A AUTO-VIGILÂNCIA DO MINISTRO – Teologia Pastoral

CONVERSÃO COMO O NOSSO OBJETIVO – Teologia Pastoral
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O CHAMADO PARA O MINISTÉRIO – Teologia Pastoral
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A AUTO-VIGILÂNCIA DO MINISTRO – Teologia Pastoral

“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina” 1 Tim. 4:16.

 

Todo trabalhador sabe que deve manter as suas ferramentas em bom estado, pois, “se estiver embotado o ferro, e não se afiar o corte, então se devem pôr mais forças”. Se a enxó do operário perder o corte, ele sabe que terá que despender mais energia, ou então o seu trabalho será mal feito. Miguel Ângelo, o eleito das betas artes, entendia tão bem a importância dos seus instrumentos de trabalho, que sempre fazia com as próprias mãos os seus pincéis, e com isto nos dá uma ilustração do Deus da graça que, com especial cuidado, modela pessoalmente todos os verdadeiros ministros da Palavra.

É certo que o Senhor, como Quintín Matsys na história do bom artífice de coberturas de Antuérpia, pode trabalhar com a mais defeituosa espécie de instrumentalidade, como acontece quando ocasionalmente faz com que uma pregação bastante estulta seja útil para a conversão de pecadores. Ele pode agir até mesmo sem intermediários, como quando salva pessoas sem usar nenhum pregador, aplicando a Palavra diretamente por Seu Espírito Santo. Mas não podemos considerar os atos absolutamente soberanos de Deus como uma regra para a nossa ação. No caráter absoluto do Seu Ser, Deus pode agir como bem lhe apraz, mas nós temas que agir conforme as instruções mais claras que Ele nos dá em Suas dispensações. É um fato bastante evidente este, que geralmente o Senhor adapta os meios aos fins, o que nos dá a lição de que temos mais probabilidade de realizar o máximo quando estamos nas melhores condições espirituais. Ou, em outras palavras, geralmente fazemos melhor a obra do Senhor quando os nossos dons e graças estão em boa ordem, e o trabalho sai pior quando aqueles dons e graças estão desordenados. Esta é uma verdade prática para nossa orientação. Quando o Senhor faz exceções, estas apenas confirmam a regra.

Em corto sentido, somos as nossas próprias ferramentas, e, portanto, precisamos manter-nos em ordem. Se quero pregar o evangelho, só posso usar a minha própria voz; daí, devo aprimorar as minhas virtudes vocais. Só posso pensar com o meu cérebro, e sentir com o meu coração; portanto, devo educar as mInhas faculdades intelectuais e emocionais. Só posso chorar e agonizar pelas almas com a minha própria natureza renovada; portanto, devo manter vigilantemente a ternura que havia em Cristo Jesus. Ser-me-á vão suprir minha biblioteca, ou organizar sociedades, ou fazer planos, se eu negligenciar o cultivo de mim mesmo; pois livros, agências e sistemas só remotamente são instrumentos da minha santa vocação.

Meu espírito, alma e corpo são os meus mecanismos mais à mão para o serviço sagrado; as minhas faculdades espirituais e a minha vida interior são o meu machado de combate, as minhas armas de guerra. McCheyne, escrevendo a um colega de ministério que estava no exterior com vistas a aperfeiçoar os seus conhecimentos do idioma alemão, empregou linguagem idêntica à nossa. Escreveu ele:

“Sei que você se aplicará arduamente ao alemão, mas não se esqueça de cultivar o homem interior – quero dizer, o coração. Quão diligentemente o oficial da cavalaria conserva limpo e afiado o seu sabre; qualquer mancha ele a remove com o maior esmero. Lembre-se de que você é a espada de Deus. É Seu instrumento – espero, vaso escolhido para Ele, para levar o Seu nome. Em grande medida, o sucesso será de acordo com a pureza e perfeição do instrumento. Deus abençoa não tanto a talentos, como à semelhança com Jesus. O ministro santo é temível arma na mão de Deus”.

Estar o arauto do evangelho espiritualmente fora de ordem em sua pessoa é, tanto para ele como para o seu trabalho, uma calamidade das mais graves. Contudo, irmãos, com que facilidade se produz esse mal, e com que vigilância devemos prevenir-nos contra ele! Um dia, viajando pelo expresso de Perth a Edimburgo, de repente o trem parou bruscamente porque um parafusinho de nada de um dos motores se quebrara – sendo que toda a locomotiva compõe-se virtualmente de dois motores. Quando partimos de novo, fomos obrigados a arrastar-nos lentamente apenas com uma biela de pistão funcionando, em vez de duas. Somente se perdera um pequeno parafuso. Se ele tivesse ficado em ordem, o trem teria prosseguido velozmente em seu caminho de ferro, mas a ausência de uma diminuta peça de ferro desarrumou tudo.

Conta-se que nas ferrovias dos Estados Unidos um trem parou por causa de insetos que penetraram nas caixas de graxa dos eixos do comboio. A analogia é perfeita. Uma pessoa em todos os demais aspectos habilitada para ser útil pode, por algum defeito diminuto, ser extremamente prejudicada, ou até tornar-se inútil por completo. Um resultado desses é em extremo ruinoso, uma vez que está associado ao evangelho que, no sentido supremo, é adequado a produzir os maiores resultados. É terrível quando um ungüento perde a sua eficácia devido ao trapalhão que o aplica. Todos vocês sabem dos efeitos nocivos produzidos muitas vezes na água quando passa por canos ruins; assim também o próprio evangelho, passando através de homens espiritualmente doentios, pode ser aviltado a ponto de se tornar nocivo aos ouvintes. É de temer que a doutrina calvinista se torne um ensino muito danoso quando exposta por homens de vida ímpia, e apregoada como se fosse um manto para a licenciosidade. O arminianismo, por outro lado, com a sua ampla extensão do oferecimento de misericórdia, poderá causar o mais sério dano às almas, se o tom descuidado do pregador levar os ouvinte a acreditarem que são capazes de arrepender-se quando bem quiserem. Com isso, pois, a mensagem do evangelho não implica em nenhuma urgência. Além disso, quando o pregador é pobre de graça, qualquer benefício permanente que poderia resultar do seu ministério em geral será fraco e completamente desproporcional ao que se poderia esperar.

Muita semeadura seguir-se-á de escassa colheita. O interesse pelos talentos será inapreciavelmente pequeno. Em duas ou três batalhas em que fomos derrotados na recente guerra americana, diz-se que o resultado deveu-se à má qualidade da pólvora entregue por certos pseudo-fornecedores contratados pelo exército, de modo que os canhoneios não produziram efeito. Pode acontecer o mesmo conosco. Podemos errar o alvo, perder a nossa finalidade, o nosso objetivo, e desperdiçar o tempo, por não possuirmos dentro de nós a verdadeira força vital ou por não a possuirmos na medida em que, compativelmente, levaria Deus a abençoar-nos. Cuidem para não serem pseudo-pregadores.

Um dos nossos primeiros cuidados deve ser que nos mesmos sejamos homens salvos.

Que um mestre do evangelho seja antes um participante dele é verdade simples, mas ao mesmo tempo é uma regra da mais ponderável importância. Não estamos entre os que aceitam a sucessão apostólica de jovens simplesmente porque a supõem. Se a experiência pedagógica deles for mais de vivacidade do que de espiritualidade, se as suas honras se ligam aos exercícios atléticos e não a trabalhos para Cristo, exigimos prova de natureza diversa das que eles estão capacitados para apresentar-nos. Nenhuma soma paga a título de honorários a cultos doutores do saber, e nenhuma soma de conhecimentos clássicos recebidos em troca, nos parecem evidência da vocação do alto. A verdadeira piedade é necessária como o primeiro requisito indispensável. Seja qual for a “vocação” que um homem simule possuir, se não foi vocacionado para a santidade, certamente não foi vocacionado para o ministério.

“Arruma-te primeiro, e depois enfeita o teu irmão”, dizem os rabinos. “A mão”, diz Gregório, “que tenciona limpar a outrem, deve estar limpa.” Se o seu sal for insípido, como pode dar sabor a outros? A conversão é uma sine qua non em um ministro – uma condição indispensável. Vós, que aspirais aos nossos púlpitos, “necessário vos é nascer de novo”. Tampouco deve ser presumida a posse desta primeira qualidade, pois existe grande possibilidade de estarmos enganados sobre se somos ou não convertidos.

Creiam-me, não é brincadeira infantil “fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição”. O mundo está repleto de limitações, e está apinhado de alcoviteiros do amor-próprio carnal, que cercam o ministro como abutres em volta de uma carcaça. Nossos corações são enganosos, de sorte que a verdade não está na superfície, mas tem que ser arrancada do poço mais profundo. Devemos sondar-nos a nós mesmos com ávido interesse e de modo completo, para não suceder que, tendo de alguma forma pregado a outros, não venhamos a ficar reprovados.

Que corsa horrível, ser pregador do evangelho e, todavia, não estar convertido! Cada qual sussurre consigo mesmo no íntimo de sua alma: “Que coisa terrível seria para mim, se eu ignorasse o poder da verdade que me estou preparando para proclamar!” O ministério exercido por um inconverso envolve relações das mais antinaturais. Um pastor destituído da graça é semelhante a um cego eleito professor de ótica, que faz filosofia sobre a luz e a visão, comentando e distinguindo para outros os belos sombreados e as delicadas combinações das cores prismáticas, enquanto ele mesmo está absolutamente em trevas! É um mudo elevado à cátedra de música; um surdo a falar sobre sinfonias e harmonias! Uma toupeira pretendendo criar filhotes de águias; um molusco eleito presidente de anjos!

A esse tipo de relação poder-se-iam aplicar as metáforas mais absurdas e grotescas, se o assunto não fosse tão solene. É uma tremenda posição para um homem ocupar, pois ao fazê-lo está se comprometendo com uma obra para a qual está inteiramente, completamente, totalmente desqualificado, mas de cujas responsabilidades sua falta de habilitação não o resguarda, porque ele as assumiu voluntariamente. Sejam quais forem os seus dons naturais, sejam quais forem os seus poderes mentais, estará completamente fora do páreo para a obra espiritual se não tiver vida espiritual. E será seu dever interromper o ofício ministerial enquanto não receber esta qualificação, que é a primeira e a mais básica de todas.

O ministério exercido por inconversos pode ser igualmente terrível noutro sentido. Se o homem não for realmente comissionado, que infeliz é esta posição para ele! Que poderá achar na experiência das pessoas sob o seu cuidado pastoral que o possa confortar? Como haverá de sentir-se quando escutar o clamor dos arrependidos, ou quando ouvir as suas dúvidas repassadas de ansiedade e os seus graves temores? Ficará espantado ao pensar que as suas palavras deveriam se adequadas àquela necessidade aguda! A palavra de um homem não convertido pode ser abençoada para a conversão de almas, desde que o Senhor, embora repudie ao homem, continue honrando a Sua verdade. Como há de ficar perplexo o homem, quando consultado sobre dificuldades de cristãos amadurecidos! No caminho da experiência, pelo qual são conduzidos os seus ouvintes regeneradas, ele mesmo só poderá sentir-se um completo fracasso. Como poderá captar as alegrias dos que estão em seus eleitos de morte, ou participar da comunhão fervorosa dos crentes à mesa do Senhor?

Em muitos casos de jovens empregados numa profissão que não podem agüentar, correm eles a engajar-se na marinha, preferindo isso a seguir uma ocupação penosa. Mas, para onde fugirá aquele que treinou para dedicar-se a vida toda a esta santa vocação, e, contudo, é completamente alheio ao poder da vida piedosa? Como poderá diariamente exortar que os homens venham a Cristo, enquanto ele mesmo é estranho ao Seu amor que O levou à morte sacrificial? Ó senhores, seguramente isto só pode ser uma escravidão perpétua. Tal homem certamente odiará a simples visão de um púlpito, tanto quanto um escravo das galés odeia o remo.

E quão imprestável há de ser um homem desses! Cabe-lhe guiar viajores ao longo de uma estrada que ele nunca percorreu, navegar por uma costa da qual não conhece nenhuma das balizas orientadoras! É chamado para instruir a outros, sendo ele mesmo um tolo. Que é que ele pode ser, senão uma nuvem sem chuva, uma árvore que só tem folhas? Como quando uma caravana no deserto, com todos sedentos e quase morrendo assados ao sol, chega à tão desejada fonte e – horror dos horrores! – encontra-a sem uma gota d’água, assim, quando almas sedentas de Deus chegam a um ministério carente da graça, ficam prestes a perecer porque não acham ali a água da vida. É melhor abolir os púlpitos do que enchê-los de homens que não têm conhecimento experimental daquilo que ensinam.

Ah! o pastor não regenerado vem a ser terrivelmente nocivo também, pois, de todas as causas produtoras de infidelidade, os ministros carentes de vida piedosa devem ser classificados entre as primeiras. Li outro dia que nenhum aspecto do mal já apresentou tão extraordinário poder de destruição como o ministro não convertido de uma paróquia que contava com um órgão caríssimo, um coro composto de cantores ímpios, e membros de uma igreja aristocrática. A opinião do escritor era que não poderia haver maior instrumento de condenação do que isso, fora do inferno. As pessoas vão para o seu local de culto, sentam-se comodamente e se acham cristãs, quando o tempo todo, tudo aquilo em que a sua religião consiste resume-se em ouvir um orador, sentir cócegas nos ouvidos, feitas pela música, e talvez ter os olhos divertidos por atitudes graciosas e maneiras elegantes, sendo o conjunto todo nada melhor do que o que ouvem e vêem na ópera – talvez não tão bom, quanto à beleza estética, e nem um átomo mais espiritual. Milhares se congratulam, e até bendizem a Deus por serem Seus devotos adoradores quando, ao mesmo tempo, vivem numa condição de não regenerados, sem Cristo, tendo a forma da piedade mas negando o poder dela. Quem dirige um sistema que não visa a nada mais elevado que o formalismo, é muito mais servo do diabo do que ministro de Deus.

Um pregador meramente formal já é nocivo enquanto preserva o seu equilíbrio externo, mas como não possui o equilíbrio da piedade que poderia preservá-lo, mais cedo ou mais tarde é quase certo que cometerá um erro em seu caráter moral, e em que posição fica ele neste caso! Como Deus é blasfemado! E como o evangelho sofre abusos!

É terrível considerar que morte espera tal homem! E qual será a sua condição posterior! O profeta retrata o reí da Babilônia descendo ao inferno, e todos os reis e príncipes que ele tinha destruído, e cujas capitais tinha assolado, erguendo-se dos seus lugares no inferno e saudando o tirano caído com o cortante sarcasmo: “Tu também adoeceste como nós, e foste semelhante a nós” (Is. 14:10). E vocês não podem imaginar um homem que foi ministro, mas que viveu sem Cristo no coração, indo para o inferno, e todos os espíritos em prisão que costumavam ouvi-lo, e todos os ímpios da sua igreja, levantando-se e lhe dizendo em tom amargo: “Tu também te fizeste como nós? Médico, não te curaste a ti mesmo? Tu, que te proclamavas ser brilhante luz, lançado nas trevas para sempre?” Ah! se alguém tem que se perder, que não seja desse jeito! Perder-se à sombra de um púlpito é terrível, mas quanto mais terrível é perecer havendo ocupado o púlpito!

No tratado de John Bunyan intitulado “Suspiros do Inferno” (Sighs from Hell) há uma temível passagem que muitíssimas vezes ressoa em meus tímpanos:

“Quantas almas foram destruídas por causa da ignorância de clérigos cegos? Pregação que não era melhor para as suas almas do que veneno de rato para o corpo. É de temer que muitos deles tenham que responder por cidades inteiras. Ah! amigo, digo-te, tu que te incumbiste de pregar ao povo, pode ser que não consigas sequer falar aquilo de que te incumbiste. Não te doerá ver toda a tua igreja ir atrás de você para o inferno? – e a clamar: “Isto devemos agradecer-te. Tiveste medo de falar-nos dos nossos pecados, para que acaso não continuássemos metendo comida suficiente na tua boca. Ó ente vil e maldito, que não te contentaste, guia cego como foste, em cair tu mesmo no fosso, mas também nos arrastaste contigo para o mesmo lugar!”

Richard Baxter, em sua obra, Reformed Pastor, em meio a muitas outras coisas profundas, escreve como se segue:

“Tenham cuidado consigo mesmos, para que não estejam vazios daquela graça salvadora de Deus que oferecem a outros, e não sejam estranhos àquela obra eficaz efetuada por aquele evangelho que pregam; e para não acontecer que, enquanto proclamam ao mundo a necessidade de um Salvador, os seus próprios corações O negligenciem’, e lhes falte interesse por Ele e por Seus benefícios salvíficos. Tenham cuidado consigo mesmos, para que você não pereçam enquanto chamam a atenção de outros a que se cuidem para não perecerem, e para que vocês não morram de fome enquanto prepararam alimento para eles. Embora haja uma promessa aos que a muitos converteram à justiça, promessa de que refulgirão como as estrelas (Dn. 12:3), é feita com a suposição de que eles mesmos foram guiados primeiro a ela. Promessas desse tipo são feitas coeteris paribus, et suppositis supponendis (com a união dos iguais e com as suposições que se devem fazer). Sua própria sinceridade na fé constituí a condição da sua glória considerada simplesmente, embora os seus grandes labores ministeriais sejam uma condição da promessa de maior glória a eles.

“Muitos que advertiram a outros a fim de que não ‘venham para este lugar de tormento’, eles próprios se precipitaram para lá. Muito pregador que cem vezes conclamou os seus ouvintes a empregarem o máximo cuidado e diligência para escaparem ao inferno, lá está. Pode alguma pessoa razoável imaginar que Deus salvaria homens por oferecerem a salvação a outros, enquanto eles mesmos a recusaram, e por dizerem a outros as verdades que eles mesmos negligenciaram e das quais abusaram? Muito alfaiate que confecciona custosos trajes para outros, veste-se de andrajos; e muito cozinheiro mal lambe os dedos, apesar de ter preparado para outros os pratos mais caros.

“Acreditem, irmãos, Deus nunca salvou ninguém por ser pregador, nem por ter sido pregador capaz; mas porque foi um homem justificado, santificado e, conseqüentemente, fiel no serviço do seu Mestre e Senhor. Portanto, tenham cuidado consigo mesmos primeiro, para que sejam aquilo que procuram persuadir outros a serem, creiam naquilo em que procuram diariamente persuadir outros a crerem, e tenham acolhido no seu próprio coração aquele Cristo e aquele Espírito Santo que oferecem a outros. Aquele que lhes ordenou que amem o próximo como a si mesmos, ordenou implicitamente que se amem a si próprios e não destruam nem a si mesmos nem aos outros”.

Meus irmãos, permitam que estas pesadas considerações produzam o devido efeito em vocês. Certamente não há necessidade de acrescentar nada mais. Deixem-me, porém, rogar-lhes que se examinem a si mesmos, e assim façam bom uso daquilo que lhes foi dirigido.

Estabelecido o primeiro ponto da verdadeira religião, segue-se em importância para o ministro, em segundo lugar, que a sua piedade seja vigorosa.

O ministro não deve se contentar em estar no mesmo nível dos soldados rasos das fileiras cristãs; tem que ser um crente amadurecido e adiantado, pois o ministério de Cristo tem sido com acerto denominado “Sua escolha mais seleta, o eleito da Sua eleição, uma igreja extraída da Sua igreja”. Se o ministro fosse chamado para uma posição comum e para um trabalho comum, talvez a graça comum pudesse satisfazê-lo, apesar de que mesmo então seria uma satisfação indolente. Sendo, porém, eleito para trabalhos extraordinários, e chamado para um lugar em que há perigos fora do comum, ele deve aspirar avidamente a posse daquela força superior que é única e adequada ao seu oficio. O pulso da sua religiosidade vital deve bater forte e com regularidade; os olhos da sua fé devem ser brilhantes; os pés da sua resolução devém ser firmes; as mãos da sua atividade devem ser ágeis; todo o seu ser interior deve estar no mais alto grau de sanidade.

Dizem que os egípcios escolhiam os seus sacerdotes dentre os seus filósofos mais doutos, e depois os tinham em tão alta estima que dentre eles escolhiam os seus reis. Exigimos que os ministros de Deus sejam a nata de todos os que formam nos exércitos de Cristo. Homens tais que, se a nação quisesse reis, não poderia fazer melhor do que elevá-los ao trono. Os nossos homens de pequeno poder mental, muito tímidos, carnais e de personalidade mal equilibrada não prestam como candidatos ao púlpito. Há alguns trabalhos que jamais devemos confiar a inválidos ou deformados. Um homem pode não ser qualificado para trepar em altos edifícios. Seu cérebro pode ser fraco demais, e o trabalho em lugares altos pode colocá-lo em grande perigo. Faça-se tudo para mantê-lo no chão e para achar-lhe uma ocupação em que um cérebro estável seja menos importante.

Há irmãos que têm análogas deficiências espirituais. Não podem ser chamados para um serviço proeminente e elevado porque têm cabeça fraca. Se lhes fosse permitido obter um pouco de sucesso, ficariam intoxicados com a vaidade – vício comum entre os ministros, e, de todas as coisas, a que menos lhes convém, e a que com maior certeza lhes assegura a queda. Se como nação fôssemos chamados a defender as nossas casas e os nossos lares, não enviaríamos nossos meninos e meninas com espadas e armas de fogo a enfrentar o inimigo, tampouco a igreja pode enviar todo noviço verboso ou zelote sem experiência a batalhar pela fé. O temor do Senhor há de ensinar sabedoria ao jovem, ou, do contrário, ser-lhe-á vedado o pastorado. A graça de Deus há de amadurecer o seu espírito, ou seria melhor que esperasse até ser-lhe dado poder do alto.

O mais elevado caráter moral deve ser mantido com a máxima diligência. Muitos que são ótimos membros de igreja não são qualificados para exercer ofício na igreja. Tenho opiniões rígidas quanto a cristãos que caíram em pecado grosseiro. Regozijo-me de que possam ter se convertido de verdade, e que, com uma mistura de esperança e cautela, sejam recebidos à comunhão da igreja. Mas questiono, e questiono com seriedade, se um homem que pecou escandalosamente deve ser logo restaurado ao púlpito.

Como observa John Angell James:

“Quando um pregoeiro da justiça se detém no caminho dos pecadores, nunca deverá tornar a abrir os lábios na grande congregação, enquanto o seu arrependimento não for tão notório como o seu pecado”.

Que os que foram tosquiados pelos filhos de Amom esperem em Jericó até que as suas barbas cresçam. Muitas vezes isso tem sido usado como um insulto a jovens imberbes, a quem evidentemente não se aplica; é uma metáfora bem precisa referente a homens sem honra e sem caráter, seja qual for a sua idade. Lastimável! A barba da reputação uma vez raspada, dificilmente cresce de novo. A imoralidade praticada abertamente, na maioria dos casos, por mais profundo que seja o arrependimento, é um sinal fatal de que as graças ministeriais nunca estiveram no caráter desse homem. A mulher de César deve estar fora de qualquer suspeita, e é preciso que não corram fetos boatos sobre a inconsistência ministerial do passado, se não, será débil a esperança de uma valiosa prestação de serviço. Na igreja esses que caíram devem ser recebidos como penitentes, e no ministério poderão ser recebidos se Deus os colocar lá. Minha dúvida não é sobre isso, mas é se Deus realmente os colocou lá. E minha convicção é que devemos ser muito lentos em ajudar a voltarem para o púlpito homens que, tendo sido provados uma vez, mostraram possuir pouquíssima graça para agüentar o teste crucial da vida ministerial.

Para alguns serviços não escolhemos ninguém senão os fortes. E quando Deus nos chama para o labor ministerial, devemos esforçar-nos para obter graça para que sejamos fortalecidos com vistas a habilitar-nos para a nossa posição, e não sejamos simples novatos arrastados pelas tentações de Satanás, para prejuízo da igreja e para a nossa própria ruína. Temos que manter-nos equipados com toda a armadura de Deus, prontos para corajosas proezas não esperadas de outros. Para nós, a abnegação, a renúncia, a paciência, a perseverança, a resignação, têm que ser virtudes postas em prática todo dia, e quem é suficiente para estas coisas? Temos necessidade de viver bem perto de Deus, se queremos ser aprovados em nossa vocação.

Recordem-se, como ministros, de que toda a sua vida, especialmente toda a sua vida pastoral, será afetada pelo vigor da sua piedade. Se o seu zelo se amortecer, vocês não orarão bem no púlpito, orarão pior no seio da família, e pior ainda a sós, no gabinete pastoral. Quando a sua alma se empobrece, os seus ouvintes, sem que saibam como e por que, acharão que as suas orações em público têm pouco sabor para eles. Sentirão a sua aridez possivelmente antes de vocês a perceberem. Em seguida, os seus discursos denunciarão o seu declínio. Poderão pronunciar palavras tão bem escolhidas e sentenças tão bem coordenadas como antes, mas haverá perceptível perda de poder espiritual.

Poderão sacudir-se como noutros tempos, exatamente como aconteceu com Sansão, mas verão que a sua grande força ter-se-á retirado. Em sua comunhão diária com os da sua igreja, não se demorarão a notar a crescente decadência dos seus dons e graças. Olhos perspicazes verão antes de vocês os cabelos grisalhos aqui e ali. Basta que um homem seja atacado de uma enfermidade do coração para que todos os males o envolvam – o estômago, os pulmões, as entranhas, os músculos e os nervos padecerão todos. Assim, basta que um homem fique com o coração enfraquecido nas coisas espirituais para que bem depressa a sua vida toda sinta a influência debilitante.

Além disso, como resultado da sua decadência, cada um dos seus ouvintes sofrerá em maior ou menor grau. Os vigorosos dentre eles superarão a tendência depressiva, mas os mais fracos serão gravemente prejudicados. Acontece conosco e com os nossos ouvintes o que acontece com. os relógios de uso pessoal e com os relógios públicos. Se o nosso relógio não estiver certo, muito pouca gente, além de nós mesmos, sofrerá com o engano, mas se o do edifício dos Horse Guards, de Londres, ou o do Observatório de Greenwich, estiver errado, a metade de Londres ficará desorientada. Assim com o ministro. Ele é o relógio da comunidade. Muitos conferem a sua hora com ele e, se ele for incorreto, todos andarão erradamente, uns mais outros menos, e em grande medida ele terá que responder por todos os pecados que ocasiona. Não podemos agüentar sequer pensar nisso, meus irmãos. Não deve nos dar confortadora consideração nem por um momento, e, contudo, temos que dar-lhe atenção para proteger-nos contra esse mal.

Devemos lembrar-nos também de que precisamos ter piedade deveras vigorosa porque o perigo que enfrentamos é muito maior do que o que os outros enfrentam. De modo geral, nenhuma posição é tão assaltada pelas tentações como o ministério da Palavra. A despeito da idéia popular de que a nossa vocação é um refúgio abrigado da tentação, a verdade é que os perigos que nos cercam são mais numerosos e mais insidiosos dos que cercam os cristãos em geral. A nossa posição pode ser um terreno vantajoso quanto à altura, mas essa altura é perigosa, e para muitos o ministério revelou-se uma rocha tarpeiana.*

Se me perguntarem quais são essas tentações, talvez não dê tempo para particularizá-las, mas entre elas há as mais grosseiras e as mais refinadas. As mais grosseiras são tentações como a do desregramento à mesa, a da adulação dos que possuem superabundância de bens no seio de um povo hospitaleiro, as tentações da carne, incessantes com os jovens solteiros, que se vêem nas alturas no meio de uma multidão de jovens admiradoras. Chega disto, porém. Sua observação logo lhes revelará mil laços, a menos que os seus olhos sejam cegos de fato. Além desses, há outros laços secretos, dos quais temos menos facilidade de escapar. E o pior destes é a tentação do ministerialismo – tendência de ler as nossas Bíblias como ministros, de orar como ministros, de aplicar-nos a fazer tudo o que constitui a nossa religião, não como sendo nós mesmos, pessoalmente, mas só relativamente interessados naquilo tudo. Perder o caráter pessoal do arrependimento e da fé é sofrer uma perda real. “Homem nenhum”, diz John Owen, “prega bem o seu sermão a outros se o não pregar primeiro ao seu próprio coração.”

Irmãos, é eminentemente difícil ater-nos a isso. O nosso oficio, em vez de ajudar a nossa vida piedosa, como alguns afirmam, torna-se um dos seus mais sérios empecilhos, devido à maldade da nossa natureza; pelo menos, eu penso assim. Como a gente esperneia e luta contra o oficialismo! Todavia, com que facilidade ele nos bloqueia, como uma vestimenta comprida que se enrosca nos pés do corredor e o impede de correr. Acautelem-se, caros irmãos, contra isso e contra todas as outras seduções que assediam a sua carreira; e, se vocês têm agido assim até agora, continuem vigilantes até á última hora da vida.

Assinalamos apenas um dos perigos, mas, na verdade, são uma legião. O grande inimigo das almas esmera-se em não deixar pedra sem revirar no afã de arruinar o pregador.

“Cuidem-se”, diz Baxter, “porque o tentador fará a sua primeira e mais mordaz investida contra vocês. Se vocês forem os líderes contra ele, ele não os poupará nem um pouco além da medida da restrição que Deus lhe impõe. Ele sustenta contra vocês o máximo da sua maldade porque estão empenhados em causar-lhe o maior dano. Assim como odeia a Cristo mais que a qualquer de nós, porque Ele é o “comandante-em-chefe” e o “capitão da nossa salvação”, e faz muito mais que o mundo inteiro contra o reino das trevas, assim põe mais atenção nos líderes subordinados a Cristo que aos soldados rasos, por semelhante motivo, guardadas as devidas proporções. Ele sabe muito bem a derrota que poderá impor aos restantes, se os líderes caírem à vista deles. Por longo tempo ele tem usado esta forma de pelejar, “nem com pequenos, nem com grandes”, relativamente falando mas dirige-se especialmente aos grandes, conforme está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão’. E por este meio tem conseguido tal sucesso, que continuará a usá-lo enquanto puder.

“Tenham cuidado, pois, irmãos, porquanto o inimigo os fita com um olhar especial. Vocês sofrerão as suas insinuações mais sutis, solicitações incessantes e assaltos violentos. Por mais sábios e instruídos que sejam, cuidem-se, para que ele não lhes sobrepuje o engenho. O diabo é mais douto que vocês, e contendor mais esperto; pode transfigurar-se em “anjo de luz” para enganar. Ele dominará vocês e levar-vos-á por onde quiser antes que se dêem conta; bancará ilusionista com vocês, sem ser percebido, e vos logrará, fazendo-vos perder a fé ou a inocência, e vocês nem saberão que a perderam; pelo contrário, fará com que creiam que ela se multiplicou ou cresceu, quando na verdade foi perdida. Vocês não enxergarão nem a vara nem o anzol, e muito menos o pescador sutil, enquanto ele oferece a sua isca. E as suas iscas serão tão adequadas ao temperamento e à disposição de vocês, que terá certeza de colher vantagem no vosso íntimo, fazendo com que os vossos princípios e inclinações vos traiam; e sempre que vos arruinar, fará de vocês instrumentos da vossa própria ruína. Oh, que vitória ele fica rememorando, se consegue tornar um ministro ocioso e infiel; se pode fazer um ministro cair na tentação da cobiça ou de um escândalo! Ele se ufanará contra a igreja. e dirá: ‘Estes são os teus santos pregadores; vês qual é a virtude deles, e para onde ela os levará’.

“Ele se ufanará contra o próprio Senhor Jesus Cristo, e dirá: ‘São estes os teus campeões! Posso fazer com que os Teus principais servos Te desonrem; posso tornar infiéis os mordomos da Tua casa’. Se ele insultou tanto a Deus baseado numa falsa suspeita, e Lhe disse que podia levar Jó a blasfemar dEle na Sua lace (Jó 1:2), que faria se deveras prevalecesse contra nós? E finalmente insultará o mais que puder, achando que poderá levar vocês a serem falsos para com a sua grande incumbência, a desonrar a sua santa profissão, e a prestar grande serviço àquele que foi seu inimigo. Oh! não gratifiquem tanto a Satanás! Não deixem que faça tanta troça. Não deixem que os use – como os filisteus usaram Sansão – primeiro privando-os da sua força; depois, arrancando-lhes os olhos; e fazendo-os, assim, objeto do triunfo e da zombaria dele”.

Ainda uma palavra. Temos que cultivar o mais alto grau de religiosidade autêntica porque o nosso trabalho exige isto imperiosamente. O labor do ministério cristão é executado na exata proporção do vigor da nossa natureza renovada. Nosso trabalho só é bem feito quando nós estamos bem. Como o trabalhador é, assim será o seu trabalho. Enfrentar os inimigos da verdade, defender os baluartes da fé, governar bem a casa de Deus, consolar todos os que choram, edificar os santos, orientar os que andam perplexos, tolerar os insolentes, conquistar almas e nutri-las – todas estas obras e outras mil não são para um João Fraco da Mente, nem para um José É Já Que Paro, mas estão reservadas para o Cristiano Coração Grande, que o Senhor fez forte para Si mesmo. Procurem, pois, obter forças daquele que é o Forte, e sabedoria daquele que é o Sábio – sim, busquem tudo do Deus de todos.

Em terceiro lugar, que o ministro cuide para que o seu caráter pessoal se harmonize em todos os aspectos com o seu ministério.

Já ouvimos todos a historia do homem que pregava tão bem e vivia tão mal que, quando estava no púlpito, toda gente dizia que ele não devia sair mais de lá, e quando estava fora dele, todos declaravam que ele não devia voltar a ocupá-lo. Que o Senhor nos livre da imitação de tal Janes. Que nunca sejamos sacerdotes de Deus junto ao altar e filhos de Belial fora das portas do tabernáculo. Ao contrário, como diz Nazianzeno sobre Basílio, “trovejemos em nossa doutrina e relampagueemos em nossa conversação”. Não confiamos nas pessoas de duas caras e ninguém dará crédito àqueles cujos testemunhos verbais e práticos são contraditórios. Segundo o provérbio, as ações falam mais alto do que as palavras, assim uma vida má efetivamente abata a voz do mais eloqüente ministério. Afinal de cantas, a nossa mais veraz obra de edificação deve ser realizada com as nossas mãos; o nosso caráter tem que ser mais persuasivo do que o nosso falar.

Aqui vos advirto não somente sobre pecados de comissão, mas também sobre pecados de omissão. Muitos pregadores esquecem-se de servir a Deus quando estão fora do púlpito, sendo incoerentes em seu modo de viver. Diletos irmãos, detestem pensar em ser ministros tipo relógio, não vivendo pela graça presente no seu íntimo, mas agindo pela corda dada por influências passageiras; homens que somente são ministros quando têm que ser, quando são pressionados pelas horas de ministração, mas deixam de ser ministros quando descem a escada do púlpito. Os verdadeiros ministros são ministros sempre. Muitos pregadores são como aqueles brinquedos de areia que compramos para as nossas crianças; viramos a caixa de boca para baixo, e o pequeno acrobata volve-se e revolve-se até esvair-se a areia toda, e então ele pende imóvel. Assim há alguns que perseveram nas ministrações da verdade enquanto há alguma necessidade oficial do seu trabalho, mas, depois disso, sem pagamento, não há oração: se não há salário, não há sermão.

É horrível ser ministro incoerente. De nosso Senhor se diz que foi semelhante a Moisés por esta razão, por que foi “profeta poderoso em obras e palavras”. O homem de Deus deve imitar nisto o seu Mestre e Senhor. Deve ser poderoso tanto na palavra da sua doutrina como nos seus atos exemplares, e mais poderoso, se possível, no segundo caso. É notável que a única história da igreja que temos é esta: “Atos dos Apóstolos”. O Espírito Santo não preservou todos os seus sermões. Eram muito bons, melhores do que jamais pregaremos, mas, apesar disso, o Espírito Santo Se interessou mais pelos “atos” dos apóstolos. Não temos livros de atas com o registro das resoluções dos apostoles. Quando temos nossas reuniões eclesiásticas, registramos as nossas atas e resoluções, mas o Espírito Santo faz constar mais os “atos”. Os nossos atos devem ser tais que mereçam registro, pois registrados serão. Devemos viver como estando sob o mais direto olhar de Deus, e como na luz do grande dia da revelação de todas as coisas.

No ministro, a santidade é ao mesmo tempo a sua principal necessidade e o seu mais excelente ornamento. A simples excelência moral não basta; é preciso haver virtude mais elevada. Tem que haver um caráter consistente, mas este precisa ser ungido com o óleo santo da consagração, ou, do contrário, estará faltando aquilo que nos impregna do melhor aroma para Deus e para os seres humanos. O velho John Stoughton, em seu tratado intitulado The Preacher’s Dignity and Duty (A Dignidade e o Dever do Pregador), insiste na santidade do ministro com declarações contundentes. “Se Uzá deve morrer por tocar na arca de Deus, e isso para segurá-la por estar prestes a cair; se devem morrer os homens de Bete-Semes porque olharam para dentro dela; se os próprios animais são ameaçados somente por aproximar-se do monte santo – então, que espécie de pessoas devem ser os que são aceitos para falar com Deus familiarmente, para “estar de pé diante dele”, como o fazem os anjos, e “contemplar continuamente a sua face”? “Para levar a arca em seus ombros”; “para levar o seu nome perante os gentios”; numa palavra para ser Seus embaixadores? “A santidade convém à Tua casa, Senhor”. E não seria ridículo imaginar que os vasos devem ser santos, as vestes devem ser santas, tudo deve ser santo, mas somente aquele sobre cujas vestimentas precisa estar escrito “santidade ao Senhor” pode deixar de ser santo? Não seria ridículo que as campainhas dos cavalos devem ter em si uma inscrição de santidade (Zac. 14:20); e as campainhas dos santos, isto é, as campainhas de Arão, fiquem sem santificar-se?

Não, eles devem ser “lâmpadas que ardem e brilham”, ou então a sua influência projetará alguma qualidade maligna; têm que “ser ruminantes e ter o casco dividido”, ou serão imundos; precisam “manejar bem a palavra” e andar retamente na vida, juntando assim a vida ao saber. Se faltar santidade, os embaixadores desonrarão o país do qual procedem e o príncipe que os enviou. E este Amasa morto, esta doutrina não vitalizada pela vida genuína, jazendo no caminho, detém o povo de Deus, impedindo-o de prosseguir com entusiasmo em sua luta espiritual.”

A vida do pregador deve ser um ímã para atrair homens a Cristo, e é triste de fato quando os retém longe dEle. A santidade dos ministros é um sonoro chamamento aos pecadores para que se arrependam, e, quando aliada à santa alegria, torna-se maravilhosamente atraente. Jeremy Taylor, em sua linguagem peculiar e rica, diz: “As pombas de Herodes nunca poderiam ter convidado tantos estranhos para os seus pombais, se estes não tivessem sido lambuzados com o bálsamo de Gileade. Mas, dizia Didymus, “faça os seus pombos cheirarem agradavelmente, e eles atrairão bandos completos”; e se a sua vida for excelente, se as suas virtudes forem como um ungüento precioso, logo você fará os que estão a seu cargo correrem in odorem unguentorum”, atrás das suas precisas fragrâncias”. Mas você precisa ser excelente, não “tanquam unus de populo”, mas “tanquam hamo Dei”; você deve ser um homem de Deus, não segundo a maneira comum dos homens, mas “segundo o coração de Deus”. E os homens se empenharão para ser semelhantes a você, se você for semelhante a Deus. Mas quando você fica parado à porta da virtude, apenas para manter fora o pecado, não introduzirá ninguém no aprisco de Cristo, exceto aqueles impelidos pelo temor. “Ad majorem Dei gloriam”, “Fazer o que mais glorifique a Deus”, esta é a linha pela qual você deve andar. Portanto, não ir além daquilo que todos os homens fazem por obrigação, é servilismo, não atingindo a afeição de filhos. Muito menos poderão ser país espirituais os que não chegam a igualar-se aos filhos de Deus. Pois um farol obscuro, conquanto haja fraca luz por um lado, mal iluminará a um, e muito menos conduzirá uma multidão, nem atrairá muitos seguidores com o brilho da sua chama”.

Outro teólogo episcopal igualmente admirável disse com acerto e com energia:

“A estrela que guiou os magos a Cristo, e a coluna de fogo que conduziu os filhos de Israel a Canaã, não brilharam apenas, mas foram adiante deles (Mt. 2:9; Êx. 13:21). A voz de Jacó fará pouca coisa boa, se as mãos forem de Esaú. Na lei, ninguém que tivesse alguma mancha poderia oferecer as oblações ao Senhor (Lv. 21:17-20); por meio dessas coisas, o Senhor nos ensina quais dons e graças devem existir em Seus ministros. O sacerdote devia ter em suas vestes campainhas e romãs, umas figurando doutrina sã, outras simbolizando vida frutífera (Êx. 28:33-34). O Senhor será santificado naqueles que andam junto dEle (Is. 52:111; pois os pecados dos sacerdotes levam o povo a aborrecer as ofertas ao Senhor (1 Sm. 2:17). Suas vidas ímpias lançam vergonha sobre a sua doutrina. Passionem Christi annunciant profitendo, male agendo exhonorant, como diz Agostinho – com a sua doutrina edificam, e com as suas vidas destroem. Concluo este ponto com a salutar passagem de Hierom ad Nepolianum. Não permitas, diz ele, que as tuas obras envergonhem a tua doutrina, para que os que te ouvem na igreja não te respondam tacitamente: Por que não praticas o que ensinas a outros? É bom demais o mestre que persuade outros a jejuarem, estando ele de barriga cheia. Um ladrão pode denunciar a cobiça. Sacerdotis Christi os, mens, manusque concordent. A língua, o coração e a mão do sacerdote de Cristo devem concordar entre si”.

Muito apropriada também é a linguagem de Thomas Playfere em sua obra: “Fale bem, Aja bem”. “Havia um ridículo ator na cidade de Esmirna que, quando pronunciava: Ó coelum! Ó céu! apontava com o dedo para o chão; o que vendo Polemo, o principal vulto da localidade, não pôde ficar ali por mais tempo e saiu muito irritado, dizendo: “Este tolo cometeu solecismo com a mão, e falou falso latim com o dedo”. Assim são os que ensinam bem e agem mal. Esses, apesar de terem o céu na ponta da língua, têm a terra na ponta do dedo. Os tais não só falam falso latim com a língua, mas falam falsa teologia com as mãos. Esses vivem em desacordo com o que pregam. Mas Aquele que tem o Seu trono no céu rir-se-á deles com desdém, e os varará expulsando-os do palco, se não corrigirem o seu procedimento. Mesmo nas pequenas coisas o ministro deve cuidar que sua vida esteja em harmonia com o seu ministério.

Deve ter especialmente o cuidado de nunca faltar com a palavra. Isto deve ser levado ao escrúpulo extremo. Não conseguiremos exagerar nisto. A verdade não somente deve estar em nós; deve também irradiar-se de nós. Em Londres, um célebre doutor em teologia que agora está no céu, não tenho dúvida – homem excelente e muito piedoso comunicou num domingo que tencionava visitar todos os membros da sua igreja, e disse que, a fim de poder informá-los e visitá-los e suas famílias uma vez por ano, deveria seguir a ordem na lista de “bancos cativos”.

Uma pessoa que conheço bem, nesse tempo um homem pobre, apreciou muito a idéia de que o ministro ia à sua casa para vê-lo, e, uma ou duas semanas antes da ocasião que ele imaginava que seria a sua vez, sua mulher esmerou-se muito em limpar a lareira e em manter a casa bem arrumada, e o homem corria logo para casa ao sair do serviço todas as tardes, esperando encontrar lá o doutor. Isto continuou acontecendo durante considerável tempo. Ou o teólogo esqueceu a promessa, ou foi-se cansando de levá-la a efeito, ou por alguma outra razão nunca foi à casa daquele homem pobre. O resultado foi este: o homem perdeu a confiança em todos os pregadores, e dizia: “Eles cuidam dos ricos, mas não cuidam de nós, os pobres”.

Por muitos anos aquele homem não se firmou em nenhum local de culto, até que um dia caiu no Exeter Hall e durante anos foi meu ouvinte, até que a Providência o removeu. Não foi tarefa pequena fazê-lo crer que todo ministro podia ser sincero e amar imparcialmente ricos e pobres. Tratemos de evitar esse mal, dando cuidadosa atenção à nossa palavra pessoal. Devemos lembrar-nos de que somos muito observados. Dificilmente os homens têm o descaramento de transgredir a leí à plena vista dos seus semelhantes; todavia, nós vivemos e nos movemos nessa publicidade. Milhares de olhos de águias nos vigiam. Procedamos de modo que nunca precisemos ter preocupação sobre se todo o céu, terra e inferno alongam a lista de espectadores. A nossa posição pública é grande ganho, caso sejamos habilitados a mostrar os frutos do Espírito Santo em nossas vidas. Tenham cuidado, irmãos, para não suceder que joguem fora a vantagem.

Meus caros irmãos, quando lhes dizemos que cuidem bem da sua vida, queremos dizer que sejam cuidadosos até com as minudências do seu caráter. Evitem as pequenas dívidas, a impontualidade, fazer mexericos, dar apelidos, contendas minúsculas, e todos aqueles pequenos males que enchem de moscas o ungüento. As auto-indulgências que têm rebaixado a reputação de muitos, não podemos tolerar. As familiaridades que têm lançado suspeita sobre outros, temos que evitar castamente. Da grosseria que tem tornado alguns odiosos, e das futilidades que tornaram muitos desprezíveis, temos que nos descartar. Não podemos permitir-nos correr grandes riscos por causa de pequenas coisas. Tenhamos o cuidado de conduzir-nos de acordo com a regra: “Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado”.

Com isto não se quer dizer que devemos manter-nos presos a quaisquer caprichos da sociedade em que nos movemos. Em regra, odeio as modas da sociedade e detesto os convencionalismos, e se eu achasse que a melhor atitude seria pisar numa regra de etiqueta, sentir-me-ia gratificado ao fazê-lo. Não; somos homens, não escravos; e não devemos renunciar à nossa liberdade varonil para sermos lacaios dos que fingem gentileza ou alardeiam polidez. Entretanto, irmãos, de tudo que se aproxima da grosseria que cheira a pecado temos que fugir como fugiríamos de uma víbora. Para nós as regras de Chesterfield são ridículas; não, porém, o exemplo de Cristo. Ele nunca foi grosseiro, baixo, descortês ou indelicado.

Mesmo em vossas recreações, lembrem-se de que são ministros. Quando estão fora da mira, ainda continuam sendo oficiais do exército de Cristo, e, como tais, não se rebaixem. Mas, se devemos observar com cautela as coisas mínimas, quanto cuidado devemos ter nas grandes questões da moralidade, da honestidade e da integridade! Nestas é preciso que o ministro não falhe. Sua vida particular deve estar sempre em harmonia com o seu ministério, ou, do contrário, o seu dia se porá com ele, e quanto mais cedo se afastar, melhor, pois a sua permanência nesse ofício servirá somente para desonrar a causa de Deus e ocasionar a ruína de si mesmo,

 

* Rochedo de onde eram precipitados os criminosos em Roma. Nota do tradutor.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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