Amando a Nossos Inimigos – A Cruz de Cristo

Gênesis 4.1-15 – Introdutórios a Genesis
09/12/2016
Gênesis 4.16-26 – Introdutórios a Genesis
10/12/2016

Amando a Nossos Inimigos – A Cruz de Cristo

Viver sob a cruz” significa que todos os aspectos da vida da comunidade cristã são moldados e coloridos por ela. A cruz não somente invoca a nossa adoração (de modo que desfrutamos uma celebração contínua e eucarística), e nos capacita a desenvolver uma auto-estima equilibrada (de modo que aprendemos tanto a compreender a nós mesmos como a dar de nós mesmos), mas ela também dirige a nossa conduta em relação com os outros, incluindo-se os nossos ini­migos. Devemos ser “imitadores de Deus, como filhos amados”, e andar “em amor, como também Cristo” nos amou “e se entregou a si mesmo por nós” (Efésios 5:1-2). Mais do que isso, devemos exibir em nossos relacionamentos a combinação de amor e justiça que ca­racterizou a sabedoria de Deus na cruz.

 

A reconciliação e a disciplina

Mas, como, na prática, devemos combinar amor e justiça, miseri­córdia e severidade, e assim andarmos no caminho da cruz, com freqüência é difícil saber e mais difícil ainda fazer. Tomemos a “re­conciliação” ou o “fazer a paz” como exemplo. Os cristãos são cha­mados para ser “pacificadores” (Mateus 5:9) e buscar a paz e empenhar-se por alcançá-la (1 Pedro 3:11). Ao mesmo tempo, reco­nhece-se que o fazer a paz jamais pode ser uma atividade unicamente unilateral. A instrução: “Tende paz com todos os homens” é quali­ficada com duas condições “se possível”, e “quanto depender de vós” (Romanos 12:18). O que devemos fazer, pois, quando é impossível viver em paz com alguém porque essa pessoa não está disposta a viver em paz conosco? O lugar onde devemos começar a nossa res­posta é na bem-aventurança já citada. Pois aí, ao dizer que os paci­ficadores são “bem-aventurados”, Jesus acrescentou que “serão chamados filhos de Deus”.1 Ele deve ter querido dizer que o fazer a paz é uma atividade tão caracteristicamente divina que, aqueles que nela se empenham, através dela revelam sua identidade e demons­tram sua autenticidade como filhos de Deus.

Porém, se quisermos que o nosso fazer a paz seja modelado se­gundo o de nosso Pai celestial, concluiremos imediatamente que é algo bem diferente de apaziguamento. Pois a paz que Deus concede, jamais é uma paz barata, mas sempre custosa. Ele é, de fato, o pa­cificador preeminente do mundo, mas quando decidiu reconciliar-se conosco, seus “inimigos”, que havíamos rebelado contra ele, “fez a paz” através do sangue da cruz de Cristo (Colossenses 1:20). A re­conciliação dele conosco, de nós com ele mesmo, e de judeus, gentios e outros grupos hostis uns com os outros, custou-lhe nada menos do que a dolorosa vergonha da cruz. Não temos o direito de esperar, portanto, que nosso empenho na obra da reconciliação não nos custe nada, quer nossa participação na disputa seja como o partido ofensor ou como o ofendido, quer como um terceiro partido ansioso a que inimigos voltem a ser amigos novamente.

Que forma pode tomar esse custo? Com freqüência, começará com o ouvir paciente e doloroso a ambos os lados, a tensão do testemunhar amarguras e recriminações, a luta por compreender cada posição, e o esforço de entender as incompreensões que causaram a ruptura da comunicação. O ouvir honesto pode revelar faltas não suspeitadas, as quais, por sua vez, precisarão ser admitidas, sem lançar mão de subterfúgios para preservar as aparências. Se a culpa for nossa, haverá a humilhação do pedido de desculpas, a humilhação mais profunda de fazer restituição onde for possível, e a humilhação mais profunda de todas que é confessar que as feridas que causamos levarão tempo para sarar e não podem ser facilmente esquecidas. Se, por outro lado, não fomos nós quem causamos o mal, então talvez tenhamos de suportar o embaraço de reprovar ou repreender a outra pessoa, ar­riscando, assim, perder a sua amizade. Embora os seguidores de Jesus jamais tenham o direito de recusar perdão, muito menos fazer vin­gança, não nos é permitido baratear o perdão, oferecendo-o prema­turamente onde não houver arrependimento. “Se teu irmão pecar contra ti”, disse Jesus, “repreende-o”, e só então “se ele se arrepen­der, perdoa-lhe” (Lucas 17:3).

O incentivo à pacificação é o amor, mas ele se degenera em apa­ziguamento sempre que a justiça é ignorada. Perdoar e pedir perdão são dois exercícios custosos. Toda pacificação cristã autêntica exibe o amor e a justiça — e, portanto, a dor — da cruz.

Voltando-nos dos relacionamentos sociais em geral para a vida fa­miliar em particular, os pais cristãos hão de querer que sua atitude para com os filhos seja marcada pela cruz. O amor é a atmosfera indispensável na qual os filhos crescem para a maturidade emocional

Contudo, esse não é o amor mole e sem princípios, que estraga as crianças, mas o “amor santo” que procura o seu bem-estar maior, não importando o custo. Deveras, visto que o próprio conceito de pater­nidade humana provém da eterna paternidade divina (Efésios 3:14-15), os pais cristãos hão de naturalmente modelar o seu amor no de Deus. Conseqüentemente, o verdadeiro amor paterno não elimina a disciplina, visto que “o Senhor corrige a quem ama”. De fato, é quando Deus nos corrige que ele nos trata como filhos. A falta de correção da parte de Deus poderia mostrar que somos seus filhos ilegítimos e não seus filhos autênticos (Hebreus 12:5-8).

O amor genuíno também se enraivece, sendo hostil a tudo o que, nos filhos, se opõe ao seu bem maior. A justiça sem a misericórdia é por demais severa, e a misericórdia sem a justiça é por demais le­niente. Além do mais, os filhos sabem disso automaticamente. Pos­suem um sentido inato de ambas as coisas. Se fizeram algo que sabem ser errado, também sabem que merecem a punição, e tanto desejam quanto esperam recebê-la. Sabem também de imediato se o castigo está sendo oferecido sem amor ou contrariamente à justiça. Os dois clamores mais pungentes de um filho são: “Ninguém me ama” e: “Não é justo”. O sentido de amor e justiça dos filhos vem de Deus, que os fez à sua imagem, e que se revelou como amor santo na cruz.

O princípio que se aplica à família, aplica-se também à família da igreja. Ambos os tipos de família precisam de disciplina, e pela mesma razão. Entretanto, hoje é rara a disciplina na igreja, e onde ela é exercida, muitas vezes é inabilmente administrada. As igrejas têm a tendência de oscilar entre a severidade extrema, que excomunga os membros pelas ofensas mais triviais, e a frouxidão extrema, que jamais nem mesmo admoesta os ofensores. O Novo Testamento, porém, oferece instruções claras acerca da disciplina, por um lado sua ne­cessidade por causa da santidade da igreja, e por outro, seu propósito construtivo, a saber, se possível, ganhar e restaurar o membro ofensor.

O próprio Jesus tornou bem claro que o objetivo da disciplina não era humilhar, muito menos alienar a pessoa envolvida; antes, ganhá-la de novo. Ele determinou um procedimento que se desenvolveria através de fases. A primeira fase é uma confrontação pessoal com o ofensor, “entre ti e ele só”, durante a qual, se ele o ouvir, será ganho. Se ele se recusar a ouvir, na segunda fase devem-se levar várias outras pessoas a fim de estabelecer a repreensão. Se ele ainda se recusar a ouvir, deve-se levar o caso à igreja, para que ele possa ter uma terceira oportunidade de se arrepender. Se ele ainda obstinadamente se re­cusar a ouvir, somente então deve ser excomungado (Mateus 18:15-17).

O ensino de Paulo era parecido com o de Jesus. O membro da igreja apanhado em pecado deve ser restaurado em espírito de brandura e humildade; isso seria um exemplo de levar os fardos uns dos outros e assim cumprir a lei do amor de Cristo (Gálatas 6:1-2). Mesmo a entrega a Satanás, mediante a qual presumivelmente Paulo se referia à excomunhão de um flagrante ofensor, tinha um propósito positivo, a fim de “não mais blasfemarem” (1 Timóteo 1:20), ou pelo menos a fim de que “o espírito seja salvo no dia do Senhor” (1 Coríntios 5:5). Assim toda ação disciplinar deve exibir o amor e a justiça da cruz.

Mais desconcertante do que esses exemplos extraídos da vida de indivíduos, da família e da igreja é a administração da justiça pelo estado. Pode a revelação de Deus na cruz ser aplicada também a esta área? Mais particularmente, pode o estado usar força, ou seria ela incompatível com a cruz? E claro que a cruz em si foi um ato conspícuo de violência pelas autoridades, envolvendo uma violação flagrante da justiça e uma execução brutal. Contudo, foi igualmente um ato cons­pícuo de não violência da parte de Jesus, que se permitiu ser injus­tamente condenado, torturado e executado sem resistir, muito menos retaliar. Além do mais, o Novo Testamento apresenta o comporta­mento dele como o modelo do nosso: “Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos” (1 Pedro 2:20-21). Entretanto, esse texto provoca muitas questões. Será que a cruz nos submete a uma aceitação não violenta de toda violência? Invalida ela o processo de justiça criminal e a assim chamada “guerra fria”? Proíbe a cruz o uso de todo tipo de força, de modo que os postos de soldado, policial, magistrado ou carcereiro seriam incompatíveis com o cristão?

