O PODER DA GRAÇA DE DEUS | Idolatria Sexual – nascidodenovo.org
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O PODER DA GRAÇA DE DEUS | Idolatria Sexual

O brandir do chicote egípcio não dissipou as memórias de Jonadabe das muitas noites que ele havia passado no templo de Om. Ele conhecia as histórias sobre os encontros místicos que seus descendentes supostamente tiveram com Jeová, o grande Deus dos hebreus. No entanto, ele sempre preferiu a deusa da fertilidade do Egito. “A deusa Ísis sabe como recompensar seus adoradores”, ele freqüentemente proferia ditos espirituais depois de uma noite com uma prostituta do templo.

Poder-se-ia pensar que os eventos inesquecíveis ocorridos no último ano teriam causado mais impacto em Jonadabe. Ele fora testemunha ocular da destruição do maior reino na terra. Onda após onda de fúria da natureza bateu contra o império de Faraó até que nada restou além do gemido de lamentação dos pais. Se isso não é suficiente, ele também esteve entre os israelitas que cruzaram o mar Vermelho em terra seca. Mas, um ano depois, eram apenas vagas recordações. Nem mesmo a voz trovejante de Jeová, do Sinai, pôde aquietar as memórias daqueles encontros inesquecíveis no templo de Om. Estavam sempre em sua mente.

Um amigo de Jonadabe, Naasson, contou-lhe sobre uma jovem casada com um dos anciões da tribo de Issacar. “Ela é linda, Jonadabe!”, disse ele: “E ouvi dizer que ela é ardente! Jonadabe ficou obcecado pela idéia de possuir aquela mulher. Toda oportunidade que tinha, ele ia até a sua tenda e começava a conversar com ela. Finalmente, ela o convidou para entrar. Infelizmente, para ambos, uma vizinha idosa o viu entrar na tenda. Quando aquela senhora voltou com os chefes da tribo, os dois estavam engolfados nas paixões do adultério.

Com várias testemunhas oculares, foi um julgamento rápido. Jonadabe foi arrastado para fora do arraial, próximo a um lugar imundo e apedrejado pelos chefes da tribo do marido ofendido. Jonadabe gritou aterrorizado quando a chuva impiedosa de pedras o triturou na poeira do Sinai. Sua vida cheia de concupiscência finalmente teve um fim abrupto. *

Nos seis mil anos de existência da humanidade, houve somente períodos passageiros quando o sistema judiciário de Deus foi colo­cado em vigor na vida dos seres humanos. No entanto, toda vez que a presença do Todo-Poderoso habitou entre o Seu povo, foi um retrato de como é quando Deus controla as atividades dos homens. Sob o Seu sistema judiciário, se você pecasse, deveria enfrentar o castigo da Lei. No Reino de Deus, o castigo por toda transgressão estava claramente estipulado na Lei de Moisés. Não havia equívocos nem quaisquer exceções.

Aqueles que conheceram somente a dispensação da graça devem enfrentar continuamente a tentação de negligenciar o sistema judiciário de Deus em nossa vida. “Isso não se aplica mais para nós”, alguém poderia dizer: “Não estamos debaixo da Lei”. Sim, é verdade. Não obstante, Paulo nos diz: A lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo (Gl 3.24a). Em outras palavras, chegar a uma compreensão de como Deus vê o pecado irá levar-nos a uma revelação de Jesus Cristo. O fato de Deus ter enviado Seu Filho para ter uma morte cruel, horrível, na cruz não significa que Ele não repudia mais o pecado e negligenciou seu sistema judiciário. Significa simplesmente que a morte do Seu Filho proveu uma expiação pelo nosso pecado. Não precisamos mais pagar o castigo completo por nossas transgressões. Deus agora só exige que confessemos os nossos pecados e nos arrependamos deles. Sua graça significa que nós, que tivemos vidas pervertidas, devemos agora viver de maneira agradecida, cientes de que somos criminosos e merecemos ter a mesma pena de morte de Jonadabe, mas fomos perdoados porque o Juiz ordenou que Seu Filho sofresse o castigo em nosso lugar.

Infelizmente, uma atitude sinistra e irreverente arrastou-se para a Igreja. Nossa perspectiva da natureza horrível do pecado tornou-se tão distorcida pelo humanismo que, se Deus tratasse hoje com um homem como Ele fez com Jonadabe, pensaríamos que Ele foi muito severo e impiedoso. Se, hoje, um Ananias e uma Safira modernos fossem mortos por nosso Deus santo, nossa estrutura literalmente desabaria. De um modo geral, a Igreja está muito acomodada com aquilo que esse Deus santo repudia: o pecado.

 

GRAÇA NÃO É SINÔNIMO DE PACIÊNCIA

Um dia, no alto, nos penhascos desertos do monte Sinai, Deus Se revelou a Moisés. Quando Ele passou na frente do velho profeta, Ele proclamou: Passando, pois, o SENHOR perante a sua face, clamou:

JEOVÁ, o SENHOR, Deus misericordioso e piedoso, tardio em iras e grande em beneficência e verdade; que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniqüidade, e a transgressão, e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniqüidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e quarta geração (Ex 34.6,7).

 

Poder-se-ia facilmente passar a vida inteira estudando esse auto-retrato pintado pelo Senhor e nunca esgotar seu significado pleno.

A frase que atrai o interesse especial do homem em pecado habitual é: Tardio em iras. Essa descrição é repetida oito vezes no Antigo Testamento sobre o Senhor. Seu equivalente no Novo Testamento, makrothumeo, é traduzido livremente como paciente ou longânimo. Esse termo grego é usado para descrever um dos frutos do Espírito. O Vines expository dictionary diz o seguinte sobre esse termo:

Ser paciente, longânimo, tolerante. Longânimo é aquela qualidade de autodomínio diante da provocação que não retalia apressada­mente ou castiga prontamente; é o oposto de raiva e está associada à misericórdia.1

Para o homem que viveu continuamente longe dos requisitos de uma vida santa, é realmente uma boa notícia saber que Deus não fica facilmente irado com suas transgressões. Posso atestar o fato de que o Senhor é extremamente paciente. Ao longo dos anos, meus atos repetidos de rebelião e ilegalidade absoluta justi­ficariam Sua ira e julgamento imediato. Porém, o que recebi em troca foi Seu amor, Sua compaixão e misericórdia. Embora Ele me tenha castigado muito (Sl 118.18) e tratado severamente por causa de minha natureza pecaminosa, o Senhor tem-me tolerado pacientemente o tempo todo. Ao descrever essa palavra, makrothumeo, Matthew Henry apreendeu a essência do coração de Deus:

Que pode suportar o mal e a provocação sem estar cheio de ressentimento ou vingança. Ele tolerará a negligência daquele a quem Ele ama e esperará muito tempo para ver os efeitos bondosos dessa paciência nele.2

 

E inquestionável que Deus mostra uma paciência tremenda para com o homem abertamente rebelde a Seus mandamentos. Não obstante, devemos entender que, embora Deus seja paciente, haverá um tempo de colher as imprudências do passado. A paciência de Deus nunca deve ser confundida com Sua graça. Embora trabalhem juntas, são dois aspectos diferentes de Seu caráter. O Dicionário teológico do Novo Testamento diz o seguinte sobre makrothumeo:

 

O Deus majestoso graciosamente retém Sua ira justa, como em Sua obra de salvação para Israel […]. Ele faz isso não só em fidelidade à Aliança, mas também em consideração à fragilidade humana […].

A paciência, claro, não é uma renúncia, mas o adiamento, com vistas ao arrependimento”.3

 

Deus é paciente com respeito ao pecado de um homem, mas Sua paciência tem o propósito de dar um tempo para a pessoa arrepender-se. Referente à Segunda Vinda do Senhor, o apóstolo Pedro disse: O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se. Mas o Dia do Senhor virá (2 Pe 3.9,10a). Ele, então, continua dizendo: Velo que, amados, aguardando estas coisas, procurai que dele sejais achados imaculados e irrepreensíveis em paz e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor (2 Pe 3.14,15a).

É extremamente perigoso para um indivíduo envolvido em pecado habitual presumir que, por ele ainda não ter tido seu “dia de ajuste de contas” por sua má conduta, não haverá julga­mento futuro para enfrentar. O povo de Israel cometeu esse erro. Eles, repetidamente, provocaram o Senhor por meio de sua desobediência e incredulidade ostensiva. Isaías transmitiu o pesar e frustração que o Senhor sentia pela desobediência de Seu povo:

 

Agora, cantarei ao meu amado o cântico do meu querido a respeito da sua vinha. O meu amado tem uma vinha em um outeiro fértil. E a cercou, e a limpou das pedras, e a plantou de excelentes vides; e edificou no meio dela uma torre e também construiu nela um lagar; e esperava que desse uvas boas, mas deu uvas bravas. Agora, pois, ó moradores de Jerusalém e homens de Judá, julgai, vos peço, entre mim e a minha vinha. Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito?E como, esperando eu que desse uvas boas, veio a produzir uvas bravas? Agora, pois, vos farei saber o que eu hei de fazer à minha vinha: tirarei a sua sebe, para que sirva de pasto; derribarei a sua parede, para que seja pisada; e a tornarei em deserto; não será podada, nem cavada; mas crescerão nela sarças e espinheiros; e ás nuvens darei ordem que não derramem chuva sobre ela. Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta das suas delidas; e esperou que exercessem juízo, e eis aqui opressão; justiça, e eis aqui clamor. Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem herdade a herdade, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores no meio da terra! Isaías 5.1-8

 

Jesus usou a mesma ilustração para descrever a experiência da salvação. Ele disse: Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Toda vara em mim que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto. Nisto é glorificado meu Pai: que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos (Jo 15.1,2,8). Novamente, Deus é extremamente paciente com Seu povo. Ele tolerará a negligência da pessoa que Ele ama e esperará muito tempo para ver os efeitos bondosos dessa paciência nele. Mas é importante entendermos que Ele tem uma vinha com o propósito expresso de dar uvas. Como qualquer viticultor experiente que levou anos cultivando a terra, Ele espera um dia colher uma safra frutífera. Que a ira de Deus para o pecado nunca seja esquecida nem minimizada.

 

GRAÇA NÃO É SINÔNIMO DE AMOR

Amor é um termo bíblico usado para descrever o Senhor e, freqüentemente, torna-se embaçado na mente dos cristãos. Deus é amor, e a profundidade, altura e largura de Seu amor são imensuráveis. Limitarei o que tenho a dizer sobre ele em uma gran­de verdade dupla: Deus deseja ardentemente demonstrar Seu amor para conosco, e Ele espera que esse amor seja retribuído.* Jesus disse que o grande e primeiro mandamento que Deus deu ao ho­mem foi que ele o amasse de todo o seu coração, de toda a sua alma e com todo o seu entendimento (Mt 22.37,38-ARA). A Bíblia inteira fundamenta-se nessa ordem divina.

Porém, amor não é o mesmo que graça. Eles são dois conceitos distintos. Deixe-me demonstrar a diferença entre amor e graça com uma história da vida de Jesus. Certo dia, Ele estava andando, quando um jovem muito rico lhe perguntou o que deveria fazer para ser salvo. Imagine os olhos de nosso Salvador penetrando no mais íntimo do ser desse jovem! O Evangelho de Marcos registra a história:

 

Tu sabes os mandamentos: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não dirás falsos testemunhos; não defraudarás alguém; honra a teu pai e a tua mãe. Ele, porém, respondendo, lhe disse: Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade. E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, e vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me. Mas ele, contrariado com essa palavra, retirou-se triste, por­que possuía muitas propriedades. Então, Jesus, olhando ao redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas! Marcos 10.19-23

 

Muitos cristãos, inclusive eu mesmo, tiveram experiências im­pressionantes, nas quais o amor de Deus tornou-se tão real que era quase tangível. Já participei de cultos de adoração que parecia que a presença de Deus pudesse ser sentida pela congregação como ondas suaves na praia. O Senhor sente um imenso amor por Seu povo. Contudo, deve-se tomar cuidado para não confundir Seu amor com Sua graça.

O amor de Deus pela humanidade é uma força poderosa. É fácil ser arrebatado pelos sentimentos produzidos por esse amor e corrompê-lo em algo para o qual ele não foi destinado. Seu amor não nega Seus mandamentos; simplesmente não negligencia o pecado. Na verdade, Seu amor exige que Lhe obedeçamos e nos desviemos do pecado. Depois do encontro com o jovem rico, Jesus disse aos Seus discípulos: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou (Jo 14.23,24).

O perigo de saborear o amor de Deus enquanto permanece em um estado sem se arrepender do pecado é que a pessoa pode realmente ser enganada, pensando estar em comunhão verda­deira com o Senhor. Observe que, na história do jovem rico, o amor de Jesus não determinou a vida eterna para esse homem. Sim, Marcos nos diz que Jesus realmente o amou. Estou certo de que Seu amor manifestou-Se como um sentimento poderoso que emanou de dentro de Seu Ser. Todavia, a eternidade desse homem dependia de sua resposta àquele amor ardente. Ele iria obedecer às palavras de Jesus ou não? Como Jesus é fiel para fazer com todos aqueles que O seguem, Ele misericordiosamente trouxe esse homem a uma decisão: “Escolha hoje a quem servirá, a Deus ou a Mamom!” (Mt 6.24).

Essa história não tem o propósito de ordenar a todos que dêem todos os seus bens. Jesus viu a idolatria no coração daquele homem e, por conseguinte, levou-o a uma bifurcação na estrada: “Se você quiser ser Meu seguidor, deve abrir mão de seu ídolo”. Eu pergunto a você: “O Senhor mudou?” Se Ele estipulou essa condição para um homem com relação ao dinheiro, muito mais para aqueles que fizeram do pecado o seu ídolo!

Você notará também que, depois que esse homem tomou sua decisão, Jesus não correu atrás dele (como tantos líderes cristãos fazem hoje em dia), tentando obter algum tipo de acordo: “Escute, eu não quis ser tão enfático assim. Você provavelmente só precisa de um tempo para pôr em prática esse tipo de compromisso. Por que você não me segue por algum tempo e espero que, mais tarde, você possa dar uma parte de seu dinheiro. Afinal de contas, ninguém é perfeito. Somos todos pecadores salvos pela graça. Deus entende”.

 

GRAÇA NÃO É SINÔNIMO DE LICENCIOSIDADE

Jesus compeliu continuamente Seus seguidores a responderem às Suas palavras (isto é, tomar uma decisão). Ele não Se satisfazia em permitir que eles O seguissem aparentemente, enquanto não fizessem uma entrega real interiormente. O Senhor viu direta­mente o âmago do coração dos homens e questionou-os sobre suas atitudes.

Jesus não somente desprezou o protocolo social que se encontra nas igrejas “não-agressivas” de hoje, como também era realmente uma pedra de tropeço para muitos “seguidores declarados”. Veja, por exemplo, o grave “erro social” que Ele fez, conforme descrito no capítulo seis do Livro de João. O incidente começou com um sinal muito promissor. Jesus alimentou cinco mil pessoas com apenas dois peixes e cinco pães. O povo estava tão maravilhado que até exclamou: Vendo, pois, aqueles homens o milagre que Jesus tinha feito, diriam: Este é, verdadeiramente, o profeta que devia vir ao mundo (Jo 6.14). Jesus reconheceu abertamente que muitos estavam receosos de dizer que Ele era o Messias.

Seguramente, era uma multidão pronta para um culto tremendo de reavivamento! Aquelas pessoas estavam (literalmente) comendo na Sua mão. No entanto, depois disso, era como se Ele não pudesse dizer qualquer coisa diretamente. Ele começou afirmando que era o Pão do Céu. Naquele momento, certamente, Ele podia perceber que aquelas pessoas precisavam ser gradualmente preparadas para uma grandiosa declaração como essa. Afinal de contas, alegar ser o Pão do Céu para uma multidão de simples camponeses era extre­mamente arriscado. Então, para tornar as coisas piores, Ele prosseguiu dizendo-lhes que, se quisessem ter a vida eterna, eles teriam de comer Sua carne e beber Seu sangue! O Evangelho de João nos diz que, por causa disso, desde então, muitos dos seus discípulos tornaram para trás e já não andavam com ele (Jo 6.66). O elemento interessante dessa história é o que aconteceu depois. Nem um pouco intimidado pela resposta da multidão, Jesus voltou-Se para os Seus 12 discípulos e perguntou-lhes: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna, e nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus (Jo 6.67-69).

Ao contrário de muitos pregadores de hoje que são obcecados por ter uma congregação enorme, Jesus estava interessado naqueles que O seguiriam, não importando o custo. Ele entendeu que a maioria não O seguiria, contudo, nunca abrandou a verdade penetrante da Palavra de Deus. Jesus amou aquelas pessoas, mas recusou-Se a apresentar uma versão transigente do que Deus oferecia a todos os pecadores.

Essa posição intransigente foi mantida por Seus discípulos durante os 30 anos seguintes. Apesar disso, outros, cujos ensinos foram caracterizados por uma posição fraca sobre o pecado, foram proeminentes na Igreja. Judas, falando no ardor do Espírito de Deus, exortou o Corpo de Cristo a tomar cuidado com aqueles que convertem em dissolução a graça de Deus (Jd 4).

Estou convencido de que o que muitas pessoas hoje aceitam como graça realmente é nada além de uma licença presunçosa para pecar. Dietrich Bonhoeffer foi um homem de Deus que pôde ver essa tendência começando a se formar dentro da Igreja mesmo no passado, na década de 30. Ele viveu na Alemanha, e sua posição como líder religioso nacional poderia ser comparada a de Billy Graham em nossos dias. Ele era destemido em sua pregação, o que acabou custando-lhe a vida nas mãos dos nazistas. Antes do início da Segunda Guerra Mundial, ele escreveu as seguintes palavras imortais em um livro que se tornou um clássico — The cost of discipleship [O preço do discipulado]:

 

A graça barata é o inimigo mortal de nossa igreja. Lutamos hoje pela graça de grande valor.

Graça barata significa a vendida no mercado como mercadoria de mascate. Os sacramentos, o perdão do pecado e as consolações da religião são atirados a preços reduzidos. A graça é representada como um tesouro inesgotável da igreja, da qual chove bênçãos com mãos generosas, sem fazer perguntas ou fixar limites. Graça sem preço, sem custo! A essência da graça é, assim supomos, que a conta foi paga antecipadamente e, porque ela foi paga, pode-se ter tudo de graça. Uma vez que o custo foi infinito, as possibilidades de usá-la e gastá-la são infinitas. O que seria a graça se ela não fosse barata?

A graça barata é a pregação do perdão sem exigir arrependi­mento, batismo sem disciplina da igreja, comunhão sem confissão, absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é graça sem discipulado, sem a cruz, sem Jesus Cristo, vivo e encarnado…

A graça de grande valor é o tesouro escondido no campo, pelo qual o homem vai alegremente e vende tudo o que tem. É a pérola de grande valor que, para comprá-la, o negociante vendeu tudo o que tinha […].

Tal graça é de grande valor porque ela nos chama para seguir, e é graça porque nos chama para seguir Jesus Cristo. É de grande valor porque custa ao homem sua vida e é graça porque dá ao homem a única vida verdadeira.4

 

Em um livro escrito principalmente para aqueles que estão continuamente se afundando em um estilo de vida de pecado contínuo, flagrante, é muito importante mencionar o que a Bíblia ensina sobre esse assunto de graça. Posso assegurar-lhe que esta não é uma discussão envolvendo o antiqüíssimo argumento sobre a preservação dos santos. Diz respeito ao preceito bíblico claro sobre o que significa ser um verdadeiro seguidor de Cristo. John MacArthur, um defensor firme da doutrina conhecida como “garantia eterna”, disse o seguinte:

 

A Igreja contemporânea tem a idéia de que a salvação é somente a concessão da vida eterna, não necessariamente a libertação de um pecador da escravidão de sua iniqüidade. Dizemos às pessoas que Deus as ama e tem um plano maravilhoso para a vida delas, mas essa é somente uma parte da verdade. Deus também repudia o pecado e castigará os pecadores não-arrependidos com tormento eterno. Nenhuma apresentação do Evangelho é completa, se ela se esquiva ou esconde esses fatos. Qualquer mensagem que não define e confronta a severidade do pecado pessoal é um evangelho deficiente. E qualquer “salvação” que não altera o estilo de vida do pecado e transforma o coração do pecador não é uma salvação genuína.5

 

Quer você acredite que os pecadores não-arrependidos nunca experimentaram uma conversão verdadeira, quer simplesmente acredite que são apóstatas, o que o Novo Testamento ensina sobre o destino eterno daqueles que morrem em pecado habitual é muitíssimo claro e absolutamente irrefutável. Para que você compreenda inteiramente o castigo para qualquer pecador que não se arrependa e não se desvie de seu pecado, vamos examinar as seguintes declarações feitas por Jesus e por outros escritores inspirados por Deus. Não tenho o objetivo de criar uma “tática do pânico”, ao contrário, espero que sirva como uma advertência racional para todos nós, sobre como Deus vê o pecado e o julgamento que cairá sobre todos aqueles que morrerem em seus pecados.

 

Eu porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela. Portanto, se o teu olho direito te escanda­lizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo seja lançado no inferno. Mateus 5.28,29 (Palavras de Jesus no Sermão da Montanha)

 

Porque as obras da carne são manifestas, as quais são:prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias e coisas seme­lhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o Reino de Deus. Gálatas 5.19-21 (Palavras de Paulo aos gálatas)

 

Não sabeis que os injustos não hão de herdar o Reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o Reino de Deus. 1 Coríntios 6.9,10 (Paulo admoestando a Igreja de Corinto)

 

Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma certa expectação horrível de juízo e ardor de fogo, que há de devorar os adversários. Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas. De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue do testamento, com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça? Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo. Hebreus 10.26-31

 

Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conheci­mento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro. Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado. 2 Pedro 2.20,21

 

Aquele que diz Eu conheço-o e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade. Filhinhos, ninguém vos engane. Quem pratica justiça é justo, assim como ele é justo. Quem comete o pecado é do diabo, porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo. Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus. 1 João 2.4; 3.7-9

 

A despeito da evidência esmagadora ao contrário, existem aqueles que simplesmente não aceitarão o que a Bíblia ensina claramente. Motivados por uma falsa noção da misericórdia de Deus, esses mestres bem-intencionados desejam escancarar os portões do céu para qualquer um que mostrar o menor compromisso com o cristianismo. No entanto, não é simplesmente porque existem alguns que passam adiante esse Evangelho anêmico e desvirtuado que ele é assim. Quando um homem se apresenta diante de Deus com uma vida de carnalidade, egoísmo e pecado não-arrependido, suas opiniões doutrinárias não importam mais. Sua fé morta, que ele exercitou aqui na terra, será exposta pelo que ela é, e ele descobrirá, para seu pavor, que se condenou a um lugar de tormento perpétuo – o inferno! *

Um dos motivos chave pelos quais as pessoas permanecem em pecado é porque elas não têm o temor a Deus. Qualquer tentativa de ignorar a voz do Espírito Santo na vida de um pecador, convencendo-o do pecado, é perigosa. Salomão tinha muito a dizer sobre o temor do Senhor:

O temor do SENHOR é o princípio da ciência; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução (Pv 1.7); Não sejas sábio a teus próprios olhos; teme ao SENHOR e aparta-te do mal (Pv 3.7); O temor do SENHOR aumenta os dias, mas os anos dos ímpios serão abreviados (Pv 10.27). No temor do SENHOR, há firme confiança, e ele será um refúgio para seus filhos. O temor do SENHOR é uma fonte de vida para preservar dos laços da morte (Pv 14.26,27); Vela misericórdia e pela verdade, se purifica a iniqüidade; e, pelo temor do SENHOR, os homens se desviam do mal (Pv 16.6). O temor do SENHOR encaminha para a vida; aquele que o tem ficará satisfeito, e não o visitará mal nenhum (Pv 19.23). Não tenha o teu coração inveja dos pecadores; antes, se no temor do SENHOR todo o dia (Pv 23.17).

 

É justo temer o Senhor. Uma reverência saudável a Deus se coloca como uma fortaleza poderosa contra o ataque do inimigo por meio da tentação.

 

GRAÇA QUE SALVA DO PECADO

Uma das razões pelas quais saímos do caminho da doutrina neste século é porque tem ocorrido um declínio gradual, mas definido, da percepção da natureza maligna do pecado. Aqueles que têm uma compreensão superficial do horror do pecado tomarão uma posição fraca contra ele. Não tenho um grau de doutorado em Teologia, contudo, por muitos anos estudei os ensinos de homens de Deus dos últimos séculos, e há uma diferença acentuada em sua abordagem para o pecado do que aquilo que está genera­lizado na Igreja hoje. Essa perda coletiva da vergonha do pecado foi promovida pelos ensinos de “hiper-graça”, que floresceram em nossa época. O Dr. Michael Brown escreve o seguinte:

 

Existe um oceano de graça esperando por nós, convidando-nos para mergulharmos e nadarmos. Não existe fim para sua profundidade ou duração, e mesmo ao longo de eras infinitas de eternidade, reverencia­remos a maravilha disso tudo. A tragédia é que muitos pregadores e mestres de hoje involuntariamente distorceram a graça de Deus, transformando-a praticamente em uma licença para pecar. E, ao fa­zer isso, eles rebaixaram seu poder e aviltaram seu valor. Eles polu­íram as águas santas que fluem do trono de Deus.

Posso ser inteiramente honesto com você? Creio que a graça é um dos assuntos mais mal-compreendidos da Igreja contemporânea. Por um lado, existem legalistas que parecem esquecer que a salvação é pela graça por meio da fé, e não por obras. Eles transformaram o cristianismo em uma religião morta, flagelada pela futilidade e marcada por um esforço humano sempre deficiente.

Por outro lado, existem líderes que parecem esquecer que a salvação pela graça inclui a libertação do pecado como também o perdão do pecado. Eles transformam o cristianismo em uma reli­gião que “salva”, mas não transforma. Ambas as posições estão erradas. Erradíssimas.6

 

Ao lidar com homens freqüentadores de igreja que não são salvos e/ou são apóstatas, é importante entender que a graça de Deus está ali para capacitar Seu povo a vencer o pecado. Na verdade, uma das profecias sobre Jesus é que Ele viria para salvar Seu povo dos seus pecados (Mt 1.21).

Ter uma compreensão bíblica adequada da graça de Deus não é um problema, a menos que a pessoa deseje continuar presa a seu pecado. Infelizmente, existem muitos que não querem ser salvos de seus pecados; eles só querem ser salvos do inferno. Nas palavras de um pastor batista dos tempos passados: “E como o ladrão não-arrependido que chegou perante o juiz suplicando para não ser enviado para a prisão. Ele não tinha a intenção de parar com o comportamento que o deixou em apuros. Ele só queria escapar de uma sentença”.

Como já mencionei, Deus graciosamente revogou as exigências da Lei. Agora Ele apenas espera a confissão e o arrependimento sincero. Conforme declarado pelo apóstolo João: Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (1 Jo 1.9). Aqueles que imaginam que podem continuar sem arrependimento por seu pecado estão dizendo: “Não quero ser limpo, só quero ser perdoado”.

William Barclay disse o seguinte:

 

A graça não é somente um dom, é uma séria responsabilidade. Um homem não pode continuar levando a vida que tinha antes de encontrar Jesus Cristo. Ele deve ser vestido com uma nova pureza, com uma nova santidade e com uma nova bondade. A porta está aberta ao pecador, mas não para vir e permanecer um pecador, mas para vir e tornar-se um santo.7

 

A GRAÇA FORNECE UMA ATMOSFERA DE ACEITAÇÃO

Um dos aspectos mais importantes da graça de Deus é que ela fornece um abrigo seguro para o pecador arrependido. Quando um pecador habitual se arrepende, não precisa castigar-se mais com a condenação. Ele não tem de merecer seu caminho de volta para as “boas graças” do Pai. Quando ele confessa a iniqüi­dade de seus atos e desvia-se deles, ele é imediatamente restaurado. Uma das parábolas maravilhosas que Jesus contou foi a do filho pródigo. Para entender o contexto exato do que Ele estava expli­cando, vamos incluir as duas parábolas menores que precedem a do filho pródigo:

 

E ele lhes propôs esta parábola, dizendo: Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e não vai após a perdida até que venha a achá-la? E, achando-a, a põe sobre seus ombros, cheio de júbilo; e, chegando á sua casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida. Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a candeia, e varre a casa, e busca com diligência até a achar? E, achando-a, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida.

Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende. E disse: Um certo homem tinha dois filhos. E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente. E, havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades. E foi e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o seu estômago com as bo lotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço, e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão e sandálias nos pés, e tracei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado. E começaram a alegrar-se. E o seu filho mais velho estava no campo; e, quando veio e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças. E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. E ele lhe disse: Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou e não queria entrar. E, saindo o pai, instava com ele. Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos. Vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas. Mas era justo alegrarmo-nos e regozijarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado. Lucas 15.3-32

 

Essas histórias ilustram maravilhosamente a graça de Deus. Embora quase não necessitem de comentário, deixe-me fazer algumas observações. Primeira, elas foram contadas para um grupo de fariseus zangados, que se consideravam virtuosos, mas estavam descontentes com Jesus por Ele estar na companhia de publicanos e pecadores. Jesus enfatizava o quanto Deus Se regozija quando um pecador se arrepende. Essa questão foi habilmente inculcada na parábola do filho pródigo (Lc 15.11-32) pelo sentimento contrastante do irmão mais velho, que não sentiu alegria alguma pelo arrependimento do próprio irmão. Ele só conseguia ver os erros passados e as decepções do seu irmão.

Em segundo lugar, observe a atmosfera de aceitação que o amor do pai criou. Um dos aspectos elementares da graça de Deus é que Ele sempre aceita o coração penitente – não im­porta o quão horrendo seja o pecado! Dizem que Ted Bundy e Jeffrey Dahmer * se arrependeram e, portanto, estão no céu hoje. Quando um pecador se aproxima de Deus em arrependimento, não importa o que ele tenha feito, a lousa é apagada! Não há condenação; não há subterfúgios. Só há uma aceitação jubilosa de Deus, o Pai.

A terceira coisa que chamarei a atenção é que o pai não correu atrás de seu filho em uma tentativa de fazer algum acordo: “Escute, filho, vamos conversar sobre isso. Por que você não fica em casa? Você está mais seguro aqui. Sei que você está passando por um momento difícil agora. Não me meterei com seus assuntos pessoais. Eu o amo. Você pode ter seus vícios, mas, por favor, venha para casa”. Em vez disso, o pai deixou-o ir e deu-lhe o que ele queria. Porém, quando o filho estava voltando, o pai correu para abraçá-lo e recebê-lo em casa, aonde ele pertencia. Depois de imediata­mente restaurá-lo em seu legítimo lugar, o pai explicou ao seu confuso e impiedoso filho mais velho: Mas era justo alegrarmo-nos e regozijarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado (v. 32).

 

A GRAÇA DÁ O PODER DE LIBERTAR-SE DO PECADO

Quando o apóstolo Paulo preparava-se para proferir seu tratado magnífico sobre justiça, ele fez a seguinte declaração: Mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça (Rm 5.20b). É muito impor­tante para o homem cuja vida seja caracterizada por atos lascivos saber que, tanto quanto ele se entregou ao pecado, Deus tem uma medida muito maior de graça para vencer essa transgressão. Como já vimos, a razão da vinda de Jesus foi para destruir o poder do pecado sobre a vida do cristão. Paulo disse isso desse modo: Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente (Tt 2.11,12 NVI).

Sim, é verdade, a graça é o meio pelo qual a salvação está disponível para toda a humanidade. No entanto, é muito mais que isso. A graça é também um mestre, e sua matéria principal é ensinar a ter uma vida agradável a Deus. Quando aquela tentação surgir por meio de algo pecaminoso, a graça estará lá para nos ensinar a dizer: “Não”. Quando surgir uma oportunidade para nos entregar a alguma paixão mundana, a graça nos instrui a renunciá-la. A graça diária de Deus não somente nos ajuda durante aqueles momentos de tentação, mas também é uma força ativa na vida do crente para “ter vida sóbria, justa e piedosa neste presente século”.

É exatamente a que Paulo se referia quando disse: Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que vos não deixará tentar acima do que podeis; antes, com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar (1 Co 10.13). É a graça de Deus que nos capacita a resistir ao desejo assolador pelo pecado. Em outras palavras, a atmosfera que fornece aceitação e perdão quando nos arrependemos é a mesma atmosfera santa que fornece um caminho por meio de toda tenta­ção do pecado.

É meu testemunho que, nos últimos 15 anos, foi a graça de Deus que me impediu de me entregar à concupiscência poderosa por mulheres que outrora dominou minha vida. Somente para dar um exemplo, contarei um incidente que me aconteceu em 1988. Naquela ocasião, eu estava apenas há três anos fora do pecado habitual. Estava no Texas, realizando uma conferência sobre o domínio do vício sexual. Estava presente uma médica atraente, que parecia estar muito interessada no Pure Life Ministries. Ela estava fazendo várias perguntas e parecia relutante em ir embora depois da conferência.

O homem com quem eu estava viajando tinha outros com­promissos e pediu a ela que me desse uma carona até a casa onde estávamos hospedados. Não pensei em coisa alguma naquele momento. Ela parecia estar interessada em se envolver com o Pure Life Ministries, então fiquei contente por ter a oportunidade de conversar com ela. Entretanto, durante o trajeto de volta, comecei a notá-la fisicamente. Quando chegamos a casa, senti um desejo assolador tomar conta de minha mente. Era a mesma nuvem negra e demoníaca que eu havia experimentado no carro, quando estava indo para Bakersfield anteriormente naquele mesmo ano. Como eu estava experimentando esse desejo inebriante por aquela mulher, ela deixou claro que estava disponível. Somente então, naquele momento crítico, até mais dominante que a concu­piscência, veio o medo de ser pego, se cometesse adultério. Esse medo que me envolvia por completo era tudo o que eu precisava para sair daquela situação.

Que exemplo da graça maravilhosa, sustentadora de Deus! Se eu tivesse sido deixado por minha conta, teria jogado fora tudo o que o Senhor havia realizado em minha vida nos três anos anteriores. Teria abalado a confiança tão diligentemente restabelecida com minha esposa. Teria destruído o Pure Life Ministries antes mesmo de ele alçar vôo. Na verdade, teria mergulhado nas profundezas do pecado mais uma vez. Não obstante, não fui deixado por minha conta! A graça de Deus estava ali para me fornecer um escape.

Se a Sua graça está ali para o cristão, por que alguns homens cedem continuamente às suas tentações? Creio que a chave encontra-se no que examinamos no capítulo 15 *. Embora eu não entenda completamente, permanecer em Cristo possibilita a graça de Deus sustentar o cristão. Como João disse:

 

E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado. Qualquer que permanece nele não peca; qualquer que peca não o viu nem o conheceu. E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós:pelo Espírito que nos tem dado.

1 João 3.5,6,24

 

Deixe-me exemplificar como isso funciona de um modo prá­tico. Já viajei muito. Certa vez, eu estava no aeroporto de Heathrow, fora de Londres; há uma passarela móvel que vai diretamente para o meio do terminal por provavelmente 800m. Existem várias lojas, restaurantes e bares delineando cada lado. Se uma pessoa deseja encontrar o pecado, está ali à mão.

Usando esse aeroporto como uma ilustração da jornada cristã da vida, a escada rolante seria o objeto que representaria a graça de Deus. Conforme permaneço em Cristo, ela, de alguma maneira, mantém-me protegido de todas as tentações e ciladas deste mundo. Minha responsabilidade é permanecer ligado à Videira; o trabalho de Deus é me capacitar a vencer as tentações da vida que aparecem. Manter um relacionamento dependente no Senhor todo dia, por meio de oração e estudo da Bíblia, mantém-me ligado com firmeza à Videira e espiritualmente nutrido. Esses são os meios que o Senhor usa para infundir Seu poder em minha vida. A passarela móvel é uma ilustração da graça de Deus que me transporta por meio de alguns lugares extremamente diabólicos. Não é meu esforço que me está transportando, é apenas o poder de Deus. Ele receberá toda a glória quando eu chegar ao céu, porque estou completamente ciente de que não tenho força em mim mesmo para resistir a essas tentações. Sim, se eu estivesse inclinado a cometer pecado, poderia segurar no corrimão da escada rolante em qualquer momento durante minha passagem e visitar alguma livraria que oferecesse pornografia. Contudo, existe um corrimão espiritual chamado temor do Senhor, que foi estabele­cido em mim. É uma característica agregada, protetora, construída dentro de mim, que atua como uma barreira para me impedir de andar errante nos engodos sempre presentes, oferecidos pelo espírito do mundo. Aqueles cujo temor de Deus foi paralisado pelos ensinos da “graça aguada” não desfrutam essa proteção agregada. Em pior situação estão aqueles que andam errantes, livres da disciplina e da força espiritual resultantes de manter uma vida devocional diária.

Tenho uma compreensão melhor de Sua graça maravilhosa porque tenho sido mantido por ela há muito tempo. Eu a vi operando em meu favor muitas vezes ao longo dos anos. No início de meu caminhar com o Senhor, eu não entendia a graça tão bem. Na realidade, tão espantoso quanto possa parecer, considerando-se a profundidade do pecado que eu estava envolvido outrora, tomei-me um tanto fariseu logo que comecei a andar em vitória sobre o pecado sexual. Eu me dava um crédito muito imerecido por minha libertação. Eu me tornei extraordinariamente semelhante ao fariseu do capítulo 18 de Lucas quando disse: O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo (Lc 18.11,12). Eu estava continuamente me comparando favoravelmente com os outros. Da mesma maneira que esse fariseu, eu estava fazendo muitas coisas certas. Meu zelo pelo Senhor era intenso. Eu estava disposto a ter uma vida “totalmente dedicada” a Deus, sacrificando tudo o mais para servir-Lhe. Minha vida devocional estava firmemente estabelecida, mas havia-me esque­cido do homem perverso que fui e de tudo o que o Senhor tinha feito por mim. Eu me tornei muito orgulhoso e farisaico.

Deus continuou a tratar comigo. Ele não estava disposto a me deixar nesse estado terrível. Um dia, em 1991, o Senhor me ajudou de uma maneira bastante inesperada. Eu deveria aparecer no Focus on the family na semana seguinte. Eu estava preparando meu teste­munho para compartilhar nesse programa, sabendo que talvez milhões de pessoas o ouviriam. Em meu íntimo, estava ansioso para compartilhar com o mundo como eu tinha vencido o pecado sexual. Todavia, Deus não divide Sua glória com outrem.

Durante aquela ocasião, eu estava pregando em várias igrejas pelo país. Naquele fim de semana em particular, eu havia sido convidado para realizar os cultos em uma igreja em Michigan. Moramos em Kentucky e normalmente minha esposa viaja comigo nesse trajeto, mas ela estava com uma dor lombar e decidiu ficar em casa. Eu teria de fazer o trajeto de seis horas sozinho. Não existia falta de confiança em mim.

Eu fiz o longo trajeto naquele dia, lutando, às vezes, com a tentação de entrar em alguma cidade e procurar por pornografia, ou pior. Mas consegui subjugar esses pensamentos incessantes e cheguei a Michigan. Depois de abastecer meu carro em um posto de gasolina, entrei na loja para usar o banheiro. Passando por dentro da loja (para compreender melhor o que aconteceu em seguida, seria útil imaginar-me passando com minha aparência farisaica!), notei um homem parado na prateleira de revistas, olhando uma revista de mulheres seminuas. Eu passei por ele, espiando por cima dos seus ombros esperando ver um corpo nu. Sem dúvida, a revista estava aberta com a foto pornográfica de alguma beldade escolhida para aquele mês.

Aquele único vislumbre de carne me perseguiu o fim de semana inteiro. De alguma maneira, realizei os cultos de domingo e, na segunda-feira de manhã, comecei minha viagem de volta para Kentucky. Assim que saí da casa pastoral, minha mente rapidamente se voltou para aquele posto de gasolina. “Não! Eu não vou parar e olhar para aquela revista!”, exclamei para mim mesmo. Não importava o quão forte fosse a postura que tentasse tomar, a imagem da mulher continuava a me atormentar. Por fim, atingi a placa, indicando a saída a 1,6 km de distância. “Não vou parar! Vou continuar com Deus!”, gritei. “Glória a Deus, aleluia”.

Quando o desvio apareceu, saí da auto-estrada, dirigi-me dire­tamente para aquele posto de gasolina, entrei e saturei minha mente com as imagens daquela revista. Meu coração batia freneticamente conforme eu virava as páginas. Somente, então, uma voz sussurrante dentro de mim gritou: “Fuja!”

Sabendo que era o Espírito Santo, saí imediatamente da loja e fiz o longo trajeto, cheio de culpa, para Kentucky. Durante os dias seguintes, eu me repreendia severamente e continuamente. Uma manhã, minha autocondenação atingiu o ponto máximo. “Como você pode ser tão estúpido! Aqui está você, prestes a falar em uma rádio nacional e você olhou para a pornografia! Seu imbecil!” O longo discurso continuou.

Antes de terminar a história, devo contar um incidente que me aconteceu dez anos antes disso. Eu era um cadete do depar­tamento do xerife de Los Angeles. O treinamento de 18 semanas estava chegando ao fim. Eu era um dos afortunados que haviam suportado os rigores da Academia. Um terço da classe de 150 cadetes havia desistido. Aqueles que continuaram viviam um certo grau de medo de fazer qualquer coisa que pudesse levar à desqualificação.

Naquele dia em particular, os cadetes estavam viajando para o Pomona Fair Grounds, a fim de participar de um curso intensivo de dois dias em uma auto-escola. Havia uma pista de alta velocidade, montada com cones de estacionamento alaranjados na vasta área de asfalto. Finalmente chegou minha vez. A primeira coisa que notei no carro de radiopatrulha foi que ele estava equipado com um santo Antônio. Havia um capacete no banco de direção aguardando-me. “Entre, coloque seu capacete e tome seu assento”, disse o instrutor destemido no banco de passageiro.

Fiz exatamente o que ele me mandou. Eu estava dirigindo muito rápido quando, para minha surpresa, o instrutor gritou: “Mais rápido!” Eu imediatamente respondi, aumentando minha velocidade ainda mais. Eu estava voando pelas curvas e acelerando nas retas. Ao chegar a uma curva particularmente difícil, perdi o controle por um segundo e fui forçado a dirigir fora da pista. Imediatamente, topei com os cones novamente, voltando para a estrada e terminando o trajeto. Fiquei sentado em silêncio enquanto o instrutor preenchia sua papelada. Sabendo que eu havia saído da pista, lamentei: “Acho que fui reprovado”. Eu estava aflito pen­sando em como aquilo prejudicaria minha graduação na academia.

— Reprovado? Por que você acha que foi reprovado? -ele perguntou.

— Perdi o controle naquela curva e saí da pista — lamentei.

— Sim, mas você voltou rapidamente! Você se saiu muito bem! — ele exclamou.

Dez anos depois, quando eu estava em minha caminhada de oração matutina, agredindo-me por ter visto a pornografia no posto de gasolina, Deus falou comigo (mesmo depois de todos esses anos, meus olhos ainda se enchem de lágrimas quando me recordo desse incidente). Em um daqueles momentos revigorantes, eternos, revivi o incidente que aconteceu uma déca­da antes, no carro de radiopatrulha. Agora era o Senhor falando. “Steve, você cometeu um pequeno erro. Mas você se saiu muito bem! Você ora todos os dias. Você persevera Comigo. Você é fiel à Palavra. Sim, você saiu do caminho por um momento, mas voltou rapidamente para ele!”

Recebi uma revelação verdadeira sobre a graça de Deus. A partir daquele dia, entendi que a minha vitória sobre o pecado não era por causa dos meus esforços, mas por causa da graça maravilhosa de Deus!

* Um relato fictício, inspirado na vida sob a lei de Jeová.

* O Senhor espera que retribuamos Seu amor, mas Ele não é como a pessoa narcisista, que não amará outra pessoa a menos que seu amor seja retribuído. O amor de Deus é desinteressado, doador e sacrificatório por natureza. Porém, o amor de Deus é muito parecido com a eletricidade: deve haver um circuito para que ele seja completo. Ele ama tremendamente as pessoas, mas, se esse amor não for retribuído, ele será, por fim, retirado.

* Não quero inferir que a pessoa nunca pode tornar-se boa o suficiente ou fazer qualquer coisa para merecer sua entrada no céu. No entanto, a pessoa que tem uma fé real, salvadora em Deus, não permanece em pecado habitual. Ela experimentou o arrependimento genuíno discutido no capítulo 13. Isso não quer dizer que ela não terá lutas, mas terá também a fé viva, vibrante, que não pode ser presa nas correntes do pecado habitual.

* N.T.: Ted Bundy e Jeffrey Dahmer foram assassinos em série; Ted Bundy matou diversas mulheres, e Jeffrey Dahmer inspirou o personagem Hannibal Lecter, do filme O silêncio dos inocentes.

* Devo acrescentar a isso que muitos homens que freqüentam igreja nunca experimentaram uma conversão verdadeira a Cristo. Eles estão tentando o impossível: Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus (Rm 8.8).