As Epístolas Principais de Paulo – Panorama do NT

O Amargo e o Doce – Esboços Bíblicos
24/07/2016
Um Sermão Para Os Idosos – Esboços Bíblicos
25/07/2016

As Epístolas Principais de Paulo – Panorama do NT

I CORÍNTIOS: PROBLEMAS ECLESIÁSTICOS

 

Perguntas Normativas:

– Quais tinham sido as conexões e comunicações de Paulo com a igreja de Corinto, antes de ter-lhes escrito a primeira epístola aos Coríntios?

– Como foi que a igreja de Corinto se afundou nas deploráveis condições que Paulo procura corrigir na sua primeira epístola aos Coríntios?

– Quais eram os problemas específicos da igreja de Corinto e quais os remédios prescritos por Paulo para os mesmos?

 

Tema

A primeira epístola de Paulo aos Coríntios demonstra o fato que condições lamentáveis na Igreja não são um apanágio exclu­sivo da Igreja pós-apostólica. Crenças e práticas aberrantes, dotadas da mais espantosa variedade e vulgaridade, floresciam na igreja de Corinto. Foi a fim de contrabalançar esses problemas que Paulo escreveu esta epístola.

 

Ministério anterior em Corinto

         Não contando com fundos suficientes, quando de sua pri­meira chegada em Corinto, Paulo se pusera a fabricar tendas em companhia de Priscila e Áqüila. Nos dias de sábado ele pregava na sinagoga local. Depois que Silas e Timóteo vieram juntar-se a ele, então escreveu a primeira e a segunda epístolas aos Tessalo­nicenses, mudou suas atividades evangelizadoras para a casa de Tito Justo ao lado da sinagoga, foi o agente da conversão de Crispo, chefe da sinagoga, recebeu do governador romano, Gálio, uma afortunada absolvição ante as falsas acusações dos judeus incrédulos contra sua pessoa, e, ao todo, ministrou por nada menos de um ano e meio naquela cidade.

 

Uma carta anterior perdida

         A declaração que se acha em I Coríntios 5:9: “Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros”, permite-nos entender que Paulo já havia escrito uma epístola anterior à igreja de Corinto, mas que depois se perdeu. Aqueles crentes haviam compreendido mal ao apóstolo, como se ele tivesse querido dizer que eles deveriam separar-se de todos os impuros. Mas Paulo esclarece aqui que tivera em mente a separação somente dos cristãos professos, que vivem em pecado flagrante e aberto.

 

Tempo e lugar de escrita

A primeira epístola aos Coríntios, pois, é a segunda das epísto­las que o apóstolo escreveu à igreja de Corinto. Ele escreveu da Cidade de Éfeso, por ocasião de sua terceira viagem missionária. E isso sucedeu perto do fim de sua permanência ali, porque ele até já planejava retirar-se da cidade (vide 16:5-8)- Alguns têm opinado, com base em 16:10, que assevera: “E, quando Timóteo for …” (consoante a tradução inglesa RSV, aqui vertida para o português), que Timóteo foi o portador da epístola aos coríntios. Entretanto, o trecho de Atos 19:22 (Atos 19.22: “Tendo enviado a Macedônia… Timóteo … permaneceu ele mesmo algum tempo na Ásia [a província na qual Éfeso estava localizada].”) sugere-nos que Timóteo es­tava na Macedônia por aquele tempo. Nossa Bíblia portuguesa, tal como a New American Standard Bible, dá a tradução mais correta de I Coríntios 16:10: “E, se Timóteo for…” (vindo da Macedônia). Dificilmente Paulo teria escrito a palavra “se”, no caso de Timóteo ter sido o portador da epístola. Paulo procurara induzir Apolo, figura importantíssima, a que visitasse Corinto, provavelmente tencionando enviar por meio dele a primeira epístola aos Coríntios. Mas Apolo recusou-se a ir (vide 16:12). E em resultado, não sabemos quem levou a epístola a Corinto.

 

Motivos

         O motivo pelo qual foi escrita a primeira epístola aos Coríntios é duplo: (1) relatórios orais provenientes dos familiares de Cloé, acerca das desavenças havidas na igreja (vide 1:11); e (2) a che­gada de uma delegação da parte da igreja de Corinto – Estéfanas, Fortunato e Acaico – ambas as visitas trazendo uma oferta (vide 16:17) e uma carta solicitando o parecer de Paulo sobre diversos problemas, aos quais ele aborda na epístola, sucessivamente, com a expressão introdutória: “Quanto ao que me escrevestes…”, ou simplesmente, “No que se refere …” (vide 7:1,25: 8:1; 11:2; 12:1; 15:1 e 16:1). Pelo menos isso é o que mais provavel­mente se pode inferir de 16:17 (“porque estes supriram o que da vossa parte faltava”) e de 7:1 (“Quanto ao que me escrevestes”); de outro modo, aqueles homens meramente mitigaram o desejo de Paulo por ver pessoalmente aos crentes de Corinto, e a carta enviada de Corinto chegou a ele através de outras mãos. Cloé é um nome feminino. Os membros de sua casa, mencionados na epístola, provavelmente eram escravos. Não temos certeza se eles visitaram a Paulo em Éfeso, tendo chegado de Corinto, ou se de Éfeso tinham ido visitar Corinto, enviando relato disso a Paulo.

 

Ambiente da cidade

         A cidade de Corinto estava localizada em um estreito istmo, entre os mares Egeu e Adriático. A viagem em torno do extremo sul da Grécia era perigosa. Muitos navios, por conseguinte, eram puxados ou tragados sobre toras rolantes, para o lado oposto do istmo, e novamente eram lançados ao mar. Diversos projetos que visavam à abertura de um canal foram abandonados por várias razões. Sendo cidade portuária, Corinto era extremamente cos­mopolita. Os jogos atléticos de Corinto só perdiam em importân­cia para os jogos olímpicos. O teatro aberto acomodava vinte mil pessoas, e o teatro fechado três mil. Templo, santuários e altares pontilhavam a cidade. Mil prostitutas sagradas se punham à dis­posição de qualquer um no templo da deusa grega Afrodite. O lado sul do mercado era ocupado por tabernas equipadas com cisternas subterrâneas, para esfriar as bebidas. Os arqueólogos têm descoberto muitas taças para servir beberagens, nessas adegas de licores; e algumas delas trazem inscrições como “Saúde”, “Segurança”, “Amor”, ou nomes de divindades diversas.

 

Problemas da igreja

         Era natural que uma igreja cristã em meio a uma socie­dade extremamente paganizada, como era a de Corinto, se achasse eivada de dificuldades. Em conseqüência, a primeira epístola aos Coríntios trata quase inteiramente dos problemas que serviam de praga para aquela igreja. Após a saudação inicial, em 1 Coríntios 1:1-9, onde Paulo agradece a Deus pela fé cristã de seus leitores, e, mais especialmente, pelos seus dons espiri­tuais, ele se atira a:

(1) Reprimendas em resposta ao relatório prestado pelos escravos de Cloé, acerca de:

Divisões – a igreja deveria unificar-se, mediante a humil­dade, à luz da cruz (1 – 4),

Um caso específico de imoralidade – a igreja deveria disci­plinar ao ofensor (5),

Pendências judiciais entre os crentes – a igreja precisava resolver tais litígios fora dos tribunais seculares (6:1-8), e

Imoralidade em geral – os crentes precisam viver virtuosa­mente (6:9-20).

(2) Respostas às indagações feitas na carta enviada pelos co­ríntios, concernentes a estas questões.

Matrimônio – casar-se é bom, mas nem sempre é o melhor para o crente (7),

Alimentos, particularmente carnes dedicadas aos ídolos – os crentes podem comê-los, mas deveriam refrear-se na presença daqueles em cujas mentes tais carnes estão reli­giosamente contaminadas (8:1 – 11:1),

Ordem na adoração pública, especificamente:

– Uso do véu pelas mulheres, nos cultos – as mulheres crentes devem demonstrar sua submissão mediante o uso do véu (11:2-16),

– Celebração da Ceia do Senhor – todos devem participar juntos em espírito de reverência e exame próprio (11:17­34), e

– Dons espirituais, sobretudo o falar em línguas – a igreja deveria dar menor importância ao falar em línguas e dar ênfase à profecia, mormente com o acompanhamento da virtude do amor (12 – 14)

Ressurreição – a crença na passada ressurreição de Cristo e na futura ressurreição dos crentes é crucial para a fé cristã (15), e

A coleta – a igreja deveria começar imediatamente a reco­lher a coleta para os crentes de Jerusalém, para que esti­vesse pronta quando da chegada de Paulo (16:1-9).

As observações, concludentes consistem de exortações mis­celâneas, saudações e notícias acerca das circunstâncias de Paulo e seus planos, juntamente com notícias sobre Timóteo e Apolo (vide 16:10-24).

 

Desunião

Ler 1 Coríntios 1-4. As facções existentes na assembléia cristã de Corinto se derivavam de sua veneração a heróis (vide 1:12). Os admiradores de Paulo eram-lhe leais como o fundador origi­nal da igreja local, mas Paulo não se aliou nem mesmo com seus próprios seguidores (vide, especialmente, 1:13). Os adeptos de Apolo aparentemente ficavam boquiabertos ante a sua grande eloqüência. Os seguidores de Cefas (Pedro) talvez formassem o segmento judaico da igreja, ou então fossem os tradicionalistas, que se escudavam na autoridade do primeiro líder do grupo apostólico. Os chamados seguidores de Cristo bem podem ter sido aqueles que não queriam sujar as mãos com aquelas desavenças, e, por isso mesmo, adotavam uma atitude distante e de superioridade espiritual. Alternadamente, a posição do próprio Paulo é expressa pelas palavras “Eu (sou) de Cristo”, que conde­nava aqueles que seguiam meros líderes humanos. Os detalhes não são perfeitamente claros, mas parece que aquelas facções ti­nham sido originadas pelo culto a personalidades, e não devido a diferenças doutrinárias. Pelo menos todas as facções continua­vam reunindo-se num mesmo lugar, pois Paulo foi capaz de diri­gir a eles uma única epístola.

Em I Coríntios 1:14-17, Paulo afirma que se alegrava por não ter batizado a muitos dos coríntios. Não queria que as pessoas se sentissem orgulhosas por haverem sido batizadas por ele. Paulo não estava negando a validade do batismo – porquanto admite haver batizado a alguns – mas negava peremptoriamente que ele ou qualquer outro evangelista cristão deveriam batizar convertidos a fim de obter um grupo de adeptos. Pelo contrário, a tarefa propriamente dita dos evangelistas cristãos dificilmente chega a ser popular, porque a pregação acerca de um Salvador que mor­reu como se fora um criminoso ofende o orgulho humano e a sa­bedoria deste mundo. Em conseqüência a maioria dos crentes procede das camadas mais humildes da sociedade. Porém, o que a maioria deles não conta, no que concerne a passado formativo e a realizações, Cristo contrabalança: Ele é a sabedoria, a reti­dão, a santificação e a redenção deles (vide 1:18-31).

No segundo capítulo desta epístola, Paulo relembra que quando chegara a Corinto, vindo de Atenas, onde os filósofos, sábios à maneira mundana, tinham-no rejeitado, ele pregara a cruz de Cristo em fraqueza e tremor, e não com os artificiais mé­todos retóricos empregados pelos filósofos sofistas. Tais méto­dos, calculados a impressionar os ouvintes com a erudição e as habilidades do orador, destroem a eficácia da pregação do evan­gelho. Sem embargo, Paulo insiste em que ensinava uma genuína sabedoria. Tal sabedoria procede do Espírito Santo, o único que conhece a mente de Deus.

Por causa das facções existentes em Corinto, Paulo acusa de carnalidade, uma atitude pecaminosa, aos crentes dali. Explica ele ser errado jactarmo-nos de líderes humanos, porquanto os tais são meros homens. Adicione-se a isso que aqueles líderes são co­legas de labor, e não rivais (capítulos 3, 4). A seção se encerra com uma admoestação cujo escopo é a unidade entre os crentes. Fica implícito que os crentes podem preservar a unidade espiri­tual, se assim o quiserem e se esforçarem nesse sentido.

 

Imoralidade

         Ler I Coríntios 5-7. Paulo ventila aqui o caso do indivíduo que estava convivendo com a mulher de seu próprio pai. Presumivel­mente era ela a madrasta do tal homem, porque Paulo não a identifica com mãe do mesmo. E aparentemente ela não era cristã, porquanto Paulo não prescreve qualquer punição para ela. Paulo repreende os crentes de Corinto devido à sua altivez arrogante, por tolerarem tão flagrante pecado em seu próprio meio, e ordena que fosse exercida disciplina na forma de exclu­são da comunhão da igreja, isto é, o ostracismo social e a exclu­são da Ceia do Senhor. O sexto capítulo inclui uma seção que proíbe os cristãos de ir a tribunal uns contra os outros. É possível que tal situação tivesse algum vínculo com o caso de incesto, pois a discussão ocorre no meio da reprimenda de Paulo a respeito da imoralidade. Paulo acautela seus leitores no sentido que a liberdade cerimonial não implica em libertinagem moral, e ressalta o fato que o corpo é sagrado, por ser templo do Espírito Santo.

 

Casamento e divórcio

         Consoante o sétimo capítulo, o celibato voluntário é bom, mas, por causa do impulso sexual, Deus proveu o matrimônio para que se evitem as relações sexuais ilícitas, pelo que também, dentro do casamento, cada um dos cônjuges deveria dar-se total­mente ao outro. Paulo exprime o desejo que todos fossem livres de responsabilidades maritais, tal como ele mesmo o era, não porque o ascetismo seja espiritualmente superior, mas porque o crente solteiro pode devotar todas as suas energias na prédica do evangelho. No entanto, ele chega a reconhecer que, quanto a esse particular, a vontade de Deus varia de crente para crente. No tangente ao divórcio, Paulo já não se mostra tão flexível. O divórcio atingira proporções epidêmicas em algumas classes da sociedade no império romano. Paulo reitera o ensinamento de Jesus contra o divórcio até o ponto em que estão envolvidos os casais cristãos. Todavia, as palavras de Jesus não cobrem o pro­blema de esposos ou esposas que só se converteram após estarem casados, e cujos cônjuges não se associaram a eles na pro­fissão cristã. Por conseguinte, Paulo aconselha que o esposo ou a esposa crente, continue no convívio com seu cônjuge sem­pre que exeqüível, pelo menos em parte, pois o cônjuge incré­dulo, e quaisquer filhos que o casal venha ter, em certo sentido são separados por Deus, devido ao fato que o testemunho evan­gélico se faz bem presente naquele lar. Todavia, se o cônjuge in­crédulo insistir em romper os laços matrimoniais, então o côn­juge crente “não fica sujeito à servidão” (versículo 15). Quer es­sas palavras signifiquem que o crente não está obrigado a buscar reconciliação, quer elas queiram dizer que o crente está livre para casar-se novamente, dentro da comunidade cristã (comparar com a fraseologia do versículo 39), o fato é que não sabemos opinar entre as duas possibilidades. O esclarecimento dado por Paulo de que essas instruções eram dele mesmo, e não do Senhor (versículos 10 e 12) não subentende que lhe falta autoridade, mas tão-somente que Jesus não lhe revelara sobre tais pormenores, e, por conseguinte, Paulo se via forçado a apresentar sua própria doutrina, como alguém que recebera do Senhor “a misericórdia de ser fiel”, possuidor do Espírito Santo (versículos 25 e 40).

A porção final do sétimo capítulo, mormente os versículos 36 ss., está prenhe de difíceis problemas de interpretação. Estaria Paulo aludindo a matrimônios espirituais, que jamais se concretizaram? Estaria falando a noivos? ou apenas a namorados? Ou se dirigia a um pai crente, sua filha e o noivo dela? Não obstante, as lições principais são claras. Por uma parte, o matrimônio não pode ser condenado com base no ascetismo. Por outra parte, não deve ser contraído o matrimônio somente por motivo de pressão social. Pessoas solteiras geralmente podem ter vidas mais plenas, mais ricas e mais produtivas do que pessoas casadas. Em tudo isso Paulo frisa a natureza crítica do período em que os cristãos estão vivendo. Talvez o apóstolo tivesse em mente a possibili­dade da volta do Senhor, uma possibilidade que daria um senso de urgência a cada geração de cristãos.

 

Alimentos dedicados a ídolos

         Muito importa compreender o pano-de-fundo da discussão paulina a respeito dos alimentos associados à adoração idólatra. No antigo mundo pagão, os santuários eram os principais supri­dores de carne verde para consumo humano. Portanto, a maior parte da carne que se vendia nos açougues fora dedicada a algum ídolo. Os deuses pagãos recebiam uma porção simbólica, ofere­cida em holocausto sobre um altar – e usualmente não era um “pedaço seleto”, para dizer a verdade! Após uma refeição sacra­mental em companhia do adorador, os sacerdotes ofereciam à venda ao público a carne restante. Os judeus, contudo, usual­mente adquiriam carne nos açougues de judeus, onde podiam ter a certeza que a carne não fora consagrada a alguma divindade pagã. Deveriam os cristãos ser tão escrupulosos quanto os ju­deus? Ler I Coríntios 8:1 – 11:1.

Paulo defendia a liberdade do crente de comer tais carnes, mas faz uma advertência a seus leitores, para que não permitissem que o exercício de tal liberdade viesse a produzir dano a pessoas sem consciência bem formada. Em outras palavras, um cristão que perceba que os ídolos não tem existência divina real, pode comer carnes dedicadas a ídolos sem qualquer prejuízo para a sua consciência. Porém se pessoas que imaginam que os ídolos possuem real existência divina estiverem observando, então um crente melhor informado deveria refrear-se de comer tal carne, para não suceder que fique danificada a vida cristã de cristãos desinformados, e para que não venha ele a perder seu testemu­nho perante os incrédulos.

Deve-se notar que o equilíbrio entre a liberdade e a “lei do amor” envolve somente questões cerimoniais e outras, as quais são neutras da perspectiva da moralidade. Paulo adverte que em­bora ele estivesse permitindo o consumo judicioso de carnes de­dicadas a ídolos, sob hipótese alguma ele permitia a participação em festividades idólatras, vinculadas que estão à adoração pagã. (Os templos pagãos com freqüência contavam com salas de jan­tar auxiliares, onde havia refeições sociais e de cunho religioso.) Seria uma crassa incoerência para um crente participar tanto da Ceia do Senhor como das ceias associadas a uma adoração a fal­sas divindades, inspirada pelos próprios demônios. Paulo destaca que quando, nos dias do Antigo Testamento, Israel se associou a festividades pagãs, também caiu em formas de adoração pagã que só conduzia à imoralidade.

 

 O uso do véu

As instruções de Paulo concernentes ao uso do véu pelas mu­lheres também requerem conhecimento sobre os costumes que prevaleciam na antigüidade. Era apropriado que uma mulher de respeito, no império romano, usasse véu em público. Tarso, a ci­dade natal de Paulo, se notabilizara por sua aderência estrita a essa regra de decoro. (Dio de Prusa, Tarsica prior § 48.) O véu cobria a cabeça, e não o rosto. Era, ao mesmo tempo, símbolo da subordinação da mulher ao homem e do respeito que a mulher merece. As mulheres cristãs de Co­rinto, no entanto, mui naturalmente estavam seguindo os costu­mes das mulheres gregas, as quais conservavam a cabeça desco­berta quando adoravam. (Vide Viewes of the Biblical World (Jerusalém: Internacional, 1961),vol. 5, p.228.) Por conseguinte, Paulo assevera que é vergonhoso uma mulher cristã orar ou profetizar na igreja com a cabeça sem véu. Por outro lado, Paulo se manifesta contraria­mente à prática dos homens judeus e romanos, os quais oravam com a cabeça coberta, e ordena que os varões crentes orem e profetizem de cabeça descoberta, como sinal da autoridade de que estão investidos. Ler I Coríntios 11.2-34.

 

Ceia do Senhor

         Na metade final do capítulo 11, Paulo assevera que as divi­sões faccionárias existentes na igreja de Corinto transmutavam em escárnio os seus cultos de comunhão, os quais deveriam ser ocasiões de companheirismo cristão. Os coríntios celebravam a Ceia do Senhor em conjunção com um banquete de amor cristão, uma espécie de ceia trivial na igreja, correspondente à refeição da Páscoa, durante a qual Jesus instituiu a Ceia do Senhor. Alguns deles chegavam mais cedo ao lugar de reunião, ingeriam sua re­feição e tomavam da Ceia antes de haverem chegado os outros, que talvez tivessem de trabalhar por mais horas. Alguns daqueles estavam mesmo ficando embriagados. Por conseguinte, Paulo or­denou a descontinuação desses banquetes de amor, ordenou que se esperasse até à chegada dos atrasados, e aconselhou a intros­pecção e a reverência. Sua repetição a respeito da Última Ceia se deriva da tradição anterior aos evangelhos sinópticos, tradição essa apoiada sobre o ato do próprio Senhor Jesus. “…eu re­cebi…” (11:23) era a forma técnica de expressar o recebimento de uma tradição da parte de outrem.

 

O flar em línguas

         Os charismata (dons) e a glossolalia (falar em línguas) compõem o tema dos capítulos doze a catorze. Muitos asseguram que a glossolalia aqui ventilada por Paulo consistia de falar em estado de êxtase, não se parecendo com idiomas humanos bem arquite­tados. De fato, Paulo afirma que sem o dom da interpretação nem mesmo aquele que fala em línguas sabe o que está dizendo. Entretanto, “interpretação” usualmente significa tradução. Assim sendo, ao que parece, o falar em línguas era um falar mira­culoso, em um idioma qualquer não previamente aprendido. E assim, as línguas algumas vezes eram ininteligíveis, não por se­rem balbucios estáticos e não puros idiomas, mas porque, em al­gumas ocasiões, nem aquele que falava e nem qualquer pessoa da audiência possuía o dom igualmente miraculoso da tradução. (Vide ainda R. H. Gundry, ” ‘Ecstatic Utterance’ (N- E- B.)? “Journal of Theological Studies. N.S., 17 (1966), págs. 299-307)

Por valorizarem em demasia a glossolalia, os crentes de Co­rinto abusavam desse dom. Paulo o desvaloriza, e insiste em que seu uso deveria ser ordeiro e limitado. Às expensas da glossolalia, ele exalta dons espirituais superiores, sobretudo a profecia, que era alguma direta revelação de Deus, necessária na Igreja primi­tiva, em lugar das Escrituras do Novo Testamento. Acima de tudo, Paulo exalça a ética cristã do amor, na prosa-poema do fa­moso décimo terceiro capítulo. Ler I Coríntios 12 – 14.

O conceito paulino da Igreja como o corpo de Cristo se evi­dencia com grande proeminência no capítulo doze. Em 14:34,35, dificilmente pode ser tomada em sentido absoluto a proibição das mulheres falarem na igreja, porquanto Paulo acabara de dar instruções, no décimo primeiro capítulo, acerca do uso do véu pelas mulheres, quando orassem ou profetizassem durante a ado­ração pública. “Se, porém, querem aprender alguma coisa, inter­roguem, em casa, a seus próprios maridos…” (14:35), são pala­vras que sugerem que Paulo estava proibindo a interrupção do culto na igreja, por parte de mulheres indagadoras, e que talvez também se entregassem a conversas capazes de quebrar a aten­ção, se porventura se sentassem separadas dos homens, con­forme se vê nas sinagogas judaicas.

 

Ressurreição

         Paulo aborda em seguida o tópico da ressurreição do corpo, um conceito estranho para o pensamento grego. Alguns atenien­ses, inteiramente céticos ou quando muito esperançosos quanto à imortalidade da alma, tinham escarnecido de Paulo ao aludir o apóstolo à ressurreição do corpo. Pois pensavam que o corpo serve de empecilho para a alma, e assim não haveriam de querer acreditar na ressurreição. (Ver Atos 17:32 e pág. 265) Essa predisposição contra a doutrina da ressurreição física estava levando alguns crentes coríntios a duvidar e mesmo a negar a futura ressurreição. Por enquanto não negavam ainda a ressurreição de Cristo, mas Paulo podia perce­ber que esse seria o resultado lógico daquela maneira de pensar. Por conseguinte, argumenta ele com base na passada ressurrei­ção de Cristo, como um fato comprovado, e daí passa para a fu­tura ressurreição dos homens. E ele tinha os crentes particular­mente em mira.

O grande capítulo sobre a ressurreição tem início com um fa­moso sumário do evangelho, bem como uma lista de aparições do Cristo ressurreto, o que Paulo jamais teria ousado incluir com tão desabrida confiança, a menos que, de fato, houvesse testemu­nhas disponíveis. Ao registrar. “…eu recebi…”, no tocante a esse material, Paulo indica que estava citando uma declaração con­fessional extraída da tradição cristã, mais antiga que a data da es­crita de I Coríntios. Avança o apóstolo para a descrição do corpo ressuscitado e para uma analogia entre a morte em Adão e a vida em Cristo. Alguns rabinos ensinavam que o corpo ressuscitado será exatamente idêntico ao corpo físico atual. Paulo afirma que não – e o corpo ressuscitado terá continuidade com o corpo pre­sente, mas estará adaptado às condições espirituais da existência eterna e celestial. Esse capítulo chega a seu zênite em uma explo­são de louvor triunfal. Ler I Coríntios 15.

Várias explicações têm sido aventadas para a alusão ao ba­tismo pelos mortos, no versículo vinte e nove. Talvez se refira meramente àqueles que se convertiam e eram batizados impul­sionados pelo desejo de se reunirem a seus entes amados e ami­gos crentes, por ocasião da ressurreição. Ou talvez Paulo aludisse a um batismo vicário no sentido mais prenhe, embora tenha lan­çado mão da idéia apenas como um argumento, sem jamais ter querido dar a entender uma prática real (“…que farão eles …?” e “…por que se batizam eles por causa deles?”, em oposição a “nós”, que figura no próximo versículo). Noutras palavras, Paulo estava frisando a incoerência daqueles que se submetiam a ba­tismo em favor dos próprios mortos cuja futura ressurreição eles negavam. O combater “com feras”, no versículo trinta e dois, mui provavelmente é conceito usado como metáfora. (Comparar com a carta de Inácio a Roma, v.1.)

 

A oferta e miscelâneas

O capítulo que forma a conclusão encerra diversas exortações, tal como a de separar algum dinheiro para a oferta que Paulo ha­veria de coletar, quando de sua chegada, e que levaria a Jerusa­lém, em companhia de delegados autorizados da igreja. O versí­culo vinte e dois contém uma importante expressão aramaica, “Maranata’!”, a qual quer dizer “Ó nosso Senhor, vem!” (com­parar com Apocalipse 22:20). E isso, por sua vez, demonstra que a designação de Jesus como Senhor retrocede até aos dias em que os discípulos de Jesus se comunicavam em aramaico, não po­dendo, por isso mesmo, ser atribuída ao cristianismo posterior, que falava o grego – contrariamente à opinião de alguns eruditos modernos, que afirmam que o conceito de Jesus como figura di­vina foi um desenvolvimento bastante tardio, não fazendo parte original das idéias nem de Jesus e nem da igreja mais primitiva. Ler I Coríntios 16.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE I CORÍNTIOS

 

Tema: os problemas da igreja de Corinto e as suas soluções.

INTRODUÇÃO: Saudação à igreja de Corinto e ações de graças a seu respeito (1:1-9)

  1. REPRIMENDAS ANTE O RELATÓRIO DE ESCRAVOS DA CASA DE CLOÉ (1:10 – 6:20)
  2. As divisões e a necessidade de sua cura, mediante o reconhecimento da débil humanidade dos líderes cristãos e seus seguidores, em confronto com o poder de Deus no evangelho (1:10 – 4:21)
  3. O caso do homem que convivia com sua madrasta e a necessidade de disci­plinar o ofensor através do ostracismo (5:1-13)
  4. Pendências judiciais entre os crentes e a necessidade de solucioná-las pela igreja, fora dos tribunais seculares (6:1-8)
  5. A imoralidade em geral e a necessidade dos crentes viverem virtuosa­mente, mediante o Espírito Santo que neles habita (6:9-20)
  6. RESPOSTAS ÀS PERGUNTAS FEITAS EM CARTA ENVIADA A PAULO PELOS CORÍNTIOS (7:1 – 16:9)
  7. Matrimônio, sua excelência essencial, apesar de ser vantajoso a alguns permanecerem solteiros, a restrição ao divórcio e uma exortação à recon­ciliação de cônjuges separados (7:1-40)
  8. Alimentos, sobretudo carne, oferecidos a ídolos, permitidos aos crentes, contanto que não abusem da permissão para prejudicar as consciências dos débeis espirituais ou para participar de banquetes idólatras (8: I – 11: I )
  9. A ordem na adoração pública (11:2 – 14:40)
  10. Uso de véu pelas mulheres que participam do culto nas igrejas, sua e­xigência em sinal de submissão ao homem (11:2-16)
  11. A Ceia do Senhor era desonrada na igreja de Corinto pela desunião e devassidão, e também a necessidade de reverência e de desconti­nuar as festas de amor (11:17-34)
  12. Os dons espirituais (12:1 – 14:40)
  13. Diversidade de funções dentro da unidade da Igreja, como Corpo de Cristo (12:1-31)
  14. A supremacia do amor (13:1-13)
  15. Superioridade da profecia e inferioridade do falar em línguas, com regras tendentes à boa ordem, incluindo a proibição de interrupção dos cultos por mulheres (14:1-40)
  16. A ressurreição, tanto a de Cristo, no passado, quanto a dos crentes, no futuro, e sua importância crucial para a fé cristã (15:1-58)
  17. A coleta para a igreja de Jerusalém, seu modo de recolhimento e sua en­trega (16:1-9)

CONCLUSÃO: Visita vindoura de Timóteo a Corinto, a negativa, de Apolo, exortações miscelâneas, saudações e bênção finais (16:10-24).

 

Para discussão posterior:

 

– Como será possível obter o equilíbrio certo entre a unidade e a pureza da Igreja, sem fazer que uma coisa cancele a outra?

– Como deveríamos avaliar o moderno movimento ecumênico, que visa à unidade da Igreja?

– Em que se comparam os estritos preceitos paulinos contra a imoralidade e a sua ênfase sobre o amor, em relação à “nova moralidade”?

– Como é possível a disciplina eclesiástica, aplicada a membros rebeldes, quando hoje em dia alguém excluído de uma igreja pode ser admitido por outra? Qual é a “seriedade” necessária para que um pecado leve à exclusão do ofensor?

– Quais questões correntes sobre a conduta cristã se encaixam com razão dentro da área da liberdade privada e da responsabili­dade pública?

– Por que a maioria das igrejas não requerem que as mulheres participem dos cultos públicos usando seus véus?

– O Espírito Santo continua outorgando os dons da profecia e da glossolalia, e, nesse caso, seus recebedores exercem-nos segundo a maneira prescrita por Paulo?

– Do ponto de vista da ciência moderna, como poderia haver continuidade entre o corpo mortal e o corpo ressuscitado?

 

Para investigação posterior:

 

(Comentários sobre I Coríntios)

 

Morris, L. The First Epistle of Paul to the Corinthians. Grand Rapids: Eerdmans, 1958.

Grosheide, F.W. Commentary on the First Epistle to the Corinthians. Grand Ra­pids: Eerdmans, 1953.

Thrall, M. E. The First and Second Letters of Paul to the Corinthians. Cambridge University Press, 1965.

 

(Livros sobre tópicos que figuram em I Coríntios)

 

Bromiley, G.W. The Unity and Disunity of the Church. Grand Rapids: Eerdmans, 1958.

Bainton, R.H. What Christianity Says About Sex, Love and Marriage. Nova Ior­que: Association, 1957. Do ponto de vista de uma pesquisa histórica.

Lewis, C.S. The Four Loves. Nova Iorque: Harcourt, Brace,1960. Para compa­rar com I Coríntios 13

Martin, R.P., Worship in the Early Church. Westwood, Nova Jérsei. Revell, 1964.

Hoekema, A.A. What About Tongue-Speaking? Grand Rapids: Eerdmans, 1966.

Dahl, M.E. The Resurrection of the Body. Londres: SCM, 1962. Uma interpreta­ção de 1 Coríntios 15 que levanta algumas provocativas perguntas.

 

 

II CORÍNTIOS: CONCEITOS DE PAULO SOBRE SEU PRÓPRIO MINISTÉRIO

 

Perguntas Normativas:

 

– Após ter sido escrita a primeira epístola aos Coríntios, que si­tuações entre aquela igreja e Paulo deram azo à escrita da se­gunda epístola aos Coríntios?

– Qual era a atitude sentimental da igreja em Corinto e de Paulo ao tempo em que ele escreveu II Coríntios?

– Qual era a imagem apostólica que Paulo tinha de si mesmo, conforme se pode apreciar em sua apologia em II Coríntios?

 

Tema

         Mais do que qualquer das demais epístolas de Paulo, II Corín­tios permite-nos entrever os sentimentos íntimos do apóstolo so­bre si mesmo, sobre seu ministério apostólico e sobre seu relacionamento com as igrejas que fundava e nutria. Conforme certas considerações, portanto, esta epístola é autobiográfica em seu tom, embora não em seu arcabouço e nem quanto a seu conteúdo total.

 

A visita dolorosa

         Após ter escrito de Éfeso a primeira epístola aos Coríntios, Paulo sentira ser necessário fazer uma “visita dolorosa” a Co­rinto e voltar – dolorosa por causa das relações tensas entre Paulo e os crentes dali, naquele tempo. Lucas não registra essa visita no livro de Atos. Entretanto, ela pode ser deduzida dos trechos de II Coríntios 12:14 e 13:1,2, onde Paulo alude à sua futura visita com a “terceira” que faria. Se não levarmos em conta essa inferida vi­sita dolorosa, então até aquela altura Paulo só visitara Corinto por uma vez. A declaração constante em II Coríntios 2:1: “Isto delibe­rei por mim mesmo: não voltar a encontrar-me convosco em tris­teza”, subentende que houvera no passado uma visita dolorosa, a qual dificilmente pode ser identificada com a primeira vez em que Paulo permaneceu com aqueles crentes, levando-lhes as ju­bilosas boas novas da salvação por intermédio de Jesus Cristo.

 

A carta triste perdida

         Sem importar com que razão Paulo fizera aquela breve e dolo­rosa visita, parece que ele não alcançou êxito em suas tentativas de trazer a igreja de volta à conduta reta. Ao retornar a Éfeso, pois, ele escreveu a agora perdida “carta triste” a Corinto, a qual a princípio ele se lamentava por ter enviado (vide II Coríntios 2:4 e 7:8 – as descrições dificilmente se harmonizam com I Coríntios). Essa é a segunda carta perdida que Paulo escrevera aos corín­tios. A carta dolorosa determinava a disciplina eclesiástica con­tra certo indivíduo desregrado e estrepitoso, que encabeçava a oposição a Paulo na igreja de Corinto (vide II Coríntios 2:5-10). Tito fora o portador dessa carta a Corinto. Entrementes, sabendo que Tito retornaria por meio da Macedônia e de Trôade, e an­sioso por saber, da parte de Tito, qual tinha sido a reação dos crentes de Corinto, Paulo partiu de Éfeso e foi esperar a Tito em Trôade. E como Tito se demorasse muito, Paulo prosseguiu via­gem até a Macedônia, onde finalmente se encontrou com Tito, o qual lhe deu as boas novas que a igreja coríntia, como um todo se arrependera de sua insubmissão contra Paulo, tendo discipli­nado o líder da oposição ao apóstolo (vide II Coríntios 2:12,13 e 7:4-16).

 

Motivos de II Coríntios

         Paulo escreveu a segunda epístola aos Coríntios estando na Macedônia, no decurso de sua terceira viagem missionária, a fim de (1) expressar seu alívio e satisfação ante a reação favorável da maioria da igreja de Corinto, e ao fazê-lo descreve seu ministério em termos pessoais os mais vívidos (capítulos 1 – 7); (2) ressaltar a coleta que recolheria dentre eles para levá-la aos crentes de Jeru­salém (capítulos 8 e 9); e (3) defender sua autoridade apostólica diante da ainda recalcitrante minoria (capítulos 10 – 13).

 

SUMÁRIO DAS RELAÇÕES ENTRE PAULO E A IGREJA DE CORINTO

 

Paulo evangelizou Corinto em sua segunda viagem missio­nária.

Paulo escreveu uma carta perdida a Corinto, na qual ordenava que os cristãos se separassem de crentes profanos que vives­sem na imoralidade.

Paulo escreveu I Coríntios em Éfeso, durante a sua terceira viagem missionária, a fim de abordar diversos problemas da­quela igreja.

Paulo fez uma breve e “dolorosa” visita a Corinto, tendo par­tido de Éfeso e para ali voltado, afim de corrigir problemas em Corinto, mas não conseguiu realizar o seu propósito.

Paulo enviou outra carta perdida, chamada a “carta triste”, na qual ordenava aos coríntios que disciplinassem seu principal oponente na igreja.

Paulo deixou Éfeso e ansiosamente aguardou Tito em Trôade, e então na Macedônia.

Tito finalmente chegou com as boas novas de que a igreja dis­ciplinara ao oponente de Paulo, e que a maioria dos crentes coríntios se submetera à autoridade de Paulo.

Paulo escreveu II Coríntios estando na Macedônia (ainda du­rante a terceira viagem missionária), em resposta ao relatório favorável de Tito.

 

Integridade de II Coríntios

         Tem-se argumentado que o trecho de II Coríntios 10 – 13 é, pelo menos, uma porção da carta triste que se “perdeu”, por­quanto Paulo muda de tom, pois fala jubilosamente nos capítulos um a nove, mas passa para a defesa própria nos capítulos dez a treze. Porém, essa distinção não se verifica com toda a coerên­cia, pois também há auto-defesa nos capítulos um a nove (vide 1:17 ss.: 2:6,17; 4:2-5 e 5:12,13). A diferença de ênfase se deve ao fato que Paulo dirigia a palavra primariamente à maioria peni­tente, nos capítulos primeiro e nono, e à minoria ainda recalci­trante, nos capítulos dez a treze. (Outros têm sugerido que novas notícias de uma reavivada oposição forçaram Paulo a mudar seu tom, do décimo capítulo em diante.) Certo número de considera­ções milita contra a divisão da segunda epístola aos Coríntios em duas epístolas originalmente separadas: (1) deveríamos esperar que os capítulos 10 – 13 teriam precedido os capítulos 1 – 9, se ti­vessem sido escritos antes, como a carta triste; (2) embora firme em seu tom, os capítulos 10 – 13 dificilmente exprimem tristeza; (3) os capítulos dez a treze nada contêm acerca de um insultuoso comportamento do cabeça da oposição a Paulo, e, no entanto, esse foi o tema da carta triste, conforme II Coríntios 2:1 ss.: (4) o trecho de II Coríntios 12:18 menciona uma visita anterior feita por Tito, a qual deve ter sido feita para entregar a carta triste, mas, de acordo com a teoria da divisão da epístola em duas, o trecho em apreço faz parte da epístola triste!

 

Repasse das relações passadas e presentes

         Paulo dá início à epístola com saudação e ações de graças pelo conforto dado por Deus em meio a perseguições e adversidades. Então começa a descrever seu ministério como caracterizado pela sinceridade e pela santidade. Defende-se contra a acusação de vacilação – por não ter cumprido a promessa ameaçadora de uma outra visita – afirmando que suas palavras eram justas e tão positivas quantas são as promessas divinas em Cristo e expli­cando que ele adiara um pouco a sua visita a fim de dar-lhes tempo de se arrependerem, pois isso lhe permitiria chegar em meio a circunstâncias mais felizes do que se tivesse partido ime­diatamente para Corinto. Satisfeito porque a igreja coríntia dis­ciplinara seu principal oponente, Paulo aconselha que fosse res­taurado à comunhão o tal indivíduo. Isso ficaria demonstrado es­pecialmente através da permissão para ele participar novamente da Ceia do Senhor. A seção se encerra com uma metáfora de Cristo como um general vitorioso à testa de um cortejo triunfal, a entrar em Roma, além de uma outra metáfora na qual os crentes coríntios, convertidos de Paulo como eram, figuram como uma carta de recomendação em favor de Paulo, escrita pelo próprio Cristo, Ler II Coríntios 1:1 – 3:3.

 

O ministério do Evangelho

         Ato contínuo, Paulo descreve a superioridade do evangelho em relação à lei de Moisés. O fato que a glória de Deus, estam­pada no rosto de Moisés, já se ia dissipando quando ele descia do monte Sinai, representa a natureza temporária do pacto mosaico. Agora estamos desvinculados da lei e de sua condenação. Mas, tal e qual Moisés refletia a glória passageira da antiga aliança, nós deveríamos refletir a glória maior, crescente e permanente do novo pacto. Quão admirável é que Deus tenha confiado a prega­ção de Seu glorioso evangelho do novo pacto a pobres e fracos seres humanos! Todavia, a despeito de sentirmos nossa própria debilidade, conforme escreve Paulo, não desesperamos. Pois a es­perança da ressurreição faz-nos olvidar nossos atuais perigos físi­cos quando pregamos o evangelho. Sentindo profundamente a imensidade do privilégio e da responsabilidade que lhe cabia, como ministro da nova aliança, Paulo reivindica para si uma ati­tude consciente e íntegra, sem importar quão adversas ou quão favoráveis forem as condições de seu ministério. Ler II Coríntios 3:4 – 7:16.

 

Separação

         Na digressão existente em II Coríntios 6:11 – 7:1, Paulo retrata a vida separada do pecado como uma experiência que amplia nossos horizontes, ao invés de estreitá-los. Alguns estudiosos têm pensado que essa digressão faz parte da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, que se perdeu, a qual é aludida em I Corín­tios 5:9: “Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros.” Mas, por que um excerto daquela carta teria sido inse­rido aqui é difícil de entender; e a evidência fornecida pelos manuscritos em nada indica que o trecho de II Coríntios 6:11 – 7:1 não pertencia originalmente à segunda epístola de Paulo àqueles crentes.

 

A oferta

         Pleiteando em favor de uma oferta generosa em prol da igreja de Jerusalém, Paulo alude à liberalidade dos crentes macedô­nios como digna de imitação, e mais digno ainda de emulação é o auto-sacrifício de Cristo. Noutra oportunidade talvez vós é que estejais precisando de ajuda, argumenta Paulo. Outrossim, vós vos apegastes intensamente a essa idéia de uma oferta, quando eu a mencionei diante de vós pela primeira vez, há algum tempo atrás. Não queirais provar ser infundada a minha ufania diante dos macedônios, por causa de vosso zelo. Ler II Coríntios 8 e 9.

 

Apologia

         Os oponentes de Paulo tinham-no acusado de ser ousado quando ausente, mas de ser covarde quando presente. Por esse motivo, relembra ele a seus leitores que a mansidão é virtude de Cristo; mas, à semelhança de Cristo, ele poderia ser ousado na presença deles, se assim o quisesse, e assim realmente faria, se necessário, embora no Senhor, e não por iniciativa própria. Ler II Coríntios 10 -13. Nesses capítulos, o apóstolo apresenta as cre­denciais de seu ministério apostólico a saber: sua sinceridade como pregador (nem mesmo aceitava salário da parte dos cren­tes de Corinto), seus variegados sofrimentos, as revelações espe­ciais que recebera de Deus e os prodígios miraculosos que ope­rava. Porém, Paulo procurou resguardar-se ciosamente do orgu­lho jactancioso, reiterando com insistência que os recalcitrantes de Corinto é que o forçavam a escrever daquela maneira, e tam­bém mencionando suas debilidades, mormente seu “espinho na carne ” (12:7-10). Entre as opiniões propostas acerca da identifi­cação desse espinho, podemos mencionar a epilepsia, alguma doença dos olhos, a malária, a lepra, a enxaqueca, momentos de depressão, a gagueira, ou os falsos mestres. A epístola se fecha com um apelo para que sua visita vindoura não se tenha de tor­nar em ocasião para repreender novamente àqueles crentes. (Alguns identificam os oponentes de Paulo em Corinto, pelo menos em parte, com os gnósticos, por ter ele enfatizado o autêntico conhecimento espiritual na sua réplica; mas o fato de ter apelado para seu passado judaico (11:21,22) parece mostrar que esses oponentes eram os judaizantes.)

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE II CORÍNTIOS

 

Tema: conceito paulino sobre seu próprio ministério, conforme se vê em seu relacionamento para com a igreja de Corinto

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

  1. RELAÇÕES ENTRE PAULO E A IGREJA DE CORINTO COM ALUSÃO ESPECIAL A MAIORIA A ELE AGORA FAVORÁVEL (1:3 – 7:16)
  2. Ação de graças pelo consolo e proteção divinos (1:3-11)
  3. Paulo explica por que não visitara ainda Corinto, não por vacilação teme­rosa, mas por não querer fazer outra visita dolorosa (1:12 – 2:4)
  4. Instrução para restauração do opositor de Paulo, agora penitente, por haver sido disciplinado, e o perdão dado por Paulo (2:5-11)
  5. Descrição interna do ministério de Paulo (2:12 – 6:10)
  6. Ansiedade por não ter vindo Tito a Trôade (2:12,13)
  7. Ação de graças pela confiança triunfante em Cristo (2:14-171
  8. A carta viva de recomendação sobre o ministério de Paulo: os próprios convertidos de Corinto (3:1-3)
  9. Superioridade do novo pacto em relação ao antigo (3:4-18)
  10. A determinação de Paulo por cumprir o seu ministério (4:1 – 6:10)
  11. Apelo em prol do afeto mútuo e para que os crentes de Corinto se separas­sem dos incrédulos (6:11 – 7:4)
  12. Satisfação ante o relatório de Tito, trazido à Macedônia, de que a maioria da igreja de Corinto se arrependera de sua oposição a Paulo (7:5-16)
  13. EXORTAÇÃO SOBRE A CONTRIBUIÇÃO PARA A COLETA PARA A IGREJA DE JERUSALÉM (8:1 – 9:15)
  14. O exemplo dos crentes da Macedônia (8:1-7)
  15. O exemplo de Jesus (8:8,9)
  16. O ideal de igualdade (8:10-15)
  17. Chegada de Tito e outros, para receberem a coleta (8:16 – 9:5)
  18. A recompensa divina pela liberalidade (9:6-15)

III. RELAÇÕES ENTRE PAULO E A IGREJA CORÍNTIA, MORMENTE A MINORIA AINDA RECALCITRANTE (10:1 – 13:10)

  1. Defesa de Paulo contra as acusações de fraqueza e covardia (10:1-11)
  2. A justa reivindicação de Paulo sobre os coríntios como seus convertidos (10:12-18)
  3. Preocupação de Paulo quanto ao perigo dos falsos mestres em Corinto (11:1-6)
  4. Paulo recusava-se a aceitar apoio financeiro dos coríntios (11:7-15)
  5. Vantagens paulinas por seus antepassados judeus e por seus serviços cris­tãos, incluindo seus sofrimentos por motivo de perseguições (11:16-33)
  6. As visões de Paulo e o espinho na carne (12:1-10)
  7. Os milagres apostólicos de Paulo (12:11-13)
  8. A futura visita de Paulo a Corinto, com a ameaça de mostrar-se severo e um apelo em prol do arrependimento (12:14 – 13:10)

CONCLUSÃO: exortações e saudações de despedida, e uma bênção (13:11-14).

 

Para discussão posterior

 

– Por quais razões históricas e teológicas duas das cartas de Paulo à igreja de Corinto podem ter-se perdido? É possível que, se tivessem sido preservadas, teriam sido aceitas no “cânon” pela Igreja? Como deveriam elas ser acolhidas agora, no caso de vi­rem a ser descobertas?

– Em que as observações paulinas sobre a mordomia cristã do dinheiro (vide II Coríntios 8 e 9) podem ser comparadas com a lei do dízimo do Antigo Testamento?

– Por que Paulo “não virou a outra face”, ao invés de defender-se de ataques pessoais?

– Reconstitua o perfil da personalidade de Paulo com base na mais reveladora de suas epístolas, quanto ao seu próprio caráter.

 

Para investigação posterior:

 

Tasker, R. V.G. The Second Epistle of Paul to the Corinthians. Londres: Tyndale, 1958.

Hughes, P.E. Paul’s Second Epistle to the Corinthians. Grand Rapids: Eerdmans, 1962.

Thrall, M. E. The First and Second Letters of Paul to the Corinthians. Cambridge University, Press, 1965.

 

 

ROMANOS: O DOM DA RETIDÃO DIVINA POR MEIO DA FÉ EM CRISTO

 

Perguntas Normativas:

 

– Qual foi a origem da igreja em Roma, e de que pessoas se compunha ela?

– O que levou Paulo a escrever à igreja de Roma, embora ja­mais a tivesse visitado?

– Qual é a progressão, passo a passo, dessa explanação mais sistemática de todas que Paulo escreveu do evangelho?

 

Tema

         O grande tema da epístola aos Romanos é a justificação pela graça divina, mediante a fé em Jesus Cristo. Jesus deixou implí­cita essa doutrina nas parábolas do filho pródigo, do fariseu e do publicano, dos trabalhadores da vinha que receberam igual salário, e da grande ceia. Subentendido idêntico jaz por detrás de Sua as­sertiva: “… não vim chamar justos, e, sim, pecadores” (Marcos 2:17), como também por detrás do modo como tratou com Za­queu (vide Lucas 19:1-10). Por conseguinte, Paulo não inovou a doutrina do perdão gratuito, apesar de havê-la desenvolvido segundo seu estilo todo pessoal. Essa doutrina recebe sua aborda­gem mais sistemática exatamente nesta epístola de Paulo à igreja de Roma.

 

Fundação da Igreja de roma

         Clemente de Roma, pai da Igreja primitiva, sugeriu que Paulo e Pedro foram martirizados em Roma. Pela época de Tertuliano (primórdios do século III D.C.). a Igreja de modo geral, já tinha aceitado essa tradição. Entretanto, a igreja local de Roma mui provavelmente não foi fundada por apóstolo nenhum, certa­mente não por Paulo e quase tão certamente nem por Pedro. Conforme já pudemos observar, o historiador romano Suetônio escreveu que o imperador Cláudio baniu de Roma aos judeus, em 49 ou 50 D.C., por motivo das agitações havidas por instiga­ção de alguém chamado “Chrestus”, provavelmente uma errô­nea soletração de “Christus” (forma latina de Cristo). Se assim realmente sucedeu, então por esse tempo já chegara a Roma o cristianismo. No entanto, Pedro continuava em Jerusalém por ocasião do concílio de Jerusalém, que se desenrolou em cerca de 49 D.C. Outrossim, Paulo não faz alusão alguma a Pedro, e nem envia saudações ao apóstolo Pedro, em sua epístola aos Roma­nos. Quiçá alguns dos judeus e prosélitos residentes em Roma, que tinham estado em Jerusalém no dia de Pentecoste e ali se tornaram cristãos, levaram de volta a Roma o evangelho, no al­vorecer mesmo da história cristã (vide Atos 2:10).

 

Judeus ou gentioss?

         Alguns eruditos sustentam que a igreja de Roma era composta, principalmente de cristãos judeus. Argumentam esses que a ên­fase dada à nação judaica, nos capítulos nono a décimo primeiro, que o apelo ao exemplo dado por Abraão, que as citações extraí­das do Antigo Testamento e que as passagens nas quais Paulo pa­rece argumentar contra certas objeções tipicamente judaicas (vide Romanos 2:17 – 3:8; 21-31: 6:1 – 7:6 e 14:1 – 15:3) subenten­dem que se tratava de uma congregação judaica. No entanto, de conformidade com os capítulos nove a onze, Deus pôs de lado, temporariamente, à nação judaica, por causa dos gentios, e por essa razão tais capítulos podem, bem pelo contrário, indicar que os leitores originais desta epístola eram, principalmente, gentios. O uso que Paulo faz de Abraão e do Antigo Testamento, como ilustrações, pode refletir antes a sua própria formação intelec­tual, e não a de seus leitores. E suas réplicas a objeções tipica­mente judaicas podem ter-se originado de seus freqüentes deba­tes com judeus incrédulos ou com judaizantes, não sendo obje­ções feitas por seus leitores judeus.

Certo número de passagens demonstra que a igreja de Roma se compunha principalmente de elementos gentios. Escreve Paulo, em 1:5,6: “… entre todos os gentios, de cujo número sois também vós…” Em 1:13, registra o apóstolo: “…para conseguir igualmente entre vós algum fruto, como também entre os outros gentios”. E as palavras “Dirijo-me a vós outros, que sois gen­tios!” (11: 13) caracterizam a igreja romana de modo geral, e não como uma minoria no seio da congregação; pois em 11:28-31 é dito que os leitores de Paulo haviam sido alvos da misericórdia divina, devido à incredulidade dos judeus. Em 15:15,16, Paulo alude ao que escrevera aos romanos como algo vinculado a seu ministério “entre os gentios”.

 

Tempo e lugar de escrita

         Paulo acabara de completar o recolhimento da coleta para os crentes de Jerusalém, durante sua terceira viagem missionária (vide 15:25,26). Paulo escreveu estando em Corinto, porquanto Gaio era de Corinto e, na ocasião, era o hospedeiro do apóstolo (vide 16:23 e I Coríntios 1:14). A menção de Erasto, o tesoureiro da cidade (vide 16:23), confirma que Corinto foi o lugar de onde Paulo escreveu esta epístola. Há uma inscrição, descoberta em Corinto e datada do primeiro século da era cristã, que diz: “Erasto, comissário. das obras públicas, lançou este pavimento às suas próprias custas”. Estritamente falando, “comissário das obras públicas” não é a mesma coisa que “tesoureiro da cidade”, mas é natural pensarmos que Erasto subiu do posto de comis­sário para o de tesoureiro, ou que foi rebaixado de tesoureiro a comissário, por causa de sua fé cristã. Também permanece como uma possibilidade a idéia que esses dois títulos sejam sinônimos virtuais. Outra confirmação de que Paulo escreveu em Corinto a epístola aos Romanos nos vem das suas recomendações acerca de Febe, a qual pertencia à igreja de Cencréia, perto de Corinto. Essa recomendação provavelmente indica que Febe foi a porta­dora da epístola, tendo-a levado de Corinto a Roma (vide 16:1,2).

 

Propósito

         Paulo escreveu a epístola aos Romanos como preparação para a sua primeira visita àquela cidade e à comunidade cristã dali. Desde há muito ele vinha tencionando visitar Roma, mas sempre havia algum empecilho (vide 1:13 e 15:22 – 24a). O propósito dessa visita era o de fortalecer na fé aos cristãos romanos (vide 1:11, 15), além de obter a ajuda financeira deles, para sua proje­tada missão à Espanha, depois de ter visitado Roma (vide 15:24,28). A epístola aos Romanos, por conseguinte, é um tra­tado a respeito do evangelho e cujo desígnio foi o de preparar os leitores de Paulo para seu futuro ministério oral entre eles.

 

Saudações pessoais

         Em face do fato que Paulo conhecia pessoalmente apenas cer­tos dentre os cristãos de Roma – aqueles que para ali se tinham mudado depois que o apóstolo os conhecera – essa epístola é mais formal que qualquer outra das epístolas paulinas. Entre­tanto, as saudações pessoais que há no décimo sexto capítulo e que Paulo enviou a determinadas pessoas, embora ele nunca antes houvesse visitado a cidade, têm levado alguns eruditos a pensar que esse décimo sexto capítulo da epístola constitua uma epístola ou parte de uma epístola que originalmente fora enviada a Éfeso. Tal capítulo, entretanto, dificilmente perfaz uma epís­tola inteira (pois consiste quase inteiramente de saudações), a­lém do que não há qualquer evidência, entre os manuscritos, de que jamais tenha tal capítulo circulado independentemente, como epístola inteira ou como parte de alguma epístola. A única outra longa série de saudações nas epístolas paulinas ocorre em Colossenses, enviada para outra cidade que Paulo nunca antes visitara. O mais provável é que Paulo quisesse enfatizar assim seu conhecimento anterior, de outras cidades, com cristãos que se tinham mudado e se tornado membros de outras igrejas, as quais nunca haviam sido visitadas por Paulo, a fim de estabelecer relações amistosas com aquelas igrejas, além de querer omitir sau­dações individuais nas epístolas dirigidas a igrejas que ele visita­ra, a fim de evitar a idéia de favoritismo. Há motivo insuficiente, portanto, para alguém pensar que o capítulo décimo sexto tivesse sido parte, originalmente, de alguma outra epístola.

 

Confusão textual

         Os antigos manuscritos variam imensamente, todavia, quanto à posição ocupada pela doxologia de 16:25-27 (em nossa Bíblia portuguesa), bem como quanto à posição da bênção constante em 16:20. Tal confusão pode ter sido devida ao herege Márciom, o qual talvez tivesse omitido aos capítulos quinze e dezesseis, de­vido a referências ao Antigo Testamento e a questão judaicas, que pareciam desagradáveis para sua maneira de pensar anti­judaica. Essa confusão também pode ter-se originado numa forma truncada da epístola, isto é, sem o décimo sexto capítulo, acerca do que há evidências textuais antigas. É provável que al­gumas edições tenham omitido o citado capítulo com suas sauda­ções pessoais, a fim de adaptar a epístola à circulação geral por toda a Igreja.

 

DESENVOLVIMENTO LÓGICO DO PENSAMENTO NA EPÍSTOLA AOS ROMANOS

 

Introdução e tema

         Na abertura da epístola, Paulo saúda a seus leitores e men­ciona a esperança que ele tinha de visitá-los, a fim de que pu­desse pregar o evangelho em Roma, como já o fizera noutros lu­gares (vide 1:1-15). Em seguida, Paulo declara seu tema, em 1:16,17:as boas novas da libertação do pecado, através da dádiva divina da retidão, a todos quantos crêem em Jesus Cristo.

 

Necessidade: pecaminosidade

         A primeira seção maior delineia a necessidade da justificação, em face da pecaminosidade dos homens (vide 1:18 – 3:20). A me­tade final do primeiro capítulo descreve a iniqüidade do mundo gentílico, o segundo capítulo fala sobre a atitude de justiça própria do mundo judaico, e a primeira metade do terceiro capítulo sumaria a culpa da humanidade em geral. Deve-se destacar que, para Paulo, os pecados (plural) são apenas sintomas do problema real, que é o pecado (singular), na forma de um princípio domi­nante na experiência humana.

 

O remédio: justificação

         A justificação é o remédio de Deus, de acordo com a segunda se­ção maior da epístola (vide 3:21 – 5:21). A última metade do capí­tulo terceiro apresenta a morte expiatória de Cristo como base de nossa justificação, bem como a fé como o meio pelo qual nos apropriarmos dos benefícios advindos de Sua morte. O quarto capítulo retrata Abraão como o grande exemplo de fé, em contraposição à doutrina rabínica do tesouro de merecimentos de Abraão, que seria tão superabundante que os judeus podiam valer-se do excesso. O quinto capítulo alista as multiformes bên­çãos resultantes da justificação – paz, alegria, esperança, o dom do Espírito Santo, e outras – além de contrastar a posição dos in­crédulos em Adão, onde há pecado e morte, com a posição dos crentes em Cristo, onde há justiça e vida eterna.

 

O resultado: santificação

         Na terceira porção principal, a discussão progride ao tema da santificação, ou santo viver cristão (vide os capítulos 6 – 8). Ha­veríamos de continuar pecando para que Deus pudesse exercer mais ainda a Sua graça, e assim pudesse obter maior louvor para Si mesmo? Não! O batismo ilustra a nossa morte para o pecado e o nosso reviver para a retidão (vide o capítulo 6). Contudo, a santificação nada tem a ver com a guarda da lei do Antigo Testa­mento, a qual era capaz tão-somente de conferir ao indivíduo um senso de derrota, sem transmitir qualquer capacidade de vencer ao demoníaco controle do pecado sobre a nossa conduta (vide o capitulo 7). Pelo contrário, o Espírito de Cristo é que nos outorga o poder para sermos vitoriosos, pelo que também o oitavo capítulo atinge o ponto culminante com uma grande explosão de lou­vor: “Quem nos separará do amor de Cristo?” Paulo alista as possibilidades e nega uma por uma.

 

O problema: incredulidade de Israel

         A discussão volta-se para o problema de Israel, na quarta se­ção maior da epístola aos Romanos (vide os capítulos 9 – 1 ] ). Por causa de seu próprio passado e formação judaicos, Paulo se mos­trava agudamente preocupado diante da incredulidade da grande maioria de seus compatriotas judeus. No que tange a isso, Paulo enfrentava um problema de lógica. Ele sempre afirmava que o evangelho não é uma inovação, mas antes, deriva-se do Antigo Testamento e constitui o cumprimento de tudo quanto Abraão, Davi e os profetas esposavam. Mas, se assim são as coi­sas realmente, por qual razão os judeus, considerados como um povo, não reconheciam a veracidade dessas reivindicações? Por­ventura a rejeição geral do evangelho, da parte dos judeus, impli­cava em alguma falha no argumento do apóstolo? Em resposta, o nono capitulo frisa a doutrina da eleição, isto é, o direito que Deus tem de selecionar a quem quer que deseje. Isso é perfeita­mente legítimo, argumenta Paulo: Deus fazer com o povo de Is­rael e com os gentios o que Ele bem quiser. E é prerrogativa de Deus escolher agora os gentios, tal como Lhe coubera o direito de escolher previamente aos judeus. Todavia, a atual rejeição de Israel por parte de Deus não se deve a algum capricho, pois Is­rael assim o merece, devido à sua justiça própria e sua recusa em crer no que tanto ouvira quanto entendera do evangelho (vide o capítulo 10). Outrossim, Israel foi posto para um lado de modo apenas parcial e temporário. Um judeu pode obter a salvação tão facilmente quanto um gentio, bastando-lhe confiar em Cristo; e Deus haverá de restaurar a nação de Israel inteira ao Seu favor, no futuro. Entrementes, os gentios usufruem de igualdade diante de Deus, em relação aos judeus (vide o capítulo 11).

 

A obrigação: preceito cristãos

         A quinta seção principal contém exortações práticas relacio­nadas à vida diária dos crentes, incluindo mandamentos atinen­tes à obediência às autoridades civis e a permissão de liberdade no que concerne às questões cerimoniais (vide capítulos 12 – 14).

 

Conclusão

         Paulo conclui essa epístola traçando os seus planos para o fu­turo e enviando diversas saudações (vide os capítulos 15 e 16).

 

AS PRINCIPAIS DOUTRINAS DA EPÍSTOLA AOS ROMANOS

 

A culpa humana

Ler Romanos 1:1 – 3:20. Paulo observa cuidadosamente, por meio da citação que faz de Habacuque 2:4, que o Antigo Testa­mento respalda a verdade fundamental de que a justiça nos vem por intermédio da fé (vide 1:17). E também afirma que a própria natureza revela o poder e a majestade de Deus, em razão do que os pagãos são indesculpáveis (vide 1:19,20). O restante do primeiro capítulo descreve a natureza retrógrada do pecado. A de­claração: “… Deus os entregou…” vibra como sinos de morte por três vezes, por toda esta passagem (vide versículos 24,26 e 28).

No capítulo dois, Paulo descreve o judeu justo aos próprios olhos, que se deleitava em pôr em destaque os pecados do mundo pagão. Os judeus têm tanta culpa quanto aqueles, embora à sua maneira, argumenta Paulo. Outrossim, para que alguém se­ja judeu genuíno, não basta que seja descendente físico de Abraão ou que tenha recebido o rito da circuncisão, porquanto para tanto é mister que goze da apropriada relação espiritual para com Deus. De fato, os gentios que seguem a lei de Deus, escrita em suas consciências, demonstram possuir aquela correta rela­ção com Deus que falta a muitos judeus. O vocábulo “judeu” si­gnifica “louvor”. O verdadeiro judeu, portanto, é aquele cuja vida é digna de louvor, segundo os critérios divinos (vide 2:17).

Em Romanos 3:1, Paulo antecipa certa objeção judaica: Se os judeus não são melhores que os gentios, por que Deus escolheu a nação judaica? Não deixa claro o Antigo Testamento que Deus favoreceu especialmente aos judeus? E no entanto, ó Paulo, afir­mas que Deus trata judeus e gentios da mesma maneira! Paulo admite abertamente que os judeus têm a decisiva vantagem de estar mais próximos da divina revelação, através das Escrituras. Porém, um privilégio superior não implica em menor pecamino­sidade. Com uma fieira de citações tiradas do Antigo Testa­mento, Paulo encerra essa seção acusando a raça humana inteira de estar culpada diante de Deus.

 

Propiciação

         O parágrafo seguinte forma o cerne mesmo do livro. As pala­vras “pela lei e pelos profetas” apontam para o Antigo Testa­mento. Paulo frisa que embora a justiça nos venha mediante a fé em Jesus Cristo, e não através da observância da lei, contudo, a lei e o restante do Antigo Testamento confirmam o fato que a jus­tiça procede da fé. A “glória de Deus”, da qual carecem todos os seres humanos (vide 3:23), é o esplendor do caráter de Deus. O termo “propiciação” (vide 3:25) alude à morte expiatória de Je­sus, como aquilo que apaziguou a santa ira de Deus contra a iniqüidade humana. “Expiação” é palavra sinônima que, entre­tanto, não encarece o elemento da justa indignação de Deus. Mas, quer traduzido por “propiciação” quer por “expiação”, o vo­cábulo também pode referir-se ao propiciatório, a tampa de ouro posta sobre a arca da aliança e sobre a qual o sumo sacerdote dos judeus aspergia o sangue do holocausto, uma vez por ano, a fim de fazer expiação pelos pecados de Israel. Paulo indica que Deus perdoava aos pecados, durante o período do Antigo Testamento, somente em antecipação à morte de Cristo. Quando ele assevera que Deus é o “justo” e o “justificador daquele que tem fé em Je­sus”, quis dizer que a santidade de Deus ficou satisfeita porque Jesus pagou a penalidade pela culpa humana, e também que o amor de Deus foi satisfeito, porquanto a morte de Cristo provê o modo pelo qual o pecador pode agora exigir que a penalidade seja imposta àqueles que detêm a justiça, como igualmente é su­ficientemente elástica para permitir que o “justo” que é Deus atue em benefício dos injustos (nós mesmos), no exercício da mi­sericórdia. Ler Romanos 3.21-31

 

         Uma vez mais Paulo antecipa determinada objeção judaica: se alguém obtém a justiça meramente pela fé em Cristo, não há van­tagem alguma em ser alguém judeu ou em cumprir a lei como ju­deu. Paulo concorda essencialmente com essa conclusão, em­bora tenha argumentado que o próprio Antigo Testamento in­dica que a justiça vem pela fé, segundo se vê nos exemplos de Abraão e Davi. Ler Romanos 4 e 5.

 

Bênçãos

         Nos primeiros versículos do quinto capítulo, Paulo apresenta uma lista das bênçãos que acompanham a justificação: a paz com Deus por intermédio de Jesus Cristo; a introdução na esfera da graça divina; a alegria na esperança da glória de Deus (“espe­rança” significa expectação confiante de que Jesus retornará, e “a glória de Deus”, neste caso, significa o divino esplendor que será experimentado pelos crentes, quando da segunda vinda de Cristo); a alegria diante das perseguições da vida presente; a per­severança; o caráter comprovado; a esperança (reiteração da idéia); e o amor de Deus, derramado em nossos corações pelo dom do Espírito Santo. Os termos “reconciliar” e “reconcilia­ção”, nos versículos 10 e 11, referem-se à meia-volta dada pelo pecador, que era contrário a Deus, por sua ira, mas que agora se volve amorosamente para Deus.

 

Pecado original. Adão versus Cristo

         Nos versículos 12 – 14, Paulo argumenta que o reinado da morte, antes mesmo de Deus haver dado a lei por meio de Moi­sés, provava que a raça humana inteira está implicada no pecado original de Adão; pois antes da época de Moisés não havia qual­quer lei escrita para ser quebrada. Segue-se o contraste entre o “um” e os “muitos”: um homem (Adão) pecou no Éden – os mui­tos (expressão semítica que indica “todos”) pecaram e morreram em Adão; por igual modo, um homem (Jesus Cristo) realizou um ato de justiça sobre a cruz – os muitos (todos quantos O recebem) são reputados justos e vivem eternamente.

 

União com Cristo

         A objeção primária a esse fácil caminho da salvação, isto é, o caminho da justificação exclusivamente pela fé, diz que, logica­mente, tal raciocínio implica em uma conclusão patentemente falsa e ridícula: quanto mais pecamos, mais Deus exerce Sua graça e maior glória Ele adquire para Si mesmo – pelo que tam­bém deveríamos pecar o máximo possível, visando à glória de Deus! Paulo repudia horrorizado tal raciocínio, estribado na doutrina da união do crente com Cristo, o que se vê dramatizado no batismo cristão. No batismo, o crente confessa a sua morte para o pecado através da sua identificação com Jesus Cristo, em Sua morte, além de confessar que reviveu para a justiça, me­diante a sua identificação com Cristo e a Sua ressurreição. Até onde Deus está envolvido, por conseguinte, o crente morreu quando Cristo morreu, e ressuscitou quando Cristo foi soerguido dentre os mortos. Esse fato coloca o crente debaixo da obrigação de viver para a retidão. Assim sendo, compete-lhe conformar sua auto-imagem de conformidade com a perspectiva divina. Ler Romanos 6 – 8.

 

A liberdade cristã

         Na porção final do sexto capítulo, Paulo esclarece que o estar livre da lei não significa estar livre para pecar, porquanto liber­dade e servidão são termos relativos. Um incrédulo está livre das restrições próprias da vida de um crente, mas está escravizado ao controle exercido pelo pecado. Por outra parte, o crente está li­vre do controle do pecado, mas serve às restrições próprias da vida santa. Na realidade, o cativeiro à santidade é a mais autêntica forma de liberdade, a saber, a liberdade de não pecar, a li­berdade de viver retamente.

No sétimo capítulo, o apóstolo ilustra o seu argumento com base na lei do matrimônio. Um cônjuge qualquer está livre para casar-se com outra pessoa, uma vez que seu primeiro cônjuge seja colhido pela morte, porquanto a morte cancela o vínculo matrimonial. Similarmente, a morte de Cristo anula o relaciona­mento entre o crente e a lei mosaica, liberando-o para pertencer a Cristo e para produzir fruto para Deus. Nesse caso, por que foi baixada a lei? Foi dada para impulsionar os homens a depender de Cristo quanto à retidão de que precisam, e isso por terem sido suas conciências despertadas para a realidade do pecado e de sua incapacidade moral. Paulo não nega que Deus tencionava que a lei mosaica fosse um caminho de vida, para os crentes do Antigo Testamento. Mas, no que concerne ao perdão dos pecados, ja­mais houve o propósito de fazer da lei um sistema de mérito hu­mano, mas tão-somente para que servisse de meio que indu­zisse os homens a se entregarem à graça divina misericordiosa.

 

Da frustração ao triunfo

         A porção final do sétimo capítulo é uma descrição clássica que descreve as frustações de um indivíduo que quer praticar o bem, mas não pode, em face do demoníaco poder do pecado, agra­vado pela lei. No caso de crentes, entretanto, tal frustração se transmuta em triunfo, porquanto eles possuem o Espírito de Cristo (vide o capítulo 8). Tal como o faz na epístola aos Gálatas, Paulo contrasta a carne com o Espírito. O Espírito de Cristo dá forças aos crentes, para que conquistem os impulsos pecamino­sos, assegurando-lhes a salvação, glorificando-os futuramente e ajudando-os a orar. O capítulo oitavo atinge o ponto culminante da epístola, em meio a expressões de louvores e confiança. O único que tem o direito de acusar-nos – por ser Ele santo – é exa­tamente aquele que nos justifica. Deus não seria justo se nos condenasse, agora que estamos em Cristo!

 

A eleição e a rejeição de Israel

         Ler Romanos 9 – 11. Ao díscutir sobre o problema de Israel, Paulo sustenta que Deus tem o direito de escolher ou rejeitar, se­gundo Ele quiser fazer. Os pecadores não têm direito a quaisquer méritos que Deus se veja forçado a reconhecer. Todavia, Deus não exerce arbitrariamente Suas prerrogativas. O Senhor rejei­tou a Israel por causa da atitude de justiça própria dos judeus, e porque não buscavam a justiça divina. O convite para a salvação, pois, está franqueado a todos, judeus e gentios igualmente. Po­rém, a presente rejeição divina a Israel não se reveste de aspecto tão terrível como poderia parecer à primeira vista. Há diversos fatores que mitigam tal severidade: (1) um remanescente judaico continuaria crente; (2) a rejeição divina a Israel, como nação, proveria aos povos gentílicos uma melhor oportunidade do que a que tinham antes; (3) o ciúme sentido pelos judeus, devido a sal­vação generalizada dos gentios, haveria de compelir os judeus ao arrependimento; e (4) a nação de Israel haveria ainda de ser salva como um todo, por ocasião do retorno de Cristo, a saber, os ju­deus que continuarem vivos, quando de Sua volta, aceitá-Lo-ão como o Messias, e dessa maneira receberão a salvação.

 

A dedicação cristã

         Exortações práticas ocupam a próxima seção principal da epís­tola, pois a teologia paulina sempre afeta a vida diária, e, a fim de ser mantido um elevado nível de conduta cristã nas igrejas o apóstolo nunca permitiu que os seus leitores atinassem sozinhos com o corolário prático de seus ensinamentos doutrinários. Após ter feito um apelo aos crentes, para que se oferecessem como “sacrifício vivo” (em oposição a animais mortos para o sacrifício) a Deus, Paulo exorta seus leitores a não imitarem a conduta ex­terna dos incrédulos, mas a viverem de modo agradável a Deus, em resultado da renovação de sua atitude mental (vide 12:1,2).

A consagração do indivíduo a Deus abre caminho para diver­sos ministérios, como a prédica, o doutrinamento, o serviço, a li­beralidade e a liderança – tudo em harmonia com as habilida­des particulares que Deus houver dado a cristãos individuais e tudo realizado como convém, isto é, modesta e harmonicamente (vide 12:3-8). A harmonia no seio de uma igreja local, entretanto, depende do amor cristão mútuo, o que inclui a sinceridade, o repú­dio ao mal, a retenção de corretos padrões (a bondade), o afeto, o respeito, a industriosidade, a devoção a Deus, a alegria na esperança, a paciência, as orações, a generosidade e a hospitali­dade (vide 12:9-13).

Por semelhante modo, os crentes devem manter boas relações com os não-crentes, mediante a oração pelo bem estar dos mes­mos, mediante a simpatia com suas alegrias e com suas tristezas e mediante atitudes respeitosas e perdoadoras para com eles. Se os incrédulos derem prosseguimento às suas perseguições, então o próprio Deus haverá de julgá-los, vindicando o Seu povo (vide 12:14-21). Paulo também ordenou a submissão ao estado através da obediência e do pagamento de impostos, embora tais reco­mendações não devam ser confundidas com um cego apoio ao totalitarismo. A pressuposição declarada é que as autoridades go­vernamentais estão mantendo a justiça ao punirem os malfeitores e ao elogiarem os que se conduzem corretamente. Dessa forma, a resistência por razões puramente egoístas ou políticas merece a censura, embora não a resistência devido a motivos morais­-religiosos (vide 13:1-7). Deus requer que amemos não só a nossos irmãos na fé, mas também aos nossos semelhantes humanos de maneira geral. Isso inclui o pagamento das nossas dividas (Paulo não proíbe que incorramos em dívidas, mas determina que elas não se­jam deixadas sem pagamento.) e a ne­cessidade de evitar o adultério, o homicídio, o furto, e a cobiça (vide 13:8-10). A expectativa pelo retorno de Cristo aguça o fio de todos esses mandamentos éticos (vide 13:11-14). Finalmente, tal como na primeira epístola aos Coríntios, Paulo indica que os crentes devem permitir, uns aos outros, a liberdade de diferirem sobre questões cerimoniais, contando que os crentes mais fracos, desinformados, não sejam prejudicados (vide 14:1 – 15:3). Ler Ro­manos 12:1 – 15:13.

 

Observações concludentes

         Descortinando os seus planos com maiores pormenores do que no primeiro capítulo, Paulo agora revela a sua esperança de en­tregar uma oferta enviada à igreja de Jerusalém e de poder ir evangelizar a Espanha, depois de ter visitado Roma. As reco­mendações relativas a Febe, em Romanos 16:1,2, refletem a prá­tica cristã segundo a qual uma igreja local qualquer recomen­dava a outra igreja, de outra localidade, que acolhesse a um dos membros da primeira, que se mudava para a segunda ou lhe fazia uma visita. A saudação a Prisca (forma abreviada de Priscila) e Áqüila, em Romanos 16:3, subentende que aquele casal retorna­ra a Roma. Por meio de fontes seculares também estamos infor­mados de que o edito de Cláudio que expulsava da cidade de Roma aos judeus não entrou em vigor de maneira permanente. Saudações, advertências contra os falsos mestres, uma bênção, outras saudações e uma doxologia, completam a epístola. Ler Ro­manos 15:14 – 16:27.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE ROMANOS

 

Tema: o evangelho da justificação pela fé ou o dom da justiça divina a peca­dores que confiem em Jesus Cristo.

INTRODUÇÃO (1:1-17)

  1. Saudação (1:1-17)
  2. Planos de uma visita a Roma (1:8-15)
  3. Declaração do tema (1:16,17)
  4. A PECAMINOSIDADE DE TODOS OS HOMENS (1:18 – 3:20)
  5. A pecaminosidade dos gentios (1:18-32)
  6. A pecaminosidade dos judeus (2:1 – 3:8)
  7. A pecaminosidade tanto dos judeus quanto dos gentios, igualmente (3:9-20)
  8. JUSTIFICAÇÃO DOS PECADORES QUE CONFIEM EM JESUS CRISTO (3:21 – 5:21)
  9. A morte expiatória de Jesus é a base da justificação (3:21-26)
  10. A fé é o meio de obter-se a justificação (3:27 – 4:25)
  11. Fica excluída a jactância humana devido às boas obras (3:27-31)
  12. Seus exemplos vetero-testamentários em Abraão (especialmente) e Davi (4:1-25)
  13. As muitas bênçãos da justificação (5:1-11)
  14. Contraste entre Adão, em quem há pecado e morte, e Cristo, em quem há justiça e vida (5:12-21)

III. SANTIFICAÇÃO DOS PECADORES JUSTIFICADOS PELA FÉ EM JESUS (6:1 – 8:39)

  1. O batismo como símbolo da união do crente com Cristo, em Sua morte, no tocante ao pecado, e a sua nova vida, no tocante à justiça (6:1-14)
  2. Escravidão ao pecado e isenção quanto à justiça, versus a servidão à justi­ça e isenção quanto ao pecado (6:15-23)
  3. Morte para a lei, mediante a união com Cristo, em Sua morte, ilustrada pelo anulamento do casamento através da morte de um dos cônjuges (7:1-6)
  4. A lei não produz a justiça por causa da incapacidade dos seres humanos em vencer suas próprias tendências pecaminosas (7:7-25)
  5. O viver reto por meio do Espírito, da parte dos justificados pela fé em Je­sus Cristo com uma descrição da vida no Espírito (8:1-27)
  6. Uma declaração de confiança e triunfo (8:28-39)
  7. A INCREDULIDADE DE ISRAEL (9:1 – 11:36)
  8. A preocupação de Paulo com Israel (9:1-5)
  9. A incredulidade de Israel pelo plano predeterminado de Deus (9:6-33)
  10. A incredulidade de Israel devido à sua justiça própria (10.1-21)
  11. O atual remanescente crente em Israel (11:1-10)
  12. Restauração e salvação futuras de Israel (11:11-32)
  13. Doxologia ante os sábios caminhos de Deus (11:33-36)
  14. EXORTAÇÕES PRÁTICAS (12-1 – 15:13)
  15. A consagração a Deus (12:1,2)
  16. Os ministérios na Igreja (12:3-8)
  17. O amor no seio da comunidade cristã, com virtudes acompanhantes (12:9­13)
  18. Relacionamento com os não-cristãos (12:14-21)
  19. Obediência ao estado (13:1-7)
  20. O amor (13:8-10)
  21. A vigilância escatológica (13:11-14)
  22. A liberdade e a necessidade de não ofendermos a outros sobre questões cerimoniais, como a ingestão de certos alimentos e a observância de dias santificados (14:1 – 15:13)

CONCLUSÃO (15:14 – 16:27)

  1. O plano de Paulo de visitar Roma, após levar uma oferta em dinheiro aos cristãos de Jerusalém (15:14-33)
  2. Recomendações sobre Febe (16:1,2)
  3. Saudações (16:3-16)
  4. Avisos sobre os falsos mestres (16:17-20a)
  5. A bênção final (16:20b)
  6. Outras saudações (16:21-23)
  7. Doxologia (16:25-27)

 

Para discussão posterior:

 

– A doutrina paulina da pecaminosidade humana degrada a dignidade e nobreza do homem?

– Porventura Paulo se contradiz ao apelar para as boas obras realizadas pelos gentios por motivo de consciência (vide 2:12-16), e ao contender pela depravação total de judeus e gentios igual­mente (vide 3:9-20)?

– A transferência de uma penalidade, de uma pessoa culpada para uma pessoa inocente, é algo legalmente defensável?

– Como pode Deus, com justiça, culpar a raça humana inteira pelo pecado original de Adão?

– Como pode Deus, com justiça, atribuir a retidão de Cristo a todos os crentes?

– A justificação é possível sem a santificação?

– A luta íntima entre o certo e o errado, retratada em Roma­nos 7:7-25, caracteriza os crentes ou os incrédulos? Comparar com Romanos 8.

– Como é que Deus pode manter a Sua soberania, ao mesmo tempo que permite ao homem suficiente liberdade de ação para considerá-lo responsável?

– Os homens são salvos porque eles decidem crer em Cristo, ou porque Deus resolve levá-los a crer? Haverá alguma outra al­ternativa?

– Relacione as declarações de Paulo a respeito do futuro de Is­rael (vide Romanos 11) com os recentes acontecimentos do Oriente Médio.

– Qual deveria ser a atitude do crente para com o seu governo, em face dos atuais problemas sociais e da política internacional?

 

Para investigação posterior:

 

(Comentários sobre a epístola aos Romanos)

 

Bruce, F.F. The Epistle of Paul to the Romans. Londres: Tyndale, 1963.

Murray, J. The Epistle to the Romans. 2 vol. Grand Rapids: Eerdmans, 1959 – 65.

 

(Livros sobre tópicos que figuram na epístola aos Romanos)

 

Agostinho, Confissões. Sobretudo os primeiros diversos “livros” que falam so­bre o problema da culpa.

Lewis C.S. The Case for Christianity. Parte I. Nova Iorque: Macmillan, 1950. Ou A Razão do Cristianismo, Livro I. São Paulo, Edições Vida Nova, 1964. Sobre a consciência moral humana.

Lutero, M. Commentary [ou Lectures] on Romans. Sobre 3:21-31

Calvino, J., e J. Sadoleto Reformation Debate: Sadoleto’s Letter to the Genevans and Calvin’s Reply. Editado por J.C. Olin, Nova Iorque: Harper & Row, 1966. Acerca da justificação pela fé como ponto debatido durante a reforma.

Calvino, J. Institutas da Religião Cristã, livro I, capítulo 15: livro II, capítulos 1 – 5; livro III, capítulos 21 – 24. Quanto à posição calvinista sobre a soberania divina e o livre arbítrio humano.

Armínio, J. Declaração de Sentimentos, I-IV e Apologia Contra Trinta e um Arti­gos Difamatórios, artigos I, IV-VIII, XIII-XVII. Acerca da posição arminiana so­bre a soberania divina e o livre arbítrio humano.

Chafer, L.S. He That Is Spiritual. Grand Rapids: Zondervan Dunham, 1918. So­bre a santificação.

Walvoord. J. F. Israel in Prophecy – Grand Rapids: Zondervan, 1962. Para com­parar com a discussão paulina sobre Israel, em Romanos 9 – 11.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *