A Conquista do Mal – A Cruz de Cristo

Gênesis 2.18-25 – Introdutórios a Genesis
06/12/2016
Gênesis 3.1-5 – Introdutórios a Genesis
07/12/2016

A Conquista do Mal – A Cruz de Cristo

Impossível que alguém leia o Novo Testamento sem se impressionar com o ambiente de confiança alegre que o penetra, o qual se destaca contra a religião um tanto insípida que muitas vezes passa por Cristia­nismo hoje. Não havia derrotismo nos cristãos pri­mitivos; antes, falavam de vitória. Por exemplo: “Graças a Deus que nos dá a vitória. , .” Novamente: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores. . .” Uma vez mais: “Deus. . . nos con­duz em triunfo. . .” E cada uma das cartas de Cristo às sete igrejas da Ásia termina com uma promessa especial “ao vencedor”.1

Vitória, conquista triunfo — era esse o vocabulário dos primeiros seguidores do Senhor ressurreto. Pois se falavam de vitória, sabiam que a deviam ao Jesus vitorioso. Afirmaram tal fato nos textos que eu de forma truncada citei até agora. O que Paulo, na realidade, escreveu foi: “Deus nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo”, “somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou”, e: “Deus que em Cristo nos conduz em triunfo”. É ele quem “venceu”, “triunfou”, e além do mais o fez “pela cruz”.2

É claro, qualquer observador contemporâneo de Cristo que o viu morrer, teria ouvido com incredulidade e espanto a reivindicação de que o Crucificado saiu Vencedor. Não havia ele sido rejeitado pela sua própria nação, traído, negado e abandonado por seus próprios discípulos, e executado por autoridade do procurador romano? Olhe para ele, pregado na cruz, despido de toda liberdade e movimento, pregado com pregos ou amarrado com cordas, ou ambos, preso e impotente. Parece derrota total. Se houver vitória, é a do orgulho, prejuízo, inveja, ódio, covardia e brutalidade. Contudo, o cristão afirma que a realidade é o oposto das aparências. O que parece (e deveras foi) a derrota do bem pelo mal, também é, e mais certamente, a derrota do mal pelo bem. Vencido, ele estava vencendo. Esmagado pelo poder inflexível de Roma, ele mesmo estava esmagando a cabeça da serpente (Gênesis 3:15). A vítima era o vencedor, e a cruz ainda é o trono do qual ele governa o mundo.

Eis mais um motivo na realização da cruz de Cristo. Além da sal­vação dos pecadores (como indicado pelas quatro imagens que exa­minamos no capítulo 7) e a revelação de Deus (especialmente de seu santo amor, como visto no capítulo anterior), a cruz garantiu a con­quista do mal.

 

Gustav Aulen e Christus Victor

Foi Gustav Aulen, um teólogo sueco que, através do seu influente livro Christus Victor, trouxe à lembrança da igreja essa verdade ne­gligenciada. O título original do livro em sueco significa algo como “O Conceito Cristão da Expiação”, mas Christus Victor capta melhor

a sua ênfase. A tese dele, num estudo mais histórico que apologético,

é que a reconstrução tradicional de duas teorias principais é errônea, a saber, a visão “objetiva” ou “legal” (a morte de Cristo reconciliando o Pai), relacionada com Anselmo, e a perspectiva “subjetiva” ou “mo­ral” (a morte de Cristo inspirando-nos e transformando-nos), asso­ciada com Abelardo. Pois há um terceiro ponto de vista ao dual Aulen denomina “dramático” e “clássico” ao mesmo tempo. É “gramático” porque concebe a expiação como um drama cósmico no qual Deus em Cristo luta com os poderes do mal e ganha a vitória. É “clássico” porque, diz ele, foi a “idéia dominante da Expiação nos primeiros mil anos da história cristã”.

De modo que Aulen se esforçou por demonstrar que esse conceito da expiação como uma vitória sobre o pecado, a morte e o diabo era a visão dominante do Novo Testamento; que era mantido pelos pais gregos, desde Irineu, no final do segundo século, a João de Damasco, no início do oitavo, e é, portanto, sustentado pelas igrejas ortodoxas orientais hoje; que a maioria dos pais ocidentais também cria nele (embora com freqüência lado a lado com o ponto de vista “objetivo”), incluindo-se Ambrósio e Agostinho, e os papas Leão, o Grande, e Gregório, o Grande; que se perdeu no escolasticismo medieval; que foi recuperado por Lutero; mas que subseqüentemente o escolasti­cismo protestante o perdeu de novo e voltou à noção anselmiana da satisfação.

Aulen, portanto, é muito crítico da doutrina da “satisfação” desposada por Anselmo, a qual ele chama de “latina” e “jurídica”. Ele se desfaz dela, com um pouco de desprezo, dizendo que é “na rea­lidade um desvio na historia do dogma cristão”. Porém, a crítica que ele faz de Anselmo não é totalmente justa. Ele sublinha corretamente a verdade de que no conceito “clássico” a “obra da expiação é vista como realizada pelo próprio Deus”, que “ele mesmo é o agente efetivo na obra redentora, do começo até o fim”, e que, de fato, “a expiação é, acima de tudo, um movimento de Deus para o homem, não pri­mariamente um movimento do homem para Deus”. Mas ele comete injustiça ao dizer que o conceito de Anselmo da morte de Cristo contradiz isso, a saber, como “uma oferta feita a Deus por Cristo como homem”, “como se fosse de baixo”, ou “uma obra humana de satis­fação realizada por Cristo”. Pois, como vimos no capítulo 5, Anselmo enfatizou claramente que, embora o homem deva fazer satisfação pelo pecado, ele não pode fazê-la, pois são seus os pecados pelos quais se deve fazer a satisfação. Deveras, somente o próprio Deus pode, e portanto, a faz, através de Cristo. A despeito do que Aulen escreveu, o ensino de Anselmo é que, através da obra do singular Deus-homem Cristo Jesus, não é somente o homem quem fez a satisfação; foi o próprio Deus que tanto satisfez como foi satisfeito.

Entretanto, Gustav Aulen tinha razão ao chamar a atenção da igreja para a cruz como vitória, e mostrar que por sua morte Jesus nos salvou não somente do pecado e da culpa, mas também da morte e do diabo, de fato, também de todos os poderes maus. A tese dele também foi importante num século despedaçado por duas guerras mundiais e uma cultura européia consciente de forças demoníacas. Ele também tinha razão em ressaltar que “a nota de triunfo”, que “soa como o toque da trombeta através do ensino da igreja primitiva”, em grande parte estava ausente da lógica fria do Cur Deus Homo? de Anselmo. Lutero, por outro lado, tocou essa nota novamente. Seus hinos e

quele “monstro” ou “tirano”, o diabo, que antes nos mantinha no cativeiro do pecado, da lei, da maldição e da morte.

Outra crítica justa da tese de Aulen é que ele fez um contraste por demais pronunciado entre os motivos da “satisfação” e da “vitória”, como se fossem alternativas mutuamente incompatíveis. Mas o Novo Testamento não nos obriga a escolher entre eles, pois inclui a ambos. Assim, Deus tomou a iniciativa e ganhou a vitória por meio de Cristo, mas um dos tiranos dos quais ele nos libertou foi a própria culpa, a qual, segundo Anselmo, ele morreu a fim de expiar. John Eadie, um comentarista escocês do século dezenove, fez uma tentativa admirável para combinar os dois conceitos:

Nossa redenção é uma obra ao mesmo tempo de preço e de poder — de expiação e de conquista. Na cruz fez-se a compra, e na cruz ganhou-se a vitória. O sangue que apaga a sentença que havia contra nós foi aí derramado, e a morte que era o golpe de morte do reino de Satanás foi aí su­portada.3

De fato, as três maiores explicações da morte de Cristo contêm verdade bíblica e podem, em certo grau, ser harmonizadas, espe­cialmente se observarmos que a diferença principal entre elas é que dirigem a obra de Deus em Cristo a uma pessoa diferente. No conceito “objetivo” Deus satisfaz-se a si mesmo, no “subjetivo” ele nos inspira, e no “clássico” ele vence o diabo. Assim, Jesus Cristo é, sucessiva­mente, o Salvador, o Mestre e o Vencedor, porque nós mesmos somos culpados, apáticos e cativos. P. T. Forsyth chamou a atenção para esse fato no último capítulo do seu livro A Obra de Cristo, ao qual ele intitulou “O Cordão Tríplice”. Ele se refere aos aspectos “satisfacio­nário”, “regenerador” e “triunfante” da obra de Cristo, e sugere que estão entrelaçados em 1 Coríntios 1:30, onde Cristo é feito “justifi­cação, santificação e redenção” por nós. E embora “algumas almas, gravitem para a grande Libertação, algumas para a grande Expiação, e algumas para a grande Regeneração”, contudo, todas são partes da realização total do Salvador, “a destruição do mal, a Satisfação de Deus, e a santificação dos homens”.

Enquanto nos concentramos agora no tema da “conquista”, pode ser útil olharmos primeiro para a vitória histórica de Cristo na cruz, e então para a vitória do seu povo, a qual a vitória dele torrou possível.

 

A vitória de Cristo

O que o Novo Testamento afirma, de modo franco, é que na cruz Jesus desarmou o diabo e triunfou sobre ele, e sobre todos os “principados e poderes” que estão ao seu comando. Os ouvintes do evan­gelho do primeiro século não teriam tido nenhuma dificuldade em aceitar essa verdade, pois “talvez seja difícil para o homem moderno conceber quão cheio de feitiçaria era o mundo a que Cristo veio”.4 Ainda hoje em muitos países o povo vive com pavor de espíritos maus. E no Ocidente supostamente sofisticado tem-se desenvolvido uma fascinação nova e alarmante pelo ocultismo, a qual é duplamente documentada por Michael Green em seu livro Creio na Queda de Satã. E, contudo, ao mesmo tempo muitos ridicularizam como um anacro­nismo a crença contínua num diabo pessoal, que possua espíritos maus sob seu controle. A afirmativa dogmática de Rudolf Bultmann é bem conhecida: “é impossível usarmos a luz elétrica e o rádio, e servir-nos das modernas descobertas médicas e cirúrgicas, e, ao mesmo tempo, crermos no mundo de demônios e espíritos do Novo Testamento”.5 Michael Green resume a anomalia da coexistência da curiosidade com a incredulidade sugerindo que duas atitudes opostas seriam igualmente agradáveis ao diabo: “A primeira é de preocupação excessiva com o príncipe do mal. A segunda é de excessivo ceticismo acerca da sua própria existência”. Michael Green prossegue a dar sete razões pelas quais ele crê na existência desse ser imensamente po­deroso, mau e astucioso chamado Satanás ou diabo. Relacionam-se com a filosofia, com a teologia, com o ambiente, com a experiência, com o ocultismo, com a Escritura e, acima de tudo, com Jesus. E um caso válido; nada tenho que lhe acrescentar.

Mas como é que Deus, por meio de Cristo, ganhou a vitória sobre o Maligno? Embora a derrota decisiva de Satanás se tenha dado na cruz, a Escritura representa o desenvolvimento da conquista em seis etapas.

A primeira é a predição da conquista. A primeira predição foi dada pelo próprio Deus no Jardim do Éden como parte de seu juízo sobre a serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descen­dência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15). Identificamos o descendente da mulher como o Messias, por meio de quem o reino justo de Deus será esta­belecido e o reino do mal erradicado. Sendo assim, todos os textos do Antigo Testamento que declaram o reino atual de Deus (exemplo: “Tua, Senhor, é a grandeza, o poder. . . teu, Senhor, é o reino. . .”) ou o seu reino futuro sobre as nações mediante o Messias (exemplo: “Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”) podem ser compreendidos como profecias do esmagamento final de Satanás.6

A segunda etapa foi o início da conquista no ministério de Jesus. Reconhecendo-o como seu futuro conquistador, Satanás fez muitas tentativas diferentes para se livrar dele. Por exemplo, através do assassínio das crianças de Belém, ordenado por Herodes, por meio das tentações no deserto com o objetivo de evitar o caminho da cruz, por intermédio da resolução do populacho em forçá-lo a um reinado político-militar, através da contradição de Pedro acerca da necessidade da cruz (“Para trás de mim, Satanás!”), e mediante a traição de Judas em quem Satanás na realidade havia “entrado”.7

Porém Jesus estava decidido a cumprir o que dele estava escrito. Ele anunciou que por seu intermédio o reino de Deus tinha chegado àquela geração, e que as suas obras de poder eram evidência visível desse reino. Vemos o reino dele avançando e o de Satanás retroce­dendo, à medida que demônios são expulsos, enfermidades são cu­radas e a própria natureza desorganizada reconhece o seu Senhor.8 Além do mais, Jesus enviou os seus discípulos, como seus represen­tantes, a pregar e a curar, e quando voltaram, emocionados porque os demônios se lhes haviam submetido em nome do Mestre, ele res­pondeu que tinha visto a “Satanás caindo do céu como um relâm­pago”.

Aqui, contudo, está sua afirmativa mais admirável acerca desse tema: “Quando o valente, bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens. Sobrevindo, porém, um mais valente do que ele, vence-o, tira-lhe a armadura em que confiava e lhe divide os despojos”. Não é difícil reconhecer o valente como um quadro do diabo, o “mais valente do que ele” como Jesus Cristo, e o dividir dos despojos (ou, em Marcos, o saque da sua casa) como a libertação dos seus escravos.9

Contudo, o “vencer” e o “amarrar” ao valente não aconteceram até a terceira e decisiva etapa, a realização da conquista, na cruz. Três vezes, segundo João, Jesus referiu-se ao diabo como “o príncipe deste mundo”, acrescentando que ele estava prestes a “vir” (isto é, lançar sua última ofensiva), mas que seria “expulso” e “julgado”.10 Eviden­temente ele estava antecipando que por ocasião da sua morte realizar-se-ia o concurso final no qual os poderes das trevas seriam desba­ratados. Seria através da sua morte que ele destruiria “aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo”, e, assim, libertaria os cativos (Hebreus 2:14-15).

Talvez a passagem mais importante do Novo Testamento que apre­senta a vitória de Cristo seja Colossenses 2:13-15.

E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas trans­gressões, e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despo­jando os principados e as potestades, publicamente os ex­pôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.

Aqui Paulo une dois aspectos diferentes da obra salvadora da cruz de Cristo, a saber, o perdão dos nossos pecados e a subversão cósmica dos principados e potestades.11 Ele exemplifica a libertação e a graciosidade do perdão divino (charizomai) usando o antigo costume do cancelamento de dívidas. “O escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças” dificilmente poderia ser uma referência à própria lei, pois Paulo a via como santa, justa e boa (Romanos 7:12). Pelo contrário, deve referir-se à lei quebrada que, por isso mesmo, “era contra nós” com o seu juízo. A palavra que Paulo usa como “escrito de dívida”, cheirographon, era “um documento escrito à mão, especificamente um certificado de dívida”, ou “uma confissão assi­nada de dívida, a qual permanecia como testemunha perpétua contra nós.”12 O apóstolo, então, com a finalidade de descrever como Deus desfez a  nossa dívida, emprega três verbos. Ele “cancelou” o escrito de dívida, “removendo-o inteiramente”, e, a seguir, “encravando-o na cruz”. J. Jeremias acha que a alusão é ao titulus, o tablete afixado acima da cabeça da pessoa crucificada no qual se escreviam os seus crimes, e que no titulus de Jesus eram os nossos pecados que estavam inscritos, não os dele.13 De qualquer modo, Deus nos livra da falência somente por meio do pagamento de nossas dívidas na cruz de Cristo. Mais do que isso. Ele “não apenas cancelou a dívida, mas também destruiu o documento no qual ela estava registrada”.14

Paulo agora passa do perdão de nossos pecados à conquista dos poderes malignos, e usa três verbos gráficos para retratar a derrota deles. O primeiro podia significar que Deus em Cristo os “desnudou” de si mesmo como roupa imunda, porque o estavam apertando, e, portanto, desfez-se deles. Ou, melhor, pode significar que ele os “desnudou” ou das suas armas ou da sua “dignidade e poder”,15 dessa forma degradando-os. Segundo, ele “publicamente os expôs ao desprezo”, exibindo-os como os “poderes impotentes”16 que são, e assim, terceiro, “triunfando deles na cruz”, o que provavelmente seja referência à procissão de cativos que celebrava a vitória. Assim, a cruz, comenta Handley Moule, foi “de um ponto de vista o seu cadafalso, e de outro, a sua carruagem imperial”.17 Alexandre Maclaren sugere um quadro unificado de Cristo como “o vencedor despindo os seus inimigos de armas, ornamentos e vestes, então exibindo-os como seus cativos, e a seguir arrastando-os nas rodas de seu carro triunfal”.18

Tudo isso são imagens vividas, mas o que realmente significa? De­vemos visualizar uma batalha cósmica real, na qual os poderes das trevas cercaram e atacaram a Cristo na cruz, e na qual ele os desarmou, desacreditou e derrotou? Se tivesse sido invisível, como certamente teria de ser, como foi que Cristo os expôs publicamente? Parece que devemos pensar na vitória dele, embora real e objetiva, em outros termos.

Primeiro, certamente é significativo que Paulo compare o que Cristo fez ao cheirographon (cancelamento e remoção) com o que ele fez aos principados e potestades (desarmando-os e os vencendo). O título ele pregou na cruz; os poderes ele derrotou por meio da cruz. Não parece necessário insistir em que este último seja mais literal do que o pri­meiro. O ponto importante é que ambos aconteceram juntos. Não foi o pagamento das nossas dívidas o modo pelo qual Cristo subverteu os poderes? Liberando-nos destas, ele nos libertou daqueles.

Segundo, ele venceu o diabo mediante a resistência total a suas tentações. Tentado a evitar a cruz, Jesus perseverou no caminho da obediência, e tornou-se “obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:8). A sua obediência foi indispensável à sua obra sal­vadora. “Porque, como pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos se tornarão justos” (Romanos 5:19). Se ele tivesse deso­bedecido, desviando-se um pouquinho que fosse do caminho da von­tade de Deus, o diabo teria ganho um ponto e frustrado o plano da salvação. Mas Jesus obedeceu, e o diabo foi derrotado. Provocado pelos insultos e pelas torturas a que foi submetido, Jesus absoluta­mente se recusou a retaliar. Mediante o seu amor autodoador, ele venceu “o mal com o bem” (Romanos 12:21). Novamente, quando os poderes combinados de Roma e de Jerusalém se dispuseram contra ele, ele poderia ter enfrentado poder com poder. Pois Pilatos não tinha autoridade última sobre ele; mais de doze legiões de anjos ter-se-iam apressado ao seu resgate, caso ele as tivesse convocado; ele poderia ter descido da cruz, como, escarnecendo, desafiaram-no a fazer.19 Mas ele se recusou recorrer ao poder mundano. Ele foi cru­cificado em fraqueza, embora a fraqueza de Deus fosse mais forte do que a força do homem. Assim, ele se recusou a desobedecer a Deus, ou a odiar os seus inimigos, ou a imitar o uso que o mundo faz do poder. Mediante sua obediência, amor e mansidão, ele ganhou uma grande vitória moral sobre os poderes do mal. Ele permaneceu livre, incontaminado, descomprometido. O diabo não pôde prendê-lo, e teve de admitir derrota.20 Como disse F. F. Bruce:

Enquanto ele estava ali suspenso, amarrado de pés e mãos ao madeiro em aparente fraqueza, eles imaginaram que o tinham à sua mercê, e lançaram-se sobre ele com intenção hostil. . . Mas ele lutou com eles e os venceu.21

De modo que a vitória de Cristo, predita imediatamente depois da Queda e iniciada durante o seu ministério público, foi decisivamente ganha na cruz.

Quarto, a ressurreição foi a confirmação e o anúncio da conquista. Não devemos ver a cruz como derrota, e a ressurreição como vitória. Antes, a cruz foi a vitória ganha, e a ressurreição a vitória endossada, pro­clamada e demonstrada. “Não era possível fosse ele retido” pela morte, pois ela já havia sido derrotada. Os principados e os poderes do mal, que haviam sido privados de suas armas e sua dignidade na cruz, agora, como conseqüência da derrota, foram colocados sob os pés de Cristo e feitos sujeitos a ele.22

Quinto, a extensão da conquista à medida que a igreja sai para executar a sua missão no poder do Espírito, pregar a Cristo crucificado como Senhor, e convocar o povo a se arrepender e crer nele. Em toda conversão genuína há um voltar-se não apenas do pecado para Cristo, mas também “das trevas para a luz”, “do poder de Satanás para Deus”, e dos ídolos para servir o “Deus vivo e verdadeiro”; há também um resgate do domínio das trevas para o reino do Filho a quem Deus ama.23 De modo que a conversão de cada crente envolve um encontro com o poder que obriga o diabo a descontrair o controle da vida de alguém e demonstra o poder superior de Cristo. Sendo assim, pode bem ser correto interpretar o “amarrar” do dragão por mil anos como coincidente com o “amarrar” do valente realizado na cruz. Pois o resultado da amarração de Satanás é que ele é impedido de enganar “as nações até”, afirmação que parece referir-se à evangelização das nações a qual começou depois da grande vitória da cruz e sua seqüela imediata da Páscoa e Pentecoste.24

Sexto, estamos olhando com expectativa a consumação da conquista na Parousia, O intervalo entre os dois adventos deve ser preenchido com a missão da igreja. O Ungido do Senhor já está reinando, mas também está aguardando até que seus inimigos sejam postos como estrado dos seus pés. Nesse dia todo joelho se dobrará em sua pre­sença e toda língua confessará que ele é Senhor. O diabo será jogado no lago do fogo, onde a morte e o inferno o seguirão. Pois a morte é o último inimigo a ser destruído. Então, quando todo o domínio, autoridade e poder do mal tiver sido destruído, o Filho entregará o reino ao Pai, e ele será tudo em todos.25

Contudo, será correto atribuir a vitória de Cristo à sua morte? Não foi ela alcançada por meio de sua ressurreição? Não foi ressurgindo dentre os mortos que ele venceu a morte? De fato, não descansa toda a ênfase deste livro demasiadamente na cruz, e insuficientemente na ressurreição? Não vão juntos os dois eventos, como Michael Green argumentou poderosamente no seu livro recente intitulado A Cruz Vazia de Jesus? E essencial que tratemos dessas questões.

Para começar, está fora de qualquer dúvida que a morte e a res­surreição de Jesus vão juntas no Novo Testamento e que raramente se menciona uma sem a outra. O próprio Jesus, em três predições sucessivas da sua paixão, registradas por Marcos, cada vez acrescen­tou que ressurgiria depois de três dias.26 Segundo João, ele também disse que daria a sua vida e que a tornaria a tomar.27 Além do mais, aconteceu como ele disse que aconteceria: Eu sou “aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos” (Apo­calipse 1:18). A seguir, é igualmente claro que os apóstolos falaram das duas juntas. O kerygma apostólico mais primitivo segundo Pedro era que Jesus fora entregue “pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes. . . porém, Deus ressuscitou”, enquanto Paulo afirma como o evangelho original e universal que “Cristo mor­reu pelos nossos pecados. . . foi sepultado, e ressuscitou. . . apare­ceu”.28 E as cartas de Paulo estão cheias de frases como “cremos que Jesus morreu e ressurgiu” e “os que vivem devem. . . viver. . . para aquele que por eles morreu e que ressurgiu”.29 Além do mais, reco­nheceu-se desde o início que os dois sacramentos do evangelho davam testemunho a ambas, visto que no batismo o candidato morre sim­bolicamente e ressurge com Cristo, enquanto na Ceia do Senhor é o Senhor ressurreto que se torna conhecido a nós através dos mesmos emblemas que falam da sua morte.30 De modo que esse fato não está em discussão — ou não devia estar. Seria uma pregação sobremaneira desequilibrada a que proclamasse a cruz sem a ressurreição (como acho que Anselmo o fez) ou a ressurreição sem a cruz (como o fazem os que apresentam a Jesus como Senhor vivo em vez de um Salvador expiador). Portanto, é saudável manter um elo indissolúvel entre elas.

Entretanto, precisamos ter certeza da natureza do relacionamento da morte e da ressurreição de Jesus, e cuidado em não atribuir eficácia salvadora igualmente a ambas. Michael Green evita essa armadilha, pois fortemente afirma que “a cruz de Jesus é o próprio centro do evangelho”.31 De fato o é. Quando examinamos as quatro imagens da salvação no capítulo 7, tornou-se aparente que é “pelo sangue de Jesus” que a ira de Deus contra o pecado foi propiciada, e que pelo mesmo sangue de Jesus fomos resgatados, justificados e reconcilia­dos. Pois foi por meio da morte dele, e não mediante a sua ressur­reição, que nossos pecados foram desfeitos. Até mesmo no kerygma apostólico mais primitivo já citado Paulo escreve que Cristo morreu pelos nossos pecados. Em lugar algum do Novo Testamento está escrito que Cristo ressurgiu pelos nossos pecados. Mas não foi por meio de sua ressurreição que Cristo venceu a morte? Não, foi por meio da sua morte que ele destruiu aquele que tem o poder da morte (Hebreus 2:14).

É claro que a ressurreição foi essencial à confirmação da eficácia da morte de Cristo, como a sua encarnação o fora à preparação para a possibilidade dela. Porém devemos insistir em que a obra de levar os pecados terminou na cruz, que a vitória sobre o diabo, o pecado e a morte foi ganha aí, e que o que a ressurreição fez foi vindicar a Jesus a quem os homens rejeitaram, declarar com poder que ele é o Filho de Deus, e publicamente confirmar que sua morte expiatória fora eficaz para o perdão dos pecados. Se ele não se tivesse levantado dentre os mortos, nossa fé e nossa pregação seriam fúteis, visto que a pessoa e obra de Cristo não teriam recebido o endosso divino.32 É essa a implicação de Romanos 4:25, que, à primeira vista, parece ensinar que a ressurreição de Cristo é o meio de nossa justificação: “O qual foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitou por causa da  nossa justificação.” Charles Cranfield explica: “O que nossos pecados exigiam era, em primeiro lugar, a morte expiatória de Cristo, e, contudo, se a morte dele não tivesse sido acompanhada da ressurreição, não teria sido o ato poderoso de Deus para a nossa justificação.”33 Além disso, por causa da ressurreição é um Cristo vivo que nos concede a salvação que ele ganhou para nós na cruz, que nos capacita mediante o seu Espírito não somente a partilhar do mérito da sua morte mas também a viver no poder da sua ressurreição, e que nos promete que no último dia nossos corpos também ressurgirão. James Denney expressa a relação entre a morte de Jesus e a res­surreição da seguinte maneira:

Não pode haver salvação do pecado a menos que haja um Salvador vivo: isto explica a ênfase dada pelo apóstolo (isto é, Paulo) à ressurreição. Mas Aquele que vive pode ser Salvador somente porque morreu: isto explica a ênfase dada na cruz. O cristão crê num Senhor vivo, ou não po­deria crer de modo nenhum; mas crê num Senhor vivo que morreu uma morte expiatória, pois nenhum outro pode segurar a fé que uma alma tem sob a condenação do pecado.34

Resumindo, diremos que o evangelho contém tanto a morte quanto a ressurreição de Jesus, visto que sua morte nada teria realizado se ele não tivesse ressurgido dentre os mortos. Contudo, o evangelho enfatiza a cruz, visto que foi aí que se realizou a vitória. A ressurreição não alcançou nossa libertação do pecado e da morte, mas nos deu certeza de ambos. É por causa da ressurreição que “nossa fé e es­perança” estão “em Deus” (1 Pedro 1:21).

 

Entrando na vitória de Cristo

Para os cristãos, como também para Cristo, ávida significa conflito. Para os cristãos, assim como para Cristo ela também devia significar vitória. Devemos ser vitoriosos como Cristo foi vitorioso. Não escre­veu João aos jovens das igrejas que ele supervisionava porque tinham vencido o maligno? Jesus não fez um paralelo deliberado entre ele mesmo e nós nesse aspecto, prometendo ao vencedor o direito de partilhar o seu trono, assim como ele tinha vencido e partilhava o trono do Pai?35

Contudo, o paralelo o é apenas parcialmente. Seria inteiramente impossível que nós, por nós mesmos, lutássemos e derrotássemos o diabo: faltam-nos tanto a habilidade como a força para fazê-lo. Tam­bém seria desnecessário fazermos a tentativa, porque Cristo já a fez. A vitória dos cristãos, portanto, consiste em entrarem na vitória de Cristo e desfrutarem os seus benefícios. Podemos agradecer a Deus que ele nos dá a vitória por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Sabemos que Jesus, tendo sido ressuscitado dentre os mortos, agora está assentado à direita do Pai nos reinos celestiais. Mas Deus nos “deu vida juntamente com Cristo. . . e juntamente com ele nos res­suscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais”. Por outras palavras, mediante o poder gracioso de Deus nós, os que partilhamos da res­surreição de Cristo, partilhamos também de seu trono. Se Deus co­locou todas as coisas sob os pés de Cristo, elas devem estar sob os nossos também, se estivermos nele. Tomando emprestada a própria metáfora usada por Jesus, agora que o valente foi desarmado e amar­rado, o tempo está maduro para que invadamos o seu palácio e sa­queemos seus bens.36

Entretanto, não é tão simples quanto parece. Porque embora o diabo tenha sido derrotado, ele ainda não admitiu a derrota. Embora já tenha sido derrubado, ele ainda não foi eliminado. Na realidade, ele continua a exercer grande poder. É esse o motivo da tensão que sentimos tanto em nossa teologia quanto em nossa experiência. Por um lado estamos vivos, assentados e reinando com Cristo, como acabamos de ver, estando até mesmo os principados e os poderes do mal colocados por Deus sob os seus (e, portanto, nossos) pés; por outro lado, somos prevenidos (também em Efésios) que esses mesmos poderes espirituais se colocaram em oposição a nós, de modo que não temos esperança alguma de enfrentá-los a menos que sejamos fortes na força do Senhor e estejamos vestidos com a sua armadura.37 Eis o mesmo paradoxo em linguagem diferente. Por um lado, rece­bemos a certeza de que, tendo nascidos de Deus, Cristo nos mantém a salvo e o “maligno não lhe toca”; por outro, recebemos a admoestação de vigiar porque o mesmo diabo “anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar”.38

Muitos cristãos escolhem uma dessas posições, ou oscilam preca­riamente entre elas. Alguns são triunfalistas, que vêem somente a vitória decisiva de Jesus Cristo e não percebem as admoestações apos­tólicas contra os poderes das trevas. Outros são derrotistas, que vêem somente a temível malícia do diabo e não percebem a vitória que Cristo já ganhou sobre ele. A tensão faz parte do dilema cristão do “já” e do “ainda não”. O reino de Deus já foi inaugurado e está avançando; mas ainda não foi consumado. A nova era (o mundo vindouro) já chegou, de modo que temos provado “os poderes do mundo vindouro”; mas a era antiga ainda não passou completamente. Já somos filhos de Deus, e não mais escravos; mas ainda não entramos na “liberdade da glória dos filhos de Deus”.39 A ênfase exagerada no “já” conduz ao triunfalismo, à reivindicação de perfeição — moral (falta de pecado) ou física (saúde completa) — que pertence somente ao reino consumado, o “ainda não”. A ênfase exagerada no “ainda não” leva ao derrotismo, uma aquiescência à continuação do mal, incompatível com o “já” da vitória de Cristo.

Outro modo de ver essa tensão é considerar as implicações do verbo katargeo, que, embora muitas vezes traduzido como “destruir”, na realidade fica aquém dessa acepção. Antes, significa “tornar ineficaz ou inativo”, e é usado com referência ao solo estéril e às árvores improdutivas. Quando esse verbo é aplicado ao diabo, à nossa na­tureza caída e à saúde,40 portanto, sabemos que não foram comple­tamente “destruídas”. Pois o diabo ainda está muito ativo, nossa natureza caída continua a afirmar-se, e a morte continuará a levar-nos até a volta de Cristo. Não é, pois, que tenham cessado de existir, mas que seu poder foi quebrado. Não foram abolidos, mas foram derrubados.

João faz a importante afirmação de que “o motivo pelo qual o Filho de Deus se manifestou foi para ‘desfazer’ as obras do diabo” (1 João 3:8, literalmente). Ele veio para confrontar e derrotar o diabo, e assim desfazer o dano que este havia causado. Quais são as “obras do diabo”, os efeitos da sua atividade nefasta? Por exemplo, Lutero tinha prazer em apresentar uma seqüência delas em seu comentário da carta aos Gálatas. Em certo lugar ele escreve que “a lei, o pecado, a morte, o diabo e o inferno” constituem “todos os males e as misérias da humanidade”, e em outro que “o pecado, a morte e a maldição” são “os tiranos invisíveis poderosos” dos quais somente Cristo pode li­bertar-nos. Anders Nygren, em seu famoso comentário de Romanos, sugere que os capítulos 5 a 8 descrevem a vida da pessoa que foi justificada pela fé: “O capítulo 5 diz que significa ser livre da ira. O capítulo 6 diz que é ser livre do pecado. O capítulo 7 diz livre da lei. E o capítulo 8 diz que somos livres da morte”. Minha preocupação é que essas listas omitem qualquer referência à “carne” (nossa natureza caída) e ao “mundo” (a sociedade sem Deus), que são familiares pelo menos ao povo da igreja no trio “o mundo, a carne e o diabo”. De modo que as “quatro obras do diabo” das quais Cristo nos liberta, nas quais, no meu entender, os escritores do Novo Testamento pa­recem concentrar-se, são a lei, a carne, o mundo e a morte.

Primeiro, através de Cristo já não estamos sob a tirania da lei. Muitos se surpreendem que a lei, dádiva de Deus a seu povo, em si mesma “santa, justa e boa”, jamais pudesse tornar-se um tirano que nos escraviza. Mas é exatamente esse o ensino de Paulo. “Mas antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei, e nela encerrados, para essa fé que de futuro haveria de revelar-se.” O motivo é que a lei condena a nossa desobediência, levando-nos, assim, à sua “maldição” ou juízo. Mas Cristo já nos resgatou da maldição da lei fazendo-se ele próprio maldição por nós. E nesse sentido que “Cristo é o fim da lei” e já não estamos “sob” ela.41 Não quer dizer, de modo nenhum, que agora já não existem absolutos morais a não ser o amor, como ensinavam os advogados da “nova moralidade” nos anos 60, ou que agora já não temos obrigação de obedecer à lei de Deus, como ensinam outros antinomianos. Não, desde que a tirania da lei é a sua maldição, é desta que somos libertados por Cristo, de modo que já não estamos “sob” ela. A lei já não nos escraviza por meio da sua condenação. Os cheirographon de que tratamos anteriormente foram expurgados. Os primeiros quatro versículos do capítulo 8 de Romanos se entrelaçam. Dizem que para aqueles que estão em Cristo “já nenhuma Condenação há” (v. 1), pois Deus já condenou os nossos pecados em Jesus Cristo (v. 3), e o fez a fim de que “o preceito da lei se cumprisse em nós” (v. 4). De modo que a mesma cruz de Cristo, que nos livra da con­denação da lei, obriga-nos à obediência da lei.

Segundo, através de Cristo já não estamos sob a tirania da carne. O que Paulo quer dizer com “carne” (sarx) é nossa natureza caída ou humanidade não redimida, tudo o que somos por nascimento, he­rança e criação antes de Cristo nos renovar. Visto que nossa “carne” é o nosso “eu” em Adão, sua característica é o egocentrismo. Paulo apresenta um catálogo de algumas das obras mais horrorosas da carne, entre elas a imoralidade sexual, a idolatria, o ocultismo, o ódio, o ciúme e a ira, a ambição egoísta e as dissensões, e a bebedice. Levando esse tipo de vida, éramos “escravos de toda sorte de paixões e pra­zeres”. Como disse o próprio Jesus: “Todo o que comete pecado é escravo do pecado”. Imediatamente, porém, ele acrescentou: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres. “E a liberdade da nossa natureza caída e de seu egoísmo vem através da. cruz: “Sa­bendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos”.42 Cristo, por meio da sua cruz, ganhou a vitória sobre a carne e também sobre a lei.

Terceiro, por meio de Cristo já não estamos sob a tirania do mundo. Se a carne é o ponto de apoio que o diabo tem dentro de nós, o mundo é o meio pelo qual ele exerce pressão de fora sobre nós. Pois o “mundo” nesse contexto significa a sociedade humana sem Deus, cuja hostilidade para com a igreja é expressa ora mediante ridículo e perseguição declarados, ora por meio de subversão sutil, a infiltração de seus valores e padrões. João declara sem rodeios que o amor do mundo e o amor do Pai são mutuamente incompatíveis. Pois com mundanismo ele quer dizer “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida”. Na primeira expressão, “a concupiscência da carne” é tradução de sarx. “Carne” e “mundo” estão inevitavelmente ligados pois o “mundo” é a comunidade dos não redimidos, cuja perspectiva é ditada por sua natureza não redimida. Juntando-se as três expressões, parece que as características do mundo as quais João enfatiza são seus desejos egoístas, seus juízos superficiais {os olhos vendo somente a aparência superficial das coi­sas) e seu arrogante materialismo. Jesus, porém, fez a seguinte rei­vindicação: “Eu venci o mundo.” Ele rejeitou por completo seus valores distorcidos e manteve imaculada sua própria perspectiva di­vina. João, a seguir, acrescenta que através de Cristo nós também podemos ser vencedores:

porque tudo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé. Quem é o que vence o mundo senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?43

É quando cremos em Jesus Cristo que nossos valores mudam. Já não nos conformamos aos valores do mundo, mas, pelo contrário, descobrimos que estamos sendo transformados pela renovação de nossa mente que compreende e aprova a vontade de Deus. E nada tem mais poder para nos afastar do mundanismo do que a cruz de Cristo. É mediante a cruz que o mundo foi crucificado para nós e nós para o mundo,44 de modo que estamos libertos da sua tirania.

Quarto, por meio de Cristo já não estamos sob a tirania da morte. Diz-se às vezes que, ao passo que nossos antepassados da era vito­riana tivessem um fascínio mórbido pela morte, e jamais falassem de sexo, a geração atual está obcecada com o sexo, enquanto a morte é a coisa que não se pode mencionar. O medo da morte é praticamente universal. Atribui-se ao duque de Wellington a seguinte expressão: “o homem que se gaba de não ter medo da morte deve ser covarde ou mentiroso”. E o Dr. Samuel Johnson acrescentou que “homem racional algum pode morrer sem uma incômoda apreensão”.45 Mas Jesus Cristo é capaz de libertar até mesmo aqueles que “pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida”. Isto porque por meio da sua morte ele “destruiu” (ou privou do poder) “aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo” (Hebreus 2:14).

Jesus Cristo não apenas destronou o diabo mas também destruiu o pecado. De fato, foi ao destruir o pecado que ele destruiu a morte. Pois o pecado é o “aguilhão” da morte, a razão principal pela qual a morte é dolorosa e venenosa. É o pecado que acarreta a morte, e que, depois da morte, traz o juízo. Daí procede o pavor que temos dela. Mas Cristo morreu pelos nossos pecados e os desfez. Com grande desdém, portanto, Paulo compara a morte a um escorpião cujo agui­lhão foi retirado, e a um conquistador militar cujo poder foi quebrado. Agora que fomos perdoados, a morte já não nos pode causar danos. De modo que o apóstolo clama desafiadoramente: “Onde está, ó morte, a tua vitória? onde está, ó morte, o teu aguilhão?” É claro que não há resposta. De modo que ele clama novamente, desta vez em triunfo: “Graças a Deus que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 15:55-57).

Portanto, qual deve ser a atitude do cristão para com a morte? Ela ainda é um inimigo, desnaturado, desagradável e indigno — de fato “o último inimigo a ser destruído”. Contudo, é um inimigo derrotado. Visto que Cristo tirou os nossos pecados, a morte perdeu o seu poder de causar-nos dano e, portanto, de nos apavorar. Jesus resumiu essa idéia em uma de suas maiores afirmações: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente”.46 Isto é, Jesus é a ressur­reição dos crentes que morrem, e a vida dos crentes que vivem. Sua promessa aos primeiros é: “vocês viverão”, significando que não ape­nas sobreviverão, mas que também serão ressuscitados. Sua promessa aos últimos é: “vocês jamais morrerão”, significando que não apenas escaparão da morte, mas também que a morte provará ser um episódio trivial, uma transição à plenitude de vida.

A convicção do cristão de que Cristo “destruiu a morte” (2 Timóteo 1:10) tem levado alguns crentes a deduzirem que ele também destruiu as doenças, e que da cruz devemos reivindicar tanto a cura como o perdão. Uma exposição popular desse tópico é o livro do escritor canadense T. J. McGrossan, intitulado A Cura Física e a Expiação, escrito em 1930, e que recentemente foi reeditado por Kenneth E. Hagin, da igreja pentecostal Rhema. McGrossan apresenta o seu caso nos se­guintes termos: “Todos os cristãos deviam esperar que Deus curasse os seus corpos hoje, porque Cristo morreu para expiar as nossas doenças e também os nossos pecados”. Ele baseia o seu argumento no versículo 4 de Isaías 53, versículo que ele traduz da seguinte ma­neira: “certamente ele levou as nossas enfermidades e carregou as nossas dores”. Ele enfatiza, em particular, que o primeiro verbo he­braico (nasa’) significa “suportar” no sentido de “sofrer o castigo por alguma coisa”. Visto que esse verbo também aparece em Isaías 53:12 (“ele levou o pecado de muitos”), “o ensino claro. . . é que Cristo levou as nossas enfermidades do mesmo modo que levou os nossos pecados”.

Essa interpretação, porém, apresenta três dificuldades. Primeira, nasa’ é usado em vários contextos do Antigo Testamento, incluindo-se o levar a arca e outros móveis do tabernáculo, o levar a armadura, armas e crianças. Ocorre em Isaías 52:11 com referência aos que “levais os utensílios do Senhor”. De modo que o verbo, em si mesmo, não significa “levar o castigo”. Somos obrigados a traduzi-lo dessa forma somente quando tem o pecado como objeto. Que Cristo tenha “levado” as nossas enfermidades pode significar algo totalmente dife­rente (e de fato significa).

Segundo, o conceito apresentado por McGrossan não faz sentido. “Levando a penalidade do pecado” é facilmente inteligível, visto que a penalidade do pecado humano é a morte e Cristo morreu a nossa morte em nosso lugar. Mas qual é a penalidade da enfermidade? Ela não tem penalidade. A doença pode ser em si mesma uma penalidade do pecado, mas não é em si mesma um delito que atraia penalidade. Assim, falar que Cristo “expiou” as nossas enfermidades é misturar categorias; não é uma noção inteligente.

Terceiro, Mateus (o evangelista que mais se preocupou com o cum­primento da Escritura do Antigo Testamento) aplica Isaías 53:4 não à morte expiatória mas ao ministério de cura de Jesus. Foi com o fim de cumprir o que fora dito mediante o profeta Isaías, escreve ele, que Jesus “curou todos os enfermos”. De modo que não temos liberdade de reaplicar o texto à cruz. É verdade que Pedro cita o versículo seguinte “pelas suas pisaduras fomos sarados”, mas os contextos tanto de Isaías quanto de Pedro tornam claro que a “cura” que tinham em mente é a salvação do pecado.47

Portanto, não devemos afirmar que Cristo morreu pelas nossas enfermidades e pelos nossos pecados, que “há cura na expiação”, ou que a saúde está tão prontamente disponível a todos quanto o perdão.

Entretanto, isso não significa que nossos corpos não sejam afetados pela morte e ressurreição de Jesus. Certamente devemos levar a sério estas afirmativas de Paulo acerca do corpo:

Levando sempre no corpo o morrer de Jesus para que tam­bém a sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal (2 Coríntios 4:10-11).

O apóstolo refere-se à enfermidade e à mortalidade de nossos cor­pos humanos, especialmente (no caso dele) com relação à perseguição física. É, diz ele, como experimentar em nossos corpos o morrer de Jesus, e o propósito desse experimentar é que a vida de Jesus possa ser revelada em nossos corpos. Não parece que ele se esteja referindo à ressurreição do seu corpo, pois trata disso mais tarde. Nem tam­pouco suas palavras são esgotadas na sobrevivência dos assaltos fí­sicos que ele sofreu, nos quais foi abatido, mas não destruído (v. 9). Não, ele parece estar dizendo que agora em nossos corpos mortais (cujo fim é a morte) está sendo revelada (repetida duas vezes) a própria “vida” de Jesus (também repetida duas vezes). Ainda quando nos sentimos cansados, doentes e esmagados, experimentamos um vigor e uma vitalidade que são a vida do Jesus ressurreto dentro de nós. Paulo exprime o mesmo pensamento no versículo 16: “Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso homem interior se renova de dia em dia.”

Que a vida de Jesus deve ser revelada constantemente em nossos corpos; que Deus colocou processos terapêuticos maravilhosos no corpo humano os quais lutam com a doença e restauram a saúde; que toda cura é cura divina; que Deus pode curar e às vezes cura miraculosamente (sem meios, instantânea e permanentemente) — essas coisas devemos alegre e confiantemente afirmar. Mas esperar que os doentes sejam curados e os mortos ressuscitados tão regularmente quanto esperamos que os pecadores sejam perdoados, é ressaltar o “já” a expensas do “ainda não”, pois é antecipar a ressurreição. Só então nossos corpos serão inteiramente livres da doença e da morte.

Agora devemos voltar aos quatro tiranos sobre os quais Cristo ga­nhou a vitória e dos quais, em conseqüência, ele nos liberta. As quatro tiranias caracterizam a antiga “era” inaugurada por Adão. Nela, a lei escraviza, a carne domina, o mundo engana e a morte reina. A nova “era”, porém, inaugurada por Cristo, é caracterizada pela graça e não pela lei, pelo Espírito e não pela carne, pela vontade de Deus e não pelas modas do mundo, pela vida abundante e não pela morte. É essa a vitória de Cristo na qual ele permite que entremos.

 

O livro do Apocalipse

Livro algum do Novo Testamento traz testemunho mais claro ou mais forte da vitória de Cristo do que o do Apocalipse de João. Mais da metade das ocorrências do grupo de palavras de “vitória” (nikao, vencer e nike, vitória) são encontradas neste livro. H. B. Swete escre­veu que desde o começo até o fim o Apocalipse é um sursum corda, porque conclama seus leitores a levantar os corações abatidos, a tomar ânimo e perseverar até o final. Michael Green sugeriu que o cântico da liberdade intitulado “Nós Venceremos” poderia ter sido escrito como a “melodia titular do Novo Testamento”.48 Seus acordes triun­fais certamente ecoam por todo o livro das revelações.

No mundo antigo acreditava-se que toda vitória no campo de ba­talha era ganha por deuses em vez de por meros mortais: “somente o deus vence, é vencido e vencível”.49 Daí a popularidade da deusa Nike, que com freqüência era retratada em monumentos, e em cuja honra foi construído o gracioso e pequeno templo da entrada do Partenon. Às vezes fico a pensar se foi em contraste consciente com Nike que o Apocalipse chama a Jesus de ho Nikon, “o Vencedor”, e que seu título também é transferido para os cristãos que vencem.50

Escrito com toda a certeza durante o reinado do imperador Domiciano (81-96 A.D.), o pano de fundo do Apocalipse é o crescimento da perseguição da igreja (agora sistemático em vez de espasmódico) e a prática da adoração ao imperador, cuja recusa por parte dos cristãos muitas vezes dava início a novos estouros de perseguição. O que o Apocalipse faz, de acordo com o seu gênero literário, é erguer a cortina que oculta o mundo invisível da realidade espiritual e mostrar o que se está passando nos bastidores. O conflito entre a igreja e o mundo é visto como não mais que uma expressão no palco público do con­curso invisível entre Cristo e Satanás, o Cordeiro e o dragão. Essa secular batalha é apresentada em uma série de visões dramáticas que têm sido diversamente interpretadas como representações do desen­volvimento histórico da época (a escola “preterista”), através dos sé­culos seguintes (a “historicista”) ou como um prelúdio ao Fim (a “futurista”). Entretanto, nenhuma delas satisfaz por completo. Visto que o juízo final e a vitória são dramatizados várias vezes, as visões não podem representar eventos sucessivos numa seqüência contínua. Parece mais provável, portanto, que as cenas se sobrepõem; que a visão recapitula várias vezes toda a história do mundo entre a primeira vinda de Cristo (a vitória ganha) e a segunda (a vitória concedida); e que a ênfase é sobre o conflito entre o Cordeiro e o dragão que já teve várias manifestações históricas, e terá mais antes do Fim.

O livro tem início com referências a Jesus Cristo como o “primo­gênito dos mortos”, o “soberano dos reis da terra” (1:5), “o primeiro e o último”, “aquele que vive” (1:17-18), e com uma magnífica visão dele com o fim de justificar esses títulos como o Senhor ressurreto, assunto, glorificado e reinante. A seguir vêm as cartas às sete igrejas da província romana da Ásia, cada uma das quais termina com uma promessa apropriada ao “vencedor”. O foco então muda do Cristo que patrulha as suas igrejas sobre a terra para o Cristo que partilha o trono de Deus no céu. Durante quatro capítulos (4—7) o trono ocupa o centro, e tudo o mais é descrito em relação a ele. Jesus Cristo é retratado como Leão e como Cordeiro (uma combinação de imagens que pode indicar que o seu poder provém do seu auto-sacrifício). Ele é visto “no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé”. O motivo pelo qual somente ele é digno de abrir o livro escrito por dentro e por forra (o livro da história e destino) é que ele “venceu” (5:5). E a natureza da sua vitória é que foi morto e com o seu sangue comprou para Deus gente de todas as nações (5:9). Somos levados a compreender que os sombrios eventos que seguem a quebra dos selos e o toque das trombetas (guerra, fome, praga, martírio, terremoto e desastres ecológicos) estão, contudo, sob o con­trole do Cordeiro, que já está reinando e cujo reino perfeito logo será consumado (11:15-18).

Meu objetivo, entretanto, é chegar à visão do capítulo 12, a qual, de alguns modos, parece ser o centro do livro. João viu uma mulher grávida, vestida com o sol, tendo a lua debaixo dos pés, uma coroa de doze estrelas na cabeça e que estava prestes a dar à luz um Filho cujo destino era “reger todas as nações” (v. 5). Ele é, evidentemente, o Messias, e ela a igreja do Antigo Testamento de quem o Messias procedeu. Um dragão vermelho, enorme e grotesco, identificado no versículo 9 como “a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás”, estava na frente da mulher, pronto para “lhe devorar o filho quando nascesse”. Mas o filho “foi arrebatado para Deus até ao seu trono”, e a mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado lugar (vv. 5-6).

Seguiu-se a guerra no céu, na qual “o dragão e seus anjos” foram derrotados. Assim como Cristo havia sido arrebatado da terra para o céu, o dragão agora foi atirado do céu à terra. A vitória certamente deve referir-se à cruz, visto que foi “por causa do sangue do Cordeiro” (v. 11) que o povo de Cristo venceu o dragão. Nenhuma outra arma poderia ser adequada, pois o dragão está “cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta” (v. 12).

É essa, portanto, a situação. O diabo foi derrotado e destronado. Todavia, longe de esses acontecimentos darem paradeiro às atividades dele, a fúria que ele sente no conhecimento de sua destruição que se aproxima, leva-o a redobrá-las. A vitória sobre ele já foi ganha, mas o conflito doloroso com ele continua. E nesse conflito ele confia em três aliados que agora aparecem (na visão de João) disfarçados em dois monstros horrorosos e uma prostituta lasciva e pomposa. Torna-se evidente que os três são símbolos do império romano, embora em aspectos diferentes, a saber, Roma, a perseguidora, Roma, a enga­nadora, e Roma, a sedutora.

O primeiro monstro, que João vê emergindo do mar, possui sete cabeças e dez chifres, como o dragão, e o dragão dá-lhe o seu poder, trono e soberania para que toda a terra o siga. Não é necessário entrar em detalhes de interpretação (por exemplo, que cabeças e que chifres representam quais imperadores). O que é de primeira importância é que a besta profere arrogâncias e blasfêmias contra Deus (13:5), recebe poder para pelejar “contra os santos” e até mesmo (temporariamente) os vencer, e é adorada por todos, menos pelos seguidores do Cordeiro (v. 8). E esse o poder absoluto do estado romano. Mas o cumprimento da profecia não se completou no império romano. Em todo estado violento, que se opõe a Cristo, oprime a igreja e exige a homenagem inquestionável dos cidadãos, a horrível besta que emerge do mar de novo levanta suas cabeças horrorosas e seus chifres agressivos.

O segundo monstro emerge “da terra” (v. 11). Ele é, evidentemente, capanga do primeiro, visto que exerce a sua autoridade e promove a sua adoração, e, a fim de fazê-lo, realiza sinais miraculosos. Se é a característica da primeira besta perseguir, é a característica da segunda enganar (v. 14). As pessoas são forçadas a adorar a imagem da pri­meira besta (uma referência óbvia ao culto do imperador) e a usar a marca da besta, sem a qual serão incapazes de comerciar. Essa se­gunda besta mais tarde é chamada de “falso profeta” (19:20). Embora nessa geração ele tenha simbolizado os promotores do culto do im­perador, em nossos dias ele representa toda religião e ideologia falsas, as quais desviam a adoração para qualquer objeto que não seja o Deus vivo e verdadeiro.

O terceiro aliado do dragão só é apresentado depois de alguns capítulos, durante os quais a vitória fínal do Cordeiro é confiantemente predita e celebrada várias vezes.51 Esse aliado recebe o nome de “grande meretriz” (17:1). Uma vez mais sem dúvida ela representa Roma, pois refere-se a ela como “Babilônia, a grande” (14:8 e 17:5), “a grande cidade que domina sobre os reis da terra” (17:18), e uma cidade situada sobre “sete montes” (v. 9). Desta vez, porém, ela simboliza a corrupção moral de Roma. Ela está assentada numa besta escarlate (um dos reis sobre os quais repousa sua autoridade), está adornada de púrpura e escarlate, ouro, pedras preciosas e pérolas, e segura na mão um cálice de ouro “transbordante de abominações e com as imundícias da sua prostituição” (v. 4). O seu poder sedutor é tal que se diz que os habitantes da terra se embebedaram com o “vinho da sua devassidão” (v. 2). Quer essa devassidão seja a imo­ralidade sexual, quer a idolatria espiritual, não foi sua única ofensa. Lemos mais tarde de sua “luxúria” (18:3) que resultou de seu comércio internacional, incluindo-se o tráfico de escravos (vv. 11-13), “pecados” e “crimes” não especificados (v. 5), e sua exaltada arrogância (v. 7). Seus reis farão guerra contra o Cordeiro, “e o Cordeiro os vencerá”, porque “é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (17:14).

E nos capítulos 18 e 19 a queda de “Babilônia, a grande” não so­mente é descrita com detalhes gráficos, mas também vindicada como inevitável e justa. Vislumbra-se a Jesus, o Vencedor, num cavalo branco, à medida que “julga e peleja com justiça” (19:11-16). Então, nos últimos três capítulos descrevem-se a destruição final e a morte de Satanás, o novo céu e a nova terra, e a Nova Jerusalém, onde não haverá lágrimas, morte, dor ou noite, quando Deus estabelecer o seu reino perfeito.

O diabo não mudou as suas estratégias. Embora o império romano tenha passado há muito, outras estruturas de perseguição, engano e corrupção têm-se erguido no seu lugar. Em alguns países hindus e muçulmanos hoje, em desafio à Declaração de Direitos Humanos das Nações Unidas, propagar o evangelho e professar a conversão são ofensas puníveis com a prisão e até mesmo a morte. Na maioria dos países marxistas colocam-se severas restrições no ensino dos jovens e em todas as atividades religiosas realizadas fora de edifícios espe­cialmente registrados. Onde quer que predomine uma cultura não cristã, as oportunidades de educação mais elevada e prospectos de promoção tendem a ser limitados, e os direitos de cidadania são ne­gados. Quanto à “besta que emerge da terra” ou “falso profeta”, ela está ativa por meio de outras religiões, novas seitas e ideologias se­culares. Michael Green apresenta em dois capítulos do seu livro Creio na Queda de Satanás informações bem documentadas acerca da “fas­cinação do ocultismo” e da “religião falsa”. Concordo com ele em que essas ainda são duas das “armas mais poderosas da armadura de Satanás”. Quanto à “grande meretriz”, o assalto sobre a moralidade cristã (isto é, bíblica) tradicional tem penetrado as defesas da própria igreja. Na questão da santidade da vida humana (a saber, com refe­rência ao aborto e experimentos com embriões) a igreja tende a tomar uma posição ambígua. Não há testemunho unido contra a imoralidade de armas indiscriminadas. O divórcio é cada vez mais tolerado, até entre líderes cristãos. Estilos sexuais de vida que não a monogamia heterossexual estrita nem sempre são condenados. E continuamos a desfrutar, no Ocidente, um nível de afluência que é insensível à luta de milhões de destituídos.

A mensagem do Apocalipse é que Jesus Cristo derrotou a Satanás e um dia o destruirá por completo. É à luz dessas certezas que de­vemos confrontar sua contínua atividade maliciosa, quer seja física (por meio da perseguição), quer seja intelectual (através do engano) ou moral (mediante a corrupção). Como, pois, podemos entrar na vitória de Cristo e prevalecer contra o poder do diabo? Como podemos ser contados entre os “vencedores”? Como podemos esperar derrubar o inimigo, não apenas em nossas próprias vidas mas também no mundo que ele usurpou?

Primeiro, recebemos a ordem de resistir ao diabo. “Resisti-lhe firmes na fé”. Novamente, “resisti ao diabo, e ele fugirá de vós”.52 Não devemos ter medo dele. Grande parte da sua demonstração de poder é blefe, visto que foi derrotado na cruz, e necessitamos da coragem de enfrentá-lo. Vestidos com a armadura de Deus, podemos ficar firmes contra ele (Efésios 6:10-17). Não devemos fugir dele, mas, pelo contrário, resistir-lhe de modo que ele fuja de nós. Contudo, nossa voz fraca não possui autoridade suficiente para afugentá-lo. Não po­demos dizer, em nosso próprio nome, como Jesus podia: “Vai-te Satanás”. Mas podemos fazê-lo no nome de Jesus. Temos de reivin­dicar a vitória da cruz. “No nome de Jesus Cristo, do Christus Victor, que te derrotou na cruz, vai-te, Satanás”. Funciona. Ele conhece o seu vencedor. Ele foge da sua presença.

Segundo, temos a ordem de proclamar a Jesus Cristo. A pregação da cruz ainda é o poder de Deus. É através da proclamação do Cristo crucificado e ressurreto que converteremos as pessoas “das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus” (Atos 26:18), e, assim, o reino de Satanás baterá em retirada ante a aproximação do reino de Deus. Nenhuma outra mensagem é defendida e honrada pelo Espírito Santo da mesma maneira.

Portanto, tanto em nossa vida como na missão da igreja, é somente a cruz de Cristo, pela qual Satanás foi derrotado, que pode prevalecer contra ele. É ainda verdade hoje que eles o “venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram, e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Apocalipse 12:11). O testemunho descomprometido de Cristo é essencial. Tam­bém o é a disposição de darmos nossas próprias vidas por causa dele, se necessário. Mas indispensável a ambos é o conteúdo de nossa fé e mensagem, a saber, a vitória objetiva e decisiva do Cordeiro sobre todos os poderes das trevas, a qual ele ganhou ao derramar o seu sangue na cruz.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *