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CEGO DE UM OLHO E SURDO DE UM OUVIDO – Teologia Pastoral

Tendo dito muitas vezes nesta sala que o ministro deve ter um olho cego e um ouvido surdo, provoquei a curiosidade de vários irmãos, que pediram explicação porque lhes parece, como também a mim, que quanto mais vivos forem os nossos olhos e quanto mais finos forem os nossos ouvidos, melhor. Bem, cavalheiros, desde que o texto é um tanto misterioso, terão uma exegese dele.

Parte do significado foi expresso em linguagem simples por Salomão no livro de Eclesiastes (7:21): “Não apliques o coração a todas as palavras que se dizem, para que não venhas a ouvir o teu servo a amaldiçoar-te.” Outra versão diz: “Não dês o coração a todas as palavras ditas” Não as leves ao coração ou não lhes dê importância, não atentes para elas, nem procedas como se as tivesse ouvido.

Você não pode deter a língua das pessoas; portanto, a melhor coisa é deter os seus ouvidos, e não ligar para o que digam. Há um mundo de falatório ocioso por aí, e aquele que lhe dá atenção tem bastante trabalho. Verá que mesmo aqueles que convivem com ele não estão sempre a cantar-lhe loas e que, ao causar desagrado aos seus criados mais fiéis, eles, num acaloramento momentâneo dos ânimos, dizem palavras cruéis que lhe seria melhor não escutar. Quem é que, sob irritação passageira, não diz coisas como essas de alguém, das quais se arrepende mais tarde? Faz parte da generosidade tratar as palavras ditas com exaltada paixão como se nunca tivessem sido pronunciadas.

Quando uma pessoa está zangada, é sábio andar longe dela e evitar briga, em vez de se envolver nela. Se formos compelidos a ouvir linguajar precipitado, devemos esforçar-nos para apagá-lo da memória, dizendo com Davi: “Mas eu, como surdo, não ouvia, e como mudo, não abri a boca. Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação.” Tácito descreve o sábio como dizendo a alguém que o criticou: “Você é senhor da sua língua, mas eu também sou senhor dos meus ouvidos” – você pode dizer o que lhe agradar, mas ouvirei só o que eu escolher. Não podemos fechar os ouvidos como fechamos os olhos, pois Não temos pálpebras de ouvidos, e, todavia, como lemos daquele que “cerra os seus ouvidos para não ouvir de sangue”, sem dúvida é possível fechar os portais dos ouvidos de modo que nenhum contrabando entre.

Diríamos dos mexericos comuns da aldeia e das inadvertidas palavras de amigos irritados – não as ouçam, ou, se tiverem que ouvi-las, não se impressionem com elas, pois vocês também falavam com frivolidade e com raiva em seus dias, e se poriam ainda em posição difícil, se fossem chamados para explicar cada palavra que tenham dito, mesmo do seu mais caro amigo. Assim Salomão argumentou ao concluir a passagem que citamos: “Porque o teu coração também já confessou muitas vezes que tu amaldiçoaste a outros.”

Alargando-me sobre o texto da minha preleção, permitam-me dizer primeiro – quando iniciarem o seu ministério, façam sua mente começar com uma folha em branco: sejam surdos e cegos para as velhas divergências que sobrevivam na igreja. Irmão, tão logo entre no seu pastorado talvez tenha acolhida por pessoas ansiosas por assegurar a sua adesão ao lado delas numa rixa de família ou numa controvérsia eclesiástica. Seja surdo e cego para essa gente, e dê-lhes a certeza de que o que passou, passou, e de que, como você não herdou o guarda-louça do seu antecessor, não pretende comer a sua comida fria. Se foi praticada alguma flagrante injustiça, seja diligente em corrigi-la, mas se for apenas uma contenda, mande o partido briguento parar com ela, e diga-lhe uma vez por todas que você não tem nada que ver com isso.

A resposta de Gálio quase lhe serve: “Se houvesse, ó judeus, algum agravo ou crime enorme, com razão vos sofreria. Mas, se a questão é de palavras e de nomes, e da leí que entre vós há, vede-o vós mesmos: porque eu não quero ser juiz dessas coisas.” Quando vim para a Capela da rua New Park como pastor eleito, sendo eu então um jovem procedente do campo, logo tive entrevista com um bom homem que tinha abandonado a igreja porque, disse ele, fora “tratado vergonhosamente.” Mencionou os nomes de meia dúzia de pessoas, todas elas proeminentes membros da igreja, que tinha agido de maneira muito anticristã para com ele – com ele, pobre sofredor inocente, modelo de paciência e santidade.

Fiquei sabendo logo como era o seu caráter pelo que falou dos outros (modo de julgar que nunca me enganou), e me preparei mentalmente sobre como agir. Disse-lhe que a igreja estivera num triste estado de agitação e que o único modo de sair da confusão era cada um esquecer o passado e ter novo começo. Ele disse que o transcurso de anos não alteraria os fatos, e eu repliquei que alteraria a maneira como uma pessoa os encara, se nesse período tivesse ficado mais sábia e melhor. Contudo, acrescentei, todo o passado se fora com os meus predecessores, e ele teria que ir atrás deles nos seus novos campos de trabalho e resolver os problemas com eles, pois, nem usando tenazes eu tocaria na questão. Ele ficou um tanto acalorado, mas eu deixei que irradiasse o calor até esfriar-se de novo, e apertamos as mãos e nos despedimos. Era um bom homem, mas edificado sobre um princípio molesto, de sorte que, às vezes, atravessava o caminho de outros de modo grosseiro. Se eu tivesse penetrado a fundo a narrativa dele e tivesse examinado o caso, a luta não terminaria nunca.

Estou absolutamente certo de que, para o meu sucesso pessoal e para a prosperidade da igreja, segui o curso mais sábio ao aplicar o meu olho cego a todas as contendas anteriores á minha chegada. É o cúmulo da imprudência um jovem recém-formado, ou recém-chegado de outro campo de trabalho, deixar-se envolver em intrigas por uma facção, e ser subornado por tratamento amável e por lisonja, para tornar-se partidário dessa facção, e assim arruinar-se com a metade do povo da sua igreja. Não queira nada com partidos e facções, mas, seja o pastor do rebanho todo, cuidando de todos por igual. Bem-aventurados os pacificadores, e um modo seguro de pacificar é isolar o fogo da contenda. Não o sopre, nem o agite, nem lhe ponha lenha, mas deixe que se apague sozinho. Comece o seu ministério, cego de um olho e surdo de um ouvido.

Devo recomendar-lhes o uso da mesma faculdade, ou falta dela, com relação às finanças, na questão do seu salário. Há algumas ocasiões, principalmente quando se está formando uma nova igreja, em que talvez não haja um oficial capaz de dirigir esse departamento, e, portanto, você pode sentir-se chamado a fazê-lo. Neste caso, não deve ser censurado; deve até ser elogiado. Muita vez também a obra chegaria ao fim total se o pregador não agisse como seu próprio oficial, e encontrasse suprimentos temporais e espirituais por seus próprios esforços. Quanto a estes casos excepcionais nada tenho que dizer, senão que admiro o obreiro lutador e tenho profunda simpatia por ele, pois está sobrecarregado e sujeito a ter menos sucesso como soldado do Senhor porque está enredado nos negócios desta vida.

Nas igrejas bem estabelecidas que oferecem sustento decente, o ministro fará bem em supervisionar todas as coisas, mas, não interferindo em nada. Se os oficiais não merecem fé, não deviam ser oficiais, mas se são dignos do seu ofício, são dignos da nossa confiança. Sei que ocorrem casos em que são lamentavelmente incompetentes e, apesar disso, devem ser mantidos. Num tal estado de coisas, o pastor deve manter aberto o olho que, doutro modo, deveria ficar fechado. Antes que a administração dos fundos da igreja se torne um escândalo, precisamos intervir resolutamente, mas, se não houver necessidade urgente da nossa interferência, será melhor acreditarmos na divisão do trabalho e deixar que os oficiais executem o seu serviço. Temos o mesmo direito dos outros oficiais de lidar com as questões financeiras, se nos agradar, mas, se outros o fizerem por nos, teremos sabedoria em deixá-los sós, quanto possível. Quando a carteira está vazia, a esposa está doente, e os filhos são numerosos, o pregador tem que falar, se a igreja não o provê adequadamente do necessário; mas, levar constantemente à igreja pedidos de aumento dos honorários não é sábio.

Quando o ministro é remunerado pobremente, e acha que merece mais, e que a igreja poderia dar-lhe mais, deve falar primeiro com os oficiais, com delicadeza, coragem e firmeza. Se eles não derem a devida atenção, ele o mencionará aos demais irmãos em termos práticos, como quem trata de um negocio; não como quem suplica uma caridade, mas procurando despertar o senso de honra deles com o fato de que “o trabalhador é digno do seu salário.” Que diga diretamente o que pensa, pois não há de que se envergonhar. Haveria, porém, muito mais motivo para vergonha se ele se desonrasse, e à causa de Deus, enterrando-se em dividas. Fale ele, pois, tocando no ponto com espírito apropriado ás pessoas apropriadas, e ali encerre a questão, sem recorrer a queixas secretas. A fé em Deus concilia-se com os nossos interesses temporais, e nos capacita a praticarmos o que pregamos, a saber: “Não andeis pois inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?… De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas.”

Alguns que fingem viver pela fé têm empregado meios astutos para arrancar donativos, girando um saca-rolhas indireto, mas vocês, ou pedirão simplesmente, como homens, ou deixarão o caso entregue ao sentimento cristão dos membros de sua igreja, voltando para os itens e métodos financeiros da igreja um olho cego e um ouvido surdo.

O olho cego e o ouvido surdo serão extremamente próprios para os mexericos locais. Toda igreja, e, nesse sentido, toda vila e toda família estão praguejadas de certas senhoras que bebem chá e despejam ácido sulfúrico pela conversação. Nunca se aquietam, mas cochicham por todo lado, para contrariedade dos que são consagrados e práticos. Ninguém precisa mover-se muito; basta observar-lhes as línguas. Nas reuniões de chá, nas reuniões de costura e em outros encontros, elas praticam a vivisseção no caráter dos seus vizinhos, e é claro que ficam ansiosas por provar o gume das suas facas no ministro, na esposa dele, nos seus filhos, no chapéu da mulher do ministro, no vestido da filha dele, e em quantas fitas novas ela usou nos últimos seis meses, e assim por diante, ad infinitum.

Também há certas pessoas que nunca estão tão felizes como quando “se angustiam de coração” por terem que contar ao ministro que o Sr. A. é uma serpente no gramado, que erra muito em ter boa opinião sobre os Srs. B. e C., e que elas ouviram de muitas bocas que o Sr. D. e sua esposa estão em péssimas relações. Seguem-se depois fileiras de observações sobre a Sra. E., que diz que ela e a Sra. F, ouviram casualmente a Sra. G. dizer à Sra. H. que a Sra. I. devia dizer que o Sr. J. e a Srta. K. iam sair da capela e ouvir o Sr. L. – e tudo por causa do que disse o velho M. ao jovem N. a respeito daquela Srta. O.

Jamais dê ouvidos a essa gente. Faça como Nelson fez quando colocou o seu olho cego no telescópio e declarou que não via o sinal e, portanto, continuaria a batalha. Os que quiserem murmurar, que murmurem, mas não os escute, a não ser que murmurem tanto acerca de uma pessoa que haja a ameaça de que a questão é séria. Neste caso, é bom fazê-los registrar tudo e falar-lhes com prudente austeridade. Afirme-lhes que você é obrigado a ter os fatos colocados de forma bem definida, que a sua memória não é das melhores, que você tem muitas coisas em que pensar, que você sempre receia cometer enganos nessas questões, e que, se tivessem a bondade de escrever o que tinham para dizer, você poderia ter uma visão mais completa do caso e dedicar mais tempo à sua consideração. A dona Maroca Difama não fará isso; opõe-se fortemente a fazer afirmações claras e definidas. Prefere falar ao acaso.

Eu gostaria imensamente que, por algum processo, puséssemos fim aos mexericos, mas suponho que jamais se conseguirá isso, enquanto a raça humana for o que é, pois Tiago nos diz que “toda natureza, tanto de bestas feras como de aves, tanto de répteis como de animais do mar, se amansa e foi domada pela natureza humana; mas nenhum homem pode domar a língua, é um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal.” O que não se pode curar, temos que suportar, e a melhor maneira de suportá-lo é não lhe dar ouvidos. No alto de um dos nossos velhos castelos, um antigo proprietário inscreveu estas linhas:

Eles falam.

Falam o quê?

Deixe que falem.

Pessoas muito sensíveis deveriam aprender de cor esse lema. Não vale a pena dar atenção às prosas da aldeia, e você nunca deve interessar-se por elas, exceto quanto a lamentar a malícia e dureza de coração de que elas muitas vezes são indicadoras.

Em sua obra, Plain Preaching (Pregação Direta), Mayow diz com grande energía: “Se você visse uma mulher matar patos e gansos só para obter uma de suas penas, estaria vendo uma pessoa agir como nós quando falamos mal de alguém só pelo prazer que sentimos ao falar mal. Pois o prazer que sentimos não vale nem uma pena, e o pesar que causamos é maior do que o que sente um homem ao perder os bens que possui.” Encaixe uma observação dessa natureza aqui e ali num sermão, quando não há no ar nenhum mexerico específico, e talvez seja de algum beneficio aos mais sensatos; quanto aos demais, não tenho esperança alguma.

Sobretudo, nunca se junte ao mexeriqueiro, e rogue à sua esposa que se abstenha disso também. Alguns são tagarelas demais, e me fazem lembrar o moço que foi enviado a Sócrates para aprender oratória. Quando foi apresentado ao filósofo, ficou falando sem parar, e tanto que Sócrates lhe cobrou taxa dupla. “Por que me cobras o dobro?”, perguntou o jovem. “Porque”, disse o orador, “preciso ensinar-lhe duas ciências: uma, como segurar a língua; a outra, como falar.” A primeira ciência é a mais difícil, mas procure alcançar proficiência nela, ou sofrerá muito, e criará problemas sem fim.

Evite com toda a sua alma aquele espírito de suspeita que azeda a vida de algumas pessoas, e, para todas as coisas das quais você pode inferir algo intratável, volte um olho cego e um ouvido surdo. A suspeita faz do homem um tormento para si próprio e um espião dos demais. Uma vez que você comece a suspeitar, as causas da desconfiança se multiplicarão ao seu redor, e o seu próprio espírito de suspeita criará a maior parte delas. Muitos amigos foram transformados em inimigos por terem sido objeto de suspeita. Portanto, não fique olhando em volta com os olhos da desconfiança, nem se ponha à escuta como um abelhudo com o apressado ouvido do medo. Ir pelo meio do rebanho cavoucando para arrancar deslealdade, como um caçador em busca de coelhos, é uma atividade sórdida, geralmente recompensada do modo mais triste.

O lorde Bacon sabiamente aconselha: “O previdente deixa de investigar aquilo que detestaria descobrir.” Quando não há nada para descobrir que nos ajude a amar o próximo, é melhor deixar de investigar, pois poderíamos trazer à luz algo que talvez desse início a anos de contenda. Não me refiro, é claro, aos casos que requerem disciplina, os quais precisam ser averiguados completamente e tratados com coragem, mas tenho em mente apenas as questões pessoais em que o principal sofredor é você mesmo. Aqui, é sempre melhor não saber, não querer saber, o que dizem de você, amigos e inimigos. Os que nos elogiam provavelmente estão tão enganados como os que nos ofendem, e aqueles podem ser considerados como contrapeso destes, se é que vale a pena levar em conta o julgamento feito pelos homens. Se temos a aprovação do nosso Deus, atestada pela consciência em paz, podemos permitir-nos ser indiferentes às opiniões dos nossos semelhantes, quer nos recomendem, quer nos condenem. Se não conseguimos atingir este ponto, somos bebês, e não homens.

Alguns têm o desejo infantil de saber a opinião que seus amigos têm deles, e, se esta contêm o menor elemento de dissentimento ou censura, passam logo a considerá-los inimigos. Decerto não somos papas, e não queremos que os nossos ouvintes nos considerem infalíveis! Conhecemos homens que ficaram com raiva quando lhes fizeram uma observação perfeitamente válida e razoável, e que consideram um amigo sincero como um opositor que tem prazer em achar falha neles. Esta errônea representação de um lado, logo produziu cólera no outro, e o resultado foi briga. Quanto melhor é o espírito indulgente! Você deve ser capaz de agüentar críticas, ou não está apto para estar á frente de uma igreja. E deve deixar partir o crítico sem incluí-lo entre os seus inimigos mortais, ou provará que não passa de um fraco. É mais sábio mostrar dobrada bondade quando você foi severamente sacudido por alguém que achava que tinha o dever de fazer isso, pois ele provavelmente é uma pessoa sincera que vale a pena cativar. Aquele que nos primeiros dias do seu pastorado duvida que você sirva para ser pastor ali, poderá tornar-se o seu mais firme defensor, se notar que você cresce na graça e progride na qualificação para a obra. Portanto, não o considere inimigo por expressar sinceramente as suas dúvidas. Seu coração não confessa que os temores dele não eram completamente sem base? Volva o seu ouvido surdo para aquilo que você julga ser uma áspera crítica feita por ele, e trate de esforçar-se para pregar melhor.

O gosto por mudanças, o melindre, os gostos avançados, e outras causas, podem levar as pessoas a ficarem inquietas sob o nosso ministério, e será bom para nós ignorar isso tudo. Percebendo o perigo, é preciso não revelar a nossa descoberta, mas, movimentar-nos para melhorar os nossos sermões, na esperança de que a boa gente seja mais bem alimentada e esqueça a sua insatisfação. Se forem pessoas realmente bondosas, o mal incipiente logo passará, e nenhum descontentamento verdadeiro surgirá – ou, se surgir, não há por que provocá-lo pela suspeita.

Onde eu soube que havia alguma medida de desafeto para comigo, não tomei conhecimento, a não ser quando isso me foi imposto à força; mas, ao contrário, agi para com a pessoa antagônica com o máximo de cortesia, e de forma a mais amigável – e nunca mais ouvi falar da questão. Se eu tivesse tratado o bom homem como um opositor, ele teria feito o melhor que pudesse para interpretar o papel que lhe fora atribuído, e o executaria para seu próprio prestígio. Mas eu achei que ele era cristão e tinha direito de não me apreciar, se o julgava justo, e que, se agiu assim, eu não devia pensar mal dele. Portanto, tratei-o como a um amigo do meu Senhor, se não meu, incubi-o de fazer algum trabalho que implicava em confiança nele, coloquei-o à vontade, e aos poucos ganhei nele um amigo do peito e um companheiro no trabalho.

As melhores pessoas às vezes perdem as estribeiras; nós ficaríamos contentes se os nossos amigos pudessem esquecer por completo o que dissemos quando estávamos mal humorados e raivosos, e seria cristão agir para com os outros neste assunto como gostaríamos que eles agissem para conosco. Nunca faça um irmão lembrar que uma vez disse uma palavra pesada em referência a você. Se o vê com melhor disposição, não mencione a ocasião mais penosa de antes; se ele for um homem de espírito reto, no futuro não quererá irritar um pastor que o tratou tão generosamente, e se for apenas um tipo grosseiro, será uma lástima sequer argumentar com ele, e, portanto, será melhor deixar o passado ir à revelia.

Seria melhor ser enganado cem vezes do que viver uma vida de suspeição. É intolerável. O avarento que passa a noite em claro e ouve um assaltante em cada folha que caí, não é mais infeliz do que o ministro que crê que andam armando conspirações contra ele, e que andam esparramando boatos para prejudicá-lo. Lembro-me de um irmão que acreditava que o estavam envenenando, e estava persuadido de que até o assento em que se sentava e as roupas que usava tinham ficado saturados de morte, graças a alguma química sutil; sua vida era um perpétuo sobressalto – e é desse jeito a existência – de um pastor quando desconfia de tudo e de todos que o cercam.

E a suspeita não é apenas fonte de inquietação; é um mal moral, e prejudica o caráter do homem que a alberga. Nos reis a suspeita produz tirania, nos maridos ciúme, e nos ministros amargor; e esse amargor de alma dissolve todos os laços da relação pastoral, comendo como ácido corrosivo o âmago da própria alma do ofício e fazendo deste uma maldição em vez de uma bênção. Quando este mal terrível coalha o leite da bondade humana no coração de um homem, este fica mais apto para formar nas fileiras dos investigadores da polícia do que para o ministério. Como uma aranha, põe-se a lançar suas linhas, e forma uma teia de fios trêmulos, que o envolvem e o advertem do menor toque da mais diminuta mosca.

Ali está ele sentado ao centro, massa de sensações, todos nervos e feridas em carne viva, sensível e sensibilizado, um mártir auto-imolado, arrastando ao redor de si achas de lenha inflamadas, e aparentemente ansioso para ser queimado. O mais fiel amigo não está seguro em tais condições, o maior cuidado em evitar causar ofensa não assegurará imunidade à desconfiança, mas provavelmente será transformado em astúcia e covardia. A sociedade corre quase tanto perigo com um homem desconfiado, como com um cachorro louco, pois morde por todos os lados sem razão, e espalha a torto e a direito a espuma de sua loucura. É inútil arrazoar com a vítima dessa loucura, pois, com perversa engenhosidade, desvia todos os argumentos, levando-os por caminhos errados, e faz do seu pedido de confiança outro motivo para suspeita. É triste que não possa ver a iniqüidade da censura sem base que faz a outros, especialmente àqueles que foram os seus melhores amigos e os mais firmes sustentáculos da causa de Cristo.

“Eu não censuraria

virtude assim julgada por sombras de dúvida.

A indevida suspeita é abjeção mais vil

que a culpa suspeitada.”

Ninguém deveria ser transformado em ofensor por causa de uma palavra. Mas, quando a suspeita impera, até o silêncio vira crime. Irmãos, evitem esse erro renunciando ao amor próprio. Julguem coisa de pequena importância o que os homens pensem ou digam de vocês, e cuidem somente do tratamento que dão ao Senhor. Se vocês forem sensíveis por natureza, não sejam indulgentes para com essa fraqueza, nem permitam que outros joguem com ela. Não seria grande degradação do seu ministério se vocês mantivessem por sua conta um exército de espiões para coligir informações sobre tudo que o povo da sua igreja diz de vocês? Contudo, quase chega a isso, permitir que certos intrometidos lhes tragam todos os mexericos do lugar. Mandem embora essas criaturas. Detestem esses elementos nocivos, que manipulam murmurações produzindo brigas. Quem traz, leva, e, sem dúvida, os mexeriqueiros saem da sua casa e divulgam cada observação saída dos seus lábios, com abundância de enfeites acrescentados por conta deles.

Lembrem-se de que, assim como o receptador é tão mau como o ladrão, quem dá ouvidos ao escândalo participa da sua culpa. Se não existissem ouvidos que escutam, não existiriam línguas portadoras de boatos. Enquanto vocês forem compradores de mercadorias de má qualidade, a demanda produzirá o suprimento, e as fábricas de falsidade trabalharão com tempo integral. Ninguém quer ser criador de mentiras, e, todavia, quem ouve com prazer os maledicentes e prontamente acredita neles, chocará muita ninhada levando-a à vida ativa.

Salomão diz: “o difamador separa os maiores amigos” (Pv. 16:28). Lançam-se insinuações, provocam-se invejas, até que “o resultado é a frieza recíproca, sem que se possa entender o porquê; cada um quer saber qual teria sido a possível causa. Assim, as ligações mais sólidas, longas, calorosas e confiantes, as fontes das mais doces alegrias da vida, rompem-se talvez para sempre”, (diz o Dr. Wardlaw comentando Provérbios.) Esta é obra digna do chefe dos demônios, mas nunca poderia ser levada a cabo se os homens vivessem fora da atmosfera da suspeita. Sendo como é, o mundo está cheio de tristeza por essa causa, tristeza tão aguda quão supérflua a sua causa. Isto é deveras doloroso! Campbell observa eloqüentemente: “As ruínas de velhas amizades, para mim são um espetáculo mais melancólico do que as de velhos palácios. Mostram um coração outrora iluminado pela alegria, já amortecido e deserto, freqüentado por aquelas aves de mau agouro que fazem os seus ninhos nas ruínas.” Ó suspeita, que desolações tens feito na terra!

Aprendam a descrer dos que não confiam nos seus irmãos em Cristo. Desconfiem daqueles que querem levá-los a desconfiar dos outros. Uma resoluta descrença em todos os traficantes de escândalos fará muito para reprimir as suas energias malévolas.

Em sua Cripplegate Lecture, diz Matthew Poole:

“A fama comum perdeu sua reputação há muito tempo, e não sei de nada que tenha feito em nossos dias para recuperá-la; portanto, não deve merecer crédito. Quão poucos relatos de qualquer espécie há que, bem examinados, vemos que não são falsos! De minha parte, confesso que, se de vinte relatos acredito num, faço uma concessão muito liberal. Desconfie particularmente das informações ruins, porque estas se espalham mais depressa, sendo agradáveis a muitas pessoas que supõem que a sua própria reputação nunca estará bem alicerçada como quando construída sobre as ruínas da reputação de outros homens.”

Porque as pessoas que gostariam de levá-los a desconfiar dos seus amigos formam um triste grupo, e porque a suspeita em si mesma é um vício vil e atormentador, decidam-se a voltar para todo esse negocio o seu olho cego e o seu ouvido surdo.

Preciso dizer uma ou duas palavras sobre a sabedoria de nunca ouvir o que não lhes foi destinado. O xereta é um individuo medíocre, pouco melhor, se tanto, do que o informante comum; e se pode pensar que aquele que ouviu algo por acaso, ouviu o caso mais do que devia.

Jeremias Taylor observa com sabedoria e justiça: “Nunca fique escutando atrás da porta ou da janela, pois, além do perigo e da armadilha que há nisso, é também uma invasão da vida particular do meu próximo, e uma abertura forçada daquilo que ele fecha para que não se abra.” É pertinente o provérbio que diz que os que vivem à escuta raramente ouvem falar bem deles, ouvir assim é uma espécie de furto, mas os bens roubados nunca dão vero prazer ao gatuno. A informação obtida por meios clandestinos, em todos os casos menos nas situações extremas, fará mais dano que benefício a uma causa. O magistrado pode julgá-lo um recurso expedito obter provas por tais meios, mas não posso imaginar um caso em que o ministro deva proceder assim. A nossa missão é de graça e paz. Não somos promotores em busca de provas condenatórias, mas amigos cujo amor pode cobrir multidão de ofensas, os olhos curiosos de Cão, pai de Canaã, nunca se metam em nosso trabalho. Preferimos a piedosa delicadeza de Sem e Jafé, que andaram de costas e cobriram a vergonha que o filho do mal publicara com regozijo.

Como regra geral, volte igualmente o olho cego e o ouvido surdo para as opiniões e observações a seu respeito. Os homens públicos têm que esperar crítica pública, e, como não se pode considerar infalível o público, os homens públicos podem esperar que os critiquem de modo nem nobre, nem agradável. Somos obrigados a dar atenção em alguma medida às observações sinceras e justas, mas, para o cruel veredito do preconceito, para as críticas frívolas feitas por homens subservientes à moda, para as tolas afirmações dos ignorantes e para a feroz denúncia feita pelos adversários, podemos sem risco voltar o ouvido surdo. Não podemos esperar que nos aprovem aqueles que nós condenamos mediante o nosso testemunho contra os seus pecados favoritos. Se nos recomendassem isto mostraria que erramos o nosso alvo.

Naturalmente, esperamos ser aprovados por nosso povo, pelos membros das nossas igrejas e pelos interessados no evangelho que freqüentam a igreja. Quando eles fazem observações reveladoras de que não são grandes admiradores nossos, somos tentados a desanimar-nos, senão a irritar-nos. Aí jaz uma armadilha. Quando eu estava prestes a deixar meu cargo no interior para servir em Londres, um dos idosos varões orou no sentido de que eu ficasse “livre do balido das ovelhas”. Durante a minha vida não pude imaginar o sentido dessa expressão, mas agora o enigma está claro, e aprendi a fazer eu mesmo aquela oração. Demasiada consideração dada ao que o nosso povo diz, em louvor ou depreciação, não nos faz bem. Se habitamos nas alturas com “o grande Pastor das ovelhas”, ligaremos pouco para todos os balidos confusos ao redor de nós, mas se somos “carnais” e andamos “segundo o homem”, teremos pouco sossego se dermos ouvidos a isto, àquilo e a tudo mais que cada pobre ovelha possa lançar-nos balindo em volta de nós.

Talvez seja verdade que você estava incomumente cansativo domingo passado de manhã, mas não havia necessidade alguma de que a Sra. Sirena fosse contar-lhe que o diácono Jones pensava assim. É mais que provável que, tendo percorrido a zona rural durante toda a semana anterior, a sua pregação tenha sido um pouco água com açúcar, mas você não precisa girar daqui e dali entre as pessoas para verificar se elas notaram isso ou não. Já não basta que a sua consciência fique intranqüila sobre esse ponto? Esforce-se para melhorar no futuro, mas não queira ouvir tudo o que cada João, José e Maria tenha para dizer sobre isso. Por outro lado, você cavalgou brioso corcel em seu último sermão, e o concluiu com floreados de trombetas. Sente-se agora consideravelmente ansioso para saber que impressão causou. Reprima a sua curiosidade. Não lhe fará bem inquirir. Se acontecer que os ouvintes concordam com o seu próprio veredito, servirá somente para alimentar a sua lamentável vaidade, e se pensarem diferente, a sua pesca de elogios o prejudicará no conceito deles a seu respeito. Em qualquer caso, tudo girará em torno de você, e este é um pobre tema para se ficar ansioso por causa dele. Banque homem, e não se rebaixe procurando cumprimentos como crianças com roupa nova, que dizem: “Veja só que bonito o meu vestido novo!” Você não descobriu ainda que a adulação é tão prejudicial como agradável? Afrouxa a mente e o torna mais sensível à calúnia. Na proporção em que o elogio o agrada, a censura o faz sofrer.

Além disso, é crime afastar-se do seu grande objetivo de glorificar o Senhor Jesus por mesquinhas considerações quanto ao seu pequeno ser, e, se não houvesse outra razão, isto deveria pesar muito para você. O orgulho é um pecado mortal, e crescerá sem que tome emprestado o carro de irrigação da paróquia para cultivá-lo. Esqueça as expressões que fomentem a sua vaidade. Se você se surpreender saboreando manjares malsãos, confesse o pecado com profunda humildade. Payson mostrou que era poderoso no Senhor quando escreveu à mãe:

“Minha querida mãe, certamente a senhora não deve dizer uma palavra que sequer pareça uma insinuação de que pensa que estou progredindo na graça. Não posso tolerar isso. Todos daqui, amigos e inimigos, conspiram para arruinar-me. Satanás e o meu próprio coração não deixam de dar sua ajuda. Se a senhora se juntar a eles, temo que toda a água fria que Cristo possa atirar sobre o meu orgulho não impedirá que este irrompa em chamas destruidoras. Na medida em que me adulem e me agradem, meu Pai celestial tem que me apoiar; e por uma indescritível misericórdia é que condescende em fazê-lo. Posso reunir cem razões por que não devo ser orgulhoso, mas o orgulho não atende à razão, nem a nada mais, exceto a uma boa sova. Mesmo neste momento sinto-o formigar na ponta dos meus dedos, procurando guiar a minha caneta.”

Conhecendo por experiência própria aquelas surras secretas que o nosso bondoso Pai aplica a Seus servos quando os vê indevidamente exaltados, cordialmente acrescento as minhas advertências solenes contra os afagos à carnalidade, afagos que consistem em dar ouvidos aos elogios dos seus mui gentis amigos. São insensatos, e você precisa ter cuidado com eles.

Um amigo sensato que não lhe poupe crítica semana após semana, ser-lhe-á bênção maior do que mil admiradores sem discernimento, se você tiver suficiente bom senso para agüentar aquele tratamento, e suficiente graça para ser-lhe agradecido. Quando eu pregava nos Jardins de Surrey (Surrey Gardens), um censor anônimo dotado de grande habilidade costumava mandar-me uma lista semanal de meus erros de pronúncia e outros deslizes na elocução. Nunca apôs o seu nome às listas, o que foi o único motivo de queixa que tive contra ele, pois me deixava com uma dívida pela qual eu não podia mostrar o meu reconhecimento. Aproveito esta oportunidade para confessar as obrigações que lhe devo, pois, com humor genial, e com evidente desejo de me beneficiar, anotava implacavelmente tudo que supunha que eu dissera de modo incorreto. Quanto a algumas dessas correções, ele estava errado, mas na maior parte estava certo, e suas observações me capacitaram a perceber e evitar muitos erros. Eu buscava o seu memorando com muito interesse, e tinha o cuidado de melhorar quanto às observações que vinham. Se eu tivesse repetido uma sentença dita dois ou três domingos antes, ele dizia: “Ver a mesma expressão em tal sermão”, mencionando número e página.

Certa ocasião anotou que eu repetia vezes demais o verso: “Nada trago em minhas mãos”, e, acrescentou, “estamos suficientemente informados da vacuidade das suas mãos.” Exigia-me que mostrasse com que autoridade chamava um homem de “ambicioso” e assim por diante. É possível que alguns jovens ficassem desanimados, senão zangados, com tão severas críticas, mas seriam muito tolos reagindo assim, pois, ofendendo-se com essa correção estariam jogando fora um valioso auxilio ao progresso. Nenhum dinheiro pode comprar um julgamento sincero e franco, e quando o podemos ter por nada, vamos utilizá-lo em sua máxima extensão. O pior é que dos que oferecem os seus julgamentos, poucos estão qualificados para formá-los, e seremos importunados por observações tolas e impertinentes, a menos que lhes voltemos o olho cego e o ouvido surdo.

No caso das informações falsas a seus respeito, na maior parte use o ouvido surdo. Infelizmente os mentirosos ainda não são espécimes extintos, e, como Richard Baxter e John Bunyan, você poderá ser acusado de crimes que a sua alma aborrece. Não vacile por isso, pois essa provação sobreveio aos melhores homens, e mesmo o seu Senhor Não escapou à venenosa língua da falsidade. Em quase todos os casos o caminho mais sábio a seguir é deixar que essas coisas morram de morte natural. Uma grande mentira, se despercebida, é como um grande peixe fora d’água – pula, enterra-se e se esbate, e morre em pouco tempo. Responder-lhe é supri-la do seu próprio elemento e ajudá-la a ter vida mais longa. As falsidades geralmente levam consigo a sua própria refutação e se atormentam a si mesmas até morrer.

Algumas mentiras, em especial, têm um cheiro peculiar, que revela a sua podridão a todo nariz honesto. Se você fica perturbado com elas, o objetivo da sua invenção é parcialmente atendido, mas se você agüentar em silêncio, isto desapontará a malicia e dará a você uma vitória parcial, e Deus, que o tem sob Seus cuidados, a transformará numa libertação completa. Sua vida inculpável será sua melhor defesa, e aqueles que a têm observado não permitirão que você seja condenado tão depressa como os seus caluniadores esperam. Somente se abstenha de disputar as suas lutas pessoais e, em nove de dez casos, os seus acusadores não lucrarão nada com a maledicência deles, a não ser desgosto próprio e desprezo alheio. Processar o caluniador raramente é sábio.

Lembro-me de um amado servo de Cristo que em sua juventude era muito sensível e, sendo acusado falsamente, processou a pessoa. Houve pedido de desculpa em que se retiraram todos os itens da acusação de forma a mais ampla, mas o bom homem insistiu em que a escusa fosse publicada nos jornais, e o resultado o convenceu da sua insensatez. Multidões que de outro modo nunca teriam ficado sabendo da difamação perguntavam de que se tratava e faziam comentários, concluindo em geral com a atilada observação de que ele só tinha que ter feito alguma coisa imprudente para provocar tal acusação. Dizem que lhe ouviram dizer que nunca mais voltaria a recorrer a esse método, pois viu que a escusa pública lhe causou mais mal do que a própria calúnia.

Ocupando como ocupamos uma posição que faz de nós excelentes alvos para o diabo e seus aliados, o melhor curso a seguir é defender a nossa inocência com o nosso silêncio e deixar com Deus a nossa reputação. Todavia, há exceções a esta regra geral. Quando se fazem acusações públicas, definidas e marcantes a um homem, é sua obrigação dar-lhes resposta, e da maneira mais clara e mais franca. Declinar a toda investigação num caso desses é praticamente declarar-se culpado, e seja qual for o modo de colocar a coisa, o grande público normalmente considera uma recusa a responder como prova de culpa. Quando se trata de simples importunação e contrariedade, a melhor coisa é a passividade total, mas quando a questão assume proporções mais serias, e o nosso acusador nos desafia a defender-nos, somos obrigados a enfrentar as suas acusações com honesta exposição dos fatos. Em cada caso deve-se procurar o conselho do Senhor quanto à maneira de lidar com as línguas difamadoras e no desfecho a inocência será vindicada e a falsidade será levada à convicção da sua culpa.

Alguns ministros foram quebrantados em seu espírito, expulsos de sua posição, e até prejudicados em seu caráter por terem dado atenção a algum escândalo provinciano.

Conheço um fino jovem, para quem eu previra uma carreira benéfica, que caiu em grande dificuldade porque ele de início admitiu que era uma dificuldade, e depois teve que dar duro para fazer com que assim fosse. Procurou-me queixando-se de que tinha recebido uma grande ofensa; e era, mas tudo se resumia a algo que meia-dúzia de mulheres diziam do seu comportamento depois da morte da sua esposa, originalmente era uma coisa pequena demais para merecer atenção – uma Sra. Q, tinha dito que não se espantaria se o ministro se casasse com a empregada que morava na casa dele; outra a representou como tendo dito que ele devia desposá-la, e uma terceira, com maliciosa habilidade, encontrou nas palavras um sentido mais profundo, e as elaborou transformando-as numa acusação, o pior de tudo foi que o caro e sensível pregador teve que pôr a boca no mundo e acusar uma ou duas vintenas de pessoas de espalharem calúnias contra ele, chegando a ameaçar algumas delas com demandas judiciais. Se tivesse orado sobre aquilo em secreto, ou se tivesse feito ouvidos moucos, nenhum prejuízo teria resultado daquele palavrório. Mas esse caro irmão não era capaz de tratar uma calúnia com sabedoria, pois não possuía o que com empenho recomendo, isto é, um olho cego e um ouvido surdo.

Ainda, meus irmãos, o olho cego e o ouvido surdo ser-lhes-á útil com relação a outras igrejas e seus pastores. Delicia-me sempre que um pastor queima os dedos ao meter-se nas atividades de outras pessoas. Por que não atende a seus próprios interesses, deixando de bancar bispo na diocese de outro? Muitas vezes membros de outras igrejas me pedem que me intrometa em suas contendas; mas, a menos que me procurem com a devida autorização, nomeando-me oficialmente árbitro, recuso-me. Alexander Cruden deu-se a si próprio o nome de “o Corregedor”, e nunca lhe invejei o título. Uma inspiração peculiar seria necessária para capacitar um homem a resolver todas as controvérsias; contudo os menos qualificados são os mais ávidos para tentar fazê-lo. Na maior parte, a interferência é um fracasso, por mais bem intencionada que seja. As dissensões internas em nossas igrejas são muito semelhantes às brigas de marido e mulher; quando o caso chega a um ponto em que eles têm que ir a vias de fato, quem interferir será vítima da fúria comum dos dois. Ninguém senão o Sr. Ingênuo Verde interferirá numa batalha doméstica, pois é claro que o marido não vai gostar disso, e a mulher, ainda que sofrendo por causa de muitos golpes recebidos, dirá: “Deixe em paz o meu marido; ele tem direito de me bater, se quiser.” Por maior que seja a animosidade dos cônjuges briguentos, parece que fica esquecida no ressentimento contra os intrusos.

Assim, entre os muito independentes membros da denominação batista, a pessoa de fora da igreja que interfira de algum modo, pode estar certa de que receberá o pior. Irmão, não se considere bispo de todas as igrejas da vizinhança, mas contente-se em olhar por Listra, Derbe, Tessalônica, ou qualquer que seja a igreja confiada aos seus cuidados, e deixe Filipos e Éfeso nas mãos do seus próprios pastores. Não anime as pessoas desleais que acham defeitos nos seus pastores, ou que lhe trazem notícias dos males que ocorrem noutras igrejas. Quando se encontrar com colegas de ministério, não se apresse a dar-lhes conselhos. Eles sabem qual é o dever deles tanto como você, e o seu juízo do programa de trabalho deles provavelmente se fundamenta em informação parcial fornecida por fontes maculadas pelo preconceito. Não ofenda o seu próximo com alguma intromissão. Temos bastante que fazer em casa, e é prudente ficar fora de todas as contendas que não nos pertencem.

Um dos provérbios do mundo recomenda-nos que lavemos a nossa roupa suja em casa, e eu lhe acrescentarei uma linha, advertindo a que não chamemos os nossos vizinhos enquanto a roupa deles está ensaboada. Devemos isto aos nossos amigos, e será melhor para promover a paz. “Quem se mete em questão alheia é como aquele que toma pelas orelhas um cão que passa” – está sujeito a ser mordido, e poucos terão pena dele. Bridges sabiamente observa que “o nosso bendito Senhor transmitiu-nos uma lição de piedosa sabedoria. Ele sanava as contendas ocorridas em sua família, mas, quando chamado a interferir numa briga que não Lhe pertencia, respondeu “Quem me fez juiz ou partidor entre vós?” Os juízes que se constituem tais, ganham pouco respeito; se fossem mais aptos para censurar estariam menos inclinados a fazê-lo. Muita diferença insignificante numa igreja tem sido soprada até virar um fogaréu por ministros de fora que não tinham idéia do mal que estavam causando; deram os seus veredictos baseados em declarações ex parte (de um lado), instigando assim adversários que se sentiam seguros quando podiam dizer que os pastores das igrejas próximas concordavam inteiramente com eles.

Meu conselho é que nos juntemos aos “João-Não-Sei-Nada”, e que nunca digamos uma palavra sobre uma questão qualquer enquanto não ouvirmos ambos os lados; e, além disso, que façamos tudo para evitar um lado e outro, se a questão não for da nossa conta.

Não basta isto para explicar a minha declaração de que tenho um olho cego e um ouvido surdo, e de que são eles o melhor olho e o melhor ouvido que tenho?

 

 

Pr.Raul
Pr.Raul

Pastor do Ministério Nascido de Novo e coordenador do Seminário Teológico Nascido de Novo, Youtuber e marido da Irmã Vanessa Ângelo.

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