As Epístolas Pastorais de Paulo – Panorama do NT

Foto de pastor orando por traficantes viraliza
27/07/2016
Emissora argentina troca novela da Globo por minissérie bíblica da Record
27/07/2016

As Epístolas Pastorais de Paulo  – Panorama do NT

Perguntas Normativas:

 

– Quais são os prós e os contras acerca da autoria paulina das epístolas pastorais?

– Em que ponto as epístolas pastorais se encaixam na cronolo­gia da vida de Paulo?

– Quais foram as instruções de Paulo para a vida progressista da Igreja e para a manutenção das crenças cristãs?

 

I e II TIMÓTEO, E TITO:

 

CONSELHOS A PASTORES JOVENS

 

Tema

I e II Timóteo, e Tito compreendem as chamadas epístolas pastorais, assim denominadas porque Paulo as escreveu para jovens pastores. Elas contêm instruções concernentes às responsabilidades administrativas de Timóteo e Tito nas igrejas locais.

 

Autenticidade

         Os eruditos da moderna alta crítica lançam maiores dúvidas sobre a autenticidade dessas epístolas do que sobre quaisquer ou­tras obras que se declaram de autoria paulina. De consonância com essa opinião que nega a autoria paulina das epístolas pasto­rais, o seu autor pseudônimo teria lançado mão da autoridade do nome de Paulo a fim de combater o gnosticismo incipiente no segundo século de nossa era. Essa opinião afirma ou que as epísto­las pastorais são obras inteiramente pseudônimas (mas, por quê, então, a presença de itens tão pessoais a respeito de Paulo, que trazem sinais de autenticidade?) ou, mais freqüentemente, que algum admirador de Paulo incorporou observações paulinas au­tênticas em epístolas que escreveu depois de Paulo já ter falecido.

 

Teoria dos fragmentos Paulinos

         Há certa variedade de opiniões sobre quais seções das epístolas pastorais contêm supostos fragmentos de material que, na re­alidade, foram escritos por Paulo. (Os fragmentos comumente tidos como tais são II Timóteo 1.16-18; 3:10,11; 4 1.2a.5b-22 e Tito 3:12-15.) Em adição, é improvável que meros fragmentos de genuínas epístolas paulinas houvessem sido preservados, sobretudo porque a maioria deles é de natureza pessoal, não se revestindo de atrativos teológicos. Ainda é mais improvável que tenham sido incorporados mais tarde em epísto­las pseudepigráficas mais longas, de forma desordenada, ao acaso. E por que o suposto forjador teria concentrado quase to­dos esses fragmentos na segunda epístola a Timóteo, ao invés de distribuí-los de maneira regular pelas três epístolas pastorais? E, pensando nisso, por que ele teria escrito três epístolas pastorais? O conteúdo das mesmas não difere de modo suficiente para indi­car por qual razão ele teria escrito três epístolas, em nome de Paulo, ao invés de apenas uma.

 

Pseudônimo

         Em apoio à autoria paulina há a declaração, constante no pri­meiro versículo de cada epístola pastoral, no sentido de que Paulo foi o seu autor. Contra tal reivindicação argumenta-se que escrever com a autoria oculta por um pseudônimo era uma prá­tica literária bem aceita (“contrafação piedosa”) nos tempos an­tigos e até na Igreja primitiva. Os fatos, todavia, demonstram que usar de um pseudônimo era prática apenas ocasional, a qual não era praticada pela Igreja primitva. O apóstolo Paulo adverte con­tra as falsificações em seu nome (vide II Tessalonicenses 2:2 e 3:17). A Igreja antiga excluiu um ancião de seu ofício eclesiástico por haver escrito sob um pseudônimo (Vide Tertuliano, Sobre o Batismo xvii. Quanto a uma completa discussão sobre pseudônimos, vide D. Guthrie, New Testament lntroduction: Pauline Epistles (Chicago: Inter-Varsity. 1961), apêndice C, “Epistolar, Pseudepigraphy”, págs. 282-294.) e se mostrava intensa­mente preocupada com questões de autoria, segundo se de­preende, por exemplo, do debate sobre a autoria da epístola aos Hebreus e da hesitação em adotar um livro de autoria desconhe­cida na coletânea do Novo Testamento.

