5 – Redescobrindo as Palavras Cristãs – Teologia Para Leigos

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5 – Redescobrindo as Palavras Cristãs – Teologia Para Leigos

A teologia nos força a explicar o que queremos dizer quando nos referimos a Deus. Muitos cristãos — e às vezes sem perceber! — caem no hábito de usar jargões. Falam sobre coisas como “ser salvo”. O vocabulário de muitos sermões certamente inclui termos ricos e estimulantes, como “redenção” e “salvação”, embora talvez sejam usados sem um real entendimento.

Uma grande fraqueza do cristianismo moderno é a repetição de palavras e frases-chave sem a devida apreciação de sua riqueza espirit uai. Precisamos redescobrir o significado desses termos e certificar-nos de que entendemos e apreciamos sua relevância.

O conhecido teólogo amador C. S. Lewis levantou a seguinte questão:

Cheguei à conclusão de que, se você não consegue traduzir os próprios pensamentos para uma linguagem não culta, eles são confusos. A capacidade de traduzi-los é o teste para aferir se você compreende de fato o que significam.1 1
1 God in the Dock. Grand Rapids: Eerdmans, 1970, p. 96

É daí que vem a teologia. Ela se relaciona com o estudo das palavras cristãs. A teologia as disseca, e nos permite vê-las detalhadamente. Vejamos alguns exemplos.

Comecemos analisando o termo usado no Novo Testamento para esclarecer o significado da morte de Cristo — resgate.

O próprio Jesus declarou que veio para “dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10:45). Essa mesma idéia é também encontrada em lTimóteo 2:5-6. Paulo se refere a Jesus Cristo como o “mediador entre Deus e os homens […] o qual se entregou a si mesmo como resgate por todos”. Resgate é o preço pago para obter a liberdade de alguém.

No Antigo Testamento, no entanto, essa ênfase recai sobre a idéia de estar livre, de ser libertado, sem nenhuma especulação sobre a natureza do preço pago ou sobre a identidade da pessoa a quem foi pago. Assim, Isaías 35:10 e 51:11 fazem referência à libertação dos israelitas como os “resgatados do Senhor.” A idéia básica é que Deus interfere para libertar seu povo do cativeiro, seja do poder do Babilônia (Is 51:10-11), seja do poder da morte (Os 13:14).

Referir-se à morte de Jesus como “resgate” sugere três idéias.

A primeira c que alguém é mantido acorrentado. Para muitos leitores do Novo Testamento, isso pode evocar a imagem de alguma figura pública mantida em cativeiro contra a vontade. Sua libertação depende totalmente de alguém preparado para pagar o resgate exigido.

Isso nos leva à segunda idéia: o preço pago para libertar o cativo. Quanto mais importante a pessoa mantida em cativeiro maior o preço exigido. Algo maravilhoso no amor de Deus por nós é que ele estava pronto para pagar com a morte nossa libertação. O preço da nossa liberdade foi a morte do seu único Filho (Jo 3:16).

A terceira lembra-nos que a morte e a ressurreição de Jesus são libertadoras. Fomos libertados! O Novo Testamento lembra que Deus nos libertou do medo da morte (Hb 2:14-15) e nos trouxe à liberdade gloriosa dos filhos de Deus.

Todas essas idéias estão presentes na palavra “resgate”. Quando nos esforçamos em conhecer o significado das palavras, aprofundamos a qualidade de nossa fé. É como quebrar a dura casca de uma noz e descobrir, dentro, a fruta doce. Pensar em palavras como “regaste” desvenda a riqueza espiritual e intelectual da fé cristã. Lembra-nos que o cristianismo salva a alma, aquece o coração e nutre a mente.

Outra palavra usada no Novo Testamento como referência à obra de Cristo na cruz é “adoção”. Paulo a menciona para ajudar a explicar os benefícios resultantes da morte de Cristo (Rm 8:15; 8:23; 9:4; G1 4:5; Ef 1:5). Então o que isso quer dizer? O que ele espera que seus leitores entendam?

A adoção não aconteceu no judaísmo. A palavra, na verdade, vem do direito romano de família, com o qual Paulo (e muitos de seus leitores, particularmente em Roma) tinha familiaridade. Pela lei, o pai era livre para adotar qualquer indivíduo como membro de sua família e lhes dar o status legal de filhos naturais. Embora persistisse a distinção entre filhos naturais e adotados, estes tinham o mesmo status legal. Aos olhos da lei, todos eram membros da mesma família, independentemente da origem.

Paulo usa o termo “adoção” para indicar que, pela fé, os crentes têm o mesmo status de Jesus (como filhos de Deus), sem querer dizer que tenham a mesma natureza divina de Jesus. A fé traz uma mudança em nosso status perante Deus, incorporando-nos a sua família, apesar de não compartilharmos a mesma origem divina de Cristo. A fé em Cristo, portanto, muda nosso status. Somos adotados na família de Deus, com todos os benefícios que isso traz.

Quais benefícios? Podemos destacar dois deles. Primeiro, ser membro da família de Deus é ser herdeiro de Deus. Paulo assim descreve esse fato: se somos adotados como filhos de Deus, dividimos, com o filho natural, os mesmos direitos de herdeiros. Somos “herdeiros de Deus” e “co-herdeiros com Cristo” (Rm 8:17), pois compartilhamos a mesma herança.

A exemplo de Cristo, que sofreu e foi glorificado, também nós sofreremos e seremos glorificados.Tudo o que Cristo herdou dc Deus um dia será nosso. Para Paulo, essa questão é de grande importância para entender por que sofremos. Cristo sofreu antes de ser glorificado; logo, os cristãos devem experimentar o mesmo. O sofrimento por causa do evangelho é tão real quanto a esperança da glória futura, onde compartilharemos tudo o que Cristo obteve com a obediência.

Segundo, o ingresso na família de Deus, pela adoção, traz um novo sentido de pertencimento.Todo mundo precisa sentir que pertence a algum lugar. Os psicólogos sociais têm mostrado a necessidade de uma “base segura”, uma comunidade ou grupo que dê às pessoas um sentido, um propósito, um senso de valor e amor pelos outros. Em termos humanos, essa necessidade é normalmente preenchida pela unidade familiar. Para os cristãos, essa necessidade psicológica real é preenchida pela adoção na família de Deus. Os cristãos podem descansar na certeza de que são valorizados dentro dessa família, o que lhes confere um senso de autoconfiança que lhes permite progredir e testemunhar para o mundo.

Esses dois exemplos demonstram como a teologia pode fortalecer nosso evangelismo. A certeza de que entendemos nossa fé e sua imensa riqueza espiritual e intelectual torna mais efetivo nosso evangelismo. Para entender a fé, precisamos destravar-lhe a riqueza, certificando, assim, que proclamamos a fé cristã em

toda a sua grandeza. O cristão que nunca refletiu sobre sua fé tende a ser um evangelista fraco. Por quê? Porque nunca gastou tempo para entender sua fé, e portanto vai enfrentar sérias dificuldades ao tentar explicá-la aos outros. Entender a fé c precondição para o bom evangelismo!

Você consegue perceber como já estabelecemos uma conexão entre a teologia e o evangelismo? Devemos continuar aprendendo à medida que caminhamos, e ver como a teologia pode ajudar a nos tornarmos evangelistas mais eficazes. Enquanto isso, vejamos corno a teologia se conecta à Bíblia.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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