A ESCOLHA DO TEXTO – Teologia Pastoral

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A ESCOLHA DO TEXTO – Teologia Pastoral

Espero, meus irmãos, que todos nós estejamos sentindo profundamente a importância de dirigir todas as partes do serviço divino com a máxima eficiência possível. Ao lembrar-nos de que a salvação de uma alma pode depender, instrumentalmente, da escolha de um hino, não deveríamos considerar fútil a pequenina questão da seleção de salmos e hinos.

Um forasteiro incrédulo, entrando durante um dos nossos cultos no Exeter Hall, foi levado à cruz pelas palavras do verso de Wesley, “Jesus, amante de minha alma”. “Jesus me ama?”, perguntou ele. “Então, por que deveria eu viver em inimizade contra Ele?”

Ao refletirmos, também, que Deus pode dar uma bênção muito especial a uma frase da nossa oração para a conversão de algum errante, e que orar sob a unção do Espírito Santo pode contribuir grandemente para a edificação do povo de Deus e trazer-lhe inumeráveis bênçãos, nós nos esforçaremos para orar exercitando o melhor dom e a máxima graça ao nosso alcance. Considerando ainda que na leitura da Bíblia podem ser distribuídos consolo e instrução copiosamente, deter-nos-emos sobre as nossas Bíblias abertas, e, devotamente procuraremos ser guiados àquela porção da Escritura que tenha maior probabilidade de fazer-se útil.

A respeito do sermão, a nossa ansiosa preocupação é primeiramente quanto à seleção de um texto. Nenhum de nós olha o sermão sob uma luz tão negligente que chegue a conceber que um texto apanhado ao acaso será apropriado para toda e qualquer ocasião. Não somos da opinião de Sydney Smith, expressa quando recomendou a um irmão indeciso sobre um texto, que pregasse sobre, “Partos e medas, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia”, como se qualquer coisa servisse para um sermão. Espero que, semanalmente, todos nós tenhamos como coisa da mais zelosa e séria consideração, quais serão os assuntos de que falaremos ao nosso povo no dia do Senhor, de manhã e de noite, pois, conquanto toda a Escritura seja boa e proveitosa, não é toda ela igualmente apropriada para todas as ocasiões. Há tempo para tudo, e tudo é melhor quando é oportuno.

Um sábio pai trabalha para dar a cada membro da sua família a sua porção de alimento na devida ocasião; não serve todas as rações indiscriminadamente, mas ajusta as refeições às necessidades dos comensais. Só um mero oficial, escravo da rotina, autômato inanimado do formalismo se contentará em agarrar o primeiro tópico que venha à mão. Aquele que cata assuntos como as crianças colhem botões-de-ouro e margaridas nas campinas, simplesmente como se oferecem, talvez esteja agindo de acordo com a sua posição de homem colocado por um protetor numa igreja, da qual o povo não o pode expulsar. Mas os que se proclamam chamados por Deus, e que foram escolhidos para as suas posições pela livre eleição dos crentes, precisam dar maior prova do seu ministério do que aquele que se acha nessa negligência. Dentre as muitas gemas temos que selecionar a jóia mais adequada à circunstância do momento. Não ousamos correr para o salão do banquete do Rei com uma confusão de provisões como se o festim devesse ser uma vulgar refeição de ovos fritos, mas, como servidores corteses, paramos para perguntar ao grande Dono da festa: “Senhor, que queres que sirvamos à Tua mesa hoje?”

Alguns textos nos chocam por terem sido escolhidos com extrema infelicidade. Ficamos a indagar o que o pastor do célebre Disraeli disse acerca das palavras: “Em minha carne verei a Deus”, quando pregou recentemente numa casa de uma aldeia por ocasião da colheita! Excessivamente infeliz também foi o texto usado no funeral de um clérigo assassinado (o Sr. Plow): “Assim dá ele aos seus amados o sono”. Manifestamente tolo, e muito, foi ainda aquele que escolheu “Não julgueis, para que não sejais julgados”, para um sermão pregado perante os jurados numa sessão do tribunal do júri.

Não se deixem enganar pela sonoridade e pela aparente aptidão de palavras bíblicas. M. Athanese Coquerel confessa ter pregado numa terceira visita a Amsterdã baseado nas palavras: “É esta a terceira vez que vou ter convosco” 2 Coríntios 13:1 – e bem pôde acrescentar que “teve grande dificuldade depois, em colocar no discurso algo que fosse próprio para a ocasião”. Um caso paralelo foi o de um dos sermões pela morte da princesa Charlotte, sobre o texto: “Enfermando ela, morreu”. Pior ainda é selecionar palavras miseravelmente engraçadas, como no caso de um recente sermão sobre a morte de Abraão Lincoln, baseado na sentença “E Abraão expirou e morreu”.

Conta-se que um estudante, o qual é de esperar-se nunca tenha saído de casa, pregou um sermão em público, diante do seu tutor, o Dr. Filipe Doddridge. Ora, o bom homem estava acostumado a postar-se justamente em frente do estudante e fitar-lhe diretamente o rosto. Avaliem, pois, a sua surpresa, senão indignação, quando o texto enunciado desfilou com estas palavras: “Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe?”

Cavalheiros, às vezes loucos viram estudantes. Esperemos que nenhum desse tipo desonre a nossa Alma Mater. Perdôo o homem que pregou perante aquele Salomão bêbedo, Tiago I da Inglaterra e VI da Escócia, baseando em Tiago 2:6; a tentação foi grande demais para que se lhe pudesse resistir. Outrossim, seja o infame execrado para todo o sempre, se existiu realmente o homem que celebrou a morte de um diácono com a tirada: “E aconteceu que o mendigo morreu”. Perdôo o mentiroso que atribuiu a mim esse ultraje, mas espero que não tente aplicar as suas manhas infames a ninguém mais.

Assim como devemos evitar a aplicação descuidada e acidental de tópicos, também devemos evitar uma regularidade monótona. Ouvi falar de um clérigo que tinha cinqüenta e dois sermões, e uns poucos sobressalentes para datas especiais do calendário litúrgico; pregava-os em ordem regular, ano após ano. No caso referido, o povo da igreja dele não tinha necessidade de rogar-lhe que lhe falasse as mesmas coisas no domingo seguinte, nem seria muito de admirar que fossem encontrados imitadores de Êutico em outros lugares além do terceiro andar!

