missão em termos da cruz. . .”19

Essa visão bíblica do serviço sofredor tem sido grandemente eclip­sada em nossos dias pelo “evangelho da prosperidade” não bíblico (o qual garante êxito pessoal) e pelas noções triunfalistas de missão (as quais empregam metáforas militares que não se encaixam bem na imagem humilde do servo sofredor). Em contraste, Paulo ousou es­crever aos coríntios: “de modo que em nós opera a morte; mas em vós, a vida” (2 Coríntios 4:12). A cruz jaz no próprio coração da missão. Para o missionário transcultural ela pode significar sacrifícios individuais e familiares custosos, renúncia da segurança financeira e promoção profissional, solidariedade com os pobres e necessitados, arrependimento do orgulho e preconceito de suposta superioridade cultural, e modéstia (e às vezes frustração) de servir debaixo da li­derança nacional. Cada uma dessas coisas pode ser um tipo de morte, mas é uma morte que traz vida a outros.

Em toda evangelização há também uma ponte cultural a ser atra­vessada. Esta se torna óbvia quando o povo cristão vai como men­sageiro do evangelho de um país ou de um continente a outro. Mas mesmo permanecendo em sua própria terra, os cristãos e os não cristãos muitas vezes estão largamente separados uns dos outros por causa de subculturas sociais, estilos de vida, valores diferentes, cren­ças e padrões morais. Somente a encarnação pode cobrir essas divi­sões, pois encarnar significa entrar no mundo das outras pessoas, no mundo do seu pensamento e no mundo de sua alienação, solidão e dor. Além do mais, a encarnação leva à cruz. Jesus primeiro tomou a nossa carne, e a seguir levou o nosso pecado. Em comparação com essa profundeza de penetração em nosso mundo a fim de nos alcan­çar, nossas pequenas tentativas de atingir as pessoas parecem ama­doras e superficiais. A cruz nos chama para um tipo de evangelização muito mais radical e custoso do que a maioria das igrejas tem co­meçado a examinar, muito menos a experimentar.

A cruz também nos chama para a ação social, porque nos convoca a imitarmos a Cristo:

Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar a nossa vida pelos irmãos. Ora, aquele que possui recursos deste mundo e vir a seu irmão padecer necessidade e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade (1 João 3:16-18).

De acordo com o ensino de João na passagem acima, o amor é, em essência, autodoação. E uma vez que nosso bem mais valioso é nossa vida, o maior amor é visto em dá-la pelos outros. Assim como a essência do ódio é o assassínio (como aconteceu com Caim), da mesma forma a essência do amor é o auto-sacrifício (como aconteceu com Cristo). Assassínio é a retirada da vida de outra pessoa; auto-sacrifício é dar a sua própria vida. Deus faz mais, contudo, que nos apresentar um excelente espetáculo do seu amor na cruz; ele coloca o seu amor em nosso íntimo. Com o amor de Deus, tanto revelado em nós, quanto habitando em nós, temos o incentivo duplo e inescapável de dar-nos a nós mesmos aos outros em amor. Além do mais, João torna claro que dar a nossa vida pelos outros, embora seja a forma de autodoação suprema, não é a sua única expressão. Se algum de nós tem algo e vê outra pessoa que dele necessita e falha em relacionar o que tem ao que vê em termos de ação prática, essa pessoa não pode dizer que possui o amor de Deus. Assim, o amor alimenta os famintos, abriga os desamparados, ajuda os destituídos, oferece companhia aos soli­tários, conforta os tristes, contanto sempre que essas dádivas sejam prova da doação do ser. Pois é possível doar alimento, dinheiro, tempo e energia e, contudo, de algum modo, reter-se a si mesmo. Mas Cristo deu-se a si mesmo. Embora rico, ele se tornou pobre, a fim de nos fazer ricos. Conhecemos a graça de Cristo, escreve Paulo, e devemos imitá-la. A generosidade é indispensável aos seguidores de Cristo. Houve uma quase que extravagância acerca do amor de Cristo na cruz; ela desafia a frialdade calculista do nosso amor.

Contudo, como temos repetidamente notado por todo este livro, a cruz é uma revelação da justiça divina como também do seu amor. É por isso que a comunidade da cruz devia se interessar pela justiça social como também pela filantropia amorosa. Jamais é suficiente ter pena das vítimas da injustiça, se nada fizermos a fim de mudar a situação injusta. Os bons samaritanos serão necessários para socorrer os que são assaltados e atacados; contudo, seria ainda muito melhor que limpássemos de assaltantes a estrada que desce de Jerusalém para Jerico. A filantropia cristã em termos de alívio e ajuda é necessária, mas o desenvolvimento a longo prazo é melhor, e não podemos fugir de nossa responsabilidade política de partilhar da mudança de estru­turas que inibem o desenvolvimento.

Os cristãos não podem ver com equanimidade as injustiças que estragam o mundo de Deus e rebaixam as suas criaturas. A injustiça deve ferir o Deus cuja justiça se expôs de modo tão brilhante na cruz; deve ferir também o povo de Deus. As injustiças contemporâneas se apresentam sob muitas formas. São internacionais (invasão e anexação de territórios estrangeiros), políticas (subjugação de minorias), legais (castigo de cidadãos não julgados e não sentenciados), raciais (dis­criminação humilhante à base de raça ou de cor), econômicas (tole­rância de desigualdade abjeta norte-sul e os traumas do desemprego e da pobreza), sexuais (opressão das mulheres), educacionais (ne­gação de oportunidade igual para todos) ou religiosas (fracasso em levar o evangelho a todas as nações).

O amor e a justiça unem-se para se oporem a todas essas situações. Se amarmos as pessoas, teremos interesse por conseguir os seus direitos básicos de seres humanos, o que também é a preocupação da justiça. A comunidade da cruz que verdadeiramente absorveu a sua mensagem, sempre será motivada a agir mediante as exigências da justiça e do amor.

Como exemplo da maneira pela qual a comunidade cristã pode ser grandemente incentivada pela cruz, gostaria de mencionar os Irmãos Morávios, sociedade fundada pelo conde Nikolaus von Zinzendorf (1700-1760). Em 1722 ele acolheu alguns refugiados cristãos pietistas oriundos da Morávia e da Boêmia em sua propriedade na Saxônia, onde os ajudou a formar uma comunidade cristã com o nome de “Herrnhut”.

A ênfase dos morávios era sobre o Cristianismo como religião da cruz e do coração. Definiam o cristão como alguém que tem “uma amizade inseparável com o Cordeiro, o Cordeiro que foi morto”;20 o brasão deles traz a inscrição em latim que díz: “Nosso Cordeiro ven­ceu; sigamo-lo”, e o emblema dos seus barcos era de um cordeiro com uma bandeira num campo cor de sangue. Eles se interessavam profundamente pela unidade cristã e criam que o Cordeiro seria o seu fundamento, visto que todos os que “se apegam a Jesus como o Cordeiro de Deus” são um. De fato, o próprio Zinzendorf declarou que “o Cordeiro que foi morto” era desde o princípio o fundamento sobre o qual a sua igreja fora construída.

Primeiro, certamente eram uma comunidade de celebração. Eram grandes cantores, e o enfoque de sua adoração em Herrnhut era o Cristo crucificado.

Não resta dúvida de que se preocupavam demais com as chagas e com o sangue de Jesus. Ao mesmo tempo, jamais se esqueciam da ressurreição. Às vezes eram chamados de “o povo da páscoa”, porque era o Cordeiro ressurreto a quem eles adoravam.

Quanto à autocompreensão, seu tipo especial de pietismo parece tê-los capacitado a enfrentar a si mesmos. A ênfase que davam à cruz levou-os à humildade e penitência genuínas. Mas também lhes deu uma forte segurança da salvação e uma tranqüila confiança em Deus. “Somos o povo feliz do Salvador”, disse Zinzendorf. Foi, deveras, o seu júbilo e coragem, quando se encontraram face a face com a morte enquanto seu navio soçobrava em meio a uma tempestade no oceano Atlântico, o fator que levou João Wesley à convicção do pecado e se tornou um importante elo na cadeia que o conduziu à conversão.

Mas os morávios são mais bem conhecidos como um movimento missionário. Quando ainda em idade escolar, Zinzendorf fundou a “Ordem do Grão da Mostarda”, e jamais perdeu o seu zelo missio­nário. Repito, foi a cruz que o estimulou e a seus seguidores a essa expressão de amor autodoador. Entre os anos de 1732 e 1736 fun­daram-se missões morávias no Caribe, na Groenlândia, em Laplândia, na América do Norte e na América do Sul, e na África do Sul, enquanto que mais tarde deram início ao trabalho missionário em Labrador, entre os aborígines australianos e na fronteira do Tibete. Os pagãos sabem que há um Deus, ensinava Zinzendorf, mas necessitam co­nhecer o Salvador que morreu por eles. “Conte-lhes acerca do Cor­deiro de Deus”, instava ele, “até que você já não lhes possa contar nada mais”.

Essa ênfase saudável à cruz surgiu grandemente de sua própria experiência de conversão. Enviado com a idade de 19 anos para visitar as capitais da Europa, a fim de completar sua educação formal, certo dia ele se achou na galeria de arte de Düsseldorf. De pé, em frente do quadro Ecce Homo de Domenico, o qual retrata a Cristo usando a coroa de espinhos, e cuja inscrição lê-se: “Tudo isto fiz por ti; que faze tu por mim?” Zinzendorf recebeu profunda convicção e desafio. “Nessa mesma hora”, escreve A. J. Lewis, “o jovem Conde pediu que o Cristo crucificado o levasse à ‘comunhão dos seus sofrimentos’ e abrisse uma vida de serviço para ele”. Ele jamais renegou esse compromisso. Ele e a sua comunidade tinham interesse apaixonado pela “entronização do Cordeiro de Deus”.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

1 Comment

  1. […] [1] Autocompreensão e Autodoação – A Cruz de Cristo […]

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