7 – PROBLEMAS TEXTUAIS – Exegese Bíblica

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7 – PROBLEMAS TEXTUAIS – Exegese Bíblica

7.1. Variantes nos Manuscritos

O texto mesmo pode apresentar algumas dificuldades que aos olhos do leigo passarão despercebidas, mas, o leitor científico das Escrituras tem por obrigação conhecer tais problemas textuais, pois, visa extrair do texto a mensagem pura, livre de “erros” oriundos da ação humana sobre o texto autógrafo. Visto que não há como ter em mãos o texto autógrafo, mas, sim cópias de cópias do primeiro texto 14. Queremos então apresentar algumas variantes que certamente agiram sobre o texto primeiro.

Conforme é bem sabido, não temos qualquer documento original de qualquer obra dos tempos antigos, e isso inclui os próprios documentos bíblicos. Portanto qualquer restauração do texto depende de cópias. Também é verdade que, embora haja cerca de 2500 manuscritos hebraicos e milhares de traduções em vários idiomas, não existem dois documentos que sejam iguais. Até mesmo quando um manuscrito era copiado de outro, surgiam diferenças entre os dois.

Um escriba cuidadoso produziria talvez 20 variantes por acidente, descuido, transposição de palavras, etc. Um escriba descuidado, facilmente produziria centenas de variantes.

Alguns escribas modificavam propositadamente passagens que se adaptassem às suas doutrinas preconcebidas, e muitos deles harmonizavam passagens.

7.2. Variantes Não Intencionais

• Erros mecânicos – equívocos de pena;

• Transposição – de letras ou palavras;

• Substituição – de signos similares ou de letras e palavras similares;

• Confusão – de letras e palavras, com outras de forma e sentido diverso;

• Omissão: pode ser simples ou, não intencional;

• Omissão por homeoteleuto: Saltar de uma palavra para outra, devido a términos semelhantes em ambos, com a omissão das palavras intermediárias.15

• Omissão por homeoarcto: Saltar de uma palavra para outra devido a começos semelhantes, ou saltar de uma sentença ou parágrafo para outro, por causa de começos semelhantes em ambos, com omissão de palavras intermediárias16;

• Haplografia: Significa escrever uma vez o que deveria ter sido escrito duas vezes.

• Ditografia: Repetição errônea de uma palavra ou sentença, significa escrever duas vezes o que deveria ter sido escrito uma vez somente17.

• Interpolação: Adição de algo, talvez primeiramente à margem, talvez como comentário (aparato crítico), explicação ou harmonia com outra passagem, mas que subseqüentemente, tornou-se parte do próprio texto; tal “comentário” é incluído no texto, e os demais escribas não mais o omitem;

• Inserção massorética: Ocasionalmente, a má colocação ou ausência de um sinal fazia diferença no sentido das palavras, às vezes os escribas se equivocavam criando variantes.

• Erros em manuscritos ditados: Alguns manuscritos eram ditados de um escriba para o outro, e o fato deste último não ouvir corretamente provocava muitas variantes no texto. Um bom exemplo disto são as partículas al lô não e Al lô lhe, ou, “para ele”. Ambas como se percebe, têm o mesmo som, lô, porém a primeira é a partícula negativa não a segunda pode ser traduzida pelo pronome lhe.

• Erros devido à restauração: De certos manuscritos mutilados, que eram usados como exemplares na cópia, ou que eram simplesmente restaurados a fim de serem usados;

• Inclúsio: Inclusões feitas ao texto por escribas, com o fito de explicar ou tornar o texto mais claro, essas inclusões na maioria eram no seu início um esforço hermenêutico do escriba, que fazia alguma nota fora do texto, depois, vindo outro escriba posterior, adicionava ao texto original o comentário anterior.

• Metátese: Diz respeito à mudança inadvertida da ordem correta das letras ou das palavras. Por exemplo, o rolo 1QIsa traz, no final de Isaías 32.19 esta frase, traduzida livremente: “seja o bosque inteiramente abatido”, em vez da redação corrigida TM: “seja a cidade inteiramente abatida”. O que ocorreu é que a palavra correspondente a “bosque” (ya‘ar) é escrita com as mesmas consoantes do vocábulo equivalente “cidade” (‘iyr). Visto que o verbo relacionado, (tispal), “seja nivelada inteiramente” está na forma feminina e ya‘ar, é masculina, a palavra equivalente a “cidade”, que é feminina, é a única opção de leitura possível. Mas, a confusão do escriba é compreensível, visto que a palavra ya‘ar aparece na primeira parte deste versículo: “ainda que a saraiva faça cair o bosque”.

• Fusão: Consiste na combinação da última letra de uma palavra com a primeira da palavra seguinte, ou a combinação de duas palavras distintas

de forma que forme uma terceira palavra composta apareça. Exemplo possível desse tipo de erro encontra-se em Levítico 16.8. É a aparente referência a um misterioso “Azazel”, entre as prescrições do Dia da Expiação, o sumo sacerdote deveria lançar sorte sobre dois animais escolhidos para o sacrifício. Assim lemos: “Lançará sortes sobre os dois bodes: uma para o Senhor, e outra para bode emissário [‘aza‘zel]. O TM indica um nome próprio, que, à parte dessa menção, é inteiramente desconhecido, Azazel, que os rabinos da Idade Média explicavam ser designação de um demônio peludo do deserto. Então Arão estaria lançando sortes entre Javeh e um demônio (diabo). Ora não se faz inclusão do culto ou adoração de demônios em parte alguma da Torá, e não pode existir a mínima possibilidade de que tal culto surja aqui (e nos versos seguintes do mesmo capítulo). Baseado nesse erro massorético, e na explicação estapafúrdia dos Rabinos Medievais, pregadores contemporâneos têm pregado a herética doutrina da co-redenção (o Diabo é colocado ao lado de Deus como co-redentor de Israel e, como antítipo neotestamentário, como co-redentor da Igreja ao lado de Cristo); absurdo! A óbvia solução desse “enigma” encontra-se na separação das duas partes da palavra ‘aza‘zel de modo que fiquem separados os vocábulos ‘az, referente ao caprino e a‘zel, referente à ‘azl, o verbo; assim a melhor tradução é: “o bode da partida ou da emissão”, “bode emissário” (ARA). Noutras palavras, o verso 10 deixa bem claro, que esse bode deveria ser conduzido para fora do arraial, ao deserto, para onde deverá encaminhar-se, e, de modo simbólico, levar embora os pecados de Israel. É inquestionável que os autores da Septuaginta (LXX) entenderam o versículo e o nome “Azazel” dessa forma ao apresentar a grafia -to apoponpaio (“para o que for enviado para longe”). De forma semelhante, a Vulgata traz capro emissario (“para o bode que deve ser despedido”). Assim ao separarmos duas palavras que foram indevidamente fundidas numa só pelo massoreta, passamos a ter um texto que faz sentido perfeito no contexto, sem fazer concessão a demônios, cujo exemplo não existe nas Escrituras. Noutras palavras, “bode emissário” é a verdadeira tradução empregada, em vez de “para Azazel”, que seria uma transliteração do texto massorético.

• Fissão: Refere-se à divisão indevida de uma palavra em duas.

7.3. Variantes Intencionais

• Harmonia proposital: de uma passagem com outra partindo do paralelismo verbal ou histórico dos textos harmonizados.

• Melhoramentos gramaticais ou de estilo: Por exemplo, Marcos e Apocalipse que tinham um grego deficiente no original, teriam sido aprimorados por escribas eruditos.

• Variantes Litúrgicas: Para fazer uma passagem melhor adaptada ao uso litúrgico, alguns escribas faziam modificações.

• Variantes Suplementares ou Restaurativas: Alguns escribas se arrogavam o direito de adicionar narrativas ou comentários aos originais, a fim de darem melhores informações ou possíveis explicações. Ocasionalmente, tal adição, contém material histórico e geograficamente autêntico.

• Simplificação de frases difíceis: É a tentativa de melhor entendimento modificando os originais. Onde o texto é difícil de se entender pode se esperar simplificação e modificação.

• Adições: Eram feitas com o fim de injetar doutrinas em uma passagem onde elas não figuram no original. Também havia modificação para evitar alguma doutrina difícil.

Para não nos prolongarmos mais neste assunto, estas são apenas algumas considerações que podemos fazer sobre os erros ocorridos, em face da ação dos copistas sobre o texto.

A Crítica Textual tem por finalidade estudar este problema e estabelecer critérios científicos para comparação das diferenças surgidas entre as cópias do Antigo Testamento, visando estabelecer o texto mais próximo do autógrafo, o que seria um esforço para restaurar o sentido original dos termos, trabalho este que precisa ser feito com muito critério, cientificidade e honestidade.

Tais observações não têm por finalidade desacreditar o texto bíblico ou a inerrância da Escritura, outro sim, inerrância na acepção da palavra, só se pode atribuir ao texto autógrafo original (o texto composto pelo autor escriturístico). A crítica textual, antes, busca restaurar o texto a partir da crítica honesta, sem fechar os olhos às falhas humanas, visto que a Bíblia é a Palavra de Deus, mas, escrita em palavras de homens. No escopo geral temos que asseverar sem preconceitos que ela é “a Palavra de Deus, única regra infalível de fé e prática”, pois a mensagem, essa mesma que o exegeta busca conhecer em toda a sua profundidade, permanece intacta em sua essência, bem como, é possível se chegar à verdade, por meio dos manuscritos e das técnicas de restauração.

Vale ainda dizer, que tais observações são feitas tomando como ponto de partida o trabalho dos tradutores. Ao buscar os melhores manuscritos para construção de uma versão bíblica, os tradutores tendem a desprezar aqueles que revelam muitos erros de copistas, reservando os melhores manuscritos para feitura do texto vernacular.

IMPORTANTE!

A doutrina da Salvação está tão clara nas Escrituras, que até o homem mais iletrado pode compreendê-la. Jo. 3:16. Mas, o intérprete deve explicar também os textos que apresentam dificuldades, IITm 3:16.

A interpretação não pode ser unilateral, deve ser vista tanto do lado humano como divino.

– Do lado humano: Porque as Escrituras falam aos homens na linguagem deles, e de acordo com o seu pensamento. Se rejeitarmos o lado humano, a interpretação será visionária e imaginativa.

– Do lado divino: Porque ela é a revelação que Deus quis dar ao homem, portanto, ela difere de todos os demais escritos. Se rejeitarmos o lado divino da Escritura, faremos uma interpretação meramente crítica (o método histórico-crítico, embora não seja de todo rejeitável, tem se revelado um tanto perigoso em face do seu juízo histórico-científico da Bíblia), tendendo a destruindo o valor sobrenatural da Palavra de Deus.

 

 

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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