Não faz muito tempo que um clérigo disse a um fazendeiro amigo meu: “Sabe, Sr. D., outro dia eu estava folheando os meus sermões e a verdade é que a casa pastoral é tão úmida, principalmente o meu gabinete, que os meus sermões ficaram todos mofados”. O meu amigo, embora zelador da igreja, freqüentava um local de culto mantido por dissidentes, não foi rude a ponto de dizer: “bem feito!” Mas para os respeitáveis cidadãos do povoado que tinham ouvido muitas vezes os citados discursos, é possível que eles estivessem mofados em mais de um sentido.

No ministério há pessoas que, tendo acumulado um pequeno estoque de sermões, repetem-nos ad nauseam (até à náusea), com horrível regularidade. Os irmãos itinerantes devem estar muito mais sujeitos a essa tentarão do que os que permanecem no mesmo lugar durante alguns anos. Se forem vítimas do hábito, isto será por certo o fim da sua utilidade, e enviará um intolerável calafrio de morte aos seus corações, de que depressa o seu povo tomará consciência quando os ouvirem papaguear as suas produções gastas pelo tempo. A melhor invenção para promover a preguiça espiritual deve ser o plano de conseguir um estoque de sermões para dois ou três anos, e repeti-los em ordem vezes sem conta. Se nós, meus irmãos, esperamos viver por muitos anos, senão a vida inteira, num só lugar, arraigados ali pelo afeto mútuo que se desenvolva entre nós e o nosso povo, temos necessidade de um método bem diferente daquele que serve para um mandrião ou para um evangelista itinerante.

Imagino que para uns deve ser um fardo pesado, e para outros deve ser muito fácil achar assunto, como acontece com aqueles cuja sorte foi lançada com a instituição episcopal, em que o pregador geralmente se refere ao evangelho ou epístola ou lição para o dia, e se sente obrigado – não por lei, mas por uma espécie de precedente – a pregar com base num versículo tirado de uma dessas fontes. Seguindo o seu ciclo rotativo estereotipado o Advento, a Epifania, a Quaresma e o Pentecoste, ninguém precisa angustiar-se no coração com a pergunta: “Que direi a esta gente?” A voz da igreja é clara e definida: “Mestre, vá falando; aí está o seu trabalho; dedique-se totalmente a ele”.

Pode ser que haja algumas vantagens nesse arranjo prévio, mas o povo episcopal não parece partilhar muito delas, pois os seus escritores seculares estão sempre reclamando da aridez dos sermões, e lamentando a triste condição dos leigos resignados que são compelidos a ouvi-los. O hábito servil de seguir o curso do sol e a revolução dos meses, em vez de seguir o Espírito Santo, é, em minha opinião, suficiente para explicar o fato de que em muitas igrejas, sendo os seus próprios escritores os que julgam, os sermões não são nada melhores do que espécimes daquela “decente debilidade que protege os seus autores de erros grotescos e ao mesmo tempo lhes veda admiráveis belezas”.

Tenha-se, pois, por concedido que para nós é da máxima importância, não só pregar a verdade, mas pregar a verdade condizente com cada ocasião particular. O nosso esforço há de ser o de dissertar sobre assuntos que melhor se adaptem às necessidades do nosso povo, e que tenham maior probabilidade de evidenciar-se como canal da graça para os seus corações.

Há alguma dificuldade na obtenção de textos? Lembro-me de que, em meus primeiros tempos, li em alguma parte de um volume de preleções sobre homilética, uma afirmativa que na ocasião me alarmou consideravelmente; tinha mais ou menos este sentido: “Se alguém tiver dificuldade para achar um texto, é melhor que volte de uma vez para a mercearia ou para o arado, pois evidentemente não tem a capacidade que se requer de um ministro”. Ora, como essa fora muitas vezes a minha cruz e o meu fardo, indaguei-me a mim próprio se deveria recorrer a alguma forma de trabalho secular e deixar o ministério. No entanto, não o fiz, pois sempre tive a convicção de que, embora condenado pelo radical julgamento do preletor, sigo uma vocação à qual Deus manifestamente apôs o Seu selo.

Fiquei com tal conflito de consciência pela severa observação referida, que perguntei a meu avô, que estivera no ministério uns cinqüenta anos, se alguma vez tinha ficado embaraçado na escolha do seu tema. Disse-me francamente que esse fora sempre o seu maior problema, comparada com o qual, a pregação propriamente dita não era nenhuma preocupação. Lembro-me desta observação do venerando senhor: “A dificuldade não é porque não há bastantes textos, mas porque há tantos que fico em apuros entre eles”.

Irmãos, às vezes somos como o apaixonado por flores seletas que se vê rodeado de todas as belezas do jardim, com a permissão de escolher apenas uma. Quanto tempo hesita entre a rosa e o lírio, e com que dificuldade dá preferência a um dentre dez mil encantos floridos! Para mim, devo confessá-lo, a escolha de um texto ainda é um enorme embaraço – embarras de richesses, como dizem os franceses – embaraço de riquezas, bem diferente do aturdimento da pobreza; a inquietação por atentar para a mais premente dentre tantas verdades, todas clamando por ser ouvidas, tantos deveres necessitando todos de se fazerem cumprir, e tantas necessidades do povo, todas exigindo suprimento. Confesso que fico muitas vezes horas e horas orando e esperando por um assunto, e que esta é a maior parte do meu estudo. Tenho tido muito trabalho manipulando tópicos, ruminando pontos de doutrina, esquematizando versículos e, depois, enterrando cada um dos ossos deles nas catacumbas do esquecimento, saindo a navegar através de léguas de águas encapeladas, até ver as luzes vermelhas e conduzir o barco ao porto desejado.

Creio que em quase cada sábado da minha vida fago sermões suficientes para um mês, se me sentisse em liberdade para pregá-los, mas não me atrevo a usá-los mais que um marujo honesto a levar para a praia uma carga de artigos de contrabando. Os temas deslizam diante da mente um após outro como as imagens passam pela lente do fotógrafo, mas enquanto a mente não for como a chapa sensível que retém o retrato, os assuntos não terão valor para nós.

Qual é o texto certo? Como sabê-lo? Sabemo-lo mediante sinais de amigo. Quando um versículo der à sua mente um saudável espasmo, do qual não possa livrar-se, não precisará de outra orientação quanto ao tema certo. Semelhante ao peixe, você espicaça muitas iscas, mas quando o anzol o fisga bem, não vagará mais. Quando um texto nos pega, podemos estar certos de que o pegamos, e podemos com segurança entregá-lo com a alma.

Para empregar outro símile, você toma na mão certo número de textos, e tenta esmiuçá-los; martela-os com força e empenho, mas o seu trabalho é inútil. Por fim acha um que se esmigalha ao primeiro golpe, e cintila ao cair em pedaços, e você percebe que dele refulgem jóias do mais raro esplendor. Ele cresce diante dos seus olhos como a semente da fábula que se desenvolveu e virou árvore enquanto o observador a olhava. Encanta-o e o fascina, ou o força a ajoelhar-se e põe sobre você o fardo do Senhor. Saiba então que esta é a mensagem que o Senhor quer que você entregue. E, com este sentimento, você ficará tão preso àquela passagem da Escritura, que não terá mais descanso enquanto não submeter toda a sua mente ao poder dela, e enquanto não a tiver transmitido conforme o poder que Deus lhe dá para fazê-lo. Espere por aquela palavra eleita, mesmo que tenha que esperá-la até quase à hora do culto. Isto não pode ser compreendido pelos homens frios e calculistas, que não se deixam mover por impulsos como nós, mas, para alguns de nós estas coisas são uma lei em nossos corações, lei que não nos atrevemos a transgredir. Permanecemos em Jerusalém até que nos seja dado poder.

“Creio no Espírito Santo.” É um artigo do credo, mas raramente os que o professam crêem no Espírito a ponto de se deixar mover por Ele. Muitos ministros parecem pensar que são eles que devem escolher o texto, que são eles que devem descobrir o sentido dele, que são eles que devem encontrar um discurso nele. Nós não pensamos assim. Naturalmente nos compete empregar as nossas volições, bem como o nosso entendimento e os nossos sentimentos, pois não acreditamos que o Espírito Santo nos compelirá a pregar sobre um texto contra a nossa vontade. Ele não nos trata como se fossemos caixas de música, dando-nos corda e ligando-nos em certa melodia. Antes, aquele glorioso Inspirador de toda a verdade trata-nos como inteligências racionais, influenciadas por forças espirituais coerentes com a nossa natureza; além disso, as mentes devotas sempre desejam que a escolha do texto fique com o sapientíssimo Espírito de Deus, e não com seus entendimentos falíveis, e, portanto, colocam-se humildemente em Suas mãos, pedindo-lhe que condescenda em conduzi-las à porção de alimento na ocasião própria que Ele determinou para o Seu povo. Diz Gurnal:

“Os ministros não possuem capacidade própria para a execução do seu trabalho. Ah! quanto tempo podem ficar virando e revirando os seus livros e enredando os seus miolos, até vir Deus em seu socorro, e então – como a caça de Jacó – a coisa é trazida à sua mão. Se Deus não nos trouxer a Sua assistência, escreveremos com caneta sem tinta. Se há alguém que mais que qualquer outro precisa andar na confiante dependência de Deus, esse alguém é o ministro do evangelho”.

Se alguém me perguntasse, “Como conseguirei o texto mais apropriado?” eu responderia: “Clame a Deus por ele”.

Harrington Evans, em sua obra, Rules for Sermons (Regras para Sermões), lança como primeira delas a seguinte: “Busque a Deus em oração para a escolha de uma passagem. Indague os motivos pelos quais se decide por uma passagem. Veja que a pergunta seja bem respondida. Às vezes a resposta pode ser tal que deveria levar a mente a decidir-se contra a escolha feita”.

Se somente a orarão não o guiar ao desejado tesouro, será em todo caso um exercício proveitoso orar. Se a dificuldade em localizar um tópico o fizer orar mais que de costume, será uma grande bênção para você. Orar é o melhor estudo. Já no passado Lutero dizia: “Bene orasse est bene studuisse” (Orar bem é estudar bem), e o repisado provérbio agüenta repetição. Ore com meditativamente sobre a Escritura; é espremer uvas no tonel, é trilhar trigo no terreiro, junto ao celeiro, é fundir ouro extraindo-o do minério. A oração é bênção dupla: abençoa o pregador em seus apelos, e abençoa as pessoas por ele servidas. Quando o texto lhe vem em resposta à oração, ser-lhe-á o mais caro. Virá com aroma e unção divinos, completamente desconhecidos do orador formalista para quem não importa se o tema é este ou aquele.

Depois da oração, somos obrigados a empregar com muito empenho os meios próprios para concentrar os nossos pensamentos e conduzi-los pelo melhor canal. Considere a condição dos seus ouvintes. Reflita no estado espiritual deles como um todo e como indivíduos, e prescreva o remédio adequado à sua moléstia, ou prepare o alimento próprio para a necessidade prevalecente. Contudo, permita-me acautelá-lo contra a consideração dada aos caprichos dos seus ouvintes, ou às peculiaridades dos ricos e influentes. Não dê muito valor ao cavalheiro e à dama que ocupam o banco verde, se é que você é tão infeliz que tem esse abominável lugar de distinção numa casa onde todos são do mesmo nível. Veja que o grande contribuinte seja por todas as formas considerado como os demais, e não permita que sejam negligenciadas as fraquezas espirituais dele; mas ele não é a congregação toda, e você entristecerá o Espírito Santo se pensar que é.

Olhe com igual interesse para os pobres nas alas da igreja, e escolha tópicos que estejam dentro das suas categorias de pensamento e que possam encorajá-los em suas muitas tristezas. Não permita que sua cabeça se volte por respeito àqueles membros parciais da igreja que têm sorrisos doces para uma porção do evangelho, e se fazem surdos para outras partes da verdade. Nunca use de subterfúgio, quer para fazer-lhes festa, quer para censurá-los. Pode dar-nos satisfação pensar que estão contentes, se são boas pessoas, e respeitamos as suas predileções, mas a fidelidade requer que não sejamos simples flautistas para os nossos ouvintes, só tocando as músicas que eles exigem, e sim, que sejamos como que a boca do Senhor para declarar todos os Seus conselhos.

Retorno à observação: pense bem no que o seu povo realmente necessita para a sua edificação, e seja esse o seu tema. O famoso apóstolo do norte da Escócia, o Dr. Macdonald, dá um exemplo pertinente em seu Diary of Work in St. Kilda (Diário da Obra em Santa Kilda): “Sexta-feira, 27 de maio. Em nosso culto matutino de hoje, li Romanos 12 e dei algumas explicações, o que me deu oportunidade para expor a relação entre a fé e a prática e para afirmar que as doutrinas da graça se harmonizam com a vida consagrada e levam à santidade do coração e da vida. Julguei necessário isto, pois do ponto elevado que eu tinha ocupado por alguns dias, temi que o povo se desviasse para o antinomismo, extremo tão perigoso como o arminianismo, se não mais”.

Tome em consideração os pecados que parecem predominantes na igreja e na sua congregação – Mundanismo, cobiça, negligência na oração, ira, orgulho, falta de amor fraternal, calúnia e outros males semelhantes. Leve em conta, afetuosamente, as provações do seu povo, e busque um bálsamo para as suas feridas. Não é necessário descer a minúcias, quer na oração, quer no sermão, quanto a essas provações dos freqüentadores da sua igreja, embora fosse esse o costume de um respeitável ministro que foi bispo nestas cercanias, e já foi para o céu. Em seu abundante amor por seu povo, costumava fazer tantas alusões a nascimentos, mortes e casamentos ocorridos com o seu rebanho, que um dos prazeres dos seus ouvintes assíduos deve ter consistido em descobrir a quem o ministro se referia nas várias partes da sua oração e do seu sermão. Vindo dele, isso era tolerado, e até admirado – mas, de nós seria ridículo. Um patriarca pode fazer com propriedade o que um jovem deve evitar escrupulosamente. O venerando clérigo que acabo de mencionar tinha aprendido essa arte de particularizar do seu pai, pois era de uma família em que os filhos, tendo notado alguma coisa particular ocorrida durante o dia, diziam uns aos outros: “Temos que esperar até o culto doméstico da noite, quando ficaremos sabendo tudo sobre isso”. Mas estou fazendo digressão; este caso mostra como um excelente hábito pode degenerar em defeito, mas a regra que registrei não é afetada por ele. Em conjunturas particulares, ocorrerão certas provações a muitos dos freqüentadores dos cultos, e visto que essas aflições atrairão a sua mente para novos campos de pensamento, você agirá mal se for surdo ao seu chamamento.

Repito, devemos observar o estado espiritual de nossos ouvintes, e, se notarmos que eles estão caindo numa condição de infidelidade; se temermos que eles correm o perigo de serem contaminados por alguma heresia perniciosa ou alguma imaginação perversa; se de fato alguma coisa, no caráter fisiológico da igreja como um todo, chocar a nossa mente – devemos apressar-nos a preparar um sermão que, pela graça de Deus, possa sustar a praga. Essas coisas são indicações, entre os ouvintes, que o Espírito de Deus dá ao pastor cuidadoso e cumpridor quanto ao seu curso de ação.

O pastor cuidadoso examina com freqüência o seu rebanho, e orienta o seu modo de tratá-lo de acordo com o estado em que o encontra. Estará apto para fornecer com parcimônia um tipo de alimento, outro tipo com maior abundância, e remédio na devida quantidade, conforme o seu juízo experimentado achar necessário ou um ou outro. Estaremos bem orientados, se simplesmente nos associarmos ao “grande Pastor das ovelhas”.

Todavia, não permitamos que a nossa pregação feita de modo bem adaptado ao nosso povo degenere, assumindo a forma de pura reprimenda. Chamam o púlpito de “Cidadela dos Covardes”, e este nome lhe vai bem em alguns aspectos, especialmente quando estultos sobem à plataforma e injuriosamente insultam os ouvintes expondo as suas faltas ou fraquezas à irrisão pública. Há uma personalidade – uma personalidade ultrajante. frívola e injustificável – que deve ser zelosamente evitada. É terrena, grosseira, e deve ser condenada sem limitação de palavras. Ao passo que há outra personalidade sábia, espiritual, celeste, que deve ser almejada incessantemente.

A Palavra de Deus é mais aguda que qualquer espada de dois gumes, e, portanto, irmãos, é preciso deixar que a Palavra de Deus fira e mate, não havendo necessidade de que vocês mesmos cortem com palavras e atitudes. A verdade de Deus é penetrante. Deixem que ela penetre os corações dos homens sem acréscimos ofensivos da parte de vocês. É retratista de mau gosto aquele que precisa escrever o nome embaixo do retrato quando este é pendurado na sala de visitas da família onde a própria pessoa retratada tem o seu lugar para sentar-se. Levem os seus ouvintes a perceberem que estão falando deles, sem contudo referir-se aos seus nomes nem mesmo no mais remoto grau, e sem apontar para eles.

Talvez ocorram ocasiões em que vocês podem ser forçados a ir ao ponto a que chegou Hugh Latimer quando, falando sobre suborno, disse: “Aquele que aceitou uma bacia e um jarro de prata como suborno pensa que isto nunca virá à luz. Mas ele pode saber que eu sei disso, e não só eu; há outros mais que o sabem. Oh, subornador! Oh, suborno! Quem assim recebe peitas nunca foi boa gente; e nem posso acreditar que o subornador possa vir a ser bom juiz”. Aí há tanta reticência prudente como revelação ousada. Se vocês não forem além disso, ninguém se atreverá, em nome do decoro, a acusá-lo de personalidade severa demais.

A seguir, observando o texto, o ministro deve considerar quais foram os seus tópicos anteriores. Seria insensato insistir perpetuamente numa doutrina em detrimento das outras. Alguns dos nossos irmãos mais profundos podem ser capazes de tratar do mesmo assunto numa série de pregações, e, com um giro do caleidoscópio, podem ser capazes de apresentar novas formas de beleza sem nenhuma alteração do assunto, mas a maioria de nós, dotada de habilidades menos férteis, achará melhor fazer estudos variados, e aplicar-se a mais ampla gama de verdades. Freqüentemente eu olho a lista dos meus sermões para ver se alguma doutrina escapou à minha atenção, ou se alguma graça cristã foi negligenciada em minhas ministrações.

É bom averiguar se não temos sido demasiado doutrinários ultimamente, ou insuficientemente práticos, ou exclusivamente experimentais. Não desejamos degenerar até sermos antinomistas, nem, por outro lado, queremos rebaixar-nos à condição de simples mestres de fria moralidade, mas a nossa ambição é dar prova cabal do nosso ministério. Gostaríamos de dar a cada porção da Escritura aquela participação do nosso coração e da nossa cabeça que ela merece. Doutrina, preceitos, história, tipologia, salmos, provérbios, experiências, exortações, promessas, convites, ameaças, repreensão – gostaríamos de incluir o conjunto completo da verdade inspirada no âmbito dos nossos ensinos. Aborreçamos toda unilateralidade, todo exagero de uma verdade e menosprezo de outra, e esforcemo-nos para pintar o retrato da verdade com traços balanceados e cores mescladas, para que não a desonremos apresentando distorção em vez de simetria, e uma caricatura em lugar de uma cópia fiel.

Supondo, contudo, irmão, que você orou naquele seu pequeno quarto, lutou muito e suplicou demoradamente, pensou no povo e nas suas necessidades, e ainda não pôde encontrar o texto – bem, não se perturbe com isso, nem dê lugar ao desespero. Se você tivesse que ir à guerra às suas expensas, ser-lhe-ia uma desgraça ficar sem pólvora, estando tão perto a batalha, mas como compete a seu Comandante prover o necessário, não há dúvida de que oportunamente distribuirá a munição. Se você confiar em Deus, Ele não falhará com você; não pode falhar. Continue clamando e velando, pois ao estudante industrioso o auxílio celestial é certo. Se você tivesse ficado andando para cima e para baixo ociosamente a semana inteira, e não tivesse se preocupado em preparar-se bem, não poderia esperar a ajuda divina; mas, se fez o melhor que pôde, e agora está esperando saber a mensagem do seu Senhor, o seu rosto jamais sofrerá vexame.

Irmãos, ocorreram-me dois ou três incidentes que talvez lhes pareçam estranhos, mas, então, eu sou estranho. Quando eu residia em Cambridge, tive que pregar certa noite, como de costume, num povoado próximo aonde eu tinha que ir a pé. Depois de ler e meditar o dia todo, não pude dar com o texto certo. Fizesse o que fizesse, nenhuma resposta vinha do oráculo sagrado, nenhuma luz raiava do Urim e Tumim; eu orava, meditava, ia de um versículo a outro, mas a mente não pegava nada, ou eu estava, como Bunyan diria, “muito virado e revirado em meus pensamentos”. Em dado momento fui até a janela e olhei para fora. No outro lado da rua estreita em que eu morava, vi um pobre canário solitário no telhado, cercado por um bando de pardais que o bicavam como se o quisessem despedaçar.

Naquele momento o versículo me veio à mente – “A minha herança é para mim ave de várias cores; andam as aves de rapina contra ela em redor”. Saí dali com a maior serenidade possível, ponderei a passagem durante minha longa e solitária caminhada, e preguei acerca do povo peculiar, e sobre as perseguições movidas por seus inimigos, e o fiz com liberdade e tranqüilidade para mim, e creio que para conforto dos meus rústicos ouvintes. O texto foi-me enviado, se não pelos corvos, certamente pelos pardais.

Noutra ocasião, quando estava trabalhando em Waterbeach, tinha pregado domingo de manhã, e tinha ido para casa, para almoçar com um membro da igreja, como costumava. Ocorre, porém, que havia três cultos, e, infelizmente, o sermão da tarde vinha tão em cima do da manhã, que era difícil preparar a alma, especialmente quando o almoço é uma necessidade, mas séria inconveniência, quando se requer cérebro claro. Que pena! Aqueles cultos à tarde em nossas aldeias inglesas eram geralmente um melancólico desperdício de esforço. O rosbife e o pudim pesam na alma dos ouvintes, e o próprio pregador fica amortecido em seus processos mentais, enquanto a digestão reclama o domínio da hora.

Graças a uma cuidadosa medida de dieta, mantive-me naquela ocasião bem animado e vigoroso, mas, para minha consternação, vi que se me fora a linha de pensamento elaborada previamente. Não consegui achar a pista do sermão que tinha preparado, e espremi a testa quanto pude, mas o tópico perdido não me vinha. O tempo era curto, a hora chegava, e um tanto alarmado eu disse ao honesto lavrador que, por minha vida, eu não conseguia lembrar o que tencionara pregar. “Ah!, exclamou ele, ‘”não tem importância; esteja certo de que terá uma boa palavra para nós”. Justo naquele momento, um tição em brasa caiu fora do fogo da lareira a meus pés, enchendo de fumaça os olhos e o nariz da gente. “Aí”, disse o lavrador, “aí está o texto para o senhor. Não é um tição arrebatado do incêndio’?” Não, pensei, não foi tirado, pois saltou fora sozinho. Ali estava um texto, uma ilustração, e um pensamento dominante, como um indez no ninho, chamariz de mais ovos. Veio-me maior luz, e certamente o sermão não foi pior do que as minhas efusões bem preparadas; foi melhor no melhor sentido, pois mais tarde vieram um ou dois declarar que se despertaram e se converteram com o sermão daquela tarde. Sempre considerei feliz circunstância ter esquecido o texto sobre o qual planejara pregar.

Na rua New Park uma vez passei por uma experiência singular, da qual há testemunhas presentes nesta sala. Eu tinha passado com felicidade por todas as partes iniciais do culto de domingo à noite, e estava anunciando o hino anterior ao sermão. Abri a Bíblia para achar o texto que eu tinha estudado cuidadosamente como o tópico do discurso, quando na página oposta outra passagem da Escritura saltou sobre mim como um leão de uma moita, com muitíssimo mais poder do que eu sentira ao considerar o texto que havia escolhido. O povo cantava e eu suspirava. Eu estava espremido de ambos os lados, e minha mente pendia como em pratos de balança. Naturalmente eu estava desejoso de seguir a trilha que tinha planejado cuidadosamente, mas o outro texto não queria aceitar recusa, e parecia puxar-me pela orla do casaco, gritando: “Não, não! Você tem que pregar sobre mim. Deus quer que você me siga”. Eu deliberava dentro de mim quanto ao meu dever, pois não queria ser nem fanático nem incrédulo, e por fim pensei comigo mesmo: “Bem, eu gostaria de pregar o sermão que preparei, e é grande risco meter-me a tragar nova linha de pensamento, mas como esse texto insiste em constranger-me, talvez seja do Senhor, e portanto me aventurarei com ele, venha o que possa vir”.

Quase sempre anuncio as minhas divisões logo depois do exórdio, mas nessa ocasião, contrariamente ao meu costume, não o fiz, pela razão que talvez alguns de vocês adivinhem. Passei pelo primeiro subtítulo com considerável liberdade, falando perfeitamente, de modo improvisado, quanto ao pensamento e à palavra. O segundo ponto foi tratado com a consciência de um poder incomum, tranqüilo e eficaz, mas eu não tinha idéia do que seria ou poderia ser o terceiro, pois o texto já não oferecia mais conteúdo, e eu nem poderia dizer agora o que teria feito, se não ocorresse um fato que eu nunca teria imaginado. Tinha-me metido em grande dificuldade obedecendo ao que julgava ser um impulso divino, e me sentia relativamente sossegado sobre isso, crendo que Deus me socorreria, e sabendo que ao menos poderia encerrar a reunião se não houvesse mais nada que dizer.

Não tive que ficar deliberando, pois de repente ficamos em completa escuridão – o gás se acabara, e como os corredores da igreja estavam repletos de gente, e o lugar todo estava superlotado; havia grande perigo, mas também houve grande bênção. Que deveria fazer eu então? Os presentes assustaram-se um pouco, mas eu os tranqüilizei na hora dizendo-lhes que não se alarmassem por faltar a luz, pois logo seria reacendida, e quanto a mim, como não tinha manuscrito, podia falar com luz ou sem luz, desde que eles tivessem a bondade de sentar-se e ouvir. Se o meu discurso fosse muito elaborado, seria absurdo continuá-lo, e assim, no aperto em que eu estava, fiquei livre do embaraço. Voltei-me mentalmente para o bem conhecido texto que fala do filho da luz andando nas trevas, e do filho das trevas andando na luz, e vi que se me derramavam observações e ilustrações apropriadas, e quando as luzes se acenderam, vi diante de mim um auditório tão arrebatado e subjugado como nenhum homem jamais viu em sua vida.

O estranho nisso tudo foi que, passadas algumas reuniões da igreja, duas pessoas foram à frente para fazer a sua confissão de fé, e declararam que foram convertidas naquela noite. A primeira deveu a sua conversão à primeira parte da pregação, sobre o novo texto que me viera, e a outra atribuiu o seu despertamento à última parte, ocasionada pela súbita escuridão. Assim, vocês vêem, a Providência favoreceu-me. Deixei-me aos cuidados de Deus, e os arranjos que Ele fez apagaram a luz na hora certa para mim. Alguns podem ridicularizar-me, mas eu adoro o Senhor; outros podem criticar-me, mas eu me regozijo.

Qualquer coisa é melhor do que a mecânica produção e pregação de sermões, em que a direção do Espírito é praticamente ignorada. Todos os pregadores usados pelo Espírito Santo, não tenho dúvida, terão dessas recordações agrupando-se em torno do seu ministério. Portanto, digo: observem o curso da Providência; entreguem-se à orientação e ao auxílio do Senhor. Se tiverem feito solenemente o melhor que puderam para conseguir um texto, e o assunto não lhes vem, subam ao púlpito firmemente convictos de que receberão uma mensagem quando chegar a hora, mesmo que não tenham uma palavra naquele momento.

Na biografia de Samuel Drew, famoso pregador metodista, lemos: “Detendo-se na casa de um amigo em Cornwall, depois da pregação, uma pessoa que assistira o culto, fazendo-lhe a observação de que, naquela ocasião, ele sobrepujara a sua capacidade habitual, confirmando-lhe outros a mesma opinião, disse o Sr. Drew: “Se é verdade, é a coisa mais singular, porque o meu sermão foi pregado sem qualquer meditação prévia. Fui para o púlpito com a intenção de falar-lhes baseado noutro texto, mas, olhando a Bíblia que estava aberta, a passagem sobre a qual acabam de me ouvir, “Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus”, prendeu a minha atenção com tanta força que pôs em fuga as minhas idéias anteriores; e, conquanto eu nunca antes tivesse considerado aquela passagem, resolvi de imediato fazê-la o assunto do meu discurso. O Sr. Drew fez bem em ser obediente à direção celestial.

Meus irmãos, em certas circunstâncias vocês se sentirão absolutamente compelidos a porem de lado o discurso bem estudado, e a confiarem no presente socorro do Espírito Santo, empregando alocução puramente improvisada. Talvez se vejam na situação do finado Kingman Nott, quando pregava no Teatro Nacional de Nova York. Numa de suas cartas ele diz: “O edifício estava abarrotado de gente, mormente de jovens e meninos do tipo mais grosseiro. Fui com o sermão em mente, mas logo que cheguei no palco, saudado com “Eh! eh!”, e vendo a heterogênea e ruidosa multidão com que tinha que lidar, deixei de lado todos os pensamentos do sermão, e tomando a parábola do filho pródigo, tentei interessar nela os presentes, e consegui manter a maior parte deles dentro da casa e toleravelmente atentos”. Que simplório teria sido ele se tivesse perseverado em sua inadequada preleção! Irmãos, rogo-lhes, creiam no Espírito Santo, e levem à prática a sua fé.

Como adicional assistência prestada a um pobre pregador encalhado, incapaz de fazer sua mente navegar por falta de uma ou duas ondas de pensamento, recomendo-lhe, em tal caso, voltar insistentemente à Palavra de Deus, lendo um capítulo e ponderando seus versículos um por um; ou escolher um versículo, e exercitar bem a sua mente nele. Talvez não encontre o texto do seu sermão no versículo ou no capítulo que está lendo, mas a palavra certa lhe virá mediante o engajamento ativo da sua mente em assuntos santos. Conforme a relação dos pensamentos uns com os outros, um pensamento induzirá outro, e outro, até passar uma longa procissão deles diante da sua mente, dos quais um ou outro será o tema predestinado.

Leia também bons e sugestivos livros, e eleve a sua alma através deles. Se os homens querem bombear água com uma bomba não usada recentemente, primeiro despejam água nele, e a bomba funciona. Mergulhe num dos puritanos, e estude completamente a obra, e logo se verá como um pássaro em vôo, mentalmente ativo e cheio de movimento.

Deixe-me observar, porém, a modo de precaução, que devemos estar treinando sempre a busca de textos e o preparo de sermões. Devemos constantemente preservar a santa atividade das nossas mentes. Ai do ministro que ouse desperdiçar uma hora sequer. Leia o Essay on the Improvement of Time (Ensaio sobre o aproveitamento do tempo), de John Foster, e tome a decisão de nunca perder um segundo. O homem que perambula para cima e para baixo, de segunda-feira de manhã até sábado de noite, e sonha indolentemente que o texto do seu sermão lhe será enviado por um mensageiro angélico na última ou na penúltima hora da semana, está tentando a Deus, e merece ficar emudecido no dia do Senhor. Como ministros, não temos lazer; nunca estamos de folga, mas permanecemos em nossas torres de vigia dia e noite.

Estudantes, digo-lhes solenemente, nada os escusará da mais rígida economia de tempo; desperdiçá-lo é um perigo para vocês. A folha do seu ministério logo fenecerá, a menos que, como o varão bem-aventurado do Salmo primeiro, vocês meditem na lei do Senhor de dia e de noite. Desejo ansiosamente que vocês não joguem fora tempo em dissipação religiosa, ou em mexericos e em conversa frívola. Cuidado para não ficarem correndo desta reunião para aquela, escutando meras parolices, colaborando assim na indústria de inflar tagarelas. O homem que é grande nos salões de chá, nas festas noturnas e nas excursões da Escola Dominical, geralmente é pequeno em todos os demais lugares. O preparo para o púlpito é a primeira ocupação de vocês, e se negligenciarem nisso, não inspirarão confiança em si, nem no seu ministério. As abelhas produzem mel de manhã à noite, e nós temos que estar sempre armazenando provisões para o nosso povo. Não confio no ministério que ignora a laboriosa preparação.

Quando viajávamos pelo norte da Itália, o nosso cocheiro dormiu na carruagem, e quando o chamamos de manhã, ergueu-se desperto, estalou o chicote três vezes, e disse que estava pronto. Não gostei muito de tão rápidos aprestos pessoais, e preferia que ele tivesse dormido noutro lugar, ou que eu ocupasse outro assento. Vocês que estão prontos para pregar em três tempos, perdoem-me se me sentar num banco em qualquer outra parte. O exercício mental costumeiro com vistas ao nosso trabalho é aconselhável. Os ministros devem ser sempre diligentes, principalmente no bom aproveitamento das oportunidades.

Vocês, irmãos, às vezes não se acham maravilhosamente preparados para pregar? O Sr. Jay disse que quando se sentia nessas condições, costumava pegar papel e anotar textos e divisões de sermões, e guardá-los acumulados para lhe prestarem serviço nas ocasiões em que a sua mente não estivesse tão bem disposta assim. O chorado Thomas Spencer escreveu: “Conservo um pequeno livro em que anoto cada texto da Escritura que me vem à mente com poder e dulçor. Se sonhasse com uma passagem da Escritura, eu também a anotaria, e quando me ponho à escrever, examino o livro, e nunca me acho em dificuldade quanto a um assunto”. Estejam atentos em busca de assuntos quando andarem pela cidade ou pelo campo.

Reflitam sobre este exemplo: “Fui induzido a um proveitoso impulso de meditação, sobre a maneira como o nosso bom Pastor cuida do Seu rebanho, ao ver alguns cordeiros expostos ao frio e uma pobre ovelha perecer por não receber os devidos cuidados.” – Andrew Fuller’s Diary (Diário de A. Fuller).

Mantenham sempre os olhos e os ouvidos abertos, e ouvirão e verão anjos. O mundo está repleto de sermões – peguem-nos no vôo. O escultor crê, sempre que vê um rude bloco de mármore, que nele se esconde uma nobre estátua, e que basta desbastar as superfluidades para revelá-la. Assim também creiam vocês que dentro de cada vagem de todas as coisas há a amêndoa de um sermão para quem for sábio. Sejam sábios, e vejam o celeste em seu molde terreno. Ouçam as vozes dos céus, e as traduzam para a língua dos homens. Sejam sempre, ó homens de Deus, pregadores que fazem provisões para o púlpito, em todas as províncias da natureza e da arte, armazenando e preparando material toda hora e em todas as estações.

Perguntam-me se é boa coisa anunciar os temas preparados e publicar listas de sermões previamente planejados. Respondo: Cada homem em sua ordem. Não sou juiz dos outros. Mas não me atrevo a tentar tal coisa, pois incorreria em memorável fracasso se me aventurasse a fazê-lo. Os precedentes vão muito contra a minha opinião, sobressaindo-se as séries de discursos de Matthew Henry, John Newton, e de um batalhão de outros mais. Contudo, só posso falar das minhas impressões pessoais, e deixo que cada qual seja a sua própria lei. Muitos teólogos eminentes deram valiosos cursos de sermões sobre tópicos ordenados previamente, mas nós não somos eminentes, e devemos aconselhar a outros que são como nós a serem cautelosos sobre como agir. Não ouso anunciar sobre o que pregarei amanhã, e muito menos sobre o que pregarei daqui a seis semanas ou seis meses, sendo que em parte a razão é esta – que tenho consciência de que não possuo aqueles dons peculiares que são necessários para interessar uma assembléia num assunto ou numa série de assuntos durante qualquer extensão de tempo. Irmãos de extraordinária capacidade de pesquisa e de profunda cultura podem fazê-lo, e irmãos que não possuem nada disso, e sem bom senso, podem ter a pretensão de fazê-lo, mas eu não posso. Sou obrigado a fazer grande parte da minha força depender da variedade, antes que da profundidade.

É questionável se a grande maioria dos pregadores de temas em série não faria melhor queimando os seus programas, se quisessem ter êxito. Tenho nítida recordação, aliás, fúnebre recordação, de certa série de conferências sobre Hebreus que causaram profunda impressão em minha mente, mas da mais indesejável espécie. Muitas vezes tenho desejado que os hebreus tivessem guardado para si mesmos a Epístola aos Hebreus, pois ela deixou enfarado um pobre rapaz gentio. Quando se tinham apresentado sete ou oito conferências da série, só as pessoas muito bondosas podiam agüentá-las; estas naturalmente declaravam que nunca tinham ouvido exposições mais valiosas, mas aos de julgamento mais carnal parecia que cada sermão ficava mais enfadonho. O escritor, naquela epístola, exorta-nos a suportar a palavra de exortação, e foi o que fizemos. Serão como aquele todos os cursos de sermões? Talvez não, mas temo que as exceções são poucas, pois até se diz daquele maravilhoso expositor, Joseph Caryl, que começou as suas famosas preleções sobre Jó com oitocentos ouvintes, e terminou o livro com apenas oito! Um pregador profético alongou-se tanto sobre “a ponta pequena” de que fala Daniel, que certo domingo de manhã só lhe restaram sete ouvintes. Sem dúvida achavam

“Estranho que uma harpa de mil cordas

tocasse no mesmo tom por tanto tempo”.

Comumente, e para homens comuns, parece-me que discursos previamente organizados em série são um erro, nunca passam de benefício aparente, e geralmente são um verdadeiro mal. Certamente percorrer uma longa epístola requer muitíssimo gênio do pregador, e um mundo de paciência da parte dos ouvintes. Sinto-me impulsionado a fazer uma consideração mais profunda daquilo que acabo de dizer: Tenho a impressão de que muitos pregadores vigorosos e ardentes achariam que temas programados são grilhões. Se o pregador anuncia para o próximo dia do Senhor um tópico cheio de alegria, que requer vivacidade e exaltação de espírito, pode bem acontecer que, por várias causas, se sinta num tristonho e sobrecarregado estado mental; apesar disso, tem que pôr vinho novo no seu velho cantil e ir para a festa de casamento usando roupa de pano de saco e cinzas, e pior que tudo, pode ser obrigado a repetir isso um mês inteiro. É assim que deve ser? É importante que o orador esteja em sintonia com o seu tema; como, porém, assegurar-se isto, a não ser deixando a escolha do tópico às influências que operem na ocasião? O homem não é uma máquina a vapor correndo sobre trilhos de metal, e é insensato fixá-lo num encaixe.

Grande parte do poder do pregador consiste em sua alma estar em harmonia com o assunto, e eu teria receio de determinar um assunto para uma certa data, pois, ao chegar a ocasião, poderia não estar na mesma clave. Além disso, não é fácil ver como um homem pode demonstrar dependência da direção do Espírito de Deus, se já prescreveu sua própria rota. Talvez vocês digam: “Que singular objeção, pois, por que não confiar nEle por vinte semanas se confia por uma?” Certo, mas nunca tivemos uma promessa para garantir-nos essa fé. Deus promete dar-nos graça conforme os nossos dias, mas nada diz de dotar-nos de um fundo de reserva para o futuro.

“Dia a dia o maná forrava o chão;

oh, tratem de aprender bem a lição!”

Exatamente assim nos virão nossos sermões, vigorosos, vindos do céu, quando necessário. Tenho zelo quanto a qualquer coisa que lhes impeça a dependência diária do Espírito Santo, e portanto registro a opinião já dada. A vocês, meus jovens irmãos, sinto-me seguro ao dizer-lhes com autoridade: Deixem as ambiciosas tentativas de elaboradas séries de discursos aos mais velhos e mais capazes. Temos apenas uma pequena porção de ouro e prata mental; invistamos o nosso pequeno capital em mercadorias úteis, que alcancem mercado à disposição, e deixemos que os negociantes mais ricos comerciem com artigos mais caros e mais difíceis de sair. Não sabemos o que o dia trará – esperemos pelo ensinamento diário, e não façamos nada que nos impeça a utilização dos materiais que a providência pode lançar em nosso caminho hoje ou amanhã.

Talvez vocês indaguem se deveriam pregar sobre textos que outras pessoas escolhem e pedem que preguem sobre eles! Minha resposta seria: como regra geral, nunca; e se houver exceções, que sejam poucas. Permitam-me lembrar-lhes que vocês não cuidam de uma loja à qual os fregueses podem vir e fazer os seus pedidos. Quando um amigo sugere um tópico, pensem bem, e considerem se é apropriado, e vejam se ele lhes vem com poder. Recebam o pedido com cortesia, pois é seu dever agir como cavalheiros e cristãos. Mas, se o Senhor a quem vocês servem não lançar a Sua luz sobre o texto, não preguem sobre ele, seja quem for que queira persuadi-los.

Estou absolutamente certo de que, se esperarmos do Senhor os nossos assuntos, e fizermos disso objeto de oração, para sermos guiados retamente, seremos conduzidos pelo caminho certo. Mas se nos inflarmos com a idéia de que nós mesmos podemos fazer facilmente a escolha, veremos que até mesmo na seleção de um assunto, sem Cristo nada podemos fazer. Esperem no Senhor, irmãos, ouçam o que Ele quer falar, recebam a palavra diretamente da boca de Deus, e então partam como embaixadores recém-enviados pela corte celestial. “Esperai, pois, no Senhor.”

 

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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