Outrossim, é altamente improvável que um admirador do já fa­lecido Paulo tivesse chamado o apóstolo de “o principal” dentre os pecadores. (Vide I Timóteo 1:15.) As epístolas pastorais são muito mais semelhantes, em estilo e conteúdo, às demais epísto­las de Paulo do que o são os livros não-canônicos e indubitavel­mente pseudônimos, em relação aos escritos autênticos daqueles em cujos nomes foram forjados. Em acréscimo à reivindicação constante nas próprias epístolas pastorais de que elas foram es­critas por Paulo e à preocupação da Igreja antiga com questões que envolvem a autoria, temos a fortíssima e antiga tradição que diz que o próprio Paulo escreveu as epístolas pastorais. Somente Romanos e I Coríntios contam com confirmações mais decisivas.

 

Vocabulário e estilo

         As dúvidas a respeito da autoria paulina se originam primaria­mente de diferenças de vocabulário e do estilo gramatical que fi­guram nas epístolas pastorias, quando postas em confronto com outras epístolas paulinas. O cotejo consiste de tabelas estatísticas, algumas vezes traçadas com o auxílio de computadores. No entanto, essa objeção “científica” à autoria paulina não leva em conta as diferenças de vocabulário e estilo causadas pelas dife­renças de assuntos e de pessoas endereçadas, além das alterações causadas no estilo de um escritor por considerações como meio ambiente, mais idade, maior experiência e a mera passagem do tempo. Talvez ainda mais significativa seja a possibilidade que as divergências de estilo se tenham originado dos diferentes amanuenses, ou do fato que Paulo deu maior ou menor liberdade a seus amanuenses para usarem um fraseado de acordo com seus pensamentos, no que algumas vezes se mostrou mais exigente do que em outras. A explicação que leva em conta os amanuenses é, ocasionalmente, desprezada, porquanto supostamente seria ex­plicação fácil demais. No entanto, é uma explicação realista, por­que sabemos positivamente que Paulo costumava ditar as suas epístolas.

Além disso, as epístolas geralmente aceitas sem contestação como paulinas, ou passagens mais ou menos longas nelas existen­tes, exibem as mesmas formas de variedade estilística que ser­vem, nas mãos de alguns, para disprovar a autoria paulina das epístolas pastorais. E a maioria dos vocábulos que ocorrem so­mente nas epístolas pastorais, entre aquelas que são de autoria paulina, também figuram na Setuaginta e na literatura grega extra-bíblica do primeiro século cristão, pelo que tais palavras sem dúvida faziam parte do vocabulário de Paulo e dos seus ama­nuenses.

 

A omissão de Márciom

         Aqueles que duvidam da autoria paulina também afirmam que o herege gnóstico Márciom também omitiu as epístolas paulinas de seu “cânon” do Novo Testamento porque elas não seriam da autoria de Paulo. Todavia, Márciom tinha a tendência de rejeitar porções do Novo Testamento aceitas pelos cristãos ortodoxos. Por exemplo, ele repelia os evangelhos de Mateus, Marcos e João, e retirava porções do evangelho de Lucas. A assertiva de que “a lei é boa” (1 Timóteo 1:8) deve ter ofendido a Márciom, que rejeitava radicalmente o Antigo Testamento, e a referência depreciativa àquilo que Paulo intitula de “as contradições do sa­ber [no grego gnosis], como falsamente lhe chamam” (I Timóteo 6:20) deve ter antagonizado a Márciom, o qual chamava o seu próprio sistema doutrinário de gnosis – tudo o que serviria de am­plas razões para Márciom haver omitido as epístolas pastorais de seu cânon, sem que isso desse a entender que elas são obras pseu­dônimas.

 

Gnosticismo

         Por igual modo, alguns asseveram que as epístolas pastorais atacam certa variedade de gnosticismo que só surgiu após o período da vida de Paulo. Para dizermos a verdade, o ascetismo criticado no trecho de 1 Timóteo 4:3 (“que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos”) se parece bastante com o gnosticismo de período posterior. Não obstante, o proeminente elemento judaico que havia nas falsas doutrinas combatidas – “especialmente os da circuncisão”, “fábulas judaicas” e “deba­tes sobre a lei” (rito 1:10,14 e 3:9, respectivamente) – comprova que as epístolas pastorais não atacavam, necessariamente, o gnosti­cismo posterior; pois característicos judaicos, apesar de terem passado até ao segundo século, caracterizavam melhor a fase ini­cial do movimento. As epístolas pastorais, bem pelo contrário, atiram-se contra o tipo misto de heresia que já fora combatido an­tes na epístola aos Colossenses, o que, conforme se sabe hodiernamente, teve origem em um judaísmo sincretista da variedade gnóstica pré-cristã. Por conseguinte, é preferível pensarmos numa data mais antiga para as epístolas pastorais; e uma data mais remota favorece a autoria paulina, porquanto um falsifica­dor piedoso não teria ousado utilizar-se do nome do apóstolo numa época ainda bem próxima da vida de Paulo.

 

Estrutura eclesiástica

         Também se tem dito que as epístolas pastorais refletem uma estrutura eclesiástica mais bem organizada do que aquela que já se desenvolvera durante a vida de Paulo. Entretanto, as epístolas pastorais mencionam somente os anciãos (ou bispos), os diáco­nos e as viúvas, todas as quais classes já figuravam desde antes no Novo Testamento. Vide, por exemplo, os trechos de Atos 6:1; 9:39,41 ; I Coríntios 7:8 e Filipenses 1:1. Outrossim, os Papiros do Mar Morto, que pertencem a dias anteriores ao cristianismo, descrevem um oficial da comunidade de Qumran que se asseme­lha de forma notável aos bispos que são mencionados nas epísto­las pastorais. As instruções dadas a Timóteo e a Tito (vide I Ti­móteo 5:22 e Tito 1:5), a respeito da nomeação de anciãos, não se devem a um governo eclesiástico hierarquicamente evoluído, mas ao fato que novas igrejas locais foram iniciadas sob condições missionárias, tal e qual Paulo e Barnabé, logo desde o início de sua missão fizeram nomear anciãos para as novas igrejas do sul da Galácia (vide Atos 14:23).

 

Ortodoxia

Por igual modo, argumentam alguns, a ênfase posta sobre a or­todoxia doutrinária, nas epístolas pastorais, implica em um está­gio pós-paulino do desenvolvimento teológico, quando a doutrina cristã já era considerada como completa, e, quando, por conseguinte, era mister defendê-la da corrupção, ao invés de ampliá-la em seu escopo. Entretanto, a defesa à tradicional orto­doxia cristã caracteriza as epístolas de Paulo desde os primórdios de suas atividades. Exemplos disso são a epístola aos Gálatas como um todo e o décimo quinto capítulo da primeira epístola aos Coríntios.

 

Informes cintilantes

         Finalmente, alguns afiançam que as epístolas pastorais forne­cem informes históricos e geográficos que não se coadunam com a carreira de Paulo, conforme ela ficou registrada no livro de Atos e nas suas outras epístolas. Supostamente, esse teria sido o erro crasso de algum falsificador piedoso. Os informes conflitan­tes são que Paulo deixara Timóteo em Éfeso, quando viajou para a Macedônia (vide I Timóteo 1:3 – contrastar com Atos 20:4-6), que Demas abandonara a Paulo (vide II Timóteo 4:10 – Demas continuava em companhia do apóstolo, em Filemom 24), e que Paulo deixara Tito em Creta (vide Tito 1:5) e fora para Nicópolis (vide Tito 3:12), ao mesmo tempo que Tito continuara jornada até a Dalmácia (vide II Timóteo 4:10 – ao passo que, no livro de Atos. Paulo não visitara nem Creta e nem Nicópolis).

 

Dois aprisionamentos em Roma

         A resposta a esse argumento é a hipótese que Paulo fora de­clarado inocente e fora solto de seu primeiro período de aprisio­namento em Roma, que então ele usufruiu de certo período de liberdade, durante o qual se encaixam os informes dados pelas epístolas pastorais acerca de seus passos, e que, algum tempo de­pois, foi novamente detido e condenado à morte, como mártir da fé cristã, a qual, nesse ínterim, fora declarada religião ilícita. Assim, pois, os informes históricos e geográficos das epístolas pas­torais não entram em conflito com o livro de Atos, mas aludem a eventos que tiveram lugar após o encerramento do livro de Atos. As próprias epístolas pastorais constituem uma evidência em favor da hipótese de dois períodos separados de aprisionamento em Roma. Outro tanto sucede no caso da expectação de Paulo de que seria libertado, em Filipenses 1:19,25 e 2:24, epístola essa es­crita durante seu primeiro aprisionamento em Roma, em contraste com o fato que Paulo não entretinha a menor esperança de ser solto, consoante se lê em II Timóteo 4:6-8 epístola essa es­crita durante o seu suposto período de novo aprisionamento em Roma.

 

Ordem de escrita

         Concluímos que Paulo escreveu I Timóteo e Tito entre esses dois períodos de aprisionamento, ao passo que II Timóteo foi es­crita durante seu segundo aprisionamento, pouco antes do seu martírio. Permanecerá para sempre desconhecido se Paulo ja­mais chegou à Espanha, conforme ele planejara e registrara em Romanos 15:24 e 28. Clemente de Roma, pai da Igreja primitiva, escreveu que Paulo “atingiu os limites do Ocidente” (I Clemente 5:7), declaração essa que pode ser interpretada como alusão ou a Roma ou à Espanha, no extremo ocidental da bacia do Mediter­râneo.

 

Propósitos secundários

         Em acréscimo às instruções atinentes às responsabilidades ad­ministrativas de Timóteo e Tito nas igrejas, Paulo convocou a Tito para que viesse reunir-se a ele em Nicópolis, na costa oci­dental da Grécia. Vide o mapa à pág. 252. E, em II Timóteo, Paulo, rememorando sua carreira passada e aguardando a sua execução para breve, solicita a Timóteo que viesse ter com ele em Roma, antes da chegada do inverno (vide 4:6-9,21 e 1:17). Paulo temia que, doutra sorte, jamais veria novamente a Timó­teo, porquanto a navegação sofria solução de continuidade du­rante o inverno e a sua execução poderia ocorrer antes disso.

 

I TIMÓTEO

 

Ortodoxia

Após a saudação, a primeira epístola a Timóteo começa com uma advertência a respeito dos mestres falsos, que manipulavam erroneamente a lei. Em seguida Paulo relembra a sua própria experiência de conversão e a sua remissão ao apostolado e exorta a Timóteo para que se aferre tenazmente à fé cristã ortodoxa. Ti­móteo precisava usar de cautela no caso de dois mestres falsos, que Paulo excluíra da Igreja, para que ficassem, no mundo, que é território de Satanás (“os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem”, 1:20). Ler I Timóteo 1. A cláusula. “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação”, que conduz à assertiva, “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (versículo 15), é uma fórmula que introduzia antigas confissões, motos e hinos cristãos (o que também se vê em I Ti­móteo 3:1; 4:9,10: II Timóteo 2:11-13 e Tito 3:5-8a).

 

Oração e modéstia

         O segundo capítulo começa com uma exortação a que se fa­çam orações públicas em favor de todos os homens, mormente as autoridades governamentais. Seguem-se instruções que ensinam às mulheres cristãs a se vestirem com modéstia, sem extravagân­cias, bem como a não ocuparem posições em que ensinem ofi­cialmente a homens. A declaração, “será preservada através de sua missão de mãe” (2:15), provavelmente significa que, apesar das dores sofridas durante o parto, um resultado restante da mal­dição original contra o pecado humano (vide Gênesis 3:16), a mulher crente será salva do juízo eterno de Deus contra o pe­cado. Noutras palavras, o doloroso do parto não contradiz a sal­vação das mulheres cristãs. Segundo esse ponto de vista, “através de” significa “em meio à”, e não “por meio de (sua missão de mãe) “(Outras interpretações são: (1) as mulheres crentes são salvas mediante o parto supremo, o de Cristo: (2) elas realizam sua própria salvação dando à luz e criando filhos piedosamente: e (3) Paulo não promete aqui salvação espiritual, mas isen­ção dos perigos físicos do parto (conforme aparentemente dá a entender a New American Standard Bible).)

 

Bispos e diáconos

         Em prosseguimento, Paulo alista as qualificações necessárias aos bispos e diáconos. “Bispo (episecopos) “significa “supervisor, superintendente”, referindo-se ao ofício preenchido por homens também chamados “anciãos (presbuteroi)”. Portanto, embora “bispo” e “ancião” retrocedam a diferentes vocábulos gregos, são termos sinônimos. “Diácono”, por sua parte, quer dizer “servo, ajudador”, aludindo aos assessores dos bispos, os quais cuidavam das questões seculares da vida eclesiástica, particular­mente a distribuição de caridades. A lista das qualificações para as “mulheres”, em 3:11, pode simplesmente subentender a or­dem feminina das diaconisas, ou então aludem às esposas dos diáconos, das quais se esperava que ajudassem a seus esposos na distribuição de caridades. A seção se encerra com a citação de um antigo hino ou credo cristão, o qual traça. a carreira de Cristo desde a encarnação à ascensão (“Aquele que foi manifestado na carne… recebido na glória” 3:16) Ler 1 Timóteo 2 e 3.

 

Propriedade

         Um outro aviso concernente às doutrinas falsas (no quarto capítulo) é seguido, no capítulo cinco, por observações acerca do relacionamento apropriado entre Timóteo e diferentes faixas etárias na igreja, acerca da posição ocupada pelas viúvas e acerca do tratamento que se deve dar aos anciãos. Sendo ainda jovem, Timóteo deveria tratar com outros jovens como irmãos seus, com homens de mais idade como se fossem seus pais, com mulheres idosas como a mães, e com as donzelas como se fossem suas próprias irmãs.

 

As viúvas

         As viúvas deveriam ser sustentadas por seus próprios familia­res. Porém, viúvas que vivessem piedosamente e tivessem ses­senta anos de idade ou mais, se não contassem com a ajuda finan­ceira de parentes, deveriam receber assistência econômica por parte da igreja. As viúvas mais jovens deveriam contrair novo matrimônio, para não caírem na tentação de apelar para uma vida imoral, como meio de sustento.

 

Os anciãos

Os anciãos fiéis, em especial aqueles que pregam e ensinam, merecem sustento financeiro. Não devem ser impugnados os pas­tores, exceto se houver duas ou três testemunhas de acusação; mas aqueles cujos erros fossem comprovados deveriam ser publi­camente repreendidos. Timóteo não deveria consagrar (“impor as mãos”) a nenhum homem ao ofício ministerial apressadamente, mas antes deveria provar o caráter de tal homem, e isso por um período de certo tempo (a menos que a referência seja à restau­ração de membros disciplinados da igreja). Esta epístola se fecha no sexto capítulo, com instruções miscelâneas a respeito de es­cravos cristãos, de falsos mestres, de crentes abastados e das res­ponsabilidades espirituais do próprio Timóteo. Ler 1 Timóteo 4-6.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE I TIMÓTEO

 

Tema: organização e administração de igreias locais por parte de Timóteo.

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

  1. AVISO CONTRA A HERESIA, COM REMINISCÊNCIAS PESSOAIS (1:3-20)
  2. ORGANIZAÇÃO DA IGREJA POR TIMÓTEO (2:1 – 3:13)
  3. Orações públicas (2:1-8)
  4. A modéstia e a subordinação das mulheres (2:9-15)
  5. As qualificações dos bispos (3:1-7)
  6. As qualificações dos diáconos (3:8-13)

III. ADMINISTRAÇÃO DA IGREJA POR TIMÓTEO (3:14. 6:19)

  1. Preservação da Igreja como baluarte da ortodoxia e contra a heterodoxia (3:14 – 4:16) (Assim como ortodoxia significa “crença correta”, ortopraxia significa “con­duta correta”.)
  2. Como pastorear os membros da igreja (5:1 – 6:26)
  3. Homens e mulheres, jovens e velhos (5:1,2)
  4. Viúvas (5:3-16)
  5. Anciãos, com um reparo acerca do próprio Timóteo (5:17-25)
  6. Escravos (6:1-2b)
  7. Como ensinar e exortar os crentes ao dever (6:2c-10)
  8. Como servir de exemplo (6:11-16)
  9. Como advertir aos ricos (6:17-19)

CONCLUSÃO: incumbência final a Timóteo e bênção (6:2(1,21)

 

TITO

 

Paulo escreveu esta epístola quando estava em Nicópolis, na costa ocidental da Grécia. Endereçou-a a Tito, a quem deixara na ilha de Creta, a fim de organizar a igreja local dali. Tal como o faz em I Timóteo, o apóstolo adverte no tocante aos mestres fal­sos e baixa instruções acerca da conduta conveniente de várias classes de cristãos. A base doutrinária de tais instruções é a graça de Deus, a qual confere a salvação, conduz à vida piedosa e ofe­rece a “bendita esperança” da volta de Jesus (vide 2:11-14). A base experimental dessas instruções é a regeneração operada pelo Espírito Santo (vide 3:3-7). Ler Tito 1 – 3.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE TITO

 

Tema: organização e administração das igrejas locais de Creta, por parte de Tito

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1-4)

  1. NOMEAÇÃO E QUALIFICAÇÃO DOS BISPOS (1:5-9)
  2. SUPRESSÃO DOS FALSOS MESTRES (1:10-16)

III. ENSINANDO A BOA CONDUTA (2:1 – 3:8a)

CONCLUSÃO: (3:8b-15)

  1. Sumário (3:8b-11)
  2. Solicitação a Tito para vir a Nicópolis, e outras instruções (3:12-14)
  3. Saudações e bênção (3:15)

 

 

II TIMÓTEO

 

Reminiscências e exortação

A última epístola de Paulo tem início com reminiscências da chamada divina de Timóteo e de Paulo, entremeadas com exor­tações e uma observação lateral acerca de alguns que haviam deixado Paulo desamparado na prisão, e acerca de outros, que se tinham colocado a seu lado. As demais instruções dadas a Timó­teo extraem comparações com o trabalho árduo e a auto­disciplina requeridos da parte de soldados, atletas e agricultores. Em contraposição ao ensino herético, Paulo frisa que “Toda Es­critura é inspirada por Deus e útil…” (3:16). Uma incumbência final, a de pregar a Palavra de Deus, uma declaração sobre a dis­posição de ir até à morte, notícias pessoais e solicitações concluem a despedida constante nesta epístola de Paulo. Ler II Ti­móteo 1 – 4.

Janes e Jambres (vide 3:8) eram dois mágicos de Faraó, que se opuseram a Moisés, de conformidade com o Targum de Jônatan, sobre Êxodo 7:11, e primitiva literatura cristã fora do Novo Tes­tamento. Os pergaminhos que Paulo rogou fossem trazidos por Timóteo (vide 4:13) por certo tinham um conteúdo importante, pois o pergaminho era material dispendioso. Talvez fossem os documentos legais de Paulo, como o seu certificado de cidadania romana, ou cópias de Escrituras do Antigo Testamento, ou regis­tros da vida e dos ensinamentos de Jesus.

Provavelmente cumpre-nos compreender o livramento de Paulo “da boca do leão” de forma figurada, e não literal, pois usava-se a figura do leão como metáfora indicativa de extremo perigo (vide 4:17; comparar com Salmo 22:21). Mais especifica­mente, o leão tem sido empregado como símbolo do diabo, con­forme se vê em I Pedro 5:8, ou do imperador Nero.

 

ESBOÇO SUMÁRIO DE II TIMÓTEO

 

Tema: a comissão de Timóteo para levar avante a obra realizada por Paulo.

INTRODUÇÃO: Saudação (1:1,2)

  1. EXORTAÇÃO À INTENSIDADE NO MINISTÉRIO, EM CONTRAPOSI­ÇÃO AO PENDOR À TIMIDEZ, QUE TIMÓTEO REVELAVA (1:3 – 2:7)
  2. EXORTAÇÃO À ORTODOXIA, EM CONTRAPOSIÇÃO A ENSINOS E PRÁTICAS FALSOS (2:8 – 4:8)

CONCLUSÃO (4:9-22)

  1. Pedido sobre a vinda imediata de Timóteo (4:9-13)
  2. Notícias sobre o julgamento de Paulo (4:14-18)

C.Saudações, com outro apelo sobre a vinda de Timóteo e uma bênção (4:19-22)

 

Para discussão porterior:

 

– Quais diferenças se percebem entre a estrutura das modernas igrejas locais e a da Igreja primitiva, segundo se reflete nas epís­tolas pastorais? Como você justifica essas diferenças?

– Até que ponto a Igreja moderna está na obrigação de moldar-­se segundo a estrutura eclesiástica e o estilo de funcionamento da Igreja primitiva? Por outro lado, as circunstâncias modifica­das e a cultura diferente permitem à Igreja a liberdade de opera­ção e de inovação? e, nesse caso, dentro de quais limites, se por­ventura há limites?

– Avalie o acerto da acusação de que a preocupação de Paulo com a ortodoxia, nas epístolas pastorais, soa mais como algo ne­gativo e exageradamente defensivo.

 

Para investigação posterior:

 

Guthrie, D. The Pastoral Epistles and the Mind of Paul. Londres: Tyndale, 1956.

— The Pastoral Epistles. Grand Rapids: Eerdmans, 1957.

Kelly, J.N.D. I e II Timóteo e Tito. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983

 

 

EXCURSO: RESUMO DA TEOLOGIA PAULINA

 

Origens

Visto que a teologia de Paulo acha-se distribuída por certo nú­mero de epístolas, escritas sob circunstâncias tipicamente missio­nárias, a nós resta a tarefa de sumariar seu pensamento. Antigamente, alguns eruditos chegaram a pensar que Paulo tivesse feito profundos empréstimos dos conceitos gregos e das religiões misteriosas, quanto ao conteúdo e à forma de sua teologia. Atualmente, entretanto, o consenso geral assevera que a sua dí­vida ao Antigo Testamento e ao judaísmo rabínico em muito ex­cede à sua dívida a fontes gregas e misteriosas. Aqueles mesmos eruditos igualmente criam que Paulo fora um notável inovador, que transformara Jesus daquilo que Ele realmente era, um rabino e mártir carismático, em um Salvador cósmico, revestido de atri­butos divinos. Porém, um estudo mais acurado da literatura pau­lina tem demonstrado que Paulo se estribou pesadamente sobre a primitiva tradição cristã – hinos, credos, confissões batismais e instruções catequéticas – sobre a conduta cristã, além de haver-­se respaldado nas tradições orais e escritas acerca da vida e dos ensinamentos de Jesus, antes dos evangelhos terem sido registra­dos. O estudo dos evangelhos, do livro de Atos e das epístolas paulinas conduz à mesma conclusão: Paulo desenvolveu uma teologia cristã já existente, que se originara com Jesus e que cres­cera baseada sobre as Escrituras do Antigo Testamento, reputa­das como plenamente autoritativas.

 

Deus e a criação

         Do judaísmo e do Antigo Testamento é que procede o con­ceito paulino de um só verdadeiro Deus, o qual é onipotente, santo e gracioso. Esse Deus é uma pessoa. Aqueles que chegam a conhecê-Lo por intermédio de Cristo, podem dirigir-se a Ele afe­tuosamente, tratando-o de Pai (“Aba”). Porém, há multiplici­dade dentro da personalidade do Deus único: razão por que Paulo escreve nos termos trinitarianos de Pai, Filho e Espírito Santo. Deus Pai criou o universo e todos os seres nele existentes, através de Seu Filho e para Ele. Por conseguinte, o universo ma­terial é inerentemente bom; o pecado é que é um intruso. Todos os homens pecaram em Adão, e o pecado mantém um domínio de tal modo imperioso sobre os homens que a boa lei de Deus provoca-os à transgressão, e não à obediência. E disso re­sulta a morte, tanto a física quanto a espiritual. Fazendo parte da criação material, o corpo humano é inerentemente bom; mas, visto que o pecado se manifesta através do corpo, Paulo intitula o impulso pecaminoso de “a carne”.(“Carne” nem sempre alude à propensão ao pecado. Outros sentidos incluem o corpo de carne, a humanidade, a descendência humana natural ou algum relacio­namento humano natural, e a natureza humana como tal (fraca, pecaminosa ou não).)

Jesus, o eternamente preexistente Filho de Deus, veio dos céus a fim de redimir os homens da servidão ao pecado e de suas conse­qüências. Para tanto, Ele se fez um ser humano e entregou-se à morte, a fim de satisfazer tanto a ira divina contra o pecado como para satisfazer o amor divino pelos pecadores. Deus res­suscitou a Jesus dentre os mortos e O exaltou como Senhor (pala­vra essa que traduz “Javé” ou “Jeová”), nos céus, a fim de demonstrar a Sua plena satisfação. Agora, pois, o “chama­mento” de Deus é feito àquelas pessoas que por Ele foram esco­lhidas previamente. Não obstante, a eleição divina de algumas pessoas não contradiz o convite sincero à salvação, estendido a todos os seres humanos. Os homens acatam esse convite através de uma sincera tristeza ante o pecado (arrependimento) e a fé em Jesus Cristo; e essa fé envolve assentimento mental ao que o cristianismo diz sobre a identidade de Jesus, confiança exclusiva em Sua morte e ressurreição com vistas à remissão (ou remoção) de pecados, e submissão moral ao tipo de vida que Ele requer daí por diante. O crente penitente imediatamente passa a estar “em Cristo”, em razão do que o seu pecado é transferido a Cristo e a retidão de Cristo é transferida a ele. A solidariedade com Cristo, pois, substitui a solidariedade com Adão. Dessa maneira, Deus pode tratar amorosamente ao crente como pessoa reta (justifica­ção), ao mesmo tempo que conserva Seu próprio padrão de jus­tiça. Como Senhor, Jesus “redime” aos crentes, ou seja, Ele os li­bera da servidão ao pecado, mediante o pagamento de certo preço, tal e qual Javé redimiu a nação de Israel da servidão egípcia, por ocasião do êxodo. Deus e o crente são reconciliados entre si; a comunhão entre Deus e o homem é restaurada. Ora, tudo isso ocorre devido à graça divina, ao favor de Deus para com homens desmerecedores, sem qualquer boa obra meritória de sua parte.

 

O Espírito, os cristãos e a Igreja

         Deus confere o Seu Espírito ao crente, como garantia de uma glória futura e eterna, mas também para ser poderosa ajuda ao viver individual e coletivo dos crentes. O Espírito Santo capacita os crentes a dominarem o impulso pecaminoso (“a carne”), a vi­verem virtuosamente, a orarem e a ministrarem a outros. O corpo, antes dominado pela carne, torna-se santuário sagrado do divino Espírito, fica destinado à ressurreição para a vida eterna. Além disso, tal como o corpo do cristão individual é templo do Espírito Santo, assim também o é a Igreja como um todo. Na ver­dade, o corpo com suas diversas porções é a grande metáfora usada por Paulo para doutrinar sobre a Igreja em sua unidade or­gânica, na diversidade de suas funções e na sua subordinação a Cristo, o seu cabeça. E as igrejas locais (palavra derivada do termo grego ecclesia) não são os templos de alvenaria, mas são as assembléias de remidos que se reúnem em um dado local, aqueles cuja cidadania superior pertence ao reino de Deus. Esses são também os “santos”, os “irmãos”, em cujos corações rebrilham os segredos revelados (“mistérios”) do evangelho do reino. Esses confessam a sua unificação com Cristo, em Sua morte, sepulta­mento e ressurreição, através da Ceia do Senhor, a qual também lança vistas ao futuro banquete messiânico, que terá lugar quando da parousia ou segunda vinda de Cristo.

 

Escatologia

         As forças do mal – Satanás, espíritos demoníacos e seres huma­nos por eles dominados – controlam a era presente. Mas isso não prosseguirá nessas condições para sempre; aproxima-se célere a vinda do Senhor. E então Ele assumirá o controle de tudo. Quando o homem do pecado (o anticristo) tiver encabeçado uma grande revolta contra Deus, Cristo, o Senhor, haverá de re­tornar a fim de julgar aos ímpios, vindicar aos piedosos e restau­rar a nação de Israel. Aos crentes cabe o dever de manterem-se vigilantes quanto a esse grande acontecimento. Trata-se de sua “esperança” confiante, uma possibilidade franqueada a cada ge­ração de remidos. Após o dia do Senhor, terá começo a era vin­doura, uma sucessão interminável de eras, chamadas de eterni­dade, na qual Deus se comprazerá em Seu povo, e eles no seu Deus – para sempre. (Paulo tomou por empréstimo essas três expressões, “esta época (presente)”, “o dia do Senhor” e “aquela era (ou era vindoura)”, do Vocabulário rabínico, injetando nelas pensamentos cristãos.)

 

Para discussão posterior:

 

– Por que Paulo e outros primitivos autores cristãos não escre­veram obras teológicas, em forma sistemática, ao invés de epísto­las e tratados ocasionais?

– Quais aspectos particulares de sua teologia impediram a Paulo de tornar-se um teólogo de escrivaninha, mas antes, compeliram-no a viajar por muitos lugares, em meio a grandes sacrifícios pessoais, por amor ao evangelismo?

 

Para investigação posterior:

 

Machen, J. G. The Origin of Paul’s Religion. Grand Rapids: Eerdmans, 1925.

Bouttier, M. Christianity According to Paul. Traduzido por F. Clarke. Londres: SCM, 1966.

Scott, C. A. A. Christianity According to St. Paul. Cambridge University Press, 1961.

Barclay, W. The Mind of St. Paul. Nova Iorque: Harper & Row, 1958.

Hunter, A M. Paul and His Predecessors. Filadélfia: Westminster, 1961.

——, The Gospel According to St. Paul. Filadélfia: Westminster, 1967.

Whiteley, D.E. H. The Theology of St. Paul. Filadélfia: Fortress, 1964.

Stewart, J. S. A Man in Christ. Nova Iorque: Harper & Row, n. d.

Longenecker, R. N. Paul, Apostle of Liberty. Nova Iorque: Harper & Row, 1964.

Davies, W. D. Paul and Rabbinic Judaism. Londres: S.P.C.K., 1962.         Para um estudo mais avançado.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *