A Penetrante Influência da Cruz – A Cruz de Cristo

Gênesis 5 – Introdutórios a Genesis
11/12/2016
Gênesis 6.1-13 – Introdutórios a Genesis
12/12/2016

A Penetrante Influência da Cruz – A Cruz de Cristo

No primeiro capítulo procurei estabelecer a centralidade da cruz na mente de Cristo, na Escritura e na história; no último examinarei como, a partir desse centro, a influência da cruz se estende para fora até penetrar toda a vida e fé cristã. Antes, porém, de desenvolver esse tema, pode-nos ser útil pes­quisar o território que atravessamos.

Em resposta à pergunta “Por que Cristo morreu?” refletimos que, embora Judas o tivesse entregado aos sacerdotes, os sacerdotes a Pilatos, e Pilatos aos soldados, o Novo Testamento indica que o Pai o “entregou” e que Jesus “deu-se a si mesmo” por nós. Essa verdade nos levou a olhar abaixo da superfície ao que estava acontecendo, e investigar as implicações das palavra de Jesus no cenáculo, no jardim do Getsêmani e examinar o grito de abandono.

Já se tornara evidente que sua morte relacionava-se com nossos pecados, e, assim, na Segunda Parte chegamos ao próprio coração da cruz. Começamos tratando do problema do perdão como o conflito entre a majestade de Deus e a gravidade do pecado. E embora te­nhamos rejeitado as teorias da “satisfação”, concluímos no capítulo 5 que Deus deve “satisfazer-se a si mesmo”. Isto é, ele não pode contradizer a si mesmo, mas deve agir de modo que expresse seu perfeito caráter de santo amor. Mas como podia ele fazer isso? Nossa resposta (capítulo 6) foi que a fim de satisfazer a si mesmo ele subs­tituiu-se a si mesmo em Cristo por nós. Ousamos apresentar a “auto-satisfação pela auto-substituição” como a essência da cruz.

Na Terceira Parte olhamos além da cruz para suas conseqüências, deveras, sua realização, em três esferas: a salvação dos pecadores, a revelação de Deus e a conquista do mal. Quanto à salvação, estudamos as quatro palavras “propiciação”, “redenção”, “justificação” e “re­conciliação”. Essas são “imagens” do Novo Testamento, metáforas do que Deus fez na morte de Cristo e por meio dela. Contudo, a “substituição” não é outra imagem; é a realidade que jaz por trás de todas elas. Vimos, então (capítulo 8), que Deus revelou completa e final­mente o seu amor e justiça exercendo-os na cruz. Quando se nega a substituição, obscurece-se a auto-revelação de Deus, mas quando se afirma a substituição, o brilho da sua glória aumenta. Assim, tendo-nos concentrado até aqui na cruz tanto como realização objetiva (sal­vação do pecado) quanto influência subjetiva (mediante a revelação do santo amor), concordamos em que Christus Victor é um terceiro tema bíblico, o qual retrata a vitória de Cristo sobre o diabo, a lei, a carne, o mundo e a morte, e a nossa vitória através dele (capítulo 9). Dei o título de “Vivendo Sob a Cruz” à Quarta Parte porque a comunidade cristã é essencialmente uma comunidade da cruz. De fato, a cruz radicalmente alterou todos os nossos relacionamentos. Agora adoramos a Deus em celebração contínua (capítulo 10), com­preendemos a nós mesmos e damos a nós mesmos no serviço a outros (capítulo 11), amamos os nossos inimigos, procuramos vencer o mal com o bem (capítulo 12), encarando o desconcertante problema do sofrimento à luz da cruz (capítulo 13).

 

Sete afirmações na carta aos Gálatas

A fim de enfatizar, em conclusão, a influência penetrante da cruz, a saber, que não podemos eliminá-la de nenhuma área de nosso pensamento e vida, examinaremos a carta de Paulo aos Gálatas. São dois os motivos principais dessa escolha. Primeiro, indiscutivelmente é a primeira carta do apóstolo. Não é este o lugar para determinar os prós e os contras das teorias gálata-sul ou gálata-norte. A semelhança com a carta aos Romanos pode sugerir a última data, mas a situação pressuposta em Gálatas se enquadra melhor na cronologia de Atos e fortemente favorece uma data anterior. Nesse caso a carta foi escrita por volta de 48 A.D., quinze anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Segundo, o evangelho de Paulo em Gálatas (o qual ele defende, juntamente com sua autoridade apostólica, como vindo de Deus, não do homem) focaliza-se na cruz. Deveras, a carta contém sete admi­ráveis afirmações acerca da morte de Jesus, e cada uma delas ilumina uma faceta diferente. Colocando-as juntas, obtemos uma compreen­são espantosamente completa da influência penetrante da cruz.

  1. A cruz e a salvação (1:3-5)

Graça a vós outros e paz da parte de Deus nosso Pai, e do nosso Senhor Jesus Cristo, o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai, a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Essas palavras fazem parte da saudação introdutória de Paulo. Em geral uma saudação epistolar como essa seria casual ou convencional. Mas Paulo a usa como uma declaração teológica cuidadosamente equi­librada acerca da cruz, a qual indica o interesse do apóstolo na carta.

Primeiro, a morte de Jesus foi tanto voluntária quanto determinada. Por um lado, ele “se entregou a si mesmo pelos nossos pecados”, livre e voluntariamente. Por outro, sua autodoação foi “segundo a vontade de nosso Deus e Pai”. Deus Pai propôs e desejou a morte de seu Filho e a predisse nas Escrituras do Antigo Testamento. Contudo, Jesus abraçou esse propósito de livre e espontânea vontade. Ele dispôs sua vontade a fim de fazer a vontade do Pai.

Segundo, a morte de Jesus foi pelos nossos pecados. O pecado e a morte são integralmente relacionados através da Escritura como causa e efeito, como já vimos. Geralmente o que peca e o que morre são a mesma pessoa. Aqui, entretanto, embora os pecados sejam nossos, a morte é de Cristo: ele morreu pelos nossos pecados, levando a pe­nalidade deles em nosso lugar.

Terceiro, o propósito da morte de Jesus foi resgatar-nos. A salvação é uma operação de resgate, empreendida pelas pessoas cuja situação é tão desesperadora que não podem salvar-se a si mesmas. Em especial, ele morreu a fim de nos salvar “deste mundo perverso”. Tendo Cristo inaugurado uma nova era, as duas eras se sobrepõem no presente. Mas ele morreu a fim de nos resgatar da antiga era e assegurar nossa transferência à nova, de modo que já vivêssemos a vida da era vin­doura.

Quarto, o resultado presente da morte de Jesus é graça e paz. “Graça” é o seu favor livre e imerecido, e “paz” é a reconciliação com ele e uns com os outros, fruto da operação da graça. A vida da era vindoura é uma vida de graça e paz. Paulo continua a referir-se a ela nos versí­culos seguintes, nos quais ele exprime seu espanto de que os Gálatas tão rapidamente tivessem desertado aquele que os tinha chamado “na graça de Cristo” (v. 6). Pois o chamado de Deus é um chamado da graça, e o evangelho de Deus é um evangelho da graça.

Quinto, o resultado eterno da morte de Jesus é que Deus será glorificado para sempre. As referências dos versículos 3-5 à graça e à glória, como parte da mesma sentença, são surpreendentes. A graça provém de Deus; a glória é devida a ele. Esse epigrama contém toda a teologia cristã.

Aqui, pois, em uma sentença grávida, carregada, encontra-se a primeira declaração de Paulo em Gálatas acerca da cruz. Embora ela tivesse sido determinada eternamente pela vontade do Pai, Jesus se entregou voluntariamente por nós. A natureza da sua morte foi sofrer a penalidade pelos nossos pecados, e o seu propósito resgatar-nos da antiga era e transferir-nos à nova, na qual recebemos graça e paz no presente e Deus recebe glória para sempre.

  1. A cruz e a experiência (2:19-21)

Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.

Se já não conhecêssemos o versículo 20, ele nos pareceria extraor­dinário. Que Jesus Cristo foi crucificado sob Pôncio Pilatos é fato histórico estabelecido, mas o que estaria Paulo querendo dizer ao afirmar que ele foi crucificado com Cristo? Como fato físico era, ma­nifestamente, inverdade, e como fato espiritual era difícil de com­preender.

Necessitamos examinar o contexto. Os versículos 15-21 em geral tratam da justificação, como um Deus justo pode declarar justos os injustos. Mas, em especial, afirmam que os pecadores são justificados não pela lei (que recebe sete referências) mas pela graça de Deus mediante a fé. Três vezes no versículo 25 o apóstolo insiste em que ninguém pode ser justificado pela lei. Teria sido muito difícil afirmar com mais força do que ele o faz a impossibilidade da autojustificação, isto é, de ganharmos a aceitação pela obediência da lei. Por que acon­tece isso? Porque a lei condena o pecado e prescreve a morte como sua penalidade. Assim, a função da lei é condenar, não justificar.

Visto que a lei clama por minha morte como infrator da lei, como posso ser justificado? Somente cumprindo o requisito e morrendo a morte exigida por ela. Se eu mesmo tivesse de fazer tudo isso, con­tudo, seria meu fim. De modo que Deus providenciou outra maneira. Cristo levou a penalidade da minha quebra da lei, e a bênção do que ele fez se tornou minha porque estou unido com ele. Sendo um com Cristo, posso dizer: “morri para a lei” (v. 19), cumprindo as suas exigências, porque “estou crucificado com Cristo” e agora ele vive em mim (v. 20).

Como acontece em Romanos 6 e em Gálatas 2, a declaração de nossa morte e ressurreição com Cristo é a resposta de Paulo à acusação de antinomianismo. E óbvio que ninguém pode ser justificado me­diante a observância da lei. Mas isso não significa que estou livre para quebrá-la. Pelo contrário, é inconcebível que eu continue a pecar. Por quê? Porque morri; fui crucificado com Cristo; minha vida de pecados recebeu a condenação que merecia. Em conseqüência eu (o eu velho e pecaminoso) já não vivo. Mas Cristo vive em mim. Ou, como é evidente que estou vivo, posso dizer que a vida que agora vivo é completamente diferente. E o velho “eu” (pecaminoso, rebelde e cul­pado) que já não vive. É o novo “eu” (justificado e livre de conde­nação) que vive pela fé no Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim.

E importante compreendermos que Paulo se refere à morte e à ressurreição de Cristo, e à nossa morte e ressurreição mediante a união com ele. O apóstolo apresenta a mesma verdade de duas maneiras. Com referência à morte de nossa velha vida, ele pode dizer: “me amou e a si mesmo se entregou por mim” e: “morri. . . Estou crucificado com Cristo”. Com referência à ressurreição a uma nova vida, ele pode dizer: “Cristo vive em mim” e “vivo para Deus” (v. 19) ou: “Vivo pela fé no Filho de Deus” (v. 20).

Resumindo, Cristo morreu por mim, e eu morri com ele, cumprindo as exigências da lei e pagando a justa penalidade do pecado. Então Cristo ressurgiu e vive. E eu vivo por meio dele, partilhando sua vida de ressurreição. A justificação pela fé, pois, não elimina a graça de Deus (v. 21). Nem (como em Romanos 6) a toma por assentado, dizendo: “onde o pecado abundou, superabundou a graça”. Não, a justificação mediante a fé magnifica a graça de Deus, declarando que a justificação é pela graça somente. É o conceito de justificação pela lei que elimina a graça de Deus, pois se uma situação justa diante de Deus fosse possível pela obediência à lei, então a morte de Cristo seria supérflua.

  1. A cruz e a pregação (3:1-3)

Ó Gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei, ou pela pregação da fé? Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais agora vos aperfeiçoando na carne?

Paulo acabou de descrever (em 2:11-14) seu encontro público com Pedro em Antioquia, porque Pedro havia-se afastado da comunhão da mesa com os gentios cristãos, e, assim, de fato havia contraditado a livre aceitação de Deus deles pela graça. Paulo prosseguiu a ensaiar os argumentos que tinha usado com Pedro a fim de provar a doutrina da justificação pela fé. Agora ele se lança numa expressão de espan­tada indignação. Ele acusa os Gálatas de insensatez. Ele usa a palavra “insensato” (anoetos) duas vezes, que significa ter falta de nous, in­teligência. A insensatez deles é tão incaracterística e tão inaceitável que o apóstolo pergunta quem os “fascinou”. Ele implica que devem ter sido enfeitiçados, talvez pelo Arquienganador, embora sem dúvida por meio de falsos mestres humanos. Pois a sua distorção presente do evangelho é totalmente incompatível com o que ouviram de Paulo e de Barnabé. Ele, portanto, lembra-os de sua pregação de quando esteve com eles. Ele retratou a Jesus Cristo publicamente perante os seus olhos como tendo sido crucificado por causa deles. Como, pois, podiam imaginar que, tendo começado a vida cristã mediante a fé no Cristo crucificado, precisavam continuá-la por meio da sua própria realização?

Temos muito que aprender com esse texto acerca da pregação do evangelho.

Primeiro, pregar o evangelho é proclamar a cruz. É verdade que de­vemos acrescentar a ela a ressurreição (1:1; 2:19-20). Da mesma forma devemos acrescentar que Jesus nasceu de uma mulher sob a lei (4:4). Mas o evangelho em essência é as boas novas do Cristo crucificado.

Segundo, pregar o evangelho é proclamar visualmente a cruz. Paulo usa um verbo admirável, prographo. Geralmente esse verbo significa “es­crever anteriormente”, por exemplo, “escrevi há pouco” (Efésios 3:3). Mas grapho pode às vezes significar “desenhar” ou “pintar” em vez de “escrever”, e pro pode significar “ante” em lugar de (ante nossos olhos) em vez de em tempo (previamente). De modo que Paulo aqui compara sua pregação do evangelho a uma enorme tela de pintura ou a um cartaz que publicamente exibe um anúncio. O assunto dessa pintura ou desse cartaz foi Jesus Cristo na cruz. E claro que não era literalmente uma pintura, pois foi criada com palavras. Contudo, era tão visual e tão vivida em seu apelo à imaginação dos Gálatas que o cartaz foi apresentado “ante os vossos olhos”. Uma das maiores artes ou dons da pregação do evangelho é transformar os ouvidos das pessoas em olhos, e fazê-las ver o que estamos falando.

Terceiro, pregar o evangelho é proclamar a cruz visualmente como uma realidade presente. Jesus Cristo havia sido crucificado pelo menos quinze anos antes da data em que Paulo escrevia, e, em nosso caso, quase dois milênios atrás. O que Paulo fez através da sua pregação (e devemos fazer por meio da nossa) foi trazer aquele evento passado para o presente. O ministério tanto da palavra quanto do sacramento pode fazer isso. Ele pode vencer a barreira do tempo e tornar os eventos passados em realidades presentes de tal modo que as pessoas tenham de reagir a eles. É quase certo que nenhum dos leitores de Paulo esteve presente na crucificação de Jesus; contudo, a pregação do apóstolo a trouxe perante seus olhos de modo que podiam vê-la, e para a sua experiência existencial de modo que ou deviam aceitá-la ou rejeitá-la.

Quarto, pregar o evangelho é proclamar a cruz como uma realidade visual, presente e permanente. Pois o que nós (como Paulo) devemos colocar perante os olhos das pessoas não é apenas Christos staurotheis (aoristo) mas Christo estauromenos (perfeito). O tempo verbal enfatiza não tanto que a cruz foi um evento histórico do passado, mas que sua validade, poder e benefícios são permanentes. A cruz jamais deixará de ser o poder da salvação de Deus para os que crêem.

Quinto, pregar o evangelho é proclamar a cruz também como objeto de fé pessoal. Paulo não apresentou o Cristo crucificado ante os olhos deles para que pudessem apenas olhar para ele e se admirar. O propósito do apóstolo era persuadi-los a virem e colocarem sua confiança em Cristo como seu Salvador crucificado. E era isso que tinham feito. O motivo do espanto de Paulo era que, tendo recebido a justificação e o Espírito pela fé, eles imaginavam poder continuar na vida cristã por meio de suas próprias realizações. Era uma contradição do que Paulo tinha apresentado ante os seus olhos.

  1. A cruz e a substituição (3:10-14)

Todos quantos, pois, são das obras da lei, estão debaixo de mal­dição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las. E é evidente que pela lei ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, a lei não procede de fé, mas: Aquele que observar os seus preceitos, por eles viverá. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro; para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos pela fé o Espírito pro­metido.

Esses versículos constituem uma das exposições mais claras da ne­cessidade, significado e conseqüência da cruz. Paulo se exprime em termos tão fortes que alguns comentaristas não puderam aceitar o que ele escreveu acerca da maldição que Cristo se tornou por nós. A. W. F. Blunt, por exemplo, escreveu em seu comentário: “A lin­guagem desse texto é admirável, quase chocante. Não ousaríamos usá-la.”1 Joachim Jeremias também a chamou de uma “frase chocante” e falou de sua “ofensa original”.2 Entretanto, o apóstolo Paulo real­mente usou esse tipo de linguagem, e Blunt certamente tinha razão em acrescentar que “Paulo quer dizer cada palavra que proferiu”. De modo que temos de aceitá-la.

Têm-se feito diversas tentativas para suavizá-la. Primeiro, sugeriu-se que Paulo deliberadamente despersonalizou a “maldição” cha­mando-a de “maldição da lei”. Mas a expressão em Deuteronômio 21:23 é “maldito de Deus”; não podemos pensar seriamente que Paulo esteja contradizendo a Escritura. Segundo, propôs-se que o “fazer-se maldição” expressa a simpatia de Cristo pelos infratores da lei, não uma aceitação objetiva do seu juízo. Eis a interpretação de Blunt: “Não foi por meio de uma ficção forense que Cristo levou os nossos pecados, mas por um ato de genuíno sentimento de companheirismo”, qual uma mãe que tem um filho que erra mas que “sente que a culpa dele é também dela”.3 Essa, porém é uma evasão; não faz justiça às palavras de Paulo. Como disse Jeremias, “fez-se” é “uma circunlocução para a ação de Deus”.

Terceiro, diz-se que a declaração de Paulo de que Cristo se tornou “maldição” por nós fica aquém de afirmar que ele na realidade foi “maldito”. Mas segundo Jeremias “maldição” é uma “metonímia do amaldiçoado”, e devíamos traduzir essa frase como “Deus fez Cristo um amaldiçoado por causa de nós”. Esse versículo é, então, paralelo ao de 2 Coríntios 5:21 que diz: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós”. E seremos capazes de aceitar as duas frases, deveras, adorar a Deus pela verdade delas, porque “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo” (2 Coríntios 5:19) mesmo quando ele fez Cristo tanto pecado quanto maldição.

Lutero compreendeu bem claramente o que Paulo queria dizer e expressou suas implicações com característica singeleza:

Nosso Pai misericordioso, vendo-nos oprimidos e vencidos pela maldição da lei, de modo que jamais poderíamos li­vrar-nos dela por meio de nosso próprio poder, enviou seu único Filho ao mundo e pôs sobre ele todos os pecados de todos os homens, dizendo: Sê tu Pedro, o negador; Paulo, perseguidor, blasfemador e cruel opressor; Davi, o adúl­tero; o pecador que comeu do fruto no Paraíso; o ladrão que foi pendurado na cruz; e brevemente, sê tu a pessoa que cometeu os pecados de todos os homens; vê que, por­tanto, pague-os e os satisfaça.4

Necessitamos sentir a lógica do ensino de Paulo. Primeiro, todos os que confiam na lei estão sob maldição. No começo do versículo 10 Paulo novamente emprega a expressão que usou três vezes em 2:16, a saber, “todos quantos, pois, são das obras da lei” (literalmente). O motivo pelo qual Paulo pode declarar que tais estão “debaixo de maldição” é que as Escrituras dizem que estão. “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas que estão no livro da lei, para praticá-las” (cf. Deuteronômio 27:26). Ser humano algum jamais “perma­neceu” em “praticar” o que a lei requer. Ninguém, a não ser Jesus, conseguiu prestar tal obediência contínua e total, de modo que “ê evidente” (v. 11) que “pela lei ninguém é justificado diante de Deus”, porque ninguém a guardou.

Além disso, a Escritura também diz que “o justo viverá pela fé” (Habacuque 2:4), e viver “pela fé” e viver “pela lei” são dois estados completamente diferentes (v. 12). A conclusão é inevitável. Embora teoricamente os que obedecem à lei viverão, na prática ninguém vi­verá, porque ninguém ainda lhe obedeceu. Portanto, não podemos obter a salvação dessa maneira. Pelo contrário, longe de sermos salvos pela lei, somos amaldiçoados por ela. A maldição ou juízo de Deus, que sua lei pronuncia sobre os infratores, descansa sobre nós. É essa a assombrosa situação da humanidade perdida.

Segundo, Cristo nos redimiu da maldição da lei fazendo-se maldição por nós. Talvez essa seja a declaração mais clara do Novo Testamento acerca da substituição. A maldição da quebra da lei repousava sobre nós; Cristo nos redimiu, tornando-se maldição em nosso lugar. A maldição que pairava sobre nós foi transferida a ele. Ele a assumiu para que pudéssemos escapar. E a evidência de que ele levou nossa maldição é ter sido pendurado no madeiro, visto que Deuteronômio 21:23 declara que tal pessoa é maldita (v. 13).

Terceiro, Cristo fez isso a fim de que nele a bênção de Abraão pudesse ir para os gentios. . . pela fé (v. 14). O apóstolo deliberadamente passa da linguagem da maldição para a da bênção. Cristo morreu por nós não apenas para remir-nos da maldição divina, mas também para assegurar-nos a bênção divina. Ele, nos séculos passados, tinha pro­metido abençoar a Abraão e através da descendência deste às nações gentias. E essa bênção Paulo aqui interpreta como “justificação” (v. 8) e “Espírito” (v. 14); todos os que estão em Cristo são, assim, ri­camente abençoados.

Resumindo, por causa da nossa desobediência estávamos debaixo da maldição da lei. Cristo nos redimiu, levando-a em nosso lugar. Como resultado, recebemos pela fé em Cristo a bênção prometida da salvação. A seqüência é irresistível. Leva-nos à adoração humilde de que Deus em Cristo, em seu santo amor por nós, estava disposto a ir a tais extremos, e que as bênçãos que hoje desfrutamos são devidas à maldição que ele levou por nós na cruz.

  1. A cruz e a perseguição (5:11; 6:12)

Eu, porém, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que continuo sendo perseguido? Logo está desfeito o escândalo da cruz. Todos os que querem ostentar-se na carne, esses vos constrangem a vos circunridardes, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo.

Ambos os versículos mencionam a cruz de Cristo, e em 5:11 ela é chamada de “escândalo” ou “pedra de tropeço”. Ambos os versículos fazem referência à perseguição. Segundo 5:11, Paulo está sendo per­seguido por pregar a cruz; segundo 6:12, os falsos mestres evitam a perseguição pregando a circuncisão em lugar da cruz. De modo que a alternativa para os evangelistas, pastores e mestres cristãos é pregar ou a circuncisão ou a cruz.

“Pregar a circuncisão” é pregar a salvação pela lei, isto é, por meio da realização humana. Tal mensagem remove o escândalo da cruz, escândalo pelo fato de não podermos ganhar nossa salvação; esse tipo de mensagem, portanto, nos exime da perseguição.

“Pregar a cruz” (como em 3:1) é pregar a salvação pela graça de Deus somente. Tal mensagem é pedra de tropeço (1 Coríntios 1:23) porque é gravemente escandalosa para o orgulho humano; ela, por­tanto, nos expõe à perseguição.

É claro que não há judaizantes no mundo hoje, pregando a neces­sidade da circuncisão. Mas há uma abundância de mestres falsos, tanto dentro como fora da igreja, que pregam um falso evangelho (que não é evangelho, 1:7), a salvação por meio das boas obras. Pregar a salvação por meio das boas obras é elogiar as pessoas, evitando, assim, a oposição. Pregar a salvação pela graça é escandalizar as pes­soas, suscitando, assim, a oposição. Para alguns isso pode parecer alternativa demasiadamente severa. Mas não penso assim. Todos os pregadores cristãos têm de enfrentar essa questão. Ou pregamos que os seres humanos são rebeldes contra Deus, estão debaixo do seu juízo e (se deixados em paz) perdidos, e que o Cristo crucificado que levou o nosso pecado e maldição é o único Salvador disponível, ou enfatizamos o potencial e a habilidade humanos, usando a Cristo apenas como um aumento dessas qualidades, não tendo nenhuma necessidade da cruz a não ser exibir o amor de Deus e, assim, inspirar-nos a maior esforço.

O primeiro é o caminho da fidelidade, o último o caminho da po­pularidade. Não é possível ser fiel e popular ao mesmo tempo. Ne­cessitamos ouvir novamente o aviso de Jesus: “Ai de vós, quando todos vos louvar! porque assim procederam os seus pais com os falsos profetas” (Lucas 6:26). Em contraste, se pregamos a cruz, podemos descobrir que nós próprios somos perseguidos para ela. Como escre­veu Erasmo em seu tratado Sobre a Pregação: “Que ele (o pregador) se lembre de que a cruz jamais será faltosa aos que sinceramente pregam o evangelho. Sempre haverá Herodes, Ananias, Caifases, Escribas e Fariseus.”5

  1. A cruz e a santidade (5:24)

E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.

É essencial que examinemos esse texto (como de fato todos os tex­tos) no seu contexto. No capítulo 5 de Gálatas Paulo trata do significado da liberdade moral. Ele declara que não é auto-indulgência, mas controle próprio, não servir a nós mesmos mas servir uns aos outros em amor (v. 13). Por trás dessa alternativa está o conflito interior do qual todos os cristãos têm consciência. O apóstolo chama os protagonistas de “carne” (nossa natureza caída e com a qual nas­cemos) e de “Espírito” (o próprio Espírito Santo que habita em nós quando nascemos de novo). Nos versículos 16-18 ele descreve o con­curso entre os dois, porque os desejos da carne e os do Espírito são contrários uns aos outros.

Os atos da carne (vv. 19-21) incluem imoralidade sexual, apostasia religiosa (idolatria e feitiçaria), quebra social (ódio, discórdia, inveja, ambição egoísta e facções) e apetites físicos descontrolados (bebedice e orgias). O fruto do Espírito (vv. 22-23), contudo — as graças que ele faz amadurecer nas pessoas a quem ele enche — inclui amor, alegria e paz (especialmente com relação a Deus), paciência, bondade e mansidão (em relação uns com os outros), e fidelidade, gentileza e domínio próprio (em relação a nós).

Como, pois, podemos fazer que os desejos do Espírito predominem sobre os da carne? Paulo responde que depende da atitude que ado­tarmos para com cada um deles. Segundo o versículo 24, devemos “crucificar” a carne, com as suas paixões e concupiscências. Segundo o versículo 25, devemos “viver” e “andar” no Espírito.

Meu interesse neste capítulo está no versículo 24, por causa da declaração de que os que pertencem a Cristo “crucificaram” sua carne, ou natureza pecaminosa. É essa uma metáfora espantosa. Pois a crucificação era uma forma horrível e brutal de execução. Contudo, graficamente ilustra qual deve ser nossa atitude para com a natureza caída. Não devemos acariciá-la, nem estragá-la, dando-lhe estímulo ou até mesmo paciência. Pelo contrário, devemos rejeitá-la de modo cruel, juntamente com seus desejos. Paulo está elaborando o ensino de Jesus acerca do “tomar a cruz” e segui-lo. Ele nos está dizendo o que acontece quando chegamos ao lugar da execução: a crucificação real se realiza.

Lutero escreve que o povo de Cristo prega a sua carne à cruz, “de modo que embora a carne ainda viva, contudo não pode realizar o que faria, pois se encontra atada de pés e mãos, e firmemente pregada na cruz.”6 E se não estivermos prontos para crucificar a nós mesmos dessa maneira decisiva, logo descobriremos que em seu lugar estamos crucificando novamente o Filho de Deus. A essência da apostasia é “passar do lado do Crucificado para o dos crucificadores”.7

As crucificações de Gálatas 2:20 e 5:24 referem-se a duas coisas bem diferentes, como mencionamos num capítulo anterior. A primeira diz que fomos crucificados com Cristo (aconteceu a nós como resultado de nossa união com ele), e a segunda afirma que o próprio povo de Cristo tem praticado a ação de crucificar sua velha natureza. A pri­meira fala de nossa liberdade da condenação da lei mediante a partilhação da crucificação de Cristo, a segunda de nossa liberdade do poder da carne, assegurando a sua crucificação. Não devemos con­fundir estas duas coisas, a saber, termos sido crucificados com Cristo (passivo) e termos crucificado a carne (ativo).

  1. A cruz e a vanglória (6:14)

Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo.

E difícil encontrar-se um equivalente da palavra kauchaomai. Sig­nifica gloriar-se, confiar em, regozijar-se em, ter prazer em, viver para alguma coisa. O objeto de nossa vangloria enche os nossos horizontes, domina nossa atenção, e absorve o nosso tempo e energia. Numa palavra, nossa “vangloria” é a nossa obsessão.

Alguns estão obcecados consigo mesmos e com o seu dinheiro, fama ou poder; os mestres falsos da Galácia eram triunfalistas, ob­cecados com o número dos convertidos (v. 13); mas a obsessão de Paulo era com Cristo e a sua cruz. Aquilo que o cidadão romano via como objeto de vergonha, desgraça e até mesmo desgosto era para Paulo o seu orgulho, vangloria e glória. Além do mais, não podemos colocar isso de lado como idiossincrasia paulina. Pois, como vimos, a cruz ocupava o centro da mente de Cristo, e sempre tem ocupado o centro da fé da igreja.

Primeiro, gloriar-se na cruz é vê-la como o caminho da aceitação com Deus. A questão mais importante de todas é como nós, pecadores perdidos e culpados, podemos comparecer perante um Deus santo e justo. Foi com o fim de responder a essa questão alto e bom som que Paulo, no calor apaixonado da sua controvérsia com os judaizantes, escreveu a carta aos Gálatas. Como eles, alguns hoje ainda confiam em seus próprios méritos. Mas Deus nos livre de que nos gloriemos a não ser na cruz. A cruz exclui a todos os outros tipos de vangloria (Romanos 3:27).

Segundo, gloriar-se na cruz é vê-la como o padrão de nossa negação própria. Embora Paulo escreva de apenas uma cruz (“a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”) ele se refere a duas crucificações, ou mesmo a três. Na mesma cruz em que nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado, “o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo”. O “mundo” assim crucificado (repudiado) não significa, é claro, as pes­soas do mundo (pois somos chamados a amá-las e servi-las), mas os valores do mundo, seu materialismo ímpio, vaidade e hipocrisia (pois não se nos ordena que amemos a estes, mas que os rejeitemos). “A carne” já foi crucificada (5:24); agora “o mundo” junta-se a ela na cruz. Devemos manter as duas crucificações principais de 6:14 em íntima relação uma com a outra — a de Cristo e a nossa. Pois não são duas, mas uma. É somente a visão da cruz de Cristo que nos fará dispostos, e até mesmo ansiosos por tomar a nossa. É somente então que poderemos, com integridade, repetir as palavras de Paulo com ele, de que não nos gloriamos em nada a não ser na cruz.

Consideramos as sete grandes declarações de Paulo na carta aos Gálatas acerca da cruz, e as examinamos na ordem em que ocorrem. Pode ser útil, em conclusão, reordená-las e reagrupá-las em ordem teológica em vez de cronológica, a fim de compreendermos ainda mais firmemente a centralidade e penetração da cruz em todas as esferas da vida cristã.

Primeiro, a cruz é o fundamento de nossa justificação. Cristo nos res­gatou do presente mundo perverso (1:4) e nos redimiu da maldição da lei (3:13). E o motivo pelo qual ele nos livrou desse cativeiro duplo é que possamos nos apresentar audazmente na presença de Deus como filhos e filhas, sermos declarados justos e recebermos a habi­tação do seu Espírito.

Segundo, a cruz é o meio de nossa santificação. É aqui que entram as outras três crucificações. Fomos crucificados com Cristo (2:20). Cru­cificamos a nossa natureza caída (5:24). E o mundo está crucificado para nós, como o estamos para o mundo (6:14). De modo que a cruz é mais que a crucificação de Jesus; inclui a nossa crucificação, a crucificação da nossa carne e a crucificação do mundo.

Terceiro, a cruz é o assunto de nosso testemunho. Devemos apresentar um cartaz do Cristo crucificado ante os olhos do povo, de modo que vejam e creiam (3:1). Ao fazermos isso, não devemos expurgar o evangelho, extraindo dele seu escândalo ao orgulho humano. Não, qualquer que seja o preço, preguemos a cruz (o mérito de Cristo), não a circuncisão (o mérito do homem); é o único modo de salvação (5:11; 6:12).

Quarto, a cruz é o objeto de nossa glória. Que Deus nos livre de gloriarmos em algo mais (6:14). Todo o mundo de Paulo girava em torno da cruz. Ela enchia a sua visão, iluminava a sua vida, aquecia o seu espírito. Ele se “gloriava” nela. Significava mais para ele do que qualquer outra coisa. Devíamos ter a mesma perspectiva.

Se a cruz não se encontra no centro dessas quatro esferas, então merecemos que se nos aplique a mais terrível de todas as descrições: “inimigos da cruz de Cristo” (Filipenses 3:18). Sermos inimigos da cruz é nos opormos aos seus propósitos. A justificação própria (em vez de ir à cruz em busca de justificação), a auto-indulgência (em vez de tomar a cruz e seguir a Cristo), o anúncio próprio (em vez de pregar a Cristo crucificado) e a glorificação própria (em vez de nos gloriarmos na cruz) — são essas as distorções que nos tornam “inimigos” da cruz de Cristo.

Paulo, por outro lado, foi um amigo devotado da cruz. Ele se iden­tificou com ela de modo tão íntimo que sofreu perseguição física por ela. “Trago no corpo as marcas de Jesus” (Gálatas 6:17), escreveu ele, as chagas e as cicatrizes que ele recebera ao proclamar o Cristo cru­cificado, os stigmata que o marcaram como autêntico escravo de Cristo.

Os stigmata de Jesus, no espírito se não no corpo, permanecem como marcas da autenticação para cada discípulo cristão, e em especial para cada testemunha cristã. Campbel Morgan o expressou muito bem:

Só o homem crucificado pode pregar a cruz. Disse Tome: “A menos que eu veja em suas mãos o sinal dos cravos. . . não crerei”. O Dr. Parker, de Londres, disse que o que Tome disse acerca de Cristo, o mundo hoje está dizendo a respeito da igreja. E o mundo também está dizendo a cada pregador: A menos que eu veja em tuas mãos as marcas dos cravos, não crerei. É verdade. Só o homem, que morreu com Cristo,. . . pode pregar a cruz de Cristo

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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