A ARTE DE ESPIRITUALIZAR – Teologia Pastoral – nascidodenovo.org

A ARTE DE ESPIRITUALIZAR – Teologia Pastoral

A ESCOLHA DO TEXTO – Teologia Pastoral
28/04/2017
A VOZ – Teologia Pastoral
30/04/2017
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A ARTE DE ESPIRITUALIZAR – Teologia Pastoral

Muitos que escrevem sobre homilética condenam em termos sem limites até a ocasional espiritualização de um texto. * “Escolha textos”, dizem eles, “que dêem um sentido claro, literal; jamais viaje além do sentido óbvio da passagem; nunca se permita acomodar ou adaptar; isso é artifício de homens de cultura artificial, um estratagema de charlatães, miserável exibição de mau gosto e de atrevimento.” A quem honra, honra, mas humildemente peço licença para discordar dessa opinião erudita, entendendo que é mais fastidiosa do que correta, mais plausível do que verdadeira. Grandes porções de verdadeiro bem podem ser feitas tomando-se ocasionalmente textos esquecidos, singulares, notáveis, incomuns; e estou persuadido de que, se apelarmos para um júri de pregadores práticos e de sucesso, não teóricos, mas homens da luta, teremos a maioria a nosso favor.

Pode ser que os doutos rabis desta geração sejam demasiado sublimes e celestiais para condescender com homens de baixa condição; mas nós, que não temos cultura de alto nível, ou profundo saber, ou encantadora eloqüência de que nos jactar, julgamos prudente usar o mesmo método que os poderosos proscreveram, pois vemos nele um dos melhores modos de ficar fora da rotina da formalidade insípida, e ele nos fornece uma espécie de sal com que podemos dar sabor a verdades desagradáveis. Muitos grandes conquistadores de almas acharam bom para dar estímulo ao seu ministério, e para prender a atenção dos seus ouvintes, uma vez ou outra irromper por um caminho até então não palmilhado. A experiência não lhes ensinou que laboravam em erro, mas o contrário.

Dentro de certos limites, irmãos, não tenham medo de espiritualizar, ou de tomar textos singulares. Continuem tratando das passagens da Escritura, e não dêem apenas o seu significado manifesto, como estão obrigados a fazer, mas também extraiam delas os sentidos que talvez não estejam na superfície. Aceitem o conselho se tem valor, mas lhes recomendo que mostrem aos seus críticos superfinos que nem todos prestam culto à imagem de ouro erigida por eles. Aconselho-vos a empregarem a espiritualização dentro de certos limites e fronteiras, mas lhes rogo que não se precipitem, sob a capa deste conselho, lançando-se a incessantes e irrefletidas “imaginações”, como George Fox lhes chamaria. Não se afoguem porque foram recomendados a se banharem, nem se enforquem num carvalho porque se diz que o tanino dele extraído é valioso adstringente. Uma coisa permissível levada ao excesso é vício, exatamente como o fogo é bom servo sob a chapa do fogão, porém mau mestre quando furioso numa casa incendiada. O exagero, mesmo numa coisa boa, causa indigestão e desagrado e em nenhum outro caso este fato é mais patente do que neste diante de nós.

A primeira regra a ser observada é esta – não force violentamente um texto com uma espiritualização ilegítima. É pecar contra o bom senso. Quão terrivelmente a Palavra de Deus tem sido malhada e mutilada por certo bando de pregadores que torturam textos, fazendo-os revelar o que doutro modo jamais teriam falado. O Sr. “precipitado”, de que nos fala Rowland Hill em sua obra Village Dialogues (Diálogos de Aldeia), é apenas um caso típico de um cardume numeroso. Aquela sumidade é descrita como desincumbindo-se de um discurso baseado em, “Eis que três cestos brancos estavam sobre a minha cabeça”, do sonho do padeiro de Faraó. Fundado nisso, o “chocho malho triplamente consagrado”, como lhe chamaria um amigo meu, discursou sobre a doutrina da Trindade!

Um estimado ministro de Cristo, venerado e excelente irmão, um dos mais instrutivos ministros no seu condado, contou-me que um dia deu pela ausência de um trabalhador e sua esposa das reuniões da sua igreja. Notou a ausência deles seguidamente, domingo após domingo, e certa segunda-feira, encontrando na rua o homem, disse-lhe: “Ora, João, não o tenho visto ultimamente”. “Pois é”, foi a resposta; “não estávamos tirando proveito do seu ministério como antes”. “Verdade João? Lamento muito ouvir isso.” “Bem, eu e minha mulher gostamos das doutrinas da graça, e daí ultimamente temos ido ouvir o Sr. Bawler.” “Ah! você se refere ao bom homem da High Calvinist Meeting (União Hiper Calvinista)?” “Sim, senhor; e estamos tão contentes! Recebemos muito boi alimento ali, numa medida transbordante. Estávamos quase morrendo de fome sob o seu ministério – mas, sempre o respeitamos como homem, senhor.” “Está bem, meu amigo; naturalmente vocês devem ir aonde possam obter bom proveito para sua alma; só espero que seja bom. Mas, como lhes foi domingo passado?” “Ah! foi um dia extremamente animador para nós, senhor. De manhã tivemos – não me parece bem contar-lhe isto – contudo, tivemos momentos realmente preciosos.”

“Sim, mas, que foi, João?” “Bem, senhor, o Sr. Bawler nos fez penetrar abençoadamente naquela passagem: “Quando te assentares a comer com um governador, … põe uma faca à tua garganta, se és homem glutão”. “Que foi que ele tirou dessa passagem?” “‘Bem, senhor, posso dizer-lhe o que ele tirou dela, mas, primeiro eu gostaria de saber o que o senhor teria dito sobre ela.” “Não sei, João; creio que dificilmente escolheria esse texto, mas se tivesse que falar sobre ele, diria que uma pessoa dada a comidas e bebidas deve ter cuidado com o que vai fazer quando estiver na presença de grandes homens, se não se arruinará. Mesmo nesta vida a glutonaria é danosa.” “Ah!”, disse o homem, “esta é a sua maneira de interpretá-la segundo a letra morta. Como eu disse à minha mulher outro dia, desde que começamos a ouvir o Sr. Bawler, a Bíblia abriu-se para nós, de modo que podemos ver nela muito mais do que víamos.” “Sim, mas, que disse o sr. Bawler sobre aquela passagem?” “Bem, ele disse que o glutão é o recém-convertido que por certo tem tremenda fome de pregação, e sempre está querendo comida, mas nem sempre tem o devido cuidado quanto à qualidade da comida.” “E depois, João?” “Ele disse que se o recém-convertido se sentasse diante de um governador – isto é, de um pregador legalista ou de outro homem de convicção semelhante – seria a pior coisa para ele.” “Mas, e quanto à faca, João?” “Bem, o Sr. Bawler disse que é uma coisa muito perigosa ouvir pregadores legalistas, pois isto certamente ia arruinar a vida do ouvinte, e tanto faz cortar a sua garganta agora como depois!”

O assunto era, suponho, acerca dos efeitos prejudiciais sobre os cristãos novatos que ouvem a outros pregadores, e não os da corrente hipercalvinista. E eis a moral dele deduzida: Seria melhor que o irmão em foco cortasse a garganta do seu ex-pastor do que ir ouvi-lo! Isto sim é notável acomodação do texto.

Ó vós, críticos, entregamos esses cavalos mortos aos vossos dentes brutais! Estraçalhai-os e devorai-os como quiserdes; não vos censuraremos.

Ouvimos falar de outro “ator” que interpretou assim “Provérbios 21.17: “Necessidade padecerá o que ama os prazeres; o que ama o vinho e o azeite nunca enriquecerá”. O livro de Provérbios é um dos campos favoritos dos espiritualizadores, que com os provérbios se divertem. O nosso grande homem utilizou-se do provérbio desta maneira: “O que ama os prazeres”, isto é, o cristão que usufrui os meios da graça, “necessidade padecerá”, quer dizer, será pobre, mas pobre de espírito; “o que ama o vinho e o azeite”, a saber, o que se alegra com as provisões da aliança, e desfruta o óleo e o vinho do evangelho, “nunca enriquecerá”, isto é, não será rico em sua própria opinião”, mostrando a excelência dos pobres de espírito, e como estes, gozarão os prazeres do evangelho – sentimento muito bom, mas os meus olhos carnais não conseguem vê-lo no texto.

Todos vocês já sabem da famosa explicação que William Huntingdon deu de Isaías 11:8: “E brincará a criança de peito sobre a toca do áspide, e o já desmamado meterá a sua mão na cova do basilisco”. “A criança de peito”, isto é, o bebê na graça, “brincará sobre a toca do áspide”, “o áspide” quer dizer o arminiano; “a toca do áspide” quer dizer a boca do arminiano.” Segue-se então uma descrição do esporte em que as mentes simples são mais que um trunfo sobre a sabedoria arminiana. Os elementos que professam a outra escola teológica em geral tiveram o bom senso de não devolver o cumprimento, caso em que os antinomianos ver-se-iam competindo com os basiliscos, e veriam os seus opositores desafiá-los zombeteiramente à boca da cova deles. Tal abuso só serve para prejudicar os que o praticam. Há melhores modos de expor e salientar as diferenças teológicas do que essa palhaçada.

Da estupidez estufada de orgulho surgem resultados ridículos. Talvez baste um exemplo. Um respeitável ministro disse-me outro dia que fazia pouco tempo estivera pregando à sua congregação sobre as “vinte e nove facas” de Esdras. Estou certo de que ele sabia manejar com discrição esses agudos instrumentos, mas não pude abster-me de dizer-lhe que esperava que ele não tivesse imitado o sapiente intérprete que via naquele curioso número de facas uma referência aos “vinte e quatro anciãos” de Apocalipse.

Diz uma passagem de Provérbios: “Por três coisas se alvoroça a terra, e a quarta não a pode suportar: Pelo servo, quando reina; e pelo tolo, quando anda farto de pão; pela mulher aborrecida, quando se casa; e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora”. Um enlevado espiritualizador declara que isso é um lindo quadro descritivo da obra da graça na alma, e mostra o que alvoroça os arminianos, e os põe em pé de guerra. “O servo, quando reina”, isto é, pobres servos como nós, quando feitos reinantes com Cristo; o “tolo, quando está farto de pão”, pobres tolos como nós, quando somos alimentados com o trigo mais excelente da verdade do evangelho; a “mulher aborrecida, quando se casa”, isto é, o pecador, quando se une a Cristo: e a “serva quando fica herdeira da sua senhora”, isto é, quando nós, pobres criadas que estávamos sob a lei, escravas, fomos acolhidas aos privilégios de Sara, e nos tornamos herdeiras da nossa senhora.”

Eis aí alguns espécimes de excentricidades eclesiásticas, as quais são tão numerosas e valiosas como as relíquias que todo dia,se juntam com tanta abundância no campo de batalha de Waterloo, aceitas pelos mais ingênuos como inestimáveis tesouros. Mas já vos enfarei, e não quero desperdiçar mais o nosso tempo. É preciso admoestar-vos a repudiarem todo esse abominável absurdo! Esses devaneios desonram a Bíblia, são um insulto ao bom senso dos ouvintes e um aviltamento deplorável do ministro. Contudo, esta não é a espiritualização que lhes recomendamos, como igualmente o cardo que se ache no Líbano não é o cedro do Líbano. Evitem, irmãos, a infantil perda de tempo e a ultrajante torção de textos que farão de vocês sábios entre tolos, ou tolos entre sábios.

A segunda norma é: nunca espiritualizem assuntos indecorosos. É preciso dizer isto, pois a família “Precipitado” nunca se sente mais em casa do que quando fala de maneira que faz ruborizar a face da modéstia. Os escaravelhos são espécies de besouros que procriam na imundícia, e esse tipo de criatura tem o seu protótipo entre os homens. Não é que me vem à memória neste momento um teólogo cheio de sabor, que se estendeu com maravilhoso gosto e com patética unção a respeito da concubina cortada em dez pedaços? Azedo como é, não poderia tê-lo feito melhor. Que coisas abomináveis têm sido ditas sobre alguns dos mais rudes e horripilantes símiles de Jeremias e Ezequiel! Onde o Espírito Santo é velado e repassado de pudor, estes homens tiram o véu e falam como só as línguas perversas se aventurariam a falar.

Não sou melindroso, longe disso, mas as explicações do novo nascimento com analogias sugeridas por um pré-natal, exposições do rito da circuncisão, e minuciosas descrições da vida conjugal, causam-me indignação e fazem com que me sinta inclinado a ordenar como fez Jeú, que os desavergonhados sejam lançados abaixo desde a sua alta posição infelicitada por seu descarado despundonor. Sei que se diz, “A vergonha domina a quem o mal imagina”, mas assevero que as mentes puras não devem ser expostas sequer ao mais leve sopro de indelicadeza proveniente do púlpito. A mulher de César tem que estar livre de suspeita, e os ministros de Cristo têm que estar sem nódoa em seu viver e sem mácula em seu falar.

Cavalheiros, os beijos e abraços em que alguns pregadores se deleitam são repugnantes. É melhor deixar em paz consigo o livro de Cantares de Salomão, do que arrastá-lo à lama como se faz muitas vezes. Especialmente os jovens devem ser escrupulosa e zelosamente sóbrios e puros em suas palavras. A um idoso se perdoa, não sei bem por que, mas um jovem ficará completamente sem desculpa, se ultrapassar a linha estreita da delicadeza.

Em seguida, em terceiro lugar, nunca espiritualizem uma passagem com o fim de mostrar que são extraordinariamente inteligentes. Tal intenção é iníqua, e o método empregado será uma tolice. Somente um egrégio simplório procurará ser notado fazendo o que nove entre dez poderiam fazer muito bem feito. Certo candidato uma vez pregou um sermão sobre a palavra “mas”, esperando com isso captar a simpatia dos congregados que, pensou ele, seriam arrebatados pelos poderes de um irmão capaz de alargar-se tão maravilhosamente sobre uma simples conjunção. Seu assunto parece ter consistido no fato de que, não importa o que haja de bom no caráter de um homem, ou de admirável em sua posição, o certo é que existe alguma dificuldade, algum sofrimento com relação a todos nós. “Naamã era um grande homem diante do seu senhor, mas – “. Quando o orador desceu do púlpito, os oficiais disseram: “Bem, senhor, seu sermão foi deveras singular, mas – o senhor não é o homem para o lugar; podemos ver isto com clareza”. Ai da inventiva quando é tão comum, e com ela põe uma arma nas mãos do próprio adversário!

Lembre-se de que a espiritualização não é uma esplêndida exibição de talento, mesmo que você tenha competência para fazê-la bem, e de que, sem discrição, é o método que mais se presta para revelar a sua egrégia insensatez.

Cavalheiros, se aspiram a emular Orígenes em suas interpretações extravagantes e ousadas, talvez seria bom ler antes a sua biografia e observar as tolices às quais a sua maravilhosa mente foi arrastada por permitir que uma desenfreada fantasia usurpasse a autoridade absoluta do seu critério de julgamento. E se se meterem a competir com os vulgares declamadores de uma geração passada, deixem-me lembrar-lhes que hoje em dia o gorro e os sinos já não desfrutam o mesmo patrocínio de poucos anos atrás.

Prosseguindo, a quarta advertência é – nunca pervertam a Escritura para dar-lhe um sentido inusitado, pretensamente espiritual, para que não seja achado culpado face àquela solene maldição que resguarda e fecha o rol dos livros divinamente inspirados. O Sr. Cook, de Maidenhead, sentiu-se obrigado a separar-se de William Huntingdon porque este interpretou o sétimo mandamento como palavras ditas pelo Senhor ao Seu Filho dizendo: “Não cobiçarás a mulher do diabo, isto é, do não eleito”. Só se pode dizer – horrível! Talvez fosse um insulto à sua razão e à sua religião dizer, detestem pensar em tal profanação. Instintivamente vocês o evitam.

Outra coisa mais – em nenhum caso permitam que os seus ouvintes esqueçam que as narrativas que vocês espiritualizam são fatos, e não apenas mitos ou parábolas. O sentido primário da passagem não deve afogar-se na torrente da sua imaginação; deve ser declarado definidamente e ter preeminência. A acomodação que fizer do texto nunca deverá eliminar o sentido original e próprio, nem mesmo empurrá-lo para um plano secundário. A Bíblia não é uma compilação de hábeis alegorias ou de instrutivas tradições poéticas; ensina fatos concretos e revela tremendas realidades. Faça com que a sua plena convicção desta verdade se manifeste a todos quantos acompanham o seu ministério. Serão péssimos dias para a igreja, se o púlpito vier a endossar a cética hipótese de que a Escritura Sagrada é apenas o registro de refinada mitologia, em que glóbulos da verdade se dissolvem em oceanos de pormenores poéticos e imaginários.

Contudo, há um terreno legítimo para a espiritualização, ou seja, para o dom particular que leva os homens a espiritualizarem fatos. Por exemplo, muitas vezes tem sido demonstrado a vocês, irmãos, que os tipos oferecem amplo escopo ao exercício do talento santificado. Por que precisam andar por aí para encontrar “mulheres aborrecidas” sobre quem pregar, quando têm diante de si o tabernáculo no deserto, com todo o seu aparelhamento sagrado, as ofertas queimadas, as ofertas pacificas, e todos os diferentes sacrifícios que eram oferecidos perante o Senhor? Por que lutar por novidades. quando o templo e todas as suas glórias estão diante de vocês? A maior capacidade para a interpretação tipológica achará abundante emprego nos indubitáveis símbolos da Palavra de Deus, e será seguro praticar esse exercício, porque os símbolos foram ordenados por Deus.

Quando tiverem exaurido todos os tipos do Velho Testamento, terão deixado ainda à sua disposição uma herança de mil metáforas. Benjamim Keach, em seu laborioso tratado, prova de maneira sumamente prática, que minas de verdades se ocultam nas metáforas da Escritura! A propósito, sua obra abre os flancos a muita crítica por fazer as metáforas, não só correrem com quatro, mas com muitas pernas, como um centípede; mas não merece a condenação que lhe imputa o Dr. Adam Clarke, quando diz que o livro de Keach fez mais que qualquer obra dessa natureza para rebaixar o gosto dos pregadores e do povo. Uma discreta explanação das alusões poéticas da Escritura Sagrada será muito aceitável aos seus ouvintes, e, com a bênção de Deus, não pouco proveitosa.

Mas, supondo que tenham exposto todos os tipos geralmente aceitos, e que tenham esclarecido os emblemas e as expressões figuradas, o seu gosto por símiles e o seu prazer neles terão que ir dormir? De modo nenhum. Quando o autor sagrado vê mistério em Melquisedeque, e Paulo fala de Hagar e Sara desta forma: “O que se entende por alegoria”, dão-nos precedente para a descoberta de alegorias bíblicas noutros lugares além dos dois mencionados. Na verdade, os livros históricos não somente nos dão aqui e ali uma alegoria, mas parecem em seu conjunto global arranjados com vistas ao ensino simbólico.

O Sr. Andrew Juke, no prefácio da sua obra sobre os tipos em Gênesis, mostra como, sem violência, uma pessoa devota pode construir uma teoria extremamente elaborada:

“Como base ou fundamento do que vem a seguir, primeiro se nos mostra o que provém do homem, e todas as formas de vida que, pela natureza ou pela graça, podem desenvolver-se da raiz do velho Adão. Este é o livro de Gênesis. Então vemos que, seja bom ou mau que veio de Adão, tem que haver redenção; assim um povo eleito pelo sangue do Cordeiro é salvo do Egito. Disso trata Êxodo. Conhecida a redenção, chegamos à experiência dos eleitos como tendo necessidade de acesso a Deus o Redentor no santuário, e o aprendizado do caminho para ele. Obtemos isto em Levítico. Depois, no deserto deste mundo, como peregrinos egressos do Egito, da casa da servidão, rumo à terra prometida além do Jordão, ficamos sabendo das provações da viagem, desde aquela terra de maravilhas e do saber humano até à terra que mana leite e mel. Este é o livro de Números. Em seguida vem o desejo de trocar o deserto pela terra melhor; a entrada na qual se sabe que, por algum tempo depois da redenção, os eleitos ainda evitam; respondendo ao desejo dos eleitos, em certo estágio, de conhecer o poder da ressurreição, para viverem, mesmo no presente, como nos lugares celestiais. Seguem-se as regras e os preceitos que devem ser obedecidos, se isso há de se fazer. Deuteronômio, reiteração da lei, segunda purificação, fala do modo de progredir.

“Depois disso chega-se de fato a Canaã. Atravessamos o Jordão; experimentamos na prática a morte da carne, e o que significa sermos circuncidados, e desfazer-nos do opróbrio do Egito. Sabemos agora o que é ressuscitar com Cristo e lutar, não contra carne e sangue, mas contra os principados e as potestades nos lugares celestiais. Este é o livro de Josué. Então vem o fracasso dos eleitos nos lugares celestiais, fracasso resultante das alianças feitas com os cananeus, em vez de se sobreporem a eles. Juízes no-lo mostra. Depois, as diferentes formas de governo, que a igreja pode conhecer, passam em revista nos livros de Reis, desde o primeiro estabelecimento de governo em Israel até a sua extinção, quando, devido seu pecado, o governo da Babilônia sobrepuja o dos eleitos.

“Conhecido isto, com toda a sua vergonha, vemos os remanescentes dos eleitos, cada qual de acordo com a sua capacidade, fazendo o que está a seu alcance para, se possível, restaurar Israel: uns, como Esdras, voltando para construir o templo, isto é, para restaurar as formas do culto verdadeiro; alguns vindo, como Neemias, para construir os muros, isto é, para restabelecer, com a permissão dos gentios, uma débil imitação da antiga comunidade política; enquanto em Ester um terceiro remanescente se vê cativo, mas fiel, salvo providencialmente, embora o nome de Deus (e isto é uma característica da sua condição) nunca apareça em parte alguma do registro todo”.

Longe de mim recomendar-lhes que sejam fantasiosos como às vezes é, o engenhoso autor que acabo de citar, mercê da sua tendência para o misticismo, todavia, lerão a Palavra com interesse cada vez maior se forem leitores bastante atentos para notar o curso geral dos livros da Bíblia, e a sua subseqüência como sistema de tipos.

Outrossim, a faculdade que possibilita o bom emprego da espiritualização consiste em generalizar os grandes princípios universais desdobrados em fatos diminutos e isolados. Esta é uma busca engenhosa, instrutiva e legítima. Talvez vocês não se decidissem a pregar sobre “pega-lhe pela cauda”, mas a observação que disso nos vem é muito natural: “há um jeito certo de pegar cada coisa”. Moisés pegou a serpente pela cauda, e assim há um modo de agarrar as nossas aflições e vê-las enrijecer-se em nossas mãos, transformando-se numa vara prodigiosa; há um modo de sustentar as doutrinas da graça, um modo de confrontar-nos com os ímpios, e assim por diante. Em centenas de incidentes escriturísticos podemos achar grandes princípios gerais que talvez em nenhum lugar estejam expressos com tantas palavras.

Tomem os seguintes exemplos, fornecidos pelo Sr. Jay. Do Salmo 74:14, “Fizeste em pedaços as cabeças do leviatã, e o deste por mantimento aos habitantes do deserto”, ele ensina que os maiores inimigos do povo de Deus, povo peregrino, serão mortos, e de que a lembrança da misericórdia revigorará os santos. De Gênesis 35:8, “E morreu Débora, a ama de Rebeca, e foi sepultada ao pé de Betel, debaixo do carvalho cujo nome chamou “Alom-Bacute”, ele discursa sobre bons servidores e sobre a certeza da morte. Com base em 2 Samuel 15:15, “Então os servos do rei disseram ao rei: Eis aqui os teus servos, para tudo quanto determinar o rei, nosso senhor”, mostra ele que essa linguagem pode com propriedade ser adotada pelos cristãos, e dirigida a Cristo. Se alguém fizer objeção à forma de espiritualização que o Sr. Jay tão eficiente e judiciosamente se permitiu fazer, só pode ser uma pessoa cuja opinião não tem por que influir em vocês nem um pouco. Dentro da minha capacidade pessoal, tenho tomado a liberdade de fazer a mesma coisa, e os esboços dos meus sermões desse tipo podem ser encontrados em meu opúsculo Evening by Evening (Noite a Noite), e uma irrigação menos liberal em seu companheiro, Morning by Morning (Manhã a Manhã).

Um notável exemplo de um bom sermão firmado numa base forçada e injustificável, é o de Everard, em seu Gospel Treasury (Tesouro do Evangelho). No discurso sobre Josué 15:16-17, onde as palavras são estas: “E disse Calebe: Quem ferir a Quiriate-Séfer, e a tomar, lhe darei a minha filha Acsa por mulher. Tomou-a pois Otniel, filho de Quenaz, irmão de Calebe; e deu-lhe a sua filha por mulher”; aqui o curso da elocução do pregador se baseia na tradução dos nomes próprios hebraicos, de maneira que ele propicia esta leitura: “Um bom coração disse: Quem ferir a cidade das letras, e a tomar, lhe darei a ruptura do véu. E Otniel viu nisso o tempo próprio ou a oportunidade de Deus, e se casou com Acsa, isto é, desfrutou a ruptura do véu, pelo que teve a bênção das fontes superiores e das fontes inferiores”. Não haveria outro método para mostrar que devemos procurar o sentido interno da Escritura, e não ficar nas meras palavras, ou na letra do Livro?

As parábolas do nosso Senhor, em sua apresentação e em seu vigor, fornecem o mais amplo escopo para a imaginação amadurecida e disciplinada, e se todas elas já passaram por vocês, ficam ainda os milagres, ricos de ensinos simbólicos. Não pode haver dúvida de que os milagres são sermões por meio de ações de nosso Senhor Jesus Cristo. Vocês têm Seus “sermões em palavras” em Seu ensino incomparável, e os Seus “sermões em atos” em Seus feitos sem par. Apesar de defeitos doutrinários, verão que Trench, sobre os milagres, é extremamente útil nesta direção. Todas as poderosas obras de nosso Senhor estão repletas de ensinamentos.

Tomem a história da cura do surdo-mudo. Os males que a pobre criatura padecia são eminentemente sugestivos quanto ao estado de perdigão do homem, e o modo de agir de nosso Senhor ilustra muito instrutivamente o plano da salvação. “Tirando-o à parte de entre a multidão” – é preciso fazer a alma dar-se conta da sua personalidade e individualidade, e deve ser levada a estar a sós. “Meteu-lhe os dedos nos ouvidos”, indicando assim a fonte do defeito; os pecadores são convencidos do seu estado. “E, cuspindo” – o evangelho é um meio simples e desprezado, e o pecador, quanto à salvação, tem que se humilhar para recebê-la. “Tocou-lhe na língua”, indicando também onde reside o defeito – o nosso senso de necessidade cresce em nós. “E, levantando os olhos ao céu” – Jesus lembrou a Seu paciente que todo o poder vem de cima – lição que todo suplicante deve aprender. “Suspirou”, mostrando que as tristezas do Médico são os meios da nossa cura. Depois disse, “Efatá; isto é, abre-te” – eis aí a palavra eficaz da graça, que produz uma cura imediata, perfeita e duradoura. Tratem de aprender todas as lições desta única exposição, e sempre acreditem que os milagres de Cristo são uma grande galeria de quadros que ilustram a Sua obra entre os filhos dos homens.

No entanto, seja isto uma instrução a todos quantos manuseiam parábolas ou metáforas, para que sejam discretos. O Dr. Gill é um personagem cujo nome deve ser sempre mencionado com honra e respeito nesta casa, em que seu púlpito ainda permanece, mas a sua exposição da parábola do filho pródigo parece-me ser absurda em alguns pontos. O douto comentador diz-nos que “o bezerro cevado” é o Senhor Jesus Cristo! A gente estremece ao ver a espiritualização chegar a isto. Depois há também a sua exposição da parábola do bom samaritano. O animal sobre o qual foi colocado o homem ferido é de novo o nosso Senhor, e os “dois dinheiros” que o bom samaritano deu ao hospedeiro são o Velho e o Novo Testamentos, ou as ordenanças do batismo e da ceia do Senhor.

A despeito desta precaução, vocês podem permitir grande amplitude na espiritualização a homens de raro temperamento poético, entre os quais João Bunyan. Cavalheiros, já leram alguma vez a espiritualização que João Bunyan fez do templo de Salomão? É uma realização sumamente notável, e mesmo sendo um pouco forçada, é repassada de santíssima ingenuidade. Tomem, como um espécime em particular, uma das suas mais rebuscadas explanações, e vejam se pode ser melhorada. É sobre “as folhas da porta do templo”.

“As folhas desta porta ou portal eram dobradiças, como já lhes disse, e assim, como foi sugerido, trazem consigo alguma significação. Por causa disto a pessoa, principalmente um novo discípulo, pode equivocar-se facilmente, pensando estar aberta toda a passagem, quando apenas uma parte o está, permanecendo três partes dela ainda sem se lhe revelar. Pois essas portas, como já disse, nunca antes foram abertas completamente, quero dizer, no antítipo; nunca o homem tinha visto todas as riquezas e a plenitude que há em Cristo. Assim digo que o recém-vindo, caso julgasse pela visão presente, especialmente se tivesse pequena capacidade de ver, poderia enganar-se facilmente; por conseguinte os novos discípulos ficam, na maioria, com um medo terrível de que nunca entrarão lá.

“Que dizes, recém-vindo? Não é este o caso que se dá com a tua alma? Pois te parece que és muito grande, sendo na verdade tão grande, exageradamente inchado pecador! Mas, ó tu, pecador, não temas; as portas são dobradiças, e podem abrir-se mais, e depois abrir-se mais ainda. Portanto, ao chegares a esse portal, e imaginares que não há espaço suficiente para que entres, bate, e ela se te abrirá mais amplamente, e serás recebido (Lucas 11:9; João 6:37). Assim, pois, sejas quem fores, chegado à porta da qual o templo era um tipo, não te fies em tuas primeiras concepções das coisas, mas crê que há graça abundante. Ainda não sabes o que Cristo pode fazer; as portas são dobradiças. “Ele é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos” (Efésios 3:20). Os gonzos sobre os quais essas portas giram, eram, como lhes falei, de ouro; quer dizer que ambas giravam sobre motivos e impulsos de amor, e também suas aberturas eram ricas. Gonzos de ouro na porta, para Deus girar em torno deles. As ombreiras em que essas portas se fixavam eram de oliveira, dessa árvore gorda e oleosa, para mostrar que nunca se abrem com relutância ou com lentidão, como portas a cujos gonzos falta óleo. Elas estão sempre oleosas, e assim se abrem com facilidade e rapidez aos que batem. Daí se lê que Aquele que habita nessa casa faz dádivas e ama por Sua livre graça, e nos faz o bem de todo o coração. Sim, diz Ele, “alegrar-me-ei por causa deles, fazendo-lhes bem; e os plantarei nesta terra certamente, com todo o meu coração e com toda a minha alma” (Jer. 3:12,14,22; 32:41; Apoc. 21:6; 22:17). Portanto, o óleo da graça, simbolizada por esta oliveira, ou essas ombreiras de oliveira, em que estão fixas estas portas, fazem que elas se abram soltas ou francas para a alma.”

Quando Bunyan revela o significado de serem as portas de faia, quem senão ele diria: “A faia é também a casa da cegonha, ave imunda, como Cristo é abrigo e amparo dos pecadores”? “Pois quanto à cegonha, diz o texto, a faia é sua casa; e Cristo diz aos pecadores que percebem sua necessidade de amparo: “Vinde a mim, e encontrareis descanso”. Ele é um refúgio para os oprimidos, refúgio em tempo de aflição (Deut. 14:18; Lev. 11:19; Sal. 104:17 e 74:2-3; Mat. 11:27-28; Heb. 6:17-20)”.

Em sua “Casa da Floresta do Líbano” Bunyan é ainda mais enigmático, mas leva adiante a sua empreitada como nenhum outro homem poderia tê-lo feito. Ele acha que as três filas de colunas, de quinze colunas cada uma, são um enigma demasiado difícil para ele, e desiste, não porém antes de fazer algumas bravias tentativas sobre isso. O Sr. Bunyan é o principal, o maior, o chefe de todos os alegoristas, e não deve ser seguido por nós às profundezas da comunicação típica e simbólica. Ele era um mergulhador, nós não passamos de vadeadores; não devemos ir além dos nossos níveis de profundidade.

Sinto-me tentado, antes de encerrar esta palestra, a dar um ou dois esboços de espiritualizações que conheci nos meus primeiros tempos. Nunca esquecerei um sermão pregado por um homem sem instrução, mas notável, que foi meu vizinho próximo no campo. Obtive dos seus próprios lábios as anotações do discurso, e eu esperava que permanecessem como puras notas, e nunca mais fossem usadas para pregação neste mundo. O texto era: “O avestruz, o mocho e o cuco”. Talvez o texto não lhes dê a impressão de ter conteúdo muito rico; foi a impressão que me deu, e, portanto, perguntei inocentemente: “E as cabeças (i. é, divisões do sermão) como eram?” Ele respondeu astutamente: “Cabeças? Ora, torça os pescoços das aves, e terá três pura e simplesmente: o avestruz, o mocho e o cuco”. Mostrou que essas aves eram imundas sob a lei, e claros tipos dos pecadores impuros. Os avestruzes são pessoas que roubam sorrateiramente, e também pessoas que adulteram as suas mercadorias e trapaceiam, enganando o próximo às escondidas, sem que este suspeite que elas são uns patifes. Quanto aos mochos, tipificam os ébrios, ativos de noite, mas de dia quase dão com a cabeça num poste, de tão sonolentos. Há mochos entre os cristãos professos também. O mocho depenado é uma ave muito pequena. Só parece grande porque tem muitas penas. Assim, muitos crentes professos são só penas, e se você pudesse arrancar as suas jactanciosas profissões de fé, bem pouca coisa sobraria deles. A seguir, os cucos são os membros do clero da igreja, que dão sempre a mesma nota, toda vez que abrem a boca na igreja, e vivem à custa dos ovos de outros pássaros, com as suas taxas eclesiásticas e com os dízimo. Os cucos são também, penso eu, os crentes no livre arbítrio, no poder da vontade, que estão sempre dizendo: “cum-pra-tu-do-tu-do”.

Não é isso na verdade uma coisa muito boa? Contudo, vindo do homem que pregou o sermão, não pareceu nem notável nem extraordinário. O mesmo venerável irmão pregou um sermão igualmente singular, mas muito mais original e útil. Os que o ouviram lembrá-lo-ão até o dia da sua morte. Baseou-se no texto: “O preguiçoso não assará a sua caça”. O bom ancião inclinou-se no alto do púlpito, e disse: “Então, meus irmãos, ele era mesmo um mandrião!” Esse foi o exórdio. Depois prosseguiu dizendo: “Ele foi a uma caçada e, depois de muita dificuldade, pegou uma lebre, e foi preguiçoso demais para assá-la. Era um sujeito preguiçoso mesmo!”

O homem nos fez sentir quão ridícula é uma preguiça assim, e depois disse: “Mas vocês não têm autoridade para acusar esse homem, pois fazem justamente a mesma coisa. Ouvem falar da vinda de um pregador popular de Londres, atrelam o cavalo à carroça, viajam vinte ou trinta quilômetros para ouvi-lo e, depois de terem ouvido o sermão, esquecem-se de tirar proveito dele. Cagam a lebre e não a assam; vão cagar a verdade e depois não a recebem”.

Daí continuou, para mostrar que, assim como a carne precisa de cozimento para ficar boa para ser assimilada pelo organismo – não creio que fosse esta a sua terminologia – assim a verdade precisa passar por certo processo antes de poder ser recebida pela mente, a fim de que sejamos alimentados com ela e cresçamos. Disse que ia mostrar como se cozinha um sermão, e o fez da maneira mais instrutiva. Começou como começam as receitas dos livros de culinária – “Primeiro pegue a lebre.” “Assim”, disse ele, “primeiro pegue um sermão baseado no evangelho.” Aí declarou que havia muitos sermões que não valia a pena caçar, e que, lamentavelmente, eram muito raros os bons sermões, e valia a pena vencer qualquer distância para ouvir um discurso calvinista, sólido e no velho estilo. Portanto, depois de pego o sermão, poderia ser necessário fazer muita coisa acerca dele, pois, dada a deficiência do pregador, poderia haver boa parte não aproveitável, que teria que ser lançada fora.

Aqui se alongou sobre discernir e julgar o que ouvimos, e sobre não acreditar em todas as palavras de qualquer pregador. Seguiram-se depois instruções sobre como assar um sermão: atravessem-no de ponta a ponta com o espeto da memória, girem-no no cavalete da meditação, ao fogo do coração realmente cálido e fervoroso, e deste modo o sermão ficará bem assado e pronto para dar verdadeira nutrição espiritual.

Dou-lhes apenas o esboço, e embora possa parecer-lhes algo risível, não foi considerado assim pelos ouvintes. Estava repleto de alegorias, e prendeu a atenção do auditório do começo ao fim.

“Olá, caro senhor, como vai?”, foi como o saudei certa manhã. “Alegra-me vê-lo tão bem em sua idade.” “Sim”, disse ele, “estou em boa forma para um velho, e praticamente não sinto fraqueza nenhuma.” “Espero que o seu bom estado de saúde continue durante anos ainda, e que, como Moisés, desça ao túmulo sem se escurecerem os seus olhos e sem perder o seu vigor.” “Ótimo tudo isso!”, disse o velho cavalheiro, “mas, em primeiro lugar, Moisés nunca desceu ao túmulo, mas subiu a ele; e, em segundo lugar, qual é o significado de tudo isso que está falando? Por que os olhos de Moisés não se escureceram?” “Suponho, senhor”, disse eu com muita brandura, “que o seu modo natural de viver e o espírito tranqüilo o ajudaram a conservar as suas faculdades e a fazer dele um vigoroso ancião.” “Muito provável”, disse ele, “mas não era nisso que eu estava pensando; qual o sentido, o ensinamento espiritual da coisa toda? Não será este? – Moisés é a lei, e que glorioso fim o Senhor deu à lei no monte em que consumou a Sua obra!Com que dulçor os Seus terrores foram postos a dormir com um beijo da boca de Deus! E, note bem, a razão pela qual a lei não nos condena mais, não é que os seus olhos se escureceram, como se ela não pudesse ver o nosso pecado, ou porque perdeu o seu vigor com o qual pudesse amaldiçoar e punir; mas Cristo a levou ao alto do monte, e gloriosamente lhe deu fim.”

Era essa a sua maneira comum de falar, e assim era o seu ministério. Paz para as suas cinzas! Apascentou ovelhas nos primeiros anos da sua vida, e foi pastor de homens depois disso, e, como costumava dizer-me, “achava os homens muito mais dóceis do que aqueles tímidos animais”. Os conversos que acharam o caminho do  céu sob o seu trabalho foram tantos que, quando os lembramos, ficamos como aqueles que viram o coxo saltando pela palavra de Pedro e João; estavam dispostos a criticar, mas, vendo o homem que fora curado, de pé junto de Pedro e João, nada puderam dizer contra.

Com isto encerro, reafirmando a opinião de que, guiados pela discrição e pelo bom siso, podemos empregar ocasionalmente a espiritualização com bom efeito para os nossos ouvintes; certamente os interessaremos e os manteremos despertos.

 

* “A pregação alegórica avilta o gosto e agrilhoa o entendimento, tanto do pregador como dos ouvintes.” – Adam Clarke.

A regra de Wesley é melhor: “Seja parcimonioso nas alegorizações ou espiritualizações”.