Analisando a variante de Mateus 1.25 – Seria Jesus o primogênito de Maria?

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 É através do trabalho de exegese que procuramos interpretar a bíblia de forma correta e assim evitar e/ou combater as heresias. Examinar e estudar as línguas originais pelas quais a bíblia (a Palavra de Deus) foi escrita faz-nos rever algumas de nossas interpretações, ou até mesmo trazer luz para situações complexas, como no exemplo das variantes textuais (quando há uma diferença em uma palavra ou versículos em documentos antigos, por consequência de erros propositais ou não por parte dos copistas).

Na passagem em questão do evangelho de Mateus, é interessante notar a importância da variante textual, pois a mesma irá nos informar se Maria engravidou apenas de Jesus ou se ele foi o seu “primogênito”. Para algumas correntes cristãs esse versículo torna-se importante para sustentar a doutrina da “virgindade perpétua de Maria”, enquanto que, para outros pode identificar o contrário, ou seja, a prova de que Jesus teve irmãos terrenos através do relacionamento de José e Maria.

Sendo assim, vejamos como o versículo de Mt 1:25 se encontra na maioria dos manuscritos gregos do NT (de quase 6.000), representados pelo Texto Majoritário de Zane C. Hodges e Arthur Farstad, também no texto da Família 35, bem como pela tradução de João Ferreira de Almeida baseada no Textus Receptus (ACF).

 

“καὶ οὐκ ἐγίνωσκεν αὐτὴν ἕως οὗ ἔτεκε τὸν υἱὸν αὐτῆς τὸν πρωτότοκον, καὶ ἐκάλεσε τὸ ὄνομα αὐτοῦ Ἰησοῦν” (Texto Majoritário).

“E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus” (Almeida Corrigida Fiel).

 

É importante esclarecer que, os três textos citados acima (Majoritário, F35 e Receptus) são oriundos da região bizantina, por isso que, mesmo sendo textos diferentes, o nível de concordância entre eles é muito alto.

Agora, vejamos como o mesmo versículo se encontra no texto crítico (eclético) da SBU (Sociedades Bíblicas Unidas) 4ª edição. Precisamos observar que o NT grego das Sociedades Bíblicas Unidas é, juntamente com a edição de Nestle-Aland, a edição do texto grego mais conhecida e mais usada por comissões de tradução da Bíblia em todo o mundo. Em seguida, segue-se a tradução da Almeida Atualizada (baseada no texto eclético).

 

 

“καὶ οὐκ ἐγίνωσκεν αὐτὴν ἕως [οὗ] ἔτεκεν υἱόν· καὶ ἐκάλεσεν τὸ ὄνομα αὐτοῦ Ἰησοῦν.

” (SBU).

“Contudo, não a conheceu, enquanto ela não deu à luz um filho; a quem pôs o nome de Jesus.” (Almeida Atualizada).

 

Então, passemos a observar as testemunhas para essa variante, tanto as mais antigas (aqui eu considero até o século V) quanto as mais tardias. Assim, podemos observar qual texto tem maior aceitação, ou atestação na história. Observe o primeiro quadro que contém as principais testemunhas para o texto eclético e que omitem a expressão destacada no versículo:

 

 

 

Omitem as palavras destacadas no versículo

 

TESTEMUNHAS
SÉCULO (ano)
PAPIRUS, UNCIAIS E MINÚSCULOS
א
IV
B
IV
Z
VI
f1
X – XIV
f13
XI – XV
33
IX
LECIONÁRIOS E VERSÕES ANTIGAS
Itb, c, g1, k
V, XII/XIII, VIII/IX, IV/V
sirc, s, pal mss
IV, IV, VI
cop(sa), meg, (bo)
IV, IV/V, IX
geo
V – X
PAIS DA IGREJA
Ambrósio
395
Cromácio
407

 

De acordo com o primeiro quadro, temos como testemunhas mais antigas os códices Sinaíticus (א) e o Vaticanus (B), ambos do século IV. Esses dois documentos são a principal base para a reconstrução do texto (eclético) do NT, usado na maioria das bíblias disponíveis no mercado hoje. A justificativa dos ecléticos é, principalmente, porque esses códices gregos são os mais antigos, daí sua relevância para a academia e para as editoras que publicam as bíblias.  Mas, além desses códices, temos ainda algumas versões antigas, como as ítalas (Vetus Latina) que é uma itb do século V e uma itk do século IV/V, portanto, bem antigas e que também não trazem a frase “τὸν υἱὸν αὐτῆς τὸν πρωτότοκον” (…seu filho, o primogênito). Além das ítalas, temos uma versão siríaca Curetoniana (sirc) do século IV, uma copta Saídica (cop(sa)) e uma copta Médio-egípcia (cop meg ) dos séculos IV, IV/V respectivamente, além de uma Georgiana (geo) do século V. E, finalmente, chegamos aos pais da igreja, que através das citações bíblicas em suas obras, podemos perceber quais os textos gregos que eles utilizaram. Nesse caso, que omitem a frase “τὸν υἱὸν αὐτῆς τὸν πρωτότοκον” estão Ambrósio (395) e Cromácio (407).

Passemos agora a observar as testemunhas que atestam essa variante, ou seja, que trazem a frase destacada no versículo:

 

 

 

Testemunhas que atestam a variante destacada

TESTEMUNHAS
SÉCULO (ano)
PAPIRUS, UNCIAIS E MINÚSCULOS
C
V
Dc
V
W
IV/V
IX
087
VI
28
XI
157
C. 1122
180
XII
205
XV
565
XI
579
XIII
597
XIII
700
XI
828
XII
892
IX
1006
XI
1010
XII
1071
XII
1241
XII
1243
XI
1292
XIII
1505
XII
BIZANTINOS
E
VIII
N
VI
VI
LECIONÁRIOS E VERSÕES ANTIGAS
Itaur, (d), f, 111 , (9)
VII, V, VI, VIII, VI/VII
vg
IV
sirp
V
arm
A partir do V sec.
eti
a partir de 500
esl
A partir do IX sec.
Diatessarão
II
PAIS DA IGREJA
Cirilo – Jerusalém
386
Dídimo
398
Epifânio
403
João Crisóstomo
407
Proclo
446
Jerônimo
419/420
Agostinho
430

 

Logo acima, podemos ver que dois códices importantes para reconstrução textual atestam a variante, que são os C (Ephraemi Resceiptus), Dc (Bezae Cantabrigiensis), ambos do século V, e também o códice W (Washingtonianus) do século IV/V, portanto, da mesma época do Vaticanus e Sinaíticus e com as mesmas características egípcias de texto. Sobre versões antigas existe também uma ítala do século V (it(d) ), uma siríaca antiga do século V (sirp). Finalmente, chegamos no testemunho dos pais da igreja que trazem a expressão “τὸν υἱὸν αὐτῆς τὸν πρωτότοκον” em suas obras, mesmo trazendo alguma variação, pois, muitas vezes esses pais citavam os versículos de memória, e não olhando um manuscrito. Mesmo assim, podemos entender que eles tinham como base um manuscrito que trazia essas palavras. No quadro, podemos ver que são sete pais que datam do século IV e V, portanto, tão antigos quanto as testemunhas mais antigas ou os “melhores documentos”, como são chamados os códices e papiros egípcios pelos defensores do texto crítico.

Existe um outro detalhe: no segundo quadro podemos ver que a maioria esmagadora dos manuscritos gregos atestam a variante, e isso deve-se ao fato de que essa maioria de manuscritos antigos derivam de uma mesma região geográfica (Região Bizantina), onde entendemos que ali Deus preservou a Sua Palavra. Outro detalhe sobre a região Bizantina é que, se observamos na bíblia, muitas igrejas foram estabelecidas exatamente naquela região, por isso a preservação do texto grego ter sido tão bem feita ali, ao contrário da região Alexandrina de onde deriva o texto eclético.

Para finalizar, percebe-se a importância de uma variante para defender um dogma de uma determinada denominação nesse exemplo simples que detalhei. A omissão ou o acréscimo de palavras pode sim determinar os rumos de uma doutrina. Segundo a maioria das testemunhas e muitas até bem antigas, percebemos que em Mt 1.25 a frase “τὸν υἱὸν αὐτῆς τὸν πρωτότοκον” (seu filho, o primogênito) é original e em Lucas 2.7, que possivelmente foi escrito depois de Mateus, o escritor menciona a frase “seu filho primogênito”, atestando, assim o relato de Mateus. Sendo assim, podemos entender que Maria se relacionou com José naturalmente e geraram outros filhos, como nos mostram outras passagens dos evangelhos.

No vídeo abaixo comento sobre o tema eu meu canal no You tube:

Deus abençoe a todos!

 

  Referências

 

ALMEIDA, João Ferreira. A Bíblia Sagrada Revista e Atualizada, 2ª edição 1993, SBB, São Paulo;

_________ . A Bíblia Sagrada, edição Corrigida Fiel ao Texto Original, Sociedade Bíblica Trinitariana, São Paulo;

ANGLADA, Paulo. Manuscritologia do Novo Testamento – História, Correntes Textuais e o Final Longo de Marcos, 1ª edição:  Knox Publicações, Ananindeua – PA;

GOMES, Paulo Sérgio e OLIVETTI, Odayr. O NOVO TESTAMENTO INTERLINEAR ANALÍTICO GREGO-PORTUGUÊS – texto majoritário com aparato crítico. São Paulo: Cultura Cristã, 2ª ed. 2015;

O NOVO TESTAMENTO GREGO (vários autores), 4ª edição revisada, 1993, SBB: 13ª impressão, 2007;

PICKERING, Wilbur N. THE GREEK NEW TESTAMENT: According to the Family 35. Second Edition, 2015.

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Leydson Oliveira
Leydson Oliveira
Me chamo Leydson Oliveira. Sou formado em Pedagogia e pós-graduado em Gestão Escolar. Também tenho Bacharel em Teologia e atualmente sirvo na Igreja Batista da Adoração (IBA) na cidade de Mata Roma - MA.

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