1 – Apresentação – Manual de Exegese

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05/08/2015
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1 – Apresentação – Manual de Exegese

Esta publicação, por um lado, soma-se às várias obras do gênero com suas matizes de metodologias exegéticas, diferenciadas até certo ponto umas das outras, mas desafiadoras em múltiplos detalhes de conteúdo e apresentação. Por outro lado, considero-a também especial e inovadora na ciência exegética bíblica executada no Brasil. Como afirma o autor, o objetivo do Manual de exegese não é “substituir os anteriores”, mas “contribuir para o avanço de nossas habilidades interpretativas. Não se pretende fechar questão sobre determinados tópicos, mas apresentar novas perguntas e possibilidades”.

Em que reside, então, a contribuição específica deste manual? Parece-nos que, diferentemente das outras obra do gênero, esta se caracteriza por priorizar os seguintes aspectos:

  1. A busca da exegese e de sua ciência metodológica é definida mais como procura pelo sentido de suas ações que pelo sentido do texto. A ação testemunhada no texto se transforma na razão primordial da exegese. Dessa forma, este manual contribui para desfazer a longa prioridade da teoria sobre a prática. A práxis cristã, fomentada e orientada pela Palavra de Deus, quer ser razão e finalidade da interpretação dos textos: “Lemos a Bíblia para responder à ação de Deus através da nossa ação…”.
  2. Como toda prática, a ênfase à práxis neste manual está embasada numa teoria específica e, explícita ou implicitamente, se confronta com teorias diferentes ou contrárias. A teoria à qual o autor adere e que procura explicitar gradativamente ao longo dos capítulos (nas seções “Conceitos básicos” e “Conceitos operacionais”) é a metodologia ou perspectiva sêmio-discursiva de leitura e análise de textos. Esta, por sua vez, baseia-se em duas teorias de ação do pensamento contemporâneo: a semiótica e a discursiva. O autor se inspira, sobretudo, na semiótica greimasiana (de cunho pós-estruturalista), que lhe fornece as principais ferramentas para entender como se produz e interpreta o sentido dos textos, e na teoria da ação comunicativa de Habermas, a partir da qual se descortina a maneira como funciona a sociedade. O “coração” ou “alma” do Manual de exegese, se assim pudermos nos expressar, estão ligados essencialmente a esse aspecto metodológico.

Esta obra pode, pois, ser definida como uma contribuição atualizada da semiótica para a exegese: ela tanto depura como a semiótica e sua relação com o estruturalismo até agora vêm sendo entendidas nos manuais de interpretação bíblica, quanto contribui para que o método sêmio-discursivo tenha identidade própria e, portanto, não seja simplesmente mesclado ou agregado a outras metodologias em voga.

  1. Admite-se a relativização da rigidez de fronteiras entre exegese e hermenêutica. Este livro não adere a teorias de progressividade na interpretação do texto bíblico, como se a ordem interpretativa tivesse de resguardar sempre o primado do sentido original do texto, conforme a intenção do autor e a compreensão dos primeiros leitores (= exegese), para então estar em condições de determinar o verdadeiro sentido da época atual (= hermenêutica). De acordo com Zabatiero, a interpretação tanto pode iniciar quanto terminar com a hermenêutica e/ou a exegese. A ordem dos fatores não altera mais o resultado da pesquisa. Por essa razão, a autoria dos textos continua importante, mas não é mais entendida como determinante. O Manual de exegese procura conciliar e integrar leituras orientadas nas intenções do autor e da autora (passado), da obra (passado) e dos leitores e das leitoras (presente)!

Além desses três marcos distintivos, ressalto outros aspectos práticos que me chamaram a atenção. Em primeiro lugar, o texto não foi pensado unicamente para academias teológicas, mesmo que as bibliografias sugeridas no final dos capítulos sejam exigentes. Leituras de cunho devocional ou homilético também podem fazer uso do seu instrumental. Em segundo, a obra tem a vantagem de constituir-se numa metodologia de interpretação tanto de textos do Antigo Testamento quanto do Novo. Por último, há um detalhe prático: a teoria é sistematicamente posta em prática após a abordagem de cada capítulo. Há dois textos que servem de paradigma para os exercícios de interpretação bíblica: Isaías 42:1-4 e Marcos 1:9-11. Leitores e leitoras são, dessa forma, incentivados a aplicar e concretizar as orientações em seus textos de estudo e interpretação.

Soma-se um último detalhe aos aspectos práticos: o Manual de exegese foi pensado, discutido e redigido em solo brasileiro. Ele respira discussões contextuais, tematiza problemas que nos dizem diretamente respeito e discute Bíblia e teologia a partir de uma perspectiva libertadora, social e politicamente engajada. Essa moldura especial e os posicionamentos assumidos e defendidos por Júlio colocam este manual teologicamente relevante além das fronteiras limitadas por metodologias exegéticas e hermenêuticas.

Assim, espero e desejo que o Manual de exegese lance boa semente para que a Palavra de Deus possa ser cada vez mais bem assimilada e coerentemente vivenciada. Que sua metodologia consiga nos sensibilizar para as ações de Deus e nos inspirar para ações coerentes com o que Deus realizou por primeiro, antes de nós e em nosso favor.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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