 

Atitudes cristãs para com o mal

A melhor maneira de procurar respostas a essas perguntas é exa­minar com todo o cuidado os capítulos doze e treze da carta de Paulo aos Romanos. São parte do apelo que o apóstolo faz para que seus leitores cristãos reajam corretamente às “misericórdias de Deus”. Du­rante onze capítulos ele revelou a misericórdia de Deus tanto em entregar o seu Filho para morrer por nós como em nos conceder a plena salvação que ele, desse modo, obteve para nós. Qual deve ser a nossa resposta à misericórdia divina? Devemos (1) apresentar os nossos corpos a Deus por sacrifício vivo, e com mentes renovadas discernir e fazer a sua vontade (12:1-2); (2) pensar de nós mesmos com juízo sóbrio, nem vangloriando-nos de nós mesmos, nem despre-zando-nos a nós mesmos (v. 3); (3) amar uns aos outros, usando nossos dons a fim de servir uns aos outros, e viver em harmonia e humildade (vv. 4-13, 15-16); e (4) devemos abençoar os que nos perseguem e fazer o bem a nossos inimigos (vv. 14, 17-21). Por outras palavras, quando as misericórdias de Deus nos apanham, todos os nossos re­lacionamentos são radicalmente transformados: obedecemos a Deus, compreendemos a nós mesmos, amamos uns aos outros e servimos a nossos inimigos.

É pelo quarto relacionamento apresentado acima que nos interes­samos agora. A oposição dos incrédulos está subentendida. A pedra de tropeço da cruz (que oferece salvação como um dom livre e não merecido), o amor e a pureza de Jesus (que envergonham o egoísmo humano), os mandamentos prioritários de amar a Deus e ao próximo (que não deixam lugar para o amor próprio) e o chamado a tomar a nossa cruz (que é por demais ameaçador) — essas coisas despertam oposição a nós porque despertam oposição ao Senhor e ao seu evan­gelho. É esse, pois, o pano de fundo de nosso estudo do capítulo 12 de Romanos. Há pessoas que nos “perseguem” (v. 14), que nos fazem “mal” (v. 17), que até podem ser descritas como nossos “inimigos” (v. 20). Qual deve ser nossa reação para com nossos perseguidores e nossos inimigos? O que requerem de nós as misericórdias de Deus? Como deve a cruz, em que a misericórdia de Deus brilha no seu apogeu, influenciar a nossa conduta? De especial instrução, no se­guinte trecho de Romanos 12 e 13, são as quatro referências que Paulo faz ao bem e ao mal:

O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegando-vos ao bem. . . Abençoai aos que vos perseguem, aben­çoai, e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram. Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos. Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vin­gança; eu retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.

Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos con­denação. Porque os magistrados não são para temor quando se faz o bem, e, sim, quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da pu­nição, mas também por dever de consciência. Por esse mo­tivo também pagais tributos: porque são ministros de Deus, atendendo constantemente a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra (Romanos 12:9, 14—13:7).

Essa passagem tem a aparência de uma meditação autoconsciente sobre o tema do bem e do mal. Eis as quatro alusões do apóstolo a eles:

Detestai o mal, apegando-vos ao bem (12:9).

Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens (12:17).

Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem (12:21).

A autoridade é ministro de Deus para teu bem. . . É mi­nistro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal (13:4).

Esses versículos em particular definem qual deve ser nossa atitude para com o mal.

Primeiro, devemos odiar o mal. “O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegando-vos ao bem” (12:9). Essa justaposição do amor e do ódio parece imprópria. Normalmente vemos essas duas coisas como mutuamente exclusivas. O amor expulsa o ódio, e o ódio expulsa o amor. A verdade, porém, não é assim tão simples. Sempre que o amor é “sem hipocrisia”, é moralmente discernidor. Jamais finge que o mal seja qualquer outra coisa, nem o justifica. O comprometimento com o mal é incompatível com o amor. O amor busca o bem maior dos outros e, portanto, odeia o mal que o estraga. Deus odeia o mal porque seu amor é santo; nós também devemos odiá-lo.

Segundo, não devemos tornar a ninguém mal por mal. “Não torneis a ninguém mal por mal. . . não vos vingueis a vós mesmos, amados” (12:17,19). O povo de Deus está totalmente proibido de fazer vingança e retaliação. Pois tornar o mal por mal é acrescentar um mal a outro. E se odiámos o mal, como podemos acrescentar a ele? Ouvimos aqui um eco claro do Sermão do Monte: “Não resistais ao perverso”, Jesus dissera. Isto é, como esclarece o contexto, “não vos vingueis a vós mesmos”. E, na cruz, Jesus exemplificou com perfeição o seu próprio ensino, pois “quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado não fazia ameaças” (1 Pedro 2:23). Pelo contrário, devemos “fazer o bem” (12:17) e “viver em paz com todos os homens” (12:18). Isto é, o bem, não mal, e a paz, não a violência, devem caracterizar a nossa vida.

Terceiro, devemos vencer o mal. Uma coisa é odiar o mal e outra recusar-se a revidá-lo; melhor ainda é vencê-lo ou derrotá-lo. “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (12:21). Paulo indicou nos versículos anteriores o modo de se fazer isso, dando eco a mais palavras do Sermão do Monte. Jesus havia dito: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam.”2 Agora Paulo escreve: “Abençoai aos que vos perseguem” (12:14), e “se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer” (12:20).

Devemos desejar o bem às pessoas, abençoando-as, e fazer o bem às pessoas, servindo-as. Na nova comunidade de Jesus as maldições devem ser substituídas pelas bênçãos, a malícia pela oração, e a vin­gança pelo serviço. De fato, a oração extirpa a malícia do coração; os lábios que abençoam não podem, ao mesmo tempo, amaldiçoar; a mão que está ocupada no serviço fica restringida de fazer vingança. “Amontoar brasas vivas sobre a cabeça” do inimigo parece um ato inamistoso, incompatível com o amor por ele. Mas é uma figura de linguagem que significa causar um profundo sentimento de vergonha — não a fim de ferir ou humilhar, mas a fim de levá-lo ao arrepen­dimento, e assim, “vencer o mal com o bem”.

A tragédia do pagar o mal com o mal é que, ao fazê-lo, acrescen­tamos mal ao mal e assim, aumentamos a quantidade de mal no mundo. Isso ocasiona o que Martinho Lutero chamou de “a reação em cadeia do mal”, à medida que o ódio multiplica o ódio e a violência multiplica a violência “numa espiral descendente de destruição”.3 A glória de amar e servir a nossos inimigos, entretanto, é que, ao fazê-lo, dimi­nuímos a quantidade de mal no mundo. O exemplo supremo disso é a cruz. A disposição de Cristo de levar o escárnio dos homens e a ira de Deus trouxe salvação a milhões. A cruz é a única alquimia que transforma o mal em bem.

Quarto, o mal deve ser punido. Se considerássemos apenas as três primeiras atitudes para com o mal, seríamos culpados de grave seletividade bíblica e, portanto, de desequilíbrio. Pois Paulo prossegue a escrever acerca do castigo do mal pelo estado. Todos aqueles que lêem com cuidado esses capítulos percebem o contraste — até mesmo uma aparente contradição — que contêm. O apóstolo diz-nos que não devemos vingar-nos a nós mesmos e que a vingança pertence a Deus (12:19). Novamente, diz-se-nos que não devemos tornar a ninguém mal por mal e que Deus retribuirá (12:17, 19). Assim, primeiro se nos proíbem a vingança e a retribuição, e a seguir são atribuídas a Deus. Não é isso intolerável? Não. O motivo por que essas coisas nos são proibidas não é que o mal não mereça ser castigado (ele merece, e deve ser punido), mas que a prerrogativa de castigo é de Deus e não nossa.

Assim, como Deus castiga o mal? De que modo ele expressa a sua ira contra os malfeitores? A resposta que de imediato me vem à mente é “no juízo final”, e isso é verdade. Os impenitentes estão acumu­lando ira contra si mesmos “para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus” (Romanos 2:5). Mas temos de esperar até esse dia? Não há outro modo pelo qual a ira de Deus se revela agora?

Há, de acordo com Paulo. O primeiro modo encontra-se na dete­rioração progressiva de uma sociedade ímpia, mediante o qual Deus “entrega” à depravação descontrolada de mente e conduta aqueles que deliberadamente sufocam o conhecimento que têm de Deus e da bondade (Romanos 1:18-32). Esse é um resultado da ira divina. O segundo é mediante os processos judiciais do estado, visto que a autoridade é “ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (Romanos 13:4). Nesse sentido, escreve o Dr. Cranfield, o estado é “uma manifestação parcial, antecipada e provisional da ira de Deus contra o pecado”.4

É importante observar que Paulo usa os mesmos termos no final do capítulo 12 de Romanos e no início do 13. As palavras “ira” (orgé) e “vingança/castigo” (ekdikesis e ekdikos) ocorrem em ambas as pas­sagens. Embora sejam proibidas ao povo de Deus em geral, são de­signadas aos “ministros” de Deus em particular, a saber, os oficiais do estado. Muitos cristãos encontram grande dificuldade no que per­cebem aqui ser uma “dualidade” ética.5 Gostaria de tentar esclarecer essa questão.

Primeiro, Paulo não está comparando duas entidades, a igreja e o estado, como na doutrina bem conhecida de Lutero acerca dos dois reinos, o reino da destra de Deus (a igreja), que possui uma respon­sabilidade espiritual exercida mediante o poder do evangelho, e o reino da sua esquerda (o estado) que possui uma responsabilidade política ou temporal exercida mediante o poder da espada. Jean Lasserre denomina esse ponto de “doutrina tradicional” (pois Calvino também a sustentava, embora a tenha expressado com termos dife­rentes), e o resume da seguinte maneira:

Deus encarregou a igreja com o dever de pregar o evan­gelho, e o estado com o dever de assegurar a ordem política; o cristão é tanto membro da igreja como cidadão do país; na primeira condição, ele deve obedecer a Deus, conformando-se à ética do evangelho. . . na última condição, ele deve obedecer a Deus, conformando-se à ética política da qual o juiz é o estado. . .6

É verdade que Deus concede à igreja e ao estado responsabilidades diferentes, ainda que seja necessário acentuar que elas se sobrepõem, não são dirigidas por éticas diversas e ambas estão sob o senhorio de Cristo. Mas na realidade não é essa a questão dos capítulos 12 e 13 de Romanos.

Segundo, Paulo não está fazendo diferença entre duas esferas de atividade cristã, a privada e a pública, de modo que (para dizê-lo de uma maneira um pouco rude) devemos amar nossos inimigos em particular e odiá-los em público. O conceito de um padrão duplo de moralidade, privado e público, deve ser rejeitado com firmeza; há apenas uma moralidade cristã.

Terceiro, o que Paulo faz é distinguir entre dois papéis, o pessoal e o oficial. Os cristãos são sempre cristãos (na igreja e no estado, em público e em particular), sob a mesma autoridade moral de Cristo, mas recebem papéis diferentes (no lar, no trabalho e na comunidade) os quais tornam apropriadas diferentes ações. Por exemplo, o cristão no papel de policial pode usar a força para prender um criminoso, o que, no papel de um simples cidadão ele não pode fazer; ele pode, como juiz, condenar um preso que foi achado culpado, ao passo que Jesus disse a seus discípulos: “Não julgueis, para que não sejais jul­gados”; ele pode, como carrasco (assumindo que a pena capital possa ser justificada em algumas circunstâncias) matar um condenado, em­bora lhe seja proibido assassinar. (A pena capital e a proibição do assassínio vão juntas na lei mosaica.) Isso não quer dizer que prender, julgar e executar sejam intrinsecamente errados (o que estabeleceria moralidades diferentes para a vida pública e a vida privada), mas que são reações certas ao comportamento criminoso, as quais, contudo, Deus confiou a oficiais particulares do estado.

Essa é, pois, a distinção que Paulo faz nos capítulo 12 e 13 de Romanos entre a não retribuição do mal e o seu castigo. As proibições do final do capítulo 12 não significam que o mal deve ser deixado sem punição até o dia do juízo, mas que o castigo deve ser adminis­trado pelo estado (como o agente da ira de Deus) e que não é apro­priado que os cidadãos comuns tomem a lei em suas próprias mãos.

É essa distinção que os pacifistas cristãos acham difícil aceitar. Têm a tendência de descansar o seu caso no ensino e exemplo de Jesus da não retaliação, presumindo que a retaliação é errada em si mesma. Mas a retaliação não é errada, visto que o mal merece ser punido, deve ser punido e, de fato, será punido. O próprio Jesus disse que “o Filho do homem. . . retribuirá a cada um conforme as suas obras” (Mateus 16:27), onde o verbo é semelhante ao de Romanos 12:19.

Essa verdade aparece até mesmo no relato que Pedro faz da própria não retaliação de Jesus. “Quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1 Pedro 2:23). Na linguagem de Paulo, ele deixou o revide para a ira de Deus. De modo que, mesmo quando Jesus estava orando pelo perdão dos seus executores, e até mesmo quando se entregava em santo amor pela nossa salvação, a necessidade de julgamento divino sobre o mal não se encontrava ausente da sua mente. Deveras, ele próprio estava vencendo o mal nesse preciso momento, pois levava o seu justo castigo sobre si mesmo.

A autoridade do estado

Chegamos agora a outra questão perturbadora na procura em re­lacionar a cruz ao problema do mal, a saber, como os cristãos deviam ver o estado e a sua autoridade. Um estudo cuidadoso do capítulo 13 de Romanos devia ajudar-nos evitar os extremos de divinizá-lo (con­siderá-lo sempre certo) ou demonizá-lo (considerá-lo sempre errado). A atitude cristã para com o estado deve ser, pelo contrário, a de respeito crítico. Permita-me tentar resumir o ensino de Paulo aqui acerca da autoridade do estado sob quatro pontos, relacionando-os à sua origem, propósito pelo qual foi dada, meio pelo qual deve ser exer­cida e reconhecimento que deve receber. Em cada um desses casos, a autoridade do estado tem limites.

Primeiro, a origem de sua autoridade é Deus. “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus” (v. Ia). “As autoridades que existem foram por ele instituídas” (v. 1b). “De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus” (v. 2), Essa perspectiva já era clara no Antigo Testamento.7 Contudo, não devemos pensar nas funções do estado somente em termos de “autoridade”, mas também de “mi­nistério”. Pois “a autoridade” (que parece ser uma referência genérica que pode incluir qualquer oficial, desde o policial ao juiz) “é ministro de Deus para teu bem” (v. 4a). Ele o repete, “pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (v. 4b). Ele repete ainda uma vez que o motivo pelo qual devemos pagar impostos é que as autoridades são “ministros de Deus, atentando constantemente a este serviço” (v. 6).

Confesso que acho extremamente impressionante Paulo escrever acerca da “autoridade” e do “ministério” do estado; que três vezes ele afirma que a autoridade do estado é a autoridade de Deus; que três vezes ele descreve o estado e seus ministros como ministros de Deus, usando duas palavras (diakonos e leitourgos) que em outro lugar aplicou a seu próprio ministério de apóstolo e evangelista, e até mesmo ao ministério de Cristo.8 Não acho que há uma maneira de escaparmos a essa verdade, por exemplo mediante a interpretação do parágrafo como uma aquiescência de má vontade às realidades do poder político. Não. A despeito dos defeitos do governo romano, dos quais ele tinha conhecimento pessoal, Paulo enfaticamente declarou que a autoridade e o ministério desse governo pertencia a Deus. É a origem divina da autoridade do estado que torna a submissão cristã uma questão de “consciência” {v. 5).

Entretanto, o fato de que a autoridade do estado foi delegada por Deus, e portanto, não ser intrínseca, mas derivada, significa que ja­mais deve ser absolutista. A adoração pertence a Deus somente, e a seu Cristo, que é o Senhor de todo poder e autoridade (Efésios 1:21-22) e o “soberano dos reis da terra” (Apocalipse 1:5; cf. 19:16). O estado deve ser respeitado como instituição divina, mas prestar-lhe fidelidade irrestrita e absoluta seria idolatria. Os cristãos primitivos recusaram-se a chamar César de “senhor”; esse título pertencia a Jesus somente.

Segundo, o propósito pelo qual Deus deu autoridade ao estado é recompensar (e assim promover) o bem e punir (e assim restringir) o mal. Por outro lado, pois, o estado “louva” (dá sua aprovação) àqueles que fazem o bem (v. 3) — mediante as honrarias que concede a seus cidadãos preeminentes — e existe para “teu bem” (v. 4). Essa frase não é explicada, mas certamente cobre todos os benefícios sociais do bom governo, na preservação da paz, na manutenção da lei e da ordem, na proteção dos direitos humanos, na promoção da justiça e no cuidado dos necessitados.

Por outro lado, o estado, como ministro de Deus e agente da sua ira, pune os malfeitores (v. 4), levando-os à justiça. Os estados mo­dernos têm a tendência de serem melhores no primeiro caso que no último. Suas estruturas para o cumprimento das leis são mais sofis­ticadas do que as que se destinam ao estímulo positivo da boa cida­dania mediante recompensas pelo serviço público e filantropia. Entretanto, os castigos e as recompensas vão juntos. O apóstolo Pedro também os relaciona quando, talvez fazendo eco ao capítulo 13 de Romanos, e certamente escrevendo depois que os cristãos tinham começado a sofrer perseguição em Roma, afirma a mesma origem divina, e propósito construtivo do estado como “[autoridades] envia­das por ele, tanto para castigo dos malfeitores, como para louvor dos que praticam o bem” (1 Pedro 2:14).

Entretanto, a função dupla do estado requer um alto grau de dis­cernimento. Somente o bem deve ser recompensado, somente o mal punido. Não há aqui permissão para uma distribuição arbitrária de favores nem penalidades. Particularmente com referência ao cum­primento da lei. Em tempo de paz os inocentes devem ser protegidos, e em tempo de guerra os não combatentes devem ter a garantia da imunidade. A ação da polícia é ação discriminada, e a Bíblia coeren­temente expressa seu horror para com o derramamento do sangue inocente. O mesmo princípio de discriminação é um aspecto essencial da teoria da “guerra justa”. É por isso que esse texto torna ilegal todo uso de armas indiscriminadas (atômicas, biológicas e químicas) e todo uso indiscriminado de armas convencionais (por exemplo, o bom­bardeio até o ponto de saturação de cidades civis) usos profundamente ofensivos à consciência cristã.

Terceiro, o meio pelo qual a autoridade do estado é exercida deve ser tão controlado quanto os seus propósitos são discriminados. A fim de proteger o inocente e punir o culpado, é claramente necessário que às vezes deve-se usar a coerção. Autoridade subentende poder, embora tenhamos de fazer distinção entre violência (o uso de poder sem controle e sem princípios) e força (seu uso com controle e prin­cípios para prender malfeitores, mantê-los sob custódia, levá-los à justiça e, se condenados e sentenciados, obrigá-los a levar o castigo).

A autoridade do estado pode estender-se até à tomada judicial da vida. Pois a maioria dos comentaristas interpretam a “espada” que o estado traz (v. 4) como símbolo não apenas da autoridade geral que tem de punir, mas também como sua autoridade específica de ou infligir a penalidade capital ou declarar guerra, ou fazer ambas as coisas.9 Lutero e Calvino argumentaram que era legítimo extrapolar nesse parágrafo a fim de incluir a “guerra justa”, visto que os “mal­feitores” a que o estado tem autoridade de punir podem ser agressores que o ameaçam de fora, como também criminosos que o ameaçam de dentro.

Há, claramente, diferenças óbvias entre sentenciar e punir um cri­minoso, por um lado, e declarar e travar guerra contra um agressor, por outro. Em particular, no combate não há nem juiz nem tribunal. Ao declarar guerra, o estado está agindo como juiz em sua própria causa, visto que ainda não existe nenhum corpo independente que arbitre as disputas internacionais. E os procedimentos fixos e a at­mosfera fria e impassível do tribunal não possuem paralelos no campo de batalha. Entretanto, como demonstrou o professor Oliver 0’Do-novan, o desenvolvimento da teoria da guerra justa “representou uma tentativa sistemática para interpretar os atos de guerra por analogia aos atos do governo civil”,10 e assim, procura vê-los como pertencentes ao “contexto da administração da justiça” e como sujeitos aos “pa­drões restritivos da justiça executiva.”11 De fato, quanto mais um conflito pode ser representado em termos da procura da justiça, tanto mais forte será o caso feito por sua legitimidade.

O uso que o estado faz da força, sendo estritamente limitado ao propósito particular para o qual foi dada, deve, com igual severidade, ser limitado a indivíduos particulares, isto é, levar criminosos à justiça. Não se pode encontrar desculpa alguma no capítulo 13 de Romanos para as medidas repressivas do estado policial. Em todas as nações civilizadas, tanto a polícia como o exército possuem instruções para usar “a mínima força necessária” — suficiente apenas para realizar a sua tarefa. Durante a guerra a força tem de ser controlada como também discriminada. A consciência cristã é proteção contra a es­pantosa capacidade de morticínio dos arsenais nucleares atuais.

Quarto, estabelece-se o devido reconhecimento à autoridade do es­tado. Os cidadãos devem estar “sujeitos” às autoridades governa­mentais porque foi Deus quem as instituiu (v. 1). Em conseqüência, os que se “opõem” a elas estão resistindo a Deus, e trazem o castigo sobre si mesmos (v.2). Contudo, é necessário que o cristão se submeta não somente a fim de evitar o castigo mas também para manter uma boa consciência (v. 5). O que, pois, está incluído em nossa submissão? Certamente devemos cumprir as leis (1 Pedro 2:13) e pagar os im­postos (v. 6). Também devemos orar pelos governantes (1 Timóteo 2:1-2).

Exemplo, impostos e oração são três modos de estimular o estado a cumprir suas responsabilidades dadas por Deus. O irmos mais longe e sugerirmos que a “submissão” devida incluirá a cooperação, e até mesmo a participação no trabalho do estado, possivelmente depen­derá de ser nossa eclesiologia luterana, reformada ou anabatista. Fa­lando por mim mesmo, visto que a autoridade e o ministério do estado pertence a Deus, não vejo motivo para evitar, e toda razão para par­tilhar do seu serviço determinado por Deus.

Entretanto, deve haver limites à nossa submissão. Embora (em teo­ria, segundo o propósito de Deus), “os magistrados não são para temor quando se faz o bem” (v. 3), Paulo sabia que um procurador romano havia condenado Jesus à morte, e ele próprio de vez em quando tinha sido vítima da injustiça romana. Portanto, o que devem fazer os cristãos se o estado usar mal sua autoridade dada por Deus, perverter seu ministério dado por Deus e começar a promover o mal e punir o bem? O que se deve fazer se o estado cessar de ser ministro de Deus e tornar-se ministro de Satanás, perseguir a igreja em vez de protegê-la, e exercer uma autoridade malévola derivada não de Deus, mas do dragão (Apocalipse 13)? Então o quê?

Respondemos que ainda nesse caso os cristãos devem respeitar um estado ímpio, assim como os filhos devem respeitar a pais maus, mas não se requer deles uma submissão mansa. O apóstolo não estimula o regime totalitário. É nosso dever criticar e protestar, agitar e de­monstrar, e até mesmo (em situações extremas) resistir ao ponto de quebrar a lei por meio da desobediência. A desobediência civil é, de fato, um conceito bíblico honrado particularmente por Daniel e seus amigos no Antigo Testamento e pelos apóstolos Pedro e João no Novo.12 O princípio é claro. Visto que a autoridade do estado lhe foi dada por Deus, devemos sujeitar-nos até o ponto em que obedecer ao estado seria desobedecer a Deus. Nesse ponto, se o estado ordenar o que Deus proíbe, ou proibir o que Deus ordena, desobedecemos ao estado a fim de obedecer a Deus. Como os apóstolos disseram ao Sinédrio: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens.”13

Se, em circunstâncias extremas, a desobediência é permissível, será a rebeldia também permissível? É certo que a tradição cristã da “guerra justa” às vezes se tem estendido ao ponto de incluir a “revolução justa”. Mas as mesmas rigorosas condições destinadas à guerra apli­cam-se à revolta armada. Estas se relacionam com justiça (a necessi­dade de derrubar uma tirania manifestadamente ímpia), restrição (último recurso apenas, tendo sido esgotadas todas as outras opções), discriminação e controle (no uso da força), proporção (o sofrimento causado deve ser menor do que o que está sendo suportado), e con­fiança (uma expectativa razoável de êxito). Uma aplicação conscienciosa desses princípios fará que o drástico passo da rebelião seja muito raro.

Permita-me resumir os aspectos e limitações correspondentes da autoridade do estado. Visto ter sido a sua autoridade delegada por Deus, devemos respeitá-lo mas não adorá-lo. Visto que o propósito de sua autoridade é punir o mal e promover o bem, não tem desculpa alguma para exercer o governo arbitrário. A fim de cumprir esse propósito, ele pode usar a coerção, mas somente a mínima força necessária, não a violência indiscriminada. Devemos respeitar o es­tado e seus oficiais, dando-lhes uma submissão discernidora, não uma subserviência inquestionada.

 

Vencendo o mal com o bem

Tendo passado, em nosso estudo dos capítulos 12 e 13 de Romanos, do ódio ao mal, através da não retaliação e da conquista do mal, ao seu castigo, resta-nos o problema de harmonização. Vimos que o mal deve e não deve ser recompensado, dependendo de quem for o agente. Mas como pode o mal ser ao mesmo tempo “vencido” (12:21) e “punido” (13:4)? Essa é uma questão mais difícil e vai ao coração do debate entre os pacifistas cristãos e os teoristas da guerra justa. A mente cristã vai de uma vez à cruz de Cristo, porque lá essas duas coisas foram reconciliadas. Deus venceu o nosso mal justificando-nos somente porque ele primeiro o condenou em Cristo, e remindo-nos somente porque ele primeiro pagou o preço do resgate. Ele não venceu o mal mediante a recusa de puni-lo, mas aceitando ele mesmo o castigo. Na cruz o mal humano foi punido e vencido, e tanto a mi­sericórdia como a justiça de Deus foram satisfeitas.

Como, pois, podem essas duas coisas ser reconciliadas em nossas atitudes para com o mal hoje? A luz da cruz de Cristo, os cristãos não podem aceitar nenhuma atitude para com o mal que se desvie do seu castigo numa tentativa de vencê-lo, ou o pune sem procurar vencê-lo. Certamente o estado, como agente da ira de Deus, deve dar testemunho da sua justiça, castigando os malfeitores. Mas o povo cristão também deseja dar testemunho da sua misericórdia. Dizer que os indivíduos são dirigidos pelo amor e os estados pela justiça, é uma simplificação exagerada. Pois o amor individual não deve ser indi­ferente à justiça, nem deve a administração da justiça pelo estado desprezar esse amor pelo próximo que é o cumprimento da lei. Além do mais, o estado, em sua busca da justiça, não está sob a obrigação de exigir a penalidade máxima permitida por lei. O próprio Deus que estabeleceu o princípio de “vida por vida” protegeu a vida do primeiro assassino (Gênesis 4:15). Circunstâncias extenuantes ajudarão a tem­perar a justiça com a misericórdia. O retributivo (punir o malfeitor) e o reformativo (reabilitá-lo) vão lado a lado, pois então o mal é si­multaneamente punido e vencido.

É consideravelmente mais difícil imaginar tal reconciliação no tempo de guerra, quando são nações e não indivíduos que estão envolvidas. Mas pelo menos os cristãos devem lutar com o dilema e tentar não polarizá-lo. Os teoristas da “guerra justa” tendem a se concentrar na necessidade de resistir ao mal e puni-lo, e desprezar o outro man­damento bíblico de vencê-lo. Os pacifistas, por outro lado, tendem a se concentrar na necessidade de vencer o mal com o bem, e se es­quecem de que segundo a Escritura o mal merece ser punido. Podem essas duas ênfases bíblicas ser reconciliadas? Os cristãos pelo menos acentuarão a necessidade de olhar além da derrota e da rendição do inimigo nacional ao seu arrependimento e reabilitação. A assim cha­mada “política do perdão”, recentemente desenvolvida por Haddon Willmer,14 é relevante neste ponto. David Atkinson resume essa ên­fase muito bem:

O perdão é um conceito dinâmico de mudança. Recusa-se a ser apanhado num determinismo fatalístico. Reconhece a realidade do mal, do erro e da injustiça, mas procura reagir ao erro de modo que seja criador de novas possibi­lidades. O perdão assinala uma aproximação ao erro em termos, não de paz a qualquer preço, nem de uma intenção destrutiva de desfazer-se do malfeitor, mas de uma dis­posição em procurar remodelar o futuro à luz do erro, do modo mais criativo possível.15

Na cruz, ao mesmo tempo exigindo e levando a penalidade do pecado, e assim, simultaneamente punindo e vencendo o mal, Deus demonstrou o seu santo amor; o santo amor da cruz deve caracterizar nossa resposta aos malfeitores hoje.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *