A Bíblia Livro Por Livro – 2 Coríntios

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06/05/2015
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A Bíblia Livro Por Livro – 2 Coríntios

INFORMAÇÕES BÁSICAS SOBRE 2CORÍNTIOS

■ Conteúdo: provavelmente duas cartas (caps. 1—9; 10—13) combinadas em uma, tratando principalmente do relacionamento tênue de Paulo com a igreja coríntia, e no processo tratando de várias outras questões também (o ministério de Paulo, a coleta para os pobres em Jerusalém e a questão referente a alguns cristãos judeus itinerantes que invadiram a igreja)

■ Autor: o apóstolo Paulo, junto com Timóteo

■ Data: cerca de 54-55 d.C, escrevendo na Macedônia (2.13; 7.5) — muito provavelmente em Filipos

■ Receptores: veja lCoríntios

■ Ocasião: o retorno de Tito de uma vista recente (7.5-7) e a esperada terceira visita de Paulo à igreja (13.1) à luz (1) da necessidade de a igreja estar com a coleta pronta antes de Paulo chegar lá e (2) da prontidão deles em acolher “falsos apóstolos […] disfarçando-se de apóstolos de Cristo” (11.13)

■ Ênfases: o ministério cristão como serviço, refletindo o de Cristo; a glória maior da nova aliança em contraste com a antiga; a glória do evangelho exibida na fraqueza dos seus ministros; o evangelho como reconciliação; dar aos pobres como uma expressão de generosidade, não de obrigação

VISÃO GERAL DE 2CORÍNTIOS

Ler 2Coríntios é algo como ligar a televisão no meio de uma cena muito complicada. As pessoas estão falando e coisas estão acontecendo, mas não temos a mínima certeza de quem são alguns dos personagens ou de qual é a trama. Para dizer a verdade, ao começar a ler essa carta depois de ICoríntios, temos a sensação de estar entrando em um mundo novo. Só algumas das questões suscitadas na primeira carta aparecem aqui, com exceção da preocupação com a coleta (ICo 16.1-4/2Co 8—9) e talvez um retorno à questão do alimento oferecido aos ídolos em 2Coríntios 6.14-17. Mas essa é uma visão superficial; o que une as duas cartas é a tensão dominante que se pode sentir entre Paulo e os coríntios com respeito ao verdadeiro apostolado.

Há quatro questões mutuamente relacionadas na(s) carta(s) que explicam todas as suas partes: (1) a mudança de planos de Paulo com respeito a visitas a Corinto, (2) a coleta (3) seu apostolado e ministério e (4) a presença dos cristãos judeus itinerantes.

As três primeiras questões continuam a partir de ICoríntios e são tratadas em 2Coríntios 1—9. Uma explicação cronológica das suas relações passadas imediatas com eles, aparentemente desencadeada por sua mudança de planos quanto a visitas propostas e reais, é encontrada em 1.12—2.13 e continuada em 7.5-16. O longo interlúdio de 2.14—7.4 é a joia da coroa da carta. Aqui Paulo defende seu apos-tolado-em-fraqueza (lembre de ICoríntios), uma questão que havia sido agravada pelos oponentes de Paulo (2.14—4.6). A necessidade de estar com a coleta pronta antes de ele vir é tratada nos capítulos 8—9. Os capítulos 10—13 contêm um vigoroso ataque aos seus oponentes cristãos judeus — comparável ao que há em Gálatas (cf. Fp 3.2) — em que vemos, entretecidos, indignação, sarcasmo mordaz e súplicas gentis para que os coríntios retomem o juízo.

ORIENTAÇÕES PARA A LEITURA DE 2CORÍNTIOS

Independentemente de como você tentar ler 2Coríntios, você perceberá que é uma carta difícil, particularmente no sentido de entender como ela se mantém coesa. Há três razões para isso. Em primeiro lugar, essa é a carta mais intensamente pessoal dentre o legado de

cartas de Paulo, porque o que está em questão ao longo de toda ela é o relacionamento contínuo, e acima de tudo doloroso, do apóstolo com essa igreja. A intensidade dessa dimensão pessoal explica várias coisas, incluindo tanto o modo como Paulo se expressa quanto a dificuldade que às vezes temos em seguir a sua linha de pensamento (p. ex., 2.14—7.4).

Em segundo lugar, há a probabilidade de que 2Coríntios consista na verdade na quarta e quinta cartas de Paulo a essa igreja, unidas em uma só carta no processo da sua transmissão (há uma carta que precede ICoríntios [v. ICo 5.9]; entre 1 e 2 Coríntios há a carta de tristeza mencionada em 2Co 2.3,4). Há duas razões para acreditar nisso: (1) embora Paulo critique os itinerantes em 2.17—3.3 (os “mercenários da palavra de Deus”), o restante dos capítulos 1—9 reflete uma situação relativamente estável, incluindo simpatia e termos de estima (p. ex., 1.7; 2.1-4; 6.11-13; 7.13-16) de um tipo completamente ausente em ICoríntios. Quase todos concordam que algo aconteceu entre a escrita dessas palavras e o que aparece nos capítulos 10—13. (2) Em 8.16-18, Paulo recomenda Tito e outro irmão que irão levar a carta 4 (caps. 1—9) e recolher a coleta; em 12.18 Paulo se refere a esse envio como um evento passado.

Em terceiro lugar está o aspecto de como as quatro questões mantêm a carta coesa. Nossa sugestão: a relação de Paulo com essa igreja, que já era tênue quando ele escreveu ICoríntios, havia obviamente piorado. Isso está ligado em parte a uma mudança de planos em relação ao itinerário traçado em ICoríntios 16.5-9. Em vez de vir pela Mace-dônia, ele veio diretamente de Éfeso, para a grande surpresa e vexame deles (a coleta não estava pronta). Um encontro sério com alguém, a que se alude em 2Coríntios 2.1,2,5-11 e 7.11,12 (talvez um dos itinerantes), fez Paulo ir embora tão abruptamente quanto havia aparecido.

Entrementes, ele mudou de planos mais uma vez! Em vez de retornar a Corinto a partir da Macedônia (1.15,16), ele foi a Éfeso e enviou Tito com sua carta de tristeza (2.3,4), em parte para ter certeza de que a coleta estava sendo encaminhada. Quando ele e Tito finalmente se encontraram na Macedônia (2.12,13; 7.5-7), Tito trouxe essencialmente boas notícias. Embora a carta de Paulo os tivesse machucado,

como ele sabia que aconteceria, ela também conduziu a arrependimento e disciplina (demasiada) do homem que havia atacado Paulo (2.5-11). Tudo isso é abordado nos capítulos 1—7.

A primeira razão para Paulo vir, entretanto, ainda está em primeiro plano — recolher a coleta (caps. 8—9). Tito, portanto, está sendo enviado na frente com a carta 4 (caps. 1—9), que explica as suas ações e pretende, especialmente, garantir que a coleta esteja pronta quando Paulo e alguns macedônios chegarem um pouco depois (9.1-5).

Enquanto isso, os itinerantes ainda estavam exercendo seu negócio. Quando Tito chegou com a carta 4, eles parecem ter obtido o controle, de modo que Tito voltou logo para a Macedônia com as más notícias, levando Paulo a escrever novamente, dessa vez confrontando tanto os coríntios como seus oponentes por agirem falsamente usando o evangelho e o verdadeiro significado do apostolado. Essa carta foi preservada como os capítulos 10—13 de 2Coríntios como a temos.

Ao colocar essas coisas em perspectiva para uma leitura mais fácil dessa carta, certifique-se de não perder de vista a grandeza da sua teologia, tanto do ministério quanto do evangelho. Aqui Paulo retoma a teologia da cruz como aplicada ao ministério, que começou em lCoríntios 4.9-13, e a desenvolve em plenos detalhes. A glória de Deus — e o poder do evangelho — não é minimizada, mas realçada, por meio da fraqueza dos “vasos de barro” (2Co 4.7; cf 12.7-10) que a proclamam. Um ministério desses está em harmonia com o Crucificado, afinal de contas. Aqui Paulo se gloria repetidamente em sua fraqueza — não porque ele gostasse de sofrer, mas porque isso significava que a atenção se concentrava no Salvador, não no mensageiro. E a passagem tratando da glória da nova aliança por meio de Cristo e do Espírito (3.1-18) “vale o preço do livro”. Portanto, leia e aproveite!

UMA CAMINHADA POR 2CORÍNTIOS □ 1.1-11 Saudação e louvor a Deus

Em vez da habitual seção de ações de graças e oração, observe nesse caso que Paulo irrompe em louvor a Deus por conforto/encorajamento no sofrimento (v. 3-7), que serve como modo de informar os coríntios sobre a sua mais recente libertação da morte (v. 8-11).

□ 1.12—2.13 Uma explicação sobre as mudanças de

planos de Paulo

Na sua leitura dessa seção, esteja alerta para o fato de que tudo está em ordem cronológica. Assim, observe que Paulo se sente compelido no início a oferecer razões para a sua mais recente mudança de planos (1.12-17). Isso porque, no final das contas, é o próprio evangelho que está em jogo se os seus mensageiros não são dignos de confiança (v. 18-22). Ele então explica por que escreveu a carta de tristeza em vez de voltar depois da visita dolorosa (1.23—2.4). Depois de instar por compaixão para com o homem que causou tristeza a Paulo (2.5-11), resultando da sua carta que acabou de mencionar, ele retoma seu itinerário, de Éfeso a Trôade e dali à Macedônia, refletindo especialmente sua própria aflição a respeito da carta de tristeza (2.12,13).

□ 2.14—7.4 Paulo, ministro da nova aliança

Observe como a aflição de Paulo por não receber notícias sobre Corinto em Trôade resulta nessa digressão realmente formidável. Embora ela toda apresente um estilo de fluxo de consciência, é possível perceber a direção em que ela flui. Após palavras iniciais de ações de graças pela vitória apesar da aflição atual, ele passa para o maravilha-mento quanto ao seu ministério concedido por Deus (v. 15,16), que ele então situa em contraste com os itinerantes, agora em conexão com a nova aliança realizada por Cristo e pelo Espírito (2.17—3.6).

Isso inicia um contraste entre o novo e o antigo (3.7-18, evidência do caráter judaico de seus oponentes). Para compreender essa passagem, é uma boa ideia ler Êxodo 34.29-35, já que esse é um perfeito exemplo do que é um midrash judaico — uma aplicação, dentro de um sermão, de um texto do Antigo Testamento a uma nova situação. Observe como isso chega ao ápice com a obra passada de Cristo e a presente obra do Espírito (2Co 3.14-18).

Paulo então aplica o que foi dito até agora à sua situação e à deles (4.1-6), que por sua vez leva à reflexão sobre as tensões de se viver “já, mas ainda não”, contrastando a fraqueza e o sofrimento corporais presentes com a glória eterna e a futura ressurreição (4.7—5.10).

Retornando ao seu próprio papel de proclamar a Cristo, Paulo realça que a morte e a ressurreição de Cristo mudam a nossa perspectiva de todas as coisas — incluindo como os coríntios devem enxergá-lo e como devem considerar os seus sofrimentos como um apóstolo (5.11-17) —, mas observe que a menção ao evangelho tipicamente significa a elaboração da sua glória e propósitos, agora (notavelmente) em conexão com a reconciliação (5.18-21)!

Por fim, ele roga para que eles aceitem a ele e ao seu evangelho (6.1,2,11-13), novamente situado em uma afirmação retoricamente incisiva da presente existência como “já, mas ainda não” (v. 3-10).

A digressão incomum em 6.14-17 provavelmente diz respeito à questão de comer nos templos dos ídolos (cf. ICo 8.1-13; 10.14-22), desencadeada pela sua súplica em favor da abertura deles com respeito à afeição (2Co 6.11-13), a que ele retorna em 7.2-4, que finalmente o traz de volta ao ponto em que ele parou em 2.13.

□ 7.5-16 Continuação da explicação

Observe como 7.5 retoma o relato cronológico de eventos recentes de 2.13. Paulo agora explica como ele reagiu ao retorno de Tito com as boas notícias da tristeza santa e da atitude em geral aberta deles para com Paulo. Ele está especialmente contente por Tito tê-los encontrado de maneira correspondente ao que Paulo, com orgulho, tinha dito sobre eles.

□ 8.1—9.15 Tenham a coleta pronta quando eu vier

Mas não obstante toda a prontidão deles para se arrepender (7.11), ainda resta a atividade que Tito pôde apenas começar (8.6), mas não levar à conclusão, a saber, a coleta para os pobres em Jerusalém. Você verá que o que agora preocupa Paulo é que ele se vangloriou para os macedônios da prontidão dos coríntios, e alguns representantes dessas igrejas em breve o acompanharão a Corinto (9.1-5). Assim, envolvendo a recomendação de Tito e os dois que irão acompanhá-lo (8.16-24, Tito deve garantir que a coleta esteja pronta), Paulo apela, respectivamente, (1) ao exemplo da Macedônia (8.1-5), (2) ao fato de eles serem excelentes em tantas coisas, incluindo a iniciativa para fazer a coleta

(8.6-12), (3) ao princípio bíblico de que os que têm em abundância devem compartilhar com os necessitados (8.13-15) e, finalmente, (4) à generosidade como verdadeira expressão de piedade (9.6-15).

□ 10.1—13.14 Defesa do ministério de Paulo contra falsos apóstolos

Ainda que se prenuncie essa questão em 2.17—3.3, depois das palavras adocicadas de 7.5-16 dificilmente estamos preparados para a artilharia pesada que vem agora. Você verá que o todo é uma defesa ardente do ministério de Paulo, tanto o seu pessoalmente quanto a natureza do ministério em si — tudo à luz dos falsos apóstolos, cujas difamações contra Paulo emergem ao longo dessa passagem.

Assim, Paulo começa tratando diretamente de uma acusação — a suposta inconsistência entre as suas cartas e a sua conduta pessoal quando com os coríntios (10.1-11), mostrando por sua vez a inconsistência dos seus oponentes, que trabalham no campo dele em vez de evangelizaram no campo deles (10.12-18).

Isso leva a um ataque direto a eles — eles são fornecedores enganosos de um falso evangelho (11.1-4) — seguido de um contraste mordaz entre eles (como servos de Satanás, que tomam o dinheiro dos coríntios para seu próprio lucro) e ele mesmo (11.5-15). Pessoalmente desconfortável com o que sente que foi forçado a fazer, ele finalmente recorre a um discurso de “louco” (11.16-33, o “louco” no teatro grego permitia ao autor da peça falar de maneira ousada à platéia sem sofrer consequências). Visto que seus oponentes se gloriam em seus feitos (10.12,13; 11.18), Paulo irá se “gloriar” em seus não-feitos, dessa forma deliberadamente — e ironicamente — colocando o seu ministério num contexto de conformação à cruz. A ironia máxima é a sua fuga de Damasco através de uma abertura no muro (concedia-se a honra máxima no exército romano à primeira pessoa que escalava um muro na batalha!).

Ele continua o gloriar-se em sua fraqueza ao se recusar a dar pro-eminência a visões e revelações, como seus oponentes fazem, concluindo com a nota teológica máxima — que o “poder [de Cristo] se aperfeiçoa na fraqueza [de Paulo]” (12.1-10), refletindo novamente a

teologia da cruz articulada em ICoríntios 1—4. A isso se segue uma série de pedidos (principalmente pessoais) (2Co 12.11-21).

As exortações finais (13.1-10) então resumem os argumentos precedentes antes das saudações finais (v. 11-13) — e a bênção trinitária por excelência (v. 14).
A importância dessa carta para a história bíblica não deve ser depreciada por causa da sua dimensão fortemente pessoal. Em jogo está o próprio caráter de Deus — a sua graça amorosa expressa mais extraordinariamente na fraqueza da cruz, que Paulo insiste também ser a única verdadeira expressão de discipulado. Disso decorre a prontidão de Paulo para se gloriar em suas fraquezas, visto que elas servem para magnificar o evangelho da graça, o verdadeiro poder de Deus atuando no mundo.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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