As Primeiras Epístolas de Paulo – Panorama do NT

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As Primeiras Epístolas de Paulo  – Panorama do NT

Perguntas Normativas:

– Quais eram o estilo, o conteúdo e as técnicas utilizadas na redação de cartas, nos tempos antigos? Em que as epístolas de Paulo se equiparam a isso?

– Por que a epístola aos Gálatas é crucial na história do cristia­nismo?

– Quais são os endereçados, e quais são as datas, os motivos, os propósitos e o conteúdo das primeiras epístolas de Paulo?

 

AS EPÍSTOLAS DE PAULO E A REDAÇÃO DE CARTAS NO MUNDO GRECO-ROMANO

 

No mundo greco-romano, as cartas particulares contavam, em média, com quase noventa palavras. Missivas literárias, como aquelas compostas pelo orador e estadista romano Cícero, ou aquelas de Sêneca, o filósofo, orçavam, em média, pelas duzen­tas palavras. Visto que a usual folha de papiro media cerca de 34 cm x 28 cm (aproximadamente as dimensões de nossas comuns cadernetas de anotações), podendo acomodar entre 150 a 250 pa­lavras, dependendo do tamanho da escrita, e a maioria das cartas antigas não ocupava mais que uma página de papiro. Todavia, as dimensões médias das epístolas de Paulo se elevavam a cerca de 1.300 palavras, variando desde 335 palavras em Filemom até 7.101 palavras em Romanos. É óbvio, portanto, que as epístolas de Paulo são várias vezes maiores do que as cartas médias da an­tiguidade, pelo que também, em certo sentido, Paulo foi o inven­tor de uma nova forma literária, a epístola – uma novidade por ser carta tão prolongada, devido à sua natureza teológica, e, usualmente, na natureza comunitária dos endereçados. De outro ângulo, todavia, as epístolas de Paulo são cartas verdadeiras, por­quanto possuem endereçados genuínos e específicos, no que di­vergem das antigas epístolas literárias, que eram escritas para o público em geral, a despeito de seus endereçados artificiais.

No caso de documentos longos, como as epístolas de Paulo, as folhas soltas de papiro eram coladas beirada com beirada a fim de formarem um rolo. Visto que a granulação áspera do papiro fazia o ato de escrita tornar-se tedioso, era costumeiro ditar as cartas a um escriba profissional chamado amanuense, que usava uma espécie de estenografia durante o ditado rápido. A rudeza do estilo literário de Paulo – o que se verifica, por exemplo, em inúmeras sentenças incompletas – sugere que, às vezes, Paulo di­tava por demais rapidamente para que desse a devida atenção à correta estrutura das sentenças, e também que seu amanuense sentia dificuldades em acompanhá-lo. Interrupções súbitas do pensa­mento sugerem, semelhantemente, suspensão temporária do dita­do, talvez até o dia seguinte, ou mesmo por períodos mais cur­tos ou mais longos. Algumas vezes; um autor simplesmente dei­xava instruções orais, uma observação qualquer ou anotações que deveriam ser seguidas pelo seu amanuense. Sob tais circuns­tâncias, o próprio amanuense burilava o fraseado exato, fator esse que pode explicar algumas diferenças no estilo, entre epísto­las atribuídas a um só autor. Finalmente, o autor editava a carta. Sabemos com certeza que Paulo empregava os serviços de ama­nuenses pelo fato que seu amanuense se identificou uma vez por nome (“Tércio” – Romanos 16:22). Além disso, as declarações paulinas freqüentes de que ele escrevia a saudação final com o próprio punho subentendem que as porções maiores das suas epístolas eram escritas mediante o emprego de um amanuense (vide I Coríntios 16:21; Gálatas 6:11; Colossenses 4:18; II Tessalonicenses 3:17; comparar com Filemom 19).

As cartas antigas tinham início com uma saudação, a qual in­cluía o nome de quem as enviava e o nome do endereçado, e, usualmente, expressões atinentes à boa saúde e ao bom êxito do endereçado, e a certeza de que quem as enviava orava por aquele a quem se dirigia. Seguia-se o corpo principal da carta, e, final­mente, a despedida, e, ocasionalmente, a assinatura. Por muitas vezes a despedida incluía saudações enviadas por outras pessoas, juntamente com o autor, além de votos de prosperidade finais. Por temer que documentos estivessem sendo ou pudessem ser forjados em seu nome, Paulo adotou a prática de escrever de próprio punho as linhas de despedida e também a sua assinatura, a fim de garantir a autenticidade. Usualmente as cartas não eram datadas. A inexistência de um serviço postal público tornava mis­ter enviar as cartas por meio de viajantes.

Paulo encerrou diversas de suas epístolas com uma seção que contém instruções de natureza ética. Tais instruções aparecem espalhadas por outras de suas epístolas, ou nas epístolas de ou­tros escritores neotestamentários. Os eruditos têm notado notá­veis semelhanças com os códigos éticos dos judeus e dos estóicos daquele mesmo período histórico. Entretanto, os escritores do Novo Testamento vinculavam a conduta cristã ao dinamismo da fé cristã, ao invés de publicarem algum exaltado mas inerme conjunto de preceitos, que não têm o poder de efetivar o seu pró­prio cumprimento. O fato que as exortações constantes nas epís­tolas são muito parecidas entre si, sugere que os seus autores se estribavam em um tesouro comum de tradições exortatórias e doutrinárias, de posse da Igreja cristã, originalmente designado para a catequese de candidatos recém-convertidos ao batismo. Por outra parte, Paulo simplesmente pode ter desenvolvido as suas próprias instruções éticas para novos convertidos, tendo influen­ciado a escritores posteriores, como Pedro, o qual pelo menos lera algumas das epístolas paulinas (vide II Pedro 3:15,16). Uma coisa é indubitável. Os autores das epístolas alicerçavam-se pesa­damente sobre os ensinamentos éticos de Jesus, os quais com fre­qüência se refletem na fraseologia e nos conceitos emitidos nas epístolas.

