1 – A HERMENÊUTICA E A ESCATOLOGIA – Escatologia

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1 – A HERMENÊUTICA E A ESCATOLOGIA – Escatologia

Sendo a hermenêutica a responsável pelo estudo das regras de interpretação bíblica não seria possível deixa-la de fora de um trabalho como este, já que a escatologia trabalha em meio a muitas profecias e passagens de difícil compreensão, por isso precisaremos conhecer os dois principais métodos de interpretação para que tomemos um caminho coerente nas Escrituras, e acima de tudo não a deturpemos para provar teorias infundadas.

O alegorismo e o literalismo são hoje, os métodos mais utilizados sendo que o primeiro vem ganhando mais espaço entre os teólogos, espaço este antes dominado, quase em totalidade, pelo método literal.

1.1. O Alegorismo

O alegorismo tem suas raízes no platonismo e no alegorismo judaico, dois de seus defensores são Orígenes (185-254) escritor, teólogo e professor e Clemente de Alexandria que faziam parte da escola de Alexandria. Orígenes defendia que a interpretação era dividida em três aspectos o literal, ao nível do corpo, o moral, ao nível da alma, e o alegórico, ao nível do espírito. Clemente por outro lado defendia cinco pontos a serem usados para interpretação de um texto: o histórico, o doutrinário, o profético, o filosófico e o místico. Agostinho de Hipona reformulou os sentidos do alegorismo e os transformou em quatro: o sentido literal, o que o texto

realmente quer dizer; o sentido moral, uma visão do texto que retratasse um ensinamento sobre conduta; sentido alegórico, como crer e em quem crer e de que maneira; o sentido anagógico, o que o texto promete ou representa para o futuro. Assim vemos que agostinho ao ler um texto tinha consciência de seu sentido literal, mas empregava outros mecanismos para que o texto dissesse mais que o que estava escrito.

Para definirmos o alegorismo podemos dizer que este método é aquele que em lugar de reconhecer o texto como naturalmente se apresenta, perverte-o dando um sentido secundário anulando a intenção primária do escritor, um exemplo deste tipo de interpretação está em Apocalipse 20 quando João fala a respeito de um período de mil anos em que a teocracia seria instituída e o próprio Jesus reinaria sobre a terra, os alegoristas ou espiritualizadores de textos dizem que este período está sendo cumprido agora pela igreja, e os mil anos não são literais, mas sim espirituais. Grandes perigos rondam a alegorização já que esta não interpreta as Escrituras, mas dá um novo sentido a ela baseados na imaginação do intérprete, sendo que, como diz a regra fundamental da hermenêutica, a Bíblia deve explicar-se por si mesma.

Por muitos motivos a interpretação das Escrituras por alegorização deve ser rejeitada, no entanto é importante que fique claro que num sermão usa-se de alegorias para trazer um ensino à igreja dentro de um texto que às vezes foge do seu sentido literal, porém isso é permitido, pois se trata apenas da aplicação de conceitos contidos no texto em uso, o que não se permite é estabelecer doutrinas baseadas em textos alegorizados como o exemplo acima citado que perverte um ensino bíblico com uma interpretação mística de um texto que não poder ser compreendido de outra maneira senão literalmente. É importante ressaltar que o

método alegórico trata-se de um sistema usado para interpretar a bíblia e nada tem a ver com alegorias existentes nas Escrituras.

1.2. O Literalismo

Também conhecido como método histórico-gramatical o literalismo difere do alegorismo por interpretar as palavras e frases de uma maneira natural como elas se apresentam; o Dr J.D. Pentecost define o método literal da seguinte maneira:

“O método literal de interpretação é o que dá a cada palavra o mesmo sentido básico e exato que teria no uso costumeiro, normal, cotidiano empregada de modo escrito oral ou conceitual”.

Com certeza este é o único método que satisfaz as exigências bíblicas no sentido de trazer uma interpretação equilibrada e dentro de um contexto correto, ou seja, ele não modifica a idéia inicial que o autor procurou transmitir, mas a explica de maneira coerente. A bíblia foi elaborada por Deus para que o homem conhecesse seus propósitos e mandamentos e, portanto não permitiria que este mesmo homem interpretasse seus ensinos literais dando a eles um novo sentido, portanto Deus espera que suas palavras sejam entendidas da maneira como ele as disse, é certo que temos linguagens figuradas, simbólicas e alegorias nos textos bíblicos, no entanto o fato deles existirem não obriga ao interprete usar outros métodos, pois por trás das parábolas, tipos, figuras e símbolos estão verdades literais, sabemos também que, não podem ser interpretados ao pé da letra, mas deve-se sempre buscar dentro do contexto, em passagens paralelas, tipos paralelos que tenham a explicação contida na bíblia, a compreensão correta do texto.

Um exemplo de alegoria se vê em João 15:5 quando Jesus diz que Ele é uma videira e seus discípulos os ramos, ou em João 6:51-58 onde diz:

“Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente;… Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele”.

É obvio que Jesus não é uma videira ou um pão, nem também ele gostaria que literalmente sua carne fosse comida, no entanto o que os textos expressam é o fato da comunhão, a ligação que o homem precisa ter com Cristo. Mesmo sendo uma alegoria o texto traz uma verdade literal e absoluta que não aceita outra interpretação senão a que o texto sugere.

Vejamos um exemplo de um texto que tem uma linguagem figurada que não pode ser levada ao pé da letra, mas que traz uma verdade literal. Lucas 19:40: “Mas ele lhes respondeu: Asseguro-vos que, se eles se calarem, as próprias pedras clamarão”. Nos é claro que as pedras não falariam, porém usa esta expressão para advertir aos que se incomodavam com o clamor do povo.

A. Os judeus e o Literalismo. Os muitos mandamentos e advertências de Deus para seu povo necessitavam de que fossem passados a eles seja pelo profeta, juiz ou sacerdote e isto fazia com que este interpretasse as palavras de Deus para então serem transmitidas, quando estas mensagens eram escritas pelos

receptores também careciam de interprete para que o ensino fosse totalmente entendido, mas qual método era usado para esta interpretação?

Quando Deus falava, suas palavras eram entendidas literalmente? A resposta é sim. O método usado pelos Judeus para interpretar todos os oráculos do Senhor era o literal. Quando Deus disse para Adão e Eva que se comessem o fruto da arvore do conhecimento morreriam ele queria que assim como falou fosse entendido, e comendo o fruto o casal provou do castigo da literal advertência de Deus.

Quanto às profecias, os judeus aguardavam delas um cumprimento literal, as que falavam da vinda do Messias (Gn 3:15; Nm 24:17; Gn 49:10; Is 9; Mq 5:2 etc) alimentavam a esperança da nação que aguardava um cumprimento literal de todas elas.
B. O Literalismo e o Novo Testamento. Não só Jesus, mas também os discípulos sempre interpretaram os livros do antigo testamento de maneira literal. Jesus em Mt 12:17 ao mencionar a si mesmo, disse que nele se cumpriria a profecia de Isaias que está em Is 42:1-4, ou seja, o que disse o profeta, Jesus interpretou como literal não alegorizando seu sentido; outro versículo interessante que mostra a interpretação literal está em Lc 18:31.

Tomando consigo os doze, disse-lhes Jesus: Eis que subimos para Jerusalém, e vai cumprir-se ali tudo quanto está escrito por intermédio dos profetas, no tocante ao Filho do Homem;

Os apóstolos procediam da mesma maneira, João 19:24, 28, 36 demonstram que o apóstolo via na crucificação e morte de cristo, o cumprimento literal de profecias do antigo testamento.

C. O Literalismo na História da Igreja. Por toda a história da igreja, mesmo com o surgimento de outros métodos de interpretação os grandes nomes do cristianismo verdadeiro sempre interpretaram as Escrituras da mesma forma que Jesus ensinou e os apóstolos praticaram, o que segue são breves comentários referentes ao uso do literalismo no decorrer da história da igreja de Cristo.

Na igreja primitiva. Grandes nomes da igreja primitiva criam nas Escrituras assim como elas ensinavam, como exemplo, temos Papias que viveu entre 70 e 140 d.C que ao escrever sobre a profecia de Apocalipse que menciona a existência do reino milenial ele diz:

“Haverá dias em que nascerão vinhas que terão, cada uma, dez mil videiras; cada videira terá dez mil ramos; cada ramo terá mil galhos; cada galho terá dez mil cachos e cada cacho terá dez mil uvas e cada uva espremida renderá vinte e cinco metretes de vinho. E quando um dos santos pegar um dos cachos, o outro cacho gritará: ‘pega-me porque sou o melhor e, por meu intermédio, bendize o Senhor’. Da mesma forma, um grão de trigo produzirá dez mil espigas e cada espiga dará dez mil grãos; cada grão dará dez libras de farinha branca e limpa.

Também os outros frutos, sementes e ervas produzirão nessa mesma proporção. E todos os animais que se alimentam dos alimentos dessa terra se tornarão pacíficos e viverão em harmonia entre si, submetendo-se aos homens sem qualquer relutância”.

Isso quer dizer que enquanto hoje, muitos teólogos ensinam que o milênio nunca existirá literalmente, os cristãos primitivos acreditavam piamente em sua existência.

Outro texto antigo que nos informa como os cristãos antigos viam as promessas de Jesus, é uma frase extraída da “Apologia de Aristides” que foi

escrita por volta do século II, onde o autor fala da vinda de Cristo, “A glória de sua vinda poderás ó Rei conhecê-la, se lerdes o que entre eles (os cristão) se chama Escritura Evangélica”. Aqui Aristides não só defende o ensino da volta de Cristo como fala de sua referência nas Escrituras.

Atanásio, teólogo do século quatro, em sua carta a Marcelino, a respeito da interpretação dos Salmos, faz ligação entre os acontecimentos verídicos do Pentatêuco e Juizes com os Salmos interpretando-os de maneira literal, como sendo narrativas dos eventos passados e não trazendo novos sentidos a eles como fazem os alegoristas.

Os fatos concernentes a Josué e aos Juízes como o referem brevemente o Salmo 106 com as palavras: “Fundaram cidades para habitar nelas, semearam campos e plantaram vinhas” (Sal 106, 36-37). Pois foi sob Josué que se lhes entregou a terra prometida. Ao repetir reiteradamente no mesmo Salmo: “Então gritaram ao Senhor em sua atribulação, e Ele os livrou de todas suas angústias” (Sal 106,6), está indicando o livro dos Juizes. Já que quando eles gritavam os suscitavam juízes a seu devido tempo para livrar a seu povo daqueles que o afligiam. O referente aos reis se canta no Salmo 19 ao dizer: “Alguns se vangloriam em carros, outros em cavalos, porém, nós, no nome do Senhor nosso Deus. Eles foram detidos e caíram; porem nós nos levantamos e mantivemo-nos em pé. Senhor, salva ao Rei e escuta-nos quando te invocamos!” (Sal 19,8-10). E o que se refere a Esdras, o canta no Salmo 125 (um dos salmos graduais): “Quando o Senhor trocou o cativeiro de Sião, ficamos consolados” (Sal 125,1); e novamente no 121: “Me alegrei quand,o me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor’. Nossos pés

percorreram teus palácios, Jerusalém; Jerusalém está edificada qual cidade completamente povoada. Pois ali sobem as tribos, as tribos do Senhor, como testemunho para Israel” (Sal 121,1-4). (A numeração dos Salmos é referente ao texto original Católico Romano)

Teodoro de Mopsuéstia, grande teólogo e pensador cristão do século IV e V perseguiu de maneira voraz o método alegórico de interpretação, e ao comentar disse:

“Há pessoas que se empenham em distorcer os sentidos das Escrituras divinas e fazem tudo quando está escrito servir a seus próprios fins… Eles arquitetam algumas fábulas tolas em sua própria mente e dão à sua tolice o nome de alegoria. Usam mal o termo do apóstolo como uma autorização em branco para suprimir todos os sentidos da Escritura divina”.

Mesmo com o início da ascensão do alegorismo o método literal foi defendido pelos mais ilustres teólogos e mestres da história, um exemplo destes é

Tertuliano, tido por muitos, como o maior depois do apóstolo Paulo.

Entre os Reformadores. Durante quase toda a idade média a igreja Católica Romana teve o domínio da interpretação bíblica atribuindo a si mesma, como a única capaz de fazê- lo corretamente:

“Pois tudo o que concerne à maneira de interpretar a Escritura, está sujeito em última estância ao juízo da igreja, que exerce o mandato e ministério divino de guardar e interpretar a palavra de Deus”. (Bíblia Ave Maria, Constituição dogmática Dei Verbum sobre a revelação divina).

Com a reforma protestante, o método literal volta com grande força por ser este o método usado por seus líderes. Weldon E. Viertel em seu artigo sobre os “Princípios Hermenêuticos de João Calvino”, escreve:

“Calvino doutrinava que a primeira responsabilidade de um intérprete é deixar que o autor diga aquilo que de fato diz, em vez de atribuir a ele o que nós pensamos que ele deveria dizer. É tarefa do intérprete mostrar a mente do escritor. Considerou como sacrilégio o uso da Escritura à mercê do prazer de cada um. Ele recusou apresentar seus pontos de vista teológicos em conjunto com sua interpretação da Escritura. Os princípios de Calvino sobre a interpretação incluíam o sentido literal (princípio gramático-histórico) (…)”.

Sabemos que parece um pouco contraditório o fato de Calvino ser literalista e espiritualizar vários textos, principalmente escatológicos, para que seus ensinos sejam fundamentados, porém o que nos importa é seu reconhecimento quanto ao uso indispensável do método literal.

Todo o movimento reformista aderiu ao método literal, a declaração de fé de Westminster tem o seguinte parágrafo:

“A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente”.

Este foi incluído também, na declaração de fé Batista de 1689.

Paulo R. B. Anglaba em seu artigo faz comentário sobre o rompimento com o alegorismo medieval:

John Colet (1467-1519) foi um dos primeiros reformadores a romper com o método alegórico medieval, ao expor em 1496, em Oxford, as cartas do apóstolo Paulo em seu sentido literal e no seu contexto histórico. Três anos depois, em 1499, ele já sustentava o princípio de que as Escrituras não podem ter senão um único significado: o mais simples.

Lutero também rejeitou a interpretação alegórica. Defendeu que ‘‘nós devemos nos ater ao sentido simples, puro e natural das palavras, como requerido pela gramática e pelo uso do idioma criado por Deus entre os homens.’’

Quanto a Calvino, sua aversão à interpretação alegórica era de tal ordem que ele chegou a afirmar ser satânica, por desviar o homem da verdade das Escrituras. ‘‘É uma audácia próxima do sacrilégio’’, escreveu ele, ‘‘usar as Escrituras ao nosso bel-prazer e brincar com elas como com uma bola de tênis, como muitos antes de nós o fizeram’’.

Muitos outros nomes poderiam ser citados, porém os destacados falam por todo o grupo, que mesmo divergindo em questões doutrinárias tinham comum parecer quanto ao método de interpretação.

A conclusão que chegamos, tendo em vista que a igreja moderna e a contemporânea seguiram os passos da reformada quanto à hermenêutica, é que não há outro método de interpretar a palavra de Deus, que não seja o de respeitar e não deturpar o seu sentido original, ou seja, levar em consideração aquilo que o escritor realmente queria dizer. O fato é que na escatologia lidamos com textos de difícil elucidação, no entanto não temos o direito de dar-lhe outro sentido apenas baseando-se em nossos pensamentos e raciocínios e é justamente o que tem acontecido em nossos dias. Sobre os que brincam com o sentido das Escrituras, Teodoro de Mopsuéstia disse “agem como se toda a narrativa histórica da Escritura divina de nenhum modo diferisse de sonhos à noite”.

Pr.Raul
Pr.Raul
Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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