A ordem de apresentação das epístolas paulinas, em nosso atual Novo Testamento, depende das dimensões, a começar pela mais longa (Romanos) e terminando pela mais curta (Filemom) – excetuando-se apenas as epístolas pastorais (I e II Timóteo e Tito), que interrompem esse arranjo imediatamente antes da epístola a Filemom. Haveremos de considerar as epístolas de Paulo na ordem cronológica em que foram escritas, até onde isso puder ser determinado com certeza razoável.

 

GÁLATAS: CONTRA OS JUDAIZANTES

 

As questões e o tema cruciais

         A epístola de Paulo aos Gálatas diz respeito à controvérsia ju­daizante, por causa da qual se reuniu o concílio de Jerusalém (vide Atos 15). (Alguns eruditos pensam que os adversários de Paulo na Galácia eram sincre­tistas semi-pagãos (-gnósticos) e semi-judeus.) Tal como se dá com aquele concílio, também é quase impossível superestimarmos a natureza histórica crucial das questões teológicas envolvidas na epístola aos Gálatas. Mui­tos dos primeiros cristãos, por serem judeus, em grande medida continuaram a viver segundo seus moldes judaicos, incluindo a freqüência à sinagoga e ao templo de Jerusalém, oferecendo ho­locausto, observando os rituais e os tabus dietéticos da legislação mosaica, e mantendo-se socialmente distantes dos gentios. Mas a conversão dos gentios forçou a Igreja a ver-se diante de diversas importantes questões. Deveriam os cristãos gentios ser obrigados a submeter-se à circuncisão e a praticar o modo judaico de vida, conforme era exigido dos prosélitos gentios que entravam no ju­daísmo? Para o caso daqueles gentios cristãos que não estavam dispostos a tornar-se totalmente judeus, deveria haver uma cida­dania de segunda classe no seio da Igreja, como sucedia no caso dos “tementes a Deus” gentios, dentro do judaísmo? E o mais importante de tudo, aquilo que torna cristão a um indivíduo – a fé em Cristo, com exclusividade, ou a fé em Cristo mais a aderência aos princípios e às práticas do judaísmo?

As respostas dadas pelos judaizantes (incluindo judeus e gen­tios que se tinham tornado judeus) insistiam sobre os moldes ju­daicos como algo necessário para os cristãos. Tivessem prevalecido os seus pontos de vista, não somente teria sido subvertido o evangelho de salvação como uma dádiva gratuita da parte de Deus, mas também o movimento cristão bem poderia ter-se divi­dido para formar uma igreja judaica – pequena, laboriosa, mas que finalmente se dissiparia – e uma igreja gentílica, teologicamente de­sarraigada e tendente ao sincretismo pagão. Ou mais provavelmente ainda, a missão cristã entre os gentios quase certamente teria ces­sado, e o cristianismo haveria de experimentar a morte de muitas das seitas judaicas; porquanto a maioria dos gentios se mostrava indis­posta a viver como judeus, além de reputar a circuncisão como uma abominável mutilação do corpo humano, cuja beleza os gregos os ti­nha ensinado a apreciar. Deus, entretanto, não permitiria que os Seus propósitos fossem distorcidos pelo sectarismo. E a epístola aos Gálatas é a grande carta patente da liberdade cristã, que nos livra de todas as opressivas teologias de salvação através dos esforços huma­nos, e que, por outro lado, serve de grandiosa afirmação da unidade (não uniformidade) e igualdade de todos os crentes, dentro da Igreja de Jesus Cristo.

 

Destinatários: norte ou sul da Galácia?

         Paulo escreveu sua epístola aos Gálatas a pessoas residentes na região conhecida por Galácia. Sem embargo, o uso que Paulo fez do vocábulo Galácia tem provocado debates que afetam a data

em que foi escrita essa epístola. De conformidade com seu sen­tido original, tal termo pode aludir exclusivamente ao território ao norte das cidades de Antioquia da Pisídia, Icônio e Listra; mas também pode incluir aquelas cidades, pois os romanos haviam acrescentado alguns distritos sulistas quando transformaram a Galácia (do norte) em província romana.

Segundo a teoria da Galácia do Norte, Paulo teria endereçado essa epístola a cristãos que viviam na Galácia do Norte, aos quais ele não visitou senão já em sua segunda viagem missionária, a caminho de Trôade, tendo vindo de Antioquia da Psídia. Conforme essa opinião, a epístola em apreço não pode ter sido escrita senão algum tempo após o começo da segunda viagem missionária, e, por conseguinte, depois do concílio de Jerusalém, historiado no décimo quinto capítulo de Atos, que antecedeu a segunda via­gem missionária de Paulo. Nesse caso, a visita a Jerusalém, que Paulo descreve no segundo capítulo daquela epístola, mui prova­velmente se refere ao bem recente concílio de Jerusalém. É pro­vável que o mais forte argumento em favor da teoria da Galácia do Norte, com sua data posterior, seja a restrição original do termo “Galácia” ao território mais ao norte e a similaridade das declarações de Paulo concernentes à justificação pela fé, com aquilo que ele diz na epístola aos Romanos, a qual por certo ele escreveu somente mais tarde (vide a pág. 325).

Militando contra a teoria da Galácia do Norte temos o fato que Lucas em parte alguma sugere que Paulo tivesse evangeli­zado a Galácia do Norte. É duvidoso que Paulo tenha visitado aquele território por ocasião de sua segunda viagem missionária, pois “a região frígio-gálata”, referida em Atos 16:6, mais natural­mente se refere ao território mais ao sul – a travessia da Galácia do Norte teria requerido um desvio proibitivamente grande para o nordeste. E noutros trechos de suas epístolas Paulo coerente­mente lança mão de termos geográficos em um sentido imperial, o que indicaria a Galácia do Sul como o lugar para onde ele en­viou a sua epístola aos Gálatas.

Em consonância com a teoria da Galácia do Sul, Paulo teria endereçado a sua primeira epístola às igrejas do Sul da Galácia, imediatamente após sua primeira viagem missionária, mas antes do concílio de Jerusalém. Assim sendo, a visita que ele fez a Jerusa­lém, descrita no segundo capítulo da epístola aos Gálatas, não pode aludir ao concílio de Jerusalém, o qual ainda não tivera lu­gar, mas, pelo contrário, é alusiva à visita na qual se levaram ví­veres para aliviar a fome, o que se menciona em Atos 11:27-30. O mais decisivo argumento em favor da Galácia do Sul, com sua data mais recuada, é aquele que diz que se Paulo houvesse escrito es­sa epístola depois do concílio de Jerusalém, certamente ter-se-ia va­lido do decreto do mesmo concílio em prol da liberdade dos gen­tios cristãos em relação aos preceitos mosaicos, o principal tó­pico de discussão em Gálatas. No entanto, o apóstolo não faz menção alguma a tal decreto. A improvável omissão subentende que essa epístola foi escrita antes daquele concílio ter-se reu­nido, e, assim sendo, em um tempo em que Paulo tinha visitado somente a Galácia do Sul, e não também a Galácia do Note. Também é duvidoso que Pedro tivesse vacilado, conforme vaci­lou e segundo se aprende em Galátas 2,11 ss., após o concílio de Jerusalém, durante o qual defendeu acérrimo a posição de liber­dade que nos livra da lei de Moisés. Outrossim, Paulo menciona a Barnabé por nada menos de três vezes no segundo capítulo de Gálatas, como se Barnabé fosse figura bem conhecida de seus leitores. No entanto, Barnabé viajara com Paulo somente pela Galácia do Sul. Pelo tempo em que Paulo atravessou a Galácia do Norte, por ocasião de sua segunda viagem missionária, aque­les dois líderes cristãos já se haviam separado, por terem discor­dado no tocante a João Marcos.

 

Introdução

         A epístola é iniciada com uma saudação na qual Paulo ressalta o seu apostolado, porquanto queria estabelecer firmemente a sua autoridade, em contraposição aos judaizantes. Em lugar das usuais ações de graças por seus leitores, Paulo, imediata e violen­tamente, introduz a razão pela qual havia escrito. Ele se sentia chocado porque os cristãos gálatas estavam se bandeando para um outro evangelho, o qual, na verdade, nem era evangelho (“boas novas”). Ler Gálatas 1:1-10.

 

Argumento autobiográfico

         Em seguida, Paulo redige um argumento autobiográfico que defende o evangelho da graça de Deus, em contraste com a men­sagem judaizante, a qual requeria a aderência à lei mosaica como condição de salvação. Paulo assegura que o evangelho da livre graça lhe fora dado por revelação direta da parte de Jesus Cristo. Por certo não poderia ter-se originado em seus dias passados, ar­gumenta ele, porque fora um judeu zeloso de sua religião, antes de converter-se ao cristianismo. Por semelhante modo, não fora aprendiz dos apóstolos, em Jerusalém, visto que nem ao menos se encontrara com eles, senão depois de três anos a contar da data de sua conversão. E quando, finalmente, visitou Jerusalém, entrevistou-se somente com Pedro e Tiago (meio-irmão de Je­sus), tendo permanecido ali pelo espaço de somente quinze dias, e não tendo ficado conhecido pessoalmente dos cristãos judeus de maneira geral. E visto que o evangelho da graça não pode ter tido origem no seu passado ou em seus contactos pessoais em Je­rusalém, sem dúvida provinha do próprio Deus. E ao visitar no­vamente a cidade de Jerusalém, catorze anos mais tarde (a con­tar ou de sua conversão ou de sua primeira visita a Jerusalém), os líderes cristãos dali – Tiago, Pedro e João – formalmente reco­nheceram a correção do evangelho da graça que ele pregava en­tre os gentios, estendendo-lhe a destra de comunhão. Acresça-se a isso que nem ao menos exigiram que Tito, companheiro gentio de Paulo, fosse circuncidado.

Ao chegar em Antioquia da Síria, a princípio Pedro comia em companhia de cristãos gentios; mas depois cedeu sob a pressão exercida pelos judaizantes. E Paulo repreendeu publicamente a Pedro. O que fica implícito é que Pedro retrocedeu diante da re­primenda. Caso contrário, dificilmente Paulo teria usado do inci­dente como um argumento em seu favor. E o fato que até Pedro foi repreendido por Paulo exibe a autoridade do evangelho da graça ensinado por Paulo. Ler Gálatas 1:1 – 2.21.

 

Argumento teológico

         O sumário exposto por Paulo quanto à reprimenda a Pedro contém o germem de seu argumento teológico, que aparece logo depois. O termo “justificar”, que é utilizado por reiteradas vezes, significa “considerar justo”, e apenas mui raramente “fazer justo”. (Para dizer-se a verdade, a justificação conduz à santificação, à mudança na conduta moral, pelo que a linha demarcatória entre a posição legal e a conduta real nem sempre é muito visível – embora a distinção tenha de ser mantida.) No grego clássico significava “tratar com alguém se­gundo a justiça”, quase o oposto do uso paulino, o qual recua até ao Antigo Testamento (mormente a Isaías), e onde Deus inter­vém graciosamente para retificar as coisas entre Ele mesmo e os homens. O ato gracioso de Deus, não obstante, não perde seu ca­ráter justo, porquanto Cristo sofreu a pena imposta a nossos pe­cados, pena essa exigida pela santidade divina, além do que a im­putação da retidão divina ao crente agora faria Deus tornar-se injusto se o condenasse.

Os versículos dezessete a vinte e um, do segundo capítulo, po­deriam ser parafraseados como segue: “Se temos de abandonar a lei a fim de sermos justificados pela fé em Cristo, encorajaria Cristo ao pecado? Não. Antes, se eu voltar à lei, deixarei enten­dido que pecara quando a abandonei. Mas eu não pequei ao as­sim fazer, pois Cristo morreu sob o juízo da lei contra o pecado. Na qualidade de crente, morri juntamente com Cristo. Esse é o ponto de vista de Deus a meu respeito. A lei não exerce autori­dade sobre um homem morto, especialmente um homem que morrera sob sua penalidade, de tal forma que eu não mais estou sob a obrigação de guardar a lei. Mas Cristo ressuscitou e vive em mim, de tal modo que, embora eu tenha morrido em Cristo quando Ele morreu, e assim fiquei livre em Cristo. Portanto, se os homens pudessem tornar-se justos através da observância da lei, então Cristo não precisaria ter morrido.”

A partir desse ponto. Paulo desenvolve o seu argumento teoló­gico. Já que alguém se converteu mediante a fé, por que não continuar vivendo pela fé, e não pela lei? Abraão foi justificado antes de ter a lei sido promulgada, pelo que, mesmo no Antigo Testamento, a justiça vinha pela fé, e não pela lei. A lei pode so­mente amaldiçoar ou condenar, posto que ninguém a obedece em sua inteireza. Ora, Cristo morreu para libertar-nos da lei, jun­tamente com sua irresistível maldição. O fato que Deus estabele­ceu a Sua aliança com Abraão, antes de haver dado a lei por in­termédio de Moisés, sugere que o pacto abraâmico é mais fun­damental do que a lei. Portanto, a lei não anulou aquele pacto. A natureza do pacto abraâmico – segundo o lado divino – visara a abençoar ao descendente de Abraão, e – segundo o lado humano – visava a aceitação da promessa divina por meio da fé. O descendente de Abraão é Cristo, juntamente com todos aqueles que Nele se vão incorporando, por seguirem o exemplo da fé de A­braão.

A lei se revestia de certo propósito, mas de cunho apenas tem­porário. Era o propósito de conduzir-nos a Cristo, à guisa de um antigo escravo-tutor que costumava levar uma criança à escola. A lei conseguiu realizar isso tornando-nos incisivamente cônscios da incapacidade do homem de tornar-se justo por seus pró­prios esforços. Estar sob a lei, por conseguinte, equivalia a ser um menor de idade ou um escravo. Em Cristo, porém, somos adultos livres, adotados na família de Deus como filhos e herdei­ros, com privilégios e responsabilidades de pessoas adultas. Por que reverteríarnos a um estado inferior?

Paulo, então, relembra como os gentios tinham aceitado a sua mensagem, ao se converterem, e pleiteia diante deles para que aceitassem sua presente mensagem, tal como o tinham feito a principio. E respalda também o seu argumento, ao estilo dos ra­binos, mediante uma alegoria baseada sobre um relato do Antigo Testamento. Hagar, a escrava, representa o monte Sinai, isto é, a lei mosaica com seu centro de operações em Jerusalém, na Pa­lestina. Ismael, seu filho nascido escravo, ilustra aqueles que es­tão escravizados à lei. Sara simboliza o cristianismo, com sua ca­pital na Jerusalém celestial. Isaque, seu filho prometido e livre de nascimento, representa todos os filhos espirituais de Abraão, isto é, aqueles que seguem o exemplo da fé de Abraão, e que, por isso mesmo, são libertados da lei em Cristo Jesus. Ler Gálatas 3.1 – 5:12.

 

Responsabilidade na liberdade

         A última seção maior da epístola adverte contra as atitudes li­bertinas, ou antinomismo (literalmente, “contra-leísmo”), aque­la atitude negligente que diz que estar isento da lei equivale à licença para praticar a iniqüidade. Estar livre da lei não significa ter a liberdade de pecar. O crente não deve moldar sua conduta de acordo com a carne (o impulso para pecar), mas em harmonia com o Espírito Santo. Além disso, cumpre-lhe ajudar amorosamente aos seus semelhantes, sobretudo seus irmãos na fé, contribuindo liberalmente para aqueles que ministram o evangelho. Ler Gálatas 5:13 – 6:10.

É apenas aparente a contradição entre Gálatas 6:2: “Levai as cargas uns dos outros”, e Gálatas 6:5: “Porque cada um levará o seu próprio fardo”. Na primeira instância, Paulo ensina que os crentes deveriam ajudar-se mutuamente em suas atuais dificulda­des, e na segunda que, quando do juízo vindouro, cada qual res­ponderá a Deus exclusivamente pela sua própria conduta.

O fato que Paulo anexou numerosos preceitos que governam a conduta cristã ao seu prolongado ataque contra o legalismo dos judaizantes serve para mostrar que o legalismo não consiste de re­gras como tais. Os livros do Novo Testamento encerram muitas regras de comportamento. O legalismo consiste antes da imposi­ção de regras errôneas, e, particularmente de maior número de regras que o exigido por uma dada situação, a tal ponto que, em meio à teia confusa de minúcias, as pessoas perdem a capacidade de distinguir os elementos mais importantes dentre os menos im­portantes, os princípios fundamentais de suas aplicações. O lega­lismo também envolve o senso de mérito devido à própria obe­diência do indivíduo (em contraposição ao reconhecimento do fato que a obediência é tão-somente um dever) com a conse­qüente perda da dimensão pessoal de comunhão com Deus, ali­cerçada única e exclusivamente sobre a Sua graça.

 

Conclusão

         Paulo escreveu a conclusão da epístola com sua própria caligrafia. As “letras grandes” por ele traçadas podem ter sido feitas para efeito de ênfase, embora alguns alvitrem que a deficiência visual do apóstolo tenha exigido tal maneira de escrever. E ele acusa que os judaizantes eram motivados pelo desejo de escapar das perseguições movidas pelos judeus incrédulos, como também pela ambição de se jactarem de ser capazes de arrebatar da leal­dade a Paulo os convertidos do apóstolo. De forma contras­tante, Paulo chama a atenção para os sofrimentos que ele vinha suportando jubilosamente, na defesa de sua mensagem, e, final­mente, roga aos crentes da Galácia que eles mesmos julguem quem era impelido pelos motivos mais puros, ele ou os judaizan­tes. Ler Gálatas 6:11-18.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE GÁLATAS

 

Tema: a justificação dos pecadores que confiam em Jesus Cristo, mediante a graça divina, totalmente à parte da obediência à lei.

 

INTRODUÇÃO: Saudação aos gálatas e anátema aos judaizantes, que perver­tiam ao verdadeiro evangelho (1:1-10)

  1. ARGUMENTO AUTOBIOGRÁFICO EM FAVOR DO EVANGELHO DA LIVRE GRAÇA DE DEUS (1,11 – 2,21)
  2. Revelação direta do evangelho a Paulo, por Jesus Cristo (1:11,12)
  3. Impossibilidade de sua origem no passado extremamente judaico de Paulo (1:13)
  4. Impossibilidade de Paulo tê-lo aprendido de fontes meramente humanas, os apóstolos, a quem Paulo não conhecera senão três anos após sua conversão, e por pouquíssimo tempo (1:14-24)
  5. Reconhecimento posterior do evangelho paulino da parte dos líderes da igreja de Jerusalém (2:1-10)
  6. Paulo repreende (com êxito) a Pedro, por haver este cedido às pressões dos judaizantes, em Antioquia da Síria (2:11-21)
  7. ARGUMENTO TEOLÓGICO EM FAVOR DO EVANGELHO DA LIVRE GRAÇA DE DEUS (3:1 – 5:12)
  8. A suficiência da fé (3:1-5)
  9. O exemplo de Abraão (3:6-9)
  10. A maldição imposta pela lei (3:10-14)
  11. O divino pacto da promessa a Abraão e seu descendente (Cristo e aqueles que a Ele se unem pela fé), anteriores à lei das obras (3:15-18)
  12. O propósito da lei: não o de prover a salvação através do mérito humano, mas o de demonstrar a necessidade de graça divina, por meio da fé em Cristo (3:19 – 4:7)
  13. Apelo para que se confie somente na graça divina, com uma alegoria sobre a liberdade cristã, baseada sobre Abraão e seus dois filhos, o escravo Ismael e o livre Isaque (4:8 – 5:12)

III. ADVERTÊNCIA CONTRA O ANTINOMISMO (5:13 – 6:10)

  1. Liberdade cristã: o viver pelo Espírito, e não segundo a carne (5:13-24)
  2. O amor cristão (5:25 – 6:5)
  3. A liberalidade cristã (6:6-10)

CONCLUSAO: contraste entre o temor que os judaizantes tinham da persegui­ção e seu orgulho jactancioso, por um lado, e as perseguições humilhantes sofri­das por Paulo, por outro lado – e uma bênção final (6:11 – 18).

 

Para discussão posterior:

 

– Quais manifestações de legalismo existem dentro da cristan­dade contemporânea?

– Quais são as formas modernas assumidas pelo antinomia­nismo?

– Confronte o conceito paulino da liberdade cristã e a ética si­tuacional corrente, e também a ética cristã do amor e a ética se­cular do amor.

– De que modo a ênfase paulina sobre o amor se coaduna com seu anátema contra os judaizantes?

– Como podem os pais crentes evitar tanto o legalismo quanto a excessiva permissividade, na criação de seus filhos? Como po­dem as instituições educacionais, as igrejas e as agências missionárias evangélicas evitar tanto o legalismo quanto o liberti­nismo?

– Compare a narrativa paulina de sua visita a Jerusalém (vide Gálatas 2:1-10) com o relato lucano sobre o concílio de Jerusa­lém (vide Atos 15:1-29). Em que se assemelham? Em que dife­rem? Podem ser facilmente harmonizados entre si?

 

Para investigação posterior:

 

Cole, A. Commentary on the Epistle of Paul to the Galatians. Grand Rapids: Eerdmans, 1965.

Neil, W. The Letter of Paul to the Galatians. Cambridge Universit y Press, 1967

Ridderbos. H. N. The Epistle of Paul to the Churches of Galatia. Grand Rapids: Eerdmans, 1953.

Luther, M. “The Argument of St. Paul’s Epistle to the Galatians. “Luther’s Works”. Vol. 26. Lectures on Galatians 1535 Chapters 1-4. Editado e traduzido por J. Pelikan. Editor associado, W. A. Hansen. St. Louis: Concordia, 1963. Pgs. 4-12.

– “The Freedom of a Christian”. Luther’s Works. Vol. 31. Career of the Reformer: I. Traduzido por W.A. Lambert. Editado e revisado por H. I. Grimm. Editor geral, H.T. Lehmann. Filadélfia: Muhlenherg, 1957- Pags. 328-377.

Bunyan, J. Grace Abounding to the Chief of Sinners. Chafer, L. S. Grace. Grand Rapids: Zondervan, 1922.

Genesis 15 – 17; 211-21- Quanto a passagens do Antigo Testamento citadas por Paulo.

Danby, H. The Mishnah. Oxford University Press, 1933. Quase qualquer porção dessa tradução da Mishnah dará o sabor do legalismo rabínico.

 

I TESSALONICENSES: CONGRATULAÇÕES E CONSOLO

 

Tema

         As epístolas de Paulo à igreja de Tessalônica são famosas de­vido ao ensino que encerram sobre a Segunda Vinda de Jesus Cristo e eventos associados. Essas duas epístolas, o discurso do monte das Oliveiras, por Jesus, e o Apocalipse de João formam as três principais porções proféticas do Novo Testamento. Em I Tessalonicenses, a nota escatológica está vinculada com o se­gundo desses dois temas todo-importantes: (1) as congratulações aos crentes tessalonicenses, pela sua conversão e progresso na fé cristã, e (2) exortações tendentes a um maior progresso, com ên­fase particular sobre o consolo derivado da expectação acerca da parousia.

 

Passado formativo

         Tessalônica, capital da Macedônia, ficava na Via Egnácia, a principal artéria que ligava Roma ao Oriente. A cidade contava com seu próprio governo, encabeçado por politarcas e também tinha uma colônia judaica. Paulo evangelizara a cidade quando de sua segunda viagem missionária. Alguns judeus e muitos gre­gos e mulheres de alta posição social tinham abraçado a fé cristã. A assertiva de Paulo: “… deixando os ídolos, vos convertestes a Deus…” (I Tessalonicenses 1:9), subentende que a maioria dos crentes dali se compunha de gentios, antes de sua conversão, porque os judeus daquela época não eram idólatras. (O exílio assírio-babilônico curara-os da idolatria). Os judeus incrédulos residentes em Tessalônica se opuseram encarniçadamente contra o evangelho, assaltando a casa de Jasom, onde Paulo se hospe­dara, e posteriormente viajando até à cidade de Beréia, a fim de tentar expulsar a Paulo daquela cidade, igualmente.

De acordo com Atos 17:2, Paulo passou três sábados pregando na sinagoga de Tessalônica. A narrativa lucana parece dar a en­tender que a turbulência que forçou a partida do apóstolo ocor­reu imediatamente depois de seu ministério na sinagoga, e o tre­cho de Atos 17:10 indica que os cristãos enviaram Paulo para fora da cidade, assim que a agitação se acalmou. Não obstante, alguns estudiosos inserem um hiato entre o ministério paulino na sinagoga dali e o levante, porquanto Paulo menciona ter tido de trabalhar para sustentar-se em Tessalônica (vide I Tessalonicen­ses 2:7-11), além de ter recebido uma ou duas doações vindas de Filipos, durante a sua permanência em Tessalônica (vide Filipen­ses 4:16). Porém, é possível que Paulo tenha começado a traba­lhar com as mãos assim que chegou a Tessalônica, tendo continuado nesse mister por três ou quatro semanas. Por semelhan­te modo, duas doações poderiam ter chegado de Filipos, no es­paço de um mês.

Um outro argumento que apóia uma mais longa permanência em Tessalônica é aquele que assevera que a primeira e a segunda epístolas aos Tessalonicenses pressupõem mais ensinamentos doutrinários do que Paulo poderia ter ministrado em cerca de um mês, pouco mais ou menos. O mais provável, entretanto, é que Paulo tivesse por hábito ensinar intensivamente a seus converti­dos, durante os dias da semana, fora das reuniões das sinagogas. E Timóteo, que ficou por mais tempo em Tessalônica, e que de­pois de haver partido dali retornou à cidade para outro período de permanência, pôde ensinar-lhes a doutrina cristã com maiores detalhes ainda. Portanto, deveríamos limitar o ministério de Paulo em Tessalônica ao espaço mais provável de cerca de um mês.

 

Motivos

         Timóteo se tinha juntado a Paulo em Atenas, fora enviado de volta a Tessalônica, e mais tarde se reunira ao apóstolo em Co­rinto. O relato de Timóteo proveu o motivo para Paulo escrever I Tessalonicenses (comparar I Tessalonicenses 3:1,2 com Atos 18:5). Isso implica em que Paulo escreveu I Tessalonicenses em Corinto, no decorrer de sua segunda viagem missionária, não muitas semanas depois de haver evangelizado os endereçados da epístola.

 

Congratulações

         A primeira seção maior de I Tessalonicenses consiste de con­gratulações aos crentes de Tessalônica, por motivo de sua con­versão e progresso na vida cristã (capítulos 1-3). A fidelidade que demonstraram, mesmo em meio à perseguição, estava servindo de excelente exemplo para os demais cristãos, na Macedônia e na Grécia (Acaia). O relatório de Timóteo a respeito deles, realmente fora favorável (2:17 – 3:9). Ler I Tessalonicenses 1 – 3.

Como de praxe, Paulo combinou a típica saudação grega, em forma cristã modificada (“graça”), com a típica saudação semita (“paz”) (1:1). A forma da palavra “graça”, empregada por gregos não-cristãos, simplesmente significa “Alô!”. Mas Paulo modifi­cou o vocábulo para assumir as reverberações do favor divino outorgado a todos os pecadores desmerecidos, por intermédio de Jesus Cristo. “Paz” significa mais do que a ausência de guerras; pois também envolve a conotação positiva de prosperidade e bên­ção. Uma bem conhecida tríada de virtudes figura em I Tessalonicenses 1:3: fé, amor e esperança. A fé produz as boas obras. O amor resulta em labor, ou seja, feitos de gentileza e mi­sericórdia. E a esperança, uma palavra escatológica referente à expectação confiante quanto à volta de Jesus, gera a constância debaixo dos testes e das perseguições. No meio dessa seção con­gratulatória, Paulo rememora detalhadamente para os seus leito­res o seu ministério entre eles, caracterizado pelo amor e pela abnegação. Alguns têm aventado a hipótese, nesta altura, que Paulo se defendia contra alguma calúnia cujo intuito era o de destruir a sua influência sobre os seus convertidos. Mais prova­velmente, entretanto, Paulo simplesmente ressaltou quão gratifi­cante lhe era o fato que os tessalonicenses tinham reagido favo­ravelmente ao evangelho, visto que labutara tão ferventemente entre eles.

 

Exortações

         A segunda seção principal de I Tessalonicenses (capítulos qua­tro e cinco) consiste de exortações: contra a conduta imoral (4:1-8); acerca de um crescente amor mútuo (4:9,10); acerca do consolo e da vigilância, em face da volta de Cristo (4: I I – 5:11 ) e acerca de certa variedade de questões práticas atinentes à conduta cristã (5:12-28).

Ler I Tessalonicenses 4 e 5. Em I Tessalonicenses 4:1, Paulo, com grande habilidade, passa das congratulações para as exorta­ções, ao animar os crentes dali a continuarem a progredir. Os mandamentos que há em 4:11,12, para que eles vivessem em tranqüilidade e continuassem em trabalho ativo, servem de repri­menda contra aqueles que acreditavam tão fortemente no re­torno imediato de Jesus, que estavam abandonando suas ocupa­ções. O fato que Paulo advoga sem pejo o trabalho manual con­trasta com o típico ponto de vista dos gregos, que costumavam torcer o nariz ante tal sorte de trabalho.

Arrebatamento é o vocábulo comumente usado para designar a retirada súbita dos crentes, quando da segunda vinda de Cristo, conforme a descrição paulina, em I Tessalonicenses 4:16,17. Mas há também a idéia da imortalização e glorificação dos corpos dos crentes que continuarem vivos na terra, ao tempo do retorno de Cristo. O fato que os corpos desses últimos não serão ressuscita­dos dentre os mortos, requer que essa transformação ocorra quando ainda estiverem em seus corpos vivos, mas mortais. Os cristãos tessalonicenses entristeciam-se ante a morte física de ou­tros crentes, aparentemente por não perceberem que seus com­panheiros de fé haveriam de compartilhar do júbilo que haverá quando da volta de Cristo. Quiçá imaginassem que a morte física, antes da parousia, equivalesse a castigo pelo pecado, ou mesmo fosse indicação da perda da salvação da alma. Paulo reassegurou a seus leitores a verdade escatológica, explicando-lhes que os cren­tes mortos haverão de ressuscitar imediatamente antes do arre­batamento, a fim de poderem ser arrebatados juntamente com os cristãos que porventura continuarem vivos até então.

No quinto capítulo, Paulo passa das palavras de consolo para as de advertência. Aos cristãos convém esperar, vigilantes, pelo dia do Senhor (a Segunda Vinda e os eventos que se seguirão), para não serem apanhados de surpresa. Não vigiar é o mesmo que colocar-se na categoria dos iníquos, os quais serão apanha­dos inesperadamente. Por outro lado, o estado de prontidão para o dia do Senhor é mais que um estado de alerta mental. Tam­bém consiste de uma maneira de conduzir-se caracterizada pela obediência aos mandamentos, tais como aqueles com que esta epístola é encerrada.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE I TESSALONICENSES

 

Temas: congratulações aos crentes tessalonicenses devido à sua conversão e progresso na fé cristã, e exortações atinentes a um maior progresso, com desta­que particular da expectativa relacionada à parousia.

 

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1)

  1. CONGRATULAÇÕES (1:2 – 3:13)
  2. Ação de graças pela conversão exemplar dos crentes de Tessalônica (1:2-10)
  3. Reminiscência de Paulo acerca de seus ministério em Tessalônica (2:1-16)
  4. Excelente relatório de Timóteo sobre o progresso dos crentes de Tessalô­nica (2:17 – 3:10)
  5. Oração em favor dos crentes de Tessalônica (3:11-13)
  6. EXORTAÇÕES (4:1 – 5:22)
  7. Moralidade (4:1-8)
  8. Amor mútuo (4:9-12)
  9. Consolo ante a morte de irmãos na fé, em face do fato que participarão da parousia (4:13-18)
  10. Prontidão na espera pelo dia do Senhor (5:1-11)
  11. Exortações miscelâneas (5:12-22)

CONCLUSÃO: bênção e instruções finais (5:23-28)

 

 

II TESSALONICENSES: CORREÇÃO DE IDÉIAS SOBRE A SEGUNDA VINDA

 

Motivos e tema

Paulo escreveu a segunda epístola aos Tessalonicenses estando em Corinto, quando de sua segunda viagem missionária, pouco depois de haver escrito I Tessalonicenses. (Alguns eruditos preferem reverter a ordem entre I e II Tessalonicenses, mas essa opinião não dispõe de evidências nos manuscritos, e (entre outras considera­ções): II Tessalonicenses 2:15 (“as tradições que vos foram ensinadas… por epís­tola nossa”), parece pressupor I Tessalonicenses.) Durante o intervalo que mediou entre as duas epístolas, o fanatismo tinha crescido na igreja cristã de Tessalônica. Tal fanatismo era originado pela crença no retorno imediato do Senhor. E essa crença, por sua vez, aparentemente resultava do desejo que aqueles crentes embalavam de ser livrados da perseguição. Paulo, portanto, escre­veu esta segunda epístola aos tessalonicenses a fim de aquietar o fanatismo deles, corrigindo as suas idéias escatológicas.

 

Encorajamento

         Após a saudação inicial (II Tessalonicenses 1:1,2), Paulo nova­mente agradece a Deus pelo progresso espiritual dos crentes de Tessalônica, bem como por sua constância paciente sob a perseguição; mas os elogios são bem mais breves do que se vira na pri­meira epístola àqueles crentes. Passando prontamente para o tema escatológico, Paulo descreve vividamente a Segunda Vinda, quando os perseguidores serão julgados e os perseguidos serão aliviados em seus sofrimentos. O propósito do apóstolo foi o de encorajar aos tessalonicenses a uma perseverança contínua, para o que mostrou que a situação haveria de ser revertida, quando Cristo retornasse ao mundo. Em 2:1 ss., Paulo começa a abordar os pontos que aqueles crentes entendiam mal no que concerne à parousia, explicando-lhes que ela não seria imediata. Assim sendo, deveriam retornar às suas ocupações e negócios. Porque esperar a volta de Cristo não envolve cessar a vida diária normal. Pois Ele poderia não retornar por algum prolongado período de tempo. Ler II Tessalonicenses 1 – 3.

 

Correção

         O aviso de Paulo, de que aqueles crentes não se deixassem en­ganar por alguma profecia falsa ou por alguma instrução oral ou escrita, forjada em seu nome (2:1,2), sugere que os mentores da posição fanática que havia em Tessalônica se vangloriavam de contar com o apoio do apóstolo. A expressão, “o homem da ini­qüidade” (2:3), alude ao anticristo, um líder mundial que se ca­racterizará pela iniqüidade e pela perseguição, nos dias finais de nossa era. Essa personagem maligna haverá de exigir adoração à sua própria pessoa, ostentando-se no templo de Deus. Em outras palavras, ele procurará obrigar o povo judeu a adorar à sua ima­gem, a qual ele mandará erigir no templo (reconstruído) de Jeru­salém (vide 2:4,5; comparar com Marcos 13:14. Mateus 24:15 e Apocalipse 13). A sugestão esposada por alguns, de que o con­ceito de anticristo emanou do mito do Nero-redivivo, que dizia que Nero haveria de retornar de entre os mortos, tropeça no fato que o conceito do anticristo é anterior à época de Nero, conforme se vê em outras obras literárias, além do que ela nos forçaria a re­jeitar, sem razões suficientes, a autenticidade de II Tessalonicen­ses, a qual teria de ser datada após o martírio de Paulo e a morte de Nero. Também tem sido sugerido por alguns que Paulo tinha em mente a ordem baixada mas não cumprida pelo imperador Calígula, em 40 D. C., no sentido que uma estátua sua fosse le­vantada e adorada no templo de Jerusalém. Talvez tenha sido as­sim, mas a profecia de Daniel concernente à abominação desola­dora (vide Daniel 9:27; 11:31 e 12:11), a poluição do templo por parte de Antíoco Epifânio, em 168 A. C., e a alusão de Jesus a uma ainda futura abominação desoladora (vide as referências acima) é que provêem as fontes primárias das declarações de Paulo a esse respeito.

O que ou quem estaria impedindo o anticristo de manifestar-se, até que chegue o tempo certo, Paulo sentiu ser desnecessário identificar, pois os crentes tessalonicenses já conheciam a identi­dade do tal, por meio do doutrinamento oral de Paulo (vide 2:5­8). As duas sugestões mais prováveis são: (1) essa força restringi­dora é a instituição do governo humano – personificada em go­vernantes, como os imperadores romanos e outros – ordenada por Deus para a proteção da lei e da ordem (pois o anticristo será um iníquo, um “desregrado” que não obedecerá a lei alguma), e (2) essa força restringidora é a ativa atuação do Espírito Santo no mundo, no tempo presente, o que impede o surgimento do anti­cristo, ou diretamente ou por meio da Igreja. Outros pensam que Paulo se referia à pregação missionária como se fora esse poder restringidor, e que ele mesmo, como principal missionário, seria aquele que “detém” o anticristo. Entretanto, é difícil pensarmos que Paulo antecipava sua própria remoção especial como a con­dição do aparecimento do anticristo, porquanto noutras passa­gens ele expressa sua expectação pela parousia tanto quanto ou­tros cristãos o fazem. Finalmente, a ênfase que se vê em 3:17 so­bre a escrita com o próprio punho de Paulo subentende que al­guma epístola já havia sido forjada, em nome de Paulo, em res­paldo daquela posição fanática.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE II TESSALONICENSES

 

Tema: a pacificação de uma crença fanática, evidentemente engendrada pelas perseguições de que a parousia haveria de ter lugar imediatamente.

 

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

  1. A PERSEGUIÇÃO (1.3-12)
  2. Ação de graças pelo progresso dos crentes de Tessalônica em meio à per­seguição (1:3,4)
  3. Certeza do livramento da perseguição e do juízo divino contra os perse­guidores, por ocasião da parousia (1:5-10)
  4. Oração em favor dos crentes de Tessalônica (1:11,12)
  5. A PAROUSIA/ARREBATAMENTO/DIA DO SENHOR (2:1-15)
  6. Negação de que já havia chegado o dia do Senhor (2:1,2)
  7. Lista dos precedentes necessários (2:3-15)
  8. A rebelião (2:3a)
  9. O homem da iniqüidade (2:3b-15)
  10. Sua reivindicação de divindade (2:3b-5)
  11. A atual força restringidora de seu aparecimento (2:6,7)
  12. Sua condenação (2:8)
  13. Seus ludíbrios (2:9-12)
  14. Os crentes de Tessalônica estavam isentos de tal ludíbrio e conde­nação (2:13- 15)
  15. Bênção (2:16,17)

III. EXORTAÇÔES (3:1-15)

  1. Oração, amor e estabilidade (3:1,5)
  2. Um trabalho industrioso (3:6-13)
  3. Ostracismo disciplinador aplicado a membros desobedientes da igreja local (3:14,15)

CONCLUSÃO: outra bênção e saudação final, com ênfase sobre a escrita pelo próprio punho de Paulo, nas últimas e poucas linhas da epístola, como garantia de sua autenticidade (3:16-18).

 

Para discussão posterior:

 

– Quais doutrinas (e com qual profundeza) as epístolas aos Tes­salonicenses pressupõem já terem sido ministradas oralmente por Paulo? Compare essas doutrinas com o nível da pregação evangelística de hoje em dia.

– Prepare um esboço dos futuros acontecimentos escatológi­cos, com base nas epístolas aos Tessalonicenses. Por que esse esbo­ço é tão incompleto? Procure confrontá-lo com o discurso de Jesus no monte das Oliveiras (vide Marcos 13; Mateus 24 e 25 e Lucas 21) e com o livro de Apocalipse.

– Trace a inferência sobre a reação dos crentes de Tessalônica à primeira epístola aos Tessalonicenses, por meio daquilo que Paulo escreveu na segunda epístola aos Tessalonicenses. Então imagine qual teria sido a reação deles à segunda dessas epístolas.

 

Para investigação posterior:

 

Morris,. L. The Epistles of Paul to the Thessalonians. Londres: Tyndale, 1956.

– The First and Second Epistles to the Thessalonians. Grand Rapids: Eerdmans, 1959.

Walvoord, J. F. The Thessalonians Epistles. Grand Rapids: Zondervan (Du­nham), 1958.

– The Rapture question. Grand Rapids: Zondervan (Dunham), 1957. Em defesa da posição que o arrebatamento da Igreja ocorrerá antes da tribulação.

Ladd, G. E. The Blessed Hope. Grand Rapids: Eerdmans, 1956. Em defesa da po­sição que o arrebatamento da Igreja ocorrerá depois da tribulação.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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